Bruna Narrando
Eu já nem lembrava como era falar sobre mim sem falar de dor ou arrependimento. E, de certa forma, eu ainda sentia um pouco dos dois… mas a vida, aos poucos, foi entrando nos eixos outra vez.
Jack já estava com quase seis meses — quase meio ano. Só de pensar nisso, meu coração apertava. Ele já rolava sozinho no tapetinho, já gritava tentando chamar a atenção e adorava dormir grudado no peito do Justin. Eu me sentia grata por ele ser um bebê tão calmo e sorridente… ele não fazia ideia do quanto me salvou todos os dias, só por existir.
Eu olhei no espelho do vestiário da academia enquanto prendia o cabelo num coque rápido. Já fazia uns dois meses que eu tava pegando firme na rotina de treinos, mais pra me sentir bem comigo mesma do que por estética, e a diferença já dava pra notar. Eu me sentia mais leve, mais disposta, até mais confiante.
Nathan… bom, o Nathan ainda era um grande ponto de interrogação. A gente já se via há cinco meses, saía toda semana, às vezes duas vezes na semana quando dava. Ele me buscava pra jantar, ou vinha em casa me ajudar com o Jack pra depois a gente pedir delivery e maratonar série. Era bom. Ele era leve, gentil, engraçado… e não me cobrava nada. Mas a gente nunca colocou um rótulo. Nunca dissemos nada sobre “namorar”.
Eu ainda tenho aquele medo de abrir meu coração e ele me machucar. Ainda lembro do que senti quando tudo desmoronou entre mim e o Justin.
Pelo menos eu tava tentando seguir em frente.
E, com isso, eu voltei pra faculdade também. Essa foi uma das decisões mais difíceis que tomei desde que o Jack nasceu — não queria me sentir uma péssima mãe por me ausentar algumas horas por dia, mas também não queria abrir mão dos meus sonhos. Justin me apoiou mais do que eu poderia imaginar. Ele insistiu que eu voltasse, garantiu que cuidaria do Jack quando precisasse, até contratou mais uma babá e ainda comprou um apartamento maior pra ele em Nova York, pra ficar mais próximo do Jack e de mim.
Ele diminuiu a agenda de shows, cancelou compromissos, e hoje em dia passa mais tempo com o filho do que eu jamais imaginei que ele fosse fazer. Eu o admirava muito por isso. Apesar de tudo que ficou pra trás entre nós, não podia negar que ele era um pai incrível.
Peguei minha garrafinha de água, respirei fundo e saí do vestiário. Hoje eu ia pegar pesado no treino — era o meu momento. Meu momento de ser só a Bruna, além de mãe do Jack, além de filha, além de irmã… só eu.
No caminho até a esteira, meu celular vibrou com uma mensagem. Era do Nathan:
“Oi, só passei pra desejar um bom treino. Tô pensando em te levar naquele restaurante tailandês amanhã à noite, o que acha?”
Sorri sozinha, e a sensação boa que senti ao ler aquilo foi suficiente pra me fazer responder de imediato:
“Topo sim. Boa noite, Nathan.”
Subi na esteira, ajustei a velocidade e comecei a correr, sentindo meu coração bater forte. E pela primeira vez em muito tempo, não era só por medo ou ansiedade. Era porque, talvez… só talvez, eu estivesse reencontrando a tal felicidade que eu achava que nunca mais sentiria.
Esses últimos meses me ensinaram muito sobre quem eu sou.
E também sobre quem eu não quero ser nunca mais.
Depois do treino, voltei pra casa já bem tarde. A babá de turno já tinha dado banho no Jack, colocado a fralda noturna e deixado ele no berço, dormindo feito um anjinho no quarto dele. A luz do abajur estava acesa, bem fraquinha, só pra eu conseguir vê-lo.
Eu tomei um banho rápido antes de ir vê-lo, me aproximei devagar, encostando na grade do berço e apoiando o queixo na mão. Fiquei ali só observando ele respirar.
Jack se mexeu um pouquinho, soltou um daqueles suspiros de bebê que pareciam um choramingo, mas não abriu os olhos. Eu sorri. Era incrível como ele crescia tão rápido e, ao mesmo tempo, ainda era tão meu, tão dependente de mim.
- Você não faz ideia do quanto mamãe te ama, sabia? -sussurrei, passando a ponta do dedo pela bochecha macia dele.
Apertei os lábios e me sentei na poltrona do quarto, sentindo um nó na garganta. Porque, por mais que eu me sentisse mais feliz agora, por mais que a minha vida estivesse se ajeitando aos poucos… eu ainda carregava muita culpa e medo.
Medo de errar com ele.
Medo de não dar conta de ser mãe, mulher, estudante e tudo ao mesmo tempo.
Medo de, um dia, ele crescer e achar que não foi suficiente pra mim.
Eu apoiei a testa nos joelhos, respirando fundo, e deixei uma ou duas lágrimas escaparem, antes de enxugar rápido e me recompor.
Quando ergui a cabeça, ele tinha virado um pouco o rosto e o olhinho estava entreaberto.
- Oi, meu amor… mamãe tá aqui, tá? -falei baixinho, estendendo os braços pra ele.
Ele resmungou, mas aceitou. Me inclinei e o peguei no colo, sentindo seu corpinho quentinho encostar no meu peito. Ele agarrou a gola da minha blusa e deu um suspiro profundo, voltando a dormir instantaneamente.
Sentei de novo na poltrona com ele no colo, balançando devagar, sentindo o cheirinho de bebê, o coração dele batendo pertinho do meu.
E ali, no silêncio do quarto, eu prometi pra mim mesma que nunca mais ia deixar ninguém — nem eu mesma — me convencer de que eu era menos do que suficiente. Eu já tinha tudo que precisava bem aqui, nos meus braços.
- Boa noite, meu príncipe. -murmurei, dando um beijo demorado na testa dele.- A mamãe te ama mais que tudo.
E fiquei ali por um bom tempo, só aproveitando aquela paz momentânea.
No outro dia...
Era sábado, final da manhã. Eu já tinha dado mamadeira pro Jack e estava brincado com ele no tapetinho, quando a campainha tocou.
Olhei pelo olho mágico e sorri leve. Justin, claro.
Abri a porta. Ele usava uma jaqueta preta, óculos escuros apoiados no cabelo, e um copo de café na mão.
- Bom dia. -ele disse, com um meio sorriso.
- Bom dia. -respondi, cruzando os braços e me encostando na porta, deixando-o entrar.- Tô impressionada, você tá no horário.
Ele riu, largando as chaves e o café na bancada da cozinha.
- É sábado. Tô sempre de bom humor aos sábados.
- Jack já tá de banho tomado, trocado e alimentado. Só falta o pai mimar ele com um monte de besteira que ele não precisa. -provoquei, me sentando no sofá.
Justin tirou a jaqueta e foi direto pro tapetinho do Jack, que já gritava “dadada” ao ver ele.
- Ah, claro que vou mimar. É pra isso que eu existo. -pegou o filho no colo, girando-o no ar, ouvindo as gargalhadas do bebê.- Você tá cada dia mais parecido comigo, moleque.
- É, só espero que não herde a teimosia. -soltei, erguendo uma sobrancelha.
Ele olhou por cima do ombro e devolveu a mesma provocação:
- Ou a sua mania de ter sempre a última palavra.
Revirei os olhos, mas sorri.
- A gente tá bem melhor agora, né? -comentei, sincer, indo me sentar.
Justin se sentou no sofá com Jack no colo, brincando com as mãozinhas do bebê.
- A gente aprendeu. -ele concordou.- Ainda bem. Antes… qualquer coisa era motivo pra discussão. Agora, eu gosto de vir aqui. Gosto de… -olhou pra mim, e completou num tom mais baixo:- da gente ser um time pro Jack.
Meu peito aqueceu com aquilo.
- É só isso que importa. -falei, meio sem jeito.
Por um instante, ficamos em silêncio. Jack brincava com a orelha dele, arrancando risadas baixas.
Até que Justin soltou:
- Mas tem uma coisa que ainda me incomoda.
Eu já sabia o que era. Cruzei as pernas e encarei ele com calma.
- O Nathan?
Ele assentiu, sem me olhar diretamente.
- Não vou mentir… me incomoda ver ele aqui. Com o meu filho. Com você. Não é fácil pra mim. -finalmente levantou os olhos pra mim.- Mas eu não vou bancar o idiota. Se ele te faz feliz… ok. Só… só não esquece que ninguém nunca vai cuidar de você e do Jack como eu cuido.
Suspirei, sentindo meu coração bater forte com aquela sinceridade.
- Eu sei disso, Justin. E eu nunca vou esquecer. Você é o pai do meu filho. Meu primeiro amor. Nada muda isso. -disse, séria. Depois tentei aliviar o clima:- Mas você não tem que gostar dele. Só tem que respeitar minhas escolhas.
Ele soltou um sorriso pequeno, meio forçado.
- É… tô tentando.
- Eu sei. -toquei levemente a mão dele, antes de me levantar.- Quer suco?
- Só se for natural. -ele respondeu, voltando a dar atenção ao Jack.- E sem açúcar. Quero dar o exemplo.
- Olha só… agora é o pai perfeito. -brinquei, indo pra cozinha enquanto ele ria baixinho.
Antes que eu pudesse chegar nos armários pegar os copos, escutei Justin se levantando do sofá
- Ah… já ia esquecendo.
Eu franzi a testa, sem entender e voltei pra olha-lo. Ele colocou Jack sentado no tapetinho e enfiou a mão no bolso da jaqueta jogada no sofá. Tirou uma barra de chocolate e estendeu pra mim.
- É pra você. Zero açúcar, light, todo sem lactose e sem glúten… sei lá o que mais. Só sei que a moça da loja jurou que era bom.
Fiquei parada por um segundo, sem acreditar.
- Você… comprou isso pra mim? -perguntei, surpresa.
- Ué… você tá nessa vibe fitness agora, academia todo dia, dieta toda hora. Eu vi na farmácia ontem e lembrei de você. Só isso. -ele disse com um meio sorriso, quase envergonhado.
Peguei a barra da mão dele, sentindo meus dedos tocarem os dele, e por um instante meu coração errou as batidas. O cheiro dele ainda me atingia de um jeito esquisito, familiar e reconfortante ao mesmo tempo.
Olhei para a embalagem do chocolate como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. Era só… uma barra de chocolate. Mas não era só isso. Era dele. Do Justin. Esse era o Justin que eu tinha amado tanto um dia. O Justin que se lembrava de detalhes, que prestava atenção nas coisas que eu dizia sem perceber que ele estava ouvindo.
Um sorriso bobo escapou dos meus lábios enquanto eu segurava a barra contra o peito.
- Obrigada. -murmurei, quase tímida.
Ele apenas deu de ombros, mas havia um brilho no olhar dele quando disse:
- Nada demais. Você merece. -ele respondeu, num tom leve, mas a forma como ele me olhou antes de voltar pra pegar Jack de volta me fez ter certeza: ele sabia exatamente o que estava fazendo comigo.
Meu estômago revirou. Borboletas. Borboletas como fazia tempo que eu não sentia. E eu me odeio um pouco por isso, porque não era pra me sentir assim. Mas… era o Justin. Ele ainda tinha esse efeito em mim.
Eu respirei fundo, tentando ignorar o calor no meu rosto.
Fiquei parada na cozinha, ainda com a barra de chocolate na mão, tentando entender por que meu coração estava acelerado por causa de um gesto tão pequeno. Respirei fundo, coloquei o chocolate sobre a bancada e abri a geladeira, lembrando que tinha vindo pegar um suco pra ele antes de ser interrompida por aquela surpresa inesperada.
Peguei a jarra de suco natural e dois copos, tentando não deixar o sorriso bobo escapar enquanto me lembrava do tom tranquilo com que ele disse “Você merece.”
Era quase cruel, porque por meses ele só me olhou com mágoa, ressentimento, raiva contida… e agora me olhava daquele jeito de novo.
Enchi os copos e levei pra sala, encontrando-o sentado no chão com Jack, brincando com um chocalho. A cena por si só já me desmontava inteira: o jeito que ele sorria pro nosso filho, a naturalidade com que ele se ajoelhava, aquele ar de garoto num corpo de homem.
- Aqui… -falei, oferecendo o copo pra ele.
- Valeu. -ele pegou sem nem tirar os olhos do Jack, e eu me peguei rindo sozinha.
Me sentei no sofá, de pernas cruzadas, observando os dois. Talvez fosse tolice, mas por um segundo eu me perguntei se a gente conseguiria, um dia, ser assim: leves, em paz.
Olhei pro relógio no pulso e vi os ponteiros marcando quase 11h40.
- Já passou das onze… -comentei, chamando a atenção dele. Ele ergueu os olhos pra mim.- Você… fica pro almoço?
Ele piscou, surpreso com o convite.
- Almoço?
- É… quer dizer… já tá aqui, e eu ia fazer alguma coisa de qualquer forma. -dei de ombros, tentando soar casual, mesmo sentindo meu rosto esquentar.
Justin apoiou o chocalho no tapete, pegou o copo e bebeu um gole devagar, como se estivesse considerando minha proposta. Quando terminou, me encarou com aquele meio sorriso de canto que só ele sabia dar.
- Tá me convidando pra almoçar?
- Não é nada demais… -murmurei, desviando o olhar, envergonhada.
Ele riu baixinho, aquele riso rouco que sempre me desmontou, e assentiu.
- Então eu fico. Não lembro a última vez que comi algo feito por você sem que fosse brigando comigo.
Rolei os olhos e joguei uma almofada nele.
- Idiota.
Ele pegou a almofada e riu ainda mais, voltando a brincar com Jack como se nada tivesse acontecido. Mas eu percebi… aquele olhar dele ainda estava ali, do mesmo jeito que antes.
E eu sentia, mais uma vez, as malditas borboletas no estômago.
Me levantei, ajeitei a blusa, e voltei pra cozinha com um propósito.
Não custava nada retribuir aquele gesto bobo dele com o chocolate, né?
Ainda lembrava de cor qual era a comida preferida dele — espaguete ao molho bolonhesa, sem sombra de dúvida. Ele sempre pedia isso quando saíamos pra jantar ou nos incontáveis quartos de hotéis que ficamos.
Peguei os ingredientes no armário, me distraindo em cortar cebola, tomate, cheiro-verde… imaginando a cara dele quando sentisse o cheiro do molho no ar. Um pequeno sorriso escapou enquanto eu jogava a cebola na panela, já aquecida.
Estava tão imersa, cantarolando baixinho uma música qualquer, que só percebi quando senti uma presença atrás de mim. Me virei instintivamente, e quase dei um passo pra trás de susto.
Justin estava ali. Sozinho. Milímetros do meu rosto.
Tão perto que dava pra sentir o perfume dele misturado ao sabonete que ele sempre usava.
Nossos olhares se encontraram imediatamente, como se o resto da cozinha tivesse desaparecido. E ele não desviou. Não dessa vez.
Os olhos cor de mel estavam cravados nos meus. Firmes. Intensos.
- Jack adormeceu… -ele disse, baixo, rouco.
Eu engoli em seco, sentindo meu coração bater rápido de um jeito que eu não lembrava fazia muito tempo.
Continuei olhando pra ele, como se meus pés tivessem enraizado no chão.
- Ah… -murmurei, quase num sussurro.- Que bom.
Justin não recuou. Também não avancei.
Mas por um instante, por um instante longo o suficiente pra me deixar tonta, eu me perdi naquele olhar como já me perdi tantas vezes antes.
E ele ficou ali.
Me encarando como quem queria dizer tudo o que ainda não tinha dito.
Eu fiquei ali, sem conseguir sair do lugar.
O cheiro da cebola fritando começava a se espalhar pela cozinha, mas era o perfume dele que me dominava.
Justin não disse mais nada, apenas continuou me olhando como se tentasse decifrar cada pensamento meu.
E eu também não consegui desviar.
Era como se o mundo tivesse ficado em silêncio — só o som do meu coração batendo tão forte que eu podia jurar que ele também ouvia.
De repente, ele inclinou um pouco a cabeça, um lado da boca se curvando num sorriso quase imperceptível.
E antes que eu pudesse reagir ou dizer qualquer coisa, ele ergueu a mão e afastou uma mecha do meu cabelo, devagar, com a ponta dos dedos roçando de leve minha bochecha.
Foi o suficiente pra me arrepiar inteira.
- Você ainda me deixa assim… -ele murmurou, num tom baixo, como se falasse pra si mesmo.
- Assim como? -perguntei, quase num fio de voz, sentindo minha respiração falhar.
Justin não respondeu. Só aproximou o rosto do meu, e por um segundo hesitou… como se me desse a chance de recuar.
Mas eu não recuei.
Então ele simplesmente se inclinou e me beijou.
Calmo no início, suave, como quem prova um sabor que já conhece mas sentia falta.
Depois, quando minhas mãos finalmente pousaram no peito dele e puxaram um pouco sua camiseta, ele aprofundou o beijo, sem pressa, como se não existisse nada além daquele momento.
Quando ele se afastou, só um pouquinho, a testa dele encostou na minha, a respiração ainda descompassada.
E eu não consegui evitar um sorriso bobo, sentindo as bochechas queimarem.
- Isso… -ele sussurrou, ainda colado a mim.- É disso que eu tava falando.
Ficamos assim por alguns segundos, só respirando um no outro, como se o resto do mundo não tivesse importância.
Eu estava ali, perdida naquele beijo, naquele momento que parecia tirar o mundo inteiro do lugar, e de repente... senti o cheiro forte da cebola queimando.
- Merda! -murmurei, me afastando rápido e virando para mexer na panela, tentando salvar o almoço que ameaçava virar carvão.
Mas antes que eu pudesse fazer mais alguma coisa, senti as mãos de Justin me envolverem por trás, seguras e firmes, e a voz dele baixinha, quase um sussurro no meu ouvido:
- Eu sei que seu coração deve estar dividido agora... -ele disse, com uma sinceridade que me fez arrepiar.- Mas esse beijo... me provou que ainda há chances, Bruna. Eu não vou desistir de você.
Meu corpo inteiro estremeceu com aquelas palavras, sentindo o calor que ele emanava tão perto. Desliguei o fogo da panela sem pensar duas vezes, me virei lentamente para encará-lo.
Olhei nos olhos dele, senti meu peito apertar e disse, com toda a verdade que eu tinha dentro de mim:
- Meu coração não está dividido. -minhas mãos foram ao rosto dele, segurando firme.- Meu coração é seu, Justin. Sempre foi.
Ele sorriu, com aquela mistura de surpresa e alívio, e num instante nossos lábios se encontraram de novo, mais intensos, como se cada segundo longe fosse uma eternidade.
Ele me beijava como se nunca mais quisesse parar — e, sinceramente, eu também não queria. Era como se tudo que a gente tinha passado até aqui tivesse valido a pena só pra chegar a esse instante.
Quando nos afastamos, por falta de ar, as mãos dele continuavam na minha cintura, firmes, e o sorriso dele era quase infantil, mas os olhos… os olhos diziam tanta coisa.
- Eu tô falando sério, Bru. -ele disse baixinho, encostando a testa na minha.- Eu não vou desistir de você. Nem do nosso filho. Eu sei que nós dois erramos, mas eu… eu também sei que a gente tem conserto.
Eu respirei fundo, fechando os olhos, sentindo as lágrimas quererem vir. Aquelas palavras mexiam comigo de um jeito que eu não conseguia explicar.
- Justin… -comecei, mas ele colocou um dedo nos meus lábios.
- Não me responde agora. -ele sorriu de leve.- Só… só me deixa tentar de novo.
Eu mordi o lábio, tentando esconder um sorriso bobo.
- Você já tá tentando, sabia?
Ele riu também, passando a mão no meu rosto.
- Então já é um começo.
Ficamos assim, nos olhando por mais alguns segundos, até que eu senti meu estômago roncar alto. Nós dois caímos na gargalhada.
- Tá vendo? -brinquei.- Até meu estômago tá dizendo que a gente tem que resolver as coisas.
Ele me soltou devagar, mas não sem antes dar mais um selinho demorado.
- Então vamos terminar logo esse almoço antes que você mate a gente de fome… ou queime a cozinha toda.
- Engraçadinho. -resmunguei, rindo enquanto voltava pro fogão.
Ele ficou ali, encostado na bancada, me observando cozinhar como se fosse a coisa mais bonita do mundo. E por mais que eu tentasse disfarçar, meu coração ainda batia acelerado só de ter ele ali.
Eu ainda sentia as bochechas quentes por causa do beijo, mas tentei me concentrar no molho na panela. Senti os olhos dele queimando nas minhas costas, e resolvi quebrar aquele silêncio antes que meu coração pulasse do peito.
Me virei devagar, segurando a colher de pau e tentando soar casual:
- Só pra você saber… -falei, dando de ombros, mesmo com um sorriso tímido escapando.- eu ia fazer espaguete. Pra você.
Ele arqueou as sobrancelhas, visivelmente surpreso, e um sorriso largo foi se formando nos lábios dele.
- Espaguete? -ele repetiu, como se não acreditasse.- O meu preferido?
Assenti, desviando os olhos por vergonha e mexendo a panela de novo.
- É… achei justo, já que você me surpreendeu com o chocolate. Quis retribuir.
Justin se aproximou devagar, apoiou as mãos na bancada e ficou me encarando, agora com aquele ar convencido que só ele tinha.
- Quer dizer que você ainda lembra disso? -a voz dele era baixa, mas cheia de humor.- Que espaguete ao bolonhesa é o meu ponto fraco?
Revirei os olhos, tentando não sorrir demais.
- Claro que eu lembro, Bieber. Até porque, toda vez que você comia, você lambia até o prato.
Ele soltou uma gargalhada gostosa, jogando a cabeça pra trás, e eu senti meu coração dar uma voltinha de novo. Então ele se inclinou um pouco pra mim, os olhos brilhando.
- Já disse que você é a mulher mais incrível que eu já conheci? -ele perguntou, num tom brincalhão, mas com um fundo sério que me fez engolir seco.
Suspirei e dei um leve empurrão no braço dele com a colher, fingindo indignação:
- Cala a boca e vai sentar. Se ficar aqui me olhando assim, vou acabar queimando o molho.
Ele ergueu as mãos em rendição, rindo.
- Tá bem, tá bem… mas só vou sentar porque tô curioso pra provar.
E, quando ele se afastou, sentando no sofá e deitando a cabeça pra trás, eu não consegui evitar o sorriso bobo que tomou conta do meu rosto.