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Capítulo 140

Marina Narrando

A pergunta do Luan caiu no silêncio da sala como uma pedra. Não era uma pergunta de curiosidade, era uma exigência. A festa tinha acabado, as máscaras de fantasia tinham sido tiradas, e agora ele queria que as outras máscaras, as que Bruna e Justin vinham usando há semanas, caíssem também.

Olhei para a minha cunhada e para o meu irmão. A exaustão em seus rostos era mais profunda do que a de uma simples festa. Era algo antigo, pesado. Vi Justin olhar para a Bruna, uma conversa silenciosa passando entre eles. Ela deu um aceno quase imperceptível, uma permissão. Estava na hora.

Justin respirou fundo, passando as mãos pelo rosto. Ele não olhou para nós, mas para um ponto vazio no tapete, como se estivesse reunindo forças para revisitar um lugar terrível.

- Começou há pouco mais de dois meses. -ele disse, a voz baixa e sem vida.- Uns dias depois do casamento de vocês. Eu recebi uma mensagem. Uma foto.

Ele fez uma pausa, e eu senti um calafrio percorrer minha espinha.

- Era uma foto da Chloe e do Jack no parque. Tirada de longe. E uma mensagem dizendo... "Sua família é linda. Seria uma pena se algo acontecesse com ela."

Senti minha mão voar para a boca. Bruna, que estava sentada na minha frente, não se moveu, mas eu vi a dor da memória em seus olhos. Ela estava revivendo aquilo conosco.

- A gente achou que era um fã maluco, alguém querendo dinheiro. Reforçamos a segurança. -Justin continuou, o maxilar travado.- Mas então... na época em que vocês estavam no meio do furacão... eu recebi outra.

Meu coração martelava no peito. Luan estava imóvel ao meu lado.

- Era uma foto da nossa viagem para a Disney. -ele disse, e agora ele ergueu o olhar e me encarou.- A gente estava em frente ao castelo. A Marina estava de costas, ajeitando a mochila. O Luan estava com a Serena no colo. Eu, com o Jack, e a Bruna, com a Chloe. Alguém estava lá, nos observando.

A memória daquele dia feliz, um dos últimos momentos de pura e inocente alegria que tivemos todos juntos, foi instantaneamente manchada, corrompida. Eu me senti violada, meu passado reescrito com uma presença sinistra que eu nem sabia que estava lá.

- E mês passado... -a voz dele ficou ainda mais baixa, mais dura.- Depois que deixamos vocês em casa, quando voltaram de viagem, no carro... eles atiraram na gente. O carro é blindado. Ninguém se feriu. Mas eles tentaram.

O ar saiu dos meus pulmões. Tiros. Tinham atirado neles. Olhei para a Bruna, para o jeito como ela se encolheu sutilmente ao ouvir as palavras. A cena na festa. A explosão dela com a Melanie. A tensão. O medo nos olhos dela que eu confundi com preocupação por nós. Tudo fez sentido. Um sentido horrível e aterrorizante.

Meu irmão e minha cunhada não estavam apenas preocupados conosco. Eles estavam vivendo seu próprio furacão. Uma tempestade silenciosa, humana e talvez, muito mais perigosa que a nossa.

Lágrimas brotaram em meus olhos, mas não de medo por mim. De dor por eles. Por tudo que passaram sozinhos, em silêncio, enquanto tentavam nos salvar de um desastre, eles estavam no meio de outro.

O silêncio que se instalou na sala era mais pesado do que qualquer tempestade. A história deles pairava no ar, um fantasma de fotos clandestinas, ameaças veladas e balas de verdade. Eu olhava para a Bruna, para a força que ela demonstrou na festa, e agora entendia a fonte daquela fúria. Era medo. Um medo profundo e aterrorizante pela vida dos seus filhos.

Luan, que estava rígido como uma estátua ao meu lado, finalmente se moveu. Ele se levantou, andando de um lado para o outro na frente da lareira apagada, as mãos na cabeça.

- Eu não... eu não consigo acreditar. -ele disse, a voz rouca de raiva contida. Ele parou e se virou para a irmã.- Por que vocês não contaram pra gente antes?

A pergunta saiu cheia de dor. A dor de ter sido excluído, de não poder ter ajudado.

- Contar o quê, Luan? -Bruna respondeu, a voz embargada.- Ligar pra vocês na lua de mel e dizer "Oi, aproveitem o sol, mas só pra avisar, estamos sendo ameaçados"? Ou te ligar enquanto você estava no meio de um furacão e falar "Se sobreviver, tem mais um pesadelo te esperando em casa"? A gente não ia jogar mais esse peso em vocês.

Coloquei a mão no braço do Luan, tentando acalmá-lo. Eu entendia a raiva dele, mas também entendia o sacrifício deles.

- Vocês passaram por tudo isso sozinhos... -falei, olhando para Bruna e Justin.- Eu sinto muito. Sinto muito mesmo.

- Quem são eles? -Luan perguntou, a raiva dando lugar a uma necessidade fria de informação.- Já tem ideia de quem tá fazendo isso?

Justin nos contou. Sobre Nathan, sobre o advogado dele, o Austin. Sobre a conexão com a antiga empresa do Scooter. Cada detalhe era uma peça de um quebra-cabeça doentio que se montava à nossa frente.

- E qual é o plano agora? -perguntei.

- O plano era esperar. -Justin disse, o maxilar travado.- Esperar eles cometerem um erro. Mas depois de hoje à noite, depois de ver o medo nos olhos da Bruna... o plano mudou. A gente vai caçar.

Um novo silêncio se instalou, mas desta vez, era diferente. Era um silêncio de propósito compartilhado. Luan parou de andar e se sentou ao meu lado de novo.

- Ok. -ele disse, a voz firme.- Então a gente vai caçar. Juntos.

Ele olhou para mim, depois para o Justin e a Bruna.

- A gente não vai pra casa hoje à noite. Vamos ficar aqui com vocês.

Não foi uma pergunta. Foi uma declaração. A fortaleza do Justin e da Bruna não era mais só deles. Era nossa. 

Vi o alívio inundar o rosto da Bruna, uma onda que pareceu suavizar um pouco da tensão que a enrijecia.
- Claro que vocês ficam. -ela disse, a voz embargada.- O quarto de hóspedes está sempre pronto.

Justin assentiu, o olhar passando entre mim e Luan, uma gratidão silenciosa em seus olhos. 

A fortaleza deles, que antes era um lugar de isolamento para eles, agora era um refúgio para todos nós.

Enquanto os meninos começaram a falar em voz baixa sobre as câmeras de segurança e os procedimentos para a manhã seguinte, eu me levantei e fui até a Bruna. Ela me olhou, e eu a abracei, com força.

- Você não está mais sozinha nisso. -sussurrei em seu ouvido.

Senti os braços dela me apertarem de volta.

- Eu sei. -ela respondeu, a voz abafada no meu ombro.- Isso... já ajuda mais do que você imagina.

Nos afastamos, e um entendimento profundo passou entre nós. A irmandade que sempre tivemos, agora forjada em um novo tipo de fogo.

- Bom... -Justin disse, quebrando o momento, a voz prática assumindo o controle.- O dia foi longo. Para todos nós. Acho que a gente precisa tentar dormir um pouco. A manhã vai chegar rápido.

Concordamos. Luan e eu fomos para o quarto de hóspedes, deixando Bruna e Justin na sala de estar, em meio aos destroços coloridos da festa. Não havia clima de celebração. Havia apenas a quietude de uma casa em alerta máximo e a certeza de que a noite seria longa e de pouco sono. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu sabia que não enfrentaríamos a manhã seguinte sozinhos. E isso, por si só, era uma arma poderosa.

A manhã seguinte chegou sem alarde. Dormir de verdade foi impossível. Passei a noite em um estado de alerta, cada rangido da casa me fazendo pular, meu cérebro processando a nova e terrível realidade em que tínhamos mergulhado. Quando abri os olhos, Luan já estava acordado, sentado em uma poltrona no canto do quarto de hóspedes, apenas observando a luz cinzenta do amanhecer entrar pela janela. Ele não precisava dizer nada; eu sabia que ele tinha passado a noite em vigília.

Descemos as escadas em silêncio. A casa estava quieta, mas a bagunça da festa tinha sido limpa, provavelmente por uma equipe durante a noite. O que restava eram as decorações de Halloween, que agora pareciam sinistras e fora de lugar na luz da manhã. As teias de aranha falsas e os fantasmas sorridentes eram uma zombaria da ameaça real que nos cercava.

Encontramos Bruna na cozinha. Ela já estava de pé, vestida, preparando panquecas no fogão, uma imagem de calma e normalidade que eu sabia que era uma performance de pura força de vontade. No tapete da sala adjacente, as crianças brincavam. Jack e Chloe montavam uma torre de blocos, e a minha Serena tentava, com sua coordenação de um aninho, empilhar um bloco em cima do outro, derrubando tudo e rindo.

Justin estava encostado na bancada, o celular na orelha, falando em uma voz tão baixa que era quase um sussurro. A postura dele era tensa. Ele era o general no seu centro de comando.

Fui até a Bruna, pegando a espátula da mão dela.

- Deixa que eu continuo. Vai tomar um café.

Ela me deu um pequeno sorriso de gratidão, os olhos cansados. 

Justin desligou o telefone e se virou para nós, a expressão sombria.

- O Kenny disse que o Miller não saiu do apartamento a noite toda. O Blackwell também não. Estão parados.

- E qual é o nosso papel nisso? -Luan perguntou, entrando na cozinha. Sua voz era a de um homem que não estava acostumado a ficar parado.- A gente só fica aqui sentado esperando?

- Por enquanto, sim. -Justin respondeu, a voz dura.- O nosso papel é este. -ele apontou com a cabeça para as crianças rindo no tapete.- É manter a normalidade. Manter eles seguros e completamente alheios a tudo isso. A equipe do Kenny está cuidando do resto. Eles estão esperando que os nossos alvos nos levem até quem está por trás de tudo.

Olhei para a minha filha, para os meus sobrinhos. Eles viviam em um mundo de panquecas, blocos de montar e fantasias. Um mundo que nós quatro, agora, éramos a muralha que os protegiam. A espera era uma tortura, mas Justin estava certo. Nossa missão, a mais importante de todas, era garantir que o mundo deles continuasse a ser exatamente assim: barulhento, feliz e seguro. O resto era apenas ruído de fundo.

Foi quando senti. Uma vibração no bolso do pijama de flanela que a Bruna tinha me emprestado na noite anterior.

Por um segundo, achei que fosse uma notificação de notícias, um e-mail sem importância. Peguei o celular rapidamente, o gesto automático, distraído.

E então, o pior aconteceu.

A tela se iluminou, não com um e-mail, mas com uma mensagem de texto. De um número desconhecido. Havia uma foto. E um texto. Meu cérebro processou a foto primeiro. Era a Serena. Mas não era uma foto que eu tirei. Ela estava no carrinho de bebê, no parquinho perto do nosso apartamento, rindo para um passarinho no chão. Foi tirada de longe, com zoom, a imagem levemente granulada. Tinha sido tirada há dias, antes de tudo, antes de sequer sonharmos com ameaças. Alguém a estava observando. Alguém estava observando minha filha há muito tempo.

E então, meus olhos desceram para o texto abaixo da foto.

"Achou que o furacão foi assustador? Você ainda não viu nada. Fique longe do que não é seu."

O ar foi roubado dos meus pulmões. O mundo inteiro pareceu inclinar-se, as cores da cozinha se esvaindo para um cinza opaco. Minhas mãos, que antes seguravam o celular, perderam toda a força. O aparelho escorregou dos meus dedos, caindo no chão de madeira com um baque surdo que ecoou no silêncio que se formou na minha cabeça.

Todos os olhares se viraram para mim. Eu continuei parada, congelada, os olhos fixos no aparelho virado no chão, como se ele fosse uma bomba prestes a explodir. Eu não conseguia respirar. O ar estava preso nos meus pulmões, denso e venenoso.

- Marina? O que foi?

A voz do Luan foi a primeira a quebrar o silêncio. Ele estava ao meu lado em um instante, as mãos em meus ombros, tentando me virar para ele. Mas eu não conseguia desviar o olhar do chão.

- O que aconteceu? -a voz da Bruna era tensa, um reconhecimento assustado do que aquela minha reação poderia significar.

Luan seguiu meu olhar até o celular. Ele se agachou, pegou o aparelho e o virou.

Vi o rosto dele mudar. A confusão deu lugar à incredulidade, e a incredulidade, a uma fúria fria e sombria que eu nunca tinha visto em seus olhos antes. A mão dele se fechou com tanta força ao redor do celular que eu achei que ele fosse esmagá-lo.

- O que é isso? -Justin perguntou, se aproximando.

Luan não respondeu. Apenas estendeu o celular para que Justin e Bruna pudessem ver. 

Eu observei os rostos deles enquanto liam a mensagem. Vi o choque nos olhos do Justin se transformar em uma raiva gelada. Vi a mão da Bruna voar para a boca, os olhos se enchendo de lágrimas de empatia e horror. Eles sabiam. Eles entendiam. O monstro que os assombrava agora tinha batido na nossa porta.

- Desgraçados. -Luan sussurrou, a voz um rosnado baixo. Ele me puxou para seus braços, me envolvendo em um abraço protetor que tremia de raiva.- Eles tiraram uma foto da nossa filha.

Foi só então, segura nos braços dele, que meu corpo finalmente reagiu. Comecei a tremer, um tremor violento e incontrolável, enquanto o significado completo daquela mensagem me atingia. "Fique longe do que não é seu." Uma ameaça. Uma ordem. Mas sobre o quê?

- Kenny precisa ver isso. Agora. -Justin disse, a voz dura, já pegando o celular da mão do Luan.

Ele se afastou, discando um número, a voz baixa e urgente. Bruna veio até mim, nos envolvendo, a mim e ao Luan, em um abraço, as três crianças brincando no tapete a poucos metros de distância, completamente alheias ao fato de que nosso mundo tinha acabado de encolher e se tornar um lugar infinitamente mais perigoso.

A bolha de normalidade que tentamos criar naquela manhã tinha estourado. A guerra não era mais apenas deles. Agora, era nossa também.

Justin desligou o telefone, o rosto uma máscara impenetrável.

- O Kenny está vindo para cá. Ele vai pegar seu celular e levar para a equipe de análise. -ele disse, a voz dura e profissional.

Bruna, que ainda me abraçava, se afastou um pouco, mas manteve as mãos em meus ombros, me forçando a olhá-la. Havia uma determinação feroz em seus olhos, a mesma que eu vi na noite anterior, mas agora, era direcionada a mim, a nós.

- Marina, escuta. -ela disse, a voz firme.- Agora é melhor vocês ficarem aqui. O apartamento de vocês... a foto da Serena foi tirada perto de lá. Já não é mais um lugar seguro para vocês ficarem.

Ela olhou para o Luan, garantindo que ele também estava ouvindo.

- Eu vou pedir para o Kenny mandar dois homens de confiança dele buscarem as coisas de vocês. Roupas, o que for essencial. Mas vocês não vão voltar para lá. Vocês vão ficar aqui conosco.

Eu suspirei, um som longo e trêmulo que pareceu carregar todo o peso da nossa nova realidade. Minha casa, meu refúgio, também tinha sido violada. Estávamos sem teto, de certa forma, prisioneiros naquela mansão dourada junto com eles. O medo e o pânico ainda rodopiavam dentro de mim, ameaçando me afogar.

Mas então, pensei na imagem do meu celular. A foto da minha filha. A ameaça. E o medo começou a se transformar em outra coisa. Em brasa. Em fúria.

Fechei os olhos por um segundo, tentando por minha cabeça no lugar. Eu não sou frágil. Eu sobrevivi a um furacão. Eu pulei entre telhados. Eu não vou desmoronar agora. Quem quer que esteja fazendo isso vai pagar. Vai pagar caro. Porque não está mais apenas se metendo com meus sobrinhos, com a família do meu irmão. Agora, está se metendo com a minha filha. E isso, eu nunca vou perdoar.

Abri os olhos e encontrei o olhar da Bruna. Ela viu a mudança em mim. O tremor tinha parado. O desespero tinha dado lugar a uma determinação fria. Ela não precisava mais me consolar. Ela tinha uma aliada. E o inferno não se compara à fúria de duas mães protegendo suas crias.

Justin ainda segurava meu celular, prestes a entregá-lo para o Kenny, que acabara de entrar na cozinha. Mas antes que ele pudesse dar um passo, o aparelho vibrou e tocou em sua mão, o som estridente cortando o ar pesado da sala.

Todos nós congelamos. Nossos olhares se cruzaram em um pânico silencioso. Quem estava ligando? Seria... ele?

Justin olhou para a tela, e a expressão de raiva em seu rosto se transformou em pura confusão.

- É um contato salvo. -ele disse, virando a tela para mim.- Domingo González.

Domingo. O diretor. Uma voz do meu outro mundo, o mundo do trabalho, dos roteiros, das câmeras. Parecia uma ligação de um planeta distante. Peguei o celular da mão do Justin, o coração ainda martelando, mas por um motivo diferente agora. Respirei fundo, tentando forçar uma normalidade que eu não sentia, e atendi, me afastando um pouco do grupo.

- Oi, Domingo.

- Marina, querida! -a voz dele explodiu do outro lado da linha, animada e cheia de energia, um contraste brutal com o silêncio mortal da nossa cozinha.- Tenho notícias maravilhosas! O estúdio amou o corte final! "Nossa Culpa" já tem data de estreia!

Eu fechei os olhos, tentando processar. Estreia. Filme. Mundo normal.

- Uau. -consegui dizer, a voz saindo fraca.- Que... que ótimo, Domingo.

- Ótimo? É perfeito! -ele continuou, alheio ao meu estado.- Acabei de te mandar um e-mail com o pôster final para você divulgar nas suas redes, quero criar um buzz! E também te mandei toda a agenda de imprensa, as entrevistas, os programas de TV. Vamos ter muito trabalho nos próximos dois meses para a divulgação do filme. Você está pronta?

Pronta? Eu estava de pé em uma cozinha que tinha se tornado um centro de comando de crise, meu marido e meu irmão discutindo protocolos de segurança, e a foto da minha filha estava nas mãos de um psicopata. Pronta?

- Sim. -menti, a palavra arranhando minha garganta.- Sim, claro, Domingo. Vou ver o e-mail. A gente se fala.

Desliguei antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Virei-me e encarei minha família. Eles me olhavam, esperando.

Olhei para o celular em minha mão, a ferramenta que tinha acabado de me trazer uma ameaça de morte e um cronograma de entrevistas para a TV. A insanidade da nossa situação me atingiu em cheio. Eu teria que sorrir para as câmeras, falar sobre um romance fictício, enquanto vivia um thriller de terror na vida real.

- O mundo lá fora continua girando, né? -sussurrei, um riso sem humor escapando dos meus lábios. O show, ao que parecia, tinha que continuar.

Me movi pela cozinha, terminando de preparar o café da manhã, o ato de virar panquecas e passar café se tornando uma meditação, uma forma de impor ordem no caos que se instalara em minha mente.

Nós nos sentamos à mesa. Uma cena quase absurdamente normal. Bruna colocava suco para o Jack. Justin lia algo no celular, a testa franzida. E as crianças, alheias a tudo, eram o centro barulhento e feliz do nosso universo.

- Mamãe, por que a manteiga se chama manteiga? E não... sei lá, amarela?

A voz da Chloe, cheia de uma curiosidade genuína de seus três anos, cortou a tensão.

- E por que o leite se chama leite? Ele é branco. Podia se chamar branco.

Bruna respondeu com uma paciência de santa, engajando na lógica infantil dela. Ao meu lado, Luan alimentava a Serena com pedacinhos de banana, fazendo um aviãozinho com a colher, e o sorriso banguela da nossa filha era a única coisa que parecia fazer sentido no mundo.

E eu, no meio daquele refúgio familiar, estava trabalhando. Peguei meu celular, ignorei a mensagem de ameaça que ainda estava ali, e abri o Instagram.

Encontrei o e-mail do Domingo, baixei a imagem do pôster. Nós dois, Victor e eu, o título "Nossa Culpa" em letras garrafais sobre nós. Meu estômago se revirou. Culpa. Parecia apropriado.

Comecei a digitar a legenda, as palavras soando falsas e ocas na minha cabeça. Cada palavra era uma mentira, uma máscara. Eu estava vendendo um conto de fadas enquanto vivia um pesadelo.

Olhei para cima, por cima da tela do celular. Vi Luan limpando a boca da nossa filha. Vi Chloe explicando para o Jack por que o "branco" (leite) era gostoso. Vi Bruna e Justin trocando um olhar silencioso e cansado.

Era por isso. Era por eles. O show tinha que continuar para que o mundo deles não parasse. Para que os monstros que nos assombravam no escuro não roubassem a luz do sol deles.

Respirei fundo e apertei o botão "Compartilhar".

marinabieber O amor que te fez suspirar está de volta. 💞
Nick e Noah retornam em Nossa Culpa, disponível dia 27 de dezembro no Prime Video. ✨🎬
O post estava no ar. A Marina atriz estava de volta ao trabalho. E a Marina mãe, esposa, irmã, cunhada e tia estava sentada à mesa, aterrorizada, lutando a batalha da sua vida em silêncio.

Alguns dias depois...

Os dias se passaram, e com eles, a adrenalina deu lugar a uma exaustão crônica, um medo constante que se tornou o ruído de fundo das nossas vidas. Estávamos na metade de novembro, e a sensação não era de progresso, mas de retrocesso.

A investigação, que começou com um foco claro, havia se desfeito. Depois de semanas de vigilância e rastreamento, Kenny chegou a uma conclusão frustrante: Nathan e Austin não tinham nada a ver com as ameaças. Eles eram apenas os abutres de sempre, envolvidos em seus próprios negócios escusos, mas a linha que os ligava à Ithaca Ventures e, por consequência, a nós, era uma coincidência cruel. Para nós, foi um sinal de fracasso. Voltamos à estaca zero, com um inimigo sem rosto e mais perigoso do que imaginávamos.

Fizemos uma lista. Sentados à mesa da cozinha na casa da Bruna, cada um de nós escreveu nomes de qualquer pessoa que pudesse querer nosso mal. A lista era longa e deprimente. E no topo da minha, com uma dor no coração, eu escrevi o nome da minha irmã. Melanie. Eu não queria acreditar, mas a mágoa, a inveja, o jeito como ela explodiu na festa... tudo a tornava uma suspeita. Mas, no fundo, eu sentia que não era ela. Ameaçar crianças, atirar para matar... não. Isso era outro nível de maldade.

A vida, apesar de tudo, tinha que continuar, mesmo que parecesse uma farsa. Bruna, cercada por seguranças à paisana, continuava indo para a faculdade, determinada a não deixar que eles roubassem sua formatura. Luan, por outro lado, deu uma pausa nos shows. A decisão foi mútua e dolorosa. A ideia dele, de pé em um palco, um alvo perfeito sob as luzes... tínhamos medo de que ele tomasse um tiro. Não podíamos arriscar.

Mas eu... eu tinha uma agenda para cumprir. Um contrato para honrar. A expectativa sobre "Nossa Culpa" era gigante. "Minha Culpa" foi um sucesso estrondoso, "Sua Culpa" também, e o estúdio não iria adiar a divulgação do último filme da trilogia por nada.

E foi por isso que eu estava ali, em um avião, a caminho de Los Angeles. Sozinha. Quer dizer, sozinha se você não contar os dois seguranças discretos, mas enormes, sentados três fileiras atrás, uma cortesia da paranoia combinada de Luan e Justin. Eles jamais me deixariam sair de casa sem ninguém na minha cola.

Me hospedei no mesmo hotel onde a coletiva de imprensa aconteceria. Teria que ficar ali por três dias, um ciclo de entrevistas, fotos e sorrisos forçados. E, para completar o cenário bizarro, eu teria que rever o Victor.
A ideia me deixava com o estômago revirado. Rever Victor seria um tanto estranho, para dizer o mínimo. Ex-namorado. Ex-ficante. O homem que apareceu no meu casamento com um convite que eu não entreguei. E, claro, meu par romântico, o Nick, com quem eu teria que fingir uma química apaixonada na frente das câmeras do mundo todo.

Minha vida era um circo. E eu era a atração principal, sorrindo no trapézio sem rede de proteção.

O jantar de recepção do elenco era exatamente como eu me lembrava: um mar de sorrisos brancos, taças de champanhe e conversas que flutuavam na superfície das coisas. Eu me movia pelo salão, desempenhando meu papel, rindo de piadas sobre o catering e discutindo planos de férias com atrizes que eu mal conhecia. Era uma performance, e eu estava exausta antes mesmo de a noite começar de verdade.

Eu estava em um pequeno grupo, discutindo a impossibilidade de se manter uma dieta em Los Angeles, quando uma voz familiar se juntou a nós.

- Só se você considerar um taco de peixe como salada, o que, na minha opinião, é totalmente válido.

Virei-me e lá estava ele. Victor. O mesmo sorriso charmoso, os mesmos olhos que pareciam saber de tudo. Ele se integrou ao grupo com facilidade, e a conversa continuou por mais alguns minutos. Aos poucos, como sempre acontece nesses eventos, as pessoas foram se afastando para cumprimentar outras, até que, de repente, restamos apenas nós dois, parados perto de uma janela com vista para as luzes da cidade.

Um silêncio um pouco desconfortável se instalou entre nós.

- Marina, escuta... -ele começou, o tom mais sério agora.- Sobre o seu casamento... eu queria pedir desculpas de novo por toda a confusão. Foi idiotice minha aparecer daquele jeito.

Eu dei um pequeno aceno de cabeça, querendo acabar com aquele assunto o mais rápido possível.

- Sem problemas, Victor. Já passou. Espero que você tenha aproveitado a festa, depois de tudo.

- Sim, eu aproveitei. -ele disse, um sorriso voltando ao seu rosto.- E você estava linda. De verdade. Parecia... feliz.

- Eu sou feliz. -respondi, a voz um pouco mais firme do que eu pretendia.

- Eu sei. -ele disse, parecendo genuíno. Ele tomou um gole de sua bebida.- Por falar em casamentos, você não vai acreditar. Na semana retrasada, fui ao casamento do Harry e da Chloe.

O nome dela me atingiu como um pequeno choque elétrico. Chloe. Senti meu sorriso congelar no rosto, tornando-se algo fixo e artificial. Uma onda de memórias indesejadas – brigas em corredores de faculdade, nas festas, provocações, o veneno em seu sorriso – passou pela minha mente em uma fração de segundo. Claro. Era só o que faltava para essa viagem ficar ainda mais bizarra.

Consegui manter minha voz neutra, mas sei que a luz em meus olhos se apagou.

- Ah. Harry e Chloe. -falei, a palavra saindo com um esforço.- Uau. Então eles realmente se casaram.

A surpresa na minha voz era genuína. A alegria, nem um pouco. O passado, ao que parecia, tinha um péssimo hábito de nunca ficar para trás.

Victor deu um sorriso, completamente alheio à tempestade que o nome "Chloe" havia desencadeado em mim.

- Sim, casadíssimos. -ele continuou, tomando mais um gole de sua bebida.- O Harry até me chamou para ser o padrinho. Loucura, né? Eles se formaram tem pouco tempo, finalmente terminaram a faculdade.

- Que bom para eles. -forcei as palavras a saírem, o sorriso ainda colado no meu rosto. Eu só queria que ele mudasse de assunto.

Mas ele não mudou. Na verdade, ele se inclinou um pouco, uma expressão de leve confusão no rosto.

- Foi um pouco estranho, na verdade. -ele disse, a voz mais baixa.- A Chloe. Ela perguntou estranhamente muito sobre você. E sobre a sua família.

Meu sangue gelou. A fachada de normalidade que eu estava lutando tanto para manter se estilhaçou por dentro. Mantive meu rosto impassível, mas meu coração começou a bater descontroladamente.

- Como assim? -perguntei, a voz soando surpreendentemente calma.

- Ah, sei lá. -ele deu de ombros, tratando como uma fofoca boba.- Perguntou como você estava, se estávamos nos falando, perguntou do Luan, da Bruna... um monte de coisas. Quase como se estivesse fazendo uma entrevista. Achei bizarro, considerando que vocês se odeiam.

Bizarro. A palavra ecoou na minha mente. Não era bizarro. Era um alarme. Um alarme ensurdecedor.

A lista. A lista de suspeitos que fizemos na cozinha da Bruna. Melanie estava no topo da minha. Mas a Chloe... eu nem tinha pensado nela. Uma inimiga declarada minha e da Bruna. Alguém com um passado com o Luan. Alguém que me odiava com todas as forças. E que, de repente, no meio de tudo isso, estava fazendo perguntas específicas sobre a nossa família.

A coincidência era grande demais para ser ignorada. O ar pareceu ficar mais fino. O barulho da festa ao meu redor desapareceu.

- Que estranho mesmo. -falei, a voz cuidadosamente neutra.- Que tipo de perguntas, exatamente, ela fez sobre a Bruna?

Victor me olhou, talvez finalmente percebendo a intensidade no meu olhar. A noite tinha acabado de mudar de rumo. Não era mais sobre sobreviver a um jantar de elenco. Era sobre, talvez, ter encontrado uma pista do monstro que estava nos caçando.

Victor franziu a testa, tentando vasculhar a memória, completamente alheio ao redemoinho de pânico e adrenalina que suas palavras tinham criado em mim.

- Sobre a Bruna? -ele repetiu, pensativo.- Ah, sei lá... coisa boba. Perguntou em que área da moda ela estava se especializando. Perguntou se ela e o Justin ainda moravam no mesmo lugar. Coisas assim.

A última frase me atingiu como um soco. Se ela e o Justin ainda moravam no mesmo lugar.

Não era uma pergunta de fofoca. Era uma pergunta de reconhecimento. De logística. A pergunta de alguém que queria confirmar um endereço. Minha mente conectou os pontos em uma velocidade aterrorizante: a foto das crianças no parque perto da casa deles, a tentativa de assassinato no carro deles. E agora, a minha inimiga declarada, que também odiava a Bruna, perguntando se o endereço delas continuava o mesmo.

A suspeita não era mais uma possibilidade remota. Era uma certeza gelada que se instalou no meu peito.

Eu precisava sair dali. Eu precisava avisá-los.

Forcei uma risada, um som oco e falso.

- Ah, a Chloe sendo a Chloe. -falei, tentando soar entediada.- Sempre curiosa sobre a vida dos outros. Nada de novo.

Dei um passo para trás, criando uma distância segura.

- Bom, se me dá licença, Victor, eu preciso ir ao toalete. Foi bom te ver.

- Claro, a gente se fala... -ele começou a dizer, mas eu já estava me virando.

Caminhei para longe dele, o corpo rígido, forçando meus pés a se moverem em um ritmo normal e calmo. Cada passo era uma tortura. Sorri para um ator que passou por mim, um aceno de cabeça para outro. A performance da minha vida. Assim que virei um corredor e saí do seu campo de visão, a fachada desmoronou.

Corri.

Não me importei com os saltos ou com os olhares estranhos. Corri até encontrar uma pequena varanda de serviço, empurrando a porta e saindo para o ar frio da noite. O som da festa se tornou um zumbido distante. Eu estava sozinha.

Com as mãos tremendo tanto que mal conseguia segurar o aparelho, peguei meu celular. Meu polegar voou sobre a tela, passando por Luan, por Bruna. Eu precisava de quem estava no comando da guerra.

Disquei o número do Justin. O telefone chamou uma, duas vezes. Cada toque era uma agonia.

- Atende, atende, atende... -supliquei para o telefone, o coração martelando contra as costelas. O inimigo tinha um rosto. E eu precisava avisar a minha família.

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Marina Rhode Bieber Tem 18 anos, é natural de Los Angeles, é meia-irmã de Justin, irmã de Melanie e mora em Nova York, caloura da Columbia. Justin Drew Bieber Tem 18 anos, é natural de London (Canadá), é meio-irmão de Marina e Melanie, mora em Nova York, calouro da Columbia. Luan Rafael Domingos Santana Tem 18 anos, natural de Campo Grande, recém chegado em Nova York, é irmão gêmeo de Bruna, calouro da Columbia. Bruna Domingos Santana Tem 18 anos, natural de Campo Grande, recém chegada em Nova York, é irmã gêmea de Luan, caloura da Columbia. Melanie Marie Bieber Tem 17 anos, natural de Los Angeles, irmã mais nova de Marina e meia-irmã de Justin, estudante do último ano do Ensino Médio. Olivia Sidney Mitchell Tem 18 anos, natural de Londres, mora em Nova York, caloura da Columbia. Virginia Weston Yeardley 18 anos, natural de Washington, mora em Nova York,  caloura da Columbia. Chloe Araya Collins 19 ...

Capítulo 93

Marina Narrando Já era segunda-feira e minha cabeça estava a mil. Eu caminhava pelos corredores do estúdio com uma mão apoiada na barriga já bem arredondada e um café descafeinado na outra, tentando organizar todos os pensamentos que martelavam desde o fim de semana. Eu ter voltado com o Luan… ainda parecia surreal. Quando deitamos no sofá ontem à noite e ele me puxou pra perto, me chamando de “minha namorada” com aquele sorriso bobo, eu senti um alívio no peito que não sabia que precisava. Mas também… tinha o outro lado. O post sobre a Bruna e nossa amizade, explodindo nas redes sociais. Eu vi cada comentário de ódio direcionado a ela e era revoltante. Pior ainda porque, embora os fatos estivessem todos distorcidos, eles não eram totalmente mentira.  Quando cheguei à sala de reunião no set, já estavam todos lá. O elenco completo, produtores, roteiristas, técnicos. Era aquele burburinho animado de sempre, todo mundo empolgado porque a divulgação do segundo filme já ia começar, com ...

Capítulo 91

Luan Narrando  Eu senti meu peito subir e descer rápido, ainda sem conseguir me afastar dela. Marina tava ali, entre os meus braços, a respiração dela quente contra a minha pele, e tudo em mim gritava pra não soltar. Aquela boca… aquele gosto dela… eu não lembrava quanto era viciante até provar de novo. Me sentei melhor no sofá, trazendo-a junto, acomodando-a no meu colo com cuidado por causa da barriga. Ela deixou escapar um riso nervoso quando ajeitei as mãos na cintura dela, quase como se pedisse permissão outra vez. - Você fica linda assim… -murmurei perto do pescoço dela, sentindo o cheiro do cabelo, descendo uma mão até descansar na curva do quadril.- …tão linda que eu fico até meio burro. Ela soltou uma risadinha, mas arfou quando minha mão subiu devagar pelas costas dela, desenhando a curva da coluna por baixo da blusa. Eu sentia a pele dela arrepiar debaixo dos meus dedos. - Luan… -ela murmurou, meio que em protesto, mas sem força nenhuma pra realmente me parar. - Shhh… -p...