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Capítulo 103

Justin Narrando 

Eu ainda tava tentando processar tudo.

Um mês. Um mês inteiro apagado, enquanto o mundo seguiu girando. E agora, ali, de pé pela primeira vez desde que acordei… parecia que eu tinha voltado de outro planeta.

Era estranho. Como se eu tivesse perdido o controle do meu próprio corpo. Levantar da cama — algo tão automático antes — agora exigia fisioterapeuta, esforço e concentração. O doutor Alex foi paciente, me ajudou a dar alguns passos pelo quarto, orientando devagar, falando como se eu fosse quebrar a qualquer momento. E no fundo… eu me sentia meio quebrado mesmo.

Quando ele foi embora, agradeci com um aceno, ainda respirando meio pesado. Logo depois, minha mãe avisou que ia levar as crianças pra casa. Jack tava começando a ficar irritado com o ambiente fechado, e Chloe já tava impaciente, mesmo tentando fingir que não tava prestando atenção em mim.

Marina e Luan também disseram que iam pra casa pois estavam com saudades da Serena, e eu agradeci. Tava exausto. Meu corpo parecia um peso morto, e minha cabeça… mais ainda.

Bruna não disse nada. Só ficou ali, me observando com aquele olhar misturado de alívio e incredulidade, como se ainda tivesse medo de piscar e eu desaparecer de novo.

Meu pai chegou com a Ashley e a Melanie um pouco depois. Ele me deu um abraço meio contido, daquele jeito dele, dizendo que eu tinha dado um baita susto. Ashley foi gentil, trouxe uma sacola com algumas coisas — roupas, desodorante, carregador. E Melanie ficou ali perto da janela, mais calada do que o normal, como se ainda estivesse tentando processar que eu tava mesmo ali, falando e respirando.

Ficaram um tempo, conversamos pouco. Depois eles também foram embora.

E então… só restou ela.

Bruna continuava ali, sentada numa das poltronas perto da cama. Às vezes ela me olhava como se ainda não acreditasse que eu tava mesmo ali, respirando, falando, vivo.

Eu me ajeitei na cama, puxando os lençóis, e olhei pra ela com um meio sorriso.

- Você não vai embora não?

Ela levantou uma sobrancelha, e por um segundo, aquele velho brilho nos olhos dela apareceu.

- Tá me expulsando, é isso?

Soltei um riso rouco.

- Não… só achei que depois de um dia inteiro aqui, você fosse querer… sei lá, descansar. Ou ir pra casa, tomar um banho, dormir numa cama de verdade.

Ela deu de ombros.

- Eu me acostumei a dormir nessa poltrona. -deu um sorriso pequeno.- Além disso, é meio difícil ir embora quando a pessoa que você mais ama no mundo acabou de acordar depois de um mês.

Aquilo me pegou de jeito. Travei. Meu peito apertou.

Ela ainda me amava.

Eu sabia. Sempre soube. A gente só… se perdeu no meio do caminho.

- Eu não sei como agradecer. -sussurrei.- Por você ter ficado. Por ter pedido pra minha mãe trazer o Jack e a Chloe. Por tudo.

Ela abaixou os olhos pro nosso filho e balançou levemente a cabeça.

- Eu só fiz o que qualquer pessoa que ama alguém faria.

Fiquei em silêncio. O quarto, agora vazio, parecia até mais calmo. Mas ao mesmo tempo, cheio de tudo que ainda precisava ser dito entre a gente.

Quando a enfermeira apareceu na porta, segurando um saquinho plástico transparente.

- Senhor Bieber? -chamou, entrando devagar.- Trouxeram isso aqui da emergência. São seus pertences.

Assenti, curioso. Estiquei a mão pra pegar, e meu coração deu um leve solavanco quando vi o que tinha ali dentro.

Meu celular… com a tela toda rachada, mas ainda reconhecível. E uma caixinha preta.

Droga.

A caixinha.

Engoli em seco e tentei não olhar diretamente pra ela, mas era impossível ignorar. Era pequena, discreta, mas naquele momento parecia pesar mais do que tudo naquele quarto.

Bruna virou o rosto na mesma hora, puxando o corpo devagar pra frente, curiosa.

- O que é isso?

- Só… coisas minhas. -tentei dizer casual, mas minha voz saiu meio abafada.

A enfermeira pareceu não perceber o clima e continuou:

- Disseram que a polícia deve passar aqui amanhã. Vão querer conversar com você, fazer algumas perguntas sobre o acidente… mas não se preocupe, eles sabem que você ainda tá se recuperando.

Assenti, agradecendo com um sorriso breve, e ela saiu.

Bruna ficou em silêncio por um momento, o olhar preso no saquinho que agora eu segurava no colo. Ela parecia hesitar antes de falar.

- O que tem nessa caixinha?

Merda. Ela notou.

Me mexi desconfortável na cama, tentando esconder com o lençol, mas já era tarde demais. Suspirei e peguei a caixa nas mãos, segurando com cuidado.

- Eu… tava indo te ver naquele dia. -comecei, sem conseguir olhar diretamente pra ela.- Você lembra que você pediu pra babá que era pra mim buscar o Jack? Eu sabia que você tava armando pra conversarmos.

Ela assentiu, meio desconfiada, meio nostálgica.

- Eu lembro. Eu tava esperando…

- Pois é. Eu nem sabia o que você ia dizer. Se você ia aceitar a Chloe, se não iria… -apertei a caixinha entre os dedos.- Mas mesmo assim, eu levei isso.

Bruna franziu o cenho, o olhar agora fixo em mim. Eu abri a caixinha com calma e revelei a aliança. Um aro simples, elegante. Era o tipo de coisa que eu sempre imaginei no dedo dela.

- Eu ia te pedir em casamento, Bruna.

Ela ficou em silêncio por um momento que pareceu uma eternidade. 

- Justin…

- Eu sei. -cortei, rápido.- Que as coisas não estavam perfeitas. Que a gente ia tentar porém surgiu a Chloe, que foi uma bomba jogada em cima de você… mas eu também sei que nunca parei de te amar. Nem por um segundo.

Bruna piscou algumas vezes, como se estivesse digerindo tudo, e por um instante eu vi os olhos dela marejarem.

- Eu achei que tinha te perdido. -ela murmurou, a voz embargada.- Durante esse mês todo… cada noite, cada segundo aqui… eu achei que você nunca mais fosse acordar.

Fechei a caixinha com cuidado e estendi pra ela.

- Eu não tô te pedindo agora. Não desse jeito. Não com esse hospital, e eu mal conseguindo andar. -sorri fraco.- Só quero que você saiba que era isso que eu queria. Que ainda é.

Bruna olhou pra mim, depois pra caixinha. Ela não disse nada por alguns segundos… e depois se aproximou devagar, sentando na beirada da cama.

- Eu nunca parei de te amar também.

Meu peito apertou.

Ela se inclinou, devagar, como se não quisesse quebrar aquele momento, e encostou a testa na minha.

- Eu te amo, Justin.

Fechei os olhos, sentindo o calor da pele dela tão perto, e deixei um sussurro escapar:

- Eu também te amo, Bruna.

E naquele instante… nem os tubos, nem as cicatrizes, nem a dor. Nada disso importava.

Só nós dois. De novo. 

Eu passei os dedos com cuidado pelos cabelos dela, e por um segundo, fechei os olhos só pra sentir aquele momento. A gente já tinha se machucado tanto… mas agora, ali, parecia que ainda dava tempo de consertar.

- Você me odiaria se eu dissesse que ainda quero tudo com você? -murmurei.

Ela se afastou só o suficiente pra me olhar nos olhos, e deu um sorrisinho pequeno.

- Eu odiaria se você tivesse desistido de mim.

Aquilo me fez sorrir de volta, meio torto, ainda sem muita força, mas era sincero.

- Nunca desisti de você. Nem quando parecia que a gente não tinha mais jeito. -suspirei.- A gente perdeu tanto tempo… -comentei baixinho.

- Perdeu. -ela confirmou, sem raiva na voz. Só… tristeza.- Mas a gente ainda pode ganhar o que vem pela frente, se você quiser.

- Eu quero. -falei sem hesitar.- Quero nossa família. Você, o Jack… e agora a Chloe. Tudo. Eu quero tudo de volta.

Ela respirou fundo, assentindo devagar, e voltou a encostar a cabeça no meu ombro. Ficamos ali em silêncio, só ouvindo os sons baixos do hospital ao fundo, como se o mundo tivesse dado uma pausa só pra gente respirar.

Depois de um tempo, ela sussurrou:

- Quando você estiver melhor… e puder andar, e sair daqui… você ainda vai me pedir?

- Claro. -sorri contra os cabelos dela.- Mas da próxima vez, vai ser com você de vestido bonito, Jack bagunçando tudo, e eu de joelhos.

Ela riu baixinho.

- E se eu disser sim agora?

Me afastei um pouco, surpreso, procurando os olhos dela.

- Você tá falando sério?

- Tô. -ela disse, firme.- Eu já disse que te amo. Que te quero de volta. Que ainda acredito na gente. Então… por que esperar?

Meu coração disparou.

- Então casa comigo, Bruna.

Ela mordeu o lábio inferior, rindo meio emocionada, e assentiu:

- Caso.

A gente se beijou, que saudade do gosto do beijo dela. Peguei a aliança dentro da caixinha e coloquei no seu dedo, ela sorriu.

- Serviu perfeitamente. -ela murmurou, me olhando, com os olhos brilhando e nos beijamos novamente.

No outro dia...

O dia ainda nem tinha começado direito. A luz da manhã atravessava a janela do quarto, filtrada pelas cortinas brancas do hospital. Eu tava acordado há um tempo, sem conseguir dormir de novo. Ainda sentia dor no corpo todo, e a cabeça parecia cheia de neblina.

O quarto tava silencioso. Ninguém tinha chegado ainda — nem minha mãe, nem a Bruna. A verdade é que eu tava aproveitando esses minutos sozinho pra tentar me organizar por dentro. Pensar em tudo que tinha acontecido. Um mês fora do ar… e agora, era como se eu tivesse que reaprender a viver a minha própria vida.

A porta se abriu devagar. Achei que fosse alguma enfermeira, mas quando olhei, eram dois homens. Estavam vestidos de forma discreta, mas o distintivo preso na cintura de um deles não deixava dúvidas. Eram policiais.

Um deles se adiantou e deu um leve sorriso, o tipo de sorriso que eles devem treinar pra parecer acolhedor, mas que ainda assim carrega o peso da autoridade.

- Sr. Bieber? -ele perguntou.

Assenti, tentando me endireitar um pouco na cama.

- Sim.

- Sou o detetive Ramirez, esse é meu parceiro, detetive Collins. Viemos conversar com você sobre o acidente. Podemos?

- Claro. -respondi, mesmo com o estômago embrulhando. Eu já sabia que essa hora ia chegar.

Eles puxaram duas cadeiras próximas, e Ramirez abriu um pequeno caderno de anotações. Collins ficou mais calado, só observando.

- Primeiro, que bom ver que você acordou. Estávamos torcendo por isso. -ele disse, e eu apenas murmurei um "obrigado".

- Justin… posso te chamar assim?

- Pode.

- Você se lembra do dia do acidente?

Engoli em seco.

- Algumas partes. Eu pedi pra babá levar meu filho na minha casa, mas aí ela disse que a Bruna, mãe do meu filho, pediu que eu fosse buscar, e aí eu fui, dias antes eu tinha comprado um anel de noivado, e eu ia pedir s Bruna em casa… -franzi a testa.- Minha memória ainda tá meio falha. Sei que eu tava nervoso. E depois… só escuridão.

Ele anotou algo.

- Você lembra de ter discutido com alguém antes de sair de casa? Ou se teve algum tipo de ameaça recente? Um desentendimento com alguém?

Neguei com a cabeça, devagar.

- Não. Não que eu lembre. Eu tava… só com pressa… -respirei fundo.

Ramirez parou de escrever por um segundo, me encarando.

- E você tinha a aliança com você, certo?

Assenti, olhando de relance pra mesinha de cabeceira, onde estava o meu celular carregando e a caixinha do anel, agora vazia.

- Sim. Tava no carro comigo.

- Justin, o carro que você dirigia foi encontrado batido no poste, com marcas de outro veículo na lateral. Ainda não sabemos se foi um algo sem querer ou de propósito.

Fiquei em silêncio. Meu peito apertou.

- Vocês acham que… alguém tentou me machucar?

- Ainda não podemos afirmar nada. Mas achamos que é importante você saber. E, se você lembrar de qualquer coisa, por menor que seja… entre em contato.

Assenti de novo. Não confiava muito na minha memória ainda… mas agora eu tava mais atento do que nunca.

Depois de mais algumas perguntas burocráticas, eles se levantaram, agradeceram e saíram. O quarto voltou a ficar em silêncio. Mas dentro de mim, tudo estava barulhento.

Se alguém realmente causou aquele acidente… por quê?

E por que eu?

Fiquei ali, deitado, com a cabeça cheia. Tanta coisa tinha acontecido… e eu não tinha controle sobre nenhuma delas. Tentei me concentrar na dor no corpo, nas mexidas leves que o fisioterapeuta me ensinou ontem… qualquer coisa pra não pensar naquilo que eu sentia aqui dentro. No vazio. No susto de estar vivo e não saber o que me esperava agora.

Passaram-se alguns minutos, e eu ainda encarava o teto, quando bateram na porta.

- Pode entrar. -falei, tentando me ajeitar.

A porta se abriu devagar, e quem apareceu foi a Caitlin.

Ela tava diferente… mais abatida do que me lembrava. O rosto cansado, olheiras fundas, mas mesmo assim ela sorriu ao me ver.

- Ei… -disse ela, entrando com calma.

- Oi. -respondi, meio surpreso.- Que bom te ver.

Ela se aproximou e segurou levemente minha mão.

- Como você tá?

- Tentando entender tudo ainda. -confessei, dando de ombros.- E você? Como tá?

Caitlin suspirou, abaixando o olhar por um segundo. Sentou na poltrona ao lado da cama com um certo cuidado, como se o cansaço físico fosse o menor dos problemas.

- Eu… não tô tão bem assim, pra ser sincera. Mas precisava vir aqui te contar pessoalmente.

Minha expressão ficou mais séria na hora. O tom dela me deixou em alerta.

- O que foi?

Ela olhou nos meus olhos, e antes de responder, tirou um envelope da bolsa. Aquele tipo de envelope branco de laboratório, com meu nome escrito em caneta na frente.

- Enquanto você tava em coma… eu pedi autorização pra sua mãe pra coletarem seu DNA. Eu precisava saber, Justin. Mesmo que você não estivesse consciente.

Fiquei quieto. Não sabia o que dizer, então deixei ela continuar.

- O laboratório veio tem duas semanas. Coletaram seu DNA aqui no hospital. Depois, coletaram da Chloe também… e o resultado chegou na quarta-feira.

Ela estendeu o envelope pra mim.

Meus dedos ainda estavam fracos, mas consegui abrir. Retirei o papel lentamente e li o que estava ali: "Compatibilidade: 99,99%."
Chloe era minha filha. Biologicamente. Oficialmente. Inevitavelmente.

- Eu pedi pro cartório vir aqui amanhã. -ela continuou, a voz mais baixa.- Assim você pode registrá-la. Eu… não sei quanto tempo eu ainda tenho, Justin. E eu preciso ter certeza de que a Chloe vai ter alguém por ela.

Engoli em seco. A notícia me pegou em cheio, mesmo que algo dentro de mim já soubesse.

Olhei de novo pro papel e depois pra Caitlin.
Ela tava frágil, mas determinada. E eu… bom, eu não fazia ideia do que viria a seguir. Só sabia que agora, a Chloe era minha responsabilidade. E que eu não podia fugir disso.

Respirei fundo e virei o rosto pra Caitlin.

- A Bruna sabe disso?

Ela desviou o olhar na hora. Mordeu o lábio inferior, meio sem jeito.

- Não… eu não contei. -admitiu, com a voz baixa.- Achei que ela não fosse apoiar o que eu fiz. Que fosse achar errado eu ter coletado seu DNA enquanto você tava em coma… sem você saber.

Fechei os olhos por um segundo. Não por raiva, mas porque… eu conhecia a Bruna. E eu sabia exatamente o que ela faria.

- Caitlin... -comecei, olhando firme pra ela.- A Bruna vai ser madrasta da Chloe. Se tudo continuar como tá indo entre a gente. Ela merece saber. Você pode confiar nela.

Ela suspirou, os olhos marejando de novo.

- Eu só… não queria mais conflitos. Não com você acordando agora, não com tudo tão instável.

- Justamente por isso você precisa dela. E a Chloe também. -pausa.- Tudo que diz respeito à Chloe, você tem que contar pra Bruna. Ela pode não ser a mãe da Chloe, mas vai ser uma parte muito importante na vida dela. Vocês não precisam se amar, mas precisam jogar no mesmo time.

Caitlin ficou quieta por alguns segundos, absorvendo o que eu disse. Depois assentiu devagar.

- Tá certo… eu vou conversar com ela.

- Faz isso. A Bruna é forte. E ela tem um coração enorme. Você vai ver.

Ela forçou um sorriso, enxugando discretamente uma lágrima com as costas da mão.

Ficamos em silêncio por alguns instantes. Só o som do monitor cardíaco preenchia o quarto.

Olhei pro celular ali carregando na mesinha de cabeceira. A tela ainda estava rachada, mas milagrosamente funcionando. A bateria já tava quase cheia.

- Caitlin. -falei, voltando os olhos pra ela.- Pega meu celular pra mim, por favor? Tá ali do lado.

Ela assentiu e se levantou, tirando o carregador da tomada com cuidado. Me entregou o aparelho, e eu destravei a tela devagar, como se aquele gesto simples agora carregasse um peso diferente.

- Vai fazer o quê? -ela perguntou, com a voz mais baixa, me observando.

- Preciso conversar com meu advogado. -suspirei, ainda encarando a tela como se fosse uma bomba prestes a explodir.- Eu não sou cidadão americano, Caitlin. E a Chloe não nasceu aqui. Isso complica as coisas… pra trazer ela pra morar comigo.

Ela franziu a testa, visivelmente preocupada.

- Mas você é canadense. E seu pai é americano, não é?

- É. E agora que eu completei 21, posso tentar adquirir a cidadania por vínculo com ele. -respirei fundo.- Só que é um processo, não acontece do dia pra noite… e se eu não fizer isso, a Chloe não vai poder morar legalmente comigo aqui nos Estados Unidos. Não quero deixar nada disso no ar. Já perdi muito tempo da vida dela… não vou perder mais.

Caitlin assentiu devagar, compreensiva, mas com uma pontinha de culpa no olhar.

- Eu não sabia que seria tão complicado.

- Nem eu. -falei com honestidade.- Mas agora é minha responsabilidade. E eu vou fazer o que for preciso.

Ela abriu a boca como se fosse dizer algo, mas só balançou a cabeça em silêncio. Havia uma estranha paz no quarto, mesmo com tantas decisões pesando nos ombros.

- Você tá mesmo mudado, Justin.

Levantei os olhos pra ela, com um meio sorriso cansado.

- Ser pai muda tudo.

Ela sorriu de volta, triste e bonita de um jeito melancólico. E por um instante, não éramos dois exs com mágoas, nem duas pessoas perdidas tentando lidar com o tempo e os erros. Éramos só dois adultos tentando fazer o certo por uma criança.

Alguém bateu na porta e eu olhei na hora. 

- Pode entrar! -falei.

A porta se abriu e lá estava ela… Bruna. Sorridente, com aquele brilho nos olhos que sempre me desmontava. Só de ver que ela veio, meu peito já ficou mais leve.

- Oi, Caitlin, não sabia que estava aqui. -ela disse, antes de se aproximar da minha cama.

E então, se inclinou e me deu um beijo leve, doce, sem pressa. Quente, reconfortante. Era o tipo de beijo que fazia o quarto inteiro sumir.

- Oi, noivo. -ela disse com aquele sorriso bobo que só ela conseguia fazer parecer charmoso.

Sorri de volta, com o coração acelerando de novo, mesmo que eu ainda estivesse me recuperando.

- Oi, noiva.

Caitlin nos olhou surpresa, arqueando uma sobrancelha.

- Vocês noivaram?

Bruna, empolgada, esticou a mão com a aliança reluzindo.

- Sim! -respondeu, quase pulando de alegria.- Ele me pediu ontem no hospital. Foi o pedido mais lindo, mesmo que ele mal consiga levantar da cama!

Caitlin soltou uma risadinha meio surpresa, meio sem saber como reagir. Mas ela assentiu, simpática, como quem entendia que aquele momento era nosso.

Bruna então estendeu uma sacolinha em minha direção. Eu nem tinha reparado que ela carregava algo. Peguei e dei uma olhada dentro, curioso.

- O que é isso?

Abri e meus olhos se arregalaram um pouco.

Era um iPhone novinho em folha.

- Achei que tava na hora de aposentar esse aí. -ela apontou com o queixo pro meu celular todo trincado.

- Caramba… -murmurei, tocando o aparelho novo.- Obrigado, amor. Agora eu tenho o que fazer durante o dia… passar tudo do antigo pro novo.

Ela riu, se sentando na poltrona ao lado da minha cama, me observando com carinho.

- Não veio lacrada porque eu pedi pra colocarem capinha e película, tá?

Sorri de lado, segurando a mão dela com a minha livre.

- Você pensou em tudo.

- Sempre penso. Principalmente quando é sobre você.

Caitlin se levantou, ajeitando a alça da bolsa no ombro com um leve sorriso no rosto.

- Bom, acho que eu vou deixar vocês dois agora. 

Bruna levantou também, sendo gentil:

- Claro, Caitlin. Nos vemos mais tarde.

- Sem dúvidas. -ela respondeu, olhando pra mim por um segundo a mais.- Justin, qualquer coisa me chama, tá bom?

Assenti, ainda segurando o novo celular nas mãos.

- Obrigado por ter vindo… e por tudo.

Ela apenas balançou a cabeça, com um misto de alívio e cansaço no olhar, e saiu do quarto em silêncio.

Assim que a porta se fechou, Bruna se sentou de novo, agora mais perto de mim, me olhando com carinho e uma certa curiosidade.

- Sobre o que vocês estavam conversando antes de eu chegar?

Eu respirei fundo, passando a mão pelo rosto.

- Assunto sério. Depois te conto com calma… Mas é sobre a Chloe.

Ela assentiu, respeitando meu tempo, mas sei que ela queria entender. E eu ia contar. Só precisava organizar melhor o que eu mesmo tava sentindo.

- Por agora. -falei, tentando mudar o clima.- Vou começar a configurar esse celular. Você já adicionou seu número com nome de contato como "amor da vida"?

Bruna riu, jogando o cabelo pro lado.

- Ainda não, mas aceito esse título.

- Já é seu. Oficialmente.

E naquele momento, mesmo em meio a tantas questões pendentes, a sensação era de que, pelo menos entre nós dois, tudo estava começando a se alinhar.

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