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Capítulo 137

Bruna Narrando 

O sono não veio. Ou se veio, foi um visitante indesejado e superficial, trazendo pesadelos fragmentados daquela chamada de vídeo, do rosto aterrorizado do meu irmão e da Marina. Passei a noite virando na cama, o silêncio da casa amplificando o rugido do furacão na minha mente.

Antes mesmo dos primeiros raios de sol pintarem o céu de cinza, eu desisti. Levantei e encontrei o Justin já na sala, de pé em frente à janela, olhando para nosso jardim. Ele também não tinha dormido. O cansaço marcava seu rosto, mas seus olhos estavam alertas, focados.

- Kenny teve notícias. -ele disse, sem se virar. A frase foi dita em um tom baixo, quase sem emoção, mas foi como se um desfibrilador tivesse atingido meu peito.

Corri para o lado dele.

 - O quê? Eles estão bem? Ele os encontrou?
 
- Ele não os encontrou. -Justin se virou para mim, e vi a tensão em seus ombros.- Mas as equipes de resgate locais sim. Eles estão a caminho do ponto de encontro agora. O Kenny está lá, esperando por eles.

Ele pegou o celular da mesinha de centro. Meu corpo inteiro tremia. Eu comecei a roer as unhas, um hábito nervoso que eu não tinha desde a adolescência. Justin discou um número e colocou no viva-voz.

A voz calma e profissional de Kenny encheu a sala.

- Estou no local, Justin. A viatura da polícia acabou de chegar.

Meu coração parou. Justin se inclinou sobre o celular, como se pudesse entrar na chamada.

- Você os vê, Kenny? -a voz do Justin era tensa, controlada por um fio.

Houve uma pausa que durou uma vida inteira. Eu prendi a respiração, o som do sangue pulsando nos meus ouvidos. Eu podia ouvir o barulho distante de um helicóptero pelo telefone.

- Sim. -a voz de Kenny finalmente voltou.- Estou vendo eles agora. Estão saindo do carro. Estão de pé. Estão andando.

Soltei o ar em um soluço que eu nem sabia que estava segurando. Minhas pernas fraquejaram e eu me apoiei no sofá. De pé. Eles estavam de pé.

- Estão machucados, Justin, cheios de curativos e hematomas. Sujos. Mas estão vivos. -Kenny continuou, e cada palavra era um bálsamo, uma cura.- A Marina está vindo na minha direção agora. Vou passar o telefone pra ela.

Abracei meu próprio corpo, as lágrimas que eu segurei a noite toda finalmente escorrendo, quentes e libertadoras, pelo meu rosto. Eles estavam vivos. Meu irmão. Minha melhor amiga. Eles estavam vivos.

O som do helicóptero pelo viva-voz era alto, mas por baixo dele, ouvi um farfalhar, o som do telefone trocando de mãos. E então, uma voz. Rouca, arranhada, fraca, mas inconfundivelmente ela. A voz da minha melhor amiga.
 
- Justin?

- Marina! -a voz do Justin saiu embargada, um som de puro alívio que eu nunca o tinha ouvido fazer antes.- Ma, graças a Deus! Você tá bem? O Luan tá com você?

- A gente tá bem... a gente... sobreviveu. -a voz dela quebrou na última palavra, e eu pude sentir a exaustão e o trauma em cada sílaba.

- Marina, sou eu! -gritei, me jogando no sofá, mais perto do celular.- Cadê o Luan? Pelo amor de Deus, eu preciso ouvir a voz dele!

Ouvi um murmúrio do outro lado, a voz da Marina dizendo "É a Bruna". E então, a voz que era um eco da minha própria alma, a voz que eu temi nunca mais ouvir, chegou aos meus ouvidos.

- Oi Bru.

Desabei. O som do meu nome, dito por ele, foi a permissão final para que toda a minha força se dissolvesse em lágrimas.

- Luan! -solucei, sem conseguir formar outras palavras.

- Eu tô bem, Bru. -ele disse, e eu podia ouvi-lo tentando ser forte, mas a voz dele também estava trêmula.- Eu tô bem. A gente conseguiu. A gente tá vivo.

- Você se machucou? -perguntei, a necessidade de saber sobre seu estado físico superando tudo.

- Arranhões. Só arranhões e alguns hematomas. A gente tá inteiro. 

Justin pegou o celular, retomando o controle. 

- Luan. Marina. Ouçam. -a voz do Justin era firme agora, a voz de quem resolve problemas.- O Kenny vai cuidar de tudo. Entrem nesse helicóptero. Ele vai levar vocês para um lugar seguro em Cancún, vão pra um hotel apenas pra tomar um banho. Terá um jato esperando. Eu quero vocês em casa o mais rápido possível. A sua mãe vai trazer a Serena pra Nova York, fiquem tranquilos. Entenderam?

- Entendido. -ouvi a voz do Luan, mais firme agora, como se a voz de comando do Justin o tivesse ancorado.

- A gente se vê em breve. -Justin finalizou.- Amamos vocês.

Ele desligou.

A sala ficou em silêncio, o som da nossa respiração e dos meus soluços preenchendo o vazio. Justin largou o celular e veio até mim, me envolvendo em seus braços. Eu me agarrei a ele, enterrando o rosto em seu peito, e chorei. Chorei pela noite de terror que passei, pelo medo que senti, mas, principalmente, chorei de alívio. Um alívio tão puro e avassalador que parecia que ia me partir ao meio.

Eles estavam vivos. Aquele pesadelo específico, aquela frente de batalha, tinha acabado.

Ficamos ali, abraçados, por um longo tempo. A primeira luz do dia entrava pela janela, prometendo um novo começo. Mas, enquanto o alívio pela sobrevivência deles me inundava, uma corrente fria de realidade começou a se infiltrar.

Ganhamos uma batalha. Mas a guerra não tinha acabado.

Afastei-me de Justin, enxugando o rosto. Nossos filhos ainda dormiam no andar de cima. Os seguranças ainda estavam do lado de fora da nossa porta. E um número de telefone desconhecido ainda estava na memória do celular dele, junto com uma foto dos nossos filhos que nunca deveria ter existido.
O furacão tinha passado. Mas a nossa tempestade particular estava longe de terminar.

As horas se passaram em um borrão de exaustão e alívio contido. A adrenalina da manhã deu lugar a um cansaço pesado, que se instalou em nossos ossos. Para as crianças, no entanto, era apenas mais um dia em casa com a mamãe e o papai, e nós estávamos determinados a mantê-lo assim.

A noite caiu cedo, e a nossa "festa do pijama" improvisada continuou. Agora, estávamos todos amontoados no sofá da sala, debaixo de um forte de cobertores, assistindo a Frozen pela milésima vez. A voz de Idina Menzel cantando "Let It Go" preenchia o espaço, uma trilha sonora bizarramente normal para o dia mais anormal de nossas vidas.

Eu olhei para o lado. Chloe estava deitada com a cabeça no colo do Justin, os olhos já fechados, a boca entreaberta. Jack estava aninhado em meus braços, o polegar na boca, completamente adormecido. Eles não tinham aguentado nem até a metade do filme. A visão deles, dormindo em paz, tão seguros e inconscientes do caos que nos cercava, era a minha âncora. Era por isso que estávamos lutando.

Justin me olhou por cima da cabeça da Chloe e sorriu, um sorriso pequeno e cansado que eu retribuí. Estávamos ali, prisioneiros em nossa própria casa, com uma ameaça desconhecida lá fora, mas naquele momento, com nossos filhos dormindo sobre nós, éramos apenas pais.

Peguei meu celular, o movimento lento e silencioso para não acordar o Jack. Eu só queria ver as horas, mas a tela se iluminou com uma notificação do WhatsApp. O grupo da família. Meu coração deu um pequeno salto, um eco do pânico da manhã.

Abri a conversa. E lá estava. Uma nova mensagem, enviada há poucos minutos.

Marina: Oi gente. Desculpa a falta de notícias, ficamos sem bateria no meio do caos. Só pra avisar que estamos bem, seguros, e já dentro de um avião voltando pra Nova York. Chegamos em breve. Amamos vocês. 

Li a mensagem uma, duas, três vezes. As palavras dela. Digitadas por ela. Era real.

Virei a tela para o Justin, sem dizer uma palavra. Ele leu a mensagem, e eu vi o último vestígio de tensão em seus ombros se dissipar. Ele fechou os olhos por um segundo, uma expiração longa e profunda. Ele me olhou, e no seu olhar, eu vi o mesmo que sentia: o fim de um capítulo. O furacão tinha acabado.

Aconcheguei-me mais perto dele no sofá, o calor dos nossos filhos entre nós. Na TV, Anna e Elsa se abraçavam. Lá fora, a noite de Nova York era silenciosa. Um pesadelo tinha terminado. Agora, só precisávamos sobreviver ao outro.

A noite foi longa, mas pela primeira vez em dias, o sono foi real, profundo e sem pesadelos. Acordamos com o sol, não com o pânico. O alívio de saber que eles estavam a caminho era um bálsamo, mas a tensão geral ainda pairava sobre nós como uma nuvem.

No dia seguinte, bem cedo, a casa já estava em movimento. A rotina era a nossa arma contra o caos. Deixamos as crianças tomando café da manhã com a Beth e a Georgia, a cena tão domesticamente normal que doía.

Antes de sairmos, Justin reuniu as babás e a equipe de segurança na entrada. A conversa foi breve, mas o tom era de aço.

- A segurança está reforçada. -ele disse, a voz baixa e firme.- As ordens são simples: ninguém entra e ninguém sai desta casa. De forma alguma. As crianças não vão ao parque, não vão ao jardim da frente, não vão a lugar nenhum. Qualquer entrega, qualquer pessoa que tocar o interfone, vocês me ligam imediatamente. Entendido?

Elas assentiram, os rostos sérios. Eu sabia que o pedido era extremo, mas necessário. Saímos de casa, deixando nossos filhos em nossa fortaleza, para ir buscar os outros dois membros da nossa família.

O Kenny poderia, tranquilamente, ter levado a Marina e o Luan do aeroporto para a casa deles. Teria sido mais seguro, mais discreto. Mas não era sobre isso. Era sobre nós. Eu precisava ver meu irmão. Justin precisava ver a irmã dele. Acho que, depois do inferno que eles passaram, eles não precisavam de um segurança. Eles precisavam ver um rosto familiar, um abraço que dissesse "vocês estão em casa, vocês estão seguros".

A viagem até o aeroporto particular em Teterboro foi silenciosa. Nós dois estávamos perdidos em nossos próprios pensamentos. Eu tentava imaginar o que eles tinham passado, o que tinham visto. Justin, eu sabia, estava dividido entre o alívio pelo resgate e a fúria pela ameaça que ainda nos assombrava aqui.

Quando chegamos, o jato já estava na pista. Esperamos em um pequeno lounge privado. E então, nós os vimos.

Eles desceram as escadas do avião, e meu coração parou. Estavam limpos, com roupas novas que o Kenny provavelmente providenciou. Mas nada podia esconder o que eles passaram. Estavam mais magros, os rostos pálidos e marcados por uma exaustão que ia além do físico. Havia curativos em seus braços e rostos, e a maneira como se moviam era lenta, cuidadosa, como se seus corpos ainda estivessem em estado de choque.

Mas eles estavam de pé. E estavam de mãos dadas.

Corremos para eles na pista. Eu não vi mais nada. Apenas o meu irmão. Joguei meus braços ao redor dele, e o senti estremecer. Ele me abraçou de volta com uma força que desmentia sua aparência frágil, o rosto enterrado no meu ombro. Eu chorei, sem me importar com os funcionários do aeroporto ao redor.

Ao meu lado, Justin abraçava Marina da mesma forma. Éramos quatro pessoas, um emaranhado de braços e lágrimas, no meio de uma pista de pouso. 

Nós nos afastamos lentamente, mas ninguém soltou as mãos de ninguém. Foi quando eu realmente os vi. De perto. A luz do dia era cruel, revelando a profundidade da provação deles. Os curativos eram apenas a superfície. Havia hematomas escuros em seus braços, arranhões em seus rostos. Mas o pior estava em seus olhos. Havia um vazio ali, um eco do terror que eles viveram. Eles estavam fisicamente conosco, na pista de um aeroporto em Nova York, mas uma parte deles ainda estava presa naquele telhado, no meio da tempestade.

- Vamos. -a voz de Justin foi suave, mas firme, quebrando o feitiço.- Vamos tirar vocês daqui.

Luan assentiu, parecendo não ter forças para falar. Marina encostou a cabeça no ombro do Justin por um segundo.

- É tão bom ver vocês. -ela sussurrou, a voz rouca.

Kenny nos guiou para um SUV preto que esperava na beira da pista. O interior era silencioso e seguro. Assim que as portas se fecharam, abafando o som do mundo exterior, foi como se o último fio que mantinha meu irmão e minha cunhada de pé fosse cortado.

A viagem para o apartamento deles foi curta, mas para eles, pareceu durar um segundo. Mal o carro começou a se mover, e os dois adormeceram, os corpos finalmente cedendo à exaustão total. Marina deitou a cabeça no ombro do Justin, e Luan encostou a cabeça no vidro da janela, o sono os levando instantaneamente.

Eu fiquei ali, sentada em frente a ele, observando meu irmão gêmeo dormir. Vi um hematoma feio em sua testa que o cabelo estava escondendo, um corte no seu lábio. E senti uma onda de gratidão tão avassaladora que doeu, seguida de perto por uma fúria protetora. O mundo parecia um lugar perigoso e frágil demais.

Olhei para Justin. Ele também observava Marina dormir, o rosto uma mistura complexa de alívio e preocupação sombria. Nossos olhos se encontraram por cima de nossos irmãos adormecidos. E a mesma pergunta silenciosa passou entre nós, tão clara como se tivéssemos gritado.

Como a gente vai contar pra eles?

Como poderíamos olhar para essas duas pessoas, que literalmente sobreviveram a um furacão, e dizer: "Bem-vindos de volta. A propósito, estamos em lockdown porque um maníaco está ameaçando sequestrar seus sobrinhos"?

Não podíamos. Não hoje.

A decisão foi tomada naquele olhar silencioso. Eles mereciam paz. Mereciam sentir que tinham chegado a um porto seguro, mesmo que fosse uma ilusão. Eles precisavam de pelo menos uma noite de sono sem medo, em sua própria cama.

O carro parou suavemente em frente ao prédio deles.

- Chegamos. -Justin disse, a voz baixa, tocando o ombro de Marina com delicadeza.- Vocês estão em casa.

Ajudamos Luan e Marina a entrar no apartamento deles. O lugar estava silencioso, limpo e exatamente como o deixaram. O contraste entre a paz daquele lar e a memória do que acabamos de ver na rua era chocante.

Marina parou no meio da sala, a mochila escorregando de seu ombro.

- Eu nem acredito que estou em casa. -ela sussurrou, a voz embargada.

Luan passou o braço por cima dos ombros dela, o olhar perdido, fixo em um ponto na parede.

- Não existe terapia no mundo que me faça esquecer o que a gente viveu naquele lugar.

O peso daquelas palavras ficou no ar. O trauma era uma terceira pessoa ali conosco, palpável e fria. Eu precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa que fosse normal.

- Vocês estão com fome? -perguntei, a voz soando mais prática do que eu me sentia.- Eu posso preparar alguma coisa.

Marina olhou para mim, os olhos vazios parecendo me ver de verdade pela primeira vez.

- Sim, por favor. -ela disse, com a voz fraca.- Eu não comi direito... a gente vai tomar um banho. Ainda estou... baqueada com tudo.

Enquanto eles foram para o quarto, eu fui direto para a cozinha, com Justin nos meus calcanhares. Comecei a abrir os armários, procurando por qualquer coisa simples e reconfortante para fazer. Justin começou a pegar pratos e talheres, um parceiro silencioso no meu plano de criar um casulo de normalidade para eles.

Quando Luan e Marina voltaram, de banho tomado e com roupas deles mesmo, eles pareciam um pouco mais humanos, mas a exaustão ainda estava gravada em seus rostos. Eles se sentaram nos bancos da bancada da cozinha, observando a gente se mover.

E então, aos poucos, eles começaram a contar.

No começo, eram fragmentos. O som da janela quebrando. A água subindo. Mas então a história tomou forma, e nós ouvimos, chocados, o relato completo da fuga deles.

- Não era nem pra eu estar aqui agora. -Luan disse, a voz baixa, olhando para as próprias mãos sobre a bancada.- Eu tentei. Duas vezes. Falei pra Marina me deixar pra trás.

Justin e eu paramos o que estávamos fazendo.

- A ideia de fugir pelo telhado... era absurda. -ele continuou, balançando a cabeça.- Eu sou pesado. Eu tinha certeza que o teto ia desabar de vez se eu subisse. Eu disse pra ela ir, ir pela Serena.

Marina estendeu a mão e cobriu a dele.

- E eu disse a ele que jamais o deixaria para trás. -ela completou, a voz agora firme, cheia de uma força que eu sabia que tinha custado tudo a ela.- E quando ele finalmente entendeu isso, quando entendeu que era nós dois ou nenhum de nós... ele mudou. Ele foi a âncora que nos salvou. Ele nos tirou de lá.

Ficamos em silêncio, apenas o som da minha espátula mexendo os ovos na frigideira. Eu os encarei, tentando absorver a imagem deles lutando pela vida, pulando entre telhados no meio de um furacão.

- Eu não sei como vocês conseguiram. -confessei, a voz um sussurro.- Eu jamais teria tido a força que vocês tiveram pra fugir. Eu com certeza teria ficado presa no banheiro, esperando a morte me buscar.

Marina me deu um pequeno sorriso triste.

- Por mim, eu também teria ficado. -ela disse, e seus olhos ganharam um brilho distante.- Mas eu só conseguia pensar na Serena. E a força veio dela. Veio da nossa pequena. Eu e o Luan estamos aqui agora por causa dela.

Ela olhou de mim para o Justin, uma compreensão profunda em seu olhar.

- Nós que somos pais, fazemos de tudo pelos nossos filhos.

A frase dela me atingiu como um soco no estômago. Senti todo o ar sair dos meus pulmões. Meus olhos encontraram os do Justin do outro lado da bancada. Ele também tinha ouvido. O peso daquelas palavras, a verdade universal e dolorosa delas, se instalou entre nós.

Fazer de tudo pelos nossos filhos.

Era exatamente o que estávamos fazendo. Mantendo um segredo terrível, vivendo com medo, trancando nossas crianças em casa. Tudo por eles.

Justin e eu nos entreolhamos, um universo de medo, segredos e concordância passando entre nós em um único segundo. Mas não dissemos nada. Apenas desviamos o olhar, de volta para a tarefa de cuidar deles, carregando o peso da nossa própria batalha silenciosa.

Coloquei os pratos com ovos mexidos e torradas na frente deles. Era uma comida simples, de conforto, a única coisa que consegui pensar em fazer. Eles começaram a comer, devagar a princípio, mas depois com a fome de quem não fazia uma refeição de verdade há dias. O silêncio na cozinha era preenchido apenas pelo som dos talheres.

Foi o Justin quem o quebrou, a voz cheia de uma simpatia genuína.

- É uma pena que a lua de mel de vocês tenha acabado assim. -ele disse, olhando de um para o outro.

Luan mastigou um pedaço de torrada e engoliu, pensativo. Ele olhou para a Marina, e um pequeno sorriso, o primeiro que eu vi em seu rosto desde que chegaram, apareceu.

- Sabe que... os dias em Paraty, na Ilha Esme... e os dias em Tulum antes do furacão foram maravilhosos. -ele disse, a voz ainda rouca, mas com um calor que não estava lá antes.- A gente conseguiu aproveitar bem antes de tudo isso. De verdade.

Marina estendeu a mão e apertou a dele sobre a bancada, o olhar dela concordando.
 
- Foi lindo. -ela disse, a voz suave.- Tudo o que a gente viveu. E sabe... esse furacão só serviu pra provar uma coisa.

Ela olhou para o Luan, depois para mim e para o Justin.

- Serviu pra provar que quando a gente se une, a gente enfrenta o furacão que for, contanto que a gente esteja junto.

As palavras dela me atingiram profundamente de novo. Enfrentar o furacão que for, contanto que estejamos juntos. Olhei para o Justin, que estava ao meu lado. Era exatamente o que estávamos fazendo. Enfrentando o nosso próprio furacão, silencioso e invisível, mas tão devastador quanto o que eles enfrentaram. A força da Marina, a capacidade dela de extrair uma lição de resiliência de um trauma tão brutal, me encheu de admiração e uma pontada de tristeza.

Ela não fazia ideia do quanto suas palavras se aplicavam a nós naquele exato momento.

Eu apenas assenti, um nó se formando na minha garganta.

- Vocês dois são as pessoas mais fortes que eu conheço. -falei, e era a mais pura verdade.

Eles eram a prova de que era possível sobreviver à tempestade. E eu me agarrei àquela esperança com todas as minhas forças.

Eles terminaram de comer em um silêncio mais confortável, o tipo de silêncio que vem depois que as piores histórias foram contadas e a sobrevivência foi confirmada.

Marina empurrou o prato vazio para o lado e me olhou, um carinho genuíno em seus olhos cansados. O foco dela, sempre tão generoso, se desviou do próprio trauma e veio para mim.

- Mas e vocês? -ela perguntou, a voz suave.- A gente passou por tudo isso, e eu nem perguntei... Como estão as crianças? Como estão o Jack e a Chloe?

A pergunta, tão simples e inocente, caiu como uma pedra no meu estômago. Senti meu corpo enrijecer, um calafrio percorrendo minha espinha. A imagem da foto dos meus filhos no parque, enviada por aquele número desconhecido, piscou na minha mente. A fortaleza em que nossa casa se transformou. As ordens para as babás. O medo.

Por um milésimo de segundo, o pânico me dominou. O que eu digo? A verdade? 

"Eles estão bem, só estão trancados em casa porque um psicopata está nos ameaçando"? 

Meus olhos dispararam para o Justin, um pedido mudo de socorro. Ele me encontrou do outro lado da bancada, e seu olhar foi sutil, mas claro: "Calma. Você consegue."

Respirei fundo e forcei um sorriso, rezando para que ele não parecesse tão falso quanto eu me sentia.

- Ah, eles estão ótimos. -falei, a voz soando surpreendentemente leve.- Dando o trabalho de sempre.

Tentei buscar um detalhe, algo real para ancorar a mentira.

- A Chloe está numa fase de querer pentear o cabelo de todo mundo, e o Jack... bom, o Jack decidiu que agora ele é o Batman em tempo integral. A capa não sai por nada.

Enquanto eu falava, uma outra voz gritava dentro da minha cabeça: Eles estão bem, mas estão presos. Eles estão felizes, mas estão sendo vigiados. Eu estou apavorada.

Marina riu, uma risada fraca, mas genuína.

- Imagino a cena. Estou com tanta saudade deles.

- Nós também sentimos a falta de vocês. -falei, e essa era a mais pura verdade. Desesperada para mudar de assunto antes que ela fizesse mais perguntas, comecei a recolher os pratos.- Mas agora chega de conversa. Vocês precisam descansar de verdade. Vão para o quarto. Deixa que a gente cuida da louça.

Luan e Marina pareceram exaustos demais para discutir. Eles se levantaram, nos agradeceram com abraços apertados e longos, e foram para o quarto.

Assim que ouvimos a porta do quarto deles se fechar, olhei para o Justin. O sorriso forçado sumiu do meu rosto, e a exaustão e o medo que eu estava escondendo vieram à tona. Ele veio até mim e me abraçou, sem dizer uma palavra. A mentira que contei para a minha cunhada e para o meu irmão pesava em meu peito. Eu os tinha de volta, mas a verdade completa ainda nos separava.

Nós nos movemos em um silêncio eficiente pela cozinha deles, lavando e guardando a pouca louça que sujamos. Deixar o apartamento organizado, como se nada tivesse acontecido, era um pequeno ato de controle, um presente de normalidade que podíamos oferecer. Cada prato guardado, cada migalha limpa da bancada, era uma pequena oração pela paz deles.

Quando tudo estava em ordem, saímos do apartamento, trancando a porta com um cuidado extra. O som do clique da fechadura pareceu selar um capítulo. Deixamos o trauma do furacão para trás daquela porta, junto com as duas pessoas que mais precisavam descansar dele.

Descemos pelo elevador em silêncio. A exaustão da noite mal dormida e do dia emocionalmente carregado pesava sobre nós. Mas, à medida que nos aproximávamos da saída do prédio, senti a armadura se erguer novamente ao meu redor. Estávamos deixando o refúgio seguro de Luan e Marina e voltando para a nossa própria zona de guerra.

O SUV preto estava parado exatamente onde o deixamos, uma sentinela escura e silenciosa. Kenny estava ao lado da porta do motorista, o rosto impassível, mas os olhos alertas, varrendo a rua. Ele abriu a porta de trás para nós assim que nos aproximamos.

Entramos no carro, e o ambiente mudou instantaneamente. O cheiro de couro, o silêncio abafado, a presença de Kenny no banco da frente... tudo isso nos trouxe de volta à nossa outra realidade. A realidade da ameaça, da vigilância.

Justin mal se sentou e já estava pronto para perguntar, mas Kenny se antecipou. Ele se virou para nós do banco do motorista, o rosto sério sob a luz fraca do painel do carro.

- Tenho novidades.

A frase curta e direta pairou no ar. Senti meu estômago gelar e meu coração, que tinha finalmente diminuído o ritmo, voltar a bater com força contra as minhas costelas. Olhei para o Justin e vi seu maxilar se contrair. O breve momento de paz tinha acabado. A outra tempestade estava sobre nós.

O carro se moveu, deslizando para o trânsito noturno, mas eu mal percebi. Meu corpo inteiro estava focado em Kenny, esperando. Justin se inclinou para frente, as mãos nos joelhos, a postura de um general prestes a receber um relatório do campo de batalha.

- Fala. -a voz do Justin era baixa, um comando.

Kenny olhou para nós pelo espelho retrovisor, os olhos frios e sérios.

- A sua intuição estava certa. -ele começou, e meu estômago se contraiu. - Nathan Miller e Austin Blackwell. A nossa vigilância pegou os dois se encontrando esta tarde em um café no SoHo. A conversa foi discreta, mas eles trocaram um envelope.

- Dinheiro. -Justin afirmou, não perguntou.

- Provavelmente. -Kenny confirmou.- Mas a parte mais interessante veio depois. Puxamos os registros financeiros que conseguimos acesso. O Blackwell recebeu um pagamento de cem mil dólares há três dias. Veio de uma holding nas Ilhas Cayman, uma empresa de fachada que tem múltiplas ligações com a antiga Ithaca Ventures.

O nome de Scooter pairou no carro como um fantasma.

- A data do pagamento -Kenny continuou, e eu senti um calafrio percorrer meu corpo- coincide com a compra de duas passagens aéreas de última hora para Orlando, em nome de um primo do Miller. Ida e volta no mesmo dia. No mês passado. Exatamente na mesma data em que vocês estavam na Disney.

Fechei os olhos. Aquele momento feliz, agora para sempre manchado. Eles estavam lá. Ele estava lá, nos observando. O jornalista abutre do meu passado, que se infiltrou na minha vida, agora assombrava a vida dos meus filhos.

- Onde eles estão agora? -a voz do Justin era perigosamente calma.

- O Blackwell está em seu escritório em Midtown. O Miller está em seu apartamento no Brooklyn. Temos equipes vigiando os dois. Eles não vão a lugar nenhum sem que a gente saiba.

Um silêncio pesado se instalou no carro. Não era mais uma ameaça anônima. Tinha nomes. Tinha rostos. Tinha um rastro de dinheiro que levava de volta ao ninho de cobras do nosso passado.

- Qual é o próximo passo? -perguntei, a voz trêmula.- A gente vai à polícia?

Kenny balançou a cabeça.

- Ainda não. Um envelope e passagens em nome de um primo não são suficientes para a polícia agir de verdade, não contra quem quer que esteja por trás disso. Eles alegariam perseguição, diriam que é coincidência. Por enquanto, a gente continua observando. Eles estão se sentindo confiantes. Vão cometer um erro. Vão nos levar até quem está pagando a conta.

Ele nos olhou pelo retrovisor, e seus olhos transmitiam uma certeza absoluta.

- Quando a gente souber quem é o cabeça da operação, a gente corta a cobra pela raiz.

Encostei a cabeça no vidro frio da janela, observando a cidade passar como borrão. Nós tínhamos acabado de sair de um furacão, apenas para sermos informados de que o nosso estava se intensificando. Mas agora, pelo menos, a tempestade tinha um nome. E nós não iríamos mais apenas nos proteger dela. Nós iríamos caçá-la.

Eu me ajeitei no banco, o medo se transformando em uma determinação sombria. Estávamos a caminho de casa, de volta para a nossa fortaleza, mas agora íamos com um plano. Com alvos.

O carro deslizava suavemente pelo trânsito. Olhei para o Justin, e ele assentiu para mim, um acordo silencioso de que enfrentaríamos isso juntos.

Foi então que o mundo explodiu em som.

Um CRACK ensurdecedor, tão alto e próximo que fez meus ouvidos zumbirem. Meu corpo inteiro se encolheu por instinto. No mesmo milésimo de segundo, um THUD violento atingiu a porta ao meu lado, bem na altura da minha cabeça. A janela ao meu lado não se estilhaçou, mas uma teia de aranha de rachaduras apareceu instantaneamente, irradiando do ponto de impacto.

- Abaixa! -o grito do Justin foi um trovão dentro do carro.

Ele se jogou sobre mim, me empurrando para o chão do veículo, seu corpo servindo como um escudo. Outro CRACK, e outro THUD no vidro traseiro. Tiros. Não era um erro, não era um pneu estourado. Estavam atirando em nós.

- Segurem-se! -a voz de Kenny era gelo puro, sem um pingo de pânico.

O motor do SUV rugiu, e o carro foi lançado para frente com uma violência que me jogou contra o banco da frente. Ouvi o som de buzinas furiosas, o chiar de pneus. Kenny estava costurando o trânsito, transformando nosso carro em um míssil blindado. Mais um, dois, três impactos contra a lataria, o som metálico e surdo de balas sendo paradas pela blindagem, cada um uma batida aterrorizante no meu coração.

Eu estava encolhida no chão, com o peso do Justin sobre mim, o rosto pressionado contra o couro do assento. Minha mente não conseguia formar um pensamento coerente. 
A única imagem que vinha era a dos meus filhos, dormindo seguros em suas camas. Eles estavam tentando nos matar. Eles sabiam que estávamos no carro. Isso não era um aviso. Era uma tentativa de execução.

Depois de uma eternidade que provavelmente durou menos de um minuto, os sons dos tiros pararam. Kenny fez mais duas curvas fechadas e perigosas, nos jogando de um lado para o outro, antes de acelerar por uma avenida mais larga.

- Eles se foram. Perdemos eles. -a voz de Kenny soou pelo carro, ainda calma, mas ofegante.

Justin saiu lentamente de cima de mim. O silêncio que se instalou era mais aterrorizante do que os tiros. Era um silêncio cheio de novas verdades.

Olhei para a janela rachada ao meu lado. Do lado de fora, a cidade continuava, as pessoas andando, os carros parados nos sinais, alheias ao fato de que tínhamos acabado de sobreviver a uma guerra em miniatura.

Eles não estavam mais apenas nos observando. 

Eles não estavam mais apenas nos ameaçando.

Eles tinham acabado de tentar nos apagar do mapa. O jogo, as regras, tudo tinha mudado. A cobra não estava mais escondida. Ela tinha acabado de dar o bote.

O carro continuava em alta velocidade, o zumbido do motor e o som do meu próprio coração martelando nos ouvidos eram as únicas coisas que preenchiam o silêncio. 

Justin passou a mão pelo rosto, um gesto de puro estresse e fúria. Ele se virou para o banco da frente, os olhos fixos em Kenny.

- Kenny. -a voz dele era dura como pedra.- Não seria mais seguro se eu mandar a Bruna e as crianças pro Brasil?

A pergunta me atingiu como um tapa. Brasil. Fugir. Me esconder. Senti um nó de protesto se formar na minha garganta.

Kenny considerou por um momento, os olhos no trânsito à frente.

- Poderíamos considerar. Seria uma opção para tirar os alvos principais da equação, temporariamente.

- Não.

A palavra saiu da minha boca, firme e inquestionável. Os dois se viraram para me olhar. Justin, com uma expressão de surpresa e preocupação. Kenny, com seu habitual olhar impassível.

- Bruna, eles acabaram de tentar... -Justin começou, a voz carregada de uma urgência protetora.

- Eu sei o que eles tentaram. -interrompi, inclinando-me para frente, a adrenalina se transformando em uma clareza fria.- E é por isso mesmo que eu não vou.

Olhei para o meu marido, implorando para que ele entendesse.

- Fugir não vai resolver, Justin. Eles nos acharam na Disney. Eles nos achariam no Brasil, ou em qualquer outro lugar do mundo. Eles não vão parar. A única forma de acabar com isso é aqui. Juntos. -minha voz não vacilou.- Eu não vou sair do seu lado. Eu não vou me esconder do outro lado do mundo enquanto você luta a nossa guerra aqui sozinho. Marina e Luan acabaram de nos provar que a única forma de sobreviver a uma tempestade é juntos.

Justin me encarou por um longo momento. Ele viu a verdade da minha convicção, a mesma teimosia que ele conhecia tão bem. Ele viu que eu não estava sendo imprudente. Estava escolhendo ser sua parceira, não um pacote a ser enviado para um lugar seguro.

Lentamente, ele assentiu.

- Ok. -ele disse, a voz baixa. Ele se virou para Kenny.- Ela fica. A família toda fica. E ninguém vai tocar neles. Você me entendeu?

- Entendido. -Kenny respondeu.- Mas isso significa que o protocolo de segurança muda a partir de agora. O lockdown será absoluto. Essa é a última vez que vocês saem de casa.

Assenti, aceitando as consequências da minha decisão. A escolha estava feita. Nós não iríamos fugir do monstro. Iríamos ficar, entrincheirados em nossa casa, e esperar que ele viesse até nós. Juntos.

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