Bruna Narrando
A vida continuava em uma rotina forçada, uma bolha de normalidade que criamos para as crianças. Luan e eu passávamos os dias inventando brincadeiras, montando fortes de almofadas e lendo as mesmas histórias de novo e de novo. Justin passava a maior parte do tempo em seu escritório, transformado em um centro de comando, em ligações constantes com o Kenny e sua equipe.
Naquela noite, as crianças finalmente dormiam. Luan e eu estávamos sentados na sala, fingindo assistir a um filme, mas nenhum de nós estava prestando atenção. O silêncio era pesado, preenchido apenas pela ansiedade que se tornara nossa companheira constante.
Justin desceu as escadas, o celular na mão, o rosto cansado. Ele se sentou na poltrona em frente a nós, prestes a nos dar o resumo do dia – "sem movimento, tudo quieto" – quando o telefone em sua mão tocou, o som fazendo nós três pularmos.
Ele olhou para a tela, a testa franzida.
- É a Marina.
Meu coração apertou. Uma ligação dela a essa hora, no meio do seu cronograma de imprensa... não podia ser bom.
- Marina? O que foi? Aconteceu alguma coisa? -Justin atendeu, a voz imediatamente cheia de preocupação.
Observei o rosto dele mudar enquanto ele ouvia. A preocupação deu lugar à confusão, e a confusão, a uma expressão de choque e descrença. Ele se sentou mais reto na poltrona, os olhos arregalados.
- Espera, o quê? -ele disse, a voz baixa e tensa.- A Chloe? Que tipo de perguntas?
Chloe.
O nome caiu no meio da sala silenciosa, e para mim, soou como o estalo de um chicote. Olhei para o Luan, e vi seu rosto se fechar, a mandíbula se contrair. Anos de memórias ruins, de confrontos e de um ódio antigo e amargo, associados àquele nome.
Justin continuou ouvindo, passando a mão livre pelo cabelo em um gesto de pura incredulidade.
- Ok. Sim. Entendi. -ele disse, finalmente.- Fica segura. Não saia do hotel. A gente se fala em breve.
Ele desligou e ficou encarando o telefone, como se não pudesse acreditar no que tinha acabado de ouvir.
- O que foi? -Luan perguntou, a voz dura.
Justin ergueu o olhar, e havia um novo tipo de horror em seus olhos.
- Era a Marina. Ela encontrou o Victor no jantar do elenco. Ele contou que foi ao casamento do Harry e da Chloe há algumas semanas.
Ele fez uma pausa, nos encarando.
- E que a Chloe passou a noite fazendo perguntas sobre nós. Sobre a Bruna. Perguntou se a gente ainda morava no mesmo lugar.
O ar saiu dos meus pulmões. O fantasma que nos assombrava, o inimigo sem rosto que estava nos caçando... de repente, tinha um rosto. Um rosto que eu conhecia muito bem. Um rosto que eu odiava desde a faculdade.
A ameaça não era profissional. Não era sobre o Scooter. Era pessoal. E tinha sido desde o início. Nosso inimigo era uma garota mesquinha da faculdade que, aparentemente, nunca superou o passado.
Senti raiva, porque a Chloe, até eu me casar e entrar de férias antecipadas por causa de tudo isso, ainda era uma assombração na minha vida. Ela me provocava nos corredores da faculdade, com comentários maldosos e olhares de desprezo. Normalmente eu retrucava com um sarcasmo afiado que a deixava sem palavras, ou, o que a irritava ainda mais, simplesmente a ignorava e a deixava falando sozinha no meio do corredor. Virgínia e Olívia estavam de prova; elas viram inúmeras vezes. Mesmo depois da Marina, do Luan e do Justin terem saído da faculdade, ela continuou lá, um fantasma no meu dia a dia acadêmico, uma lembrança constante de que o drama nunca acabava.
Talvez a raiva maior dela viesse do fato de eu ter namorado o Harry por um tempo. Lembro-me claramente do quão possessiva ela era. Mesmo sendo seu ex na época, ela agia como se ele fosse sua propriedade, proibindo as outras meninas de ficarem com ele. E eu, claro, quebrei a regra dela. Pelo menos agora ela se contenta que ele é, finalmente, seu marido.
Mas... isso? Ameaçar crianças? Tentar nos matar? Olhei para o Justin, para o Luan. Será que ela faria tanto mal assim para a minha família? O ódio dela por mim era tão grande a ponto de justificar uma tentativa de assassinato?
A resposta, infelizmente, parecia óbvia. Ela não odiava apenas a mim. Ela odiava a Marina com a mesma intensidade, talvez até mais, depois da humilhação pública que a Marina a fez passar anos atrás. Nós duas, sem dúvida alguma, estávamos no topo da lista de inimigas dela.
- Então é ela. -a voz do Justin cortou o silêncio, fria como aço. Ele não estava mais chocado. Estava em modo de caça.
Ele pegou o celular e discou o número do Kenny. Não houve gentilezas.
- Kenny. Temos outro alvo. -ele disse, a voz baixa e letal.- O nome é Chloe Araya Collins, recém-casada com Harry Manley Preston. Eu quero tudo. Registros financeiros, históricos de viagem, com quem ela tem falado, onde ela tem estado. Quero saber até o que ela comeu no café da manhã. Ligue para a Marina de novo, pegue todos os detalhes que o Victor puder dar. Eu quero um dossiê completo na minha mesa amanhã de manhã.
Ele desligou. O ar na sala parecia elétrico.
- A gente não pode só esperar, Justin! -Luan explodiu, a calma que ele vinha mantendo finalmente se quebrando.- Ela ameaçou as crianças. Ela atirou em vocês!
- E o que você sugere, Luan? -Justin retrucou, a voz ainda controlada, mas com uma borda afiada.- Que a gente vá até a casa dela e bata na porta? A gente precisa ser mais esperto. Precisamos entender o jogo dela antes de fazer o nosso movimento.
Eu passei as mãos pelo cabelo, a cabeça latejando.
- Depois de tanto tempo... por quê? -sussurrei, a pergunta que queimava na minha mente.- Só por causa do Harry? Por causa da faculdade? Não faz sentido. O nível de maldade, o dinheiro envolvido...
- Talvez não seja só por isso. -Justin disse, os olhos fixos em um ponto na parede, as engrenagens em sua mente girando visivelmente.- Talvez ela estivesse conectada ao Scooter o tempo todo. A gente viu o Nathan e o Austin no escritório dele. Quem garante que ela também não estava lá? Talvez ela esteja tentando assumir o lugar dele, se vingar por ele. A gente não sabe.
A teoria dele era aterrorizante, mas fazia um sentido doentio. A vingança pessoal de Chloe, financiada pela rede de contatos sombria do Scooter. Não éramos apenas o alvo do ódio dela. Éramos um negócio inacabado.
Ficamos em silêncio, absorvendo a nova e assustadora dimensão do nosso problema. O fantasma finalmente tinha um rosto, um que conhecíamos muito bem. E saber quem era o monstro, de alguma forma, era ainda mais aterrorizante do que lutar no escuro.
No outro dia...
Na manhã seguinte, a casa estava mergulhada em um silêncio pesado. A adrenalina da noite anterior deu lugar a uma ansiedade expectante. Justin e eu ficamos no escritório dele, o epicentro da nossa crise. Era super cedo, o sol mal tinha decidido aparecer, pintando o céu de Nova York com um cinza pálido e frio.
Eu estava sentada no colo dele, na sua grande cadeira de couro, meus braços envoltos em seu pescoço. Ele estava tenso; eu podia sentir a rigidez em seus ombros, a maneira como seus dedos traçavam círculos distraídos na minha pele. Suas mãos estavam nas minhas coxas expostas, que estavam arrepiadas, tanto pelo seu toque quanto pelo vento frio do novembro nova iorquino que entrava teimosamente pela fresta da janela. Eu ainda estava com o shorts do meu pijama.
Luan não havia acordado ainda. A pequena Serena acabou ficando com febre durante a madrugada, uma reação tardia ao estresse ou apenas um resfriado comum, mas o resultado foi o mesmo: ele passou a noite em claro com ela no colo, que chorava baixinho pedindo pela mamãe. Meu coração doía por eles, por mais essa provação. Jack e a minha Chloe também dormiam profundamente em seus quartos, alheios à vigília dos pais. Não eram nem sete da manhã.
Kenny disse que viria às 07:30 com o dossiê completo sobre a Chloe. E desde então, Justin e eu estávamos ali, esperando. O silêncio era preenchido apenas pelo tique-taque de um relógio e pela nossa respiração. Encostei minha cabeça em seu ombro, buscando conforto. Ele era a minha fortaleza, e eu, a dele.
Eu podia sentir a tensão percorrendo seus músculos, a preocupação gravada em cada linha do seu rosto. Ele olhava para a janela, para a cidade que despertava, mas eu sabia que sua mente estava a quilômetros de distância, traçando cenários, planejando defesas.
Foi então que ele falou, a voz um sussurro tão baixo que quase se perdeu no silêncio.
- Eu estive pensando no que você disse naquela noite do Halloween.
Virei meu rosto para olhá-lo, esperando.
- Seu plano de fuga. -ele continuou, seus olhos finalmente encontrando os meus. Havia uma seriedade neles que fez meu coração parar por um segundo.- Eu confesso que estava pensando seriamente em esperar você se formar pra gente ir embora daqui.
Eu o encarei, sem entender completamente.
- Eu estou considerando a gente se mudar para o Brasil.
A frase caiu no ar. Eu o encarei, chocada, a boca entreaberta. Brasil. Mudar. A gente. Não era mais o meu plano de emergência para mim e para as crianças. Era o plano dele. Para nós.
- Justin... -sussurrei, a voz falhando.- A sua vida, a sua carreira... está tudo aqui. Você não pode estar falando sério.
-Minha vida é você. -ele respondeu, a voz firme, sem um pingo de dúvida. Suas mãos subiram das minhas coxas para a minha cintura, me segurando com firmeza.- É você e as crianças. O resto... o resto é só barulho. A gente pode fazer funcionar. Eu monto um estúdio lá, gravo de lá. Faço menos turnês, fico mais em casa. A gente fica seguro. Nós quatro. Juntos. É a única coisa que importa.
Lágrimas brotaram em meus olhos, mas desta vez não eram de medo. Eram de um amor tão profundo, de uma gratidão tão avassaladora, que eu não conseguia falar. Aquele homem, que tinha o mundo aos seus pés, estava genuinamente disposto a deixar tudo para trás, a virar sua vida de cabeça para baixo, apenas para que nos sentíssemos seguros.
Antes que eu pudesse responder, o som do interfone soou pela sala, agudo e insistente. Olhamos para o relógio na mesa. 07:30 em ponto.
Kenny.
Justin me deu um último aperto na cintura, um acordo silencioso de que nossa conversa não tinha acabado. Mas, por enquanto, o futuro teria que esperar. O presente, com todas as suas ameaças, estava batendo à nossa porta.
Descemos e encontramos Kenny na porta. A presença dele, sempre tão calma e imponente, trazia consigo o peso da realidade. Justin o levou direto para o escritório, e eu os segui, o coração martelando em antecipação.
Kenny não perdeu tempo. Ele abriu um tablet sobre a mesa do Justin e começou o relatório, a voz um monotrilho de fatos.
- A informação da Marina estava correta. -ele disse, mostrando uma imagem na tela.- Chloe Collins também viajou para a Disney na mesma época que vocês. O histórico da compra está aqui, na fatura do cartão de crédito dela. Passagens e um passe de um dia para o parque.
A confirmação visual fez meu estômago revirar. Aquele monstro estava lá, nos observando, enquanto nossos filhos riam com o Mickey.
- Financeiramente, ela é inteligente. -Kenny continuou, passando para outra tela cheia de números e diagramas.- Ela tem feito transferências bancárias regulares para contas laranjas, difíceis de rastrear. Mas... -ele fez uma pausa, e seu olhar encontrou o nosso.- Encontramos algumas transferências diretas que eu acho que vocês não vão gostar de ver.
Ele virou o tablet em nossa direção. E nos mostrou.
Não era um número de conta. Era um nome. Um nome que fez o sangue gelar nas minhas veias.
Melanie Marie Bieber.
O nome da irmã da Marina e do Justin, claro como o dia, listado como destinatária de múltiplas transferências.
- Pelo menos umas quatro vezes nos últimos seis meses. -Kenny explicou, apontando para as datas na tela.- E são valores altos.
Meus olhos seguiram o dedo dele. Uma transferência uma semana antes do casamento da Marina, na despedida de solteira. Outra, dois dias depois. E a mais recente, a que me fez perder o fôlego, tinha a data de um dia depois da festa de Halloween aqui em casa.
Justin ficou rígido ao meu lado, os olhos fixos na tela, a incredulidade se transformando em uma fúria silenciosa e assustadora.
Melanie. A irmã invejosa. A garota que fez um escândalo no casamento. A tia que queria levar nossos filhos para a rua no meio de uma crise de segurança. Não era apenas um drama familiar. Era uma traição. Ela estava sendo paga. Ela era parte disso.
A cobra não estava apenas do lado de fora do portão. Nós a tínhamos convidado para entrar, para a nossa festa, para perto dos nossos filhos. E o veneno dela era muito mais letal do que jamais poderíamos ter imaginado.
Justin e eu ainda estávamos processando a traição de Melanie quando Kenny passou para a próxima tela do tablet. Eram fotos. Fotos de um casamento ensolarado e feliz. O casamento de Chloe e Harry.
E lá estava ela. Melanie. Sorrindo, em um vestido de seda, ao lado da noiva. Uma das madrinhas. Em outra foto, ela estava rindo com Chloe e outras duas garotas que eu reconhecia de longe: Lauren e Alicia, as cobras melhores amigas da Chloe, seu pequeno séquito de maldade. Elas pareciam um clã.
Claro que a Chloe está pagando a Melanie. A Melanie é invejosa, sempre foi. Faz mal para a própria irmã por puro ciúmes, por se sentir a segunda opção, a menos amada. A Chloe, mestra em manipulação, viu esse sentimento podre e o usou. Usou a Melanie, a irmã da Marina e do Justin, para ter um acesso sem precedentes à nossa vida, às nossas rotinas, às nossas vulnerabilidades. Ela nos plantou uma espiã, e nós a recebemos em nossa casa.
- Mas... e o Scooter? -Justin perguntou, a voz rouca, tentando entender como tudo se conectava.
Kenny balançou a cabeça, e a expressão em seu rosto era a mais sombria que eu já tinha visto.
- Não há conexão. -ele disse, e essa simples frase demoliu toda a nossa teoria.- A holding nas Ilhas Cayman era um beco sem saída deliberado, para nos despistar. Chloe tem muito dinheiro. O pai dela é um dos homens mais poderosos e discretos de Chicago. Ela tem o seu próprio império para brincar.
Ele nos olhou, e eu senti um peso em suas palavras que ia além do profissional.
- Justin, Bruna. Tentar derrubá-la legalmente... seria algo perigoso demais. Até para mim, que já vi de tudo nessa vida. Ela tem recursos, contatos e uma falta de escrúpulos que vão muito além do que a gente imaginava. Ela não é uma jornalista querendo um furo. Ela está jogando para destruir. E ela tem o poder para isso.
O ar no escritório ficou rarefeito. O meu plano de caçar, a promessa do Justin de acabar com isso... tudo pareceu ingênuo diante daquela avaliação.
- E é por isso... -Kenny continuou, a voz agora mais baixa, quase solidária- que eu tomei a liberdade de seguir as suas ordens, Bruna. Mas com urgência máxima. Eu já estou agilizando todo o processo de legalização para o Justin e para a Chloe, para que possam ter residência permanente no Brasil.
Olhei para o Justin, e vi em seu rosto a mesma coisa que eu sentia. Derrota. O nosso plano Z, a nossa rota de fuga desesperada, tinha acabado de se tornar o plano A. O nosso chefe de segurança, o homem treinado para lutar, estava nos dizendo que a melhor estratégia, agora, era nos preparar para correr.
- Isso é tudo o que eu tenho por enquanto. -Kenny concluiu, fechando a capa do tablet.- Se souber de mais alguma coisa, aviso imediatamente.
E com um aceno de cabeça, ele saiu do escritório, fechando a porta atrás de si. O clique da fechadura soou como a porta de uma cela, nos trancando com aquela verdade horrível. Justin e eu ficamos sozinhos, imersos em um silêncio pesado, nos sentindo completamente impotentes.
Eu me levantei do colo dele e comecei a andar pelo escritório, os braços cruzados, tentando conter o turbilhão de emoções dentro de mim.
- Eu quero lutar essa guerra, Justin. -falei, a voz baixa e cheia de uma raiva frustrada.- Eu quero ir atrás delas com tudo o que a gente tem. Mas... -parei, olhando para a porta, na direção dos quartos das crianças.- A que custo? A gente estaria expondo demais nossos filhos. Eles precisam ter uma vida normal. Poder sair, brincar no parquinho... há quanto tempo eles já estão sem poder sair de verdade? A gente montou um parquinho para eles no quintal de casa, mas não é a mesma coisa. Eles são apenas crianças.
Justin afundou na cadeira, a cabeça entre as mãos.
- Eu estou tão decepcionado. -ele murmurou, a voz abafada.- Eu não esperava nada disso vindo da Melanie. Eu nem sei como a gente vai contar isso pra Marina.
O pensamento de contar para a Marina, de adicionar essa traição ao trauma que ela já carregava, me partiu o coração. Ela estava em Los Angeles, tentando trabalhar, tentando se curar. Isso a destruiria.
- A gente não vai contar pra ela agora. -decidi, a voz mais firme. Fui até ele, colocando a mão em seu ombro.- Primeiro, a gente tem que contar para o Luan.
Justin ergueu o olhar para mim.
- Ele está aqui. Ele tem o direito de saber. E ele é meu irmão. -falei, sentindo a força da nossa ligação de gêmeos.- Ele vai nos ajudar a pensar na melhor forma de contar para a Marina. Mas ele precisa saber o que estamos enfrentando. Agora.
Justin assentiu, a exaustão gravada em cada linha do seu rosto. A próxima tarefa do nosso pesadelo estava definida. E seria uma das mais difíceis até agora.
Justin se levantou da cadeira e veio até mim, parando a centímetros do meu rosto. A proximidade dele era elétrica, um refúgio no meio da nossa própria casa. Seus olhos, cansados e cheios de preocupação, procuraram os meus.
- Eu só queria que as coisas voltassem ao normal, como antes. -ele sussurrou, a voz carregada de um cansaço que ia além do físico.
- Eu também. -respondi, levando minha mão ao seu rosto, acariciando sua bochecha.- Mas a gente vai ter um recomeço. Logo. Eu prometo.
Ele fechou os olhos por um instante, inclinando-se contra o meu toque. E então, ele aproximou a boca da minha e me beijou.
Não foi um beijo qualquer. Não foi um beijo de conforto ou de carinho. Foi um beijo de tirar o fôlego. Urgente, desesperado, cheio de uma saudade que não era apenas de dias, mas de uma paz que havíamos perdido. Seus braços me envolveram, me pressionando contra a mesa do escritório, a boca dele devorando a minha como se ele estivesse morrendo de sede.
Faz tempo. Fazia tanto tempo que a gente não tinha um momento íntimo nosso. Nós andamos tão preocupados, tão imersos no medo e na estratégia, que acabamos deixando de lado o sexo, a nossa conexão. Apesar dos desejos, fizemos umas rapidinhas algumas vezes desde que as ameaças começaram, mas não tinha clima. Era algo mecânico, uma necessidade física rápida, e não um ato de amor. E eu me sentia culpada. Culpada por desejar meu marido no meio da situação em que estamos, como se a luxúria fosse uma traição à gravidade do nosso perigo.
Mas ali, naquele beijo, naquela urgência, eu sabia que ele também sentia o mesmo. A mesma saudade, a mesma necessidade de se sentir vivo, a mesma culpa. Aquele beijo não era só desejo. Era um grito. Um grito silencioso de duas pessoas se afogando, se agarrando uma na outra como um bote salva-vidas, uma afirmação desesperada de que, apesar de tudo, ainda estávamos ali. Vivos. E juntos.
O beijo quebrou, e nós nos separamos apenas o suficiente para respirar, as testas coladas, os olhos fechados. O mundo exterior, com seus medos e suas listas de suspeitos, desapareceu. Só existia o som da nossa respiração ofegante, o cheiro dele, a sensação de suas mãos firmes na minha cintura.
- Fica comigo. -ele sussurrou, a voz rouca, não era uma pergunta, mas uma súplica.
Eu não respondi com palavras. Apenas o beijei de novo, com toda a saudade, toda a angústia e todo o amor que eu sentia. Suas mãos me levantaram com facilidade, e ele me sentou sobre a sua grande mesa de carvalho, afastando papéis e um laptop com um gesto impaciente. O frio da madeira polida contra a minha pele arrepiada foi um choque, mas o calor do corpo dele me envolvendo logo em seguida foi tudo o que importava.
Ali, no nosso centro de comando, na nossa sala de guerra, nós abandonamos a estratégia. Deixamos de lado as defesas. Por um momento, não éramos os pais protetores ou os alvos de uma conspiração. Éramos apenas um homem e uma mulher, se agarrando desesperadamente um ao outro, buscando na pele e no toque a certeza de que ainda estavam vivos.
Cada beijo, cada carícia, era uma tentativa de apagar as imagens de horror que assombravam nossas mentes. As fotos, o carro alvejado, os nomes dos nossos inimigos. Nós substituímos o medo pelo desejo, a ansiedade pela paixão. O sentimento de culpa que me assombrava por querer meu marido em meio ao caos se dissolveu. Isso não era uma fraqueza. Era a nossa arma mais forte. Era a nossa afirmação de vida contra as sombras que tentavam nos consumir.
Depois, deitados no pequeno sofá de couro no canto do escritório, envoltos em um silêncio íntimo e ofegante, eu me senti em paz pela primeira vez em semanas. O corpo dele ao meu lado, o peso do seu braço sobre mim, era a única segurança que eu realmente precisava.
Foi quando ouvimos. Passos leves no corredor do andar de cima. O som suave de uma porta se abrindo. Luan.
O mundo real estava acordando.
Justin e eu trocamos um olhar. Um olhar que dizia tudo. O nosso momento roubado, a nossa trégua, tinha acabado. Mas algo havia mudado. Aquele ato de amor não tinha resolvido nossos problemas, mas tinha nos reabastecido. Tinha nos lembrado pelo que estávamos lutando.
Levantamo-nos em silêncio, começando a nos vestir, a armadura do dia a dia sendo colocada de volta no lugar. Mas agora, por baixo dela, havia uma nova força, uma conexão reforçada. Estávamos prontos.
Justin me deu um último olhar, um aceno de cabeça que dizia "estamos juntos nisso", e abriu a porta do escritório.
Encontramos Luan na cozinha, exatamente como eu imaginei. Ele estava de costas para nós, preparando uma mamadeira, provavelmente para a Serena que deveria ter acordado. A postura dele estava curvada pelo cansaço da noite mal dormida, e meu coração se apertou. Ele estava exausto, preocupado com a filha, e nós estávamos prestes a jogar uma bomba em seu colo.
- Luan... -comecei, a voz mais suave do que eu pretendia.
Ele se virou, e o olhar cansado em seu rosto se tornou inquisitivo ao ver nossas expressões sérias.
- O que foi? Tiveram novidades?
Justin fechou a porta da cozinha, nos isolando do resto da casa. Ele se encostou na bancada, os braços cruzados.
- A Marina estava certa. -Justin disse, sem rodeios.- A Chloe está por trás de tudo.
Vi a raiva familiar brilhar nos olhos do Luan, mas não havia surpresa. Depois da ligação da noite anterior, era a conclusão que todos esperávamos.
- E... -continuei, a garganta seca, sabendo que a próxima parte era a que iria destruí-lo.- Ela não está agindo sozinha. O Kenny encontrou transferências bancárias. Da Chloe... para a Melanie.
Luan me encarou, o rosto uma máscara de confusão. Ele balançou a cabeça, uma risada curta e sem humor escapando de seus lábios.
- Não. Impossível. -ele disse, como se a ideia fosse a coisa mais absurda do mundo.- A Melanie? Ela é... ela é família. Ela é sua irmã, Justin... E da Marina.
- Ela recebeu quatro pagamentos nos últimos seis meses, Luan. -a voz do Justin era dura, factual, não deixando espaço para dúvidas.- Um antes e um depois do casamento de vocês. E o último, um dia depois da festa de Halloween.
O rosto do meu irmão desmoronou. A negação deu lugar à compreensão, e a compreensão, a uma dor e uma fúria tão profundas que me fizeram recuar um passo. Ele não gritou. Ele não explodiu. Ele apenas ficou ali, parado, o rosto pálido, enquanto a realidade da traição o atingia em cheio. Seus olhos se encheram de uma dor que eu conhecia, a dor de ser traído por alguém que você deveria poder confiar.
- A Marina... -ele sussurrou, a primeira coisa que conseguiu dizer. O nome da sua esposa, a preocupação por ela superando sua própria dor.- Isso vai destruir a Marina.
- E é por isso que não vamos contar para ela. -falei, me aproximando dele.- Não por telefone. Não enquanto ela está sozinha em Los Angeles.
Os três nos olhamos, um acordo silencioso sendo selado. A decisão de adiar a verdade para a Marina pesou sobre nós, mais um fardo em nossa montanha de segredos.
Vendo a dor estampada no rosto do meu irmão, busquei um desvio, algo para nos ancorar no presente imediato.
- Como está a Serena? -perguntei, a voz suave.
Luan se virou de volta para a bancada, retomando a tarefa de preparar a mamadeira como se fosse a única coisa no mundo que ele ainda pudesse controlar.
- Ela ainda está com febre. -ele disse, a voz baixa e cansada.- Não está alta, mas está marcando 37,5. Não baixou a noite toda.
Meu instinto de mãe apitou.
- Você não acha melhor a gente levar ela ao médico? Só pra garantir.
Luan balançou a cabeça, o movimento brusco e definitivo, sem nem se virar para me olhar.
- Não. Eu não vou expor a Serena ao perigo.
A frase dele foi dura, final, e me atingiu com a força da nossa nova realidade. Um ano atrás, uma febre de 37,5 significaria uma ligação para o pediatra e uma ida ao consultório. Hoje, significava um risco de vida.
- O Luan tem razão. -a voz do Justin soou ao meu lado, calma e prática.- Ninguém sai.
Ele pegou o celular.
- Eu vou ligar para o Dr. Evans, o pediatra do Jack e da Chloe. Ele tem autorização de segurança para entrar aqui. Ele pode vir avaliar a Serena em casa.
Vi os ombros do Luan relaxarem um pouco, um alívio mínimo em meio à tensão.
- Sim. Ok. Faz isso. -ele concordou.
Enquanto Justin se afastava para fazer a ligação, eu fiquei ali, parada, observando meu irmão terminar a mamadeira. A dimensão do nosso cativeiro nunca pareceu tão clara. Não podíamos mais fazer coisas simples. Não podíamos levar um bebê com febre ao médico. O mundo exterior tinha se tornado um campo minado, e nossa casa, com todos os seus luxos e seguranças, era a nossa trincheira. Uma gaiola dourada. E a raiva que senti da Chloe, e agora da Melanie, por nos encurralarem assim, era uma brasa que queimava, cada vez mais forte, no meu peito.
Enquanto Justin falava ao telefone com a secretária do Dr. Evans, Luan pegou a mamadeira e se virou para sair da cozinha. Eu o acompanhei em silêncio, subindo as escadas logo atrás dele. Eu precisava ver minha sobrinha, e meu irmão precisava de apoio, mesmo que não pedisse.
Entramos no quarto de hóspedes. A luz estava baixa, vinda apenas de um pequeno abajur. Serena estava deitadinha no meio da cama grande que ele e a Marina estavam usando, parecendo minúscula e frágil. Suas bochechas estavam vermelhas, se destacando contra a pele pálida.
Luan sentou-se na beirada da cama e a ajeitou com cuidado em seu colo, oferecendo a mamadeira, que ela aceitou com os olhinhos semicerrados de sono e desconforto. Sentei-me do outro lado da cama, perto dela.
Passei as costas da mão em seu rosto, sentindo a pele um pouco quentinha, febril. Ela se mexeu, os olhos se abrindo um pouco mais, focando em mim de uma forma sonolenta e confusa.
- Mamãe? -ela chamou, a vozinha um sussurro rouco.
Meu coração se partiu em mil pedaços. Um nó se formou na minha garganta, e eu tive que piscar para afastar as lágrimas. Inclinei-me sobre ela, fazendo um carinho em seu cabelo.
- Não, meu amor. É a titia. -respondi, a voz saindo mais trêmula do que eu queria.
Naquele momento, eu entendi. Não era só uma gripe ou um resfriado. O corpo dela estava sentindo a falta da mãe. A febre, o choro... era saudade. Uma saudade tão profunda que um bebê de pouco mais de um ano não sabia como expressar em palavras, então seu corpinho expressava por ela.
O som da respiração suave da Serena era a única coisa no quarto silencioso. Luan terminou de dar a mamadeira e a ajeitou de volta nos travesseiros, o corpo dele se movendo com uma delicadeza infinita. Ele olhou para o rostinho corado da filha, doente de saudade, e então ergueu o olhar para mim. A dor em seus olhos deu lugar a uma fúria fria e incrédula.
- Eu não consigo acreditar, Bru. -ele sussurrou, a voz tensa, para não acordar a pequena.- Eu simplesmente não consigo entender como a Melanie está fazendo isso.
Ele balançou a cabeça, o olhar perdido.
- Porra... a própria tia ameaçando os sobrinhos. Ela é irmã do Justin e da Marina. -sua voz se quebrou um pouco na última frase.- Como? Como um ser humano pode ser tão cruel assim com a própria família?
Eu não tinha uma resposta. Apenas estendi a mão e apertei a dele, um gesto de solidariedade silenciosa.
- Eu não sei, Luan. -falei, a voz igualmente baixa.- Eu não consigo entender. Algumas pessoas são... podres por dentro. E a gente nunca sabe até ser tarde demais.
Ficamos ali, os dois, olhando para a nossa sobrinha e filha, a vítima mais inocente de uma guerra de ódio que ela nem sabia que existia. A traição de Melanie não era apenas um ato de maldade; era uma anomalia, uma quebra na lei fundamental da família, e a compreensão disso era um veneno que se espalhava lentamente por nós, mais doloroso do que qualquer ameaça.
Luan passou a mão pelo rosto, o olhar perdido, já antecipando a próxima tempestade que teriam que enfrentar.
- Eu tenho medo da reação da Marina. -ele confessou, a voz baixa.- Quando ela souber... ela é imprevisível. Ela pode querer ir até a Melanie e encher a cara dela de soco, ou pode só... desmoronar. Eu não sei o que esperar.
- A Marina não seria a única a querer socar a cara da Melanie. -respondi, sentindo minha própria raiva borbulhar.- Mas não adianta. A Melanie é só uma peça no jogo da Chloe. A Chloe é quem manda. E, segundo o Kenny, ela é perigosa demais. Ele nos aconselhou a não encarar, a baixarmos a guarda.
Luan me olhou, surpreso e frustrado.
- Baixar a guarda? E o que faremos então? Deixar ela vencer? Viver desse jeito para sempre?
Eu suspirei, um som pesado que carregava o peso da nossa decisão.
- Não. A gente vai embora. -falei, e vi os olhos dele se arregalarem.- Até junho, nós nos mudaremos para o Brasil. É só o tempo de arrumar toda a documentação do Justin e da Chloe e de eu me formar.
A expressão no rosto do meu irmão mudou de frustração para um alívio tão profundo e visível que quase me fez chorar.
- Brasil... -ele repetiu, como se não pudesse acreditar.- Bruna, isso... isso é um alívio tão grande. O meu coração estava dividido, Bru. A ideia de voltar para a segurança do Brasil, mas deixar você, o Justin e as crianças aqui, no meio disso tudo... estava me matando.
A confissão dele me atingiu em cheio.
- Então a gente vai. -sussurrei, a ideia se solidificando, se tornando real e esperançosa.- Todos nós. Vamos voltar pra casa.
Ele assentiu, e pela primeira vez naquela manhã, um sorriso genuíno, embora cansado, apareceu em seu rosto. Não era uma fuga. Era um reagrupamento. E, de repente, o futuro, que parecia tão escuro e incerto, ganhou uma pequena, mas poderosa, luz no fim do túnel.