Bruna Narrando

Estava sentada na bancada da cozinha, ainda de pijama, o cabelo preso num coque bagunçado, segurando uma caneca de café que já estava fria, mas eu nem me dava ao trabalho de esquentar de novo.
O silêncio do apartamento, às vezes, gritava dentro de mim.
Jack estava dormindo no berço do quarto ao lado, e a babá noturna tinha acabado de ir embora. A do dia ainda não tinha chegado. Era nesse meio tempo que eu mais me sentia sozinha. Só eu, meu café frio e os pensamentos que insistiam em pesar nas minhas costas como uma âncora invisível.
Desbloqueei o celular e abri o Instagram. A primeira coisa que apareceu foi a postagem da Olívia. Uma foto linda das três: Marina, Virgínia e ela. As três com sorrisos largos, tiaras de princesa na cabeça, no meio da festa.
olivia_mitch Powerpuff Girls 🩷🩵💚 @virginiaweston_ @marinabieber

Engoli seco.
Mandei um “feliz aniversário, espero que seu dia seja incrível” pra Virgínia nos stories, com um emoji de coração, mas não recebi resposta ainda.
Marina parecia bem. Linda como sempre, sorrindo como se a vida estivesse inteira pela frente. E eu?
Eu sentia que a minha tinha estacionado.
Senti os olhos arderem e pisquei várias vezes pra conter as lágrimas. Não ia chorar de novo. Eu já tinha chorado o suficiente essa semana.
Talvez eu esteja com depressão pós-parto.
Ou talvez… talvez isso seja só o peso das minhas escolhas. Ou dos meus erros.
Meu leite empedrou no começo da semana. Eu tentei continuar amamentando Jack, juro que tentei, mas eu tava tão esgotada emocionalmente que eu mal me mantinha de pé, quanto mais com forças pra produzir leite. Passei com a médica e el disse que isso acontece, que o estresse influencia, que não é culpa minha… mas parecia que tudo que eu tocava virava merda.
Eu era mãe. Mas me sentia uma falha.
Até nisso.
Foi o Justin que providenciou as babás. Claro que foi ele. Sempre ele resolvendo tudo. Mas mal falava comigo. Nosso único assunto era o Jack. E olhe lá.
Minha mãe voltou pro Brasil há três dias.
Disse que eu precisava criar minha independência e também tinha que voltar a trabalhar, mas eu sei que no fundo ela não aguentava mais me ver assim. O Luan também tinha viajado. Shows, compromissos, a vida seguindo. E eu… parada. Agora Luan e eu conversávamos um pouco, somos irmãos gêmeos, então ele meio que se sente obrigado a conviver comigo.
Olhei de novo pra foto da Marina.
Ela tinha amigas. Tinha planos. Tinha uma barriga crescendo cheia de esperança.
Eu só tinha arrependimento.
E uma culpa do tamanho do mundo, martelando na minha cabeça, todos os dias.
Será que um dia ela vai me perdoar?
Será que o Luan vai conseguir passar por cima de tudo e me perdoar de verdade?
Será que Jack vai crescer ouvindo que a mãe dele destruiu tudo de bom que existia em volta?
A babá chegou. Tocou a campainha, me despertando dos meus pensamentos.
Levantei, respirei fundo e fui atender.
Eu não podia desabar agora.
Recebi a babá com um sorriso fraco, sem muito entusiasmo. Ela era nova, mas parecia ser boa com o Jack, o que já me deixava um pouco mais tranquila.
- Eu vou dar uma caminhada por aqui, qualquer coisa me liga, tá? -falei, pegando o celular da bancada. Ela assentiu e deu aquele sorriso ensaiado, simpático.
Fui até o quarto, abri o guarda-roupa meio sem vontade e puxei o primeiro conjunto de frio de academia que vi. Uma calça legging preta, casaco cinza de zíper. Coloquei um top por baixo, amarrei o tênis branco e prendi o cabelo num rabo de cavalo rápido. O espelho me mostrou uma versão minha que eu mal reconhecia — olheiras, rosto abatido, olhar vazio.
Mas eu precisava sair. Nem que fosse só por vinte minutos.
Peguei os fones de ouvido, coloquei um na orelha e o outro deixei no bolso. Saí do apartamento sem nem olhar muito pra trás. Desci pelo elevador em silêncio e fui pra rua.
O ar fresco de Nova York no início de setembro era um pouco gelado, mas agradável. Havia um leve vento, e as folhas das árvores já começavam a mudar de cor. Caminhei com passos calmos, meio perdidos, tentando me encontrar naquela cidade em que antes eu me sentia viva.
Passei por uma padaria que eu e Marina costumávamos frequentar. Me deu um aperto no peito.
Passei por uma loja de roupas infantis que fui com o Justin no início da gravidez, quando ele ainda sonhava com o nome Jack escrito em cada pecinha.
Meu peito doeu.
Eu queria...
Eu queria me reconectar comigo mesma.
Com a mulher que sonhava, que ria, que acreditava nas pessoas.
Mas tudo agora parecia diferente.
Parei num banco da praça e sentei, abraçando os próprios joelhos.
Peguei o celular e fiquei um tempo encarando a tela. Pensei em mandar mensagem pra Marina.
Apaguei.
Escrevi de novo.
Apaguei de novo.
Pensei em mandar pra Justin.
Fiz a mesma coisa.
No fundo, eu sabia que nenhuma palavra minha apagaria o estrago que eu causei.
Mas o silêncio também tava me matando.
Respirei fundo e levantei, recomeçando a caminhada. Eu não tinha rumo, mas precisava continuar.
De repente, meu peito já não aguentava tanto silêncio, tanta estagnação. Eu precisava de algo. Qualquer coisa. Talvez só... me lembrar que eu estava viva.
Então comecei a correr.
Primeiro num ritmo leve, só pra aquecer. As passadas ritmadas, os pés tocando o chão como se eu estivesse fugindo de tudo aquilo que estava entalado na garganta: da dor, da culpa, do arrependimento. Em poucos minutos, a velocidade aumentou e eu sentia meus pulmões queimando, a respiração acelerada, as pernas respondendo com um esforço que eu não sentia há muito tempo.
A endorfina veio como um velho conhecido me abraçando de volta. Era bom. Era quase libertador.
Aos cinco minutos, meu coração parecia que ia pular pra fora do peito. Um alívio dolorido. Uma adrenalina que eu nem lembrava como era.
E foi aí que percebi.
Tinha alguém correndo ao meu lado.
Um homem.
Ele parecia estar ali há algum tempo, talvez acompanhando meu ritmo sem que eu notasse.
Devia estar na casa dos 30, talvez um pouco mais. Moreno, cabelo castanho levemente bagunçado pelo vento, barba bem feita, corpo atlético, mas sem exagero. Trajava uma blusa de manga comprida e um short esportivo, fones pendurados no pescoço.
Nossos olhares se cruzaram por um breve momento.
E ele sorriu.
Falou alguma coisa, mas meu fone estava alto demais — não entendi uma palavra. Franzi o cenho, diminuí o ritmo da corrida até parar de leve, acompanhando ele. Tirei os fones.
- Perdão... não entendi. -falei, ainda ofegante, tentando recuperar o fôlego.
Ele deu uma risadinha suave, simpática.
- Desculpa se te assustei. Foi o jeito que encontrei de chamar sua atenção. -ele sorriu de lado, com um charme tranquilo, nada forçado.- É que… eu sempre corro por aqui, mas nunca te vi. E… você é linda.
Arqueei as sobrancelhas, um pouco surpresa.
Ainda tentando controlar a respiração, sorri, meio sem graça.
- Obrigada... -disse, um pouco desconcertada, mas com um calor esquisito subindo pelo rosto.
Ele estendeu a mão, ainda trotando leve.
- Eu sou o Nathan.
- Bruna. -respondi, apertando a mão dele por um instante, antes de soltar.
- Tudo bem se eu te acompanhar mais um pouco?
Hesitei, mas assenti com a cabeça. Era só uma corrida.
Seguimos trotando lado a lado, num silêncio confortável. O som dos nossos passos era quase hipnotizante, e eu até esqueci por um instante das crises que vinham me consumindo. Era como se aquela corrida tivesse pausado o caos dentro da minha cabeça.
- Posso fazer uma pergunta meio pessoal? -ele disse de repente, com um tom leve, me olhando de canto.
Assenti, curiosa.
- Você é casada?
Soltei um risinho seco, olhando pra frente.
- Não. Solteira. Bem solteira, na verdade.
- Hum... -ele murmurou, assentindo.- Tem filhos?
Respirei fundo.
Era aí que normalmente os caras se assustavam. O olhar mudava, o assunto morria, o interesse evaporava. Mas preferi a honestidade, sem rodeios.
- Tenho, sim. Um filho de um mês que se chama Jack.
Olhei de relance, esperando aquela expressão desconfortável.
Mas não veio.
Nathan apenas olhou pra mim com as sobrancelhas levemente arqueadas, em surpresa genuína.
- Uau... um bebê? -ele disse, com um meio sorriso simpático.- Você não parece nem um pouco com alguém que dorme três horas por noite.
Soltei uma risada, e senti meus ombros relaxarem.
- Agora eu tenho babás... duas. Não por luxo, mas por necessidade. Eu... sou mãe solo. E tá sendo difícil pra caramba.
Ele assentiu com um olhar compreensivo.
- Imagino. Deve ser puxado. Mas... só de estar aqui, correndo, sorrindo e de pé, já diz muito sobre você.
- Estou tentando não desmoronar. -confessei baixinho, antes que pudesse pensar demais.- Mas obrigada por não sair correndo ao ouvir “mãe solo com bebê de um mês”.
Ele riu.
- Se fosse pra correr de mulher forte, eu nem teria parado pra falar contigo.
Pela primeira vez em muito tempo, senti um calor bom no peito.
Caminhamos mais alguns quarteirões lado a lado, até que Nathan parou em frente a uma cafeteria charmosa, com mesas do lado de fora e um toldo listrado em azul e branco.
- Eu normalmente paro aqui depois das minhas corridas. Quer tomar um café comigo? -perguntou, com um sorriso tranquilo.
- Por que não? -respondi, sem hesitar.
Entramos, pedimos nossos pedidos — ele um cappuccino com canela, eu um chá de hibisco gelado com limão — e nos acomodamos numa mesa perto da janela, onde dava pra ver o movimento da rua.
- Então... Nathan, né? +perguntei, brincando com o canudo do meu copo.
- Nathan Miller. E você?
- Bruna. Bruna Santana.
- Legal. Mora aqui por perto?
- Sim, no Upper West. E você?
- Midtown. Mas cresci em Denver, no Colorado. Nova York é só meu lar emprestado.
- Sério? Achei que fosse típico novaiorquino. Já chega correndo, direto, confiante...
- Confiante ou intrometido?
- Depende. -falei rindo.- Mas, nesse caso, confiante.
Ele sorriu, apoiando os cotovelos na mesa.
- E você, Bruna Santana? Sempre viveu aqui?
Dei de ombros.
- Na verdade... não. Tem exatos dois anos que moro aqui. Mas não sou daqui, não.
- Mas é americana?
Sorri, deixando ele curioso por alguns segundos antes de responder:
- Brasileira.
Os olhos dele se arregalaram.
- Sério? Jura? Nossa... não fazia ideia! Você fala inglês perfeitamente.
- Obrigada. Mas se você me ouvir brigando com meu irmão, vai ouvir cada palavrão em português possível.
Ele riu, interessado.
- Então você tem um irmão?
- Na verdade, um irmão gêmeo.
Nathan ficou pensativo por um momento.
- Você tem... vinte e...?
- Vinte. -ri.- Vou fazer 21 daqui alguns meses.
- Caramba, você parece mais madura que muita gente da minha idade. -ele fez uma pausa e depois completou, sorrindo:- Eu tenho 31.
- Bem vivido, então.
- É o que dizem. -respondeu, levantando a sobrancelha com um sorriso.
- E o que você faz, Nathan?
- Advogado. Mas, por favor, não levanta e vai embora. -ele brincou.- Juro que não sou daqueles insuportáveis que se acha o dono do mundo porque decorou as leis do estado.
- Ufa. Porque eu já tava me levantando. -falei, rindo.
O tempo passou mais rápido do que eu esperava. O chá já tinha terminado há alguns minutos, e a gente nem percebeu. As conversas foram de música a livros, de filmes antigos a histórias de infância.
- Você é divertida, Bruna. -Nathan disse, apoiando o queixo na mão, os olhos fixos nos meus.- Bem mais do que a maioria das pessoas que eu conheço aqui.
- Isso é um elogio ou um alerta?
- Um elogio. -ele riu.- E também um convite. Quer dizer... se você topar me ver de novo.
Senti minhas bochechas esquentarem, mas sorri.
- Eu toparia.
Ele puxou o celular do bolso e desbloqueou.
- Então, me passa seu número?
- Claro. -peguei o celular dele, digitando.- Pronto. E me mandei um "oi" pra facilitar sua vida.
Meu celular vibrou no meu bolso quase instantaneamente. Ele sorriu ao ver meu nome salvo.
- Agora não tenho desculpa pra não chamar você de novo.
- Espero que não. Mas nada de me chamar pra correr, ok?
- Então tá. Sem corridas... pelo menos nas primeiras semanas. -ele disse, com uma piscadinha.
Nos levantamos, ele pagou os cafés mesmo com minha insistência pra dividir, e saímos da cafeteria.
- Vai voltar a correr ou vai pra casa? -perguntou, enquanto caminhávamos até a esquina.
- Acho que vou aproveitar e caminhar mais um pouco antes de voltar. Meu filho ainda deve estar dormindo com a babá.
- Então aproveita o tempo livre, mãe poderosa. -ele sorriu, colocando as mãos nos bolsos.- E obrigado, de verdade, por esse café e pelo papo.
- Eu que agradeço. Foi... inesperado. E bom.
- Que venha o próximo, então.
Nos despedimos com um aceno mais demorado e um sorriso cúmplice.
A pior parte de sair sem rumo, é a hora de voltar. Juro que o caminho de volta parecia infinito. Algo que era pra levar vinte minutos se estendeu por quase duas horas — mas eu nem me dei conta disso enquanto caminhava, perdida nos próprios pensamentos e sorrisos involuntários. Era esquisito estar leve assim... esquisito, mas bom.
Quando finalmente abri a porta do apartamento, tudo estava tranquilo. A babá estava sentada no tapete da sala, com o Jack deitadinho de bruços no centro, fazendo tummy time no tapetinho de atividades. Ele estava concentrado em tentar erguer a cabecinha, como se aquele esforço fosse a missão mais importante da vida.
- Oi... desculpa a demora. -falei, tirando os tênis perto da porta.- Me perdi no tempo.
- Imagina. -ela sorriu gentilmente.- O Jack se comportou super bem. E, se me permite dizer... você voltou até mais feliz.
Soltei uma risada baixa, meio sem graça.
- Talvez eu tenha precisado dessa escapada mais do que imaginei.
Me aproximei do meu pequeno, me ajoelhando perto dele e dando um beijo no topo da cabecinha ainda meio carequinha.
- Oi, meu amor. A mamãe tá de volta. Vou tomar um banho rápido. -falei, me levantando.- Depois você pode ir, tá bom?
- Claro, sem pressa.
Fui pro quarto, tirei a roupa de treino e entrei no banho. A água quente caiu como um abraço. Era engraçado... o Nathan ainda era um estranho, tecnicamente. Mas pela primeira vez em muito tempo, me senti vista. E viva.
Assim que saí do banho e vesti uma roupa confortável — calça de moletom largo e uma blusinha branca —, peguei o celular em cima da cômoda. A tela se acendeu com uma notificação nova. Era do Nathan.
"Espero que tenha chegado bem. Foi legal correr com você... quero repetir isso algum dia (só que com menos fôlego perdido rs)."
Sorri automaticamente. Era fofo. E despretensioso. Tinha uma leveza no jeito dele que me fazia bem.
Fui caminhando de volta pra sala, ainda com o celular na mão, digitando a resposta, quando escutei uma voz vinda dali:
- Pra quem você tá de sorrisinho?
Quase soltei o celular. Me assustei.
Justin.
Ele estava ali, sentado no sofá, com o Jack nos braços, o balançando devagar. Meu coração acelerou, mais pelo susto do que qualquer outra coisa. Ele nem olhou diretamente pra mim, apenas manteve os olhos no bebê, com a voz um pouco contida.
- Desculpa. Não é da minha conta.
Fiquei parada por um segundo, tentando processar a cena: Justin ali, no meu apartamento, com o nosso filho, e eu... sorrindo por mensagem com outro cara.
- Tá tudo bem. -falei, tentando soar tranquila.- Só... não esperava você aqui agora.
- Eu voltei de viagem e passei aqui antes de ir pra casa da minha mãe. Achei que ia te encontrar dormindo.
- Eu saí. Fui dar uma corrida.
Ele assentiu com a cabeça, ainda sem me encarar, ajeitando Jack no colo. O silêncio entre nós se arrastou por uns segundos. Tentei quebrá-lo, mas minha garganta estava seca.
- E... você tá bem? -perguntei, me sentando de lado no braço da poltrona.
Ele suspirou, e por um momento pareceu cansado. Um cansaço além do físico.
- Tô sobrevivendo. -disse, com um leve sorriso sem graça.- E você?
- Tentando também.
Jack deu um gemidinho e esticou o bracinho se espreguiçando, me fazendo sorrir e me aproximar pra beijar sua bochecha.
Justin finalmente me olhou. Um olhar rápido, mas intenso.
- Ele ama você. -disse, com a voz mais suave.- Mesmo tão pequeno... ele sabe.
- Eu amo ele mais que tudo. -respondi baixinho, olhando pro nosso bebê.- Por isso que eu preciso ficar bem. Mesmo quando parece impossível.
Justin assentiu lentamente.
O silêncio voltou, mas dessa vez ele era menos pesado. Só... denso.
- Ele tá ficando mais esperto. -comentei, passando os dedos levemente pelos fios loiros e quase inexistentes de Jack.
Justin se levantou, me entregou o Jack e foi até a cozinha. Ouvi a porta da geladeira abrir, depois o som de água enchendo um copo. Ele voltou com o copo na mão e se encostou no batente da sala, me observando em silêncio por alguns segundos.
- Aquele sorriso... -começou, com a voz mais baixa.- ... era por alguém novo?
Olhei pra ele. O modo como ele perguntou não era possessivo. Era um tipo estranho de curiosidade misturada com ciúme e alguma dor. Respirei fundo.
- É. Um cara que conheci hoje de manhã, na corrida.
Ele deu um sorriso irônico, desviando os olhos pro chão.
- Você corre uma vez e já conhece alguém interessante. Impressionante.
- Justin... -falei em tom de alerta.- Não faz isso.
- Desculpa. -respondeu, erguendo as mãos.- Só achei... rápido demais, sei lá.
- Você não tem direito de opinar. -disse com calma, mas firme.- A gente não tá mais junto, você deixou isso bem claro. E eu não vou ficar parada esperando você decidir se quer ou não fazer parte da minha vida.
Ele se calou por um momento, depois se aproximou, se sentando no sofá novamente.
- Eu sei. Só... -suspirou.- Dói. Mesmo eu não tendo mais esse direito, ainda dói.
Aquelas palavras me atingiram de um jeito inesperado. Vi sinceridade nos olhos dele. Pela primeira vez em muito tempo, Justin estava me mostrando uma vulnerabilidade que ele quase sempre escondia.
- Dói pra mim também. -confessei.- Mas eu tô tentando seguir, de um jeito ou de outro. Por mim. Pelo Jack. Se não for agora, quando?
Ele olhou pra Jack, depois pra mim. Passou a mão no rosto, visivelmente cansado. A barba estava por fazer, os olhos ligeiramente vermelhos.
- Eu não quero brigar mais, Bruna. Nem ficar nessa tensão. Mas a gente se machucou demais. Você me feriu, eu te feri... e agora tem esse carinha aqui que não merece ver tudo isso.
Assenti devagar.
- Eu sei. E por ele, eu quero que a gente consiga conviver em paz. Só isso.
Jack resmungou de novo, e então começou a mamar no dedo que levei à boquinha dele.
Justin deu um sorriso pequeno, derretido, ao ver aquilo.
- Ele é o melhor de nós, né?
Sorri também, com um nó na garganta.
- Com certeza.
Por um momento, parecia que o peso entre a gente havia se dissipado. Só por um instante. Justin se inclinou e beijou a testa do Jack, depois ficou de pé.
- Vou indo... minha mãe tá me esperando. Mas se você precisar de ajuda hoje à noite, me chama. De verdade. Eu venho correndo.
Assenti.
- Eu chamo. Obrigada.
Ele fez um gesto breve de despedida e foi até a porta. Antes de sair, virou-se pra mim:
- E... espero que esse cara da corrida saiba a mulher incrível que ele tá conhecendo.
Meu coração deu uma balançada. Mas eu só sorri de leve.
- Tchau, Justin.
Ele foi embora.
Fiquei ali, com Jack no meu colo, me perguntando como a vida virou esse emaranhado. Mas ao mesmo tempo... com uma paz estranha por finalmente termos conseguido conversar sem gritar.