Bruna Narrando
Eu não conseguia olhar para Justin. O peso da arma na minha mão, o som seco do tiro… tudo estava preso em um loop cruel dentro da minha cabeça. Eu era uma mãe, uma estudante, uma esposa. Eu não era uma assassina.
- Bruna, olha para mim. -a voz de Justin era calma, firme, mas eu não conseguia obedecer.
Comecei a arrancar minhas roupas. O jeans, a blusa, tudo me parecia sujo. Joguei as peças em um canto.
- Eu não consigo. -murmurei, a voz embargada.- Eu não consigo respirar, Justin. Eu matei uma pessoa.
- Você matou uma mulher que queria ver a nossa família morta, Bruna. -ele tentou se aproximar, mas eu me afastei.
Fui direto para o banheiro da suíte, desesperada para tirar aquela sujeira invisível. Abri o chuveiro no máximo, deixando a água quente cair sobre mim. Entrei debaixo do jato, Justin parando na porta.
Fechei os olhos e comecei a me esfregar com força. Esfreguei meus braços, meu pescoço, meu rosto, tentando apagar o toque da arma, o cheiro de morte. Eu usava tanto sabonete que a espuma escorria em nuvens. Eu precisava que a culpa e o medo fossem embora junto com a água.
A dor na minha pele era a única coisa real que me distraía do horror na minha mente. Minha pele começou a ficar vermelha e irritada, mas eu não parava. Esfregava mais forte, as lágrimas se misturando com a água do chuveiro. Eu solucei, permitindo que a dor física fosse substituída pela dor emocional.
- Isso não vai sair! Eu não consigo tirar! -gritei, a voz falhando.
Eu estava curvada, soluçando histericamente, com as mãos raspando na minha pele já em carne viva, quando senti os braços de Justin me envolverem.
Ele entrou no chuveiro comigo, vestido, ignorando a água que o encharcava. Ele me tirou debaixo do jato, me virou e me segurou contra o peito.
- Chega, amor. -ele sussurrou, a voz carregada de dor.- Você está se machucando.
Ele afastou minhas mãos, que estavam vermelhas e tremendo.
- Você não está suja. Você nos salvou. Eu te amo. E eu vou proteger você de tudo isso.
Ele me segurou ali, debaixo da água, sem dizer mais nada. A dor em meus braços e a segurança do abraço dele eram tudo que eu tinha. Eu não era uma assassina, eu era uma mãe que protegia seus filhos. E ele me faria acreditar nisso.
Justin me tirou debaixo do chuveiro, a água escorrendo dele e de mim. Ele desligou o registro e me envolveu firmemente em uma toalha macia, me secando com ternura e urgência, como se estivesse cuidando de um ferimento.
Ele me carregou para fora do banheiro e me levou até o nosso closet. Com calma metódica, que contrastava com o caos que acabávamos de viver, ele revirou as gavetas.
Pegou uma camiseta dele, larga e macia, e uma calcinha limpa, e me entregou.
- Veste isso. Você precisa se aquecer.
Eu o fiz, meus movimentos lentos e robóticos. O cheiro de Justin na camisa era um bálsamo.
Ele me levou até a cama e puxou os cobertores.
- Deita e descansa. A noite foi longa para todo mundo.
Eu me encolhi sob o edredom, o corpo protestando. Eu estava exausta, mas a mente girava incontrolavelmente.
- Eu não vou conseguir dormir. -confessei, minha voz ainda um sussurro rouco.- Não depois de…
Ele me beijou na testa, um beijo longo e protetor.
- Você vai sim. -ele interrompeu, com uma autoridade suave.- Eu vou ficar aqui até você apagar. Você não está sozinha, Bruna. E você está segura. Nós estamos seguros.
Ele deitou ao meu lado, me puxando para o calor do seu corpo. Ele começou a acariciar meus cabelos, e a repetição suave do gesto, combinada com a exaustão absoluta e a sensação de segurança em seus braços, foi um sedativo poderoso. A última coisa que senti antes de cair em um sono profundo e merecido foi o cheiro dele, me afastando daquele quarto sangrento no Brooklyn.
[...]
Acordei sobressaltada. A luz do sol invadia a janela, e a confusão na minha cabeça demorou a se dissipar. Estiquei a mão para onde Justin deveria estar, mas ele não estava lá. Peguei meu celular que ele havia colocado para carregar na mesa de cabeceira. Três e dez da tarde. Eu havia dormido por horas.
Levantei-me, vesti um short e saí do quarto. Consegui ouvir a bagunça habitual das crianças vindo de baixo, um som de normalidade que era quase ensurdecedor. Passei pelo escritório de Justin. A porta estava fechada, mas ouvi vozes.
Encaminhei-me, sem pensar, e encostei o ouvido na madeira.
Era a voz tensa e urgente de Kenny.
- … A gente se meteu em um problema grande demais. -ele estava dizendo.- Eu já tinha dito que tentar derrubar a Chloe seria algo perigoso. Ela tem recursos, contatos e uma falta de escrúpulos que iriam muito além do que a gente imagina. Ela estava jogando para destruir.
Senti meu corpo congelar. A adrenalina que o sono havia acalmado retornou.
- A morte dela não vai fazer vocês terem uma vida normal, sem medo de sair de casa. -continuou Kenny, e a próxima frase me atingiu como um tiro de raspão.- O pai dela não vai acreditar que foi o Harry quem fez isso. Ele vai caçar com as próprias mãos até descobrir quem foi. Eu já disse: o pai dela é um dos homens mais poderosos e discretos de Chicago.
O chão vacilou sob meus pés. Não estávamos livres; estávamos apenas começando a pagar o preço. Abri a porta de repente, o som do impacto me fazendo sobressaltar.
Justin, Luan, Marina e Kenny estavam sentados ao redor da mesa de mogno, com mapas e papéis espalhados. Todos me olharam, surpresos e tensos.
Fechei a porta atrás de mim. Cruzei os braços, a camisa larga de Justin parecendo um uniforme de proteção.
- Não me venham com mentiras, nem com omissão. Eu ouvi o suficiente. Qual é o próximo passo? -perguntei, minha voz firme apesar do pânico interior.
Kenny suspirou, esfregando a nuca. Ele se virou para a mesa e pegou um maço de documentos.
- O próximo passo é fugir. A documentação está quase toda pronta. As nossas conexões em Brasília estão garantindo que a cidadania brasileira de Justin seja acelerada por meio do casamento com você. O plano é que vocês se mudem para o Brasil. Lá, o pai de Chloe não tem jurisdição, nem o mesmo tipo de poder.
Senti um pequeno raio de esperança, mas ele foi apagado rapidamente pelo olhar de Kenny, que voltou para mim.
- Mas a documentação da Chloe está mais complicada. -ele hesitou.- Vai levar mais tempo, Bruna. Por ela não ser sua filha biológica, o processo de cidadania dela não é direto. Ele não pode ser acelerado.
O choque me atingiu.
- Você está dizendo que podemos ir, mas a Chloe tem que ficar para trás? -perguntei, sentindo meu estômago embrulhar.
Justin se levantou e veio até mim, segurando minhas mãos.
- Não. Não vamos deixar a Chloe. Nós vamos proteger ela. Mas isso significa que temos que adiar a nossa saída. Já era nosso plano, pelo menos assim você termina a faculdade.
Assenti com a cabeça, apesar de que agora enfrentar o campus da Columbia era surreal agora, pois lembraria de Chloe a todo momento, já que só tinha seis meses de sua formatura. Mas era necessário e agora, eu também só tinha seis meses até a minha. Eu teria que sobreviver.
Algumas semanas depois...
Dezembro de 2028
Os dias se arrastaram, transformando o pesadelo daquela madrugada de novembro em uma realidade fria de dezembro. Estávamos vivendo sob uma falsa normalidade.
Apesar do medo constante de pisar fora da porta, aprendemos a arriscar. Consegui ir ao shopping para as compras de Natal — sem seguranças à vista, por pura teimosia. As crianças conseguiam passar alguns minutos no parquinho, mas nunca mais do que vinte minutos, sempre com um olhar cauteloso para os carros que passavam. Aquele medo, imposto pelo pai de Chloe, era o nosso novo normal.
A morte de Chloe e Harry rapidamente se tornou o assunto mais comentado no campus. O choque era evidente, mas juro que nos corredores ouvi alguém agradecer pela morte dela, chamando-a de "vadia". A cena de crime encenada por Kenny foi perfeita; a notícia correu na TV como feminicídio seguido de suicídio. Ninguém questionou a narrativa do marido enlouquecido.
Quanto aos nossos inimigos diretos:
Victor havia sumido. Ele estava com medo. A falha em sequestrar Marina e o destino de Chloe e Harry certamente o convenceram de que era melhor se calar e desaparecer. Para todos os efeitos, ele jurou que ficaria quieto e que o assunto estava encerrado.
Já a Melanie foi o ajuste de contas mais pessoal. Marina teve a conversa que precisava, e sim, rolou porradaria. O resultado foi devastador para Melanie: William e Liana cancelaram todos os seus cartões, William parou de pagar a universidade e ela agora estava trabalhando na lanchonete do campus e fazendo bicos lavando carros. Luke terminou com ela, e a família virou as costas. Os planos para a ceia de Natal eram sem ela, apesar de ela estar tentando se redimir. A traição dela custou-lhe a vida que sempre invejou.
Eu ainda sentia o peso do que fiz. Aquele momento em que ela chamou nossos filhos de "pirralhos nojentos" e o tiro que se seguiu eram a única memória que conseguia acessar com clareza total. A culpa era um hóspede constante. Mas eu havia feito a única coisa que podia. Era ela ou os meus filhos. Era ela ou eu, Justin, Luan e Marina. Coloquei isso na cabeça. Era o preço da nossa sobrevivência.
A casa estava estranhamente silencioso agora que Marina, Luan e Serena tinham voltado para o apartamento deles. Depois de mais de quase dois meses com quatro pessoas e três crianças pequenas na nossa fortaleza, a casa parecia enorme e vazia. Mas era um vazio seguro. Eles estavam a salvo, nós estávamos a salvo, e estávamos tentando manter a normalidade.
Hoje, a missão era a árvore de Natal.
A sala estava um caos glorioso. Justin estava no chão, fingindo que as agulhas do pinheiro artificial o estavam atacando, enquanto Jack passava mais tempo tentando comer os ganchos de plástico do que pendurar os enfeites. Chloe era a mais concentrada, mas a mentalidade dela de "quanto mais alto, melhor" significava que o topo da árvore estava sobrecarregado de bolas coloridas.
- Amor, não pendura todos os unicórnios no mesmo galho! -avisei, rindo, enquanto tentava desvencilhar uma guirlanda do cabelo de Jack.
- Ela é a Chloe! Ela é a rainha dos unicórnios! -Justin gritou, dramaticamente, fazendo uma reverência no chão. A mentalidade de cinco anos dele tornava a tarefa, honestamente, muito mais difícil que a das crianças.
Eu suspirei, pegando uma bola prateada da mão de Jack antes que ele a jogasse na televisão.
- Tenta dizer "bola", amor. "Bola". -tentei, no meu esforço diário para que meus filhos (e marido) falassem português.
Jack me olhou, lambeu a bola prateada e disse algo que soava mais como "Bao!".
- Não, gatinho. "Bola". -insisti.
Chloe se aproximou, carregando um trenó em miniatura.
- Mamãe, preciso da estrela azul. -ela disse, com a convicção de uma nativa.
- Que tal pedir em português, heim? Precisa treinar, amor, no Brasil falamos em português.
Justin se levantou e beijou minha bochecha, sujando meu rosto com glitter da árvore.
- Relaxa, vida. Eles falam inglês, é o que importa. Eu só sei dizer "Eu te amo" e "cerveja" em português, e já é o suficiente para mim. -ele brincou, me fazendo revirar os olhos, mas sorrir.
Apesar da leveza do momento, a sombra da culpa ainda estava ali, sob a superfície. Cada luzinha que piscava na árvore era uma pequena vitória, um lembrete de que eu havia lutado para garantir que aqueles dois pirralhos barulhentos tivessem um Natal.
Olhei para a nossa família. Um marido, uma enteada e um filho, todos seguros. A árvore estava torta, e meu esforço para ensinar português era inútil, mas o calor e o barulho eram reais. Estávamos aqui. E por enquanto, isso era tudo que importava.
- Ok, ok, chega de português por hoje. Justin, você vai no Luan e Marina mais tarde? Temos que combinar a ceia.
- Sim. E Kenny me ligou. Temos um problema. -a voz de Justin ficou séria, e a alegria da cena se quebrou. Ele pegou Jack e me olhou.- É sobre o pai da Chloe.
O meu coração parou. A normalidade acabou. O preço da liberdade estava prestes a ser cobrado.
Justin respirou fundo, com os olhos tensos.
- O pai dela não acreditou na história do feminicídio seguido de suicídio nem por um segundo. Ele é metódico. Ele está vasculhando a cena do crime à distância, usando os próprios contatos. Ele já sabe que as armas usadas para matar Chloe e Harry não pertenciam ao Harry. A farsa do Kenny não o enganou.
O medo me atingiu com a força de um soco. Todo o risco, o tiro, a culpa... tudo foi em vão.
- Mas ele sabe que fomos nós? -perguntei, a voz falhando.
- Não. E essa é a nossa única vantagem. Ele não faz a menor ideia de quem nós somos. Ele não imagina que temos envolvimento. Para ele, somos pessoas comuns. Mas ele vai nos caçar. Ele não vai parar até descobrir.
A ameaça era real, invisível, e vinda de um homem poderoso em Chicago.
- O que Kenny disse sobre o nosso plano de fuga? -perguntei, lembrando-me da única saída que tínhamos.
Justin me puxou para um abraço apertado, me beijando o topo da cabeça.
- Por isso também irei na casa do Luan e Marina. Precisamos nos encontrar com eles agora. Eles vão para São Paulo no próximo mês, seus pais e a casa da Marina e do Luan lá serão o nosso porto seguro.
- E nós? perguntei, já sabendo a resposta.
- Nós só vamos em Maio. Eu preciso ganhar tempo para resolver a documentação de Chloe e você tem que se formar. Não posso arriscar levá-la sem os papéis de cidadania em ordem. Vamos passar o Natal e o Ano Novo com o Luan e a Marina. Depois, eles vão. E nós ficamos, aqui, sendo o alvo, até tudo se ajeitar e também irmos.
Ele me olhou nos olhos, a decisão fria e resoluta.
- O jogo não acabou, Bruna. Apenas trocamos de inimigo.
[...]
Mais alguns dias se passaram, e finalmente era dia 25 de Dezembro. O dia de Natal chegou com uma neve suave caindo lá fora e um silêncio pesado aqui dentro.
Acabamos decidindo passar o Natal apenas nós quatro — eu, Justin, Chloe e Jack — junto com Luan, Marina e Serena. Era um grupo pequeno e unido, o nosso próprio círculo de segurança.
O resto da família estava espalhado: meus pais permaneceram no Brasil. O William foi passar o Natal com a família de Ashley. Liana, mãe de Marina, estava de plantão no hospital com seu marido, Josh. Pattie viajou para Toronto. E Melanie... bom, ninguém se importou em saber onde ela estava. Ela havia garantido seu próprio isolamento.
Os presentes estavam debaixo da nossa árvore torta. Tentamos nos agarrar à nostalgia. Eu tentei assar um Chester — que é o mais próximo que consigo de uma ceia brasileira aqui nos EUA. E, claro, tínhamos que ter os suéteres combinando. Eram ridículos, bregas e feios, mas vestimos mesmo assim. Era o que as famílias americanas faziam, e naquele dia, desesperadamente, queríamos ser apenas uma família normal.
Apesar de eu nunca me acostumar com o jeito diferente de comemorar o Natal aqui, sem a loucura, o calor e a algazarra da família brasileira, a quietude era bem-vinda.
O nosso Natal, apesar de tudo, foi sobre tentar resgatar a alegria das crianças. Sabíamos que, com a separação temporária marcada para Janeiro, aqueles momentos eram preciosos.
Justin e eu não economizamos. Os presentes estavam espalhados pelo chão, uma montanha de papel de embrulho colorido. É claro que compramos para Jack, Chloe e Serena. Assim como Marina e Luan também fizeram. Não havia distinção. Éramos uma família.
Chloe ganhou um castelo enorme e um monte de unicórnios que ela abraçou como se fossem a coisa mais importante do mundo. Já Jack, estava obcecado por um caminhão de bombeiros vermelho que fazia barulho, e corria pela sala com o alarme ligado.
Serena era a mais adorável. Ela não entendia bem o que era presente, mas amou as luzes e o som de uma mesinha de atividades que a ajudaria a aprender português.
No meio da bagunça, Marina e eu nos encontramos na cozinha, bebendo um café forte.
- Foi um bom Natal. -ela sussurrou, observando as crianças brincando.
- Foi um Natal de sobrevivência. -corrigi, mas sorri.
Ela me deu um olhar sério.
- Janeiro está chegando, Bruna. Você e o Justin têm que prometer que vão ficar nas sombras. O pai da Chloe não é a Chloe.
- Nós vamos. -garanti.- Mas você também tem que prometer: amanhã você tem que se cuidar.
Ela franziu a testa.
- O que quer dizer?
- Amanhã você volta para Los Angeles, não é? A festa de encerramento do filme, a pré-estreia. -eu disse, a voz baixa.- E o Victor estará lá.
O rosto de Marina empalideceu. Ela havia se concentrado tanto na nossa fuga que parecia ter esquecido que o seu trabalho a forçaria a ficar cara a cara com o homem que tentou sequestrá-la.
- Eu preciso ir. -ela disse, com a voz tensa.- É o meu trabalho.
- Eu sei. Mas ele te quer, Marina. Ele já falhou em te pegar uma vez. Promete que você não vai ficar sozinha. Promete que você será mais esperta do que ele.
Ela me abraçou forte, e senti sua determinação.
- Eu prometo, Bruna. Eu vou me cuidar. E eu volto para Nova York para o Réveillon.
A montanha de presentes e os suéteres feios eram apenas uma fachada. O Natal foi, na verdade, uma despedida tensa. Sabíamos que, no próximo mês, nosso círculo de segurança seria quebrado e a vigilância de Chicago começaria de verdade, mas antes disso, Marina precisava sobreviver à ameaça de Victor em Los Angeles.
Depois que a última onda de risadas e o barulho dos brinquedos cessaram, a casa finalmente mergulhou em um silêncio restaurador. Justin e eu trabalhamos em equipe, cada um colocando um de nossos filhos na cama. Jack adormeceu agarrado ao seu caminhão de bombeiros, e Chloe, com o castelo de unicórnios montado aos pés da cama.
A rotina era um bálsamo.
Encontrei Justin no nosso quarto. Ele estava de costas para a porta, tirando o suéter feio de Natal. Aquele tecido brega parecia o único vestígio da normalidade daquele dia.
O clima entre nós era tenso. Não havia mais a loucura da raiva, nem a histeria do medo. Havia apenas a necessidade fria de concluir o que começamos.
- Será que ees já chegaram no apartamento deles? -perguntei, fechando a porta suavemente atrás de mim.
- Sim. Luan e Marina estão em casa. E o Luan já está armando uma barricada na porta. Ele não está feliz com essa viagem da Marina. Nenhum de nós está.
Eu me aproximei dele.
- Ela precisa ir. É o trabalho dela. Mas o Victor é o nosso último problema aqui. Se ele nos expuser, toda a proteção do Kenny e toda a nossa fuga serão arruinadas.
Justin se virou e me abraçou, o calor do seu corpo sendo a minha única certeza.
- Eu sei. Mas a Marina tem o Luan. E eles têm um plano. O Victor não vai agir lá. Ele é um ator, Bruna. Ele vai querer o palco.
Eu me afastei, olhando para ele. A hora de ser a esposa protetora havia acabado; agora era hora de ser a estrategista.
- Qual é o plano, Justin? Além de torcer para o Luan não quebrar a cara do ator principal do filme da sua irmã?
Ele sorriu, mas o sorriso não alcançou seus olhos.
- O Kenny enviou dois dos melhores homens dele para Los Angeles, dessa vez, são 100% de confiança. Eles vão estar na sombra da Marina. Mas o plano final não é sobre segurança, é sobre chantagem.
Justin pegou o celular e me mostrou uma foto. Era Victor, mas não no red carpet. Ele estava em uma situação comprometedora, que não deixava dúvidas sobre suas atividades ilegais.
- Victor nos traiu por dinheiro e pela obsessão pela Marina. O Kenny rastreou a vida dele, e descobriu que ele é mais sujo do que imaginávamos. O Luan e a Marina vão confrontá-lo na festa. Não para brigar. Mas para mostrar a ele o que o Kenny tem e dar a ele a escolha: Sumir e ficar em silêncio. Ou ter a vida dele arruinada para sempre.
A solução era tão suja quanto o nosso problema. E funcionaria.
- Então, a guerra acaba em Los Angeles. E em Janeiro, Luan, Marina e Serena partem para São Paulo, levando o nosso segredo para longe do pai de Chloe. -concluí.
- Exatamente. E em maio, nós os encontramos. E finalmente estaremos seguros.
Ele me beijou, e o beijo era uma promessa de futuro.
O beijo de Justin se aprofundou, varrendo para longe toda a sujeira e o medo daquela longa noite de Natal. Ele me beijava com a urgência de quem havia passado a noite no limite do inferno.
- Eu estou morrendo de saudades de você. -ele murmurou contra minha boca, e eu senti a verdade em suas palavras.
- Eu também estou morrendo de saudades de você. -respondi, puxando-o para mais perto.
Seu beijo desceu, quente e úmido, para a lateral do meu pescoço, e eu agarrei seus cabelos. Era uma necessidade mútua, uma forma desesperada de nos reconectarmos ao prazer e à vida, longe da morte e da violência.
Afastei-o por um instante, a respiração ofegante.
- Vamos tomar banho juntos? -propus, a voz rouca.
Seus olhos escuros brilharam com um desejo intenso.
- Na hora.
Eu sorri, virando-me e começando a me despir na sua frente. Deixei o suéter ridículo deslizar pelo meu corpo, o olhar dele queimando cada pedaço da minha pele. O desejo em seus olhos era o único fogo que eu queria sentir. Saí na sua frente, guiando o caminho até o nosso banheiro.
Eu decidi ligar a banheira. O som da água enchendo a porcelana era um som relaxante, um contraste com o silêncio da noite anterior.
Justin apareceu logo atrás de mim, totalmente despido, uma visão de tirar o fôlego. Ele me puxou pela cintura e me virou para ele, o corpo quente e familiar contra o meu. O beijo que se seguiu era cheio de desejo, alívio e promessa.
Claro, aqui está a continuação da narrativa em primeira pessoa, mantendo o tom intenso e emocional do seu texto.
A água escaldante cascateava na banheira, enchendo o ambiente com um vapor denso e perfumado pelo óleo de banho que eu havia derramado. O ar pesava com o cheiro de lavanda e o desejo palpável que Justin emanava. Ele não me soltou, suas mãos percorrendo minha cintura, meus quadris, como se estivesse rememorando cada curva, cada linha do meu corpo após uma longa e terrível separação.
Nosso beijo era uma conversa silenciosa, cada toque de língua, cada mordidinha suave uma palavra de um juramento que só nós entendíamos. Eu sussurrei seu nome contra seus lábios, um som rouco e quebrado, e ele me levantou com uma facilidade que ainda me surpreendia, colocando-me dentro da banheira antes que a água transbordasse.
Ele entrou atrás de mim, as águas se agitando e contornando nossos corpos. Sentada entre suas pernas, com as costas contra seu peito, eu deixei minha cabeça recostar em seu ombro. Seus braços me envolveram, uma fortaleza de carne e osso, e por um longo momento, ficamos apenas assim, imersos no calor e no silêncio, ouvindo apenas a respiração ofegante um do outro e o leve borbulhar da água. Suas mãos, antes firmes, começaram a percorrer meu corpo submerso com uma devoção que me fez tremer.
- Você é a única coisa real para mim, Bruna. -ele sussurrou, sua voz um rosnado grave no meu ouvido, e a verdade daquelas palavras ecoou no meu próprio peito.
Virei-me dentro da água, enfrentando-o. Seus olhos castanhos claros, sempre tão intensos, agora eram poços de pura adoração e necessidade. A água escorria em filetes por seus músculos definidos, e eu segui o caminho de uma gota com a ponta dos dedos, do seu peito até o abdômen rígido. A banheira era nosso mundo agora, um santuário de porcelana onde apenas nós existíamos.
Ele me puxou para outro beijo, mais lento, mais profundo, mas com a mesma urgência subjacente. Minhas mãos se enterraram em seus cabelos molhados, puxando-o com uma gentileza feroz. Eu precisava sentir que ele era meu, que aquele momento era nosso, um refúgio contra o caos que havíamos enfrentado.
- Justin. -gemi, quando seus lábios abandonaram os meus e traçaram um caminho ardente pelo meu pescoço, pelos meus ombros.
Suas mãos deslizaram para as minhas coxas, abrindo-me sob a água, e então ele me levantou, sentando-me de frente para ele, sobre seus quadris. O contato foi eletrizante. Um arrepio percorreu toda a minha espinha, e um suspiro rouco escapou dos meus lábios. Ele me encarou, seus olhos procurando permissão, confirmação, e tudo o que eu pude fazer foi anuir, quase sem fôlego.
- Eu te amo. -ele disse, a voz carregada de uma emoção crua, e então ele me baixou sobre ele, preenchendo-me de uma vez, completamente.
Um gemido abafado ecoou no banheiro, e eu não soube se foi dele ou meu. Ficamos imóveis por um instante infinito, apenas sentindo, reconectando, fundindo. A água ondulava suavemente ao nosso redor, um contraste suave com a tempestade que se avolumava dentro de nós.
Então, começamos a nos mover. Era uma dança lenta e primordial, um ritmo que só nossos corpos conheciam. Cada movimento para dentro era uma promessa de amanhã, cada recuo um adeus aos fantasmas do passado. Meus braços se enrolaram em seu pescoço, e eu enterrei o rosto na curva do seu ombro, saboreando o sabor salgado de sua pele, a firmeza de seus músculos sob meus lábios.
Seus dedos se apertaram em meus quadris, guiando-me, ditando um ritmo que se tornava cada vez mais desesperado. A água batia contra as laterais da banheira, espumando ao nosso redor. O mundo exterior havia deixado de existir. Havia apenas o calor da água, o som de nossa respiração sincronizada, e a sensação avassaladora dele dentro de mim, preenchendo cada espaço vazio, não apenas físico, mas da minha alma.
- Não pare. -supliquei, minha voz um sussurro ofegante.- Por favor, não para.
Ele não parou. Seus movimentos se tornaram mais profundos, mais possessivos. Um calor começou a se acumular na base do meu ventre, uma tensão deliciosa que se espalhava como fogo por todas as minhas veias. Eu me agarrei a ele, meus dedos marcando sua pele, meu corpo arqueando em uma curva perfeita de puro prazer.
- Olha para mim. -ele ordenou, suave, mas firme.
Abri os olhos, encontrando o seu olhar. Naqueles olhos, eu vi não apenas o desejo, mas o amor, o alívio, e a promessa de um futuro que havíamos conquistado juntos. Foi aquela conexão, mais do que qualquer coisa física, que me levou ao limite.
- Justin! -gritei seu nome quando o orgasmo me atingiu, uma onda avassaladora de pura sensação que fez meu corpo estremecer e tremer violentamente contra o dele.
Ele me segurou mais forte, seu próprio rosto contraído em um êxtase silencioso antes de um gemido gutural escapar de seus lábios, e eu senti o calor dele inundando meu interior, completando a nossa fusão.
Por um tempo que pareceu eterno, ficamos ali, ofegantes, entrelaçados, com a água morna nos envolvendo como um cobertor. Aos poucos, a respiração foi se acalmando, e os tremores deram lugar a uma languidez profunda e satisfeita.
Ele gentilmente reposicionou-nos, deitando-se atrás de mim na água, envolveu-me com seus braços e encostou o queixo no meu ombro. Não dissemos uma palavra. Nenhuma era necessária. O beijo no início da noite havia sido uma promessa, e esta união, sob a água quente e as luzes suaves do banheiro, havia sido a sua confirmação mais íntima e poderosa. O futuro, não importava o que trouxesse, seria enfrentado juntos.