- Eu tô aqui, Justin… -falei num sussurro trêmulo.- Você precisa ficar bem, por favor… pela Chloe, pelo Jack, você também tem que conhecer a Serena...
Minhas lágrimas caíam uma por uma, silenciosas, e eu nem tentava mais esconder.
- Você tem tanta coisa ainda pra viver, cara. A gente nem começou a vida direito… -engoli em seco.- E eu não sei como seguir sem você. Não sei mesmo…
Senti o Luan se aproximar mais, e quando ele colocou a mão no meu ombro, me virei e encostei o rosto no peito dele, chorando baixinho.
- Ele vai sair dessa, amor. -ele repetiu, me abraçando apertado.- Vai dar tudo certo.
Fechei os olhos, tentando me agarrar naquilo. Na esperança, na força que o Luan tava me emprestando, no amor que ainda nos mantinha de pé.
Ficamos ali por mais alguns minutos. Eu precisava daquele tempo com meu irmão. Doía demais vê-lo daquele jeito, mas ao mesmo tempo, me dava uma paz poder estar ali, mostrar pra ele que a gente tava com ele, que ele não tava sozinho.
Antes de sair, segurei a mão dele de novo.
- Eu te amo, tá? Muito. Sempre.
Depois disso, respirei fundo, limpei o rosto com a manga do casaco, e saí do quarto com o Luan.
No corredor, todo mundo me olhou em silêncio. Eu só balancei a cabeça, ainda com o rosto molhado pelas lágrimas. Bruna veio até mim e me abraçou forte, e ali, naquele abraço apertado, me permiti desmoronar mais um pouco.
Meu irmão tava vivo. Mas a gente sabia… ele tava longe de estar fora de perigo.
Bruna desfez o abraço e me olhou, com os olhos marejados. Dei um meio sorriso pra ela, sem forças pra falar nada, e ela apenas assentiu antes de seguir em direção ao quarto.
Me sentei de novo, com o coração apertado. Luan apareceu ao meu lado com um copo de água, e eu aceitei sem dizer nada, levando aos lábios com as mãos ainda trêmulas.
- Bebe devagar. -ele pediu, baixinho, sentando ao meu lado.- Você precisa se cuidar também.
Assenti, respirando fundo depois de beber quase tudo. Estava tudo em silêncio ao nosso redor, só se ouvia os sons abafados do hospital e o eco distante de vozes no corredor.
Dez minutos se passaram. Pareciam uma eternidade. Até que a porta se abriu de novo… e Bruna saiu.
Ela cobria a boca com a mão, tentando segurar o choro, mas não conseguia. Estava desmoronando. Os olhos vermelhos, o rosto molhado de lágrimas. Meu coração apertou ainda mais.
Me levantei imediatamente e fui até ela.
- Bruna… -chamei baixinho, antes mesmo de alcançá-la.
Ela me olhou com os olhos cheios de dor e, no segundo seguinte, caiu nos meus braços.
- Ele... -ela tentou falar, mas a voz falhou completamente em meio ao choro.- Eu não... não aguentei ver ele assim...
Abracei ela com força, como se eu pudesse protegê-la de tudo isso. Como se meu abraço fosse suficiente pra segurar a dor.
- Eu sei... -sussurrei, a voz embargada.- Eu sei...
Ficamos assim, só nos segurando uma na outra, no meio daquele corredor frio e silencioso. O amor da vida dela... meu irmão... entre a vida e a morte. E a gente ali, tentando não desmoronar de vez.
Luan se aproximou devagar e passou o braço pelos nossos ombros, sem dizer nada. Só nos abraçando. Às vezes, silêncio é tudo o que a gente tem pra oferecer.
[...]
As próximas vinte horas foram tensas. O tempo parecia correr em câmera lenta, e cada minuto era um teste pra minha sanidade.
Em algum momento da noite, Luan insistiu pra eu ir pra casa descansar um pouco. Fui contrariada, mas fui. Dormi um pouco, tomei um banho rápido, tentei comer e logo voltei pro hospital. Bruna também tinha ido pra casa nesse intervalo. Todos estávamos nos revezando pra não ficar exaustos... e ainda assim, todos estávamos.
O mais difícil era sair e entrar naquele hospital com tantas fãs, repórteres e jornalistas plantados na porta. Flashes, perguntas, gritos… Era um inferno. E tudo o que a gente queria era silêncio. Paz.
Assim que passei pela recepção e consegui voltar pra área de espera, me sentei com dificuldade numa das cadeiras. A barriga estava pesando, minhas costas doíam, e eu me sentia emocionalmente drenada. Não havia ninguém ali naquele momento, só o som ambiente do hospital ecoando ao fundo.
Foi quando ouvi uma voz na recepção.
- Oi... eu queria saber do estado do Justin Bieber…
Me virei devagar, a curiosidade vencendo o cansaço. Olhei na direção da recepção… e parei. Congelada.
Era ela.
Caitlin.
Estava bem abatida, visivelmente cansada, com os cabelos loiros nas pontas — mas de longe já dava pra notar que era lace. Seus olhos estavam fundos, e ela segurava no colo uma menininha pequena, de mais de um ano.
Me levantei devagar, com dificuldade por conta da barriga. A emoção apertava meu peito. Chamei, sem pensar muito:
- Caitlin?
Ela olhou na minha direção.
Seus olhos se encontraram com os meus, mas os meus não conseguiam se fixar nela por muito tempo. Meu olhar caiu direto na menina em seus braços.
Cabelinhos loiros, bochechas redondinhas, os olhinhos azuis e atentos — talvez sem entender nada daquilo, só observando tudo.
Chloe. Só podia ser.
Meu coração bateu mais forte. Me aproximei um pouco, devagar.
- Marina… -Caitlin disse meu nome num sussurro, surpresa.
Mas eu ainda não conseguia responder. Porque tudo em mim já tinha se fixado naquela garotinha. Na filha do meu irmão. A minha sobrinha.
A filha que ele mal pôde conhecer.
- Ela… é a Chloe? -perguntei, com a voz embargada.
Caitlin assentiu, colocando a menina agora no chão.
- É sim.
Eu não consegui evitar. Me aproximei mais, devagar, e me abaixei um pouco, sentindo a dor nas costas e o peso da barriga protestando, mas nem liguei.
- Oi, princesa… -falei baixinho, quase num sussurro, olhando pra menina que agora me olhava também. Apesar dos olhos azuis, ela tinha os olhos do Justin. Era inevitável não perceber.- Eu sou a Marina… tia Marina.
A pequena continuou me encarando, depois olhou pra mãe, depois de novo pra mim. E aquilo me desmontou.
As lágrimas vieram com força.
- Eu não sabia que vocês viriam… -falei, limpando o rosto com a manga do casaco.- Você… você falou com alguém?
Caitlin fez que não com a cabeça.
- Assim que eu consegui, eu peguei um voo. Eu não sabia se ia conseguir chegar… -sua voz falhava.- Não tinha certeza se ainda dava tempo.
- Ele tá vivo, Cait… -falei com a voz baixa.- Tá sedado, entubado… mas tá aqui.
Ela fechou os olhos, respirando fundo, como se aquele pequeno alívio lhe desse força. Em seguida, me olhou com um carinho que só mães de verdade sabem passar.
- Eu precisava vir… precisava mostrar pra minha filha quem é o pai dela… mesmo que ela ainda não entenda agora. -ela engoliu em seco.- Eu não sei quanto tempo ainda tenho, Marina.
Eu já sabia. Mas ouvir da boca dela foi como levar outro soco no estômago.
- E agora? -perguntei, com a garganta seca.
- Agora… eu só quero que ele veja a filha dele. Quero que ela veja o pai. Que sinta… que mesmo se eu não estiver aqui… ela ainda tem uma família.
- Ela tem. -falei, firme.- A gente tá aqui. Eu tô aqui. A Serena vai ter uma priminha linda. A gente vai cuidar da Chloe, Cait. Eu prometo.
Ela chorou. Eu chorei também.
Foi inevitável.
Nós caminhamos até a sala de espera e eu me sentei, ela se sentou ao meu lado, e por um momento, ficamos em silêncio novamente, assistindo a pequena Chloe brincar com os dedinhos, inocente demais pra entender o mundo ao redor.
Luan tinha ido em algum lugar pra atender uma ligação. Eu ainda tava sentada ao lado da Caitlin, tentando não chorar de novo, e observando a Chloe balbuciar umas palavrinhas incompreensíveis enquanto brincava com o zíper da bolsinha da mãe.
Quando Luan apareceu novamente, com o semblante cansado, os olhos procurando por mim… até que pararam na Caitlin. Depois, na Chloe.
Ele franziu a testa, desacelerou o passo, claramente confuso.
- Marina…? -ele me chamou, e sua voz saiu baixa, mas carregada de dúvida.
Eu me levantei devagar, minha mão foi instintivamente até a barriga.
- Luan… essa é a Caitlin. -respirei fundo.- A mãe da Chloe.
Ele arqueou uma sobrancelha, como se o cérebro estivesse tentando juntar as peças do quebra-cabeça.
- Caitlin? -repetiu.- Mãe da…?
- Chloe. -eu disse, olhando para a menininha, que agora batia palminhas enquanto Caitlin tentava contê-la no colo.- Filha do Justin.
A expressão dele travou. Literalmente. Ele congelou ali, no meio da recepção. Os olhos alternando entre mim, a criança, e a mulher sentada.
- Como assim… filha do Justin? -ele murmurou, agora se aproximando.
Caitlin tentou sorrir, mas o olhar dela dizia tudo. Dor. Cansaço. E uma certa vergonha.
- É uma longa história… -ela disse, com a voz gentil.- Eu sou Caitlin Beadles. A gente se conheceu há muitos anos. Mas… bom, a Chloe é filha do Justin. Ela tem um ano e cinco meses.
Luan passou a mão pelo cabelo, os olhos arregalados.
- Isso é sério? -ele me perguntou.
- É. Eu soube faz pouco tempo também. Ela não tinha contado pra ninguém. E agora… com tudo que tá acontecendo… -suspirei.
Ele olhou de novo pra Chloe, que agora tentava descer do colo da mãe com os bracinhos esticados na minha direção.
- Ela parece com ele… -Luan murmurou, e eu vi a surpresa nos olhos dele.- Tipo… muito.
- Eu sei. Foi a primeira coisa que eu pensei também.
- E você… você tá bem com isso? -ele perguntou, mais pra mim do que pra Caitlin.
- Não tem a ver comigo, Luan. É sobre ela. -indiquei a menininha, que agora ria de alguma coisa que só ela via.- E sobre ele. E… bom, a Caitlin também não tá bem de saúde.
Luan olhou pra ela, surpreso de novo.
- Eu tô com câncer. No estômago. Em estágio avançado. -Caitlin falou, simples e direta.- Não tenho muito tempo.
Aquelas palavras atingiram Luan como uma marretada. Eu vi na cara dele.
- Meu Deus… -ele murmurou, se sentando devagar na poltrona ao nosso lado.- E ela vai ficar… com quem?
Caitlin mordeu o lábio, emocionada.
- Eu espero que com o Justin.
Luan olhou pra mim de novo. E por fim, fez algo que me pegou de surpresa: esticou a mão pra Chloe.
- Vem cá, pequena.
E pra nossa surpresa, ela foi.
Rindo.
Se jogando nos braços dele como se o conhecesse de outra vida.
Foi quando a porta da recepção se abriu e Bruna apareceu, com passos apressados. Usava uma calça jeans escura e um moletom largo, os óculos de sol escondiam os olhos, mas eu sabia. Ela tinha chorado. Muito.
Só que, ao nos ver ali — eu, Caitlin e Luan com a Chloe no colo — ela parou. Paralisou como se o chão tivesse sumido dos pés dela.
Os olhos dela percorreram a cena, devagar. Primeiro olharam para Caitlin, depois se fixaram na criança risonha no colo do Luan. O peito dela subiu e desceu num suspiro longo, e mesmo de longe eu vi sua mão tremer.
Devagar, ela tirou os óculos.
E os olhos vermelhos, inchados, encontraram os meus por um segundo, até voltarem pra Caitlin.
- É ela, né? -Bruna perguntou, com a voz rouca.- A Caitlin.
Eu apenas assenti.
- É.
Ela abaixou o olhar por um instante e depois encarou a Chloe de novo. Um pequeno sorriso brotou no canto da boca, tímido, frágil.
- Ela é… linda. Tem os olhos do Justin.
Luan olhou pra mim, perdido, ainda processando tudo. Mas o olhar da Bruna agora era fixo na menininha que se aconchegava tranquila no colo dele.
- Eu… -Bruna começou, mas engoliu em seco. Caminhou devagar até nós e parou ao lado de Caitlin.- Eu não sabia que você viria, mas que bom que veio.
Caitlin assentiu em silêncio.
Bruna voltou o olhar pra Chloe e se agachou devagar, ficando na altura da criança. A voz dela saiu mais suave, como um sussurro cheio de emoção:
- Então você é a Chloe… filha do amor da minha vida. Irmãzinha do meu Jack.
Caitlin soltou uma respiração trêmula e sorriu, emocionada. Eu vi seus olhos marejarem.
Bruna estendeu a mão devagar, com cuidado, como quem pede permissão. E a pequena Chloe, curiosa, tocou os dedos dela com a palma gordinha.
- Oi, pequena. -Bruna disse, com a voz embargada.- Você não faz ideia do quanto é amada. Nem do quanto o seu papai te amaria se pudesse te ver agora.
Ela piscou rápido pra conter as lágrimas, mas não adiantou. Uma deslizou pela bochecha.
Caitlin levou a mão até o peito, tentando conter a emoção.
- Eu não queria chegar assim… de repente. Mas... eu não tenho muito tempo. E precisava fazer isso por ela. Por ele.
Bruna assentiu, ainda ajoelhada, e passou a mão de leve pelos cabelos loirinhos de Chloe.
- Você fez certo. -ela disse, olhando pra Caitlin.- Ela merece saber quem é o pai dela. A gente vai dar um jeito, juntas. Prometo.
E então, com todo cuidado, Bruna se levantou e puxou Caitlin para um abraço apertado, inesperado… e necessário.
De repente, um médico que eu ainda não tinha visto se aproximou da sala de espera. Usava um jaleco branco, prancheta em mãos, máscara pendurada no queixo. O olhar dele era sério, mas parecia pesaroso. Como se já carregasse a má notícia antes mesmo de falar.
- Familiares de Justin Bieber? -ele chamou, num tom firme.
Levantei imediatamente, o coração acelerando no peito. Bruna desfez o abraço da Caitlin e se ajeitou ao meu lado. Caitlin, se virou também, com o olhar tenso, enquanto Luan revezava sua atenção pra Chloe no seu colo e o médico.
- Eu sou irmã dele. -falei, e mesmo tentando manter a calma, minha voz saiu embargada.
O médico se aproximou, parando diante de mim.
- Bom dis. Eu sou o Dr. Mark Sloan, entrei agora no plantão. Vim dar um retorno sobre o quadro do Justin.
- Aconteceu alguma coisa? -perguntei, com a respiração falhando.
Ele assentiu devagar, soltando um leve suspiro antes de continuar:
- O Justin entrou em coma espontâneo. O corpo dele, por conta do trauma, está entrando em modo de proteção. Isso significa que ele está inconsciente por escolha do próprio organismo.
Bruna levou uma das mãos à boca. Caitlin fechou os olhos com força. Luan se levantou e entregou Chloe pra Caitlin, vindo pro meu lado.
- Tá… tá tudo bem… mas e agora? -eu perguntei, sentindo meu peito apertar.- E quando ele vai acordar?
O médico me olhou com gentileza, mas com sinceridade nos olhos.
- Senhorita Bieber… nesse momento, não temos como prever. Pode ser que ele acorde em alguns dias… ou meses… -ele hesitou por um segundo, então completou, com um pesar que me gelou por dentro.- …ou até anos.
Senti minhas pernas vacilarem, e Luan segurou na minha cintura discretamente. Bruna chorava em silêncio ao meu lado, apertando a barra do casaco com as mãos.
- Ele está vivo. E isso importa. -continuou o médico, com calma.- Os sinais vitais estão estáveis. Vamos continuar monitorando. Não é o fim, mas é uma travessia longa… e incerta.
Eu não conseguia falar. Só balancei a cabeça, lutando contra as lágrimas que já transbordavam.
- A gente ainda pode vê-lo? -Bruna perguntou, com a voz trêmula.
- Sim, podem. Mas peço que entrem um de cada vez. E com calma, por favor.
Ele se afastou, e o silêncio que ficou no lugar foi ensurdecedor. Eu encarei o corredor que levava ao quarto do Justin e senti que meu mundo inteiro estava preso àquele quarto agora. E ao tempo — esse mesmo tempo que, cruelmente, não dizia quando traria meu irmão de volta.
Algumas semanas depois...
Segunda-feira, 01 de Março de 2027
As semanas se passaram.
Mesmo com a rotina pesada da reta final da gravidez, eu seguia visitando o Justin sempre que podia. Mas agora, com a barriga de 38 semanas, as visitas se tornaram menos frequentes. A Serena estava prestes a chegar — a qualquer momento, pra falar a verdade. Toda vez que eu e Luan saíamos de casa, a mala da maternidade ia com a gente no porta-malas, pronta.
Caitlin e Chloe estavam hospedadas no apartamento da Bruna. E Bruna… Bruna estava se superando. Faculdade, cuidando da casa, ajudando a Caitlin, se dividindo entre o hospital e o Jack, que agora ficava a maior parte do tempo com as babás. Ela estava agindo com uma maturidade que me impressionava mais a cada dia. E honestamente? Eu não sei se, no lugar dela, eu teria essa força.
Hoje é o aniversário do Justin. Ele faz 21 anos.
Mas ele ainda estava em coma.
Fomos vê-lo cedo. Eu e Luan chegamos por volta das oito da manhã. O quarto estava decorado com balões dourados e brancos, alguns flutuando, outros colados nas paredes. Um varal de fotos pendurado na parede mostrava vários momentos dele, desde criança até agora — muitos eu nunca tinha visto. Acima da cabeceira da cama, uma faixa escrita com letras grandes e coloridas: “Happy 21st Birthday, Justin!”
Caitlin estava sentada na poltrona, com a Chloe no colo, balançando-a devagar. Chloe usava um vestidinho rosa claro, uma jaqueta jeans por cima, meia calça branca e tênis, e tinha uma presilha brilhante nos cabelos. Pattie estava ao lado da cama, com a mão sobre a do Justin, sussurrando palavras que só ela ouvia. Bruna ajeitava uma bexiga que tinha caído do alto.
Quando entrei no quarto, todos me olharam com um sorriso gentil. Luan fechou a porta atrás de nós com cuidado.
- Olha quem chegou pra festa. -Bruna comentou, vindo me ajudar com a bolsa.
- Feliz aniversário, maninho. -murmurei, me aproximando da cama e pegando a mão dele com delicadeza.- Vinte e um anos… cê devia tá enchendo a cara, e não recebendo visita em hospital. Mas, ó… a gente tá aqui, tá? Todo mundo. Esperando você voltar.
Justin parecia dormir. O rosto estava mais descansado que nas primeiras semanas. A barba rala crescia devagar. Era estranho vê-lo assim, parado, silencioso, num dia que sempre foi cheio de música, risada e confusão.
- A Chloe tentou cantar parabéns pra ele. -Caitlin disse baixinho, com um sorriso cansado, mas sincero.- Ela só balbucia umas partes, mas a intenção é o que vale, né?
Luan riu baixinho, encantado com a bebê, e depois olhou pra Justin com um certo peso nos olhos.
- Ele tem uma filha linda. E uma família foda esperando ele voltar.
Bruna assentiu, cruzando os braços e olhando fixamente pro irmão.
- A gente vai comemorar esse aniversário direito no ano que vem. Com ele de pé. Eu sinto isso.
- Também sinto. -falei, apertando a mão dele com carinho.- Mas volta logo, tá? A Serena quer conhecer o tio preferido dela.
Alguns dias depois...
Quinta-feira, 11 de Março de 2027
Eu tava me ajeitando pra ir ao hospital ver o Justin. Minha rotina ainda incluía passar lá quase todos os dias, mesmo que fosse por pouco tempo. Mas hoje… hoje eu tava especialmente acabada.
A dor na lombar era constante. Eu tava muito ofegante, tudo que fazia me deixava exausta. Sentia umas pontadas no pé da barriga e, sinceramente, parecia que eu tava grávida há um ano. Quase 40 semanas. A Serena já tava passando da hora de nascer. Eu não me lembrava mais da sensação de andar sem carregar um ser humano dentro de mim.
Minha personalidade, no momento, era: estar grávida. E isso me definia por completo.
Luan tava no banheiro, penteando o cabelo na frente do espelho, todo tranquilo, como se eu não estivesse me arrastando pelo apartamento.
- Amor. -murmurei, puxando a jaqueta pra tentar fechar sem sucesso.- Vamos logo, antes que eu durma em pé.
Me levantei com um leve gemido e fui andando devagar até o banheiro pra chamar ele. Mas quando cheguei bem na porta...
Senti.
Um negócio escorrendo pelas minhas pernas.
Arregalei os olhos, olhei pra baixo e vi a poça se formando no chão.
- Ai, merda… -murmurei, frustrada.- Molhei a roupa toda!
Luan olhou pra mim através do espelho e soltou uma risadinha, debochado:
- Amor… você não conseguiu chegar até o vaso sanitário?
Eu levantei o olhar lentamente e falei, seca:
- Amor… a bolsa estourou.
Ele congelou.
A escova caiu da mão dele direto na pia.
- O quê?!
- A bolsa, Luan! A Serena quer nascer, meu filho!
Foi o suficiente. Ele entrou em modo pânico instantaneamente.
- MEU DEUS DO CÉU! CALMA! -ele falava enquanto corria até o quarto, pegando as malas com uma mão e o celular com a outra.- Eu chamo o Uber? A gente vai de carro? Cê consegue andar? Meu Deus, tá frio, precisa de casaco! Você pegou o casaco? E a mala da bebê? E a sua? Ahn… onde tá o carregador?
Eu fiquei só parada ali na poça, respirando fundo, e disse com a calma de quem já viu a guerra:
- Luan. Respira. Fecha o casaco. Me ajuda a trocar de roupa, por favor.
Ele correu até mim e me ajudou devagar a me limpar, trocar de roupa, colocar uma calça mais confortável e forrar uma toalha entre as pernas.
- Tá com dor? Tá com contração? A gente tem tempo?
- Eu tô com vontade de te bater, conta como contração?
Ele riu, mesmo desesperado. Colocou a touca, enfiou meu cachecol no pescoço e a gente saiu porta afora, em pleno março nova-iorquino, com o frio cortando o rosto e o céu ainda meio cinza.
Quando chegamos no hospital, parecia cena de filme. Luan pulou do carro antes mesmo dele parar por completo, gritando desesperado:
- MINHA NAMORADA TÁ PARINDO! PELO AMOR DE DEUS!
Eu rolei os olhos, mesmo com dor. A moça da recepção apenas arqueou a sobrancelha com uma calma quase debochada:
- E qual o nome da sua namorada, senhor?
- MARINA! MARINA RHODE BIEBER! ELA TÁ GRÁVIDA!
- Eu imaginei.
Eu quis rir, mas uma contração forte me fez me curvar pra frente, apertando o braço do Luan com tanta força que ele fez um som de dor.
- Ai! Ai! Meu braço, Marina!
Enfermeiros chegaram com a cadeira de rodas e eu fui levada direto pra triagem. Me colocaram numa sala, me pediram pra deitar e logo veio o exame de toque. A médica colocou a luva, pediu pra eu respirar fundo e avisou:
- Marina, você já tá com cinco centímetros de dilatação.
- Ótimo. E me interna logo, porque se eu for pra casa, eu não volto.
Ela riu, simpática, enquanto preenchia os papéis.
- A gente já vai te internar, sim. Mas antes, preciso te perguntar: você quer esperar mais um pouco, tentar exercícios pra ajudar a dilatar mais naturalmente… ou prefere induzir com medicação?
Eu olhei bem no fundo dos olhos dela. Sincera. Cansada. Esfreguei a testa suada e soltei:
- Doutora, com todo respeito… eu tô grávida há quase quarenta semanas. Eu tô cansada. Eu tô com dor. Eu não sei o que é ver meus pés há semanas. Se eu escutar mais uma pessoa dizendo “ai, que linda barriguinha”, eu vou dar na cara dela. Eu quero que isso acabe logo. Pode mandar o medicamento.
Ela riu outra vez, carinhosa, assentindo.
- Tá certo, Marina. A gente vai cuidar de tudo.
Fui levada pro quarto da internação, e logo começaram os procedimentos. Vesti aquela camisola ridícula que deixa a bunda de fora, Luan ficou tentando ajeitar pra mim o tempo inteiro enquanto eu já tava jogada na cama respirando fundo. Já tinham introduzido o medicamento e agora era só esperar.
- Amor… tá tudo bem? Quer água? Quer massagem? Quer que eu ligue pra sua mãe? Pra sua avó? Pro Papa?
- Quero que a Serena nasça, só isso.
- Eu também quero! Mas… você tá com medo?
Eu respirei fundo.
- Um pouco.
Ele segurou minha mão e beijou meus dedos.
- A gente vai passar por isso juntos. Eu tô aqui, tá? Desde o comecinho.
- Eu sei. Só não desmaia quando ver a cabeça dela saindo, por favor.
- Eita. Melhor eu sentar.
Luan tava tentando ser forte, mas o nervosismo tava escrito em cada gesto. Ele tava pálido. Tremia um pouco. Mas ele não saiu do meu lado nem por um segundo.
As contrações ficaram mais ritmadas, mais intensas. Eu apertava o lençol da cama com força, sentia o suor escorrer pela nuca, o corpo inteiro tenso, quente, os olhos se fechando sozinhos a cada nova onda de dor.
As dores aumentavam como se meu corpo tivesse virado um tambor batendo num ritmo selvagem. Era como se o tempo entre uma contração e outra diminuísse só pra me enlouquecer. Eu apertava a mão do Luan com tanta força que devia estar cortando a circulação, mas ele nem reclamava.
- Respira, amor… calma… respira comigo. Isso. Isso, linda…
A voz dele era calma, mas os olhos denunciavam o pânico. Eu sentia meu corpo inteiro tremer entre uma onda de dor e outra, e de repente, sem controle nenhum, os olhos começaram a se encher d’água.
Eu comecei a chorar.
Mas não era só por causa da dor.
Era porque meu irmão não estaria ali.
- Ele devia estar aqui, Luan… -murmurei, entre soluços.- Ele devia conhecer a Serena no dia que ela nascer… e ele… ele tá lá, deitado, preso naquele quarto. E eu tô aqui, gritando de dor… e ele nem sabe.
- Ei… -Luan se abaixou, colou a testa na minha, enxugando minhas lágrimas com os polegares.- O Justin tá com a gente. Você sabe disso. Ele vai conhecer a Serena. Talvez não hoje, mas ele vai. E ela vai amar ele do jeitinho que a gente ama. Vai ser um tio babão.
E no fundo, eu sabia que ele tinha razão.
Mas naquele momento… doía.
Pouco depois disso, uma contração violenta me fez gritar tão alto que a enfermeira correu pra ver. Chamaram a médica. Me levaram pra sala de parto.
- Nove centímetros! Tá quase na hora, Marina! Vamos lá, você tá indo muito bem!
Eu queria bater em quem dissesse que “tava indo bem”. Eu tava toda torta, suada, parecendo que tinha sido atropelada por um caminhão. Luan vestiu aquele avental azul, a toca ridícula, e ficou do meu lado o tempo inteiro.
- Eu tô aqui, tá? Não vou sair. Tô com você.
Eu segurava a barra lateral da cama, com as pernas apoiadas. As contrações vinham como ondas gigantes, me afogando, me sufocando. Cada uma deixava meu corpo mais fraco, mas mais perto dela. Da Serena.
- Marina, você tá com dilatação total! Vamos começar a expulsão. Quando vier a próxima contração, faz força comigo, tá bom? Você consegue.
Eu fechei os olhos e assenti. Sentia meu corpo inteiro se preparar, o instinto animal que ninguém te ensina, ele só… aparece.
A dor veio. Eu fiz força como se minha vida dependesse daquilo.
Gritei. Eu não sabia que minha voz podia sair tão alta.
O Luan dizia:
- Vai, amor! Tá quase! Ela tá vindo! Isso! Mais um pouco!
A médica repetia:
- Respira… força de novo… isso… de novo, Marina!
E eu fui. Fui com tudo.
Não por mim.
Mas por ela. Pela Serena.
Senti queimar, rasgar, meu corpo abrindo de um jeito que não dá pra explicar, só sentir. Era como se tudo que eu fui até ali estivesse sendo transformado.
De repente…
- Nasceu!
Um choro.
Fino.
Forte.
O som mais bonito que eu já escutei.
- É uma menina linda! Parabéns, Marina. Parabéns, papai!
Eu abri os olhos com dificuldade, lágrimas descendo antes mesmo que eu percebesse. E lá estava ela. Serena. Tão pequena. Tão cor-de-rosa.
A colocaram no meu peito.
Ela era real.
Ela era minha.
Luan chorava.
Eu chorava.
E por um segundo, o mundo parou.
- Oi, minha filha… -murmurei, ofegante.- A mamãe tá aqui…
Ela se remexeu no meu peito, tão pequenininha, com os olhinhos ainda fechados, a boquinha abrindo num biquinho como se procurasse por mim. Eu sorri, mesmo exausta, com o rosto molhado de lágrimas e suor.
Luan se aproximou devagar, como se estivesse com medo de quebrar a cena, e passou os dedos com cuidado pela cabecinha dela.
- Ela é perfeita, Marina… -ele sussurrou, com a voz embargada.- Vocês duas são.
Eu encostei a cabeça nele, olhando nossa filha.
- A gente conseguiu.
E pela primeira vez em muito tempo, apesar de todo o caos, da saudade do Justin, da espera e do medo... eu me senti completa.
Com ela no meu colo, e ele ao meu lado, eu sabia:
Tudo ia ficar bem.