Victor ainda bufou mais uma vez enquanto me acompanhava até onde estacionamos nossos carros, como quem não se aguentava quieto. Eu já imaginava que ele ia soltar mais alguma. E não demorou mesmo.
- Olha… -ele começou, passando a mão na nuca e me encarando sério.- Eu sei que não é da minha conta. Não é mesmo. Mas eu… eu acompanhei tudo de perto, Marina. Você e a Bruna. Sei bem como era a amizade de vocês.
Eu fiquei quieta por uns segundos, só encarando ele, esperando. Ele respirou fundo e continuou:
- Eu também andei dando uma olhada na internet hoje cedo. E, cara… estão pegando pesado demais com ela. É hate atrás de hate. -ele fez uma careta incômoda, como se aquilo o atingisse de alguma forma.- E você sabe como é a internet… se você não falar nada agora, não vai sobrar nada dela depois. Vão acabar com a menina.
Meus dedos se apertaram na alça da bolsa, e eu engoli em seco, sentindo um peso bem familiar no peito. Victor se aproximou um pouco mais e baixou a voz:
- Não tô dizendo pra você fingir que nada aconteceu ou que vocês têm que voltar a ser melhores amigas, porque eu sei que não é tão simples assim. Mas… -ele hesitou, mas terminou mesmo assim- …se ainda sobrou alguma coisa daquela amizade dentro de você, Marina, agora é hora de usar isso a favor dela.
Fiquei parada, olhando pro chão por um instante, tentando digerir aquelas palavras. Eu não podia negar: elas bateram fundo. Me doía lembrar de tudo que vivemos, e mesmo depois de tanto desencontro, era difícil imaginar a Bruna sendo massacrada por uma mentira invertida.
Levantei o olhar devagar, encarando o Victor, que me devolveu um olhar firme, quase desafiador.
- Pensa nisso. -ele disse apenas, antes de destravar o carro dele e se afastar.
Fiquei ali por alguns segundos, respirando fundo, enquanto a cabeça fervilhava de pensamentos. Eu ainda sentia mágoa da Bruna… mas também sentia algo mais forte que isso. Um senso de justiça. E talvez, só talvez, estivesse na hora de eu me pronunciar.
Só precisava encontrar as palavras certas.
Entrei no carro ainda sentindo as palavras do Victor ecoarem na minha cabeça. Suspirei fundo, tentando não deixar o peso que sentia no peito me dominar. Coloquei o celular no suporte, ajeitei o banco, respirei fundo de novo, mas a angústia ainda estava lá, prensando meu coração. Encostei a testa no volante por um segundo, só tentando encontrar forças pra fazer o que eu precisava fazer.
Depois de mais uma longa inspiração, toquei na tela, abri a câmera, e ajeitei um pouco o cabelo antes de apertar o botão pra gravar. O reflexo da minha própria expressão séria me encarava, e eu não podia mais adiar.
- Oi… -comecei, a voz saindo calma, mas firme.- Esse é o meu pronunciamento oficial sobre o assunto que, pelo visto, tanto interessa a todos vocês.
Parei por um instante, respirei fundo, e continuei:
- É verdade que eu e a Bruna não temos mais a amizade de antes. Nós nos afastamos por motivos nossos, pessoais, e eu não acho que eu precise abrir os detalhes disso pra ninguém além dela e de mim. Ela sabe. Eu sei. E isso basta.
Olhei pra câmera por um momento, sem piscar, sentindo meu coração apertar de um jeito estranho enquanto falava:
- Os motivos de eu e Luan termos terminado não têm nada a ver com a Bruna. Assim como o motivo de eu ter me afastado da Bruna não tem nada a ver com o Luan. Foram duas coisas diferentes, duas histórias separadas. Então parem de inventar uma história só pra parecer mais interessante.
Suspirei, sentindo a ponta da emoção subir na garganta, mas segurei firme.
- Não tem fofoca. Não tem intriga. Não tem cabimento tacarem hate numa pessoa por uma coisa que nenhuma das partes envolvidas confirmou que seja verdade. E eu peço… por favor. Parem de atacar a Bruna.
Apertei as mãos no volante, antes de completar, num tom mais emocionado, mais verdadeiro do que eu pensava ser capaz:
- Apesar de nós não sermos mais amigas como antes, eu a respeito muito. Ela é mãe do meu sobrinho e é tia da minha filha. E isso por si só já deveria ser motivo suficiente pra vocês pensarem duas vezes antes de dizerem certas coisas.
Dei um leve sorriso triste e finalizei:
- Então eu espero que vocês respeitem isso também. E que respeitem a gente. Todos nós já temos problemas demais pra ainda lidar com a crueldade de quem não sabe metade da história.
Pisquei algumas vezes pra segurar as lágrimas que ameaçavam cair e, antes de deixar que a emoção tomasse conta, cliquei pra encerrar a gravação.
Fiquei olhando a tela por um instante, ainda ouvindo o silêncio pesado do carro ao meu redor, antes de finalmente soltar o ar que eu nem percebi que estava prendendo. Era isso. Eu tinha feito a minha parte.
Postei o vídeo no meu feed, sem legenda. Só deixei lá, do jeito que saiu, porque não precisava de mais palavras — elas já estavam todas no vídeo.
Bloqueei o celular e o joguei sem muita delicadeza no banco do passageiro, sentindo aquele alívio amargo no peito, como se um peso tivesse saído… mas ainda assim algo pesado permanecesse.
Coloquei o cinto de segurança, ajeitei a mão no volante e liguei o carro, ouvindo o ronco suave do motor preencher o silêncio do carro.
Era hora de ir pra casa. E, enquanto saía da vaga devagar, me peguei torcendo pra que, pelo menos dessa vez, as pessoas realmente ouvissem o que eu tinha pra dizer.
Parei no drive-thru do McDonald’s porque, sinceramente, só um lanche poderia me fazer feliz agora. Pedi um Big Mac, batata grande e um milk-shake de morango, e me encostei no banco enquanto aguardava na fila, tentando não pensar muito em nada.
O cheiro de batata frita já invadia o carro quando senti meu celular vibrar no banco do passageiro.
Peguei sem muita pressa, esperando alguma notificação boba do Instagram ou talvez uma cobrança do Luan por ainda estar fora. Mas era uma mensagem de áudio no WhatsApp.
O nome que apareceu na tela me pegou desprevenida: Justin.
Ergui uma sobrancelha, curiosa, e cliquei pra ouvir.
Só que a voz que saiu do alto-falante não era dele.
Era dela.
A voz da Bruna, baixinha, chorosa, com aquele tom que eu conhecia bem demais.
“- Oi… eu… eu não queria incomodar. Mas… eu vi seu vídeo. E… obrigada. De verdade. Eu nem sei se mereço isso vindo de você, mas… obrigada. Você não precisava, mas mesmo assim…”
Ela fez uma pausa no áudio, e deu pra ouvir a respiração trêmula, quase um soluço.
“-…eu só queria que você soubesse que… mesmo que a gente não volte a ser amigas, eu nunca deixei de torcer por você. Nunca.”
O áudio terminou ali.
Fiquei olhando pra tela alguns segundos, sentindo um aperto no peito e o som do atendente do McDonald's me chamando na janela, perguntando se eu queria ketchup.
Engoli em seco, larguei o celular no colo, peguei meu lanche com um sorriso mecânico e respondi:
- Sim, muito ketchup, por favor.
E enquanto o atendente fechava a sacolinha, eu só pensava em como, por mais que a vida mudasse, algumas coisas entre mim e a Bruna nunca iam sumir completamente.
Uma semana depois...
Na semana seguinte, eu peguei um voo para Nova York.
Por mais que a ideia de ter a Serena em Los Angeles sempre tivesse sido meu plano, eu realmente estava considerando ter minha filha aqui. O Luan podia ser muitas coisas, mas quando queria ser convincente… ele era. E eu me pegava dando razão para os argumentos dele: aqui eu teria mais apoio, minha mãe poderia vir com mais facilidade de Filadélfia, a logística seria menos cansativa…
Na manhã seguinte, marquei com a Virgínia e a Olívia pra tomarmos café juntas num bistrô charmoso no SoHo. Eu cheguei primeiro e já pedi meu café — descafeinado, claro. Elas chegaram minutos depois, trazendo o caos habitual das duas. Virgínia com seu casacão xadrez exagerado e Olívia toda minimalista com um sobretudo bege e bota preta.
Quando nos sentamos e começamos a conversar, não demorou pra eu contar. Eu queria contar.
- Bom… -comecei, pegando minha xícara e brincando com a alça.- Eu e o Luan… voltamos.
O silêncio que se seguiu me fez encarar as duas. Olívia ergueu as sobrancelhas, surpresa, mas foi só isso. Já Virgínia… ah, Virgínia se recostou na cadeira, cruzou os braços e me lançou aquele olhar cético típico dela.
As duas trocaram um olhar rápido entre si, cheio de significados não ditos, antes de Virgínia abrir a boca com aquele tom despretensioso que era só dela:
- Você se odeia?
Arqueei as sobrancelhas, sem ter certeza se ria ou me ofendia.
- Como é que é?
- É sério. -ela continuou, agora apoiando o cotovelo na mesa e o rosto na mão, olhando pra mim como se eu fosse uma equação difícil.- Você se odeia? Porque… só isso explica.
Olívia olhou pra mim com uma expressão mais suave, quase pedindo desculpas por ela, mas não disse nada.
Eu revirei os olhos, me recostei na cadeira e soltei uma risada curta.
- Meu Deus, Virgínia… -comecei, tentando não me irritar.- Você nunca gostou dele, né?
- Depois da palhaçada que ele fez no meu aniversário? -ela rebateu, sem piscar.- Eu não só não gosto como faço questão de odiar. A cena mais vergonhosa da vida e você ainda me pergunta? Ele te pegando no colo como um saco de batatas, te levando embora da minha festa… diante de todo mundo… -ela balançou a cabeça como se ainda não acreditasse.- Aquilo foi patético.
- Eu merecia ser tirada dali. -murmurei, sem encarar nenhuma das duas.- E eu sei que ele não fez do jeito certo, mas ele tava certo.
Virgínia bufou, pegou um guardanapo e começou a amassar distraída.
- Isso só prova o que eu disse. Você se odeia.
Olívia finalmente interveio com um sorrisinho:
- Ei, pelo menos… vocês se entendem agora?
Suspirei, sem graça, e dei um gole no meu descafeinado antes de responder:
- A gente… tá tentando.
E por mais que eu não quisesse admitir em voz alta, só de pensar no sorriso dele quando fala da Serena já fazia meu coração disparar. Por mais complicado que fosse, eu não conseguia evitar.
Os sinos da porta do bistrô tilintaram quando dois caras entraram, rindo baixo entre si. Automaticamente olhei, como qualquer um faria. Um deles — o loirinho, alto, bem-vestido, com um sorriso fácil — me olhou também. E sorriu.
Desviei o olhar imediatamente, voltando a focar na Virgínia que ainda murmurava algo maldoso sobre o Luan entre goles de latte.
Só que, segundos depois, os dois estavam parados bem ao lado da nossa mesa. O moreno de cabelo preto se adiantou primeiro, visivelmente constrangido.
- Me desculpa interromper… -ele começou, ajeitando a gola do casaco.- É que… o meu amigo aqui… -ele indicou o loiro com um aceno de cabeça- te reconheceu de um filme, mas ficou com vergonha de falar.
Eu o encarei sem muita expressão, só esperando onde aquilo ia parar.
- Ele… ele queria seu telefone. -completou, com um sorriso envergonhado.
A Virgínia fez um som de zombaria, Olívia arregalou os olhos, e eu respirei fundo.
- Eu… não posso passar meu telefone pra um estranho, me desculpa. -respondi, educada, mas firme.
Então o loirinho se aproximou com um sorriso encantador e estendeu a mão.
- Sou o Austin. -ele disse, a voz baixa e simpática.- Me desculpa pelo Nathan, ele é meio sem noção às vezes.
Eu apertei a mão dele por educação, e ele continuou:
- Mas eu… não quero te incomodar. Só… será que pelo menos posso pedir uma foto?
Eu me levantei, pegando o celular dele, e nos posicionamos. Ele colocou o braço levemente sobre meu ombro, sem invadir muito meu espaço, e nós sorrimos para a câmera. Ele agradeceu com um brilho genuíno no olhar enquanto guardava o celular e tirava um cartão do bolso interno do blazer.
- Aqui. -ele disse, me entregando.- Sou advogado, se algum dia precisar… de qualquer coisa.
Peguei o cartão, agradecendo com um sorriso educado, e ele se afastou junto com o tal Nathan, ainda visivelmente envergonhado.
Quando eles já estavam quase saindo, Olívia soltou um riso nervoso.
- Ok… isso foi… estranho.
- Estranho nada. -rebateu Virgínia, estreitando os olhos, olhando para a porta.- Eu conheço aquele tal de Nathan de algum lugar… não tô conseguindo lembrar de onde.
Eu olhei para o cartão entre meus dedos, com o nome “Austin Blackwell, Attorney at Law” impresso em dourado, com seu telefone e endereço de escritório abaixo, suspirei, guardando-o no bolso do casaco.
- Bom, pelo menos ele foi educado. -comentei, voltando a me sentar.
Mas a mente da Virgínia claramente já estava maquinando algo, porque ela não tirava os olhos da porta nem por um segundo.
Depois que a Virgínia e a Olívia foram embora apressadas — ambas com trabalhos da faculdade pra terminar — fiquei ali sentada no bistrô, rodando aquele cartão entre os dedos. Eu não sabia exatamente por quê, mas algo dentro de mim me empurrava a pelo menos ver o que era aquele lugar. Talvez fosse só curiosidade… ou só uma desculpa pra não ir embora tão cedo.
Guardei o cartão na bolsa, paguei a conta, e entrei no carro alugado. O endereço não era tão longe dali, uns vinte minutos de trânsito leve. Dirigi sem muita pressa, perdida nos próprios pensamentos, observando as ruas cinzentas de Nova York no fim da tarde.
Quando estacionei na rua indicada, saí do carro com as mãos no bolso e comecei a caminhar pela calçada até o número que constava no cartão.
Era um prédio elegante, fachada discreta, nada gritante como eu imaginava de um advogado. Apenas uma porta envidraçada e sem letreiro. Uma leve iluminação quente vinha de dentro, e algumas plantas bem cuidadas na entrada. Um lugar que transpirava profissionalismo e sobriedade.
Fiquei parada ali, por um momento, encarando o prédio. Sem coragem de entrar, mas também sem vontade de ir embora. Talvez eu só quisesse confirmar pra mim mesma que ele realmente trabalhava ali.
Respirei fundo, ajeitei a bolsa no ombro e dei mais um passo, quando a porta se abriu com um discreto plim do sensor eletrônico.
E então… nossos olhares se encontraram.
Meus pés praticamente fincaram no chão quando reconheci a figura que vinha de dentro.
Bruna.
Ela parou também, congelando no meio do movimento de ajeitar o sobretudo bege sobre os ombros. O cabelo dela caía solto, os olhos arregalados me encaravam, surpresa, quase assustada. O celular ainda estava na mão dela, como se ela tivesse acabado de desligar uma ligação.
- Marina? -ela foi a primeira a falar, num tom hesitante.
Senti meu coração acelerar sem explicação, as mãos suando. Eu não sabia o que dizer, muito menos o que ela fazia ali. E, pelo jeito que ela também me olhava, claramente não esperava me ver.
- Bruna… -murmurei, quase sem voz, devolvendo o olhar dela.- O que você…?
Mas as palavras morreram na minha garganta. Porque, naquele instante, eu também não sabia o que eu fazia ali.