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Capítulo 95

Luan Narrando

Eu estava radiante. Não tinha outra palavra. Radiante por ter minha Marina de volta nos meus braços, por poder deitar minha cabeça na barriga dela e conversar com a nossa Serena que logo chegaria pra completar essa alegria que transbordava em mim.

Era como respirar fundo depois de anos segurando o ar.

Aquela tarde em Matinhos tava linda. O sol caía devagar no mar, pintando o céu de laranja e rosa, e a areia tava cheia de gente pra me ver cantar. Sunset na praia sempre tinha uma energia diferente — mas dessa vez era especial. Dessa vez eu sentia que era mais que um show: era minha vida se ajeitando de novo bem diante dos meus olhos.

No meio do set, pedi um gole d’água, tirei o chapéu e deixei a brisa bagunçar meu cabelo. Peguei o violão e me aproximei do microfone, sorrindo de canto, porque eu já sabia o que ia dizer — tava ensaiando isso desde que Marina disse “sim” pra nós de novo.

- Tem uns amores… -comecei, deixando a voz ecoar suave pelos alto-falantes.- Uns amores que a gente acha que é só um capítulo, mas no fundo é o livro inteiro. Uns amores que a gente até tenta esquecer, tenta seguir em frente, começa histórias novas… mas eles ficam ali. Morando dentro da gente. Esperando a hora certa de recomeçar.

A plateia ficou quieta, só aquele barulhinho de onda e vento se misturando às minhas palavras.

- E tá tudo bem. Tá tudo bem recomeçar. Tá tudo bem ter medo e mesmo assim abrir o peito e tentar de novo. -dei um sorriso emocionado.- Porque quando é pra ser, quando é amor de verdade… o tempo não apaga. Ele só amadurece.

A galera aplaudiu baixinho, alguns gritaram meu nome. Eu respirei fundo, sentindo meus olhos queimarem um pouco.

- Eu escrevi uma nova versão de uma música muito importante pra mim. Porque a vida mudou, eu mudei, e hoje ela faz ainda mais sentido pra mim.

A banda entrou no tom comigo, suave, e no telão atrás de mim começaram a surgir fotos minhas e da Marina — uma mais linda que a outra. Nós dois abraçados, de mãos dadas, eu com a mão na barriga dela e um sorriso bobo no rosto dela… A galera começou a perceber e os gritos aumentaram.

E então eu comecei:

- Quando alguém te enche de coragem pra seguir
A busca interminável termina em um sorrir
E o que era cinza frio o amor coloriu
De um jeito assim, tão simples

Quando há dois caminhos e a escolha é toda sua
Talvez nós perderemos numa esquina ou numa rua
Mas no final da estrada, numa madrugada, vou te roubar pra mim

Quando o amor invade não podemos perder tempo
Quero nossos filhos, vê-los crescendo
10, 20, 30 anos vão se passar e eu vou ter aprendido tanto
Um dia sentaremos bem de frente ao oceano
Vamos rir de uma cara que chamava Fernando
Vai ser só nós dois e o que vem depois
Não tô nem aí o que eu preciso eu tenho aqui

Sou seu cantor
Minha música toca e o mundo se enche de cor
Te esperei me tornei sua casa e você se apossou
O lugar que é seu, te prometo, ninguém mais morou
E se o mundo acabar num segundo
Eu quero estar te amando...

Quando terminei, o público tava de pé, gritando, aplaudindo, alguns chorando, outros apontando pras fotos no telão e filmando tudo.

E eu? Eu sorria. Um sorriso tão largo que mal cabia no meu rosto, com os olhos brilhando e a certeza no peito: eu e a minha Marina tínhamos vencido.

Esse era o nosso anúncio. Nosso jeito de dizer pro mundo inteiro que a gente se escolhia de novo. E de novo. E quantas vezes fosse preciso.

Eu ergui o violão e agradeci o público.

Após o show, peguei meu jatinho e fui pra São Paulo, na casa dos meus pais.

Já era tarde da noite e eu tava ali, na cozinha, sentado à mesa com uma caneca de café fumegante entre as mãos. A viagem pra Nova York era no dia seguinte, mas a cabeça já tava lá. Já tava nelas.

Marina e Serena.

Meus pais estavam acordados ainda, minha mãe secando a louça devagar no balcão enquanto meu pai lia o jornal deitado no sofá. Ela me olhava de canto, com aquele jeito de mãe que sabe quando você não tá completamente bem.

- Você tá ansioso, né? -ela comentou, largando o pano e vindo sentar na minha frente.- Tá estampado na sua cara, filho.

Dei um sorriso de lado, meio sem graça.

- É… ansioso, nervoso… sei lá. Um monte de coisa junta.

- Natural. -disse meu pai, sem tirar os olhos do jornal.- Vai ser pai, ora. Nada mais normal do que sentir isso.

- Não é só isso. -confessei, esfregando a nuca.- É a Marina também. A gente… voltou, mas… tem dias que eu ainda sinto que ela não tem certeza, sabe? Eu tô tentando fazer tudo certo dessa vez, mas… parece que tô sempre um passo atrás.

Minha mãe pousou a mão na minha, firme.

- Filho… é porque ela já se machucou antes. Não dá pra esperar que ela confie cem por cento logo de cara. Mas, olha, você já tá mostrando pra ela que tá disposto. E ela vai ver. No tempo dela, mas vai ver.

Assenti, engolindo em seco.

- Eu sei. Por isso que… eu reformei o apartamento em Nova York, pra gente. Eu comprei só pra mim, mas aí… achei que seria um jeito de provar que eu tô pensando nela, na Serena… em nós três.

Minha mãe sorriu, orgulhosa.

- Que bonito, meu filho.

Meu pai largou o jornal e olhou pra mim por cima dos óculos, com aquele tom sério, mas bem-humorado:

- Você já tá no caminho certo só por pensar assim. Só não esquece que filho não vem com manual, viu? Você vai errar, vai acertar… o que importa é ser presente. E isso você já tá sendo.

Minha mãe riu baixinho e completou:

- Se você acha que vai ser difícil cuidar de uma só, imagina se fosse dois de uma vez. -ela revirou os olhos, divertida.- Eu e seu pai quase enlouquecemos com você e a Bruna no começo. Um chorava de um lado, outro fazia bagunça do outro. Às vezes eu achava que não ia dar conta.

Não contive uma risada.

- E deu. -brinquei.

Ela sorriu com ternura, me dando um tapinha na mão.

- Claro que deu. A gente sempre dá um jeito quando ama.

Meu pai assentiu, se levantando e me dando um leve soco no ombro quando passou por mim.

- E você já ama essa menina, Luan. E a filha que ela carrega. Então vai dar conta também.

Fiquei ali parado por alguns segundos depois que eles saíram da cozinha, só olhando pro vapor que subia do meu café. E, naquele momento, eu senti meu peito se encher de uma calma estranha.

Porque era verdade.
Eu já amava a Serena antes mesmo de vê-la. E já amava a mãe dela com tudo em mim.

Então eu ia dar conta.
Por elas duas, eu ia dar conta.

Peguei meu celular, fazia horas que não mexia. Estava largado ali na mesinha da sala, vibrando sem parar com notificações.

Desbloqueei a tela e logo dei de cara com os sites de fofoca bombando com as fotos da Marina e da Bruna juntas em Nova York. Até me surpreendi. As duas na porta de um prédio, Marina com aquele humor gravídico, visivelmente irritada, brigando com os paparazzi como se fosse leoa defendendo a cria, enquanto Bruna parecia mais acuada, mas com a cabeça erguida, como se finalmente respirasse depois de meses sendo atacada.

Rolei a matéria e vi mais fotos, uma delas até com a Marina mostrando o dedo do meio pros fotógrafos. Não segurei um sorriso de lado. Essa era a minha Marina mesmo.

E, por mais inusitado que fosse ver aquelas duas dividindo o mesmo enquadramento de novo, eu não conseguia sentir nada além de alívio.

Porque, no fundo, eu também precisava admitir que fiquei feliz que a Marina e a Bruna tivessem feito as pazes.

Não foi fácil pra mim perdoar a Bruna por tudo. E eu demorei. 

Mas… ela era minha única irmã. Minha gêmea ainda por cima.

A gente dividiu o mesmo DNA, o mesmo útero, o mesmo berço, os mesmos tombos da infância, os mesmos sonhos da adolescência. Como é que eu ia conseguir passar a vida inteira ignorando isso?

No fim do dia, eu precisava perdoá-la.

Porque, mesmo quando ela erra, ela ainda é a Bruna. A minha irmã.

E, vendo aquela cena estampada em todos os portais, não tinha como não me sentir orgulhoso de ver as duas ali, lado a lado, tentando fazer as coisas darem certo de novo.

De repente, a tela do celular acendeu com uma nova notificação. Uma mensagem do Daniel Carter, meu empresário.

“Luan, preciso falar com você amanhã no escritório. É importante.”

Arqueei a sobrancelha, lendo aquela frase seca umas três vezes antes de digitar a resposta:

“Claro, eu vou chegar aí depois das 14h, me diz só o horário que você prefere.”

A resposta veio quase instantânea:

“Pode vir direto. Não precisa passar por ninguém na recepção, já peço pra te levarem direto pra minha sala. É sério, tá? Até amanhã.”

Ótimo.

Suspirei fundo, largando o celular no peito e me afundando no sofá. Ótimo mesmo. Agora eu não vou dormir essa noite pensando no que diabos o Daniel Carter tem de tão sério pra falar comigo.

Ele não era o tipo de cara que usava a palavra “sério” à toa. Quando queria falar de campanha nova, de contrato pra show, de merchandising, ele só marcava uma reunião normal. Mas quando ele avisava que era sério, podia apostar que vinha bomba.

Revirei os olhos sozinho, apoiando a mão na nuca.

- Ótimo, Luan… já não tem suficiente na cabeça, agora mais isso. -murmurei pra mim mesmo, rindo sem humor.

Fechei os olhos, tentando ignorar a ansiedade que já começava a martelar no peito. Amanhã. Amanhã eu descobriria qual era a nova dor de cabeça.

Só que, até lá, eu já sabia: meu sono já era.

Peguei o jatinho no hangar às cinco e meia da manhã, ainda com os olhos pesados por não ter dormido direito, remoendo mil pensamentos desde a mensagem do Daniel. As nove horas e quarenta de voo foram longas, mas a verdade é que eu não consegui pregar o olho nem ali. Fiquei olhando pro nada, revendo mentalmente tudo o que podia ter feito de errado pra justificar aquele tom seco dele.

Quando o avião pousou em Nova York já eram quase duas da tarde — por causa do fuso horário, uma hora a menos.

Nem tive coragem de mandar mensagem pra Marina avisando que eu tinha chegado. Não queria misturar ainda mais os sentimentos dela com os meus nervos à flor da pele. Peguei um carro direto pro escritório do Daniel, sentindo o estômago embrulhar mais a cada quarteirão.

Quando a secretária me viu chegar, só assentiu e abriu a porta pra que eu entrasse. O próprio Daniel estava sentado atrás da mesa, blazer impecável, óculos apoiados no nariz, analisando alguns papéis. Assim que me viu, levantou o olhar e fechou a pasta.

- Luan. -ele disse num tom formal, quase frio.- Obrigado por ter vindo tão rápido.

- Claro. -respondi, tentando soar calmo, mas já sentindo o nó na garganta.- Você falou que era sério…

Ele respirou fundo, ajeitou a gravata e foi direto ao ponto:

- Eu vou precisar encerrar o contrato que tenho com você.

Fiquei parado um segundo, sem processar direito, antes de soltar, num tom incrédulo:

- Como é?

Ele encarou meus olhos, firme, e repetiu:

- Eu vou precisar encerrar o contrato com você, Luan.

Um silêncio pesado caiu na sala. Eu dei uma risada nervosa, passando a mão pela nuca.

- Tá… mas por quê? Do nada?

Minha voz saiu mais dura do que eu pretendia, mas eu não podia simplesmente aceitar isso como se fosse normal. Ele, que vinha me acompanhando há um tempo, que me ajudou a construir cada etapa dessa carreira… por que agora?

Daniel apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçou os dedos e suspirou.

- Não é do nada. Eu só… não consigo mais conciliar os rumos que você quer dar pra sua carreira com a forma que eu trabalho. E, além disso, -ele hesitou por um segundo antes de continuar.- há pressões externas acontecendo, coisas que você talvez ainda não tenha notado, mas que já estão respingando na sua imagem.

Franzi o cenho, sentindo meu peito esquentar.

- Pressões externas? Que diabos isso quer dizer?

Ele respirou fundo outra vez, como se já soubesse que eu reagiria assim.

- Quer dizer que tem gente no mercado, gente poderosa, que não quer mais trabalhar com você por conta das… polêmicas. Da forma como você lidou com algumas coisas no Brasil, da forma como a história com a senhorita Bieber e com a imprensa foi exposta. Isso, pra muita gente, passou a ser um “risco” comercial. E eu… sinceramente, eu não tô disposto a brigar contra isso sozinho.

Fiquei quieto por um segundo, tentando absorver cada palavra. Era como se tudo dentro de mim estivesse fervendo, mas ao mesmo tempo gelado.

- Então é isso? -perguntei, a voz baixa.- Você tá me deixando na mão porque eu virei um “risco”?

Daniel desviou o olhar, mas não respondeu de imediato. E eu fiquei ali, de pé, encarando-o, sentindo que toda a confiança que eu tinha nele desmoronava a cada segundo.

- Eu não sou o risco, Daniel. -continuei, a voz embargando, mas firme.- Eu sou o artista que você ajudou a construir. E eu ainda tenho muito pra oferecer.

Ele apenas suspirou de novo, como quem não tinha mais nada a dizer.

E eu senti minha garganta fechar ainda mais, mas me recusei a deixar que ele visse qualquer lágrima escorrer.

- Tudo bem. -falei, enfim, engolindo seco.- Se é isso que você quer, ótimo. Mas eu vou provar que quem tá errado não sou eu.

- Olha, Luan, quando o Braun falou de você pra mim… -ele começou, a voz baixa, quase nostálgica- eu tinha muita expectativa de que você fosse diferente. Que fosse mais… disciplinado. Que fosse mais fácil de lidar.

Eu franzi o cenho, confuso.

- Braun? -interrompi, surpreso, encarando ele como se não tivesse ouvido direito.- Como assim… o Braun?

Ele ergueu o olhar pra mim, e um leve sorriso cínico puxou o canto da boca dele.

- É. Scooter Braun. Quem você achou que era?

Meu estômago gelou na hora, um frio estranho percorrendo meu corpo inteiro. Eu fiquei mudo por um momento, processando.

- Não… -balbuciei, mais pra mim mesmo do que pra ele.- eu sempre achei que… que era um professor meu da faculdade. Ele… ele disse…

Daniel soltou uma risadinha curta e sem humor, me interrompendo.

- Não, Luan. Nenhum professor seu mandou nada pra ninguém. Foi o Scooter. Ele me mandou um video seu, e me disse: “Esse garoto tem algo especial.”

Meu coração deu um tranco tão forte que eu me sentei na cadeira, sentindo a indignação crescer como fogo dentro do peito. A respiração ficou pesada e eu encarei Daniel com os olhos arregalados.

- Então você tá me dizendo que… -falei devagar, engolindo em seco, tentando segurar a raiva.- que a minha carreira… tudo o que eu construí até aqui… só existe porque o Justin Bieber decidiu falar de mim pro empresário dele… que por sua vez falou de mim pra você?

Daniel sustentou meu olhar por um instante, e depois desviou para a mesa, ajeitando um papel qualquer. Não disse nada.

E aquele silêncio foi pior do que qualquer resposta.

Eu senti um nó no estômago, os punhos cerrados, uma sensação de humilhação queimando por dentro. O peito subia e descia com a respiração acelerada enquanto a ficha caía.

Era isso. Era por isso que, por mais que eu me esforçasse, eles sempre me olhavam como se eu fosse só “o projeto” de alguém. Como se eu não tivesse chegado lá por mim mesmo.

E agora eu entendia.

O Justin tinha feito isso comigo. E nem sequer teve a decência de me contar.

Me levantei, sem falar mais nada. O Daniel nem tentou me parar, só continuou mexendo nos papéis dele como se eu já não fosse mais problema dele. A raiva subia pelo meu corpo como fogo. Eu saí dali cego, puto, o coração batendo tão forte que doía no peito.

Não acredito que o Justin tinha feito isso comigo.

O que ele pensou, hein? Que eu não era capaz? Que eu nunca ia chegar onde cheguei com minhas próprias pernas? Que precisava da caridade dele pra alguém me notar?

Chamei um táxi do lado de fora, batendo a porta com força quando entrei. Pedi direto pro hotel onde a Marina tava hospedada. Durante o caminho, eu não consegui parar de me perguntar: será que ela sabia? Será que ela ajudou nisso? Será que ela também não acreditava que eu era bom o bastante?

Quando o carro finalmente parou na frente do hotel, paguei a corrida e fui pra dentro sem nem olhar pros lados. Eu já conhecia o número do quarto, já tinha acesso liberado na recepção. Passei reto pelos recepcionistas com a mandíbula cerrada, ignorando os olhares educados.

Entrei no elevador e respirei fundo, tentando conter a raiva. Mas a verdade é que eu tava magoado. Ferido. Humilhado, até. E tudo isso vinha misturado com uma vontade enorme de encarar a Marina e perguntar se ela tinha sido cúmplice disso.

Quando a porta do elevador abriu, andei pelo corredor e parei na frente do quarto dela.

A chave magnética destravou a porta com um bip, e eu entrei devagar.

A luz do quarto tava baixa, a cortina entreaberta deixava um feixe de luz entrar, iluminando o rosto dela. Marina tava deitada na cama, encolhidinha debaixo das cobertas, com as mãos apoiadas na barriga. Ela cochilava, calma, e a TV no fundo passava algum filme bobo de comédia romântica. Um daqueles que ela adorava assistir, mas nunca admitia pra ninguém.

Por um instante, toda a raiva pareceu dar lugar a um aperto no peito. Porque mesmo dormindo, com aquela expressão tranquila, ela era a única coisa que me fazia sentir inteiro.

Mas ainda assim, não podia ignorar o que eu tinha acabado de descobrir.

Será que ela sabia?

Ela despertou de repente, assustada com algum sonho, talvez. Se ergueu um pouco na cama, piscando várias vezes pra focar os olhos em mim.

- Luan? -murmurou, com a voz rouca de sono.- Que susto, menino! -ela, com aquele sorrisinho debochado que só ela tinha, completou:- Tá igual o Edward agora, né? Invadindo o quarto da Bella pra ficar vendo ela dormir… que creepy.

Normalmente eu revidaria a piada, mas dessa vez eu só fiquei parado ali, encarando ela, sentindo meus olhos queimarem por dentro. Eu tava à beira de transbordar e não conseguia esconder.

O sorriso dela sumiu na hora. Ela se ajeitou na cama, desligou a TV com um clique no controle e me olhou séria, com aquela preocupação nos olhos castanhos.

- Luan… o que foi? -perguntou baixinho, medindo cada palavra.- O que aconteceu?

Eu respirei fundo, tentando organizar meus pensamentos, mas a mágoa embolava tudo dentro de mim. Caminhei devagar até a beirada da cama e sentei, sentindo minhas mãos tremerem.

E então, finalmente, minha voz saiu, rouca:

- Marina… -eu a encarei, fundo, sem nem piscar.- Você sabia?

Ela franziu as sobrancelhas, confusa.

- Saber… o quê? -disse, quase num sussurro.

- Que a minha carreira… -engoli em seco, sentindo a garganta fechar.-… que o Daniel só me contratou porque o Justin… o Justin mandou um vídeo meu pro empresário dele e pediu pra me ajudarem? 

Minha voz falhou no final. E eu só consegui continuar olhando pra ela, esperando qualquer sinal de verdade ou mentira naquele olhar.

Ela se ergueu da cama devagar, apoiando a mão na barriga, com aquela dificuldade natural de quem já carregava quase oito meses de gravidez. Mas o olhar dela… o olhar dela era afiado, indignado, como eu nunca tinha visto antes.

E eu não consegui mais segurar. As lágrimas, teimosas, caíam contra a minha vontade, cada uma queimando minha bochecha, enquanto eu continuava ali sentado, com as mãos entrelaçadas, como se tentasse me segurar em mim mesmo.

Marina se aproximou, respirando fundo, me olhando de cima, como se tentasse adivinhar cada pensamento meu só pelo meu rosto. Dessa vez eu não ia falar nada — eu ia ouvir. Eu precisava ouvir. E eu precisava olhar pra ela pra ver se encontrava uma mentira escondida em algum canto do olhar dela.

Ela parou bem na minha frente, apoiou a mão na beirada da cama e soltou num tom firme, mas com a voz trêmula de emoção:

- Não. Não, Luan. Eu juro que não. -ela balançou a cabeça, encarando meus olhos molhados.- Eu lembro, sim, que naquela época, quando a gente começou a namorar, o Justin me pediu o vídeo do teu clipe. E eu… eu te pedi, e você me mandou. Mas ele nunca me disse o motivo, eu achei que era só curiosidade mesmo. Nunca imaginei que fosse por isso, juro por Deus, Luan. -os olhos dela também marejaram, mas ela se manteve firme.- Eu tinha até esquecido disso, acredita? Mas eu não sabia. Eu não esperava que o Justin tivesse feito isso. Nunca.

Eu segui encarando ela, tentando procurar uma mentira, um vacilo no olhar, um tom diferente. Mas não encontrei nada além de verdade. Pura e cruel verdade.

E foi aí que eu desabei. Eu não aguentava mais. O peso nas minhas costas, aquela sensação de não ser bom o bastante por mim mesmo, de ter sido um “favor” de alguém. Eu odiava me sentir assim. Eu odiava chorar na frente dela. Eu odiava me sentir vulnerável. Mas eu tava me sentindo pior que lixo naquele momento.

Baixei a cabeça e deixei que as lágrimas caíssem de vez. Não consegui segurar nem por mais um segundo.

E então eu senti.

Os braços dela me envolvendo, mesmo com aquela barriga enorme entre nós. O rosto dela se apoiando no topo da minha cabeça, as mãos afagando minhas costas devagar enquanto ela repetia baixinho:

- Meu amor… não fica assim, por favor. Eu tô aqui, Luan. Você é tudo pra mim. Não precisa se sentir assim.

Fechei os olhos, apertei os braços ao redor dela e deixei que ela me segurasse enquanto eu tentava encontrar um motivo pra me sentir digno. 

Eu não conseguia segurar mais nada, estava desmoronando feito criança. Marina, de pé na minha frente, segurava meu rosto com as duas mãos, me obrigando a olhar pra ela mesmo com meus olhos vermelhos, marejados e minha vergonha estampada na cara.

- Olha pra mim, Luan Rafael… olha pra mim. -ela pediu de novo, firme, me encarando profundamente.

Eu respirei fundo, fungando, e levantei o olhar, mesmo com ele embaçado de choro. Ela parecia ainda mais linda assim, toda preocupada comigo.

- Você não tem que se sentir assim, amor. -começou, a voz calma mas cheia de firmeza.- O Justin pode até ter dado um empurrão pra você lá atrás, mas você acha mesmo que ele pensou que você não era capaz sozinho? Não, Luan… Ele viu o que todo mundo sempre viu em você. O talento, a luz, a dedicação absurda que você tem por isso.

Ela deslizou o polegar pelas minhas bochechas, secando algumas lágrimas que ainda teimavam em cair.

- A sua carreira só existe por sua causa, só sua. Porque você canta, você encanta, por onde você passa. Porque você conquistou fãs no mundo todo com seu esforço, sua entrega, sua verdade. Você é alguém por mérito seu, amor. -sua voz embargou, mas ela manteve a postura.- Tem gente que assina contrato com empresário grande e some porque não tem talento pra sustentar. Mas você não. Você é diferente. Sempre foi.

Eu fechei os olhos por um instante, respirando fundo, tentando absorver cada palavra dela. O peso no meu peito começava a diminuir, como se cada frase fosse tirando um tijolo dali.

Então ela sorriu leve, de canto, e completou:

- E… eu sempre acreditei em você, Luan. Sempre. Eu jamais daria um pai bosta pra Serena.

Aquilo me arrancou um riso sincero, mesmo com a garganta apertada. Eu soltei um suspiro trêmulo e sorri de volta pra ela, com uma pontinha de humor ainda queimando lá dentro.

- Um pai bosta, é? -murmurei, arqueando a sobrancelha, rindo fraco.- Você sabe mesmo como levantar a moral de um homem, hein…

Ela riu também, mas manteve o olhar firme no meu. Então, sem pensar duas vezes, deixei escapar:

- Pena você não querer casar comigo… -e dei um sorrisinho de lado, deixando transparecer um pouco de leveza no meio do caos.- Eu casaria com você agora.

Ela riu de leve, surpresa com a minha fala, mas os olhos dela brilharam, emocionados, cúmplices. E eu respirei fundo outra vez, segurando as mãos dela entre as minhas e encostando a testa na dela.

- Obrigado por estar aqui comigo, Marina. Por não desistir de mim… por me lembrar de quem eu sou quando eu esqueço.

Ela me abraçou apertado, um abraço longo, quente, acolhedor.

- Sempre vou estar aqui, meu amor. Sempre.

E ali, eu percebi que mesmo com tudo caindo ao redor… enquanto eu tivesse Marina comigo, eu nunca estaria realmente sozinho.

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