Marina Narrando
A tela do celular escureceu e a imagem do rosto sorridente de Luan sumiu.
O "até amanhã" dele soou como uma promessa de porto seguro. Eu o amo. Amo a nossa família, o nosso caos, a maneira como ele consegue rir e flertar mesmo exausto e preocupado. Por um minuto, enquanto ele falava sobre as "outras coisas" que faríamos quando eu voltasse, me senti a Marina de sempre: atriz, esposa, mãe, sexy e confiante.
Mas agora, no silêncio frio do meu quarto de hotel em Los Angeles, a sensação de peso voltava. Olhei para a janela, para as luzes da cidade cintilando lá embaixo.
O Victor…
O sorriso do Luan me fez mentir, mas a minha intuição não podia ser desligada com um beijo virtual. No fundo do meu estômago, o medo gélido que senti horas antes na coletiva de imprensa não havia sumido. Victor, com aquele olhar intenso e as perguntas estranhas… por que ele tinha vindo com tanta força hoje? Por que ele era o padrinho de casamento da Chloe e Harry? Por que ele estava tão presente?
E o Luan mentiu. Manteve a voz perfeitamente calma, mas a pausa que ele deu antes de responder sobre a Chloe, me alertaram. Ele estava me protegendo. E se ele estava me protegendo, era porque a tinha algo.
Eu disse a ele que voltaria amanhã de manhã. Menti.
Eu não podia esperar. A Serena precisava de mim, e eu precisava de Luan, Justin e Bruna. Eu precisava parar de ser a isca do outro lado do país.
Levantei-me da cama e senti a adrenalina me impulsionar. Fui para o closet e tirei a mala de rodinhas. Não precisava arrumar nada; a maior parte das minhas roupas já estava jogada ali. Vesti a primeira calça de moletom escura que vi, uma camiseta e um casaco. Peguei minha bolsa de mão, que continha meu passaporte, identidade e a carteira.
Olhei para o celular, hesitante. Se eu ligasse para o Luan agora e dissesse que estava indo para o aeroporto, ele surtaria. Ele me proibiria de sair sem segurança armada, ou pior: ele viria me buscar, o que seria uma perda de tempo preciosa.
Amanhã de manhã. Era o que ele pensava. E era o que eu queria que ele pensasse.
Peguei o celular e liguei para a recepção.
- Sim, Sra. Santana?
- Estou fazendo o check-out agora. Por favor, avise ao meu pessoal que reservei um carro para o aeroporto para daqui a dez minutos e que eles podem descer com as malas.
Dez minutos depois, eu estava saindo do quarto, puxando minha mala. Não olhei para trás. A sensação de estar fugindo, de estar me adiantando a um perigo invisível, era mais forte do que a racionalidade.
Eu estava saindo do hotel, passando rapidamente pela recepção, quando o celular de um dos meus seguranças vibrou e acendeu. Era uma mensagem de texto.
Eu não deveria ter olhado, mas a minha intuição me fez parar ao lado dele. Era uma mensagem curta, vinda de um número desconhecido, apenas uma linha:
"Não leve-a para o aeroporto. Plano em ação. Mantenha-a aqui."
Meus músculos congelaram. Traição. Meu segurança olhou para mim, confuso, e depois para a mensagem no celular. Eu o encarei, e o medo que vi nos olhos dele era o meu próprio medo refletido.
- Meu voo é às 21:30. -murmurei, o terror me atingindo como um soco. Eram 20:50. Eu teria de correr.
Ele tentou falar, mas eu já estava me movendo. Empurrei a porta giratória e saí para a rua, puxando minha mala com uma força desesperada.
- Táxi! -gritei.
O caminho até o aeroporto foi curta, e sem surpresas. Fiz meu check in, despachei as malas e logo meu vôo foi chamado.
Eu estava sentada na primeira classe, o assento encostado na janela. Minha respiração ainda estava acelerada. Olhei para o relógio: 21:28.
Victor com certeza iria aprontar alguma, se ele realmente tiver envolvido. Mas eu, impulsionada pelo instinto de me proteger e proteger minha família, me movi antes.
Fechei os olhos. O avião começou a se mover, e o som dos motores embalou o meu alívio.
Eu estava voltando para Nova York. Estava voltando para casa, onde eu estaria segura com a minha família.
Eu estava exausta, mas não dormi. Olhei pela janela, observando as luzes de Los Angeles ficarem para trás. O meu voo seria o único lugar seguro pelas próximas cinco horas.
O alívio da aterrissagem em Nova York foi tão palpável que eu quase chorei no assento.
Eram mais de seis da manhã. O céu estava começando a clarear, mas o ar de Nova York parecia mais denso, mais real. Peguei a primeira mala, agradeci ao comissário de bordo e saí do avião a passos largos. Eu não tinha dormido. A adrenalina me manteve acordada, e agora, a urgência de ver meus filhos e meu marido estava me impulsionando.
Ignorando as tentativas do motorista do Uber de puxar assunto, passei o trajeto todo encarando a paisagem familiar. O East River, as pontes, a silhueta de Manhattan...
Quando o carro finalmente parou em frente à casa de Justin e Bruna, a nossa "fortaleza" em TriBeCa, senti um calafrio. Os portões de ferro e os muros altos pareciam mais hostis do que acolhedores na luz fraca da manhã.
Paguei o Uber, peguei minha mala e me dirigi ao portão principal. Um dos seguranças de plantão me reconheceu imediatamente, a surpresa em seu rosto sendo a única indicação de que eu não deveria estar ali.
- Sra. Santana? O que a senhora está fazendo aqui? O Sr. Luan disse que a senhora seu vôo sairia de manhã de Los Angeles.
- Eu peguei um voo mais cedo. Preciso entrar. Agora. -minha voz era firme, não dando espaço para perguntas.
Ele hesitou por um segundo, e então digitou a senha no portão. Aquele pequeno atraso foi a confirmação de que algo estava muito errado.
Empurrei a mala pela entrada e parei em frente à porta principal. Estava destrancada.
Respirei fundo, empurrei a porta e entrei na casa.
O silêncio me atingiu primeiro, um silêncio pesado e não natural para uma casa com três crianças pequenas. Joguei a mala no chão e fechei a porta.
De repente, ouvi passos apressados vindos da escada. Um vulto em pijama e cabelos bagunçados correu na minha direção.
- Graças a Deus! -Bruna gritou, e eu mal tive tempo de reagir antes de ela me abraçar com uma força desesperada.
O abraço dela era puro alívio, e eu a apertei de volta, sentindo-a tremer. Seus olhos estavam vermelhos e ela parecia não ter dormido.
- Bruna, o que você tá fazendo acordada a essa hora? -perguntei, afastando-a ligeiramente para olhá-la.- O Jack e a Chloe estão bem? A Serena?
O rosto dela se contorceu. As lágrimas que ela estava segurando voltaram.
- Estão todos dormindo. Mas… o Luan e o Justin... eles sumiram.
Minha garganta se fechou.
- Sumiram? Como assim sumiram, Bruna?
Ela me puxou para a sala, como se o segredo pudesse ser ouvido pelos cantos da casa.
- Eles saíram na madrugada. Cansados de esperar, de serem a presa... eles foram caçar. O Kenny foi junto. Luan e eu acordamos com Justin indo sozinho, eram quase três da manhã, pedi pra Luan ir com ele. E até agora de nenhum deles… -ela olhou para o relógio na parede, que marcava 6:35 da manhã.- Não voltaram. E o Kenny também não atende.
O sangue sumiu do meu rosto. A fúria gelada que eu senti no avião se transformou em terror absoluto.
- Eles… foram para onde, Bruna? -mal consegui sussurrar.
Ela balançou a cabeça, as lágrimas caindo.
- Eu não sei. Mas eles estavam com a cabeça quente. Eles prometeram que acabariam com isso. Eu estou ligando a cada dez minutos, e nada. Marina… eu não sei se eles estão vivos.
A palavra me atingiu como um raio. Vivos.
O pânico de Bruna e a palavra "vivos" ecoando na sala foram o estopim de que eu precisava. O terror de ter falhado em ser a isca deu lugar a uma fúria fria.
Bruna balançou a cabeça, o rosto em pânico.
- Eu liguei para a Beth, para a Georgia e para a Gemma... Elas estão a caminho. Eu ia atrás deles, Marina, mas eu não sei nem por onde começar! Nova York é enorme!
Eu suspirei, e o som foi mais um ruído de exaustão e raiva do que um alívio. Eu estava cansada, com jet lag, mas a adrenalina me impedia de desabar. Eu tinha uma informação crucial que eles, em sua impulsividade, talvez tivessem perdido.
- Eu sei por onde começar, Bruna. -falei, minha voz ganhando uma firmeza que me surpreendeu.- Eles devem ter ido atrás de quem está nos aterrorizando: a Chloe.
Eu me aproximei dela e coloquei as mãos em seus ombros, forçando-a a me encarar.
- Escuta, você precisa se acalmar. Faça o seguinte: vá tomar um banho e se trocar. Coloque uma roupa discreta, a mais escura que tiver. Nós vamos atrás deles.
Bruna me olhou, incrédula.
- Nós?! Você acabou de sair de um voo e mal sabe o que está acontecendo aqui!
- Eu sei o suficiente! -retruquei.- E você vai me contar o resto no caminho. Sei que estão me escondendo as coisas, eu senti na video-chamada com o Luan. E olha, o Victor… eu acho que ele está junto. Eu acho que ele está envolvido com a Chloe até o pescoço. Ele estava no meu pé o dia todo. Acho que até o Harry deve tá envolvido, já que é marido daquela vadia.
A menção de Victor a fez arregalar os olhos.
- O Luan e o Justin devem ter ido na casa deles no Brooklyn. É o único lugar que faz sentido, é a única coisa que eles conseguiram rastrear!
- Então é para lá que vamos! -concluí.- Vá se trocar. Eu vou ver a Serena, dar um beijo nela, e me trocar também. Cinco minutos. Não temos tempo.
Deixei-a para trás, subindo as escadas em disparada. Abri a porta do quarto da Serena e entrei no silêncio do meu refúgio. Lá estava ela, dormindo, o peito subindo e descendo com a calma dos anjos. Inclinei-me, beijei sua testa e sussurrei uma promessa:
- A mamãe vai trazer o papai de volta.
Fui para o closet, vesti uma calça de couro preta, uma blusa de gola alta escura e um casaco pesado. Amarrei meu cabelo em um rabo de cavalo apertado.
Desci as escadas. Bruna já estava lá, vestida de preto, o rosto pálido, mas os olhos acesos com determinação.
- As babás já chegaram, podemos ir!
- Então vamos. Qual carro? -perguntei, pegando as chaves da mesa.
- O sedã preto. É o mais rápido e discreto. -Bruna disse, pegando a bolsa.
O momento em que eu pus os pés para fora da casa, a determinação tomou conta. Eu tinha que armar a mim e a Bruna.
Fui direto para a guarita onde o segurança que havia me reconhecido estava parado. O carro já estava ligado com a Bruna no banco do motorista, mas eu parei na frente do homem.
- Eu preciso de duas armas. Pequenas, fáceis de manusear. -ordenei, estendendo a mão.
O segurança arregalou os olhos.
- Sra. Santana, eu… eu não posso fazer isso. Isso vai contra todas as ordens. O Sr. Bieber… as ordens do Sr. Bieber são para que as senhoras fiquem em casa, seguras e desarmadas. Não podemos deixá-las sair.
Revirei os olhos. A proteção deles era exaustiva.
- Ouça bem. O Sr. Bieber está desaparecido com o meu marido desde a madrugada. Os dois podem estar numa emboscada armada, e vocês estão me dizendo para ficar sentada em casa bordando enquanto eles arriscam a vida por causa de uma vadia psicopata?
A minha voz não foi um grito, mas carregou uma ameaça silenciosa que o fez hesitar.
Nesse momento, a porta do carro se abriu e Bruna desceu, parecendo ainda mais furiosa do que eu. Ela caminhou até mim, cruzou os braços e encarou o segurança.
- É melhor você fazer o que ela está pedindo. -a voz de Bruna era baixa, calma e totalmente letal.- E é melhor você sair do nosso caminho.
Ela deu um passo à frente, aproximando-se do homem.
- Quando o Sr. Bieber não está presente, a ordem de comando fica com a Sra. Bieber. E eu sou a Sra. Bieber. Não tente me parar. Você tem trinta segundos para nos dar as armas e abrir o portão antes que eu te demita, te processe, e conte ao Justin que você nos impediu de salvar a vida dele e do meu irmão.
Eu vi o segurança engolir em seco.
Sem dizer mais uma palavra, ele se virou, abriu o compartimento de segurança e pegou duas pistolas compactas, de calibre pequeno.
- Elas estão carregadas e prontas para uso, Sra. Santana. -ele disse, estendendo-as para mim.
Peguei as armas. O peso do metal frio na minha mão parecia até familiar.
- Abra o portão. -ordenei.
Bruna entrou no carro, e eu a segui, colocando uma das armas no cós da minha calça e a outra no porta-luvas. O portão de ferro se abriu, e Bruna acelerou, deixando a segurança da casa para trás.
O sedã preto se misturou rapidamente ao trânsito da manhã.
- Para a casa de Harry e Chloe no Brooklyn. E agora, conte-me absolutamente tudo o que você, Luan e o Justin estavam escondendo de mim. -falei, os olhos fixos na estrada à frente.
A respiração de Bruna estava pesada no banco do motorista enquanto ela focava no trânsito, e o silêncio que pairava sobre nós era carregado com o peso da verdade. Eu podia sentir o que estava por vir. Eu apertei as mãos, meus olhos fixos no perfil tenso dela, esperando que começasse a falar.
- O Kenny fez um dossiê, Marina. Completo. Ele descobriu que a Chloe viajou na mesma época que a gente. -Bruna começou, a voz baixa e tensa.- Ele encontrou o histórico da compra no cartão de crédito dela. Passagens e um passe de um dia para a Disney. Ela estava lá, nos observando.
A imagem daquela mulher, nos espreitando enquanto nós quatro e mais três crianças tentávamos ter um momento de paz em família, me enojou. Mas era apenas o começo.
- E as transferências bancárias… -Bruna continuou, apertando o volante.- Ela estava usando contas laranjas, difíceis de rastrear. Mas ele achou algumas transferências diretas que o surpreenderam. E que eu sei que você não vai gostar.
Eu apenas a encarei, a minha respiração suspensa, forçando-a a continuar. O medo já havia passado. Restava apenas uma clareza fria e terrível.
Bruna engoliu em seco.
- As transferências foram para a Melanie.
O mundo parou.
O fato de Justin e eu sermos apenas meio-irmãos por parte de pai nunca importou, mas Melanie era minha irmã de pai e mãe. Eu sabia que ela era difícil, invejosa, e que tinha um histórico de atitudes péssimas —a palhaçada na minha despedida de solteira, o drama no casamento... Mas, ainda assim, ouvir a confirmação de que ela havia se vendido para a nossa inimiga me apunhalou. Era uma traição íntima, uma dor que não vinha de um inimigo, mas de um laço de sangue.
Virei o rosto para a janela. Eu não ia chorar na frente da Bruna. Não agora. Olhei para o reflexo embaçado do meu próprio rosto, tentando engolir as lágrimas malditas que ameaçavam cair.
Bruna continuou, sem desviar o olhar do trânsito, talvez percebendo a minha dor, mas sabendo que precisava terminar.
- Kenny descobriu que foram pelo menos umas quatro transferências altas em seis meses. Uma semana antes do seu casamento, na sua despedida de solteira. Outra, dois dias depois do casamento, no meio da lua de mel. E a mais recente foi um dia depois da festa de Halloween na minha casa.
Melanie não só estava nos traindo, como estava lucrando com os meus momentos mais vulneráveis e importantes. Ela havia vendido a minha privacidade. Ela era a fonte de todo o caos pessoal que havíamos enfrentado.
- Aquela vaca! -falei, a raiva subindo à garganta.
Dei um tapa forte no painel do carro, mas a dor momentânea na palma da mão não aliviou nada. A traição da minha irmã era uma ferida que eu resolveria depois. Agora, a prioridade eram os homens que amávamos.
Viramos a esquina e, de repente, lá estava ele: um dos SUVs pretos de Justin, estacionado de forma discreta, mas inconfundível.
- É o carro deles. -sussurrei.
Bruna parou o nosso sedã imediatamente. Ela não hesitou. Abriu o porta-luvas, pegou a outra pistola e, sem dizer uma palavra, saímos do carro. Caminhamos agachadas pelos fundos, contando com a sorte de que os vizinhos não estivessem acordados naquela hora da manhã.
A porta dos fundos da cozinha estava entreaberta.
Entramos na casa, movendo-nos devagar e em silêncio. A raiva me dava uma concentração laser. Subimos a escada, as armas prontas, seguindo o som que vinha do andar de cima. Era a voz de Chloe, alta e cheia de histeria.
- Por favor! Eu não vou mais fazer nada! Eu paro! Por favor, me deixem viva!
O choro implorativo dela era a música mais doce que eu já tinha ouvido.
Paramos na porta do quarto. A cena era um clímax de filme de ação. Justin com a arma apontada para Harry, Luan com o cano na cabeça de Chloe, e Kenny observando a cena como um juiz.
Assim que aparecemos no batente, a atenção se virou para nós.
- SAIAM DAQUI! -Kenny se alarmou, o tom urgente e reprovador.- Vocês não deveriam estar aqui!
Bruna deu um passo à frente, o rosto pálido, mas a voz carregada de autoridade.
- Nós temos todo o direito de estar aqui, Kenny. Essa vadia armou tudo por nossa causa! Ela me odeia e odeia a Marina! O Luan e o Justin não têm nada a ver com isso!
A menção ao ódio dela fez Chloe se levantar da cama. Ela estava enrolada no lençol, os olhos injetados de fúria e lágrimas.
- Vocês duas acabaram com a minha reputação na Columbia depois daquele episódio! E a Bruna é uma vadia suja por ter namorado o Harry, mesmo eu tendo mandado ela não chegar perto dele! E ainda dormiu com Justin na minha cama, no dormitório!
Bruna revirou os olhos, claramente cansada da obsessão dela.
- Você levou muito para o lado pessoal uma coisa que aconteceu no campus, Chloe!
Nesse ponto, Harry, que estava sendo ignorado, resolveu se manifestar.
- E você, Marina! Você quase me fez ser expulso da universidade! Por uma denúncia "anônima" de que eu vendia drogas no campus!
- Eu não denunciei você! Eu não fiz nada! -retruquei, sentindo a adrenalina me impulsionar.- Todo mundo sabia que você vendia droga naquela merda, Harry! Você se entregou sozinho!
Justin me olhou, um alívio súbito e profundo em seus olhos.
- Que bom que você foi esperta, Marina. O Victor estava envolvido até o pescoço. Se você não tivesse pego um voo mais cedo, ele teria sequestrado você, como a Chloe planejou.
Luan interveio, a voz baixa e venenosa.
- O Victor só se envolveu porque queria você, Marina. Ele queria te ter, e essa vaca prometeu que o ajudaria se ele fizesse a parte dele.
- E a Melanie? -perguntei, sentindo a palavra queimar na minha boca.
Chloe soltou uma risadinha debochada, aquela arrogância irritante voltando, mesmo sangrando.
Luan não hesitou. Ele lhe deu uma coronhada. Um som oco e seco que fez Chloe soltar um gemido agudo de dor. Pelo estado da testa dela, não tinha sido a primeira vez.
- Se você fizer isso de novo, Luan, eu vou te matar! -Harry gritou, desesperado.
Justin não perdeu tempo. Com uma rapidez letal, ele deu uma coronhada na cabeça de Harry também, silenciando-o. Harry desabou de joelhos, gemendo.
Justin me olhou, com a mesma clareza fria que ele tinha quando estava no comando de tudo.
- A Melanie foi mais pelo dinheiro, eu liguei para ela lara esclarecer. Mas a Chloe disse que foi pelo mesmo motivo do Victor: ela queria, a todo custo, ficar com o Luan. Mas ela não faz ideia do que a Chloe planejava, nem das ameaças.
Meu coração afundou em nojo.
Estava exaurida. Cansada da traição, do medo, da guerra. Olhei para a Chloe, que estava arfando e se encolhendo, e senti uma raiva fria.
- Eu estou cansada disso tudo. -falei, a voz rouca.- Eu só quero viver em paz. Me diga, Chloe, o que você quer para nos deixar em paz?
Chloe, com a testa sangrando, conseguiu levantar o rosto. A fúria no olhar dela superou o medo. A arrogância dela voltou.
- Eu quero que vocês morram. Vocês quatro. E aqueles três pirralhos nojentos. -ela disse, o ódio escorrendo de cada palavra, referindo-se aos filhos de Justin com Bruna e à minha filha, Serena.
Antes que pudesse ser dito qualquer outra coisa, um tiro alto e ensurdecedor ecoou no quarto.
O som agudo perfurou meus tímpanos e me deu um leve sobressalto. Olhei para a Chloe.
Ela caiu na cama. Seus olhos se arregalaram em um último flash de surpresa, e o corpo dela relaxou, a vida esvaindo-se. Uma mancha vermelha escura começou a se espalhar rapidamente no lençol branco perto do seu coração.
Harry soltou um grito de horror e começou a chorar desesperadamente por ela, caindo de joelhos.
Eu olhei para Luan e Justin. Os dois estavam paralisados, os olhos arregalados de susto, fixos em algo atrás de mim.
Lentamente, me virei.
Bruna estava ao meu lado. Ela estava com a arma ainda levantada e mira. Bruna havia matado Chloe. O choque em seu rosto era indisfarçável, mas havia uma estranha quietude ali, como se o mundo tivesse parado.
Puta que pariu.
Olhei para a mancha vermelha, para o corpo inerte da mulher que queria nossos filhos mortos, e para Bruna, que havia disparado.
- Bruna… -Justin sussurrou, a voz cheia de incredulidade.
Bruna estava em colapso. Ela largou a arma no chão de madeira, o som do metal batendo ecoando como um alarme.
- Eu… eu não queria… -ela engasgou, as mãos cobrindo o rosto.- Eu agi sem pensar! Ela chamou meus filhos de… de pirralhos nojentos! Eu fiquei com raiva! Eu não posso ser presa, Justin! Eu não posso!
Ela estava desesperada, e eu estava em completo choque. A pistola dela tinha feito o que Luan e Justin só estavam dispostos a ameaçar.
A mente fria e calculista de Kenny foi a primeira a funcionar.
- Justin, Luan, tirem elas daqui! -ele ordenou, a voz baixa, mas aguda.
Ele começou a se mover rapidamente pelo quarto, seus olhos de chefe de segurança esquadrinhando a cena. Ele pegou a arma de Bruna, enrolou-a em um pedaço de tecido retirado da cadeira e começou a limpar as outras armas, certificando-se de que nenhuma evidência pudesse voltar para qualquer um de nós.
- Não podemos ir! -Justin interveio, a adrenalina ainda forte.- Kenny, a cena do crime…
- A cena do crime é o menor dos problemas agora! -Kenny rosnou, apontando a cabeça para o corpo de Chloe e depois para o chão.- Eu resolvo a cena. Eu sou o especialista. Mas temos um problema muito maior que um corpo.
O maior problema estava ao lado do corpo de Chloe. Harry.
O marido da vítima estava no chão, chorando histericamente, com as mãos na cabeça. Ele nos encarou, e o ódio puro em seus olhos foi a minha próxima onda de terror. Ele tinha visto a esposa em ser morta a tiros.
- Ele vai testemunhar contra nós. -sussurrei, sentindo o terror me inundar.- Ele vai contar tudo, Kenny.
Justin olhou para Luan. Luan olhou para o corpo de Chloe. Bruna chorava, incontrolável.
Kenny parou de se mover e nos encarou, a testa franzida em desespero pragmático.
- Ele não pode testemunhar. Ele iria nos incriminar por tudo. Não há outra opção.
Eu não precisava que ele terminasse a frase. Ninguém precisava.
Alguém teria que apagar Harry.
O segundo tiro não teve hesitação.
Antes que Harry pudesse levantar a cabeça ou que Justin e Luan pudessem processar a terrível necessidade de agir, Kenny assumiu o comando.
Com um movimento rápido e letal, Kenny mirou no Harry e puxou o gatilho. O estampido foi ensurdecedor, final, e o grito histérico de Harry foi silenciado abruptamente. Ele desabou sobre o corpo da Chloe.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pela respiração pesada dos sobreviventes. Kenny nem sequer olhou para nós.
- AGORA! -ele ordenou, a voz como um chicote, sem espaço para discussão ou para o choque.- Saiam. Eu resolvo o resto. Vão!
Justin agiu imediatamente. Ele abraçou Bruna, que estava em estado de choque e chorando descontroladamente, e a puxou para fora do quarto. Luan fez o mesmo comigo. Eu estava em transe. Minhas pernas me levavam para fora, mas minha mente estava presa no quarto, naquele cheiro de pólvora, nos dois corpos no chão.
Descemos as escadas em disparada. Entramos no SUV discreto que Justin e Luan haviam usado. Justin se jogou no banco do motorista e Bruna no passageiro. Luan e eu fomos para o banco de trás.
Justin não disse uma palavra. Apenas ligou o carro e deu no pé, acelerando pelas ruas do Brooklyn. O carro deslizava pela manhã fria, o motor quase inaudível, mas o silêncio dentro da cabine era ensurdecedor.
Bruna, ao lado de Justin, tremia incontrolavelmente.
- Eu não quero ser presa! -ela chorou, a voz cheia de desespero.- Eu não posso! Eu não posso deixar meus filhos!
Justin tirou uma das mãos do volante e apertou o ombro dela. O rosto dele estava pálido e duro.
- Você não vai ser presa, Bruna. Kenny está lá. Ele vai fazer com que isso pareça... qualquer outra coisa. Você precisa se acalmar e esquecer o que aconteceu.
Ouvir Justin dizer para esquecer aquilo era surreal.
Eu estava aninhada no banco de trás, sendo abraçada com força por Luan. Eu podia sentir o cheiro do casaco dele, e o calor do corpo dele era a única âncora que me mantinha na realidade. Eu nunca tinha visto alguém morrer na minha frente. Quem dirá dois. E quem dirá que a pessoa que tirou a vida do nosso inimigo seria a minha melhor amiga e cunhada.
A guerra havia acabado. Mas agora, tínhamos um crime, um segredo terrível e a certeza de que a nossa vida jamais voltaria a ser a mesma.
O SUV preto cortou o silêncio da manhã de Nova York. Justin dirigia com a mandíbula travada, os olhos fixos na estrada. O rosto dele era uma máscara de choque e de uma determinação sombria; ele estava no modo de controle total, bloqueando o horror.
No banco da frente, Bruna tinha parado de soluçar, mas tremia. Justin estendeu a mão e pegou a dela.
- Você está segura. -ele repetiu, a voz rouca, quase um juramento.- Você só se defendeu. Aquela mulher ia arruinar as nossas vidas. Agora, esquece. Ninguém sabe que estivemos lá.
Eu me agarrava ao Luan no banco de trás. Meu marido estava quieto, com a cabeça apoiada na minha. Sua respiração era profunda, mas o coração batia de forma irregular contra o meu braço.
- Você está bem, amor? -sussurrei, beijando o topo da sua cabeça.
- Não. -ele murmurou, a voz áspera.- Não estou. Mas ela não vai mais tocar na Serena. E isso é tudo que importa.
A voltamos para a casa de Justin e Bruna parecia uma eternidade. A cada quilômetro, o terror do que havíamos feito era substituído pelo medo do que Kenny faria para nos proteger. Ele era o nosso único elo com a normalidade.
Chegamos à nossa rua. Justin parou o carro nos fundos e desligou o motor.
- Vamos entrar e vamos agir como se nada tivesse acontecido. -ordenou.- Normalidade. Entendido?
Nós assentimos em silêncio.
Entramos na casa pela porta dos fundos. As babás — Beth, Georgia e Gemma — estavam na cozinha, preparando o café da manhã das crianças, que ainda dormiam. Elas nos olharam com alívio.
- Graças a Deus! -disse Beth.- Bruna, onde vocês estavam?
- Ah, a gente foi ver o pai do Justin e Marina, ele parece que havia batido o carro, mas não foi nada demais, ele só deu uma arranhada. -mentiu Bruna, sua voz já voltando ao normal, sua atuação surpreendentemente boa.- Mas pensamos que fosse algo grave. Vamos subir descansar.
O teatro era automático. Subimos as escadas em silêncio. Fomos direto para o quarto de Justin e Bruna. Luan e eu nos sentamos na poltrona, e Justin se jogou na cama, puxando Bruna para o seu lado.
Esperamos. Esperamos por um som, um toque, uma mensagem.
Uma hora depois, o silêncio foi quebrado. O celular de Justin vibrou.
Era Kenny.
Ele atendeu, e nós três prendemos a respiração.
- ... Sim. Entendi. E os rastros? Ok. Certo. Ligue-me assim que souber de Victor.
Justin desligou, seu rosto inexpressivo. Olhou para nós.
- Ele resolveu. -sua voz estava cansada, mas firme.- Ele disse que a cena está limpa. Parece um assassinato seguido de suicídio, com base no ângulo dos tiros e nos corpos. Harry atirou em Chloe e depois em si mesmo, em um acesso de raiva ou ciúmes.
- E as nossas armas? -perguntei, sentindo meu coração palpitar.
- Ele resolveu, nossas digitais sumiram.
Um alívio gelado me percorreu. Estávamos livres da polícia.
- E agora? -perguntou Bruna, a voz trêmula.
- Agora, esperamos. Kenny está caçando Victor. Victor é o único solto que pode nos incriminar por invadir a casa. Mas ele não sabe de nada. Ele só sabe que falhou em te pegar, Marina.
Eu me levantei da poltrona, sentindo a necessidade urgente de sair daquele ambiente sufocante. A culpa, o medo e o cheiro imaginário de pólvora ainda pairavam no quarto.
- Eu vou ver a Serena. -falei, a voz embargada. Eu precisava de algo puro, de algo que me lembrasse por que tínhamos feito o que fizemos.
Luan me seguiu em silêncio. Entramos no quarto da nossa filha. A luz suave da manhã entrava pela janela, e Serena dormia, alheia a toda a escuridão que envolvia seus pais.
Luan se aproximou do berço. Ele estendeu a mão e pousou a palma na testa dela, um gesto de carinho e verificação que aliviou sua expressão tensa.
- Pelo menos a febre se foi. -ele sussurrou, e o alívio era palpável em sua voz. Aquele pequeno detalhe de normalidade o trouxe de volta à realidade.
Serena se mexeu devagar. Ela abriu os olhos, piscando na claridade, e o primeiro rosto que encontrou foi o de Luan. Um sorriso lento e sonolento surgiu em seus lábios.
- Papa. -ela disse, a voz pequena, cheia de amor.
O coração de Luan se derreteu, e ele se inclinou para beijar sua testa.
Então, ela virou o rosto e me viu.
Seu rosto se iluminou. O sorriso se alargou, e ela se sentou na cama, esticando os braços gorduchos para mim.
- Mama!
Fui até ela e a abracei com força, inalando o cheiro doce de bebê e de casa. Ela me apertou de volta, e naquele momento, com o calor da minha filha nos meus braços e Luan ao meu lado, eu soube que tínhamos cruzado a linha do crime, mas também havíamos garantido a paz e a vida da nossa família.