Marina Narrando
Acordei com a cabeça latejando como se tivesse uma bateria da escola de samba ensaiando dentro do meu crânio. A luz que entrava pela fresta da cortina parecia uma agressão pessoal, e o gosto na minha boca era uma mistura de caipirinha, tequila e arrependimento.
A primeira sensação que me veio foi ânsia de vômito. Tentei me virar na cama, mas o simples ato de mexer a cabeça fez o mundo girar duas vezes mais rápido. Sentei devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse me levar pro além.
Foi aí que percebi o outro problema: meus peitos. Jesus amado. Eu não sei se era a ressaca, se era o calor ou se eu tinha virado uma vaca leiteira de repente, mas parecia que eles estavam prestes a explodir. A sensação de “transbordando” era literal. Sério, se alguém encostasse, eu corria risco de espirrar leite no teto.
Olhei em volta, tentando entender onde exatamente eu estava — e graças a Deus, era meu quarto. Ainda bem, porque eu já passei por fases da vida em que acordar em lugares estranhos não era novidade, mas agora, com 21 anos recém-completos e um bebê em casa, acho que posso dizer que evoluí um pouco… ou pelo menos na maior parte do tempo.
Comecei a puxar pela memória. Eu lembrava da manhã, de me arrumar, de ver todo mundo… Lembro vagamente de vários drinks, das meninas dançando, da caipirinha e depois… o bolo.
Sim, o bolo. Aquilo eu lembro com clareza: Luan aparecendo com um sorriso enorme, o número “21” brilhando na vela, todo mundo cantando, eu chorando — porque aparentemente, mesmo bêbada, continuo uma manteiga derretida.
Mas depois do bolo… nada.
Um apagão total. Um buraco negro de lembranças. O próximo frame da minha vida é abrir os olhos hoje e desejar ter um botão de “mute” pros sintomas da ressaca.
Eu me joguei de volta na cama, fechando os olhos e pensando que, talvez, se ficasse ali quietinha, alguém ia aparecer com café, remédio e, de preferência, um extrator de leite — porque, do jeito que as coisas estavam, eu corria o risco de entrar pro Guinness como a primeira pessoa a sofrer um acidente doméstico por excesso de produção mamária.
E tudo isso sem saber o que diabos aconteceu depois do bolo.
Luan entrou no quarto como se tiv sse lido meus pensamentos, sorrindo, equilibrando uma bandeja com café, um copo d’água, um comprimido salvador e o santo graal do momento: meu extrator de leite.
- Bom dia, minha alcoólatra preferida! -ele anunciou, todo empolgado.
Eu imediatamente fechei um olho e levantei a mão, como se quisesse afastar uma entidade maligna.
- Não grita… pelo amor de Deus…
Ele riu, colocando a bandeja na mesinha de cabeceira.
- Calma, calma, já entendi… modo silencioso ativado.
Peguei o café com cuidado, como se fosse um elixir de cura, e soltei um gemido baixo ao primeiro gole. Luan se sentou na beira da cama, me entregando o remédio.
- Toma isso antes que sua cabeça exploda. -disse, todo prestativo.- E depois, trata de usar isso aqui. -ele levantou o extrator, balançando levemente.- Porque, pelo tamanho desses peitos agora, você deve estar com uns dois litros aí.
Revirei os olhos.
- Eu sei. Tô quase vendendo no mercado negro.
Ele riu de novo, mas dessa vez mais baixo, respeitando minha condição frágil.
- Olha, eu não vou te julgar… mas ontem você fez história.
Franzi a testa, desconfiada.
- Que história?
Ele deu aquele sorrisinho malandro.
- Bom… digamos que depois do bolo, você tomou muita caipirinha e decidiu que o karaokê precisava do seu talento.
Coloquei a mão na testa.
- Ah, não…
- Ah, sim. -ele confirmou, segurando o riso.- Só que você esqueceu de cantar no tom. Ou na melodia. Ou na música. Mas a performance… impecável.
Eu escondi o rosto nas mãos.
- Deus, me leva.
Ele me deu um tapinha no joelho.
- Relaxa. Todo mundo amou. Agora, toma o remédio, bebe o café, e vamos salvar esses peitos antes que eles declarem independência.
Eu balancei a cabeça, meio rindo, meio morrendo, e estendi a mão pro extrator.
- Esse é, oficialmente, o presente mais útil que eu recebi. -foi então que me lembrei da Serena.- Meu Deus… minha filha… a coitadinha sem mãe… -murmurei, pondo a mão na testa.- Eu nem lembro do meu pai ter trazido ela…
Luan assentiu, paciente.
- Ele trouxe sim. Veio com a Ashley. Você já tava desmaiada na cama quando chegaram, todo mundo já tinha ido embora.
- E ela? Ficou bem? -perguntei, com a voz meio embargada.
Ele sorriu de canto, com aquele jeito de quem quer acalmar.
- Ficou. Eu dei banho nela, brinquei um pouco, alimentei… ela dormiu tranquila. Depois fui cuidar de você.
Cobri o rosto com as mãos, imaginando a cena.
- Cuidar… de mim?
- É. Te arrastei pro chuveiro porque, desculpa falar, você tava fedendo a caipirinha. Derrubou na roupa, tava com o pé preto… parecia que tinha dançado descalça na rua.
Revirei os olhos, envergonhada.
- Ai, que horror.
- Depois do banho, você vomitou duas vezes, chorou… -ele falou como quem descreve o roteiro de um filme.- Escovou os dentes e finalmente foi dormir.
Suspirei, afundando mais no travesseiro.
- Eu sou um desastre.
Ele riu, passando a mão no meu cabelo.
- Só quando mistura bebida depois de um ano sem beber. Ah, e quando resolve cantar Evidências fora do tom.
Eu tapei o ouvido.
- Não fala disso.
Ele apenas riu mais.
- Ah, e a Serena acordou três vezes de madrugada. Eu cuidei. Agora ela tá dormindo de novo.
A culpa deu lugar a uma onda de gratidão. Olhei pra ele, meio emocionada.
- Você é o melhor.
- Eu sei. -ele sorriu convencido.- Agora toma esse café e usa o extrator antes que a gente precise de um balde.
Puxei a blusa com um suspiro de alívio, porque meus seios estavam tão pesados e doloridos que parecia que iam explodir. Posicionei o extrator em um deles e, só de sentir o alívio inicial, fechei os olhos por um segundo.
Quando abri, percebi Luan me olhando. Não era um olhar malicioso, nem constrangido — era aquele misto de cuidado e fascínio, como se estivesse assistindo algo que ele considerava importante.
- Que foi? -perguntei, arqueando a sobrancelha.- Vai ficar me encarando assim?
Ele deu um meio sorriso.
- É que… eu acho incrível como seu corpo tá trabalhando pra cuidar da nossa filha.
Aquilo mexeu comigo. Respirei fundo, um pouco envergonhada e um pouco tocada pela forma como ele disse. Então, sem pensar muito, soltei:
- Você ainda quer casar comigo?
Ele arregalou os olhos por um segundo, como se a pergunta fosse absurda.
- Como assim “ainda”?
- Ah, sei lá… depois de ontem… depois de ver essa versão minha bêbada, chorando, vomitando, fedendo caipirinha, pé preto… e agora aqui, com os peitos pra fora, meio zumbi de ressaca…
Ele balançou a cabeça, chegando mais perto.
- Marina… eu quero casar com todas as suas versões. A bêbada, a chorona, a que canta Evidências fora do tom… e principalmente essa aqui, que mesmo destruída tá cuidando da nossa filha.
Senti meus olhos arderem e ri fraco, tentando disfarçar.
- Você fala umas coisas que me fazem amar você mais ainda.
Ele deu um beijo na minha testa.
- Então para de perguntar besteira e termina esse café, porque você tem um noivo que não vê a hora de te levar pro altar.
Eu sorri e bebi o café, já aproveitei também e tomei o comprimido pra mim não falecer, meu estômago estava péssimo.
- Ai, Marina… -ele começou, se apoiando na beirada da cama, quase se dobrando de rir- você não lembra de ontem, né?
- Depois do bolo? Não. -falei, apertando os olhos, ainda com a cabeça latejando.- E já tô com medo.
- Você… -ele respirou fundo, tentando controlar o riso.- resolveu que queria me “ajudar” a servir caipirinha. Só que… você não fazia ideia de como usar a coqueteleira.
- Eu sei usar sim! -protestei, ajeitando o extrator de leite no peito.
- Aham… -ele deu mais uma risada.- Você colocou o gelo depois da vodka, derrubou metade na mesa, e ainda falou pra todo mundo: “Aqui é caipirinha freestyle, gente, cada gole é uma surpresa!”
Eu comecei a rir, mesmo sentindo a cabeça latejar.
- Mentira que eu falei isso.
- Pior que falou. -ele confirmou, balançando a cabeça.- E depois… você foi dançar no meio da varanda com a Bruna, só que… com o salto na mão e o copo na outra.
- Ai meu Deus.
- Aí veio a melhor parte… -ele olhou pra mim como se fosse contar o clímax de um filme.- Você viu um cara com uma camisa da NBA de Boston Celtics e ficou uns cinco minutos dando discurso sobre como o verde “representa esperança e o amor que você sente pelo Luan Santana”.
Eu arregalei os olhos.
- Não!
- Sim! -ele gargalhou.- E ainda terminou falando: “E é por isso que eu vou casar com ele e ter uns cinco filhos.”
- Uns cinco?! -eu ri, apertando a testa.- Acho que foi a caipirinha que falou, não eu.
Ele piscou.
- Mas… gostei da parte de casar.
- Cala a boca. -falei, mas não consegui segurar o sorriso.- É culpa sua eu ter ficado assim.
- Culpa minha? -Luan arqueou a sobrancelha, rindo de novo.- Amor, eu só tava fazendo a caipirinha… quem tava bebendo igual quem bebe água depois de correr uma maratona era você.
- Ah, claro… e quem fez a caipirinha mais doce do planeta, que parecia suco de limão com açúcar e vodka? -eu retruquei, rindo.- Aquilo descia igual suco!
Ele se jogou na cama, rindo mais alto.
- Tá, mas você lembra que pediu “bem docinha pra não sentir o álcool”? Eu devia ter colocado um aviso: “perigo, bebida traiçoeira”.
- Aviso nada… devia ter me servido num copinho de café, só pra me enganar. -falei, balançando a cabeça.- Aí, hoje, não tava aqui morrendo e extraindo leite como se fosse vaquinha premiada.
- Ih, mas valeu a pena ontem, vai… -ele disse, com aquele sorrisinho que me deixava desconfiada.- Você dançando no meio da sala, depois que cantou Evidências, você queria cantar Boate Azul como se estivesse num show no estádio, foi um evento à parte. Eu nem sabia que você conhecia essas músicas, você é uma caixinha de surpresa.
Eu abri a boca, chocada.
- Eu fiz o quê?!
Ele deu uma gargalhada, segurando o rosto.
- E ainda chamou o Ryan pra ser seu backing vocal… e quando ele disse que não sabia a letra, você apontou o dedo e falou “você não merece estar aqui”.
- Mentira! -eu comecei a rir, me escondendo atrás da mão.- Isso não é verdade, você tá inventando!
- Ah, não tô não… -ele disse, puxando o celular.- Eu tenho vídeo, e vou guardar pra mostrar no nosso casamento… no telão.
- Se fizer isso, eu desmarco o buffet. -ameacei, rindo e tentando parecer brava.
Ele deu de ombros, provocando.
- Tudo bem… mas eu ainda tenho o vídeo.
Mais tarde...
O almoço já tinha passado e eu estava muito melhor, como se aquela indisposição da manhã fosse só uma lembrança. Amanhã seria dia de voltar para Los Angeles, retomar minha rotina, enquanto Luan seguiria com a maratona de shows. Só que antes disso, eu tinha um desejo: passar um tempo com o meu loirinho, aquele que daqui a poucos dias já completaria um ano de vida.
- Vamos na casa da Bru e do Justin? -pedi, olhando para Luan.- Quero ver o Jack antes de voltar.
Ele sorriu de leve, ajeitando a Serena no colo.
- Claro, vamos sim.
Ajeitamos as coisas e fomos. Pouco tempo depois, estávamos subindo pelo elevador até o apartamento deles. Luan estava com a Serena nos braços, e ela observava tudo com aqueles olhinhos curiosos. Chegamos na porta e bati duas vezes. A maçaneta girou e Bruna abriu, me encarando com um meio sorriso — não aquele sorriso aberto e caloroso que ela sempre dava, mas um contido, como se algo estivesse pesando sobre ela.
- Oi... -ela disse baixo, abrindo espaço para entrarmos.
O clima já bateu diferente assim que cruzamos a porta. O apartamento estava silencioso, exceto por uma voz abafada vindo do Justin, que estava sentado no sofá, falando ao telefone. O rosto dele estava sério, os olhos levemente vermelhos e inchados, como de quem havia chorado. Jack estava perto da estante, se apoiando nela com as mãozinhas, tentando se equilibrar, alheio a toda a tensão no ar.
Olhei de um para o outro, estranhando. Luan também percebeu o peso do ambiente e, instintivamente, ficou mais quieto, balançando a Serena no colo para distraí-la.
- O que aconteceu? -perguntei, quebrando o silêncio e me aproximando de Bruna.
Ela respirou fundo, como se tivesse que reunir coragem para dizer.
- A Caitlin... -sua voz saiu trêmula, os olhos marejando.- A Caitlin faleceu.
Fiquei alguns segundos em choque, tentando processar. Não era só o peso da notícia em si, mas a forma como o ar parecia ter se tornado denso dentro daquele apartamento. Justin desligou o telefone devagar, passou as mãos pelo rosto e ficou ali, imóvel por alguns segundos, como se qualquer palavra fosse pouco diante do que sentia.
Jack, sem entender nada, soltou um gritinho de alegria ao me ver, quebrando minimamente a tensão, mas o clima continuava carregado. A imagem de Justin, com aquele olhar perdido, não ia sair da minha cabeça tão cedo.
Eu caminhei até o Jack com um sorriso que era mais pra disfarçar do que qualquer outra coisa.
- Vem com a titia… -falei baixinho, estendendo os braços pra ele.
Ele veio todo animadinho, sem ter noção de nada do que estava acontecendo, e assim que senti seu peso nos meus braços, dei um beijo estalado na bochecha dele. Aquele cheirinho de shampoo infantil me invadiu, trazendo um pouco de leveza praquele momento que, no fundo, estava tão pesado.
Justin desligou o telefone e, sem dizer nada de imediato, deixou o celular sobre a mesinha de centro. O movimento foi lento, quase cuidadoso demais, como se aquele simples gesto tivesse um peso enorme.
- Sinto muito, Justin… -falei com sinceridade, apertando o Jack um pouquinho mais no colo.- No que você precisar, pode contar com a gente.
Ele respirou fundo, os olhos fugindo um pouco dos meus antes de se fixarem de novo.
- Eu vou ter que ir pro Canadá… pro velório. E também… -a voz dele falhou só um pouco.- buscar a Chloe de vez.
Assenti com a cabeça, engolindo seco. Ele precisava fazer isso. Era o certo, mas também era o tipo de decisão que muda a vida de qualquer pessoa.
Justin se levantou, as mãos nos bolsos, e caminhou até onde Bruna estava. Ela, sem hesitar, abriu os braços e o abraçou forte. Ficaram assim por alguns segundos, como se um tentasse passar força pro outro.
- Bruna… você vai também? -perguntei, aproveitando um pequeno silêncio.- Eu posso ficar com o Jack, se quiser.
Justin soltou o abraço, mas não respondeu. Bruna olhou pra mim, ainda com a expressão meio abatida, e balançou a cabeça.
- Não… eu não tenho visto pro Canadá. -a voz dela saiu baixa, mas segura.
- Verdade… -murmurei, me lembrando.
Me sentei no sofá, ajeitando o Jack no meu colo. Comecei a fazer cócegas de leve na barriga dele, só pra ver o sorriso banguela aparecer. Se ele risse, talvez não percebesse o peso que caía sobre os adultos naquele momento.
Do outro lado da sala, Bruna pegou a Serena dos braços do Luan. Justin passou a mão com carinho na cabeça da Serena, e por um breve instante, vi um sorriso suave nos lábios dele.
Ele olhou pra Bruna, e eu percebi. Percebi a troca silenciosa entre eles. Não era só sobre o que estava acontecendo agora. Era sobre o que vinha depois. Sobre o que mudaria pra sempre.
Porque, a partir daquele momento, eles seriam quatro. Não só Bruna, Justin e Jack… mas agora Chloe também. E não era uma visita temporária, não era só um período de adaptação. Era de vez.
Respirei fundo, olhando pra minha amiga e pensando se ela estava mesmo preparada. Ser mãe já é um desafio enorme. Ser mãe de dois, de idades diferentes, com histórias diferentes… era outro nível. E, conhecendo a vida como ela é, nada disso viria de forma suave.
Mas olhando pra Bruna, abraçada à Serena, e lembrando de tudo que ela já enfrentou, eu sabia que força ela tinha. Talvez não tivesse todas as respostas — quem tem? — mas ela tinha amor. E, às vezes, isso é o que mantém tudo de pé quando o resto desmorona.
Eu brinquei mais um pouco com Jack, fazendo ele dar gargalhadinhas, e mesmo assim não consegui evitar de pensar que, nos próximos dias, tudo mudaria. E que o Justin, por mais forte que fosse, precisaria dela. E ela, dele.