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Capítulo 89

Marina Narrando 

Janeiro de 2027 já tinha chegado. Eu juro que não sei pra onde dezembro foi… piscamos e o Natal passou, o Ano Novo passou, e agora eu estava aqui, com trinta semanas de gestação e só conseguindo pensar no momento em que vou finalmente conhecer minha princesa.

Serena.

Eu dizia esse nome baixinho toda vez que encostava a mão na barriga, toda vez que sentia um dos chutinhos dela me tirando o fôlego. Às vezes eu ainda me emocionava só de imaginar que daqui a três meses ela estaria aqui, nos meus braços.

Passei a manhã na loja de enxoval escolhendo mais algumas peças que eu ainda não tinha comprado. Uma mantinha rosa clara com o nome dela bordado, um kit novo de macacões pra maternidade, uns babadores extras. Já devo ter comprado mais do que o necessário, mas cada vez que eu via algo bonitinho, era impossível resistir.

E claro… o Luan continuava tentando me convencer a mudar de ideia.

Ele tinha essa mania insistente, que me tirava do sério e ao mesmo tempo me fazia rir. Segundo ele, eu tinha que ter a Serena em Nova York, porque lá eu teria a minha mãe por perto — já que ela agora morava na Filadélfia —,meu pai, minhas amigas, Justin, teria ele por perto também, e tudo ficaria mais fácil.

Na cabeça dele, Los Angeles era “longe demais”.

Revirei os olhos só de lembrar a última conversa que a gente teve sobre isso, há dois dias:

- Marina… você é teimosa demais, sabia? -ele disse, encostado no balcão da cozinha enquanto eu terminava de organizar umas roupinhas da Serena.

- Não é teimosia. -respondi sem nem olhar pra ele.- Eu só quero que minha filha nasça na cidade onde eu nasci. Onde tudo começou pra mim.

- Mas Nova York tem toda a rede de apoio. Sua mãe vai tá perto. Eu tô sempre lá. Se você precisar de ajuda, tem todo mundo por perto. Em Los Angeles vai ficar sozinha. -a voz dele já estava naquele tom de argumentação desgastada.

- Não vou estar sozinha. -respirei fundo e o encarei.- E mesmo que estivesse, é o que eu quero pra Serena.

Ele suspirou, passou a mão no cabelo, mas não disse mais nada. Porque no fundo, ele sabia que não ia me convencer.

Agora, deitada no sofá do meu apartamento com as pernas apoiadas em umas almofadas e a barriga enorme em destaque, pensei em mandar mensagem pra ele. Mas preferi só abrir o bloco de notas do celular e começar a rascunhar uma lista mental do que ainda faltava organizar.

A mala da maternidade.
As lembrancinhas.
O book de gestante (que eu ainda não tinha feito porque tava insegura com o corpo).
O berço (que ainda nem montei).

Suspirei, passando a mão na barriga mais uma vez, sentindo ela mexer.

- Vai dar tudo certo, minha princesa. Mamãe vai dar um jeito em tudo isso. -falei baixinho, só pra nós duas ouvirmos.

Por mais que todo mundo achasse que eu estava sendo teimosa, que eu não estava pensando “no lado prático”, eu sabia que no fundo, ninguém entendia. Eu precisava que Serena nascesse aqui. Porque era um jeito de eu me lembrar de quem eu sou, de onde eu vim, e de onde ela vai começar a história dela também.

E dessa vez… eu não ia abrir mão disso pra agradar ninguém.

Eu ainda estava ali no sofá, com a lista mental me atormentando e Serena fazendo a dança do acasalamento na minha barriga, quando ouvi a campainha.

Levantei devagar, já xingando mentalmente a minha falta de uma campainha com câmera, porque vai que fosse um vizinho inconveniente. Quando abri a porta, lá estava ele: Victor.

Com um engradado de cerveja equilibrado num braço… e um semblante tão abatido que ele parecia ter envelhecido uns 10 anos desde a última vez que a gente se viu.

- Não acredito… -ele falou, sem nem se dar ao trabalho de disfarçar.- Você tá mais linda ainda com essa barriga aí.

Eu dei um sorrisinho sem graça e abri mais a porta, deixando ele entrar.

- Victor… por que você sempre aparece quando eu já tô no limite das minhas forças?

- Porque eu tenho um sexto sentido pra drama feminino. -ele piscou pra mim, mas era óbvio que ele tava forçando o bom humor.

Ele foi direto pra cozinha, apoiou o engradado na bancada e abriu a geladeira. Nem pediu licença, claro. Já era de casa há muito tempo. Eu fiquei de braços cruzados só observando.

- Você sabe que eu não posso beber, né? -falei, arqueando a sobrancelha.- Grávida, lembra?

- Ah, relaxa. -ele ergueu a outra mão que estava escondida atrás das costas, revelando uma caixinha com donuts coloridos, cheia de confeitos brilhantes.- Eu vim preparado.

Comecei a rir. Alto.

- Meu Deus, você não existe.

Ele abriu um sorriso torto e tirou um donut da caixa, colocando na minha mão.

- Antes que eu esqueça… -ele começou, já mexendo no engradado pra abrir uma cerveja.- Minha namorada terminou comigo. Quer dizer, minha ex agora.

- O quê? -eu franzi a testa, mordendo um pedaço do donut.- Você tá brincando?

- Não. Ela disse que eu não superei você. -ele deu um gole longo na cerveja, encarando o nada.- Mal sabe ela que nem eu sei se superei.

Fiquei sem graça, desviando o olhar e focando na cobertura rosa do meu donut.

- Victor… -comecei, tentando formular alguma coisa pra dizer.

- Não precisa falar nada. -ele sorriu de canto, e agora o tom dele era mais leve.- Eu sei que a gente é só amigo agora. E tá tudo bem. Só queria… ficar por perto. Cuidar de vocês duas.

Suspirei e dei um sorriso também, meio triste, mas sincero.

- Você já faz isso melhor do que muita gente por aí.

Ele ergueu a garrafa de cerveja num brinde silencioso, e eu ergui meu donut pra acompanhar.

Quando vi, Victor já estava na terceira cerveja ele largou a garrafa na mesinha de centro e me olhou daquele jeito que eu já conhecia. Aquele jeito sério, meio melancólico, que sempre vinha antes de uma conversa que eu não queria ter.

- Posso te perguntar uma coisa? -ele disse, com a voz baixa.

- Claro. -respondi, dando mais uma mordida no meu donut e tentando soar natural.

Ele se ajeitou no sofá, apoiando os cotovelos nos joelhos.

- Você já pensou… -ele hesitou, olhando pros próprios dedos- …que a gente podia ter dado certo?

Eu parei de mastigar por um segundo. Respirei fundo antes de responder.

- Já pensei, Victor. -falei com honestidade.- Mas eu sempre soube que não seria justo com você. Porque, mesmo quando a gente ficava, meu coração não tava inteiro.

Ele deu um risinho sem humor e esfregou as mãos no rosto.

- Eu sei. -disse, por fim.- Só dói admitir. Porque você era a minha aposta mais alta, sabe? Aquela coisa de “um dia ela vai perceber”.

Eu engoli em seco, sentindo a culpa pesar no peito.

- Você merece alguém que te escolha, Victor. Não alguém que só… se apoie em você quando o mundo desmorona.

Ele me olhou por alguns segundos, os olhos brilhando, mas sem lágrimas. Apenas cansaço e uma pontinha de carinho ali, insistindo.

- E mesmo assim eu não consigo parar de cuidar de você. -ele disse, dando de ombros.- Porque você sempre vai ser a Marina. A minha Marina. Minha sardenta.

Eu me mexi no sofá, desconfortável, mas não consegui desviar o olhar dele.

- Eu sinto muito por isso. -sussurrei.

- Não sente não. -ele sorriu, finalmente de um jeito leve, genuíno.- Porque mesmo que a gente nunca dê certo… eu nunca vou me arrepender de ter estado aqui pra você.

Meu coração apertou e eu sorri de volta, sentindo as lágrimas queimarem os olhos.

- Obrigada… por ser você. -falei, deixando a mão escorregar pela dele, num gesto silencioso de gratidão.

Ele apertou minha mão de volta, como se dissesse “eu sei”.

E por alguns minutos ficamos só assim, em silêncio. Eu, com minha barriga enorme, ele com o coração ferido. Dois amigos, dois desajustados tentando dar conta do que a vida jogou pra gente.

Victor respirou fundo, soltando minha mão devagar, e se recostou no sofá, pegando mais um donut da caixinha. Ele olhou pra mim com um meio sorriso e falou:

- Agora… posso dizer uma coisa sem parecer um babaca?

Eu ergui a sobrancelha, divertida, mesmo sentindo o peito ainda pesado:

- Depois de tudo isso? Manda.

Ele girou o donut na mão, estudando-o como se fosse um diamante raro, e disse:

- Você pode até ter me partido o coração, Marina… mas pelo menos compensou com donuts. -e deu uma mordida bem exagerada, fazendo farelos caírem na camiseta.

Eu caí na gargalhada. Daquelas risadas sinceras, que vinham de dentro, como há tempos eu não soltava. Ele me olhou, rindo também, limpando a boca com as costas da mão.

- Tá vendo? -ele disse, apontando pra mim com o donut.- Esse sorriso aí ainda vai ser a ruína de alguém. Ou melhor… já foi, né? -e deu um olhar rápido pra minha barriga, como quem tentava deixar a piada leve.

Balancei a cabeça, ainda rindo.

- Você não presta, Victor.

- É… -ele respondeu, jogando a cabeça pra trás no encosto do sofá, fechando os olhos, com um sorriso satisfeito nos lábios.- Mas sou um ótimo amigo.

E naquele instante eu me dei conta: ele realmente era. Mesmo com tudo.

- Sabe… -começou ele, olhando pra minha barriga de leve, depois desviando o olhar pro chão- por mais que doa admitir… eu fico feliz por você. Por vocês duas. -ele apontou discretamente pra Serena, dentro de mim.- Você merece ser feliz.

Eu fiquei em silêncio por alguns segundos, sentindo um nó na garganta. Coloquei o donut na caixa de volta e dei um tapinha de leve no ombro dele.

- Obrigada, Vic. De verdade.

Ele virou o rosto pra mim e sorriu com um ar cansado. Então, se aproximou e passou o braço pelos meus ombros, me puxando devagar pra ele.

- Mas ó… se aquele cara te fizer chorar de novo, eu ainda tô aqui, tá? -disse, baixo, com um humor meio amargo.- Dou uma surra nele nem que seja no berçário da maternidade.

Não consegui conter uma risada alta, me afastei um pouquinho pra olhar pra ele, ainda rindo.

- Você é um idiota.

- Idiota, mas presente. -ele piscou e deu mais uma mordida no donut dele.

Eu encostei a cabeça no ombro dele, fechando os olhos por um instante. Entre uma risada e outra, o clima foi ficando mais leve, quase confortável de novo, como era antes de tudo se complicar.

Victor ainda estava com o braço apoiado atrás do sofá, mastigando o último pedaço do donut, quando o celular dele apitou no bolso. Ele pegou o aparelho, olhou a tela e… ficou sério.

- Merda… -murmurou, apertando a boca numa linha.

Eu, claro, já fiquei curiosa.

- O que foi? -perguntei, endireitando a postura e tentando espiar.

Ele suspirou fundo e me mostrou a tela por um segundo. Era uma mensagem da ex dele. Só li rápido um trecho: “precisamos conversar”.

- Ela… me chamou pra conversar. -ele explicou, encarando o celular como se fosse uma bomba.- Disse que tá em casa agora, sozinha… sei lá.

Eu arregalei os olhos e dei um tapinha no braço dele.

- E você tá fazendo o quê, ainda parado aqui? Vai logo, Victor! -falei, rindo, me levantando e indo até a cozinha.- Leva essa cerveja, que é o mínimo

Ele arqueou a sobrancelha pra mim.

- Você acha mesmo? -perguntou, meio desconfiado, como se não esperasse que eu fosse reagir assim.

Eu dei uma risadinha e já fui pegando o engradado que ele tinha largado na mesa, colocando no colo dele.

- Claro! Vai que ela só quer "conversar"… -fiz aspas no ar com as mãos.- …e vocês acabam resolvendo as coisas.

Ele me olhou, surpreso com a naturalidade que eu falava, e depois sorriu, meio sem graça.

- Você é esquisita demais, sabia? -disse, balançando a cabeça, mas já se levantando do sofá com a cerveja na mão.

- Esquisita, mas madura. -retruquei, piscando pra ele.

Victor ainda ficou ali parado por um instante, como se quisesse dizer alguma coisa, mas desistiu. Ele só sorriu de novo, e antes de sair, murmurou:

- Valeu, viu? Por tudo.

Eu acenei com a mão, tentando não rir.

- Boa sorte, galã. E se ela não te quiser de volta… traz mais donnuts pra mim.

Ele gargalhou alto enquanto saía pela porta, balançando a cabeça.

E eu fiquei ali, sozinha na sala, alisando a barriga com carinho, então decidi ir fazer pipoca no microondas.

Depois, me ajeitei no sofá, acomodando a almofada atrás das costas e a tigela de pipoca no colo, com o som familiar da Bella dizendo que nunca tinha pensado muito em como iria morrer. Sorri sozinha, porque eu já sabia cada fala daquele filme de cor — ainda assim, ele me acalmava.

Um tempo depois, bem na hora em que Edward parava a van no estacionamento da escola, um toque na porta ecoou pela sala. Revirei os olhos, já imaginando que Victor tinha esquecido alguma coisa.

- Tá aberta! -gritei, sem tirar os olhos da tela.

Ouvi a porta rangendo, passos pesados pelo corredor… e então uma voz nada animada:

- Mas meu Deus do céu, Marina, você deixa a porta assim? Sozinha em casa, grávida… sabe os riscos disso?

Dei uma mordida na pipoca devagar, sem nem olhar pra ele, e retruquei:

- Oi pra você também, Luan. Que recepção calorosa, hein?

Ele bufou, e só então me dei ao trabalho de virar o rosto. Ele tava lá, parado na porta da sala, com as mãos na cintura, aquela jaqueta preta que ele sempre usava e a expressão mais carrancuda do que o próprio Edward quando tava de mau humor.

- Você não sabe quem poderia ter entrado aqui. -ele continuou, vindo até mim, ignorando solenemente meu sarcasmo.- Não dá pra dar bobeira assim, Marina.

Dei um tapinha ao meu lado no sofá, indicando pra ele sentar.

- Relaxa, drama king. Só você mesmo pra aparecer brigando por causa de uma porta.

Ele não respondeu, mas sentou, ainda resmungando baixinho enquanto olhava pra TV.

- Você tá assistindo isso… de novo? -perguntou, meio incrédulo.

- Crepúsculo me traz paz, ok? Melhor do que ter um cara batendo na minha porta pra me dar sermão.

Ele deu um riso curto, balançando a cabeça, mas quando me olhou de lado… parecia menos zangado.

- Você é impossível. -murmurou.

- E você, previsível. — respondi, dando um sorrisinho vitorioso enquanto pegava mais uma pipoca.

Ele ficou quieto, os olhos ainda fixos na tela, e eu só pensei: esse homem não sabe chegar sem virar um furacão. Mas, de algum jeito… eu não me importava tanto assim.

- Quer pipoca? -perguntei, estendendo a tigela pra ele, que hesitou só por um segundo antes de pegar um punhado.

- Não devia aceitar nada vindo de você. -resmungou.

- Mas aceita mesmo assim. -retruquei, piscando.

E por um instante, a sala ficou em silêncio além do som da TV e do barulho das pipocas estourando na boca dele.

Me ajeitei toda, afundando no sofá, e sem a menor cerimônia estiquei as pernas em cima do colo do Luan. Ele arregalou os olhos, olhando pras minhas canelas apoiadas nele como se eu tivesse acabado de cometer um crime.

- Mas olha só a folgada, meu Deus… -ele disse, cruzando os braços.- Nem um “com licença”, nem um “posso?”, nada.

Fechei os olhos dramaticamente, dei um suspiro de quem tá cansada da vida e rebati:

- Eu tô grávida, Luan. Eu não peço nada pra ninguém. Eu só… faço.

Ele bufou, mas não tirou minhas pernas dali. Pelo contrário, acomodou elas direitinho, como quem aceitava a derrota, e só então reparou nos meus pés.

- Misericórdia, Marina! -ele disse, pegando meu tornozelo com cuidado e erguendo pra olhar.- Isso aqui tá parecendo dois pães de forma gigantes!

Abri os olhos e encarei ele, fingindo indignação:

- Olha o respeito com a mãe da sua filha, viu? -falei, cutucando o braço dele com o dedão do pé.- Ela vai herdar esses pãezinhos aqui também.

Ele riu sozinho, ainda analisando meu tornozelo inchado.

- Se ela herdar esse teu drama, já vai nascer dando trabalho.

- Engraçadinho. -resmunguei.- Já que você notou, então faz alguma coisa útil, né? -estiquei ainda mais as pernas e bati levemente o calcanhar no colo dele.- Vai, massageia.

Ele arregalou os olhos pra mim, chocado.

- Massagear?! Marina, eu sou pai, não pedicure!

- É pai e responsável por eu estar assim, então vai. -dei um sorrisinho triunfante.

Ele ficou me olhando com aquela cara de indignação, mas pegou meu pé e começou a apertar de leve, sem jeito.

- Eu devia cobrar por isso.

- Pode descontar da pensão alimentícia. -respondi, já relaxando enquanto ele fazia um movimento circular no arco do meu pé.

Ele balançou a cabeça, rindo baixo, e murmurou:

- Você é impossível.

Dei um sorriso satisfeito e fechei os olhos outra vez.

- Eu sei. Mas você me ama.

E no fundo, sei que ele nem podia discordar.

Me sentei devagar no sofá, ajeitando outra almofada nas costas. Já não dava mais pra ficar deitada daquele jeito sem me sentir um pouco sufocada, desconfortável. Cruzei as mãos na barriga e suspirei baixinho, sentindo Serena dar um chutinho discreto.

Quando levantei os olhos, Luan ainda estava sentado do outro lado, me olhando. O olhar dele era tranquilo, mas atento… como sempre, como se lesse o que eu tava pensando sem eu precisar dizer. Dei um sorrisinho meio sem graça pra ele, e ele retribuiu com um daqueles sorrisos pequenos, de canto de boca, que eu sempre achei injustamente bonitos.

- E aí, como você tá? -ele perguntou, a voz baixa, quase como se não quisesse quebrar o clima que pairava ali.

- Tô bem… -respondi, depois de pensar um pouco.- Quer dizer… dentro do possível.

Ele assentiu devagar, aproximou-se um pouco e, sem pedir permissão, estendeu a mão. Vi os dedos dele tocarem a minha barriga com cuidado, como quem segura uma coisa frágil. Foi automático: arrepiei inteira. Até fechei os olhos por um segundo.

Fazia tempo que ninguém me tocava assim. Não só fisicamente… fazia tempo que nenhum homem me tocava dessa forma: com cuidado, com carinho, sem pressa, sem segundas intenções. Eu senti meu coração bater mais forte no peito e engoli em seco. Quando abri os olhos de novo, ele me olhava.

- Tá mexendo agora? -ele perguntou baixinho, os olhos brilhando com aquela curiosidade quase infantil.

Assenti com um leve sorriso, tentando disfarçar o quão afetada eu estava só por ele estar ali.

- Ela sempre mexe quando escuta sua voz. -murmurei, quase sem pensar.

Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso, e um sorriso genuíno surgiu nos lábios dele.

- É? Então ela já me reconhece. -disse, com um tom de orgulho bobo.

Ri baixinho, sem graça. Fiquei ali, quieta, sentindo a mão dele ainda descansada sobre a minha barriga, quente, presente. Não queria que ele tirasse. Não queria que esse momento acabasse. Porque mesmo que a gente tivesse errado tanto um com o outro, ainda existia isso entre nós.

Luan continuava com a mão espalmada sobre a minha barriga, com o polegar fazendo círculos preguiçosos enquanto ele sentia Serena mexer. A conversa tinha ficado em silêncio há alguns instantes, mas não era um silêncio ruim — era daquele tipo carregado, pesado de tudo o que a gente não dizia em voz alta.

Eu ainda sorria de leve, até sentir a mão dele começar a descer devagar. Primeiro pela lateral da minha barriga, depois deslizando por cima do tecido leve da minha blusa, passando pela cintura até parar ali, bem no meu quadril. Um arrepio instantâneo percorreu meu corpo inteiro, tão forte que até fechei os olhos e respirei fundo.

- Não… não faz isso. -murmurei, a voz já mais baixa, com um fio de nervosismo que não consegui esconder.

- Não faço o quê? -ele perguntou, a voz rouca, confusa mas carregada de malícia.

Abri os olhos devagar, encarando ele, e tentei me recompor. Tentei quebrar a tensão, soltando uma risada curta.

- Faz tempo… muito tempo… que um homem não me toca desse jeito, Luan. -falei, fazendo graça.- Eu tô subindo pelas paredes, sabe? Então… não facilita pro meu lado não.

Ele riu, uma risada baixa, arrastada, que me fez arrepiar ainda mais. Só que, depois da risada, veio aquele olhar. Meu Deus, aquele olhar.

Eu conhecia bem. Era o mesmo olhar que ele lançava antes de me puxar pra perto, antes de me beijar, antes de me deitar na cama dele. Um olhar quente, escuro, carregado de desejo. Um olhar que ele provavelmente nem percebia que tava fazendo, mas que me deixou sem ar por alguns segundos.

O polegar dele, que antes só fazia carinho leve, agora apertava levemente meu quadril. A respiração dele também mudou, mais pesada, mais lenta. Eu engoli em seco, sentindo meu corpo reagir a cada milímetro daquele toque.

Eu podia brincar, podia fingir que não tava acontecendo nada… mas a verdade era que só dele me olhar assim, só de sentir a mão dele no meu quadril, meu coração já batia rápido demais e meu corpo inteiro formigava, como se implorasse pra ele não parar.

Só que a gente tinha um acordo… era só amizade agora. Só pela Serena. Então eu respirei fundo, tentando desviar o olhar dele, mas era inútil. O jeito que ele me olhava queimava minha pele. Eu ainda sentia o polegar dele apertando e soltando devagar meu quadril, quase como se fosse de propósito, pra ver até onde eu aguentava.

- Tá difícil manter a pose, né? -ele murmurou, a voz rouca, quase num desafio.

Eu dei uma risadinha sem graça, porque ele não tava errado. O clima ali não era nada inocente. Eu podia tentar disfarçar, podia fingir que a mão dele no meu quadril não tava me deixando louca, mas ele sabia. Luan sempre soube ler meu corpo melhor do que eu mesma.

- É… -eu disse, ainda rindo, mas a voz falhando no fim.- Você é um problema, Santana.

Ele inclinou um pouco o corpo pra frente, ficando mais perto do meu rosto, o suficiente pra eu sentir a respiração quente dele contra minha bochecha.

- E você não gosta de problema? -ele sussurrou.

Eu virei o rosto lentamente, encarando aqueles olhos castanhos tão de perto, e dei um sorriso torto.

- Gosto… mas a gente prometeu que ia ser diferente dessa vez.

- A gente já prometeu muita coisa. -ele rebateu, sem desviar o olhar.

O coração martelava no meu peito, e eu sentia a tensão entre a gente latejando como um fio elétrico prestes a soltar faísca. Eu podia me afastar. Podia me levantar, ir pra cozinha, fingir que nada tinha acontecido. Mas eu não me mexi.

Ele se inclinou mais, o nariz quase roçando o meu, a mão agora firme no meu quadril. E antes que eu pudesse reagir, ele sussurrou:

- Só diz uma palavra… que eu paro.

Eu fechei os olhos, respirei fundo, tentando me lembrar de todos os motivos pelos quais a gente tinha prometido ser só amigos agora. Só pela Serena. Mas quando abri os olhos de novo e vi aquele olhar queimando em mim… não consegui dizer nada.

Ele entendeu meu silêncio. Sorriu de canto, malicioso, e a mão dele subiu lentamente até minha cintura, me puxando um pouco mais pra ele. Eu senti o calor dele contra mim, senti meu corpo inteiro arrepiar de novo.

E foi aí que ele falou, baixinho, quase como se fosse pra ele mesmo:

- Eu sabia que você ainda sentia.

Fiquei quieta, mas um sorriso mínimo escapou dos meus lábios, denunciando tudo.

Ele se aproximou mais, os lábios quase roçando os meus, o olhar preso no meu como se pedisse permissão uma última vez…

E eu não disse nada. Não precisava.

A mão dele deslizou do meu quadril pra minha nuca, me puxando de vez, e antes que eu pudesse racionalizar, senti os lábios dele nos meus.

Era como eu lembrava… quente, firme, ao mesmo tempo urgente e carinhoso. Um beijo que parecia matar uma saudade que eu nem admitia sentir. Eu cedi na hora, minhas mãos se agarrando na gola da camiseta dele, trazendo-o ainda mais pra perto, como se a gente pudesse fundir nossos corpos num só.

Ele soltou um gemido baixo contra minha boca quando eu mordi de leve o lábio inferior dele, e aquilo me fez sorrir entre o beijo. As mãos dele passearam pelas minhas costas, pela minha cintura, como se quisessem mapear cada centímetro de mim de novo, e eu sentia meu corpo inteiro tremer sob o toque dele.

Quando ele finalmente se afastou, só um pouquinho, ainda com a testa colada na minha, os olhos dele ardiam nos meus.

- Não era pra ser só amizade? -ele perguntou num tom rouco, provocador, mas com um sorriso brincando nos lábios.

Eu respirei fundo, tentando recuperar o fôlego, tentando organizar o turbilhão que ele causava em mim só de existir tão perto assim. E respondi com a voz baixa, mas firme:

- Era. Mas você nunca joga limpo.

Ele riu baixinho, aquele riso que eu sempre amei, e voltou a me beijar, dessa vez mais lento, mais profundo, como se não houvesse pressa, como se tudo que importasse no mundo fosse só nós dois, ali, naquele sofá.

E naquele instante, eu soube que não adiantava mais lutar. Não contra ele. Não contra a gente.

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