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Capítulo 87

Luan Narrando

Duas semanas depois...

Já se passaram duas semanas desde aquela noite maluca em que eu tirei Marina da festa da Virgínia nos braços. Desde os gritos, os tapas, o descontrole, o abraço no meio da rua… e desde que ela me mandou a real. Fria, direta. Que não queria ter me conhecido. Que me odiava. Que nunca me perdoaria.

E desde então, ela não me desbloqueou.

Nem no WhatsApp, nem no Instagram, nem em nada. Eu tentei ligar duas vezes… só tocou e caiu direto. Mandei mensagem por SMS. Nada. Era como se eu tivesse deixado de existir pra ela. E talvez tenha mesmo.

Tô em San Diego agora. Vim pra cá depois de resolver umas pendências em Nova York e ter dois shows no interior de São Paulo. Hoje, finalmente, um dia livre. Mas livre é só o corpo, porque minha cabeça não tem sossego.

Tô no estúdio novo do Bruno Caliman e mais dois compositores. Tentando fingir que a vida anda. Que eu sou só mais um cantor compondo sobre amor e desamor. Que não tô quebrado por dentro. Que não acordo com vontade de mandar um áudio pra Marina dizendo “me desculpa” e “me deixa tentar de novo”.

- Tá viajando, Luan? -Caliman me cutuca.

- Tô. Malz aí. -murmuro, voltando os olhos pro caderno. Risco mais uma ideia de letra. Já são oito folhas riscadas só hoje.

- Quer deixar pra outro dia? -ele pergunta.

- Não. Eu preciso escrever.

“Preciso fazer alguma coisa que me distraia de pensar que perdi a mulher da minha vida”, pensei, mas não falei.

Peguei o violão e comecei a tocar uns acordes soltos. No impulso, soltei:

"Porque se me perguntar
Quem eu respiro é você, você, você
Se for pra escolher
O céu ou a Terra, respondo "você"..."

Caliman ergueu a cabeça na hora.

- Isso aí é bom, velho. Isso é o que você tá sentindo de verdade?

- É. Infelizmente, é.

Ele assentiu, sério, e pegou a caneta.

Passamos a tarde nisso. Criando, escrevendo, derramando sentimento em versos. Mas, no fundo, no fundo… eu só queria vê-la. Saber se ela tá bem. Saber se o bebê tá bem.

Vi ontem numa página de fãs dela uma foto de bastidores. Ela num set de gravação em Los Angeles, barriga já bem aparente, usando um figurino leve. Linda. Radiante. Só que nem parecia que eu fazia parte daquilo.

E o mais louco é que… eu faço. Eu sou o pai daquela criança. Mesmo assim, tô distante, fora do mundo dela, sem ter permissão nem pra perguntar se ela almoçou.

Suspirei pesado, larguei o violão.

“Será que eu realmente perdi ela pra sempre?”

Peguei o celular no automático. A cabeça ainda meio zonza da melodia que a gente estava escrevendo. Entrei no Instagram e comecei a rolar o feed, distraído, até que vi que tinha stories da página se fãs da Marina.

Meu dedo travou.

Toquei.

Era um vídeo de gravação de tela. Os stories dela, que eu não tinha como ver por mim mesmo, graças ao bloqueio. A música de fundo era calma, suave, provavelmente instrumental. E então eu vi: uma decoração linda, impecável, como tudo o que ela faz. Verde menta e lilás. Flores delicadas, balões flutuando em arcos. A mesa com doces personalizados, dois bolos pequenos. Um com detalhes verdes, outro com toques de lilás.

Meus olhos pararam num detalhe no canto da tela: dois balões grandes, de gás hélio. Um verde menta com o nome “Henry”. O outro, lilás, com “Serena” escrito em branco cursivo.

Meu coração deu um tranco tão forte que quase derrubei o celular no chão.

Serena.

O nome me puxou de volta. Como um laço invisível me arrastando direto pro passado. Praquela noite em Anastasia Island.

Flashback On

Estávamos com o pessoal e depois fomos por quarto, a gente teve uma briga pois minha carreira tava começando a dar certo, e eu tinha decidido não voltar pra faculdade, sem consulta-la, e depois que me redimi, o papo mudou, a risada dela ainda ecoava na minha cabeça, mesmo no silêncio.

A gente falou sobre tudo depois.
Sobre os sonhos, a carreira, as inseguranças.
Sobre filhos.

Ela saiu do banho, e eu comentei que estávamos vivendo uma vida de casados, e o assunto de que só faltava os filhos, surgiu naturalmente:

- Se for uma menina, eu queria chamar de Serena. -soltei, como quem confessa um segredo.

Ela abriu os olhos devagar e virou um pouco o rosto pra mim.

- Serena? Por quê?

Sorri pequeno. Tímido. Como se aquela ideia fosse só minha, e compartilhar fosse mais íntimo que qualquer beijo.

- Porque esse nome me lembra paz.
E você me traz isso… serenidade, sabe? Mesmo quando a gente briga, mesmo quando tá tudo confuso, você tem esse jeito de me acalmar sem nem perceber. E eu imagino que uma filha nossa seria assim também… leve, doce, forte. Serena.

Flashback Off

Lembro que ela sorriu daquele jeito que só ela sabia sorrir. E perguntou como seria de menino. Como se já tivesse aceitado o nome Serena. Como se fosse real.

E agora... talvez seja.

Talvez seja Serena ali dentro da barriga dela. Talvez seja meu sonho nascendo fora do meu alcance.

E o pior: sem mim.

Sem meu sobrenome. Sem meu convite. Sem minha presença.

Respirei fundo, passando a mão pelo rosto. Aquele tipo de dor que não sangra, mas arranca pedaço.

Eu sonhei com aquela menina.
Agora, talvez ela quem vai nascer e nem vai saber quem eu sou.

- Bruno. -virei no impulso, a voz rouca.- Eu preciso ir pra Los Angeles. Agora.

Ele me olhou do sofá, o violão ainda no colo, o copo de café na outra mão.

- Agora agora?

- AGORA. Marina tá fazendo o chá revelação. E eu não fui convidado.

Bruno largou o violão com um baque surdo no chão, se levantando num pulo.

- Vai arrumar suas coisas. Eu te arrumo o jatinho.

- Você tem certeza?

- Cara, se você não for agora, você nunca vai se perdoar. Vai logo.

Nem pensei. Nem agradeci. Só corri.

Me troquei como um louco, joguei uma jaqueta no corpo, peguei o celular e já fui mandando mensagem pro Anthony e pro Ryan.

“Qual o endereço da festa da Marina? Preciso chegar antes da revelação. Por favor.”

Anthony respondeu com um pin no Maps e só um:

"Corre."

[...]

O jatinho decolou de San Diego em menos de 50 minutos. O tempo voou e mesmo assim cada segundo parecia uma eternidade.

Eu encarava a janela, o céu nublado, o coração batendo descompassado. Eu sabia que podia ser rejeitado, ignorado, humilhado. Mas eu precisava estar lá. Porque o filho ou filha era meu também. E porque eu ainda amava a Marina.

Cheguei na casa de festa onde estava acontecendo o chá revelação, e o som das vozes já tomava o quarteirão inteiro. Tinha música ao fundo, decoração impecável, luzes penduradas nas árvores. Verde menta e lilás por todos os lados.

Entrei, meio no impulso, meio pedindo licença com a voz embargada.

- Com licença... desculpa... desculpa...

Não enxergava direito quem tava ao meu redor, só uma multidão apertada, empolgada, celular nas mãos, alguns já contando alto:

- Dez! Nove!

E então eu vi ela.

No meio de todos, sozinha.
As duas mãos apoiadas na barriga ainda pequena.
Os olhos brilhando como se guardassem o universo inteiro.
Linda. Serena.

Ela me viu.

E naquele instante, meu mundo parou.

Não houve barulho, nem gente ao redor, nem contagem. Só ela. Com os olhos arregalados e úmidos.

- Sete! Seis!

Ela não disse nada. Só estendeu a mão pra mim.

E eu corri.

Corri como se aquele fosse o único caminho que existisse.
Empurrei a dor, o orgulho, o passado.
E segurei sua mão. Forte. Com tudo que eu tinha.

- Cinco! Quatro!

Ela sorriu, e era o mesmo sorriso de Anastasia Island.

O mesmo sorriso que me fez querer chamar nossa filha de Serena.

Ela apertou minha mão. E me puxou pro lado dela.

- Dois! Um!

BUM!

Fumaça rosa explodiu no ar, como fogos de artifício em câmera lenta.
As pessoas gritaram. Aplaudiram.
E eu só consegui olhar pra ela.

Era uma menina.
Serena.
Minha filha.
Nossa filha.

Marina olhou pra cima, as lágrimas escorrendo sem vergonha, e eu, com os olhos marejados, sem pensar duas vezes, puxei Marina pro meu peito com força. Ela sorriu, chorando, e eu fiz o que meu coração queria desde o primeiro segundo que a vi naquela festa:

Abracei ela com toda minha alma.

- A gente vai ter uma menina… -sussurrei, sentindo o cheiro doce do cabelo dela.

Ela não respondeu. Apenas enterrou o rosto no meu pescoço, os braços apertando meu tronco como se fosse o único lugar do mundo onde ela queria estar.

Não consegui evitar.

A rodopiei no ar, leve, delicada, como se ela fosse a coisa mais preciosa que eu já segurei. E, de fato, era. Ela e a pequena Serena que estava ali dentro dela.

As pessoas ao nosso redor começaram a gritar e a aplaudir, batendo palmas, celebrando como se aquele momento fosse de todos.

- Parabéns!

- Que coisa linda!

- Felicidades, papai e mamãe!

Uma moça que eu nem conhecia encostou no meu ombro, sorrindo e dizendo:

- Isso foi lindo. De verdade.

Aos poucos fui reparando em quem estava ao redor. Era como se o mundo tivesse voltado a rodar devagar.

Justin se aproximou com um meio sorriso no rosto, um copo na mão, sem Jack é claro, ele era muito novinho pra viajar.

Melanie estava ao lado dele, e me lançou aquele olhar “sobreviveu, hein?”, mas com ternura.

Do outro lado, vi Anthony e Virginia abraçados, fiqueu feliz de finalmente estarem juntos e ambos sossegarem. Ryan e Olívia também sorrindo, aplaudindo, orgulhosos como se fossem nossos padrinhos.

E então, no fundo, meus olhos encontraram Victor, com uma morena linda ao lado, que só podia ser sua nova namorada. Ele apenas acenou de leve, discreto. E pela primeira vez, não me incomodou.

A mãe da Marina estava lá também. E o padrasto.

Na lateral do jardim, perto da mesa de presentes, vi o pai de Marina e a namorada dele conversando com alguém que não reconheci.

E entre todos, os olhares estavam sobre nós.

Eu e Marina.
A futura mamãe da Serena.
O futuro pai — que quase perdeu tudo.

Voltei a olhar pra ela.
Nossos rostos estavam colados.

- Obrigado… -murmurei.- Por me deixar estar aqui.

Ela apenas assentiu, o sorriso contido, tímido… mas real.

- Ainda não resolvemos tudo, Luan. -ela disse, me olhando nos olhos.- Ainda tem muitas feridas.

- Eu sei. -segurei suas mãos.- Mas hoje… você me deixou viver o dia mais feliz da minha vida.

Ela respirou fundo. Quase sorriu outra vez. E, pela primeira vez em muito tempo, me olhou com ternura.

E era só isso que eu precisava por agora.

Marina foi conversar com a mãe dela e Melanie, rodeadas de gente que queria ver a barriga, saber como ela tava, como ela tava se sentindo, aquelas perguntas todas. E eu me afastei um pouco, me encostei num canto perto do muro de plantas com as luzinhas penduradas. Abaixei a cabeça e fechei os olhos.

Eu quase perdi isso.

Quase perdi ela.

Quase perdi minha filha.

- Tá bonito, viu. -ouvi a voz já conhecida se aproximar.

Era Justin.

Olhei pra ele e dei um sorriso de canto, meio sem graça.

- É. Tá sim.

- Você chorou? -ele perguntou com aquele tom debochado.

- Talvez… -respondi, cruzando os braços.- E você não?

Ele riu baixo, balançando a cabeça.

- Eu choro quase todo dia agora. Jack me derrete.

- Tô ligado. Ele tá enorme.

A gente ficou em silêncio por uns segundos. E foi ele quem quebrou:

- Tava na hora, né?

- De quê?

- De parar de ser idiota, Luan. -ele me olhou de forma séria.- Você e Marina têm algo que vai além de qualquer desentendimento. Todo mundo vê isso. Até quando vocês estavam brigados, a Marina não conseguia disfarçar…

- Eu achei que ela tinha me deixado de lado. -falei baixo, encarando o chão.- Eu achei que ela tava seguindo com a vida e que eu tinha sido só um erro.

Justin deu um passo pra frente e colocou a mão no meu ombro.

- Se ela tivesse seguido em frente, você não estaria aqui agora. Marina é teimosa, mas… ela sempre deixou brechas pra você entrar de novo. Você só precisava correr. E correu.

Assenti, engolindo seco.

- Obrigado, cara. Por ter cuidado dela. Mesmo quando eu não tava por perto.

- Sempre vou cuidar. -ele respondeu, sério.- Ela é minha irmã. Mas agora ela é mãe da sua filha. E isso te dá a responsabilidade de fazer por onde. Ser o cara que ela precisa, e que a Serena merece.

A palavra “Serena” me fez arrepiar.

Sorri. Um sorriso de paz.

- Eu vou ser.

Justin me deu um leve tapa no ombro e saiu andando em direção à Marina.

E eu fiquei ali por mais um instante. Ainda encostado ali no canto, observando tudo ao redor, vi que o grupo mais barulhento da festa começava a se aproximar. Era impossível ignorar a energia deles juntos — Virgínia, Anthony, Olívia e Ryan vinham rindo alto, empolgados, como se tivessem voltado direto de um camarim depois de uma apresentação de teatro. E talvez seja isso que eles sejam mesmo: um elenco perfeito de apoio pra história da Marina.

- E aí, casal! -brinquei, endireitando o corpo quando os dois chegaram perto.- Finalmente resolveram assumir o que todo mundo já sabia, né?

Virgínia arqueou a sobrancelha com aquele sorriso dela de quem adora um deboche.

- Tá dizendo que a gente era previsível, Luan?

- Tô dizendo que vocês enganaram zero pessoas. -respondi, rindo.

Anthony deu uma risada e colocou o braço ao redor dos ombros dela, orgulhoso.

- A gente só esperou o timing certo.

- Timing certo ou a Virgínia te dando um ultimato? -Ryan provocou, se jogando numa das cadeiras de jardim, com um copo de suco na mão.

Olívia gargalhou, se apoiando em mim sem nem pedir licença, como se fôssemos melhores amigos.

- Eu tava prestes a fazer um bolão pra ver quem pedia quem em namoro primeiro.

- Aposto que você ia perder. -Virgínia disse, empinando o queixo.- Eu sou imprevisível.

- Tá, tá… imprevisível e romântica. Vocês formam um casal massa. De verdade. -falei, sincero, olhando pros dois.- Parabéns mesmo.

Anthony me deu um soquinho de leve no ombro e disse:

- Agora falta você fazer o seu pedido, né?

- Que pedido?

Eles me olharam como se a pergunta fosse uma heresia.

- Você sabe qual. -Olívia cruzou os braços, sorrindo marota.- A gente já viu esse filme antes.

Suspirei e olhei de relance pra onde Marina estava, conversando com a mãe dela, Melanie e Justin, o vestido leve dela dançando com o vento e o sorriso tímido no rosto enquanto acariciava a barriga.

- Primeiro… vou tentar conquistar a protagonista de novo. -falei baixinho, mais pra mim do que pra eles.

Mas o grupo ouviu. E Olívia sorriu com os olhos. Ryan levantou a taça de refrigerante como se brindasse. Virgínia piscou. E Anthony falou com aquela voz tranquila dele:

- Boa sorte, papai da Serena.

Sorri. Um sorriso que, dessa vez, veio sem dor nenhuma.

Vi quando a Melanie, o Justin e a mãe da Marina se afastaram, cada um indo conversar com outros convidados. Marina ficou sozinha perto da mesa de doces, olhando distraída pro topo do bolo, como se a cabeça estivesse bem longe dali. Era a deixa perfeita. Respirei fundo, juntei coragem e fui até ela.

- Oi. -murmurei, parando a um passo de distância.

Ela se virou devagar, os olhos se encontraram com os meus, e o brilho deles era diferente. Mais calmo. Mais… presente.

- Oi. -respondeu, com um sorriso pequeno.

Por um segundo, ficamos só naquele silêncio confortável.

- Eu… -ela começou, mas parou e respirou fundo, como se precisasse encontrar as palavras certas.- Eu queria te pedir desculpas por tudo o que eu disse aquele dia, sabe? Há duas semanas. Eu fui explosiva, infantil… falei muita coisa que não era verdade. Coisas que, agora, eu me arrependo.

Eu balancei a cabeça, entendendo.

- Tá tudo bem, Marina. De verdade. E eu também te devo desculpas. Por ter te tirado daquela festa daquele jeito. Eu tava fora de mim… ciúmes, frustração, raiva… tudo ao mesmo tempo. Não foi certo.

Ela sorriu de canto, mexendo nos dedos como se estivesse nervosa. Engoliu em seco, olhou discretamente ao redor antes de voltar a me encarar.

- Esses dias… eu andei pensando muito. Refletindo sobre tudo. Sobre mim, sobre você, sobre a Serena. E… eu percebi que tenho sido imatura. Me comportando como uma adolescente inconsequente. E… isso não é comportamento de uma mãe.

Eu apenas a escutava, absorvendo cada palavra como se fosse uma confissão.

- Eu te perdoo, Luan. Por tudo. Eu fui mãe solo por quinze semanas. E mesmo que eu tenha tentado bancar a forte, ser independente e segurar as pontas… eu percebi que eu não quero isso pra Serena.

Minha garganta apertou. Um nó se formou ali.

- Eu não quero que ela cresça longe do pai, que ela sinta ausência, ou que fique no meio de mágoas e egos feridos. A gente errou, os dois. A gente se machucou. E… eu sei que a gente não tem maturidade, pelo menos agora, pra ser um casal de novo. Mas acho que dá pra gente ser mais do que isso. -ela deu um pequeno passo mais perto.- Podemos ser… amigos. Pela Serena. Podemos criar ela juntos, com respeito, afeto e maturidade. Esquecer o que ficou pra trás e focar no que realmente importa.

Olhei pra barriga dela, que já começava a aparecer sob o vestido. E por um momento, imaginei a Serena ali, entre nós dois. Crescendo com amor, mesmo que amor de formas diferentes.

- Isso seria tudo o que eu mais quero agora, Marina. -falei, com um sorriso sereno.- Ser um pai presente. Te apoiar. E… quem sabe, no tempo certo, reconstruir algo bonito. Mesmo que seja só amizade.

Ela assentiu, os olhos marejando, mas dessa vez com emoção boa.

- Obrigada por vir hoje, Luan. De verdade. Mesmo que eu não tenha recebido o convite. Você não faz ideia do quanto significou pra mim.

- Eu nunca perderia isso por nada no mundo.

Nos olhamos por alguns segundos, em silêncio. E foi o suficiente.

Marina me olhou com aquele sorrisinho no canto da boca — aquele que ela fazia quando queria disfarçar emoção — e então começou a limpar os olhos com os dedos, tentando não borrar a maquiagem.

- Você tá bem? -perguntei, meio bobo de ficar só ali olhando pra ela.

Ela deu uma risadinha curta.

- Tô. Agora… tô.

- Ah, que bom… Porque, olha... -fiz uma expressão teatralmente ofendida- eu queria reclamar que o meu convite pro chá revelação claramente extraviou no correio. E se foi por carta, desculpa, mas nem carteiro existe mais, Marina.

Ela riu de verdade dessa vez, e foi tipo música pros meus ouvidos.

- Extraviei mesmo. Era só pra família e amigos próximos.

- Nossa. Então foi de propósito, né? -brinquei, colocando a mão no peito como se tivesse sido atingido.- Fui despromovido de pai da bebê pra figurante.

- Não. -ela disse, com um olhar travesso.- Você foi rebaixado pra “presença surpresa”. Bem melhor. Rendeu uma cena de novela e tudo.

- Ah tá, então eu sou tipo a audiência que levanta da plateia no programa da Eliana e grita "sou eu, Elianaaaa!"?

Ela gargalhou, colocando a mão na barriga. A Serena deve ter pulado ali dentro com esse tanto de emoção de uma vez.

Ficamos ali mais um tempinho, rindo e esquecendo por alguns minutos o caos que a gente viveu até aqui. Foi leve. Foi sincero. Foi como voltar no tempo.

Marina foi chamada por alguém e se afastou. Eu fiquei ali parado por uns segundos, com um meio sorriso besta no rosto, ainda sentindo o cheiro doce do perfume dela no ar.

Coloquei a mão no bolso e puxei meu celular, só por reflexo. Desbloqueei, entrei no Instagram… e ali estava.

Todas. Todas as páginas de fofoca.
Aquela legenda maldita, estampada em letras garrafais e acompanhada de prints da live que eu mesmo aparecia invadindo no meio da contagem regressiva:

CHÁ REVELAÇÃO EM DOSE DUPLA!
Descoberta do sexo do bebê e… quem é o pai! 👀💥
Marina Bieber revela tudo — Luan Santana assume paternidade ao vivo!

Travei.

Fiquei encarando a tela como se aquilo fosse mentira. Como se tivesse lido errado. Como se pudesse dar “desver”.

Meu estômago embrulhou. Aquilo era pra ser íntimo. Era pra ser sobre a Serena. Sobre a Marina. Sobre a gente.
E agora? Agora era só… espetáculo. Circo. Manchete.

Vi um vídeo postado, a contagem, a fumaça rosa… eu correndo feito louco, Marina me estendendo a mão, e pronto: cortado no ponto exato em que nos abraçamos. A legenda: “Luan entra de surpresa e confirma: é o pai!”

Droga. Respirei fundo, prendi o ar, soltei. Tentei não surtar. Mas, por dentro, eu tava pegando fogo.

Guardei o celular no bolso de novo e olhei em volta.

Vi Marina de longe, ainda conversando com alguém, rindo, distraída.

E eu ali, parado no meio da festa da minha filha, me perguntando se eu ia aguentar ver a minha vida — a nossa vida — sendo comentada por gente que nunca nem nos viu de perto.

Mas, quer saber?

Olhei de novo pra Marina. Ela tava com a mão na barriga, como se fizesse carinho na Serena ali dentro.
E foi aí que eu lembrei: isso não era mais sobre mim. Nunca mais seria.

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