Marina Narrando
Dois dias.
Fazia dois dias que ele não saía daquela cama.
Eu caminhava de um lado pro outro da suíte, com as mãos apoiadas nas costas, sentindo a Serena pesar mais do que nunca na minha barriga de quase 32 semanas. Eu já não sabia se era ela se ajeitando aqui dentro ou a ansiedade que fazia meu corpo inteiro doer.
O Luan continuava ali.
Deitado de lado, as costas largas viradas pra mim, imóvel. Não ligou a TV, não atendeu o telefone — que já devia ter descarregado faz tempo — não pediu nada pra comer. Só ficou quieto.
E eu… eu já não sabia o que fazer.
Fui até a cortina e abri só um pouquinho, só pra espiar a cidade lá embaixo. Nova York brilhava como sempre. Carros, buzinas, luzes, gente apressada andando pra todo lado. O mundo continuava rodando. Só aqui dentro que tinha parado.
Suspirei, apoiando a mão na barriga e alisando a curva enorme que já se desenhava na minha camisola. Serena se mexeu levinho e eu sorri triste.
- Eu sei, minha pequena… eu sei que você sente tudo também. -murmurei baixinho.- O papai tá passando por um momento difícil…
Fechei a cortina devagar e voltei pro lado da cama.
Ele tava do mesmo jeito, cabelo bagunçado, olhos fechados. Dava pra ver de leve que as olheiras tinham escurecido, e aquela barba por fazer já não era mais charme — era descuido mesmo.
Me sentei devagar na beirada do colchão, sentindo o peso da barriga me puxar pra frente. Fiquei só observando ele por alguns segundos.
Era difícil ver o Luan assim. Logo ele, que sempre teve um brilho diferente, que era o dono dos palcos, que sorria mesmo quando a vida pesava. O homem que me fez acreditar que sempre dava pra recomeçar… agora era só um homem ferido.
E eu sentia um aperto enorme no peito por não saber como consertar isso pra ele.
- Luan… -chamei baixinho, passando os dedos pelo cabelo dele.- Já vai dar três da tarde. Você não quer… sei lá, tomar um banho? Comer alguma coisa?
Ele não respondeu. Nem abriu os olhos.
Eu segurei o choro na garganta, porque eu sabia que ele não precisava de mais uma crise minha agora. Precisava de calma.
Então me inclinei, apoiando a mão na barriga pra não forçar demais, e encostei minha testa nas costas dele.
- Você não é um merda. -sussurrei, só pra ele ouvir.- Para de pensar isso. Você não é.
Fechei os olhos e fiquei ali por uns segundos, sentindo o cheiro dele misturado com o do travesseiro.
- Eu tô aqui, tá? A gente tá aqui. -a minha mão foi parar na barriga sem nem perceber.- Eu e a Serena precisamos de você. Inteiro.
Aí eu senti ele mexer. Bem de leve, mas mexeu.
Os ombros dele tremeram um pouco, como se engolisse em seco. E então a voz dele saiu rouca, baixa, quase falhando:
- Eu não consigo… Marina. Não agora. Eu não sei nem por onde recomeçar.
Eu respirei fundo, segurando a emoção de novo e deslizando a mão pelo braço dele.
- Então não recomeça hoje. Nem amanhã. Só… levanta. Toma um banho, bebe água. Começa devagar. -me inclinei um pouco pra ver o rosto dele.- Não precisa provar nada pra ninguém agora. Só pra gente aqui.
Os olhos dele finalmente abriram, vermelhos, cansados. Ele me olhou e eu vi um pouquinho do Luan de sempre ali. Um pouquinho só, mas tava lá.
Ele ergueu a mão devagar, pousou sobre a minha que ainda tava na barriga, e fechou os olhos de novo, como se aquilo já fosse mais do que ele tinha forças pra fazer por hoje.
E pra mim… por enquanto, isso bastava.
Porque eu sabia que o Luan não ia ficar caído pra sempre. Ele só precisava lembrar que ainda tinha chão pra levantar.
E enquanto ele não lembrava, eu ficava aqui. Segurando ele. Por nós três.
Sempre.
Eu não vou mentir: ver ele assim… me destruía por dentro.
Ver aquele homem que sempre foi tão cheio de orgulho, tão certo do que queria, agora sentado na cama com o olhar perdido, encolhido como um menino, me doía mais do que qualquer palavra poderia doer.
Ele tinha vergonha até de mim. Eu via. Cada vez que eu tocava nele, os olhos dele baixavam, como se estivesse pedindo desculpas por ser um peso, por estar assim.
E eu odiava isso.
Por isso, quando ele levantou, ele hesitou na porta do banheiro e me olhou, como se dissesse que não tinha forças nem pra cuidar dele mesmo… eu só sorri, mesmo com o coração apertado.
- Vem, amor. Eu te ajudo. -falei baixo, firme.
Ele ainda tentou recusar, balançando a cabeça devagar, mas eu só dei um passo à frente, segurei a mão dele e o puxei.
- Não tem nada de errado precisar de ajuda. -completei, tentando prender minha própria emoção.- Eu tô aqui pra isso.
Levei ele pro boxe e abri o chuveiro, ajustando a temperatura morna como ele gostava. Quando a água começou a cair, ele se encostou na parede, respirando fundo, sem coragem de me encarar. Eu dei um beijo leve na bochecha dele antes de pegar o sabonete.
- Levanta os braços, Lu. -pedi, como quem cuida de um menino.
E ele obedeceu, ainda envergonhado, os olhos fechados enquanto eu ensaboava os ombros, o peito, o pescoço. Eu podia sentir a tensão dele em cada músculo, e mesmo assim eu só queria mostrar pra ele que tava tudo bem. Que não tinha nada de vergonhoso em precisar de alguém.
- Não faz essa cara, tá? -sussurrei, enquanto passava o sabonete nas costas dele devagar.- Você tem todo o direito do mundo de se sentir assim, mas… não esquece que você não chegou aqui por acaso.
Ele suspirou pesado, a voz baixa, quase um gemido de dor:
- Até você, Marina… até você foi por causa dele.
Fechei os olhos por um instante, engolindo em seco. Doía ouvir isso dele. Doía saber que o Justin, sem nem perceber, tinha machucado o homem que eu amava desse jeito.
Segurei o rosto dele com as duas mãos, obrigando-o a me olhar. A água escorria entre nós, e eu senti os olhos arderem.
- Não, Luan. Justin não tem nada a ver com isso. Eu me apaixonei por você porque você é você. -falei, firme.- Porque ninguém me olhava como você olhou naquele campus. Porque ninguém me fez sentir viva como você fez. Justin pode ter dado um empurrão na sua carreira, mas ele nunca teve nada a ver com o meu coração. Isso aqui… -toquei a mão dele e levei até minha barriga.- …isso aqui é só nosso.
Ele mordeu o lábio inferior, tentando segurar as lágrimas, e eu encostei minha testa na dele, sentindo ele finalmente respirar um pouco mais fundo.
- Você não é menos por causa disso, amor. Nunca vai ser. -completei, num sussurro.- Você é tudo. Pra mim. Pra nossa filha. Pra tanta gente que te ama.
Ele assentiu devagar, e eu continuei esfregando a pele dele, tirando o peso daquela vergonha junto com a espuma que a água levava embora. Quando terminamos, enrolei ele numa toalha macia, sequei os cabelos dele com cuidado e dei um beijo na testa dele.
Já no quarto, ajudei ele a se vestir, a sentar na cama. Ele parecia um pouco menos pesado, mesmo ainda com aquele brilho de tristeza nos olhos.
Sentei ao lado dele, peguei as mãos dele nas minhas e sorri leve.
- Você não tá sozinho, Luan. -falei com toda a certeza que eu tinha dentro de mim.- E eu não vou deixar você esquecer disso nunca.
Ele me olhou de um jeito… quase grato. Um pouco de cor voltou às bochechas dele quando ele sussurrou:
- Desculpa, por te dar tanto trabalho.
Beijei a mão dele, sem soltar o olhar.
- Você nunca vai ser trabalho pra mim, amor. Você é a minha escolha. Todo dia. -sorri pequeno.- Agora… que tal a gente dar o próximo passo e descer pra comer alguma coisa?
Ele respirou fundo, desviou o olhar por um segundo e depois assentiu, tímido.
- Tá bom. Por você.
E eu segurei firme a mão dele, levantando devagar junto com ele.
- Não. -corrigi, com um sorriso sereno.- Por nós três.
E pela primeira vez em dias eu vi ele dar um sorriso fraco, mas sincero. E isso bastava pra mim.
Porque eu sabia que, aos poucos, o homem que eu amava ia voltar.
E eu estaria aqui todos os dias, ajudando ele a se lembrar de quem ele é. Até ele acreditar de novo.
Ele entrelaçou os dedos nos meus quando a gente saiu do quarto.
Foi automático, como sempre foi. Mas dessa vez… parecia mais pesado, como se ele precisasse da minha mão pra se manter em pé.
Eu só apertei um pouco mais a dele e sorri pra ele no reflexo do espelho do elevador. Ele não me devolveu um sorriso de verdade, mas o canto da boca dele ameaçou se curvar, e já era alguma coisa.
Quando as portas abriram, o restaurante do térreo estava calmo, cheio de janelas de vidro que deixavam entrar a luz suave da tarde nova-iorquina. Eu pedi uma mesa mais reservada, num canto, e ele me deixou conduzir tudo. Sentou-se sem dizer nada, apoiando os cotovelos na mesa e esfregando o rosto com as mãos.
Eu podia ver que ele ainda estava se sentindo um lixo.
E cada vez que eu via esse olhar vazio dele, parecia que alguém também me esmagava por dentro.
Falei baixinho, pegando o cardápio:
- Você quer escolher ou eu escolho por você?
Ele suspirou e deu de ombros, murmurando:
- Escolhe… eu confio.
Então eu pedi um prato leve, com arroz, legumes e frango, e um suco de laranja fresco. Ele ficou mexendo no guardanapo entre os dedos, o olhar perdido na janela.
De repente, sem que eu esperasse, ele sussurrou:
- Eu não sei nem por onde recomeçar.
Eu me ajeitei na cadeira, buscando os olhos dele.
Ele ergueu o olhar pra mim, e mesmo com aquela expressão abatida, havia ali uma pontinha de determinação surgindo.
- Pra reconstruir isso. Minha carreira. Minha… minha cabeça. Minha confiança. Eu não sei como fazer pra não me sentir um fracasso.
Respirei fundo, tentando organizar as palavras. Peguei a mão dele por cima da mesa e apertei devagar.
- Você não tem que saber tudo de uma vez, amor. Ninguém sabe. Mas você já sabe o que quer, não sabe?
Ele ficou me olhando por um instante, sério.
- Quero provar que sou capaz. Que sou bom o bastante por mim mesmo. Que ninguém me deu nada de graça.
Eu sorri de leve, sentindo os olhos arderem um pouco.
- Então começa por aí. Um dia de cada vez. Faz porque você ama. Porque isso é a sua vida, Lu. Porque a Serena vai crescer ouvindo as suas músicas e dizendo “meu pai é incrível”. -toquei a barriga com a mão livre, olhando pra ele com toda a ternura que eu sentia.- Você é um artista de verdade. E nenhum contrato vai mudar isso.
Ele ficou quieto, mas dessa vez não desviou o olhar. Engoliu em seco, respirou fundo e assentiu devagar.
- Tá. Um dia de cada vez.
A comida chegou, e eu empurrei o prato na direção dele, insistindo com um sorriso:
- Come. Porque você não vai reconstruir nada com o estômago vazio.
Ele riu fraco — a primeira risada dele em dias — e pegou o garfo.
- Sim, senhorita.
E ali, naquela mesa simples do restaurante do hotel, com ele finalmente comendo e voltando a ser um pouquinho do homem que eu amava, eu soube que ele ia ficar bem.
Ia demorar, eu sabia. Mas ia ficar bem.
Porque ele queria.
E porque eu nunca, nunca ia soltar a mão dele.
Quando ele terminou de comer, se recostou na cadeira e ficou só me olhando, com um olhar mais suave agora. Depois, murmurou baixinho, quase pra ele mesmo:
- Você não faz ideia do quanto eu preciso de você.
Segurei a mão dele outra vez, com um sorriso sereno.
- Eu sei, amor. E você vai me ter. Sempre.
E ele respirou fundo, como se aquela fosse a primeira respiração tranquila dele em dias.
Quando voltamos por quarto e a porta da suíte se fechou atrás de nós, eu já ia tirar os sapatos e me jogar na cama. Mas ele não me deu nem tempo.
- Vai arrumando as malas. -ele disse, do nada, com aquele tom decidido.
Eu congelei no meio do quarto, virando o rosto devagar, arqueando uma sobrancelha pra ele.
- Oi? -soltei, desconfiada.
Ele se encostou na parede, com as mãos nos bolsos, e repetiu com a maior naturalidade do mundo:
- Vai arrumando as malas, Marina.
Eu ri de leve, cruzando os braços.
- E eu posso saber pra onde a gente vai, senhor Santana?
O canto da boca dele subiu num sorrisinho safado, mas ao mesmo tempo terno, e ele deu um passo na minha direção.
- Tem uma surpresa te esperando há dois dias. E eu não aguento mais segurar. Quero te mostrar agora.
Eu franzi o cenho, estreitando os olhos pra ele.
- Surpresa? -repeti, como quem não confia muito.- Aqui em Nova York?
Ele só assentiu.
- Aqui mesmo.
- E eu posso saber que tipo de surpresa é essa? -perguntei, mantendo meu tom levemente debochado.
Ele só sorriu maior, me deu um beijo rápido na testa e respondeu:
- Pode… daqui a pouco. Agora vai lá e arruma as malas.
Eu fiquei olhando pra ele por alguns segundos, tentando adivinhar o que se passava por trás daquele olhar misterioso. Mas uma coisa eu já sabia: quando Luan Santana decidia uma coisa, era quase impossível fazê-lo voltar atrás.
Suspirei, revirando os olhos, mas já abrindo minha mala.
- Tá. Mas só pra constar, se eu sair daqui pra passar frio, fome ou ficar desconfortável, a culpa é sua.
- Pode culpar. Eu aceito.- ele respondeu de imediato, rindo baixinho.
Ele até me ajudou a dobrar minhas roupas, organizou as dele e vinte minutos depois já estávamos descendo pelo elevador do hotel. Eu me encostei na parede do elevador, sentindo aquela curiosidade queimando no meu peito.
- Luan… -chamei, num tom mais carinhoso dessa vez.- É sério. Me dá pelo menos uma pista.
Ele me olhou de lado e sorriu pequeno.
- Só posso te dizer que… é nosso.
Meu coração deu um pulo com aquela palavrinha. Nosso.
- Nosso? -repeti baixinho, sentindo minhas bochechas esquentarem.
Ele apenas assentiu e pegou minha mão, entrelaçando os dedos nos meus.
- Você já vai ver.
Saímos do hotel, fiz checkout com a Rebecca, Luan fez questão de chamar um carro que já estava à nossa espera. O motorista abriu a porta, e eu fui acomodada primeiro, com todo cuidado por causa da barriga. Luan entrou logo em seguida e ficou a viagem inteira me olhando com aquele sorriso bobo no rosto, claramente orgulhoso de algo que eu ainda não sabia.
Cerca de quinze minutos depois, o carro parou em frente a um prédio elegante, com fachada de vidro e mármore claro. Eu franzi a testa.
- Luan… o que é isso?
Ele desceu antes de mim, contornou o carro e abriu a porta do meu lado, me oferecendo a mão pra ajudar a sair.
- Só confia em mim.
Entramos no prédio, ele já conhecia o porteiro pelo nome, já sabia o número do andar. Eu ia juntando as peças aos poucos, mas ainda não tinha coragem de falar em voz alta o que eu tava imaginando.
Quando o elevador finalmente parou, ele me conduziu até uma porta no fim do corredor, tirou uma chave do bolso e abriu com calma.
- Entra.
Eu entrei devagar, sentindo um cheirinho gostoso de madeira nova misturado com baunilha no ar. E, assim que dei mais alguns passos, percebi: o apartamento estava completamente reformado, lindo, elegante, mas aconchegante.
Eu me virei pra ele, que encostou a porta atrás de nós, me olhando com os olhos brilhando.
- Luan… -comecei, com a voz embargando.- O que é isso?
Ele respirou fundo, deu mais um passo na minha direção e disse, num tom emocionado:
- Nosso apartamento, Marina. Nosso. Comprei tem pouco tempo, e desde então venho reformando tudo, planejando cada detalhe. Eu queria que fosse… um lar. Pra nós três.
Meus olhos marejaram na hora, mas ele segurou minha mão e me puxou pelo corredor.
- Vem. Quero te mostrar uma coisa.
Ele abriu a porta de um dos quartos e, quando eu entrei, não consegui conter o soluço que escapou.
O quarto já estava todo montado: berço branco, cortinas leves, papel de parede cheio de borboletas em tons pastel, um tapete fofinho, prateleiras com bichinhos de pelúcia. Uma poltrona de amamentação num cantinho com uma luminária delicada. Tinha até um pequeno closet.
- Aqui é o quartinho da Serena. -ele disse, baixinho, com um sorriso orgulhoso.- Tudo do jeitinho que eu imaginei pra ela.
Eu levei a mão à boca, sem conseguir falar nada por um instante. Só me virei pra ele, com os olhos já borrando de lágrimas, e sussurrei:
- Luan… você fez isso tudo? Sozinho?
Ele assentiu, vindo até mim e me abraçando com cuidado.
- Fiz. Porque eu sei o quanto você ama Los Angeles, mas… eu também queria que você soubesse que aqui em Nova York você já tem um lar esperando por você. Por nós três.
Eu me aninhei no peito dele, sentindo as lágrimas caírem sem conseguir evitar, completamente tomada por um turbilhão de amor, surpresa e gratidão.
Luan me puxou pela mão de volta pra entrada, com aquele sorrisinho convencido estampado no rosto, como se dissesse “calma que ainda tem mais”.
- Agora, presta atenção, porque essa aqui… -ele abriu os braços quando chegamos na sala.- …é a sala de estar.
Eu parei no meio do cômodo, olhando pros detalhes com a boca meio aberta. Um sofá gigantesco, daqueles que você quase se perde no meio das almofadas, ocupava a parede principal, virado pra uma TV enorme — enorme mesmo, parecia um cinema particular. A decoração era moderna, mas bem acolhedora. Tons claros, madeira, plantas num cantinho… a cara dele com um toque meu, eu até senti.
Ele sentou no braço do sofá, me olhando divertido:
- Esse sofá é tão confortável que dá pra assistir Crepúsculo se sentindo quase dentro do filme, tá? -disse, com aquele tom de deboche carinhoso.
Eu ri, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha pra ele.
- Ah, então quer dizer que você comprou esse sofá e essa TV só pra eu ver Crepúsculo?
Ele fez um gesto com a mão, como se fosse óbvio.
- Claro. Pra você se sentir a própria Bella Swan aqui.
Eu dei uma risadinha, me aproximando dele:
- Besteira. Isso aqui tudo é pra você ver meus filmes, Luan.
Ele fez careta, rindo fraco.
- Ah, aí você já quer demais. Eu passo.
- Aliás… você já assistiu Minha Culpa?
Ele me olhou de lado, levantou uma sobrancelha, e a resposta veio sem nem pensar:
- E ver você e o Victor se pegando? Eu passo. -ele revirou os olhos.- Eu já vi o suficiente no campus, quando vocês namoravam.
Eu abri a boca, indignada e rindo ao mesmo tempo.
- Ai, Luan! -dei um tapinha no braço dele, caindo na gargalhada.- Isso é só um detalhe, você tem que ver a trama! Eu vou te fazer assistir, nem adianta tentar fugir.
Ele só resmungou algo tipo “quero ver” e se levantou, pegando minha mão de novo:
- Vem, ainda tem mais.
E lá fui eu atrás dele, tropeçando de leve com a barriga pesando, mas sorrindo feito boba.
Quando chegamos na cozinha, meus olhos brilharam de verdade. Era enorme, toda com móveis planejados em tons de branco e cinza, um fogão por indução brilhando no balcão, geladeira de duas portas, ilha no meio, e uma mesa de jantar pra dez lugares. Dez!
- Meu Deus, Luan… -sussurrei, girando devagar pra ver tudo.- Isso aqui tá mais chique que cozinha de revista.
Ele encostou na bancada, orgulhoso.
- Aqui você vai poder cozinhar comigo.
Eu ri alto, me virando pra ele:
- Ou ver você tentando cozinhar, né?
Ele ergueu as mãos em rendição, rindo junto.
- É, mais realista.
Depois ele me puxou pra ver o banheiro social. Bonitinho, simples, bem planejado, mas nada que me chamasse muita atenção — até porque ele já tava me olhando com aquele ar misterioso de novo.
- Agora… -ele disse, baixando o tom da voz.- agora eu vou te mostrar o melhor lugar da casa.
Eu arregalei os olhos, entrando na brincadeira:
- O quê? Um salão de jogos? Um estúdio de música? Uma sala de cinema com uma TV maior que da sala?
Ele só sorriu, balançando a cabeça e me puxando pelo corredor, e é claro que eu já sabia: era o nosso quarto.
Quando ele abriu a porta, eu fiquei sem palavras por alguns segundos. O quarto era enorme, iluminado, com uma cama king-size que parecia feita pra te abraçar. À direita, um closet enorme com espaço mais que suficiente pra mim e pra ele. E a suíte… ah, a suíte! Uma banheira redonda gigante no centro, e um chuveiro separado com box de vidro. Tudo no maior capricho.
Eu não resisti: fui direto pra cama, me deitando de costas, sentindo a maciez me envolver como um abraço.
- Meu Deus… -murmurei, fechando os olhos com um sorriso.- Essa cama praticamente me abraça. Que cama perfeita.
Luan se sentou na beirada e me olhou com aquele jeito orgulhoso que só ele tinha.
- Essa cama… -ele começou, deitando ao meu lado- é pra você descansar como a rainha que você é.
Eu não consegui segurar a risada e me virei pra ele, enroscando meu braço no dele.
- E você… -disse baixinho, com um sorriso mole no rosto.- você é um bobo. Mas um bobo maravilhoso.
Ele só riu, me beijando de leve na testa, enquanto eu fechava os olhos, sentindo que tudo naquele apartamento — e nele — já era meu lar.
- Então… eu te convenci a ficar em Nova York e ter a Serena aqui?
Dei um suspiro leve e me mexi na cama pra me virar pra ele, até porque ficar deitada de barriga pra cima com essa barrigona me dava uma falta de ar danada. Apoiei o braço na lateral e fiquei de lado, encostando a cabeça no travesseiro, de frente pra ele.
- Convencer… é uma palavra forte. -brinquei, dando um sorriso de canto.- Eu vou ficar aqui sim. Mas não é por causa do apartamento, mesmo ele sendo lindo. É por você, Luan. -ele me olhou, atento, e eu continuei:- E também porque aqui eu vou ter rede de apoio. Em Los Angeles eu estaria muito mais sozinha.
Ele soltou o ar devagar, assentindo com um meio sorriso. Eu fui honesta, porque com ele eu sempre sou:
- Mas… mais pra frente, depois que a Serena nascer e tudo se ajeitar… eu ainda pretendo voltar pra Los Angeles. Eu tenho o terceiro filme pra gravar, tem minha carreira lá, minha vida também é lá.
Ele mordeu o lábio inferior, pensativo, mas não perdeu o bom humor. Passou a mão carinhosamente pela minha barriga e disse, com aquele tom seguro e implicante dele:
- Até lá eu já vou ter te convencido a ficar aqui de vez.
Soltei uma risadinha e balancei a cabeça, achando graça da confiança dele.
- Ah, é? Boa sorte com isso. -murmurei, me inclinando pra puxá-lo pela gola da camiseta e roubar um beijo dele.
Ele correspondeu, calmo, doce, como quem ainda não tinha pressa pra nada. Quando se afastou, me olhou com aquela ternura que só ele sabia ter, a mão ainda apoiada na minha barriga, como se já estivesse segurando a Serena ali dentro.
- Obrigado, Marina. -ele disse, com a voz um pouco rouca, embargada.- Por ter me tirado daquela fossa. Eu ainda não tô 100%… mas… você me dá força. Você e ela.
Meu coração se apertou ao ouvir aquilo. Passei o polegar devagar pelo rosto dele, bem de leve, pra secar a pontinha úmida no canto do olho dele, e sorri.
- E a gente vai continuar te dando força, meu amor. Sempre. Não importa quantas vezes você tropece, eu vou estar aqui pra te lembrar de quem você é.
Ele me puxou pra mais perto e eu me aninhei no peito dele, sentindo a respiração dele acalmar aos poucos, junto com a minha.
E eu sabia, naquele momento, que mesmo que a gente se desencontrasse um dia entre Nova York e Los Angeles, entre carreira e maternidade, entre dúvidas e medos… a gente sempre daria um jeito de voltar a se encontrar.
Porque era isso que a gente fazia. Escolhia um ao outro, de novo e de novo.