Marina Narrando
Eu estava tão distraída com a alegria de ver meu pai, e a preocupação com a partida de amanhã que meu sorriso congelou no rosto. Luan e eu tínhamos acabado de entrar, e ele segurava a Serena, quando senti a mudança na atmosfera.
Olhei para trás, seguindo o olhar de Justin, e lá estava ela. Melanie.
Ela parecia pequena na porta do elevador, mais magra do que eu me lembrava, com uma expressão de culpa e hesitação. A roupa simples e a ausência do brilho habitual da riqueza só destacavam a derrota dela.
Por um segundo, nos encaramos. A raiva que sentia dela borbulhou. Não havia espaço para compaixão.
- Feliz Ano Novo, Marina. -Melanie murmurou, a voz baixa.
Meu sorriso desapareceu por completo.
- Não posso dizer o mesmo pra você. -respondi, o tom gelado e direto, sem me importar com quem estava ouvindo.
Meu pai sentiu o clima pesado. Ele se colocou rapidamente entre nós, tentando desesperadamente impor a paz de Ano Novo.
- Melanie! Que bom que você veio! -ele tentou soar alegre, pegando a mão de Melanie, que estava parada como uma estátua.- Marina, Luan, é Ano Novo! Vamos ser civilizados. Sua irmã veio aqui para... para recomeçar.
Eu não o deixei terminar. Olhei para o meu pai com uma intensidade que ele raramente via.
- Recomeçar não apaga o que ela fez, pai. Não apaga a Chloe, não apaga o medo que sentimos pela Serena, pela nossa Chloe e pelo Jack.
Luan, com Serena no colo, endureceu. Ele me encarou, e eu sabia que ele estava se segurando para não mandar minha irmã para fora do apartamento à força.
- Marina, por favor. -meu pai insistiu, a voz cheia de súplica.- É a sua irmã. Ela está pagando pelo que fez, você sabe. Eu a castiguei, ela perdeu as regalias, perdeu o Luke, perdeu tudo. Tá tendo que pagar a faculdade com o próprio suor, você sabe que a Columbia não é barato. Não a faça ser uma pária na nossa casa.
Eu soltei o ar lentamente. Justin e Bruna observavam de perto, prontos para intervir. Justin pegou a mão de Bruna, me dando apoio silencioso.
Meu pai estava certo. A punição de Melanie já estava em andamento, e a minha prioridade era a paz e a segurança da minha família.
- Certo, pai. -eu cedi, friamente.- Você está certo. É Ano Novo. Mas ela vai se comportar. Ela não vai dirigir uma palavra a mim, ao Luan ou à minha filha. E se ela fizer qualquer coisa que cause desconforto, eu vou embora sem olhar para trás.
Meu pai engoliu em seco.
- Ela não vai. -ele prometeu, olhando para Melanie.- Não é, Melanie?
Melanie apenas assentiu, os olhos fixos no chão, aceitando a sentença.
Ashley apareceu vindo da cozinha, e sorriu amigavelmente.
- Marina, Luan, Melanie, que bom que chegaram! O almoço já está pronto.
O anúncio foi um alívio. Qualquer coisa para quebrar o impasse gélido na sala. Sentamo-nos à mesa, e o silêncio era uma terceira pessoa desagradável entre nós. Ninguém ousava encarar Melanie, que estava sentada na ponta, parecendo pálida e tensa. Eu estava ao lado de Luan, que mantinha a Serena distraída com um pedaço de pão, enquanto Justin e Bruna pareciam fazer um esforço hercúleo para falar sobre o tempo com Ashley.
Eu estava prestes a iniciar uma conversa sobre o filme, quando meu pai, tentou cortar o silêncio.
- Bom, já que estamos todos aqui, eu tenho uma novidade!
Todos olhamos para ele, aliviados com a distração.
- Eu vou fazer vasectomia nos próximos dias. -ele anunciou, pegando o copo d'água.
A notícia pegou a todos de surpresa. Ashley sorriu, parecendo cúmplice e aliviada.
Melanie foi a primeira a falar, e é claro, ela não perdeu a oportunidade de ser inconveniente.
- Finalmente, não é? -ela disse, tentando forçar uma risada estridente.- Depois de quatro filhos, pai! Você podia ter pensado nisso antes.
Ela tentou ser engraçada, mas o som da risada dela morreu no ar. Ninguém riu.
Olhei para meu pai. Ele apenas sorriu forçadamente, bebendo a água, claramente constrangido pelo comentário dela.
- Pai, isso é ótimo. -eu disse rapidamente, tentando desviar o foco e confortá-lo, pegando a mão dele por cima da mesa.- É uma decisão responsável, fico feliz por você e pela Ashley.
Luan e Justin concordaram imediatamente, e a conversa seguiu rapidamente para os detalhes médicos da cirurgia. Melanie recuou, percebendo o erro, e ficou em silêncio pelo resto da refeição.
O almoço havia terminado e nos reunimos na sala. O clima parecia mais leve, com a conversa se concentrando nas crianças. Serena, Jack e Chloe estavam no chão, brincando com o pequeno Jordan, que ria de tudo.
Eu estava conversando com Bruna sobre o quanto seria difícil a despedida de amanhã, quando meus olhos vagaram pela sala. Vi Melanie sentada sozinha no sofá, fingindo olhar para o celular.
De repente, ela olhou para Serena. Disfarçadamente, com um sorriso forçado, ela fez um gesto com a mão, chamando minha filha para perto dela.
Aparentemente, a promessa de silêncio feita ao meu pai não incluía ignorar o meu bebê.
Meu corpo reagiu antes que eu pudesse pensar. Corri em direção à minha filha.
- Serena, vem com a mamãe! -chamei, pegando-a no colo antes que ela pudesse dar um passo em direção a Melanie.
Melanie ergueu os olhos e me encarou.
- Qual é seu problema, Marina? Eu só ia dar um abraço na minha sobrinha, já que vai levá-la embora.
Eu a encarei, a raiva fervendo, não mais disposta a ser educada na frente do meu pai.
- O meu problema é que você é uma traidora, Melanie! Você usou seus irmãos, seus cunhados e seus sobrinhos para tentar se dar bem.
- Isso é ridículo! Já passou! O papai disse que era um recomeço!
- E eu te disse que você não falaria comigo nem com a minha filha! -minha voz subiu.- Você não vai tocar na Serena. Você não é a tia dela. Você perdeu esse direito quando escolheu a traição e o dinheiro de estranhos.
Meu pai levantou-se imediatamente do sofá, desesperado.
- Marina, por favor!
- Não, pai! -eu o interrompi.- Eu sou a mãe da Serena e ela não vai se aproximar de alguém que tentou destruir a vida da mãe dela!
Luan veio rapidamente para o meu lado, pegando Serena do meu colo e a afastando, nos dando espaço. Justin e Bruna estavam em pé, nos observando.
Melanie se levantou, os olhos marejados de raiva e humilhação.
- Você é uma egoísta! Você sempre acha que é a vítima!
- Eu sou a vítima da sua inveja, Melanie! -respondi, respirando fundo.- E agora, eu sou a mãe que está te impedindo de chegar perto da minha filha. Aceita a sua sentença e me deixa em paz.
A sala estava em silêncio absoluto. Melanie não aguentou. Ela pegou a bolsa e correu para o elevador, sem se despedir de ninguém.
Meu pai me olhou, profundamente decepcionado.
- Você não precisava fazer isso, Marina.
- Eu precisava garantir a segurança da minha filha, pai. É o meu último dia aqui. Não vou deixar pontas soltas.
Eu fui até Luan, peguei Serena, e olhei para Bruna e Justin.
- Vamos embora. Já tivemos emoções demais para um dia.
Eu estava com a respiração ofegante, mas a raiva de Melanie havia me dado a força necessária para encerrar aquela reunião familiar insuportável. Justin e Bruna nos encaravam, sabendo que eu estava certa.
Peguei Serena de volta dos braços de Luan. Minha filha era o meu tesouro, e a razão de toda a minha ferocidade.
Fiz uma rápida ronda de despedida. Beijei a bochecha do pequeno Jordan, meu irmãozinho mais novo. Iria sentir falta da pureza dele, alheio a todo o drama da família. Abracei Ashley, agradecendo-a pela comida e pela paciência.
Chegou a vez do meu pai, William. Ele estava visivelmente abalado pela cena com Melanie, mas ao me abraçar, toda a decepção se desfez. Ele me deu um longo abraço apertado, o tipo de abraço que diz mais do que mil palavras.
Ele sussurrou no meu ouvido, baixinho, só para eu escutar:
- Eu vou sentir tanto a sua falta, Marina. Eu sinto orgulho da pessoa que você é. Eu te amo muito. E quando vier, não se esqueça de mim.
A emoção me atingiu. Meu pai, apesar de todos os erros de julgamento e da teimosia, me amava profundamente.
- Eu jamais esquecerei de você, pai. -respondi, com a garganta apertada.- É para você ligar quando sentir saudades de mim ou da Serena. Eu também te amo muito.
O adeus tinha que ser rápido. O alívio de sair daquela casa era maior do que a necessidade de prolongar a dor.
Meu pai pegou Serena do meu colo para se despedir dela, aproveitei e fui até Justin e Bruna, dando-lhes um abraço rápido.
- Até amanhã. -disse a eles.- Não se atrasem.
Luan e eu pegamos a Serena e saímos da cobertura, descendo no elevador, deixando a tensão para trás.
Assim que entramos no carro, senti a tensão que eu havia reprimido explodir. Meu corpo inteiro tremia, e a raiva pela intromissão de Melanie e a dor da despedida com meu pai estavam me esmagando.
Luan dirigia. Ele lançou um olhar rápido para mim, percebendo meu estado. Serena, exausta, dormia tranquilamente na cadeirinha atrás de nós.
- Ei. -Luan estendeu a mão e pegou a minha, apertando-a firme.- Você foi incrível lá dentro. Você a colocou no lugar dela e protegeu a Serena. Não se sinta mal pelo seu pai; ele vai entender.
Eu respirei fundo, sentindo as lágrimas nos meus olhos.
- Eu não consigo... Eu não consigo evitar, Luan. Ela está me fazendo sentir culpada por querer proteger minha filha dela! E a forma como meu pai me olhou...
- Ele te disse que tinha orgulho de você. -Luan me lembrou, a voz dele uma âncora na minha tempestade.- Presta atenção nisso. Você fez a coisa certa, Marina. A Melanie não é mais família, não para a Serena. Acabou.
Ele beijou minha mão e a manteve segura na dele.
- O Victor está fora do jogo. A Melanie está fora do jogo. É 1º de Janeiro. Amanhã, a gente pega o avião, e todas essas pessoas ficam para trás. Nós vamos para São Paulo, e vamos criar a nossa bolha de segurança. Respira. Está tudo sob controle.
As palavras dele eram um bálsamo. O aperto na minha mão era real. Olhei para a paisagem de Nova York passando pela janela, sentindo o corpo relaxar lentamente. Ele estava certo. A luta tinha acabado.
- Eu te amo. -sussurrei, sentindo-me aliviada.
- Eu te amo. -ele respondeu.- Agora, pensa no Brasil. Pensa no sol. Pensa na sua mãe ligando para reclamar do fuso horário.
O riso veio, fraco, mas real. Eu podia sentir a partida se aproximando.
Chegamos ao nosso apartamento. O prédio estava silencioso; a neve lá fora abafava o som da cidade.
Luan carregava Serena, que continuava dormindo profundamente, e a levou direto para o berço. Eu os observei por um momento. Era a família que sempre sonhei ter.
A sala estava estranha, quase vazia. O apartamento já havia sido vendido. Não levaríamos móveis, somente nossas roupas e alguns itens pessoais: alguns quadros, os prêmios de Luan, e os brinquedos da Serena. Iríamos no jatinho de Luan, evitando qualquer risco ou complicação de um voo comercial.
Fui até uma das poucas caixas que restavam abertas — a dos vinhos. Peguei um e tirei uma taça limpa. Abri a garrafa, despejei o líquido e tomei um gole longo. Eu precisava desse calor para encarar o adeus.
O vinho mal tinha chegado à minha garganta quando a campainha tocou. Estranhei; quem viria a essa hora?
Fui atender. Era a minha mãe com Josh. O rosto dela estava cansado, mas seus olhos brilhavam.
- Viemos te dar um abraço de boa viagem, meu amor. -minha mãe disse, e eu a abracei com força, inalando o cheiro familiar do hospital que ainda pairava em suas roupas. Josh me abraçou logo em seguida, com seu jeito tranquilo e paternal.
- Entrem. Vocês deveriam estar descansando, mãe. -eu disse, dando espaço.
Luan logo apareceu na sala, o rosto surpreso, mas feliz.
- Liana! Josh! Que bom ver vocês!
Ela e Josh entraram, tirando os casacos e cumprimentaram Luan.
- Eu pensei que vocês demorariam mais na casa do seu pai. -minha mãe comentou, aceitando a taça de vinho que eu lhe estendi.- Achei que passariam horas rindo e conversando.
- A Melanie apareceu por lá. -expliquei, tomando um gole do meu vinho, o gosto amargo combinando com o sentimento.
Minha mãe suspirou, um som profundo de cansaço e frustração. Ela olhou para o chão, parecendo derrotada.
- Eu não sei onde foi que eu errei com a Melanie. -ela confessou, a voz baixa.- Eu criei vocês duas exatamente da mesma maneira, com o mesmo amor, as mesmas oportunidades. Mas vocês são tão iguais de aparência, mas tão diferentes de personalidade.
O olhar dela encontrou o meu, carregado de dor e incompreensão.
Eu não pude evitar. A dor de tudo que a minha irmã havia causado era muito grande, e a mágoa recente ainda estava viva.
- E de caráter também, mãe. -eu acrescentei, a voz firme.- Não é só personalidade.
Minha mãe fechou os olhos por um momento, aceitando a verdade fria da minha declaração. Luan se aproximou, colocando o braço em volta do ombro dela, oferecendo apoio.
- Está tudo bem, Liana. -ele disse, gentilmente.- Vocês fizeram o melhor que podiam. Algumas pessoas simplesmente escolhem caminhos errados.
O apartamento ficou em um silêncio pesado, quebrado apenas pelo tilintar das taças.
Minha mãe e Josh não puderam ficar muito mais tempo, infelizmente. Eles tinham turnos longos no hospital e vieram direto do plantão só para nos ver. Minha mãe estava visivelmente emocionada, e eu sabia que aquele adeus era difícil para ela. Para mim também era.
- Eu prometo, mãe. Em Maio eu volto para a formatura da Bruna e passo na Filadélfia ver vocês. -prometi, abraçando-a novamente.- E vocês liguem sempre!
Foi nesse momento que ela se lembrou de algo.
- Ah! Eu trouxe umas caixas de coisas suas que encontrei lá em casa, Marina. Não queria que fossem jogadas fora.
Ela pediu a Josh para ir buscar no carro. Ele voltou rapidamente com uma caixa de papelão. Agradeci aos dois por tudo.
- A gente se vê em breve. Fiquem bem. -disse minha mãe, já saindo.
Acompanhei-os até a porta, desejando que eles tivessem um descanso merecido.
Assim que a porta se fechou, caminhei até a cozinha, enchi minha taça de vinho novamente e fui para a sala. Luan já estava debruçado sobre a caixa, curioso, revirando o conteúdo.
- O que é isso? O diário de adolescente da minha esposa? -ele brincou.
- Cala a boca e não ouse ler nada! -ri, me aproximando.
Ele tirou uma foto solta. Era uma foto antiga, minha na adolescência, vestida de líder de torcida, junto com Olívia e Virgínia.
Luan me mostrou a foto, com um sorriso divertido.
- Sério, amor? Líder de torcida? Você tinha uma vibe de Regina George. Eu teria corrido de você no ensino médio.
Eu ri, um riso genuíno que há tempos não dava.
- Exagerado! Eu lembro dessa foto. A gente era muito popular nessa época.
Me aproximei da caixa. Era uma caixa de pura nostalgia, cheia de cartas, bilhetes, cadernos antigos e lembranças de uma vida que parecia pertencer a outra pessoa.
- Deixa eu ver. -coloquei a taça na mesinha de centro e comecei a explorar a caixa, curiosa para ver o que mais minha mãe havia guardado.
Puxei um punhado de fotos soltas.
A primeira que surgiu me fez sorrir. Era eu e Justin na época do colegial. Eu estava no uniforme de líder de torcida, e ele, no uniforme de futebol americano. Ele era o quarterback do time.
Mostrei para Luan.
- Olha isso! Eu e o Justin. Essa foto foi tirada depois que ganhamos o campeonato estadual. Ele era o rei do colégio. O time todo estava louco, a gente acabou fazendo uma festa gigante no campo mesmo, depois que todo mundo foi embora. Foi uma bagunça que demorou semanas para o colégio abafar.
Luan pegou a foto.
- Típico Justin. Mas vou admitir, a dupla de capitães era poderosa.
Continuei folheando as fotos rapidamente, separando as de formatura e as de família, até que meus dedos encontraram uma que me fez congelar. Tentei escondê-la, mas já era tarde demais.
Era uma foto minha com meu namorado da época, Tyler. Eu estava nos braços dele, nos beijando intensamente. Tyler também era jogador do time do Justin. Comecei a namorar Tyler logo depois de ter perdido a virgindade com o Chris — um detalhe que não vinha ao caso, mas que me fez querer enterrar aquela foto.
Luan a pegou antes que eu pudesse escondê-la debaixo de uma pilha de cartas.
- Opa! Quem é esse galã aqui?
- Ninguém importante! Um namorado bobo da época. -tentei minimizar, enquanto ele analisava a foto.
- Hum. Bobo e beijoqueiro, pelo visto. E ele era do time do Justin? Aposto que o Justin odiava esse cara. -Luan comentou, fingindo uma indignação ciumenta. Ele levantou uma sobrancelha.- Ele tem cabelo preto esquisito. Pelo menos agora eu entendi de onde veio o seu expertise em beijar bem, Sra. Santana.
Eu gargalhei, aliviada pela brincadeira dele. Luan não sentia ciúmes; ele sentia orgulho da minha história.
- Exagerado! Mas sim, o Justin nunca gostou dele. O Tyler era um pouco... dramático.
Luan devolveu a foto, ainda rindo.
- Bom, ainda bem que o dramático ficou no passado. Agora, chega de ex-namorados.
Eu empurrei a foto de Tyler para o lado e continuei folheando a caixa de nostalgia.
Meus olhos pararam em outra foto, reconheci o cenário imediatamente: o porão da casa dos Beadles, nosso ponto de encontro no ensino médio. Estávamos todos sentados em um sofá antigo. Justin estava aos beijos com Caitlin; ele havia descolorido o cabelo por causa de um desafio idiota do time, e parecia ridículo. Eu, na foto, olhava para Chris, e ele estava me olhando de volta. A gente vivia se reunindo naquele porão para beber e, aparentemente, trocar olhares intensos.
Essa foto em particular havia sido tirada apenas uma semana depois de eu ter perdido a virgindade com o Chris, ali, naquele mesmo porão.
Luan se inclinou sobre meu ombro.
- Quem são esses? O cara te olhando parece diferente do tal Tyler.
- São Chris e Caitlin. -respondi, tentando disfarçar, mas falhando.
- Cailtin mãe da Chloe, a filha do Justin? -ele questionou, olhando para a Caitlin na foto.
- Sim, ela mesma.
Luan então voltou a atenção para a minha expressão e a de Chris na foto. Ele é esperto demais para não notar o clima.
- E vocês dois? -ele perguntou, o tom de voz mudando de divertido para curiosamente sério.- O que estava rolando entre você e o Chris nessa foto? Não parece uma amizade platônica.
Eu hesitei. Nunca tinha contado a Luan sobre Chris. Era uma história antiga, um segredo enterrado na adolescência. Que agora não estava tão enterrado.
- Eu e o Chris... -comecei, suspirando.- A gente teve um lance bem rápido. Tipo... muito rápido.
- Um lance rápido onde você fica olhando para ele enquanto o seu irmão está beijando a irmã dele? -Luan cutucou.
Eu desisti de disfarçar.
- Eu perdi a virgindade com o Chris uma semana antes dessa foto. Nesse mesmo porão.
Luan piscou, pegando a informação. Ele ficou visivelmente surpreso.
- Você e o Chris?! O mesmo Chris que foi padrinho no casamento do Justin e da Bruna? Quem esteve na despedida de solteiro do Justin junto comigo e os outros?
Eu assenti. Vi que ele não gostou de saber, não por ciúmes, mas pela surpresa de um amigo tão próximo ter sido parte da minha vida de uma forma que ele não sabia.
- Pois é. Mas é passado. Foi uma única vez. Depois comecei a namorar Tyler.
Guardei rapidamente a foto debaixo das outras. Peguei a próxima, querendo mudar de assunto.
Era uma foto de infância: eu, Melanie e Justin, com uns sete ou oito anos, em um parque.
Uma lembrança de uma época em que éramos apenas crianças, e o drama se limitava a quem pegava o balanço primeiro.
Eu suspirei, sentindo um nó na garganta. Aquela foto de infância, com Melanie e Justin, era quase dolorosa de ver.
- É, nessa época tudo era mais fácil. -murmurei, guardando a foto apressadamente de volta na caixa.- Era tudo brincadeira.
Deixei a foto da infância cair sobre a foto de Chris e Caitlin.
- Hoje em dia, a mesma menina que brincava comigo e o Justin... me apunhalou pelas costas.
A nostalgia se tornou amarga. Eu não queria mais ver nenhuma foto; o passado era traiçoeiro.
Luan percebeu a mudança no meu humor. Ele me puxou para perto e esperou um momento.
- Eu posso perguntar mais sobre você e o Chris? -ele perguntou, com a voz baixa e cuidadosa.
Eu suspirei, imaginando a série de perguntas que viriam sobre. Era melhor ser direta.
- Ok, vou resumir. Foi em 2021. Eu tinha quinze anos, e o Chris tinha dezesseis.
Ele me incentivou a continuar com um aceno de cabeça.
- Caitlin e Justin viviam se pegando naquele porão. Eu e o Chris vivíamos de vela. Um dia, combinamos de nos reunir lá no porão, mas o Justin e a Caitlin furaram. Acabou rolando um clima. Foi a primeira vez de nós dois.
Eu olhei para Luan.
- Não ficamos antes, nem ficamos depois disso. Foi só um momento estranho de timing e hormônios, e ele virou meu amigo de novo. Foi isso.
Luan me abraçou apertado, aliviado com a honestidade e a simplicidade da história.
- Certo. E por que você estava olhando para ele daquele jeito na foto, se não houve nada depois?
- Porque éramos dois adolescentes com um segredo ridículo! Éramos melhores amigos! Era estranho!
Ele riu e me beijou a testa.
- Entendi.
Eu me levantei, sentindo as pernas um pouco bambas. A conversa sobre Chris havia me esgotado emocionalmente, mas o vinho havia feito seu trabalho, me deixando levemente tonta e alegre. Fui para a cozinha, esvaziando a garrafa de vinho e enchendo minha taça novamente.
- Caramba. -murmurei para mim mesma.- Eu bebi essa garrafa de vinho sozinha.
Luan me seguiu, encostando-se ao batente da porta da cozinha, observando-me com um sorriso carinhoso.
- Você está muito alegre, Sra. Santana. -ele comentou.- E eu estou na dúvida se essa é a melhor hora para fazer uma pergunta.
- Faça logo, Luan. O que pode ser pior do que eu ter te contado quando, onde e com quem perdi minha virgindade?
Ele coçou a nuca, um brilho divertido nos olhos.
- Eu queria perguntar com quantos homens você dormiu antes de mim, mas tenho medo da resposta. Medo de descobrir que meu número é baixo e que eu vou ter que me esforçar mais.
Eu arqueei a sobrancelha e me aproximei dele, o vinho me dando a coragem perfeita para a réplica.
- Querido, não se preocupe com números. O importante não é a quantidade de ex-namorados ou ficantes. O importante é o resultado final.
Dei um sorriso confiante, levantando a taça.
- Você foi o melhor. Foi tão bom, que eu não apenas casei com você, como também tive a Serena. Você encerrou a minha carreira de solteira. Pense nisso como uma vitória por nocaute.
Luan riu, um som rouco e feliz. Ele pegou a taça da minha mão e a colocou na bancada, depois me puxou para um beijo lento e profundo, provando o sabor do vinho e da minha promessa.
- Vitória por nocaute. Eu gostei disso.
A taça de vinho foi esquecida na bancada. O riso dele se transformou em um gemido baixo quando eu o puxei para mim. O beijo se intensificou, o vinho me dando a coragem para ser totalmente selvagem.
Era o nosso último dia em Nova York. Hoje era a nossa chance de reivindicar o prazer e a vida que lutamos para ter. Tínhamos que aproveitar.
Sem aviso, o guiei pra sala e o empurrei para trás. Luan caiu no sofá, rindo de surpresa, e eu subi em cima dele, sentando-me sobre seu quadril, intensificando o beijo que já era faminto. Beijei seu pescoço, sentindo o pulso acelerado.
Com certeza, aquilo era o efeito do vinho. A garrafa que eu bebi sozinha estava me dando uma euforia desmedida, um desejo de arrancar cada pedaço de felicidade que eu pudesse. Mas nenhum de nós podia reclamar.