Bruna Narrando
- Então, Bruna, no que posso te ajudar?
A voz da terapeuta era calma, doce… mas aquela pergunta bateu em mim como uma avalanche. Eu pisquei algumas vezes, tentando encontrar um jeito bonito de responder. Mas não tinha. Não havia mais espaço pra floreios.
A verdade é que eu estava em colapso mental.
Na minha cabeça, tudo estava uma bagunça. Uma bola de neve que crescia dia após dia. E mesmo assim, lá estava eu, de maquiagem leve, jeans, blusinha social, aparentando controle — mas quebrada por dentro. Respirei fundo e olhei pra ela, antes de abrir a boca, porque eu precisava organizar o pensamento… ou pelo menos tentar.
Mas na verdade, antes mesmo de falar, minha mente já despejava o caos.
Tipo, o Justin teve uma filha com outra mulher. Uma filha.
Como eu explico o buraco que aquilo abriu dentro de mim? Como eu lido com a dor de ter dividido o amor da minha vida com outra? Com o fato de que, sem culpa nenhuma, uma criança surgiu e virou parte de tudo, de todos?
E então veio o acidente. O maldito acidente.
Dias e dias esperando o milagre dele acordar...
Aquela imagem dele desacordado me visitava todas as noites, mesmo agora que ele estava em casa. Mesmo agora que ele fazia fisioterapia na sala, como se tudo tivesse voltado ao normal. Mas não voltou.
E se não bastasse, a Caitlin...
Meu Deus, a Caitlin está na minha casa. Em cuidados paliativos. Esperando a hora da morte. Que Deus me perdoe até por pensar isso, mas é a verdade. A dor dela, o silêncio dela, a presença dela. É pesado. É real.
Duas crianças.
Duas.
Jack e Chloe.
Mesmo com babá, mesmo com amor, mesmo com ajuda… ainda sou eu que acordo ouvindo grito. Chorinho. Risada. Eu não tenho cinco segundos de silêncio no meu próprio apartamento.
E a faculdade...
Eu só estou nesse país por causa do meu visto de estudante. Eu não posso abrir mão da faculdade. Não posso tirar notas ruins. Não posso trancar. Não posso falhar.
Eu ajudei a Marina no primeiro mês da Serena. Com o coração cheio. Porque ela é minha melhor amiga, minha cunhada, minha irmã de alma.
Mas eu estava esgotada.
Eu estava exausta.
E agora, aqui, sentada em frente a essa mulher, nessa sala silenciosa e neutra, com cheiro de lavanda e chá de camomila... eu finalmente senti paz.
Mais de cinco segundos de paz.
Voltei a olhar pra terapeuta. Meus olhos já estavam marejados. A garganta fechada. Mas eu consegui abrir a boca.
- Eu... não sei nem por onde começar. -minha voz saiu trêmula, como se eu não tivesse usado ela pra falar de mim fazia tempo.- Mas eu tô... no meu limite.
Ela me olhou com carinho, cruzou as pernas e me ofereceu um sorriso acolhedor.
- Pode começar por onde quiser. Aqui, você não precisa dar conta de tudo. Só precisa ser sincera com você mesma.
E então eu desabei.
- Meu noivo tem uma filha com outra mulher, e eu amo essa criança, mas eu ainda tô tentando lidar com tudo isso. Ele quase morreu num acidente, ficou em coma, e agora tá fazendo reabilitação em casa. A ex dele... Caitlin... tá morrendo, na minha casa, e eu sinto culpa por não saber lidar com isso. Eu tenho duas crianças pequenas sob o meu teto, uma faculdade que eu não posso largar, uma vida que parece que não é mais minha…
Pausei, limpando as lágrimas que começaram a escorrer.
- E eu tô me sentindo egoísta por querer só... paz. Por querer o silêncio. Por querer dormir uma noite inteira sem acordar com alguma emergência. Por querer respirar sem ter que dar conta de mais ninguém além de mim.
A terapeuta não me interrompeu. Só me olhava com empatia. Me deixando finalmente... existir.
- Eu tenho duas crianças pequenas sob o meu teto, uma faculdade que eu não posso largar, uma vida que parece que não é mais minha…
Minhas mãos já tremiam, e enquanto as palavras saíam da minha boca, o peso do que eu dizia parecia me esmagar ainda mais. E foi ali, naquele instante, que eu senti.
A onda de culpa.
Enorme.
Gelada.
Apertando meu peito como uma mão invisível.
- E o pior… o pior é que enquanto eu falo tudo isso, eu me sinto péssima. -minha voz falhou, e eu precisei respirar fundo antes de continuar.- Eu me sinto a pior mãe do mundo pro Jack. Uma péssima madrasta pra Chloe, mesmo tentando dar tudo de mim.
Engoli em seco, limpando uma lágrima que escorria pela lateral do rosto.
- Eu me sinto uma noiva horrível pro Justin. Ele tá passando por tanta coisa, e eu… eu só consigo sentir que tô falhando com ele. Que não tô sendo forte o suficiente. Que não tô sendo a mulher que ele precisa.
Baixei os olhos, sentindo a garganta fechar.
- Me sinto uma amiga terrível pra Marina. Ela teve um bebê, precisou tanto de mim, e eu me esforcei, eu estive lá, mas eu senti… que não fui o suficiente. Que podia ter feito mais.
Suspirei, mordendo o lábio com força.
- Eu sou uma tia ausente pra Serena. Uma irmã distante pro Luan. Uma filha que não tem tempo nem de ligar pra mãe.
A terapeuta apenas escutava. Não me interrompia. Ela sabia que eu precisava colocar pra fora.
- Eu sou uma aluna medíocre. Não tô rendendo como antes. Minhas notas tão despencando e eu tô apavorada com a ideia de perder meu visto, de ser obrigada a voltar.
Fechei os olhos, lágrimas já escorrendo sem controle.
- Eu me sinto péssima. Péssima em tudo. Péssima com todos. Péssima comigo mesma.
Soltei o ar num suspiro engasgado, apertando os joelhos com as mãos.
- Parece que… não importa o quanto eu tente, eu tô sempre ficando devendo. Sempre deixando alguém na mão. Sempre falhando em alguma coisa. E eu… eu tô cansada de me sentir assim. Cansada de tentar ser boa o tempo todo.
Silêncio.
Por alguns segundos, só o som da minha respiração trêmula enchia a sala. A terapeuta me olhava com uma expressão que não era de julgamento, mas de compreensão. De acolhimento.
Ela pegou uma caixa de lenços e empurrou suavemente na minha direção. Eu agradeci com um aceno e sequei os olhos, ainda fungando.
- Bruna. -ela disse com voz calma.- Você carrega tanta coisa… mas e você? Quem cuida de você?
A pergunta me pegou em cheio.
Porque eu não tinha resposta.
Não sabia.
Talvez ninguém.
Talvez eu mesma… ou pelo menos eu tentava, até não dar mais conta.
A terapeuta cruzou as pernas devagar, como quem prepara o terreno com cuidado.
- Tudo o que você sente é válido. O esgotamento. A culpa. O medo. Mas, Bruna, ser boa não é dar conta de tudo. Ser boa não é ser perfeita.
Eu me encolhi mais um pouco na poltrona, ouvindo cada palavra com os olhos marejados.
- Você é uma mulher que ama. Que cuida. Que se doa. Mas até mesmo quem ama precisa de descanso. Precisa de colo. De pausa. De se permitir não dar conta.
- Eu fui pedida em casamento mês passado… -continuei. Minhas mãos ainda estavam inquietas no colo.- Foi no hospital, logo quando o Justin acordou, mas ainda assim foi especial.
Sorri fraco, lembrando da cena, mas logo o sorriso se apagou.
- Mas tem uma semana que eu perdi meu anel de noivado.
A terapeuta levantou os olhos pra mim, atenta. Eu não consegui manter o olhar.
- Eu não contei pro Justin. Não sei por quê. Talvez vergonha. Medo. Ou porque eu mesma não consegui aceitar ainda.
Passei a mão pelo dedo nu, o lugar onde o anel costumava estar, como se tentando sentir ele ali de novo.
- Eu não sei onde perdi. Se foi na rua, em casa, na faculdade, se fui roubada… não faço ideia. Eu só… percebi um dia que ele não tava mais ali. E foi como se tudo dentro de mim tivesse despencado.
A terapeuta ainda não falou nada. Só deixou que eu continuasse.
- Eu me senti tão mal. Como se tivesse desrespeitado o Justin. Como se tivesse jogado fora algo que representava tanta coisa… algo que ele escolheu com tanto carinho.
Meus olhos começaram a marejar de novo.
- E o pior é que ele nem percebeu. E isso me faz sentir ainda pior… como se o que significa pra ele também tivesse perdido importância.
Suspirei, olhando o teto, tentando conter as lágrimas.
- E aí tem o casamento… eu sempre sonhei em me casar em maio. Sempre. Desde criança. No Brasil, maio é o mês das noivas, sabe? Aquela coisa boba de quem cresceu assistindo filme de romance e sonhando com véu, flores e um vestido branco perfeito.
Ri, sem humor.
- E agora eu tenho só 13 meses. Treze. Parece muito, mas ao mesmo tempo parece nada. Porque tem dinheiro, tem gente, tem decisões, tem local, tem vestido, tem convite, tem tudo. E eu não tenho tempo nem pra lavar meu cabelo direito.
Balancei a cabeça devagar, sentindo a pressão subir de novo.
- E parece que nada tem sido suficiente. Nem o tempo. Nem eu. Nem as conquistas. Nem os sonhos se realizando. Tudo parece... meio apagado. Meio pesado.
Pisquei algumas vezes, engolindo o choro mais uma vez.
- E eu só queria conseguir curtir as coisas boas. Só isso. Mas até isso tem me escapado pelos dedos.
A terapeuta, com gentileza, se inclinou um pouco pra frente.
- Você já pensou que talvez o que esteja faltando… não seja tempo, nem controle… mas leveza? Permissão pra sentir. Pra errar. Pra não saber.
Eu travei a respiração por um segundo.
- Pode ser. -admiti, num fio de voz.- Mas eu não sei nem por onde começar.
Ela sorriu pequeno.
- Começa por aqui. Por esse momento. Pela coragem de ter vindo. De ter falado. Você não tá sozinha, Bruna.
E naquela hora, sem aviso, uma lágrima escorreu. Daquelas quentes, que parecem lavar a alma.
Ela me ofereceu mais um lenço. E eu aceitei. Mais leve do que quando entrei.
Assim que a sessão de terapia terminou, combinamos que eu retornaria uma vez por semana. Mas ela fez questão de dizer que eu poderia mandar mensagem a qualquer momento, e ela me encaixaria se fosse urgente. Aquilo já me fez sentir um pouco menos sozinha.
Entrei no carro e encostei a cabeça no banco, segurando o volante com as duas mãos. O metal frio que não estava mais no meu dedo parecia pesar toneladas. Olhei pro anelar vazio por alguns segundos. Eu tinha que contar pro Justin. Não dava mais pra adiar. Eu não queria mais carregar esse peso.
Chegando no apartamento, algo me pareceu estranho de cara. Estava silencioso demais, considerando que estava perto do horário de almoço e, normalmente, era o caos… mas não. Estava tudo em silêncio.
Chamei baixinho, sem saber se havia alguém ali:
- Oi? -minha voz ecoou leve no corredor.
Fui andando até a sala de jantar… e parei.
A mesa estava posta pra dois. Pratos bonitos. Taças de vinho já com água dentro, guardanapos dobrados de forma elegante. Aquilo não fazia sentido — não até que eu ouvi passos vindo do quarto.
E então ele apareceu.
Arrumado. Perfumado. Meio mancando, claro — o corpo ainda se recuperava —, mas de pé. Com uma camisa branca de botões que realçava o tom da pele dele e o cabelo penteado com aquela bagunça proposital que eu adorava. Ele sorriu ao me ver. Um daqueles sorrisos sinceros, sem pressa.
- Oi, amor. -ele disse, a voz baixa e suave.
Meu coração deu um pulo no peito.
Ele caminhou até mim e me deu um beijo demorado. Eu fechei os olhos. Senti o cheiro dele, o gosto dele. E, de repente, tudo ficou pesado de novo. A ausência do anel queimava. Meus olhos lacrimejaram.
Eu afastei um pouquinho e respirei fundo, tentando disfarçar. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, perguntei:
- Onde tá todo mundo?
- A Caitlin saiu, sei lá pra onde. Acho que precisava respirar um pouco. -ele explicou, colocando a mão na minha cintura.- E eu contratei mais uma babá. Elizabeth saiu com ela e com as crianças pra ensinar como funciona a rotina, ver como ela se sai… dar uma folga pra gente também.
- Você contratou mais uma? -pisquei, surpresa.
- Uhum. -ele sorriu, orgulhoso.- A gente tá precisando, né? A casa parece uma creche, e você tá exausta. Eu também. Então achei que era hora de reforçar o time.
Soltei um suspiro, tocada com o gesto.
- E isso aqui… -olhei de novo pra mesa.- tudo isso?
- Eu quis organizar um almoço pra gente. Só nós dois. Eu ainda não consigo te levar pra jantar fora como queria, mas queria te dar algo especial. Só não se ilude, tá? -ele fez uma careta engraçada.- Eu não cozinhei nada.
Eu ri e encostei a testa no peito dele, abraçando com força. O carinho, o cuidado… tudo me invadiu de uma vez. Me senti mais leve ali, nos braços dele. Quase como se o mundo tivesse ficado um pouco mais silencioso só pra eu respirar.
Mas o peso do anel ainda estava lá.
Soltei do abraço devagar, tentando manter a coragem.
- Justin… -comecei, já pronta pra contar.
Mas ele me interrompeu, sorrindo e puxando uma cadeira.
- Senta aí. Você vai gostar. Eu mesmo fui buscar. Na portaria, mas fui. -disse, galante, e eu não resisti a sorrir também, obedecendo.
Me sentei.
Ele foi até a cozinha e voltou com uma sacola enorme, de um restaurante japonês super caro de Manhattan. Meus olhos brilharam na hora. Eu amava comida japonesa — e ele sabia disso. Só aquele gesto já fazia meu coração amolecer mais um pouco.
Justin tirou cuidadosamente os recipientes da sacola, colocou tudo nos pratos com capricho e depois me serviu. Só então ele serviu o dele e se sentou à minha frente.
- Se eu não posso cozinhar… pelo menos sei pedir bem, né? -ele brincou.
Eu ri, mas com um nó na garganta.
- Você acertou em cheio.
E mesmo com o coração apertado, me deixei aproveitar aquele momento só nosso. Por enquanto.
Mas eu ainda precisava contar sobre o anel.
O almoço foi tranquilo. A gente conversou sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Rimos de umas coisas bobas, falamos sobre a Jack que agora tinha mania de dormir com uma escova de cabelo na mão, sobre a Chloe que tava viciada em um desenho novo.
Eu fui me aquecendo no clima calmo que ele criou. O coração, que antes tava batendo em alerta, foi ficando manso… mas o peso ainda tava ali.
Quando ele levou os pratos vazios de volta pra cozinha, eu quase desisti. Mas quando ele voltou e se sentou de novo, me olhando daquele jeito dele — todo carinho, todo afeto, todo Justin — eu soube que não dava mais pra engolir aquilo.
Suspirei fundo e soltei:
- Eu preciso te contar uma coisa…
Ele franziu levemente a testa, atento.
- Eu… -baixei o olhar pro meu colo.- faz uma semana que eu perdi meu anel de noivado.
A culpa veio como um soco no estômago. Me senti pequena. Fraca. Ingrata. Estúpida.
- Eu… não sei se fui roubada, se deixei cair… eu só percebi depois, e fiquei com tanto medo de te contar, porque… porque você me deu ele com tanto amor, e agora eu perdi. E eu me odeio por isso. Me odeio mesmo.
Justin ficou em silêncio. Pegou a taça de água e bebeu calmamente.
Meu coração gelou.
Mas então, com a voz firme, ele disse:
- Eu sei.
Eu pisquei.
- Você sabe?
Ele colocou a taça na mesa. Olhou nos meus olhos. E aí soltou:
- Eu peguei.
Minha cara de culpa virou espanto na hora.
- Como…?
Justin apoiou os cotovelos na mesa e respirou fundo antes de começar a falar:
- Eu pedi você em casamento dentro de um hospital, Bruna. Dentro de um quarto branco, com cheiro de álcool e pessoas doentes. Aquilo… não era o jeito certo.
Meu coração disparou, confuso, mas quieto, ouvindo.
- Você é a mulher que ficou do meu lado todos os dias enquanto eu tava desacordado, que segurou a minha mão, que suportou dores que eu nem sei calcular. Você é a mulher que tá criando uma filha que nem é sua com tanto amor que me dá vergonha às vezes de não conseguir fazer mais. Você é a mãe do meu filho. Mesmo com tudo desmoronando, você se manteve de pé, me amou, amou todos à sua volta. Você cuida de todo mundo, até quando não tem forças.
Meus olhos já estavam cheios d’água.
- Uma mulher como você não merece um pedido de casamento no hospital. Você merece mais. Muito mais.
Ele então enfiou a mão no bolso da bermuda e colocou a caixinha preta em cima da mesa, bem na minha frente. Quando abriu… lá estava o meu anel.
- Eu peguei de propósito um dia que você tirou pra tomar banho. Ia tentar planejar tudo de novo, mas… bom, eu ainda não posso andar direito, então não consegui ir muito longe com o plano. -ele riu de leve.- E também não posso me ajoelhar. Se eu ajoelhar agora, não levanto nunca mais.
Eu ri entre lágrimas, cobrindo o rosto por um segundo. Era típico dele. Transformar um momento pesado num lugar onde eu me sentia segura.
Justin pegou minha mão por cima da mesa.
E então olhou direto nos meus olhos, com aquele olhar que me desmontava desde o primeiro dia.
- Bruna Domingos Santana… você quer ser minha pro resto da sua vida? Aceita casar comigo?
Eu só consegui balançar a cabeça em meio ao choro e sorrisos. A voz não saía. Mas ele entendeu. E colocou o anel de novo no meu dedo.
No lugar de onde ele nunca devia ter saído.
Eu não conseguia parar de olhar pro meu dedo. O anel brilhava como se fosse a primeira vez. E eu me sentia… pertencente. Quieta por dentro. Pela primeira vez em dias.
Justin ainda segurava minha mão, os polegares acariciando de leve minha pele. A outra mão dele apoiada na mesa, firme. Ele me observava com aquele meio sorriso bobo no rosto.
- Você tá chorando ou rindo? -ele perguntou, com aquela voz grave e doce que só ele tem.
- Os dois. -soltei uma risadinha entre as lágrimas.- Eu achei que você ia ficar bravo. Que ia achar que eu não ligava pro anel, ou pro pedido, ou…
Ele se inclinou e me interrompeu com um beijo rápido e calmo nos meus lábios.
- Eu sei que você liga. E eu também. Mas o mais importante… é isso aqui. -ele tocou o centro do meu peito com dois dedos.- E isso. -tocou o próprio peito.- E isso. -e então, pegou minha mão e a colocou entre nós dois.
Eu sorri de novo, respirando fundo. Como era possível amar tanto alguém?
- Vem cá. -ele disse, se levantando devagar, com uma leve mancada, mas com aquele jeito decidido dele.
Me levantei também, e ele me puxou pra um abraço apertado. Fiquei com o rosto encostado no peito dele, ouvindo o coração dele bater, sentindo o perfume bom da pele, o calor, a segurança. Eu queria congelar aquele instante.
- Eu queria te levar pra dançar. -ele disse no meu ouvido.- Mas eu ainda não tô pronto pra te dar esse luxo. Então... -ele pegou o celular do bolso, deu alguns toques e logo uma música suave começou a tocar no som da sala.
Era "Unchained Melody", de The Righteous Brothers.
Eu sorri, emocionada de novo.
- É a música da minha mãe com meu pai. -comentei baixinho.
- Eu sei. Eu lembro quando você me contou. -ele me puxou mais pra perto.- E agora ela vai ser a nossa também.
Coloquei meus braços em volta do pescoço dele, com cuidado, e começamos a balançar lentamente ali, no meio da sala, como dois adolescentes num baile improvisado.
Ele colocou a testa na minha, e eu fechei os olhos.
Ali não existia caos, nem problema, nem dor. Só a batida da música, o cheiro dele, as mãos dele no meu corpo e o som da nossa respiração.
- A gente vai conseguir, né? -perguntei, como quem precisava de uma âncora.
- Já estamos conseguindo. -ele respondeu.- E agora você tá oficialmente prometida pra mim de novo, então não tem mais volta.
Eu ri, fungando o nariz no ombro dele.
- Eu te amo, Justin.
- Eu te amo mais, Bruna. E eu vou passar o resto da minha vida te provando isso.
Ficamos dançando até a música acabar. Depois que a música acabou, continuamos ali abraçados, em silêncio, no meio da sala.
A luz natural entrava suavemente pelas janelas, iluminando o chão de madeira e deixando o ambiente com aquele tom dourado de filme. Eu me afastei só um pouco, o suficiente pra olhar nos olhos dele.
- Você consegue ir ao quarto comigo? -perguntei, minha voz baixa, quase um sussurro.
Justin assentiu com um sorriso suave, ainda com a mão entrelaçada à minha.
- Por você, eu subo até o céu agora.
Fomos devagar até o nosso quarto. A cada passo, meu coração acelerava. Não por nervoso, mas por antecipação. Aquele momento era mais do que desejo físico — era sobre reconexão. Sobre respiro. Sobre amor.
Assim que entramos no quarto, ele fechou a porta atrás de si e me puxou com delicadeza. Nossos lábios se encontraram, e foi como se o tempo parasse. O beijo começou calmo, lento, como quem quer aproveitar cada segundo, cada toque. As mãos dele seguravam meu rosto com cuidado, como se eu fosse algo raro.
- Senti tanto sua falta assim. -ele murmurou, com os lábios ainda encostados nos meus.
- Eu também… -respondi, deslizando as mãos por baixo da camisa dele.- Tô aqui. Inteira sua.
Justin me beijava como se o tempo tivesse parado. Não havia mais som de cidade, nem relógio correndo. Era só o calor da boca dele na minha, o toque firme porém cuidadoso de suas mãos, e aquele suspiro preso entre um beijo e outro que parecia dizer tudo o que a gente ainda não tinha dito.
Nos separamos só por um segundo, com as testas encostadas, nossas respirações ofegantes e sincronizadas.
Ele sorriu, e me puxou em direção até a cama, ele se sentou primeiro, puxando minha mão com delicadeza. Me acomodei no colo dele, com as pernas de cada lado de sua cintura, e ficamos apenas nos olhando por um instante. As mãos dele acariciaram minha cintura por cima da blusa, como se ele estivesse tentando reaprender cada pedaço de mim. Como se redescobrisse o corpo da mulher que amava — e que, depois de um ano e meio, estava ali de novo, entregue, sua.
Fui tirando a blusa devagar, revelando minha pele, minhas novas curvas, minhas marcas. Justin não tirou os olhos de mim em nenhum momento. Não com luxúria imediata, mas com reverência.
- Você é perfeita. -ele disse com a voz embargada.- Cada parte de você. Cada mudança… cada detalhe. Eu tô redescobrindo tudo e… Deus, como eu senti saudade de você.
- Eu também senti… -respondi, com os olhos nos dele, me inclinando para beijá-lo com mais profundidade. Um beijo doce, mas também carregado de desejo contido por tanto tempo.
Eu o ajudei a tirar a camisa, com cuidado para não forçar nenhum movimento dele. Os músculos estavam um pouco mais finos, cicatrizes leves marcavam os ombros, mas o corpo de Justin continuava sendo o meu lar. A minha casa.
Me levantei e tirei o restante da minha roupa, ele conseguiu fazer o mesmo com as dele e eu voltei a posição inicial.
Ele deitou devagar, guiado por mim, e eu fui junto, encaixada, acomodada sobre seu peito. Beijei cada pedacinho da pele dele: o ombro, o pescoço, a clavícula. Senti ele estremecer sob mim, os dedos segurando firme minha cintura.
- Vai com calma, amor… -ele murmurou, entre um suspiro e outro.
- Eu tô aqui. A gente vai no seu tempo. No nosso tempo.
Beijei sua boca de novo, depois desci lentamente, alternando toques e carinhos, fazendo questão de mostrar que cada gesto meu era amor, desejo e entrega.
Quando finalmente o acolhi dentro de mim, com toda a suavidade que aquele momento merecia, um gemido baixo escapou dos lábios dele. Fechei os olhos, sentindo nossos corpos se encaixarem com uma familiaridade antiga e, ao mesmo tempo, nova. Um arrepio subiu pela minha espinha — um misto de prazer, emoção e saudade.
Nos movíamos devagar, respeitando os limites dele, os meus, os nossos. Nossos olhares se mantinham presos um no outro, e era como se disséssemos mil coisas sem falar uma única palavra.
As mãos de Justin deslizavam pelas minhas costas nuas, pelas laterais do meu corpo. Às vezes apertavam com mais firmeza, outras com delicadeza extrema, como se quisesse memorizar minha pele na ponta dos dedos.
- Eu te amo. -ele disse, com a voz embargada, segurando meu rosto entre as mãos.- Obrigado por não desistir de mim. Obrigado por estar aqui.
- Sempre estive… sempre vou estar.
As palavras se perderam entre mais beijos, mais carícias, mais suspiros abafados. O prazer veio em ondas suaves, mas intensas, até que fomos juntos, com um gemido abafado no pescoço um do outro, nos desfazendo em pedaços só pra nos reconstruirmos ali, entre os lençóis, entre o amor e a sobrevivência.
Ficamos abraçados depois, nossos corpos colados, corações ainda acelerados. Justin passou os dedos pelos meus cabelos, acariciando em silêncio.
- A gente ainda tem muito pra viver. -ele sussurrou.
- E vamos viver tudo. Um passo de cada vez. No nosso tempo. -respondi, beijando suavemente o peito dele, bem onde batia seu coração.
Os dedos dele traçavam linhas invisíveis nas minhas costas, meu ouvido colado no peito dele, ouvindo o compasso desacelerado do coração que eu tanto amava. A luz que entrava pelas janelas dava ao quarto uma tonalidade quente, meio dourada, como se o mundo soubesse que a gente precisava de um pouco de paz.
- Fazia quanto tempo? -ele perguntou, num tom suave, quase como se estivesse se perguntando também.
Suspirei contra o peito dele.
- Um ano e meio. A última vez foi… aquela noite. Antes da gente terminar de vez. Antes de tudo virar de cabeça pra baixo.
Justin me apertou um pouco mais contra ele, e mesmo com o corpo limitado, não poupou esforço. Era como se estivesse tentando compensar o tempo perdido com o abraço.
- Não pareceu como se a gente tivesse retomado de onde parou. -ele murmurou.- Parece que começamos de novo. E foi melhor assim.
Eu assenti, os olhos fechados, sentindo uma lágrima escorrer pelo canto do rosto.
- Eu precisava disso. Precisava me lembrar que a gente ainda existe. Que ainda é real.
Ele virou o rosto e me beijou no topo da cabeça.
- É real, Bruna. Mais do que nunca. E agora eu quero fazer direito. Quero te dar tudo que você merece.
Ficamos mais alguns minutos assim, quietos. De vez em quando ele me beijava, ou eu sorria sozinha lembrando de alguma parte daquele reencontro. Até que ele quebrou o silêncio:
- Me promete uma coisa?
- Hm?
- Me promete que, da próxima vez que perder alguma coisa… seja o que for… vai me contar. Não vai carregar sozinha. Nem peso, nem culpa, nem preocupação. Eu vi como você ficou quando pensou ter perdido seu anel de noivado, não quero que se sinta mais assim.
Ergui o rosto pra encarar ele, e aquele olhar castanho quase cor de mel me prendeu imediatamente.
- Prometo. E você me promete que, da próxima vez que quiser me pedir em casamento, vai fazer de novo?
Ele riu baixinho, e a risada dele preencheu o quarto de um jeito tão bonito que eu sorri junto.
- Eu posso te pedir de novo amanhã, se quiser. E depois de amanhã. E depois também. Até o dia do nosso casamento.
- Tá bom. Mas só até maio do ano que vem. Depois disso você vai ser meu marido oficialmente.
- Mal posso esperar por isso, noiva.
Ele me puxou de novo pra perto, beijando meu ombro exposto, e senti meu coração bater forte no peito. Quando Justin, com aquele tom sereno dele, começou a falar baixinho, como se estivesse desenhando um plano com todo cuidado do mundo.
- Eu sei que o último mês tem sido pesado pra você, Bru. Eu vejo… eu sinto. Por mais que tente esconder, seu cansaço grita. E eu não quero mais ver você assim, sobrecarregada, apagando o próprio brilho pra manter todo mundo bem.
Eu olhei pra ele, sentindo o coração se apertar com aquelas palavras. Ele não estava me julgando. Estava me acolhendo.
- Então eu pensei numa ideia. Uma rotina, sabe? -ele continuou.- Durante a semana, você vai focar só na faculdade. Estudar, fazer seus trabalhos, criar seus croquis, tudo até às cinco da tarde. Depois disso, esquece as obrigações. A partir das 17h, você vai estar com a gente. Comigo, com o Jack, com a Chloe. Só curtindo a família. Sem culpa. Sem peso.
Eu abri um sorriso pequeno, ouvindo ele continuar com tanto cuidado.
- Nos finais de semana, a gente foca 100% na nossa família. A gente pode visitar minha mãe, ir ver a Marina, se você quiser, meu pai também... e se no sábado você quiser sair com alguma amiga, ir ao shopping, tomar um café, vai. Sem culpa. Mas no domingo, é sagrado: só nós quatro. Vamos sair pra passear no parque, fazer piquenique, deixar as crianças curtirem a natureza. A gente precisa disso.
Eu não consegui segurar o riso e falei entre uma risadinha:
- Não sabia que você tinha virado meu Personal Assistant agora…
Ele riu também, com aquele brilho divertido nos olhos.
- Ué, sou seu noivo. Tô investindo no meu patrimônio emocional. -piscou pra mim, me fazendo rir ainda mais.- Mas é sério, Bruna. Você precisa de tempo pra você. Eu nem vejo mais você indo à academia como antes. Você adorava treinar, se movimentar, cuidar de si. Agora tá sempre preocupada com tudo e todos. Você se apagou. E eu não quero mais ver isso acontecer.
Fiquei em silêncio por um instante, absorvendo cada palavra. Porque ele estava certo. Eu estava me colocando por último em tudo. E agora, ouvindo tudo isso, eu senti como se alguém finalmente estivesse cuidando de mim. Olhando por mim.
- Eu concordo. -sussurrei, com um meio sorriso cansado.- Eu preciso de tudo isso. De mim mesma, de vocês. De leveza. E também preciso de tempo pra organizar nosso casamento.
- Então vamos fazer funcionar. -ele disse, apertando minha mão.- Juntos.
Eu assenti, com os olhos marejados. Pela primeira vez em semanas, eu senti que podia respirar de novo. Que tudo, aos poucos, poderia voltar a fazer sentido.