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Capítulo 101

Bruna Narrando 

Saí da faculdade com a cabeça cheia, mas meu coração me puxava pra um único lugar. Entrei no hospital já com aquele nó no estômago, o mesmo de sempre. Subi pro andar do Justin quase no automático.

Pattie estava ali, sentada ao lado da cama dele, como todos os dias. Assim que me viu, se levantou com aquele olhar cansado, mas gentil. A abracei forte, como se aquilo pudesse oferecer algum conforto — talvez mais pra mim do que pra ela.

- Oi, Pattie... -murmurei.

- Oi Bru. -ela disse, com um meio sorriso, a voz rouca de tanto chorar.

Olhei pro Justin, e meu coração partiu de novo. Um mês... Um mês inteirinho daquele jeito. Respirando com ajuda, completamente imóvel, como se dormisse profundamente e tivesse esquecido de acordar.

Me aproximei, acariciei de leve o cabelo dele e beijei sua testa. Abaixei os olhos, sentindo as lágrimas virem de novo, sem controle.

- Eu vou ali comer alguma coisa, tá? -Pattie disse, do nada. Só assenti, enxugando o rosto rapidamente.

Quando a porta se fechou atrás dela, puxei a cadeira pra mais perto e segurei a mão dele.

- Oi, meu amor... -sussurrei, tentando manter a voz firme, mas falhei.- Eu vim direto da faculdade. Tô cansada, mas nada me cansa mais do que te ver assim.

Passei os dedos devagar pela mão dele, como se isso pudesse trazê-lo de volta.

- O Jack tá sentindo sua falta, sabia? Outro dia entreguei pra ele seu moletom e ficou agarrado com ele pra dormir... -uma risada chorosa escapou.

Respirei fundo, tentando não desabar.

- Mas ele tá bem... Ele tá distraído, brincando bastante com a Chloe. Aquela menininha é um amorzinho. Quietinha, observadora... Ela tem o seu olhar, acredita?

Engoli seco, meus olhos se enchendo de novo.

- Só queria que você estivesse aqui... vendo isso tudo... vendo eles dois juntos. Você precisa voltar pra ver tudo isso. Precisa voltar pra mim.

Minha voz falhou. Me debrucei na cama, a cabeça encostada no braço dele, e chorei em silêncio. Porque aquilo ali… não era justo.

Fiquei ali, com a cabeça encostada no braço dele, tentando conter os soluços. Aquele silêncio me sufocava. O som do monitor era a única coisa viva no quarto. Eu sentia minha esperança murchar aos poucos, um dia de cada vez.

- Eu te amo, Justin… -murmurei, baixinho, quase como um segredo.- Por favor… volta pra mim. Eu não tô mais inteira sem você aqui.

Foi nesse momento que senti.

Um leve movimento.

Engoli seco e levantei a cabeça devagar, com medo de estar imaginando. Olhei pra mão dele, e juro… ela se mexeu de novo. De leve. Os dedos contraíram como se tentassem apertar os meus.

- Justin...? -minha voz saiu trêmula, baixa, desesperada.- Justin, você tá me ouvindo?

Me levantei rápido da cadeira, ainda segurando a mão dele. Ele não abriu os olhos. Não disse nada. Mas os dedos dele se mexeram outra vez. Dessa vez mais firme.

- Ai, meu Deus... -murmurei, já chorando.- Eu vou chamar alguém, tá? Espera aqui... quer dizer... fica aqui! Fica comigo!

Corri até a porta, abrindo com força, quase tropeçando no corredor.

- Enfermeira! Doutor! Ele se mexeu! O Justin mexeu a mão!

E meu coração, pela primeira vez em muito tempo… bateu mais forte de esperança.

Uma enfermeira surgiu no fim do corredor, seguida por um dos médicos que cuidava do Justin desde o começo. Eu estava trêmula, coração a mil, e parecia que a voz não saía direito de tão ofegante.

- Ele... ele mexeu a mão. Eu juro! -falei rápido, apontando pra dentro do quarto.

Eles entraram às pressas, enquanto eu fiquei parada do lado de fora, abraçando a mim mesma. Pattie apareceu vindo da lanchonete com um copo de café na mão, e só de ver minha cara ela já largou tudo no chão.

- O que aconteceu?! -ela perguntou, correndo até mim.

- Ele mexeu a mão, Pattie… eu tava com ele, falando com ele, e ele mexeu a mão!

Ela levou a mão à boca, os olhos arregalados, e entrou junto comigo. A enfermeira já tava medindo os sinais, enquanto o médico observava o monitor e falava baixo com ela. O quarto tava num silêncio tenso, como se ninguém ousasse respirar.

- A pressão tá reagindo. -a enfermeira disse.- Saturação tá estável.

- Justin...? -o médico chamou, inclinando-se sobre ele.- Justin, consegue me ouvir?

Nada. Meu coração quase caiu.

Mas então… os olhos dele se moveram sob as pálpebras fechadas. Tão de leve que eu quase achei que imaginei. E de repente, devagar… ele piscou.

- Meu Deus... -sussurrei, levando a mão à boca.- Ele piscou!

O médico assentiu, com um sorriso pequeno surgindo no rosto.

- Ele tá reagindo. Não sabemos o quanto ele vai recuperar, ou quão rápido, mas isso… isso é um ótimo sinal.

Pattie chorava em silêncio, segurando a mão do filho, ajoelhada ao lado da cama. Eu me aproximei de novo, as pernas bambas.

- Oi, meu amor… tô aqui, tô com você. -falei, com a voz embargada.

E foi ali, naquele momento, quando ele tentou mover os lábios num esforço quase invisível, que eu senti. Justin tava voltando.

E eu nunca mais duvidei disso.

Meu celular começou a vibrar no bolso e, com os olhos ainda marejados e o coração a mil por causa do Justin, peguei pra ver. Era o Luan.

Ainda eufórica, com a mão trêmula, saí do quarto em silêncio, fechando a porta devagar atrás de mim. Atendi no mesmo segundo.

- Alô, Luan? -disse, com a voz embargada.

Mas eu nem precisei perguntar nada.

- Ela nasceu, Bruna! A Serena nasceu! -ele falou do outro lado, com a voz tão emocionada que parecia que tava rindo e chorando ao mesmo tempo.- A Marina tá bem, a Serena é perfeita! Tão as duas bem, meu Deus, eu sou pai!

Fiquei muda por uns segundos, sentindo as lágrimas voltarem, mas agora de outro tipo. Alegria, alívio, esperança. Depois de tudo… depois de tanta dor, de tanto medo… agora a gente tinha vida nova chegando.

- Ai, meu Deus… -eu murmurei, me encostando na parede.- Luan, parabéns! Meu Deus, parabéns! Eu tô… tô tão feliz por vocês!

- Ela é a cara da Marina, Bruna… você precisa ver!

Sorri entre as lágrimas.

- E você precisa saber que o Justin mexeu a mão. E… e ele piscou. O médico disse que é um bom sinal.

Silêncio do outro lado. Luan prendeu a respiração.

- Ele…? Ele tá acordando?

- Eu acho que sim. E agora… agora ele tem ainda mais um motivo pra voltar.

Olhei pra cima, enxugando os olhos. Era o primeiro dia da Serena no mundo. E talvez… o começo do retorno do Justin.

E eu não conseguia parar de agradecer em silêncio.

Depois de desligar, ainda com o coração acelerado e as emoções todas embaralhadas, respirei fundo e voltei pro quarto do Justin. Ele seguia ali, sereno, respirando com a ajuda das máquinas, como se dormisse profundamente. Mas agora, algo tinha mudado. Eu sentia.

- Pattie… -murmurei, sorrindo entre as lágrimas.- A Serena nasceu. A Marina teve a Serena agora há pouco. Tá tudo bem com as duas.

Os olhos dela se encheram na hora. Ela levou a mão à boca, emocionada, e balançou a cabeça como se não estivesse acreditando.

- Ai, meu Deus… -ela disse baixinho.- Que notícia maravilhosa…

Me aproximei, segurei a mão dela com carinho.

- Eu vou lá ver elas. Mas se o Justin acordar… se ele mexer de novo, qualquer coisa, você me liga. 

Pattie assentiu, apertando minha mão de volta.

- Pode deixar, querida. E… obrigada por tudo isso. Por estar aqui. Por amar ele do jeito que você ama.

Engoli em seco e sorri pequeno.

- Eu não sei fazer diferente.

Beijei a testa do Justin mais uma vez e, antes de sair, sussurrei no ouvido dele:

- Tua sobrinha nasceu, viu? E ela vai querer muito ouvir as histórias loucas do tio Justin. Então… volta logo.

E fui. Porque agora tinha uma bebê pra conhecer. E um motivo a mais pra ter fé.

Chegando no hospital, pedi na recepção o número do quarto e fui direto pra lá, o coração acelerado como se eu também tivesse parido uma criança. No corredor, enquanto andava, senti o calor nas bochechas. Tava emocionada. Muito.

Quando cheguei na porta, respirei fundo, bati de leve.

- Pode entrar. -ouvi a voz da Liana lá de dentro.

Empurrei a porta com cuidado e entrei.

Liana estava sentada ao lado do marido, Josh. O William, pai de Justin, Marina e Melanie também estava ali, de pé, num canto. Melanie estava escorada na parede, abraçada com a Olívia, e Virgínia tirava fotos discretamente com o celular. Luan estava do lado da cama, olhando pra Marina com aquele tipo de sorriso que a gente só vê quando alguém tá olhando pro amor da vida com admiração e orgulho.

E então vi Marina.

Ela estava deitada na cama, exausta, os cabelos bagunçados, mas com um brilho no olhar que eu nunca tinha visto antes. Nos braços dela, Serena. Tão pequena, embrulhadinha num cobertorzinho branco com detalhes em rosa, dormindo como um anjinho.

Meus olhos se encheram na hora.

- Meu Deus… -sussurrei, já com a voz embargada.- Que anjinho.

Marina sorriu, meio sonolenta, meio emocionada também.

- Vem ver ela de perto. -ela disse baixinho, fazendo um gesto com a cabeça.

Caminhei até lá, cada passo pesado de emoção. Quando me aproximei, Luan se afastou um pouquinho, e eu me abaixei devagar, sentindo a garganta fechar. 

- Oi, Serena… -sussurrei, tocando com delicadeza a pontinha da mãozinha dela.- Eu sou a tia Bruna. Você não faz ideia da bagunça boa que chegou fazendo.

Uma lágrima escorreu antes que eu pudesse conter. Olhei pra Marina, que me encarava com ternura.

- O Justin vai amar ela. -eu disse.

Ela assentiu, emocionada.

- Eu sei. Só falta ele voltar pra conhecer.

Ficamos em silêncio por alguns segundos.

Marina ajeitou um pouco a coberta da Serena, e quando vi que ela tava bem tranquila, pedi com um sorriso:

- Posso segurar ela um pouquinho?

- Claro. -Marina respondeu, quase que instantaneamente, com um brilho no olhar. Luan ajudou com cuidado, e logo Serena tava nos meus braços.

Ela era tão levinha… tão pequena… tão perfeita. O cheirinho de recém-nascido me envolveu como um abraço quente no meio do frio de março. Eu me sentei ali pertinho, ainda olhando pra ela, completamente encantada.

Foi aí que lembrei do que tinha acontecido minutos antes.

- Eu tenho uma coisa pra contar. -falei, olhando pra Marina e depois pro restante da sala.

Todo mundo me encarou com atenção. Meu coração batia mais rápido do que deveria.

- O Justin… ele mexeu a mão hoje. Bem na hora que eu tava falando com ele, contando do Jack, da Chloe, e… -minha voz começou a falhar, mas eu continuei- e depois ele também piscou.

O silêncio tomou conta por alguns segundos, e então a reação veio como uma onda.

- Sério?! -Virginia foi a primeira a perguntar, os olhos arregalados.

- Meu Deus, Bruna! -disse Melanie, quase pulando da cadeira.

- Ele tá acordando? -William perguntou, se aproximando um pouco mais, com esperança no olhar.

Marina levou as mãos à boca, os olhos cheios d’água. Ela não disse nada. Só começou a chorar.

- Não sei ainda se tá acordando de verdade… mas ele reagiu. E isso é muita coisa depois de um mês. -continuei, tentando manter a voz firme, mesmo com meu peito querendo explodir de emoção.

Marina chorava baixinho, e Luan logo se abaixou ao lado dela, passando o braço por seus ombros, beijando sua cabeça.

- Ele vai voltar, Mari. Ele vai conhecer a Serena. Vai segurar ela no colo. Vai chamar ela de princesinha, eu aposto. -falei, olhando de volta pra bebê em meus braços, que parecia dormir alheia a tudo, mas mesmo assim… era como se ela soubesse. 

2 dias depois...

Sábado, 13 de Março de 2027

Dois dias se passaram desde que Serena nasceu. E hoje… hoje era meu aniversário. E do Luan também.

Sábado. Sem aula. Sem clima pra comemorar.

Meus pais estavam na cidade desde o nascimento da Serena — estavam encantados pela netinha e mandando mensagens sem parar, perguntando se a gente ia fazer algo pra comemorar. Eu não respondi nenhuma. Nem ligação. Não queria conversar, não queria parabéns. Não queria bolo, presente, nem vela pra apagar.

Eu queria o Justin.

E ele ainda tava ali, no mesmo quarto, no mesmo silêncio. Como se o tempo tivesse congelado ao redor da cama dele, enquanto o mundo lá fora seguia.

Cheguei no hospital logo de manhã. A enfermeira sorriu de leve quando me viu, já me reconhecendo. Eu vinha quase todo dia.

Entrei no quarto devagar. Ele estava deitado, sereno. Respirava com a ajuda das máquinas, o rosto tranquilo, os cílios longos que eu amava. Tinha flores novas no canto do quarto, provavelmente da Pattie. Ela me disse que passaria a manhã com Jack, então eu aproveitei o silêncio.

Puxei a cadeira e sentei ao lado da cama.

- Oi meu amor... -murmurei.

Suspirei e encostei a cabeça na beira da cama, segurando a mão dele com carinho.

- Sabe, eu queria estar com você agora, em qualquer lugar. Na cama, no sofá, até na rua passando frio, tanto faz. Só queria você comigo. Pra rir, brigar por causa da minha desorganização, ou pra ficar em silêncio vendo um filme idiota. Mas queria com você acordado. -falei baixinho, engolindo o nó na garganta.

Beijei o dorso da mão dele, com os olhos fechados.

- Hoje eu queria te ouvir me dando parabéns, me chamando de “princesa emburrada”, me abraçando até eu esquecer que a vida é dura às vezes.

As lágrimas vieram sem pedir licença, como sempre. Chorei em silêncio por um tempo. Sentia tanto a falta dele acordado… da voz, do olhar, do jeito irritante e fofo ao mesmo tempo.

- Não me deixa sozinha nisso aqui, tá? Você ainda tem dois filhos pra criar. E um pedaço do bolo de chocolate com recheio de morango que a sua mãe fez escondida pra mim, mesmo sabendo que eu não ia querer comemorar.

Eu dei um risinho fraco, e o encarei de novo.

- Acorda logo, Justin… me dá meu melhor presente.

Eu estava ali, ainda segurando a mão dele, quando senti… algo.

Franzi a testa.

De início achei que fosse impressão minha. Meu coração bateu mais forte. Esperei, imóvel. E então… de novo. Os dedos dele mexeram. Bem de leve. Quase como um reflexo.

- Justin?

Minha voz saiu baixa, trêmula. Me inclinei mais, apertando de volta a mão dele.

- Justin, sou eu… Bruna. Tá me ouvindo?

E aí… ele piscou.

Uma vez. Duas.

Me levantei tão rápido que a cadeira quase caiu pra trás.

- JUSTIN! -soltei, agora em voz alta, sentindo o desespero virar esperança.- Você tá me ouvindo?

Os olhos dele se abriram devagar, como se a luz do mundo fosse forte demais depois de tanto tempo no escuro. A respiração deu uma acelerada. Ele tentou se mover, mas estava fraco demais.

- Calma, calma amor… fica tranquilo… eu tô aqui. -falei, chorando e rindo ao mesmo tempo, me aproximando mais, acariciando o cabelo dele.

Os olhos dele estavam meio perdidos, meio confusos… mas estavam ali. Presentes.

Ele piscou algumas vezes, os olhos se acostumando à luz, e então virou levemente o rosto na minha direção.

- Quem... quem é você? -ele murmurou, com a voz rouca e fraca.

Senti como se alguém tivesse me puxado de um penhasco. Meu sorriso morreu na hora, e os olhos encheram de lágrimas de novo, agora por outro motivo.

- Ju... Justin? Sou eu, é a Bru...

Ele continuou me encarando, com o rosto ainda sem expressão. Até que um sorrisinho torto surgiu no canto dos lábios.

- Tô brincando. -ele sussurrou, rouco, com um fiapo de voz.

Eu levei a mão à boca, meio rindo, meio chorando.

- Não acredito que você acordou... e já tá zoando comigo. -falei, balançando a cabeça, ainda sem conseguir parar de sorrir. Me inclinei e o abracei com cuidado, sentindo o calor do corpo dele pela primeira vez em tanto tempo.- Que saudade, Ju...

Ele me abraçou de volta, devagar, e então sussurrou:

- Bru?

Me afastei só o suficiente pra encará-lo.

- O que... o que aconteceu? -ele perguntou, com a voz rouca, ainda fraca.

- Você sofreu um acidente. -respondi, devagar, pra ele absorver.- Bateu o carro. Ficou um mês em coma.

Os olhos dele se arregalaram.

- Um mês? -ele repetiu, surpreso.- Que dia é hoje?

- Treze de março. -respondi.

Ele piscou algumas vezes e, mesmo pálido, sorriu.

- Então... feliz aniversário, Bru.

Meu coração apertou. Sorri de volta, me sentando outra vez ao lado da cama.

- Obrigada. Eu nem acredito que esse é o meu presente de aniversário... você tá de volta. E eu tenho tanta coisa pra te contar.

Ele me olhava como se quisesse absorver cada palavra.

- A Serena nasceu! -falei, empolgada.- Dois dias atrás. Ela é perfeita, Ju. Tão pequenininha e linda... a cara da Marina.

Ele sorriu, emocionado.

- O Jack tá impossível. Tá apontando dente já, acredita? Anda bagunçando a casa toda.

Justin soltou um risinho fraco, e seus olhos brilhavam.

- E... a Caitlin veio pra cá. Com a Chloe.

Na hora que citei o nome delas, o sorriso dele sumiu um pouco. O olhar dele mudou.

- Elas tão... aqui?

Assenti devagar.

- Tão ficando lá em casa. A Chloe é um amorzinho. Muito doce, curiosa...

Ele me olhou com aquele olhar cheio de perguntas não ditas, então ele soltou:

- E... você tá bem com isso?

Respirei fundo. Esse era o momento.

- Aquele dia... o dia do acidente... eu ia te contar que tinha decidido ficar com você. Com vocês. Eu queria contar ia aceitar criar a Chloe junto com você.

Justin fechou os olhos por um segundo e sorriu. Era um sorriso sincero, aliviado, com um toque de emoção.

- Eu não tô sonhando, né?

- Não. Mas agora eu vou chamar o médico, porque você acordar já fazendo piada é típico seu. -disse, me levantando com pressa, mas sorrindo com o coração leve.

Saí do quarto quase correndo pelos corredores até encontrar uma enfermeira. A mulher me olhou com estranhamento quando eu disse, com os olhos marejados e o coração a mil:

- Ele acordou. O Justin... ele acordou!

Ela arregalou os olhos, soltou um “meu Deus” baixinho e saiu apressada, pedindo licença no caminho enquanto chamava outros profissionais. Em segundos, dois médicos e mais uma enfermeira entraram no quarto atrás de mim.

- Justin Bieber? -um dos médicos chamou, indo até a cama.- Consegue me ouvir bem?

Justin piscou algumas vezes e assentiu levemente.

- Sim… tô meio grogue, mas tô ouvindo.

- Você lembra seu nome completo? -perguntou a médica que se aproximou do outro lado.

- Justin Drew Bieber… -ele respondeu, com a voz arrastada, mas lúcido.

- Nome do seu filho completo?

- Jack Santana Bieber.

- E o nome dessa moça aqui? -o médico perguntou apontando pra mim.

- Bruna Domingos Santana... mas em breve também será senhora Bieber. -ele falou com um sorriso galanteador.

Eu estava no canto, sorrindo, com a mão no peito, tentando controlar a emoção e ao mesmo tempo absorvendo cada resposta dele como um milagre.

A enfermeira checou os batimentos dele e pressionou levemente a barriga, enquanto o outro médico anotava no prontuário.

- Isso é muito bom. -disse um deles, sorrindo.- Seu cérebro reagiu bem. Vamos manter observação nas próximas 24 horas, fazer alguns exames agora, mas... parece que você deu a volta por cima, rapaz.

Justin me olhou. Ele tava com o rosto cansado, pálido, mas tinha aquele mesmo sorrisinho de sempre.

- Eu sou teimoso, né?

- Nem me fala. -murmurei, sorrindo entre as lágrimas.

Era inacreditável. Depois de tudo... ele tava aqui. Falando. Lembrando. Sorrindo.

Depois que os médicos saíram da sala, peguei meu celular com as mãos ainda trêmulas e abri o whatsapp. Meus dedos deslizaram rápidos até o nome da Marina. Toquei em "ligação de vídeo" e esperei, com o coração martelando no peito.

Ela atendeu quase de imediato. Estava com a Serena nos ombros, fazendo movimentos suaves pra ajudar ela a arrotar. O cabelo preso em um coque improvisado, olheiras marcadas, mas o olhar... ah, o olhar dela era sereno.

- Oi, Bru... -ela começou a dizer, mas eu nem respondi. Só virei a câmera do celular e apontei direto pro Justin, que estava deitado na cama, com o soro no braço e aquele sorriso preguiçoso no rosto.

O tempo congelou.

- PUTA QUE PARIU. -Marina quase gritou, levando a mão livre à boca.- JUSTIN?!

Ele deu um tchauzinho fraco com a mão e disse:

- Oi, mamãe da Serena.

- Meu Deus, meu Deus... -Marina começou a chorar, a voz embargada, enquanto Serena ainda estava ali, quietinha em seus ombros.- Você tá... você acordou!

- Ele acordou. -confirmei, agora sorrindo como uma boba.- Ele tá bem, Marina. Ele tá falando, lembrando de tudo... ele tá aqui.

- Eu não tô acreditando... -ela murmurou, fungando, e depois beijou a cabecinha da filha.- Olha, filha... é o titio Justin... ele voltou.

Justin soltou um suspiro emocionado, com os olhos marejados também.

- A Serena... -ele sussurrou.- Ela é tão pequena.

- E linda. -Marina completou, sorrindo.- Não vejo a hora de você conhece-la.

- Tô ansioso por isso.

Eu deixei as lágrimas caírem mais uma vez. Mas, dessa vez, eram de alívio. De amor. De gratidão.

Tudo estava recomeçando.

Depois que desliguei com a Marina, ainda com o sorriso bobo grudado no rosto, abri o WhatsApp e digitei rápido:

"Oi, Pattie. Vem no hospital, por favor. Traz o Jack com você… e, se puder, traz a Chloe também."

Esperei só um segundo antes de apertar enviar. Eu sabia que ela viria correndo. E eu sabia que seria um momento único.

Guardei o celular e me virei de novo pra ele. Justin me observava com aquele olhar meio preguiçoso, meio curioso. O mesmo olhar que sempre me desmontou.

- Tá escondendo coisa de mim agora? -ele perguntou com um sorrisinho torto, a voz ainda rouca.

- Talvez. -dei de ombros, puxando a cadeira de volta pro lado da cama.- Me acostumei a falar sozinha com você esse tempo todo… agora que cê voltou, vai ter que recuperar o tempo perdido, Bieber.

Ele riu baixinho, e aquilo soou como música. Meus olhos encheram de novo.

- É sério que eu fiquei um mês apagado? -ele perguntou, com a testa franzida.

- Um mês. E cada segundo foi um inferno. -respondi, entrelaçando meus dedos nos dele.- Mas agora… agora tá tudo certo. Você voltou. Você tá aqui.

Ele virou a mão e apertou a minha com um pouco mais de força.

- Desculpa ter feito você esperar tanto…

- Só não faz de novo. -falei com a voz embargada.

- Nunca mais.

Enquanto ele descansava com os olhos semicerrados, ainda segurando minha mão, peguei o celular com a outra e, com todo cuidado, virei a câmera pra registrar aquele instante. Nossos dedos entrelaçados, a pulseira do hospital no pulso dele… era simples, mas dizia tudo.

Tirei a foto.

Abri o Instagram, selecionei o story e escrevi em letras pretas que ele havia acordado, mas em inglês.

Postei sem nem pensar duas vezes.


Eu sabia que as fãs, aquelas que mandaram mensagens, oraram, mandaram energia boa todos os dias... iam ver aquilo e respirar aliviadas. Aquelas que amavam o Justin mesmo sem conhecê-lo pessoalmente. Aquilo era por elas também.

Bloqueei a tela e olhei de novo pra ele.
Ficamos ali em silêncio por alguns instantes. Só o som do monitor cardíaco preenchia o quarto, junto com aquela paz nova que eu sentia. Eu acariciava de leve os dedos dele com o polegar, e ele mantinha os olhos em mim.

- Obrigado por ficar… -ele murmurou, a voz ainda rouca.- Você sempre fica.

Meu peito apertou, mas num jeito bom. Me inclinei um pouco mais pra perto e sorri.

- Eu te amo, Justin.

Os olhos dele brilharam, mesmo cansados. Ele apertou levemente minha mão, como se fosse a única força que ainda conseguia reunir.

- Eu te amo também, Bruna.

Sorri em meio às lágrimas, encostando minha testa na dele. Era real. Ele tava ali. 

O Justin tava de volta. E agora, meu coração também.

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