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Capítulo 96

Justin Narrando 

Eu estava de volta ao Canadá, a uns quarenta minutos de Toronto. Fazia tempo que não pisava por aqui — mais de um ano, na verdade — mas a lembrança ainda era fresca na minha mente. Da última vez, vim com minha mãe e com o Charlie, a gente passou a virada de ano pra 2025 juntos. Foram dias bons… reencontrei o Chaz, o Chris, até a Caitlin. A gente riu, matou saudade, foi leve. Depois disso, acabei trocando de número e nunca mais falei com eles. Não por mal, só… a vida foi passando.

Essa noite eu subi no palco como sempre, com aquele frio na barriga que nunca vai embora. E cara… como foi bom ouvir aquela plateia, ver as luzes, sentir aquela energia. É viciante. Terminei meu show exausto, mas feliz, suado da cabeça aos pés.

Voltei pro camarim, sentei na poltrona e peguei meu celular no bolso. A primeira coisa que fiz foi abrir a conversa com a Bruna. Ela tava estranha comigo, eu sentia que alguma coisa não tava certa. Mas mesmo assim, digitei:

"E aí, Bru? Como tão você e o Jack? Ele mamou bem? Tá dormindo direitinho?"

Mandei, esperei. Nada dela responder na hora. Suspirei e larguei o celular ao meu lado, tentando não remoer aquilo agora.

Foi quando a porta do camarim se abriu de novo.

Scooter entrou. Só de olhar pra cara dele, eu já soube que tinha alguma coisa errada. Ele fechou a porta atrás de si, ficou me encarando sério por uns segundos.

- Justin. -ele começou, com aquele tom meio tenso que ele usa quando não quer me preocupar logo de cara.- Você… conhece uma Caitlin Beadles?

Arqueei as sobrancelhas, confuso.

- Claro que conheço. -respondi, na hora.- Ela é irmã de um amigo de Toronto, o Chris. Por quê?

Scooter respirou fundo, meio impaciente.

- Porque ela tá aqui fora. Quer falar com você.

Fiquei surpreso, mas não vi problema nenhum.

- Tá, manda ela entrar.

Ele não se mexeu de imediato. Ficou me olhando, como se quisesse falar mais alguma coisa. Depois soltou um suspiro pesado.

- Eu só espero que isso não seja o que eu tô pensando. -murmurou.

Eu franzi a testa, confuso.

- Do que você tá falando?

Mas ele só balançou a cabeça, ergueu as mãos e saiu da sala, como se dissesse “deixa pra lá”.

Fiquei ali, sentado, com o coração batendo mais rápido, sem saber por quê. Me levantei devagar quando a porta se abriu de novo.

E então… ela entrou.

Caitlin.

Ela parou na entrada, me olhando de um jeito hesitante. Estava tão diferente da última vez que eu a tinha visto. Mais magra, os ombros curvados como se carregasse um peso enorme, o rosto abatido. Mas ainda era ela, agora com o cabelo loiro caindo solto sobre os ombros e os mesmos olhos azuis — só que agora, eles não tinham mais aquele brilho de antes.

E não era só ela.

Ela carregava nos braços uma menininha.

E foi aí que eu gelei.

Uma garotinha pequena, de pouco mais de um ano pelo tamanho, loirinha, as bochechas bem coradas. Ela dormia profundamente, a cabecinha apoiada no ombro dela, uma chupeta caindo de leve da boca.

Eu fiquei imóvel por um instante, com a garganta seca.

- Caitlin? -murmurei, com a voz falhando.

Ela tentou esboçar um sorriso, mas era um sorriso triste, quase sem coragem.

- Oi, Justin. -ela disse baixo, ajeitando a garotinha no colo.

Eu dei um passo à frente, sem saber nem o que pensar, só encarando aquela cena. Era como se o chão tivesse sumido debaixo dos meus pés.

Fiquei ali, olhando pra ela… olhando pra criança… sentindo um frio no estômago que eu não sentia há muito tempo. E, naquele momento, eu não sabia o que dizer. Nem o que perguntar. Nem se eu queria ouvir a resposta.

Eu respirei fundo, tentando processar tudo enquanto ainda encarava aquela cena. O silêncio na sala era pesado, só quebrado pelo barulhinho leve da respiração da garotinha no colo da Caitlin.

- Eu… -comecei, coçando a nuca, sem jeito.- Eu tô surpreso de te ver aqui, Cait. Faz… tempo, né?

Ela assentiu, com aquele mesmo sorriso triste, e eu arrisquei:

- O Chris veio com você também? Ele tá por aqui?

Ela balançou a cabeça devagar.

- Não… só eu e a Chloe.

Chloe.

Eu olhei de novo pra menininha dormindo nos braços dela e, sem nem perceber, dei um meio sorriso. Não consegui resistir: estiquei a mão e toquei de leve o bracinho dela, tão pequeno e macio. Ela se remexeu um pouco, mas continuou dormindo.

- Eu não sabia que você… que você tinha tido uma filha. -murmurei, tentando não parecer totalmente perdido.- Ela é… linda.

Caitlin me olhou por um instante, com um brilho nos olhos que eu não consegui decifrar. Respirou fundo antes de dizer, com a voz quase falhando:

- É… eu tive.

Fez uma pausa, apertando a menininha contra o peito, antes de completar:

- Nós tivemos.

Foi como se aquela última frase caísse na sala como uma bomba silenciosa. Meus olhos se arregalaram, meu sorriso morreu no mesmo instante, e eu fiquei só olhando pra ela. O coração disparou, a mente girando, tentando entender o que ela queria dizer com aquilo.

Nós…?

Eu a encarei, sem conseguir disfarçar o nó na garganta.

- Caitlin… -comecei, baixinho.- Como assim… nós?

Ela se sentou na poltrona ao lado com um suspiro pesado, como se carregar tudo aquilo tivesse acabado de drenar as últimas forças que restavam nela. Eu ainda estava em pé, imóvel no mesmo lugar, com as mãos caindo ao lado do corpo, sentindo meu coração bater descompassado no peito enquanto minha cabeça tentava acompanhar cada palavra dela.

Caitlin ajeitou a pequena Chloe no colo com delicadeza. A menininha se remexeu um pouco, soltando um resmunguinho sonolento antes de se aninhar de novo contra o peito da mãe.

Então ela começou a falar.

- Foi… naquela noite. -a voz dela já soava embargada logo no início.- Quando você veio pro Canadá, dia 25 de dezembro. Chris e Chaz te levaram praquela festa… e… a gente acabou se reencontrando.

Eu me lembrava. Cada detalhe daquela noite. A bebida, as risadas, a forma como ela ainda mexia comigo mesmo depois de tanto tempo. Como a gente se beijou como dois adolescentes inconsequentes e a sensação de que nossa história nunca tinha terminado de verdade, só… entrado em pausa.

Eu me lembrava até de ter usado camisinha. Tinha certeza disso.

- A gente… transou. -ela confirmou, com um sorriso triste, olhando para baixo.- Eu não sei o que aconteceu. Talvez estivesse furada, não sei… mas… aconteceu.

Ela ergueu os olhos para mim, marejados, e depois os baixou de novo para Chloe.

- E ela se chama Chloe... Chloe Beadles. -disse com carinho, alisando os fios loirinhos da bebê.- Ela nasceu dia 10 de setembro de 2025. Tem um ano e quatro meses agora.

Eu senti um arrepio percorrer minhas costas, minhas mãos tremendo levemente. Chloe… 1 ano e 4 meses… era exatamente o tempo que fazia sentido.

Mas Caitlin não parou por aí.

- Eu nunca… -a voz dela quebrou um pouco, mas ela continuou.- Nunca fui atrás de você por causa da fama, Justin. Eu não queria que você pensasse que eu era mais uma, que eu era interesseira, ou que eu queria aparecer. Então… eu segui com a minha vida. Só eu e ela.

A cada palavra, meu peito ia ficando mais pesado, meu estômago se contorcendo em culpa, confusão e um medo inexplicável.

Então Caitlin respirou fundo e soltou o resto.

- Só que… quando a Chloe tinha uns cinco meses, eu descobri um câncer no estômago. Já em estágio bem avançado. -agora as lágrimas começaram a cair sem que ela tentasse segurar.- Eu tentei tudo. Quimioterapia, radioterapia… mas nada. Semana passada, os médicos me disseram que já está se espalhando… que… que não tem muito mais o que fazer.

Ela fungou, tentando recuperar um pouco a compostura, mas a voz saiu ainda mais baixa e fraca.

- Meu pai… meu pai teve um AVC logo depois que eu descobri a gravidez. Ficou com sequelas, minha mãe cuida dele o dia todo… eles não têm como cuidar da Chloe. E o Chris… ele tá morando em Atlanta com a namorada nova dele, seria injusto eu pedir isso pra ele.

Ela então ergueu o rosto pra mim, agora chorando de verdade, mas mantendo um olhar firme, suplicante.

- Então… eu vim aqui hoje, Justin… pra pedir socorro. -a respiração dela falhou, e ela apertou Chloe mais forte.- Se você quiser… pedir um teste de DNA… tudo bem. Mas, por favor… não deixa a Chloe desamparada. Ela… ela precisa de você.

Ela terminou a frase com a voz embargada, a cabeça pendendo para frente, as lágrimas caindo sem parar, como se o peso do mundo tivesse finalmente caído sobre ela.

E eu… eu permaneci ali, em choque. Sem conseguir me mexer, sem saber o que dizer, sem sequer sentir as lágrimas que já começavam a escorrer dos meus próprios olhos. Só… olhando pra ela. Olhando pra Chloe. E tentando entender como, em tão pouco tempo, o meu mundo inteiro podia ter virado do avesso.

Eu respirei fundo, tentando organizar na cabeça tudo o que ela acabava de me dizer. Me aproximei devagar, me agachei à frente dela, olhei pra Caitlin, com a Chloe ainda aninhada dormindo no colo dela, e disse baixinho:

- Eu… sinto muito por tudo isso que você tá passando, Cait. Por ter tido que lidar com tudo sozinha até agora. Eu te admiro muito, de verdade… por ser tão forte, por ser tão mãe, mesmo com tudo isso acontecendo.

Ela fechou os olhos por um instante e assentiu, mordendo o lábio pra segurar mais um choro. Eu respirei fundo de novo.

- Sobre o DNA… -continuei.- Vai ser protocolo, pra eu poder registrá-la oficialmente e tudo mais. Mas… eu não duvido da sua palavra. Eu acredito em você, Caitlin.

Ela abriu os olhos e me encarou, com uma pontinha de alívio misturada à tristeza.

- Então… me diz. -eu perguntei com a voz baixa, mas firme.- O que você quer exatamente que eu faça?

Ela soltou um longo suspiro, como se tivesse ensaiado aquela resposta mil vezes na cabeça antes de vir aqui. Ajeitou Chloe melhor no colo e, mesmo com a voz embargada, falou com a maior sinceridade:

- Eu quero… que você fique com a Chloe. Que a crie. Que ela tenha você como pai. Que ela cresça junto com o Jack, com a Bruna, se possível. -ela me lançou um olhar significativo.- Porque eu acompanhei vocês dois pela internet. E… vocês são lindos juntos. Não sei quais foram exatamente os motivos do término, não é da minha conta… mas, Justin… -os olhos dela brilharam com uma mistura de dor e sabedoria.- não vale a pena perder tempo com besteira, com orgulho, com brigas que não levam a nada. Se duas pessoas se amam… não tem por que não ficarem juntas. A vida é muito curta. 

Ela suspirou fundo, quase deixando cair um sorriso melancólico, antes de continuar:

- A Chloe já tem passaporte, eu providenciei antes, porque eu não sabia o que ia ser da minha vida. Eu só… não sei como funciona exatamente o visto americano pra ela, já que nós dois somos canadenses… mas você dá um jeito, eu sei que dá. Leva ela com você pra onde você for, não deixa ela sem você.

Caitlin desviou o olhar pra Chloe por um instante, a mão passando carinhosa pelos cabelos loirinhos da menina antes de voltar a me encarar.

- Só te peço… de vez em quando, traz ela aqui. Pros meus pais. Eles merecem ver a neta. Não corta esse vínculo.

Ela engoliu em seco, a lágrima caindo, mas dessa vez ela não se deu ao trabalho de enxugar. Só ficou me olhando, me entregando a maior responsabilidade da minha vida… junto com a maior prova de confiança que alguém podia depositar em mim.

E eu permaneci ajoelhado ali, sentindo um nó na garganta enquanto olhava pra ela e depois pra Chloe… e tinha certeza que minha vida nunca mais seria a mesma.

Fiquei ali, imóvel por alguns segundos, com a mão ainda pousada no bracinho da Chloe. A respiração dela era leve, calma… completamente alheia ao peso daquela conversa. Eu engoli em seco, tentando falar alguma coisa, mas a voz não saía logo. Quando finalmente consegui, foi num sussurro:

- Você tem ideia do que tá me pedindo, Cait?

Ela respirou fundo também, mas não desviou os olhos dos meus.

- Tenho. -respondeu firme, mesmo com a voz embargada.- Eu sei o que tô pedindo. E eu sei quem você é, Justin. Você não vai abandonar sua filha.

O jeito que ela falou… doeu fundo. “Sua filha”. Eu senti aquela frase atravessar meu peito como um soco, porque por mais que eu ainda estivesse tentando processar… eu já sabia, no fundo, que não ia conseguir dizer não.

- Eu… -fechei os olhos por um momento, respirando fundo, tentando assimilar tudo.- Eu não vou deixar a Chloe desamparada, Caitlin. Nunca. Eu juro por tudo.

Ela fechou os olhos também, dessa vez deixando as lágrimas escorrerem livremente. Um alívio quase físico tomou conta do rosto dela, como se o peso que ela carregava nas costas tivesse diminuído um pouco naquele instante.

- Obrigada… -murmurou, baixinho, quase como um soluço.

Eu me levantei devagar e puxei a poltrona ao lado dela pra me sentar. Olhei pra Chloe de novo, dormindo tranquila, e não consegui evitar de sorrir, ainda que triste. Pousei a mão sobre o cobertorzinho que a enrolava e disse baixo:

- Oi, pequena… -senti a garganta fechar.- Parece que você vai ter que me aguentar pro resto da vida, hein?

Caitlin soltou uma risada fraca entre as lágrimas, cobrindo o rosto com a mão por um instante. Eu a olhei e alcancei sua mão livre, apertando de leve.

- Eu não sei como vai ser, Cait… mas eu vou dar um jeito. Vou cuidar dela, como se isso sempre tivesse sido meu destino. Porque, de algum jeito… parece que era mesmo.

Ela me olhou com os olhos vermelhos e sorriu fraco, apertando de volta minha mão.

- Era, Justin. Era o destino dela.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, só ouvindo o barulho baixo do camarim e a respiração tranquila da Chloe. Até que eu respirei fundo e disse, quase num tom de promessa:

- Eu vou dar pra ela tudo o que eu tenho, Caitlin. Tudo o que ela merece. E pode ter certeza que eu nunca vou deixar ela sentir que perdeu você. Eu vou lembrar ela todos os dias… que a mãe dela foi a mulher mais corajosa que eu já conheci.

Caitlin chorou mais uma vez, dessa vez se permitindo desabar um pouco no encosto da poltrona, e eu apenas fiquei ali, segurando a mão dela, sem soltar.

Mesmo em choque, mesmo sem ter ideia de como ia encaixar tudo aquilo na minha vida… eu já sabia que não tinha volta. Chloe era minha.
E eu faria qualquer coisa por ela.

Dois dias depois... 

O voo de volta pra Nova York parecia eterno, mesmo com Scooter ao meu lado o tempo todo, tentando adiantar as coisas pro exame de DNA, pro registro da Chloe, pros advogados ajustarem os papéis. Ele sabia de tudo agora — e claro que estava surtando. Ele odiava quando alguma coisa fugia do controle, mas estava tentando me ajudar da melhor forma possível.

O que me deixava mais nervoso não era o DNA, nem os advogados, nem a mídia quando isso viesse à tona. O que me deixava com um nó no peito era Bruna. Eu não fazia ideia de como ia olhar nos olhos dela e contar. Não tinha como ser fácil. E no fundo eu sentia que, depois dessa, qualquer esperança de ter ela de volta pra mim acabava ali. E isso me dilacerava.

Quando parei em frente à porta do apartamento dela, respirei fundo umas dez vezes antes de finalmente criar coragem pra bater. E quando bati, desejei, por um segundo, que ela não estivesse. Mas ela abriu a porta no instante seguinte, e só de ver aquele sorriso enorme no rosto dela meu coração quase se partiu.

- Justin! -ela disse, radiante, me puxando num abraço apertado. Eu a envolvi devagar, sentindo a paz daquele abraço. Como eu sentia falta disso.- Eu também tenho tanta coisa pra te contar. -ela falou contra meu peito.

- Eu também. -respondi, ela ergueu o olhar, reparando que eu não sorria do mesmo jeito. 

- O que foi?

Ela me soltou aos poucos, notando o meu semblante sério, tentando decifrar o que se passava. Eu só balancei a cabeça, incapaz de responder de imediato. Então entrei, e ela fechou a porta atrás de mim.

Logo avistei Jack, sentado no tapetinho, brincando com um bloquinho azul. Me agachei e o peguei no colo, abraçando forte meu menininho, tentando me lembrar do porquê eu precisava ser honesto: era por ele também.

Quando coloquei Jack no chão de novo, Bruna já estava parada a poucos passos de mim, tensa, com lágrimas se formando nos olhos.

- Alguma coisa mudou? -ela perguntou com a voz baixa, quase num sussurro.

Eu assenti. Só isso. E ela mordeu o lábio, como se tivesse levado um soco no estômago.

- Fala logo, Justin. -ela pediu, com a voz embargada, mas firme.- Por favor.

- Não é fácil… -eu disse.- E eu vou entender se… se você não quiser mais nada comigo depois disso.

Ela cruzou os braços, respirou fundo, e caminhou devagar até o sofá. Se sentou ali, na beira da almofada, ajeitando uma mecha de cabelo nervosamente. Eu também me sentei, bem em frente a ela, de modo que nossos joelhos quase se tocavam, enquanto Jack balbuciava brincando aos nossos pés.

Eu comecei a falar.

Contei quem era a Caitlin, depois que fui ao Canadá pra um show. Que depois do show, no camarim, a Caitlin apareceu no camarim, magra, abatida, com uma menina loirinha nos braços… a Chloe. E que Caitlin me contou que aquela menina era minha filha, fruto de uma noite nossa naquela pouco antes da virada pra 2025, na época ela namorava Harry e estava passando o final do ano no Brasil.

Enquanto eu falava, os olhos dela iam se enchendo cada vez mais. No começo, ela só franziu as sobrancelhas, parecendo confusa. Depois mordeu o lábio, lágrimas começaram a escorrer silenciosas. Quando falei que Caitlin tinha câncer, que não tinha mais condições de cuidar da filha, que por isso ela tinha me procurado… Bruna fechou os olhos, e deixou uma lágrima grossa escorrer pelo rosto.

Ela não disse nada, só me olhava. Os olhos marejados, o peito subindo e descendo rápido.

Quando terminei, senti a mão dela se fechar num punho no próprio colo. Ela não me xingou, não gritou. Mas aquele silêncio dela doeu mais do que qualquer palavra.

Eu só consegui murmurar:

- Eu… eu sinto muito, Bru. Por tudo. Por você ter que ouvir isso. Eu não planejei, eu juro. Eu nunca… nunca quis te machucar assim.

Ela respirou fundo, limpou as lágrimas com as costas da mão, e abaixou a cabeça por um instante. Quando levantou os olhos de novo pra mim, eu só enxerguei dor. Uma dor que parecia tão grande quanto a minha.

E aí, finalmente, a voz dela saiu, baixa e trêmula:

- Eu… eu não sei nem o que dizer, Justin. Eu preciso de um tempo pra processar isso…

E aquilo foi um soco no meu peito. Porque, no fundo, eu sabia que ela tinha todo direito. Eu só assenti devagar, engolindo em seco, sentindo meu mundo ruir bem ali, naquela sala, com nosso filho brincando inocente no tapete, alheio à queda do castelo de cartas que eu e ela construímos.

Fiquei ali, sentado, tentando respirar no meio daquele silêncio pesado, quando me dei conta de que… ela tinha dito que tinha tanta coisa pra me contar. Eu precisava ouvir. Mesmo que agora tudo tivesse virado de cabeça pra baixo, mesmo que eu fosse a pior pessoa do mundo pra ela naquele momento, eu ainda queria saber.

Então respirei fundo, tentando soar o mais calmo possível, mesmo com meu coração em pedaços, e perguntei:

- Bru… e… o que era que você queria me contar?

Ela enxugou as lágrimas com as costas da mão, respirou fundo e desviou o olhar de mim. Sua voz saiu baixa, sem entusiasmo nenhum, como quem já não via mais sentido nenhum naquilo:

- Não importa mais… -ela murmurou.

- Importa pra mim. -interrompi, firme, mas suave.- Me conta.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos, encarando o chão, como se estivesse reunindo forças pra dizer. Então ergueu os olhos pra mim, marejados, mas frios de alguma forma.

- Eu… larguei do Nathan. -a voz dela soou seca, breve. 

Eu senti um aperto ainda maior no peito, como se alguém tivesse socado meu estômago. Ela continuou, olhando pra baixo:

- Achei que… que a gente podia dar certo de novo. Que… valia a pena tentar.

Fiquei sem reação por uns segundos. Eu não sabia nem o que dizer, porque aquilo me atingiu de um jeito cruel. Ela tinha aberto mão dele por mim. Por nós. E agora eu aparecia aqui pra destruir a esperança dela.

Ela respirou fundo mais uma vez, e murmurou quase num sussurro:

- E… a Marina. Eu e ela… voltamos a ser amigas.

Eu fechei os olhos, sentindo as lágrimas arderem de novo, mas me forcei a manter a calma.

- Bru… -sussurrei, engolindo em seco.- Você não tem ideia do quanto eu queria poder te dar outra notícia agora.

Ela me olhou por um instante, aquele olhar misturado de dor e decepção que me dilacerava por dentro. Depois simplesmente desviou o olhar, limpou outra lágrima teimosa, e ficou em silêncio.

Eu só conseguia pensar numa coisa: eu não merecia essa mulher. E, ainda assim, tudo o que eu queria era que ela me perdoasse.

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