Bruna Narrando
2 semanas depois...
Sexta-feira, 05 de fevereiro de 2027
Duas semanas. Já tinham se passado duas semanas desde aquela bomba que o Justin soltou no meu colo, como quem entrega uma caixa e sai correndo pra não ver a explosão. E foi isso que ele fez, na prática. Sumiu.
Eu só sabia quando ele tava em Nova York porque mandava mensagem pra babá pedindo pra levar o Jack no apartamento dele. E eu? Eu ainda tava tentando assimilar tudo. Era difícil. Caramba, era difícil demais.
Era uma outra filha. Uma menina que ele mal conhecia direito e que agora fazia parte do pacote que vinha com ele. Eu sabia que, se escolhesse ficar com o Justin, ia ter que aprender a criar aquela menina junto com o Jack. Exigia maturidade. Muita maturidade da minha parte.
E eu não tinha certeza se tava pronta pra isso.
Então, por enquanto… o que eu fiz foi focar no que eu podia controlar. Na minha carreira, no meu filho.
Eu tava na última aula do dia na faculdade, com um croqui mal acabado ainda molhado de tinta espalhado na minha bancada. Meu sonho de ser estilista ainda vivia em mim — e agora era o meu norte. Eu já tinha gasto tempo demais priorizando relacionamentos. Todos eles tinham dado errado. Harry. Justin. Nathan. Justin de novo.
Talvez o problema fosse eu. Ou talvez eu só estivesse tentando amar antes da hora certa.
De qualquer jeito… agora minha prioridade era o Jack. E eu.
Quando a aula terminou, fechei meu caderno, joguei dentro da bolsa e saí andando pelo corredor. Meu celular vibrou no bolso, com uma notificação no grupo das meninas.
Virginia: Vem pro apê do Luan e da Mari com a gente, Bru? A Marina tá lá sozinha. Bora fazer companhia pra ela.
Eu dei um meio sorriso, respondendo:
Eu: Tá bom. Só vou passar pegar o Jack em casa e encontro vocês lá.
Guardei o celular de volta e respirei fundo antes de sair do prédio da faculdade.
Peguei o carro pra casa com som tocando This Is Me Trying, da Taylor, e parecia que a música tinha sido escrita pra mim naquele momento. Eu só tava… tentando.
Chegando em casa, Jack já tava pronto, a babá tinha deixado ele com o macacãozinho azul preferido dele, com um carrinho na mão. Ele sorriu pra mim daquele jeito que sempre me desmontava.
Ajoelhei pra ele e o abracei forte, sentindo aquele cheirinho dele, quente e familiar.
- Oi, meu amor. Vamos ver a tia Marina hoje, hein? -ele sorriu mais ainda e eu sorri também, tentando esquecer a bagunça que minha cabeça ainda era por dentro.
Peguei minha bolsa e a mochila do Jack, e nós dois saímos.
No caminho até o apartamento do Luan, eu ainda pensava no que ia fazer da minha vida. Como ia lidar com a situação com o Justin, com a nova filha dele, com tudo. Será que eu tinha estrutura emocional pra isso? Será que era certo fazer o Jack dividir a mãe com ainda mais problemas que não eram dele?
Antes que eu pudesse me afundar demais nessas perguntas sem resposta, eu já tava diante do prédio luxuoso onde Luan e Marina agora ficavam.
Estacionei o carro, respirei fundo, peguei o Jack no colo e subi.
Quando a porta abriu, ouvi a risada leve da Marina vindo da sala. Virginia e Olívia já estavam lá também, espalhadas no sofá com copos de suco, enquanto Marina descansava com a barriga enorme apoiada numa almofada, rindo de alguma piada da Olívia.
- Cheguei. -anunciei, forçando um sorriso, e elas todas viraram pra mim.
Marina abriu um sorrisão ao me ver, mesmo com o cansaço estampado no rosto:
- Olha só quem resolveu aparecer… minha cunhada favorita!
- Você só tem eu. -rimos.
Virginia foi a primeira a quebrar o gelo quando eu me sentei no sofá com as meninas, Marina já sequestrou Jack do meu colo. Virginia cruzou as pernas no pufe e lançou, com aquele tom debochado que só ela tem:
- Só espero que hoje vocês duas não saiam no tapa, hein… -ela apontou pra mim e pra Marina, com um sorrisinho malandro.- Porque a última vez que nós quatro nos reunimos, vocês brigaram, e só faltaram sair no tapa.
Eu ri, jogando a cabeça pra trás, depois olhei pra Marina que estava com o Jack no colo, fazendo ele gargalhar com uma das mãozinhas dele segurando a ponta do cabelo dela. Apoiei minha cabeça no ombro dela, me ajeitando confortável.
- Relaxa, Vi… -falei com um tom leve, fechando os olhos por um instante.- Agora a gente é só paz e amor.
Marina riu baixinho, mas não tirou os olhos do Jack, que batia as mãozinhas no rosto dela enquanto ela imitava sons engraçados.
- Paz e amor não combinam com vocês duas -Olívia soltou, sentada na poltrona com as pernas cruzadas, e nós todas caímos na risada.
Era leve, era gostoso ouvir risadas no ambiente depois de dias tão pesados na minha cabeça.
Mas, depois que a risada passou, veio o silêncio. Um silêncio que só era quebrado pelas risadinhas do Jack, entretido com as palhaçadas da Marina.
Eu fiquei olhando pra eles por um instante. Ela com aquele barrigão de agora oito meses e mesmo assim com uma paciência enorme pra brincar com o meu bebê. Meu peito apertou. Eu precisava falar. Eu precisava dividir o peso que tava me esmagando por dentro.
Me sentei na beirada do sofá, apoiando as mãos nos joelhos, encarando o chão por um instante antes de criar coragem.
- Meninas… -minha voz saiu mais baixa do que eu imaginei, mas elas ouviram.
As três viraram os olhares pra mim ao mesmo tempo, curiosas. Até Marina, que ainda brincava com Jack, ergueu o rosto devagar, com uma expressão de atenção.
Eu respirei fundo, fechando os olhos um instante antes de encarar aquelas três.
- Eu… preciso de conselhos.
A tensão no ar foi imediata. Até Jack parou de rir, como se sentisse que alguma coisa séria tava pra acontecer.
Virginia e Olívia endireitaram a postura na hora, e Marina franziu as sobrancelhas, deixando a mãozinha de Jack descansar na barriga dela.
- O que aconteceu? -Marina perguntou primeiro, com a voz calma mas carregada de preocupação.
E aí eu soltei. De uma vez, sem florear.
- O Justin tem outro filho.
O ar pareceu sumir da sala por um segundo. Marina congelou. Eu vi o sorriso leve que ela tinha pro Jack desaparecer na hora, os olhos dela se arregalando devagar.
Virginia e Olívia arregalaram os olhos também, em coro:
- Oi? Como assim??? -Virginia piscou, como se não tivesse entendido direito.
Olívia deixou escapar um “caralho…” quase inaudível, levando a mão à boca.
Mas a reação que mais me surpreendeu foi a da Marina. Ela continuou me encarando em silêncio, totalmente surpresa, como se a notícia tivesse atravessado o peito dela também. E isso me pegou de jeito. Eu jurava que ela soubesse. Eles são irmãos. Eu achei… que ele tivesse contado a ela, pelo menos.
- Você… não sabia? -perguntei, confusa, encarando Marina, tentando decifrar a reação dela.
Ela balançou a cabeça devagar, sem tirar os olhos de mim.
- Não… -a voz dela saiu baixa, trêmula, como se fosse difícil acreditar.- Eu não sabia de nada disso, Bruna.
Ela pareceu engolir em seco, voltando o olhar pro Jack no colo dela, que agora só observava quietinho, sem entender nada.
- É… -eu soltei um riso amargo, passando a mão pelos cabelos.- Pois é. Ele me contou faz duas semanas. Uma menina. Acho que ela já deve ter mais de 1 ano, ele não entrou muito em detalhes. Ele só… largou essa bomba no meu colo e sumiu. E eu tô aqui, tentando entender o que eu vou fazer da minha vida.
Virginia ainda tava de boca aberta, tentando processar.
- Mas… ele sabia já há quanto tempo?
- Quando ele me contou, fazia só dois dias. -respondi, dando de ombros.- Eu travei. A gente ia voltar, a Marina sabia disso. E agora, só consigo pensar que, se eu ficar com ele, vou ter que lidar com isso também. Vou ter que ajudar a criar essa menina junto com o Jack. E… sei lá. É muita coisa. Eu nem sei se tô pronta pra isso.
Marina finalmente piscou, como se acordasse do choque, e colocou uma das mãos sobre a minha, enquanto a outra ainda segurava o Jack.
- Bru… -ela me chamou, baixinho.- Eu juro pra você que eu não sabia. Nem imagino o que você deve estar sentindo agora, mas… você não precisa decidir nada agora. Tá bem?
Os olhos dela estavam cheios de ternura e empatia, e eu só consegui assentir, tentando segurar a emoção dentro de mim.
Jack estendeu a mãozinha pra mim naquele momento, como se também estivesse tentando me consolar, e eu segurei os dedinhos dele com um sorriso fraco.
- De quem… é a menina? -a voz da Marina saiu cautelosa, com aquele tom de quem teme ouvir o que vem depois.
Eu respirei fundo, sentindo o peso das palavras na garganta, e soltei devagar:
- Da Caitlin.
Por um segundo, Marina congelou. Depois piscou, como se precisasse de um tempo pra processar.
- Da Caitlin?! -ela repetiu, com mais força, arregalando os olhos.- Você tá dizendo… que… Caitlin Beadles?!
Eu apenas assenti, tentando manter os olhos nela.
- Puta merda… -ela murmurou, meio para si mesma. Em seguida, colocou Jack com cuidado no meu colo, apoiando as mãos no sofá para se levantar. Cada movimento parecia pesar mais por conta da barriga enorme, mas mesmo assim ela ficou de pé, agora andando de um lado pro outro na sala.- Eu não acredito nisso. -ela continuou, com as mãos no rosto.- Eu não acredito que esse nome saiu da tua boca agora. Da Caitlin?! Tipo… -ela parou, me olhando com os olhos arregalados e cheios de incredulidade.- ela foi a namorada da adolescência dele, Bruna! Primeiro amor, aquelas coisas melosas… mas eu jamais imaginei que isso um dia ia… -a voz dela foi sumindo, sem conseguir completar a frase.
Ela voltou a andar, agora esfregando a mão pela testa e pela nuca, nervosa, enquanto Jack dava risadinhas sem entender nada, brincando com meus dedos.
Depois de alguns passos, Marina parou bem em frente a mim, respirando fundo, e perguntou, com a voz um pouco mais baixa, mas carregada de tensão:
- Mas… Bruna… por que você teria que ajudar a criar essa menina?
Eu engoli em seco. Já estava esperando aquela pergunta, mas não tornava nada mais fácil. Me ajeitei com Jack no colo e olhei firme pra ela, mesmo sentindo a voz embargar:
- Porque… ela vai morrer, Marina.
O silêncio que se seguiu foi imediato. Marina ficou estática, me olhando como se não tivesse entendido direito. Então completei:
- Ela tem câncer.
Dessa vez, quem quebrou o silêncio foi Virginia, que até então só observava a cena com a mão na boca:
- Puta que pariu… -ela soltou, balançando a cabeça devagar, chocada.
E logo depois veio a voz suave, porém amarga de Olívia, num tom quase de lamento:
- Meu Deus… essa história só piora.
Eu só consegui abaixar os olhos, tentando disfarçar as lágrimas que já ameaçavam cair. Jack continuava alheio a tudo, gargalhando baixinho quando beliscava minha blusa com as mãozinhas pequenas.
Marina finalmente saiu do transe e se sentou novamente, agora com o olhar perdido, a mão pousada sobre a barriga, visivelmente mexida. Ela ainda tentava entender como aquela história podia ter dado tantas voltas.
Olívia foi a primeira a romper o silêncio, sentada na poltrona com as pernas cruzadas e os olhos arregalados:
- Bruna, eu nem sei por onde começar… tipo… o quê? Justin tem uma filha? Com a Caitlin? E a Caitlin tá com câncer? Meu Deus, amiga… -ela enterrou o rosto nas mãos e soltou um sonoro:- Que bagunça!
- Você… já decidiu o que vai fazer? -Virgínia perguntou.- Tipo… você vai mesmo ajudar ele com a menina? Ou tá pensando em… sei lá… dar um tempo dele? Porque, Bru… isso muda tudo.
Suspirei, alisando as perninhas do Jack que continuava tranquilo no meu colo.
- Eu… ainda não sei. É muita coisa. Ele nem me pediu nada oficialmente, mas ficou subentendido, sabe? Ele quer que eu esteja com ele nisso, porque… a Caitlin não tem ninguém, e ele também não quer largar a filha. Só que eu também não posso ignorar a menina. Não tem culpa nenhuma.
Marina respirou fundo, apoiando as mãos na barriga.
- Olha, Bru… você é muito maior do que isso tudo. Você sempre foi madura e forte. Eu… eu sei que dói ouvir tudo isso, sei que deve doer ainda mais imaginar ele dividindo a atenção dele com outra criança. Mas… você tem razão. A menina não tem culpa. E se você decidir ficar com ele, vai ser um recomeço pra vocês dois. Ele vai precisar muito de você.
- É, amiga… -Olívia completou, erguendo as sobrancelhas.- Eu sei que você ama esse cara. A gente já te viu passar por tanta coisa com ele. Eu só espero que, dessa vez, ele saiba valorizar tudo o que você tá disposta a fazer por ele. Porque é muita coisa.
- Se você escolher ficar com ele… impõe limites. Não deixa que ele jogue tudo em cima de você como se fosse só sua responsabilidade. Porque você também tem o Jack. E tem você mesma. Não esquece de você no meio dessa bagunça, ok? -Virgínia aconselhou.
Eu respirei fundo, sentindo os olhos marejarem, mas segurei as lágrimas. As três estavam certas. Eu tinha que pensar bem.
Marina me puxou pra um abraço de lado, beijando minha têmpora.
- Seja qual for sua decisão, eu tô com você, tá? Não esquece isso.
Sorri fraco, abraçando o Jack contra mim e me apoiando no ombro dela.
- Obrigada, meninas… eu… eu precisava ouvir isso.
Elas sorriram de volta, e por um momento, mesmo com aquele peso enorme no meu peito, eu senti que pelo menos não estava sozinha.
[...]
No dia seguinte, logo cedo, eu ainda estava com a cabeça cheia por causa de ontem, tentando focar em terminar um esboço de coleção que minha professora tinha pedido, quando a babá do Jack apareceu na porta do meu quarto com uma carinha apreensiva.
- Dona Bruna… o senhor Justin mandou mensagem pedindo pra eu levar o Jack lá pro apartamento dele agora de manhã.
Na hora, larguei o lápis e olhei pra ela, gelando por dentro. Mais uma vez ele agindo do jeito que queria, sem nem falar comigo antes. Respirei fundo, tentando manter a calma e não descontar nela.
- Pode responder pra ele… -falei devagar, medindo cada palavra- …que eu não autorizei nada. E que, se ele quiser ver o filho dele, ele que venha aqui buscar pessoalmente.
Ela arregalou os olhos, claramente nervosa.
- Mas… e se ele ficar bravo comigo? Eu… tenho medo dele me mandar embora…
Dei um suspiro, me levantando e indo até ela.
- Ele não vai mandar você embora, fica tranquila. Só… só faz o que eu tô pedindo, tá bom? -garanti, colocando a mão no ombro dela com um mínimo de gentileza pra não parecer tão dura.
Ela assentiu, um pouco hesitante ainda, mas pegou o celular e digitou a mensagem pra ele, com as mãos trêmulas. Nem dois minutos depois, o celular dela vibrou e ela me olhou de novo.
- Ele disse… que chega aqui em dez minutos.
Assenti devagar.
- Tá ótimo.
Depois olhei pro Jack, que brincava com um bloquinho no tapete do quarto, alheio a tudo, soltando aqueles gritinhos fofos que me desmontavam por dentro. Me ajoelhei ao lado dele, dei um beijinho na testa dele e me virei pra babá.
- Faz o seguinte… leva ele lá pra baixo, dá uma volta com ele pelo jardim, pelo playground, qualquer coisa. Eu te mando mensagem quando você puder subir de novo, tá? -pedi, firme, mas tentando manter a voz baixa pra não deixar Jack perceber nada errado.
Ela ainda me olhou, apreensiva, mas assentiu outra vez.
- Sim, senhora.
Vi ela pegar o Jack no colo, ajeitar a bolsa dele com umas fraldas e mamadeira, e sair do quarto. Quando a porta fechou, respirei fundo, me levantando e indo até o espelho pra ajeitar o cabelo. Eu queria estar minimamente apresentável pra essa conversa, mas nem sei pra quê — meu coração tava batendo tão rápido que eu nem conseguia me olhar direito.
Peguei meu celular e olhei a hora. Faltavam seis minutos.
Seis minutos pra eu dizer tudo o que tava engasgado aqui dentro desde aquele dia.
Seis minutos pra eu encarar o Justin de frente e decidir se ainda dava pra lutar por ele ou se eu finalmente ia soltar essa corda.
Me sentei na beira da cama, respirando fundo, e esperei.
Porque hoje… era só eu e ele. Sem Jack, sem babá, sem desculpas.
Só eu e ele.
Os dez minutos viraram vinte.
Os vinte viraram trinta.
Os trinta viraram quarenta.
Eu não desgrudava os olhos da porta, cada segundo me corroendo por dentro. Pegava o celular a cada dois minutos pra ter certeza de que não tinha nenhuma notificação perdida dele. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Nada.
Até que meu peito apertou de um jeito insuportável. Um nó na garganta subiu e ficou ali, sufocando. Alguma coisa… tava errada. Eu sabia que tava errada.
Levantei num rompante, já mandando mensagem pra babá:
"Pode subir com o Jack, eu vou sair agora."
Ela respondeu um rápido “ok”, mas eu já tava enfiando as coisas na bolsa, sem nem me dar ao trabalho de conferir direito. Peguei a chave do carro com as mãos trêmulas e praticamente corri pelo corredor do apartamento, pegando o elevador.
Eu sabia o endereço dele. Sabia o trajeto que ele faria até aqui.
Entrei no carro, liguei o motor, respirei fundo… mas minha respiração já saía entrecortada. O coração batia tão rápido no peito que eu sentia um zunido nos ouvidos.
Fui dirigindo quase no automático, os olhos varrendo a avenida como se eu já esperasse encontrar alguma coisa. Eu só não esperava que fosse… tão rápido.
E tão doloroso.
Quando vi na esquina da 7ª com a Lexington, o trânsito já tava mais lento. Carros diminuindo, gente parada nas calçadas, celulares apontados pra rua. Luzes azuis e vermelhas piscavam, refletindo em tudo ao redor. Um carro preto, amassado, quase irreconhecível, tava de frente pra um poste, com o capô esmagado e os airbags estourados.
Eu reconheceria aquele carro em qualquer lugar.
Meu coração parou por um segundo.
Era o carro dele.
Pisei no freio tão forte que o carro derrapou um pouco, estacionando de qualquer jeito na contramão. Saí praticamente tropeçando na calçada, os olhos já marejando enquanto eu me aproximava.
Havia uma fita amarela esticada entre dois cones. “NÃO ULTRAPASSE”. Policiais andavam de um lado pro outro, bloqueando a área enquanto um grupo de curiosos se aglomerava a poucos metros, cochichando.
Eu não pensei. Só abaixei a cabeça e passei por baixo da fita.
Um dos policiais me parou de imediato, estendendo o braço.
- Ei, senhorita! Você não pode estar aqui!
Levantei os olhos, já borrados de lágrimas, e consegui balbuciar:
- Aquele carro é do meu namorado… é o carro do meu namorado… por favor…
Ele ficou me encarando por um instante, avaliando minha expressão, antes de falar devagar:
- Seu namorado é Justin Drew Bieber?
Eu só assenti, incapaz de dizer qualquer coisa. As lágrimas já escorriam pelo meu rosto, em silêncio.
O policial engoliu em seco, baixando a voz, talvez por perceber o estado em que eu tava.
- Ele foi retirado do local há cerca de dez minutos. O SAMU chegou rápido… ele foi levado às pressas para o hospital. Mas… -ele fez uma pausa curta, evitando meu olhar antes de completar:- …o estado dele é grave.
Um soluço escapou da minha garganta sem que eu conseguisse controlar. Levei a mão à boca, como se aquilo fosse conter o choro, mas não adiantou. Eu já não enxergava direito, só um borrão e sombras diante de mim.
O policial se aproximou um pouco mais, tentando me acalmar.
- Senhorita… eu preciso que a senhorita saia da cena agora. Quer que eu peça uma viatura pra levá-la até o hospital?
Eu mal consegui murmurar um “não” enquanto voltava a recuar pra calçada, sentindo as pernas bambas, como se eu fosse desmoronar ali mesmo.
Dei alguns passos trôpegos, sentindo o frio de fevereiro cortar minha pele. Me apoiei num poste e fechei os olhos, tentando respirar. Mas cada respiração doía, queimava por dentro.
Ele tava no hospital. Em estado grave.
E eu ainda nem tinha dito tudo o que precisava pra ele.
Respirei fundo, mesmo chorando, e tirei o celular do bolso, destravando a tela com os dedos trêmulos.
Pesquisei rápido o endereço do hospital mais próximo, onde levavam vítimas em estado crítico. Era lá que ele devia estar.
Voltei pro carro e sentei ao volante, respirando fundo, tentando parar de tremer. Liguei o motor.
E falei pra mim mesma, em voz baixa, quase um sussurro, encarando meus olhos vermelhos no retrovisor:
- Não morre, Justin. Pelo amor de Deus, não morre.
Apertei as mãos no volante e acelerei.
Eu não ia perder ele. Não assim.
O caminho até o hospital foi um borrão. Eu nem sei como consegui dirigir com as mãos tremendo daquele jeito, com a vista turva pelas lágrimas que teimavam em cair. Só sei que cheguei. E assim que vi a fachada com a cruz vermelha, senti o estômago revirar.
Estacionei o carro de qualquer jeito, peguei a bolsa do banco e praticamente corri até a entrada, empurrando a porta de vidro com força demais. Um segurança me olhou feio, mas não me importei.
A recepção estava calma, ao contrário de mim. Caminhei direto até o balcão, apoiando as mãos, a voz saindo mais alta do que eu pretendia:
- Justin Bieber! -disse, quase sem fôlego.- Ele… ele sofreu um acidente! Ele foi trazido pra cá? Por favor… eu preciso saber se ele tá aqui e como ele tá!
A atendente ergueu os olhos devagar, como se não estivesse acostumada com gente aos prantos na frente dela, e começou a digitar alguma coisa no computador.
- Nome completo? -perguntou, sem emoção.
- Justin Drew Bieber! -repeti, sentindo um nó apertar a minha garganta.- Por favor… eu sou a namorada dele. Me diz alguma coisa…
Ela digitou por mais alguns segundos, depois olhou pra mim com um olhar um pouco mais pesado.
- Ele deu entrada há cerca de vinte minutos. Está na sala de trauma. O estado… é grave.
A última palavra ecoou dentro de mim. Grave.
Eu senti as pernas fraquejarem. Precisei me apoiar no balcão pra não cair.
- Eu… eu posso ver ele? -implorei, a voz falhando.
A atendente hesitou, mas antes que respondesse, uma médica surgiu na porta dupla que dava para o corredor dos fundos. Era jovem, os cabelos presos num coque apressado, uma prancheta na mão. Olhou pra mim e depois pra atendente:
- Você é parente do senhor Bieber?
Eu ergui os olhos, assustada.
- Sou. -respondi, dando um passo à frente.- Sou a namorada e mãe do filho dele. Me chamo Bruna Santana.
Ela assentiu com a cabeça, respirando fundo.
- Eu sou a doutora Sarah, estou cuidando do senhor Bieber. Ele sofreu um trauma torácico severo com hemorragia interna. Já está no centro cirúrgico neste momento. Nós estamos fazendo tudo o que podemos.
Eu levei as mãos ao rosto, tentando conter um soluço.
- Mas… ele vai ficar bem? -perguntei, a pergunta saindo como um sussurro.
A médica me olhou nos olhos por um instante, mas não respondeu imediatamente. Aquilo me apavorou ainda mais.
- Ele é jovem, forte… mas a cirurgia é delicada. Eu não vou mentir pra você, Bruna: as próximas horas são cruciais.
O mundo pareceu girar ao meu redor. Eu senti um peso no peito que quase me derrubou.
Ela colocou uma mão leve no meu ombro.
- Eu sei que é difícil, mas agora a melhor coisa que você pode fazer por ele… é ter calma e esperar. E se você tiver fé, rezar. A gente vai manter você informada, tá bem?
Assenti, incapaz de falar.
- Tem uma sala de espera ali. -ela apontou para a direita.- Pode ficar lá. Assim que eu tiver novidades, vou até você.
- Obrigada… -murmurei, sentindo as lágrimas descerem quentes pelo rosto.
Caminhei devagar até a sala de espera. Era fria, com cadeiras azuis alinhadas e um televisor baixo passando um noticiário qualquer. Havia só mais duas pessoas sentadas, cada uma perdida em seus próprios dramas.
Sentei na ponta de uma das cadeiras e abracei a bolsa contra o peito, olhando pro chão, tentando respirar.
Eu não sabia quanto tempo ia levar. Não sabia se ele ia sair dali.
Tudo o que eu sabia… é que eu não tava pronta pra perder ele. Não agora. Não assim. Nossa história não pode acabar assim.
Fechei os olhos, deixando as lágrimas caírem livres enquanto eu murmurava baixinho, entre soluços:
- Por favor… só fica comigo, Justin. Fica comigo… por mim… pelo Jack… pela Chloe... por nós… por favor…
E assim eu fiquei, imóvel, naquela cadeira gelada, esperando o próximo capítulo daquela manhã que já tinha sido a mais longa da minha vida.