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Capítulo 99

Luan Narrando

Eu tava com um sorriso no rosto desde que saí da reunião.
O cara era simplesmente Lucian Grainge. O maior nome da indústria, diretor executivo da Universal Music Group, sentado na minha frente, dizendo que tava interessado na minha carreira. Interessado em mim.

A reunião tinha sido rápida, mas produtiva. Ele foi direto: elogiou meu trabalho, disse que vinha acompanhando meus shows, meu crescimento, e que queria me ter no time dele. Eu mal conseguia acreditar. Era o tipo de conversa que você sonha ouvir a vida toda.

Ele disse que ia mandar preparar um contrato inicial, só pra formalizar, e depois entraria em contato pra marcarmos um novo encontro, dessa vez pra eu ler tudo com calma e, se estivesse de acordo, assinar.

Eu tava animado. Sentia como se finalmente estivesse prestes a virar uma chave enorme na minha carreira.

Quando cheguei em casa, ainda era cedo. O corredor do prédio tava quieto, e quando abri a porta já fui tirando a jaqueta, jogando as chaves na mesinha de entrada. Eu tava com a cabeça cheia de ideias, mas não esperava dar de cara com a cena que eu vi.

Marina, no meio da sala, de calça legging e top, numa daquelas posições malucas de yoga, com uma mulher loira sorridente explicando tudo pela TV.

Ela tava com uma perna esticada pro lado, a outra dobrada, as mãos apoiadas no chão. A expressão concentrada e, ao mesmo tempo, relaxada.

Fiquei parado por uns segundos na porta da sala, só olhando, tentando não rir alto.

Era inusitado.
E engraçado pra caramba.

- Que porra é essa? -soltei, com um tom divertido, encostando no batente da porta com os braços cruzados.

Ela só ergueu os olhos pra mim, sem desfazer a posição, com aquele ar blasé que só ela sabia ter:

- Yoga, Luan. -respondeu, como se fosse óbvio.

Eu não me segurei e dei uma risada curta, largando a jaqueta no sofá.

- Tá parecendo uma contorcionista do circo.

- Ah, vai se ferrar. -ela rebateu, mas com um meio sorriso.

Cheguei mais perto, me jogando no sofá, e fiquei ali, assistindo enquanto ela mudava de posição pra uma ainda mais estranha. Ela fechava os olhos de vez em quando, respirava fundo, e parecia completamente alheia a mim.

- Desde quando você faz isso aí? -perguntei, curioso.

- Desde que minha coluna começou a me matar por causa dessa barriga enorme. -ela respondeu, ainda com os olhos fechados.- E antes que você venha com piadinha, yoga faz bem pra gravidez. Relaxa, ajuda com a dor, essas coisas.

Assenti, ainda rindo baixo.

- Tá bom, tá bom. Só não vai dar um nó em si mesma e eu ter que te levar pro hospital, hein.

Ela abriu um olho, me fuzilou com o olhar e voltou a se concentrar na TV. Eu fiquei só observando. Tinha algo bonito naquela cena. Ela ali, com aquele barrigão, se esforçando pra cuidar dela mesma e da nossa filha…

Dei um sorriso leve, apoiando o cotovelo no encosto do sofá e pensando em como eu era sortudo por ter ela aqui.

Mas aí lembrei do que tinha acabado de acontecer na reunião. E meu sorriso aumentou.

- Ei. -chamei, depois de um tempo, e ela me olhou de novo, meio impaciente.- Tenho uma notícia pra te contar.

- Se for pra me zoar de novo, guarda. -ela murmurou.

- Não é zoeira, não. -falei, sentando direito, empolgado.- Tive uma reunião hoje com um cara da Universal. O cara. Lucian Grainge. Ele quer cuidar da minha carreira.

Os olhos dela se arregalaram na hora, e ela até saiu da posição estranha que tava pra sentar de lado no tapete, me encarando.

- Você tá falando sério?!

Assenti, sorrindo largo.

- Sério. Ele disse que vai mandar preparar um contrato, e depois a gente marca de novo pra eu ler e, quem sabe, assinar.

Ela abriu um sorrisão, colocando as mãos no rosto.

- Caralho, Luan… isso é… incrível! Eu não acredito!

Eu dei de ombros, fingindo modéstia, mas por dentro eu tava explodindo de orgulho.

- Pois é, né… agora eu vou ter que começar a me acostumar com gente importante me chamando pra almoçar.

Ela riu, balançando a cabeça, e estendeu a mão pra mim. Eu me levantei, segurei a mão dela e a puxei devagar pra ela não se desequilibrar. Ela me abraçou de lado, com aquele cheirinho familiar que sempre me acalmava.

- Eu tenho tanto orgulho de você, sabia? -ela disse, baixinho.

- Eu sei. -respondi, rindo baixinho, e beijei a têmpora dela.

Ficamos assim por alguns segundos. Só eu, ela, a TV ainda ligada no vídeo da mulher do yoga, e aquela sensação boa no peito.

Por um instante, o mundo lá fora não existia. Só eu e ela.

Marina voltou a fazer sua yoga, meu celular vibrou no bolso bem na hora em que eu ria sozinho dela tentando equilibrar a respiração enquanto a mulher da TV mandava ela alongar numa posição impossível. Atendi distraído, sem nem ver quem era.

- Alô?

Silêncio. Mas não era um silêncio vazio — era um silêncio pesado, cheio de respiração trêmula do outro lado. Meu sorriso sumiu na hora.

- …alô? Quem tá falando?

E então eu ouvi. Baixo, engasgado, entrecortado.

- L… Luan…

Era a Bruna. Minha espinha gelou.

- Bru? O que foi? Tá tudo bem?

Ela não respondeu de cara. Soluçava baixinho, tentando falar e não conseguindo. Eu me levantei devagar do sofá, já sentindo um aperto no peito.

- Fala comigo, Bruna… -insisti, preocupado.

Ela inspirou fundo e finalmente, num fio de voz entrecortado pelo choro, conseguiu soltar:

- O… Jus… tin… -e soluçou alto, como se a palavra por si só doesse nela.- sofreu acidente… carro... ele… ele tá no hospital… Luan… -a voz dela quebrou, virou pranto. — é g-grave…

Fechei os olhos, levando a mão à nuca, tentando segurar a reação. Senti meu coração disparar.

- Em qual hospital? -perguntei rápido, mas suave, pra não assustar ainda mais.

Ela balbuciou o nome em meio aos soluços e eu confirmei:

- Tô indo pra aí agora. Fica calma. Eu já chego.

Ela apenas chorava do outro lado. Desliguei sem prolongar a agonia dela e guardei o celular no bolso, já indo pegar a jaqueta.

Mas assim que ergui o olhar, dei de cara com a Marina sentada no tapete, ainda com a mão apoiada na barriga, me olhando com uma expressão de quem já sabia que algo ruim tinha acontecido só pelo meu rosto.

- Luan? -ela chamou baixinho.- Que foi? Quem era?

Eu fiquei parado, sentindo o nó subir na garganta. Eu podia… podia não contar. Podia só sair correndo dali e poupar ela por mais algumas horas. Mas não era certo. Era o irmão dela.

Fechei os olhos por um instante, respirei fundo, e fui até ela. Me ajoelhei na frente dela, segurando as mãos dela nas minhas.

- Marina… eu… -comecei, a voz baixa, tensa. Ela já arregalou os olhos, assustada.- Era a Bruna no telefone.

- O que aconteceu? -ela perguntou, a respiração acelerando.

Engoli em seco, sentindo o peito pesar.

- É o Justin… -a voz falhou por um segundo.- Ele… sofreu um acidente de carro. Tá no hospital. É grave.

Os olhos dela se encheram de lágrimas na hora. Ela levou as mãos à boca, como pra conter um grito.

- N-não… -ela murmurou, já com as lágrimas caindo.

- Eu… eu vou pra lá agora. Vou ver como ele tá. -falei, tentando manter a calma.

Ela me olhou, a respiração curta, e soltou sem hesitar:

- Eu vou junto.

- Marina… -tentei argumentar, preocupado.- Amor, você tá grávida, você não pode se estressar desse jeito, nem pegar esse corre-corre…

Mas ela já tava tentando se levantar, mesmo com a barriga pesada e as pernas trêmulas.

- Eu vou, Luan. -repetiu, firme, mesmo chorando.- É meu irmão. Eu não vou ficar aqui sem saber o que tá acontecendo.

Eu segurei os braços dela, ajudando-a se erguer devagar. Ela respirava fundo, tentando não desabar, mas a decisão já tava tomada no olhar dela.

Suspirei, derrotado, e peguei a bolsa dela enquanto ela ajeitava o casaco por cima da roupa.

- Tá… tá bom. Você vai. -falei baixo, cedendo.- Mas promete que não vai se descuidar. Qualquer coisa você me avisa, tá?

Ela assentiu rápido, ainda enxugando as lágrimas, e eu só consegui segurar a mão dela com força antes de sair puxando-a comigo porta afora.

Porque eu já sabia: não havia nada no mundo que a fizesse ficar longe do irmão naquela hora.

O caminho até o hospital foi um dos mais longos da minha vida. O silêncio dentro do carro só era quebrado pelos fungados da Marina tentando conter o choro. Eu dirigia com uma mão no volante e a outra segurando a dela, apertando de vez em quando pra que ela soubesse que eu tava ali.

Minha mente rodava. Lembrava da voz da Bruna, do jeito como ela mal conseguia falar. Do choque nos olhos da Marina quando eu contei. E agora eu me pegava olhando pelo retrovisor, desejando que quando chegássemos lá tudo não passasse de um susto.

Chegando na frente do hospital, larguei o carro na primeira vaga que vi, quase em cima da calçada. Desci rápido e já dei a volta pra ajudar a Marina a sair também. Ela respirava fundo, tentando se manter firme, mas os olhos estavam inchados, vermelhos.

- Devagar… tá? -pedi, segurando a mão dela firme enquanto a guiava pela porta de vidro.

Entramos e fui direto ao balcão. A recepcionista ergueu os olhos e me atendeu num tom neutro:

- Bom dia.

- Justin Drew Bieber. Ele deu entrada hoje, acidente de carro. -falei, direto.

Ela digitou algumas coisas no computador, depois olhou pra gente com um semblante grave.

- Ele tá no centro cirúrgico. Deu entrada em estado crítico. Só posso pedir que aguardem na sala de espera por enquanto.

Marina soltou um suspiro trêmulo ao meu lado e se apoiou em mim. Eu agradeci com a cabeça e a levei pra sala indicada.

Bruna tava lá. De pé, encostada na parede, os braços cruzados e o olhar perdido no chão. Quando nos viu, endireitou o corpo na hora, as lágrimas voltando a brotar.

Marina largou minha mão e foi direto pra ela, abraçando-a apertado.

- Bru… -ela murmurou, chorando baixo no ombro dela.- Ele vai ficar bem, né? Diz que ele vai ficar bem…

Bruna não respondeu. Só fechou os olhos e a abraçou mais forte, as duas dividindo um pranto que ninguém ali conseguia segurar.

Fiquei parado alguns segundos, olhando pra elas. Depois respirei fundo e me aproximei devagar, pousei a mão nas costas da Marina, dando um beijo rápido na têmpora dela.

- Vamos sentar… -sugeri, baixinho.- Vai ser um longo dia.

As duas assentiram, mas não soltaram as mãos uma da outra. Sentamos lado a lado nas cadeiras frias e desconfortáveis da sala de espera, com aquele cheiro de hospital e o som das portas automáticas abrindo e fechando lá fora.

Eu olhava de vez em quando pra porta do corredor, esperando qualquer médico aparecer.

E cada minuto que passava só aumentava o peso no meu peito.

Eu só queria que alguém entrasse por aquela porta e dissesse pra gente que ele ia ficar bem. Que ele ia sair dali vivo.

- Ele vai ficar bem. -murmurei mais pra mim mesmo do que pra elas, tentando acreditar.

Mas o silêncio da sala não prometia nada.

Marina fungou, enxugando as próprias lágrimas com as costas da mão e respirou fundo. Então virou devagar pra Bruna, a voz fraca, mas mais firme do que eu esperava pra alguém tão abalada:

- Bru… você… você já ligou pra mais alguém? -perguntou.

Bruna ergueu os olhos marejados e só balançou a cabeça, devagar, sem conseguir falar nada. Eu senti o coração apertar com a cena. Ela parecia pequena demais naquela cadeira, como se o peso de tudo tivesse esmagado ela por dentro.

Marina engoliu seco, pegou o celular dela com as mãos trêmulas e se levantou devagar, respirando fundo pra não desabar de novo.

- Eu… eu vou ligar pra eles, então. -disse, a voz embargada.

Eu só segui ela com os olhos enquanto ela se afastava, andando alguns passos pelo corredor até encontrar um canto mais vazio, encostando na parede. Vi quando ela fechou os olhos por um instante, respirando fundo antes de discar o número.

Só de imaginar a dor que ela tava sentindo por ter que ser ela a dar essa notícia, meu peito pesou ainda mais.

Voltei o olhar pra Bruna ao meu lado. Ela ainda encarava o chão, as mãos inquietas no colo, os ombros curvados. Eu não aguentei. Puxei ela de leve pra mais perto e a abracei de lado, sentindo o corpo dela tremer.

Ela deixou a cabeça encostar no meu ombro, e um soluço baixo escapou.

- Eu… eu não sei… -ela murmurou, quase sem voz.- Eu não sei o que eu faço, Luan…

- Ei… -sussurrei, passando a mão pelos cabelos dela.- Não precisa saber agora. Só respira. Ele vai precisar de você forte, tá?

Ela não respondeu, só fechou os olhos, deixando que eu a segurasse ali.

Odiava ver minha irmã assim. Sempre achei que Bruna era feita de aço, tão madura, tão dona dela mesma. Mas agora… agora ela só parecia despedaçada.

E isso me matava por dentro.

Enquanto isso, do outro lado da sala, vi a Marina falando baixinho ao telefone. Primeiro com a mãe do Justin, depois com o pai, depois com a Melanie — a postura dela sempre firme, mas a voz embargada denunciava o quanto ela também tava sofrendo.

E eu só podia ficar ali, abraçando uma e olhando pra outra, tentando dar conta de um peso que parecia grande demais até pra mim.

Tudo que eu podia fazer era torcer pra que, no fim daquele dia, a gente ainda tivesse um motivo pra acreditar que ele ia sair dessa.

Assim que a Marina desligou o último telefonema e voltou pra cadeira ao meu lado, ela parecia ainda mais pálida. Sentou devagar, respirando fundo, e apoiou as duas mãos na barriga como quem tentava se acalmar.

Fiquei só observando, mas não falei nada. O olhar dela já dizia tudo.

A espera foi longa. Longa demais. O tic-tac do relógio da sala de espera parecia mais alto que tudo. Marina permanecia com as mãos cruzadas, encarando um ponto fixo no chão, e Bruna de vez em quando se encolhia e passava a mão no rosto, tentando enxugar as lágrimas.

Depois de uns quarenta minutos, o som da porta se abrindo nos fez levantar a cabeça. Era o William, pai da Marina e do Justin, entrando apressado com a Melanie logo atrás. Ela parecia ainda mais assustada que a irmã, os olhos arregalados, como se ainda estivesse tentando acreditar naquilo tudo.

William abraçou Marina primeiro, forte, como se quisesse protegê-la do mundo inteiro. Depois foi até Bruna, que caiu nos braços dele num choro baixo. Melanie ficou ali, meio sem saber o que fazer, até que Marina a puxou pra perto e abraçou também.

Pouco depois, a porta abriu de novo, e dessa vez foi a Pattie, mãe do Justin, junto com o marido dela, Charlie. Pattie tinha os olhos vermelhos, o cabelo preso de qualquer jeito, claramente vinda de uma viagem rápida. Ela mal falou nada, só se ajoelhou na frente da Marina, pegando as mãos dela. Depois abraçou Bruna com força e sussurrou alguma coisa pra ela.

Eu fiquei ali de pé, sentindo um nó na garganta. Só de ver todo mundo reunido daquele jeito já dava pra perceber como aquele garoto era amado.

Enquanto o tempo arrastava, Bruna pegou o celular e ligou por videochamada pra babá só pra poder ver o Jack um pouquinho. Ele ria na tela, balbuciando e batendo as mãozinhas, sem fazer ideia do que acontecia aqui fora. Ela sorriu, mas era um sorriso triste, meio quebrado, antes de desligar.

Do lado de fora, dava pra ouvir o burburinho. Fãs e jornalistas já se aglomeravam em frente ao hospital. Não demorou nada pra notícia estourar nos sites de celebridades e redes sociais. “Justin Bieber sofre acidente de carro e está em estado grave”. Cada vez que alguém novo chegava à recepção, já vinha perguntando se era verdade, e a recepcionista logo os despachava pra fora.

Comprei comida pra todo mundo enquanto a espera parecia infinita — uns sanduíches, água, café. Marina quase não quis comer, mas insisti. Bruna pegou o dela sem nem olhar, só pra ter algo nas mãos.

Já devíamos estar ali há pelo menos duas horas quando a porta dupla do corredor finalmente abriu. Todos nós ficamos de pé ao mesmo tempo.

E, pra nossa surpresa, quem apareceu primeiro foi o Josh — padrasto da Marina e da Melanie — já com a máscara abaixada no queixo e o crachá balançando no peito. Ele ainda usava o pijama de cirurgião, e no rosto, uma seriedade que gelou todo mundo.

Atrás dele, vinha outra mulher de jaleco, com um coque apressado e olhar igualmente tenso, e era a mãe da Marina e da Melanie.

Eu fiquei sem reação por alguns segundos. Eles nem moravam aqui, moravam na Filadélfia. E ainda assim, estavam ali.

Marina foi a primeiro a falar, com a voz meio embargada:

- Mãe? Josh? O que vocês tão fazendo aqui?

Josh suspirou, abaixou a prancheta na mão e olhou pra gente:

- Eu e a Liana… fomos chamados assim que ele chegou. Por acaso, a equipe de trauma precisava de reforço, e nós… estávamos de plantão em Nova York por um congresso. -ele explicou, a voz baixa, cansada, mas profissional.

A mãe da Marina completou, ainda com a máscara pendurada no pescoço:

- Estamos acompanhando o caso desde que ele entrou. Eu fui a primeira a avaliar no trauma, junto com a doutora Sarah, tanto que ela quem veio falar com a Bruna mais cedo, e o Josh ficou responsável pela cirurgia.

Todos nós nos entreolhamos, um pouco sem reação. Pattie levou a mão à boca, já chorando de novo. Marina, do meu lado, tremia levemente, e eu segurei a mão dela com força.

- E aí? -perguntei, com a voz baixa, encarando o Josh.- Como ele tá?

Ele inspirou fundo antes de responder. O olhar sério dele encontrou o meu, depois passou por cada um de nós, como se pesasse bem as palavras.

E foi aí que eu percebi… a resposta não ia ser fácil de ouvir.

O silêncio era tão denso que eu sentia o ar pesado nos meus pulmões. Todos olhavam pra ele, esperando qualquer coisa, uma palavra que fosse, pra acabar com aquela angústia.

Josh respirou fundo outra vez, endireitou a postura, mas o olhar continuava grave.

- Ele chegou em estado crítico. -começou, a voz baixa, mas firme.- Teve um trauma torácico severo por causa do impacto do cinto, múltiplas costelas fraturadas, um colapso pulmonar e hemorragia interna.

Marina levou a mão à boca, e eu senti o aperto na mão dela ficando mais forte. Bruna fechou os olhos, como se estivesse tentando não desmoronar ali mesmo.

- Nós levamos ele direto pro centro cirúrgico. -continuou Josh.- A cirurgia durou quase três horas. Conseguimos controlar a hemorragia e reparar os danos imediatos. Ele… está vivo.

Um suspiro coletivo ecoou pela sala. Pattie caiu sentada na cadeira atrás dela, chorando. Eu fechei os olhos por um segundo, sentindo um peso sair do peito.

Mas Josh não tinha terminado.

- Ele ainda está em estado grave. -completou.- As próximas vinte e quatro horas são decisivas. Ele está sedado e entubado na UTI. Agora… é com ele.

Marina deixou escapar um soluço abafado. Eu a puxei pra mim, envolvendo os braços ao redor dela, sentindo o corpo dela tremer. Bruna sentou pesadamente na cadeira, cobrindo o rosto com as mãos. Melanie chorava baixinho encostada no pai, e William apenas balançava a cabeça devagar, o olhar perdido.

Liana colocou a mão no ombro da filha, apertando de leve.

- Ele é jovem, saudável. -disse, tentando soar um pouco otimista.- Ele tem chances. Mas vocês precisam ser fortes por ele agora.

Forte. Essa palavra pesou em mim. Eu não sabia se alguma daquelas pessoas tinha forças sobrando naquela noite.

- A gente… pode vê-lo? -perguntei, tentando manter a voz firme.

Josh olhou pra mim, depois pros outros.

- Um de cada vez. -respondeu.- Não mais que alguns minutos. Ele não vai responder, mas pode ouvir vocês.

Um silêncio pesado tomou conta da sala. Marina enxugou as lágrimas, ergueu a cabeça, se levantou com dificuldade e ia dar um passo à frente, mas parou. Virou-se devagar pra Bruna e segurou na mão dela.

- Bru… vai você primeiro. -disse, a voz ainda embargada, mas doce.- Ele vai querer ouvir você.

Bruna piscou, surpresa, as lágrimas voltando a escorrer.

- Eu? -a voz dela saiu fraca.- Não… eu… -balançou a cabeça, abaixando os olhos.- É melhor a Pattie ir primeiro. Ela… ela é a mãe dele.

Todos voltamos o olhar pra Pattie, que estava sentada, ainda com o rosto molhado de choro. Ela ergueu devagar os olhos pra Bruna e depois pra Marina. Ficou alguns segundos em silêncio antes de assentir com a cabeça, em concordância, a mão tremendo enquanto ajeitava a alça da bolsa no ombro.

Josh fez um gesto para ela e disse baixo:

- Eu levo você até lá.

Ela se levantou, ajeitou o cabelo de qualquer jeito e caminhou devagar atrás dele pelo corredor, sem olhar pra trás.

Marina respirou fundo e sentou outra vez ao meu lado, ainda segurando a mão da Bruna, tentando oferecer um pouco de força enquanto a gente esperava. Eu só fiquei ali, apertando a mão dela também, sentindo o nó na garganta crescer a cada segundo que passava.

E tudo que eu pensava era: segura firme, moleque. Segura firme por todos nós.

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