Luan Narrando
Mais tarde, o silêncio da casa foi quebrado pela visita discreta do Dr. Evans. Ele foi gentil e eficiente, examinando a Serena com um cuidado que acalmou um pouco o meu coração de pai. Ele confirmou que era provavelmente uma virose, exacerbada pelo estresse e pela saudade, e passou alguns medicamentos para a febre e o desconforto. "Se a febre aumentar muito, é necessário levá-la ao hospital", ele nos instruiu antes de ir embora, uma recomendação que ainda carregava o peso da nossa situação de cativeiro.
Depois que ele saiu, fiquei sozinho no quarto, observando a Serena dormir. A febre tinha cedido um pouco com o remédio, e ela respirava mais tranquilamente. Fiquei ali, a mão pousada suavemente em suas costinhas, e senti uma onda de gratidão me invadir. Eu estava agradecendo por esse pesadelo estar quase acabando para nós três. Já estávamos na metade de novembro. Em menos de dois meses, em janeiro, iríamos para São Paulo, para a nossa casa, começar uma vida nova, longe dessa loucura. A promessa de um recomeço era a luz que me guiava.
Meu celular vibrou na mesinha de cabeceira, o som zumbindo no quarto silencioso. Olhei e era uma chamada de vídeo da Marina.
Atendi, e a imagem dela preencheu a tela. Ela estava no escuro, iluminada apenas pela luz do próprio celular, o cabelo bagunçado e os olhos sonolentos. A cara de quem tinha acabado de acordar, e provavelmente tinha mesmo, já que aqui ainda eram 09:30 da manhã, o que significava que em Los Angeles eram 06:30.
- Oi, meu amor. -falei, a voz um sussurro para não acordar nossa filha.
Ver o rosto dela, mesmo que cansado e do outro lado do país, era o meu porto seguro. Mas eu sabia que, por baixo daquela aparência sonolenta, ela ainda não conhecia a profundidade da tempestade em que estávamos. E meu coração se apertou com o peso do que ainda teríamos que lhe contar.
- Oi, meu amor. Acordei você? -a voz dela soou, sonolenta e cheia de carinho, através do alto-falante.
-Não, já estou de pé há um tempo. -respondi, forçando um tom leve.- Como você está? Tudo bem por aí?
- Estou bem. Cansada. Foi um dia... longo. -ela disse, e eu sabia que "longo" era um eufemismo para o que ela tinha descoberto e contado ao Justin. A instrução dele foi clara: "Aja normalmente. Ela não pode saber o que a gente sabe, não por telefone". E agora, eu tinha que desempenhar o papel da minha vida. E por aí? -ela perguntou, a voz subitamente mais preocupada, como se sentisse minha tensão através da tela.- Como está a nossa pequena? Estou com uma saudade que não cabe em mim.
Meu coração se apertou. Eu tinha que contar, mas apenas a versão segura da história.
- Ela... ela está com um pouco de febre, meu amor. Mas não se preocupa. -apressei-me em dizer, vendo a preocupação tomar conta de seu rosto.- O pediatra do Jack e da Chloe, o Dr. Evans, veio aqui de manhã. Já medicamos ela, e ele disse que é provavelmente só uma virose. Ela está dormindo agora.
- Febre? Ah, meu Deus, Luan. -a angústia em sua voz era uma faca no meu peito.- Ela está bem mesmo? Eu sabia que não devia ter vindo. Se ela está doente...
- Não, amor, não é culpa sua. Não fala isso. -interrompi, a mentira parcial pesando na minha língua.- Acontece. Crianças ficam doentes. Ela só... acho que ela também está com saudade de você. Mas ela vai ficar bem. A Bru está aqui, o Justin... estamos todos cuidando dela. Ela está cercada de amor.
Eu estava mentindo para ela. Mentindo para protegê-la. Vendo-a ali, preocupada com uma simples febre, enquanto eu sabia que o verdadeiro veneno vinha de pessoas que ela conhecia, que a irmã dela estava envolvida... a culpa me corroía por dentro. Eu queria gritar, contar tudo, mandá-la pegar o primeiro avião de volta. Mas eu não podia.
- Preciso ir, meu amor. -falei, antes que eu não aguentasse mais e minha expressão me traísse.- Tenho que ficar de olho nela, ver se a febre não sobe. Fica segura aí, tá bom? De verdade.
- Tá bom. -ela respondeu, a voz ainda cheia de preocupação de mãe.- Me mantenha informada. Me liga se qualquer coisa mudar. Eu te amo.
- Também te amo. Mais que tudo.
Desliguei. O rosto dela desapareceu, e a tela do celular ficou preta. Joguei o aparelho na cama e passei as mãos pelo rosto, a exaustão da noite em claro se misturando com o peso esmagador daquele segredo. Proteger a Marina, naquele momento, significava mentir para ela. E eu não sabia o que era pior: o perigo que nos cercava, ou a traição que eu estava sendo forçado a cometer.
[...]
Bem mais tarde, quando já beirava as oito da noite, a casa estava mergulhada em uma calmaria tensa. Da sala, eu escutava o som abafado das vozes da Bruna e do Justin na cozinha, o tilintar de panelas enquanto preparavam o jantar. Era um som reconfortante, de normalidade, mas eu sabia que a conversa deles não era sobre temperos.
As crianças estavam espalhadas, cada uma em seu próprio universo. Serena, já sem febre e mais disposta, assistia a um desenho deitado no sofá, os olhinhos fixos nas cores vibrantes da TV. Jack, no tapete, travava uma batalha épica com seu Batman e seu Superman, fazendo barulhos de socos e explosões com a boca. E a Chloe, mais quieta, estava sozinha na sala de brinquedos, imersa em uma conversa silenciosa com suas bonecas de casinha.
Peguei meu celular, o gesto já automático, e olhei a hora. 20:00. Minha mente fez o cálculo rápido. Três horas a menos em Los Angeles. 17:00. O horário. O horário que iria começar a coletiva de imprensa do filme da Marina.
Meu coração acelerou. Abri o aplicativo da Prime Video, e lá estava, em destaque na página inicial: "AO VIVO: Coletiva de Imprensa 'Nossa Culpa". Cliquei.
A imagem surgiu. Um palco, o pôster do filme ao fundo, um apresentador sorridente. E então, ela entrou.
O ar sumiu dos meus pulmões. Ela estava linda. Deslumbrante. Usava um vestido elegante, o cabelo e a maquiagem impecáveis. Ela sorria para as câmeras, acenava, a personificação da estrela de cinema. Ninguém, absolutamente ninguém que a olhasse, poderia imaginar o inferno que ela carregava por dentro. A força daquela mulher era algo de outro mundo.
Ela se sentou em uma das poltronas no palco. E, um momento depois, ele se sentou ao lado dela. Victor.
Eles trocaram um sorriso profissional, mesmo sabendo que era trabalho, mesmo sabendo que era atuação, eu não consegui evitar. Senti uma pontada de ciúmes, afiada e desagradável, no meu peito. Vê-la ali, ao lado dele, o ex-namorado, o cara que apareceu no nosso casamento... era difícil. Era uma lembrança de um passado que eu preferia esquecer, agora transmitido ao vivo para o mundo todo, enquanto eu estava preso aqui, a milhares de quilômetros de distância, um espectador impotente da vida pública da minha própria esposa.
A coletiva continuou, um espetáculo bem ensaiado de sorrisos e respostas polidas. Eu assistia, hipnotizado, a força da Marina.
Os jornalistas começaram com as perguntas, uma chuva de flashes e microfones estendidos.
- Victor, Marina, esse foi o primeiro trabalho de vocês como atores e se tornou um fenômeno global. Como vocês lidaram com essa fama repentina? -perguntou uma jornalista de um grande portal de entretenimento.
Eles deram a resposta padrão, falando sobre gratidão, sobre o apoio dos fãs, sobre como foi uma jornada incrível.
Depois, uma pergunta mais direta para a Marina.
- Marina, você filmou parte deste filme enquanto estava grávida. Como foi a experiência de viver a gravidez da sua personagem e a sua própria ao mesmo tempo?
- Foi mágico e desafiador. -ela respondeu, o sorriso nunca vacilando.- Mas me ajudou a construir uma conexão ainda mais profunda com a Noah, com a maternidade dela.
E então, veio a pergunta que eu temia, a pergunta absurda que sempre vinha.
- Uma pergunta para os dois: a química de vocês na tela é inegável. Muitos fãs ainda torcem por vocês na vida real. Como é a relação de vocês hoje, fora das telas?
Vi Marina e Victor trocarem um olhar rápido, profissional. Victor riu primeiro, o riso charmoso de sempre.
- A Marina é uma parceira incrível e uma amiga querida. -ele disse.- E eu sou o maior fã do casal dela com o Luan. Ele é um cara de sorte.
Marina sorriu, agradecendo. Uma resposta perfeita. Mas a pontada de ciúmes ainda estava lá, um incômodo no meu peito. A conversa continuou, perguntas sobre as cenas de ação, sobre o final da trilogia. E então, um jornalista de um jornal mais sério levantou a mão.
- Marina, para a personagem, a culpa é um tema central. Na sua vida pessoal, qual foi a maior 'culpa' ou arrependimento que você já teve?
A pergunta caiu na sala como uma pedra. Senti meu corpo enrijecer. Que tipo de pergunta era essa? Invasiva, pessoal, cruel. Olhei para a tela do meu celular, para o rosto da minha esposa. Eu a vi engolir em seco, o sorriso profissional vacilando por um milésimo de segundo.
Eu observei, impotente, a minha esposa na tela, encurralada por uma pergunta que cutucava feridas que ninguém ali podia sequer imaginar. O silêncio na coletiva durou um segundo, mas para mim, foi uma eternidade.
Marina piscou, e então um pequeno e melancólico sorriso surgiu em seus lábios. Ela era uma atriz. E aquela foi, talvez, a maior atuação da sua vida.
- Acho que a maior culpa que todos nós carregamos -ela disse, a voz suave e ponderada, como se estivesse confessando um segredo universal- é a de não dizer "eu te amo" o suficiente para as pessoas que importam. A vida é curta, e a gente às vezes esquece disso.
A resposta foi genial. Vaga, profunda e impossível de ser contestada. O jornalista assentiu, satisfeito. Mas a trégua durou pouco. Uma repórter de um site de fofocas levantou a mão, o sorriso afiado.
- Marina, falando em amor, e o "shipper" Victrina que é tão forte nas redes? Os fãs sabem que vocês tiveram um relacionamento na universidade, antes da fama. O que poucos sabem é que, após seu término com o Luan, vocês voltaram a ficar, bem na época do lançamento do primeiro filme. O que aconteceu? Por que não deu certo daquela vez?
Senti meu maxilar travar. A invasão de privacidade era inacreditável. Vi o desconforto no rosto da Marina, o sorriso dela vacilando. Mas antes que ela pudesse responder, Victor se inclinou para o microfone.
- Com todo o respeito -ele disse, a voz calma, mas firme-, o passado da Marina e o meu, dizem respeito apenas a nós. Hoje, somos ótimos amigos e parceiros de trabalho. O mais importante é que ela está feliz, casada com um homem que a ama, e eu acho que todos nós aqui deveríamos focar em celebrar o presente dela, em vez de desenterrar o passado.
A jornalista, sem se abalar, virou o canhão para ele.
- Victor, falando no presente, seu noivado com a modelo Courtney terminou há alguns meses. Fontes dizem que foi porque você ainda não superou a Marina. Isso é verdade?
O clima na sala, que já estava tenso, ficou glacial. "Climão" era pouco. Victor não perdeu a compostura.
- Meu relacionamento com a Courtney terminou por motivos que dizem respeito apenas a nós dois. -ele respondeu, a voz agora gélida.- Qualquer outra especulação é um desrespeito a ela, à Marina e ao casamento dela. Próxima pergunta, por favor.
Senti um respeito relutante por ele. Ele a estava protegendo. Mas outro jornalista, de uma emissora de TV, sentiu o cheiro de sangue na água e mudou o ângulo do ataque.
- Marina, que alívio ver você aqui e bem, depois do terrível furacão que você e seu marido, o cantor Luan Santana, enfrentaram no México. Pode nos contar um pouco sobre essa experiência traumática?
Aquilo foi demais. Eu vi. Vi a cor sumir do rosto dela, a memória do terror voltando aos seus olhos. O trauma real, não a fofoca do passado.
- Agradeço a preocupação, de verdade. -ela disse, a voz agora cortante, recuperando o controle.- Mas hoje, o foco é o nosso filme, "Nossa Culpa". É sobre ele que estamos aqui para falar.
Ela se virou para o moderador.
- Vamos para a próxima pergunta sobre o filme, por favor.
A ordem foi clara. A armadura estava de volta no lugar. O moderador, percebendo o desastre iminente, rapidamente direcionou a conversa de volta para a produção, para o roteiro, para a segurança do set. Mas o estrago estava feito. A entrevista continuou, mas a leveza tinha desaparecido, substituída por uma tensão palpável. Minha esposa era uma guerreira.
As perguntas que se seguiram foram seguras, diretas e focadas exclusivamente no filme, exatamente como ela havia pedido. Falaram sobre as filmagens em Los Angeles, sobre as cenas de corrida, sobre a evolução dos personagens. Eu assisti, a tensão nos meus ombros diminuindo a cada pergunta inofensiva.
Finalmente, o moderador olhou para o relógio.
- Infelizmente, nosso tempo está acabando com esses dois. -ele anunciou, sorrindo para a plateia.- Vamos fazer uma última pergunta para cada, antes de chamarmos ao palco os maravilhosos Eva Ruiz e Víctor Varona, que interpretam Jenna e Lion no filme!
Uma jornalista levantou a mão.
- Victor, o Nick passou por uma grande evolução ao longo da trilogia. Qual foi o maior desafio em interpretar a jornada dele, de um bad boy problemático para o homem que ele se torna no final?
Victor deu uma resposta pensada, falando sobre encontrar a vulnerabilidade por trás da raiva do personagem, sobre como foi gratificante construir essa transformação. Foi uma boa resposta. Então, todos os olhos se viraram para a Marina.
- Marina, a Noah é uma personagem incrivelmente forte e resiliente. O que você mais admira nela, e o que você espera que o público, especialmente as jovens, leve da personagem dela ao final da saga?
Vi minha esposa ajeitar a postura. A pergunta pareceu acender uma luz dentro dela.
- O que eu mais admiro na Noah é que ela nunca permite que as circunstâncias a definam. -ela disse, a voz clara e apaixonada.- Ela erra, ela cai, ela sente culpa, mas ela sempre levanta. Ela aprende a lutar por si mesma, a definir seus próprios limites. E eu espero que as jovens que assistem vejam isso: que não há problema em ser imperfeita, mas que nunca, jamais, se deve abrir mão da sua própria força.
As palavras dela me atingiram. Ela não estava mais falando só da Noah. Estava falando dela mesma.
O moderador agradeceu, aplausos soaram, e eu os vi se levantando. Vi a Marina dar um aceno profissional para o Victor e sair do palco, desaparecendo nos bastidores. O show tinha acabado.
Soltei o ar que nem sabia que estava prendendo. Um orgulho imenso por ela me preencheu, misturado com um alívio avassalador. Ela tinha enfrentado os leões e saído intacta.
Com a coletiva terminada, um alívio percorreu meu corpo. O impulso foi automático: fechei um aplicativo e abri outro. Entrei no Instagram.
E, claro, a primeira foto que apareceu no meu feed foi a dela.
Marina havia postado uma foto, provavelmente tirada horas antes, para anunciar a transmissão ao vivo. Na foto, ela e o Victor estavam juntos, em frente ao painel da prime vídeo. A imagem exata do casal que o estúdio queria vender.
marinabieber Prontíssimos! 🎬 Daqui a pouco, eu e meu parceiro incrível @victoreverleigh_ estaremos AO VIVO no @primevideo para a coletiva de imprensa final de #NossaCulpa. Mandem suas perguntas e não percam! Vai ser demais! ❤️🔥
Meu dedo pairou sobre a tela por um segundo. Respirei fundo e apertei o coração. Eu curti a foto. Era o meu trabalho como marido, apoiá-la. Mas não pude evitar me sentir levemente incomodado. Era uma sensação boba, eu sei. Eu confiava nela mais do que em qualquer pessoa no mundo. Mas ver a imagem deles, juntos, sendo jogada para milhões de pessoas... era estranho.
Suspirei, bloqueando a tela. Estava acabando. O filme logo lançaria, a turnê de divulgação terminaria, e eles não precisariam mais se ver. Era temporário. Era trabalho. Repeti isso para mim mesmo como um mantra.
Guardei o celular no bolso e me levantei, decidindo que já tinha passado tempo demais no mundo virtual. Fui para a cozinha, atraído pelo cheiro de comida e pelas vozes baixas.
Bruna e Justin estavam parados perto do fogão, conversando em um tom sério que parou assim que eu entrei. Eles se viraram para mim, os rostos cansados, mas solidários. A realidade da nossa situação voltou com força total.
- E aí? Assistiu a coletiva? -Bruna perguntou, com um pequeno sorriso.
- Sim, mas já acabou. -dei de ombros.- Ela foi ótima, como sempre.
Forcei um sorriso de volta e me aproximei.
- Precisam de ajuda com alguma coisa?
Queria fazer algo. Cortar um legume, mexer uma panela. Qualquer coisa para sentir minhas mãos ocupadas, para me sentir útil na nossa trincheira, em vez de apenas um espectador ansioso da vida da minha esposa.
Bruna se virou do fogão e me deu um pequeno sorriso, um que não alcançou seus olhos cansados.
- Pode cortar a salada, por favor. -ela disse, apontando com a cabeça para a geladeira.- Fica na primeira gaveta. O Justin pode te mostrar onde ficam as facas.
Era uma tarefa simples, mundana, mas eu a agarrei como uma boia salva-vidas. Abri a geladeira, peguei o alface e os tomates, e comecei a trabalhar na bancada. Justin me entregou uma faca e uma tábua, e nós três ficamos ali, na cozinha espaçosa, cada um focado em sua tarefa, em um silêncio que era ao mesmo tempo tenso e estranhamente confortável. Éramos uma equipe. Uma família se preparando para o jantar no meio de uma guerra.
- Falei com o Kenny de novo enquanto você via a coletiva. -Justin quebrou o silêncio, a voz baixa.- Ele está montando o dossiê da Chloe. A parte mais difícil, segundo ele, vai ser provar a conexão dela com quem atirou na gente. O dinheiro para a Melanie é uma coisa, mas ligá-la a uma tentativa de assassinato... vai ser complicado.
Parei de cortar o tomate, a faca pousada na tábua.
- E o Harry? -perguntei, a ideia surgindo na minha cabeça.- Ele tem que saber de alguma coisa. Ou ele é cúmplice, ou é o cara mais cego do mundo.
- A Chloe é mestre em fazer as pessoas verem só o que ela quer. -Bruna disse, sem se virar do fogão.- Ela pode estar enganando o Harry direitinho. Ou... -ela fez uma pausa, o som da comida sibilando na panela preenchendo o espaço.- Ou ele é tão podre quanto ela.
A possibilidade era sombria. Ficamos em silêncio de novo, cada um processando a complexidade da teia que estávamos tentando desvendar. O som da risada da Serena veio da sala, misturada com os barulhos de explosão que o Jack fazia.
Voltei a cortar o tomate, o movimento rítmico da faca me ajudando a pensar. As palavras da Bruna sobre o Harry ser "tão podre quanto ela" ficaram ecoando na minha cabeça enquanto eu cortava o tomate. Podre. A palavra acendeu uma luz em um canto escuro da minha memória, uma lembrança da época da faculdade que eu havia enterrado há muito tempo.
Parei o que estava fazendo, a faca pousada sobre a tábua. A conexão, a peça que faltava, se encaixou com um estalo.
- Espera aí. -falei, e os dois se viraram para mim. Olhei para a minha irmã.- Bruna. O Harry. O motivo de você ter terminado com ele...
Vi a lembrança passar pelos olhos dela também, um desconforto imediato. Ela sabia exatamente do que eu estava falando.
- Ele vendia drogas no campus. -falei, a memória agora clara como o dia.- Merda, eu tinha esquecido disso. Ele vendia, e era ele quem fornecia para o Victor também vender.
A lembrança veio completa, trazendo outras consigo.
- Lembro que a Marina ficou puta da vida quando descobriu que o Victor vendia, sendo que ele vivia cheirando cocaína nas festas. Foi um dos motivos que eles brigaram feio na época.
Bruna assentiu, cruzando os braços.
- É verdade. Eu tinha bloqueado essa parte. Ele era discreto, mas era o principal fornecedor dos atletas e dos riquinhos da faculdade.
Justin, que ouvia tudo em silêncio, descruzou os braços, a expressão em seu rosto se tornando ainda mais dura e calculista.
- Então ele não é só um marido cego. -Justin concluiu, a voz fria.- Ele já tem experiência em negócios sujos. Em operar nas sombras.
A revelação mudou tudo. Harry Preston não era uma vítima em potencial na teia da Chloe. Ele era um parceiro em potencial. Um cúmplice com um passado que provava que ele não tinha medo de sujar as mãos. O inimigo não era apenas a Chloe. Eram os dois. O casal perfeito. A dupla de cobras. E eles estavam juntos nisso desde o início.
De repente, o som de um choro agudo e sofrido vindo da sala quebrou o silêncio. O choro da Serena.
Nós três paramos tudo instantaneamente. Nossos instintos de pais assumiram o controle, e corremos da cozinha para a sala. Encontramos minha filha sentada no tapete, as duas mãozinhas na cabeça, chorando em desespero. Aos seus pés, um dos bonecos do Jack – o Superman – estava estirado no chão. E, a um metro de distância, Jack estava parado, o lábio inferior tremendo, o rosto a mais pura imagem da culpa.
Não pensei duas vezes. Fui até a Serena e a peguei no colo, aninhando-a em meu peito.
- Shhh, calma, meu amor. O papai tá aqui. -sussurrei, embalando-a e beijando o topo de sua cabeça. Verifiquei o local, procurando por um galo, mas parecia ter sido mais o susto do que a dor.- Tá tudo bem, já passou.
Enquanto eu a acalmava, Justin e Bruna se ajoelharam na frente do Jack.
- Jack, o que aconteceu? -a voz da Bruna era firme, mas não alta.
- Você jogou o boneco na Serena? -Justin perguntou, o tom igualmente sério.
Jack apenas assentiu, os olhos cheios de lágrimas, o queixo tremendo.
- Nós não jogamos brinquedos nos outros, filho. -Justin disse.- Você pode machucar. Você precisa pedir desculpas para a sua prima.
Nesse momento, Chloe apareceu na porta da sala de brinquedos, a curiosidade estampada em seu rosto.
- O que foi? O Jack machucou a Serena?
A pequena crise doméstica, tão normal e ao mesmo tempo tão deslocada do nosso drama adulto, tomou conta do ambiente.
Os soluços da Serena foram diminuindo contra o meu peito, a tempestade de choro se acalmando. Enquanto eu a embalava, Bruna guiou um Jack choroso pela mão até nós.
- Peça desculpas para a sua prima, Jack. -ela disse, a voz suave, mas firme.
Jack olhou para a Serena com seus grandes olhos azuis, cheios de lágrimas de arrependimento.
- Descupa, Sena. -ele disse, a voz um sussurro embargado.
Serena, já mais calma, apenas o olhou, a cabecinha deitada no meu ombro. Ela era pequena demais para entender, mas o gesto estava feito.
- O Jack é um bobo às vezes. -Chloe anunciou, com a sabedoria de seus três anos, antes de se virar e voltar para suas bonecas, o drama já esquecido.
Bruna levou o Jack pela mão para o sofá, sentando-se com ele para uma conversa calma. Justin, vendo que a situação estava sob controle, voltou para a cozinha para terminar o que tínhamos começado.
Eu fiquei ali, de pé no meio da sala, com minha filha nos braços. O calor do seu corpinho, o peso dela contra mim, era a minha âncora. Olhei para a cena: minha sobrinha brincando em seu mundo, minha irmã ensinando seu filho sobre gentileza, meu cunhado cozinhando para todos nós. Uma ilha de vida normal e imperfeita.
- A comida está quase pronta! -a voz do Justin veio da cozinha, nos chamando de volta para a realidade.
Ajeitei a Serena em meu colo e caminhei em direção à cozinha. O pequeno drama havia passado. Mas a guerra, eu sabia, estava longe de terminar. E cada um desses momentos de paz era o combustível que precisávamos para continuar lutando.
Após o jantar, a exaustão do dia começou a pesar sobre todos nós. Subi com a Serena para dar um banho e prepará-la para dormir. A água morna pareceu acalmá-la um pouco, mas ela ainda estava chorosa, um resmungo baixo e constante que quebrava meu coração. Enquanto eu a secava, notei que sua pele estava quentinha de novo. A febre queria voltar. Antes mesmo de colocar seu pijama, peguei o remédio que o Dr. Evans havia receitado e dei a dose que estava na hora.
Depois do banho e do remédio, fui tentar fazê-la dormir na cama do quarto de hóspedes. Deitei ao seu lado, fazendo carinho em suas costas. Cantei "Deus É Muito Bom", depois emendei em "Te Vivo", duas das minhas músicas que geralmente a faziam apagar em minutos. Mas hoje, nada. Ela apenas se virava de um lado para o outro, inquieta, resmungando baixinho.
Foi então que senti meu celular vibrar no criado-mudo. Era a Marina, em vídeo novamente. Uma onda de alívio e uma ideia imediata me atingiram.
Atendi a chamada, mas sem dizer uma palavra, virei a câmera para a pequena figura deitada ao meu lado.
- Olha quem tá aqui, filha...
A tela se iluminou com o rosto da Marina, sorrindo, mesmo que com um olhar cansado. Serena se virou, os olhinhos focando na luz do celular. E então, aconteceu.
Os olhinhos dela brilharam. Um brilho de reconhecimento puro e de felicidade que eu não via o dia inteiro. O resmungo cessou, a inquietação parou. Um sorriso enorme e banguela se abriu em seu rosto, e suas mãozinhas se esticaram, tentando tocar a tela.
- Mama! -ela disse, a voz cheia de uma alegria que fez meu peito se encher de amor.
- Oi, amor da minha vida! -a voz da Marina soou, animada e cheia de uma saudade que atravessava o país.- Você tá dodói, é? A mamãe já, já tá voltando pra te dar muito beijo e carinho!
Serena balbuciava de volta, os dedinhos tentando tocar o rosto da Marina na tela, os olhinhos brilhantes fixos na imagem. Marina cantou um pedacinho de uma canção de ninar, fez caretas, mandou beijos estalados. E, aos poucos, a magia aconteceu. O remédio que eu dei foi o celular. A presença da mãe dela, mesmo que virtual, foi o calmante que nenhuma música minha poderia ser. Os olhinhos dela foram pesando, o sorriso sonolento se formando, até que ela finalmente se entregou ao sono, a respiração se tornando profunda e ritmada.
Com cuidado, peguei o celular e saí do quarto, fechando a porta suavemente. Virei a câmera para mim.
- Apagou. -sussurrei, caminhando pelo corredor.
- O remédio que ela precisava era ver a mamãe. -ela disse, um sorriso cansado, mas feliz, em seus lábios.- Meu coração estava tão apertado.
- O meu também. -confessei.
- Escuta. -ela continuou, o tom mudando.- Amanhã terá um brunch com o elenco, mas eu não vou. Já avisei minha equipe. Cancelei. Assim que a última entrevista da manhã acabar, eu pego o primeiro voo de volta pra casa.
Eu suspirei, um alívio tão profundo que senti meus ombros relaxarem pela primeira vez no dia.
- Sério?
- Sério. Eu preciso voltar. Preciso de vocês.
- Já acabaram todos os seus compromissos com o filme, então? -perguntei, a esperança crescendo.
- Ainda não. -ela disse, e eu vi uma sombra de exaustão passar por seu rosto.- Ainda vai ter a pré-estreia e a festa de encerramento, daqui a algumas semanas. Mas depois disso... estou livre. Completamente.
- Entendi. -falei.- Eu assisti à coletiva hoje.
Ela revirou os olhos, um gesto que eu vi perfeitamente, mesmo na iluminação fraca.
- Aquilo foi péssimo. Um circo. Os jornalistas foram totalmente sem noção, invasivos. Odiei cada segundo.
- Você foi incrível. -a confortei.- Lidou com tudo como uma rainha.
E você nem sabe da metade, pensei, a verdade amarga pesando no meu peito. A conversa sobre jornalistas sem noção parecia uma piada perto da conversa que teríamos que ter quando ela chegasse. Mas, por enquanto, ela estava voltando para casa. E só isso já era uma vitória.
- Só quero que isso acabe logo. -ela suspirou do outro lado da linha.- Falando nisso... o Justin, ele... ele conversou com o Kenny sobre o que eu disse? Sobre a Chloe? Tem alguma novidade?
A pergunta. A que eu mais temia. Senti minha garganta secar, e engoli em seco, o som parecendo alto demais no corredor silencioso. Meu cérebro entrou em pânico, procurando as palavras certas.
Naquele exato momento, escutei passos na escada e Bruna e Justin apareceram, cada um com uma criança dormindo no colo. Bruna carregava o Jack, e Justin, a Chloe, que provavelmente adormeceram no sofá. Ao passarem por mim, eles viram a minha expressão, o pânico nos meus olhos enquanto eu segurava o telefone.
Bruna me lançou um olhar. Um olhar rápido, mas desesperado, que dizia tudo: "não conta". Justin, logo atrás, fez o mesmo, um aceno de cabeça quase imperceptível. "Mente".
O apoio silencioso deles, a ordem muda, foi o que eu precisava. Virei-me, de costas para eles, como se para ter mais privacidade, e foquei na imagem da minha esposa na tela.
- Luan? -ela me chamou, percebendo minha pausa.
- Ah, sim. -forcei a voz a sair calma.- Ele falou com o Kenny, sim. Mas até agora, o Kenny não falou nada de novo. Ele deve estar montando um dossiê bem completo sobre ela, sabe? Puxando tudo desde a época da faculdade. Isso leva tempo.
- É, deve ser. -ela respondeu, parecendo aceitar a desculpa.- Aquela lá deve ter muita coisa podre escondida. Quanto mais fundo cavar, mais sujeira vai achar.
- Com certeza. -concordei, a traição de suas palavras ecoando na minha cabeça. A maior sujeira, a mais podre de todas, era uma que ela jamais poderia imaginar. E eu, naquele momento, era cúmplice em escondê-la.
Marina, do outro lado da linha, pareceu sentir que o clima havia pesado. Ela bocejou, um bocejo adorável e sonolento.
- Bom, vou te deixar dormir também. -ela disse, a voz suave.- Já deve estar tarde aí. Se aqui ainda não são nem nove horas, aí em Nova York já deve passar das onze da noite.
- Não, não desliga. -pedi, a voz saindo mais carente do que eu pretendia.- Queria conversar mais um pouco. Estou com saudade.
Comecei a descer as escadas em silêncio, caminhando na ponta dos pés para ir até a sala e parar de fazer barulho no corredor dos quartos. A casa estava escura, iluminada apenas por um pequeno abajur no canto.
A voz dela no telefone ficou mais suave, mais íntima.
- Eu também estou com muita saudade de você. -ela confessou.- Não vejo a hora de chegar em casa amanhã, te dar um abraço bem apertado, te beijar... e entre outras coisas.
A malícia divertida em sua voz me pegou de surpresa e me fez rir, uma risada genuína e leve que pareceu aliviar um pouco da tensão que eu carregava. Sentei-me no sofá, o sorriso ainda no rosto.
- É mesmo? -perguntei, entrando na brincadeira dela.- E que "outras coisas" seriam essas?
Eu a vi morder o lábio inferior na tela, um sorriso malicioso dançando em seus olhos sonolentos.
- Hmm... -ela murmurou, a voz um sussurro rouco e provocante.- Coisas que eu definitivamente não posso falar por telefone, Sr. Santana. Coisas que envolvem o nosso quarto, pouca roupa e matar a saudade de um certo marido que ficou longe por tempo demais. Você vai ter que esperar até amanhã pra descobrir.
Eu gargalhei, uma risada solta e feliz que ecoou na sala silenciosa. Aquele flerte, aquela promessa, foi como um bálsamo para a minha alma cansada. Por um minuto, esqueci das ameaças, dos segredos, do medo. Éramos apenas nós dois, um casal com saudade, ansiosos pelo reencontro.
- Ah, é? -brinquei.- Então pode ter certeza que eu vou cobrar, hein.
- Pode cobrar. -ela respondeu, a voz cheia de promessas.- Agora vai dormir de verdade, meu amor. Descansa. Amanhã eu estou aí pra cuidar de você e da nossa pituquinha.
- Boa noite, vida. Voa seguro pra cá. Te amo. -falei, o coração mais leve do que esteve o dia todo.
- Te amo. Até amanhã.
Ela mandou um beijo para a câmera e desligou.
A tela do celular ficou preta. Fiquei ali, sentado no sofá escuro, o sorriso ainda no meu rosto. O calor da nossa conversa me envolveu, uma pequena fogueira no meio da noite fria e escura da nossa realidade. Aquele momento de leveza, de desejo, era um lembrete poderoso de tudo que a Chloe e seus capangas estavam tentando nos roubar. Não era apenas a nossa segurança. Era a nossa alegria, a nossa intimidade, a nossa vida.
E eu não ia deixar. Levantei-me do sofá, a determinação renovada. Amanhã, a Marina estaria em casa. E nós, os quatro, juntos, começaríamos a lutar de volta.