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Capítulo 133

Bruna Narrando

A imagem daquela foto granulada e a frase ameaçadora estavam gravadas a fogo na minha mente. Um pavor frio se instalou no meu peito e não ia embora. Eu estava assustada. Sabia, racionalmente, que o Justin tinha poder e recursos para cuidar da nossa segurança, que o Kenny e sua equipe eram os melhores no que faziam. Mas a lógica não acalma o medo irracional e visceral de uma mãe que acabou de ver uma foto dos seus filhos nas mãos de um desconhecido mal-intencionado.

Meu último ano de Moda na Columbia, minhas provas, meus projetos de formatura... tudo isso pareceu subitamente trivial, uma preocupação de uma vida que não era mais a minha. A única coisa que importava no mundo estava bem ali, brincando no tapete da sala.

Para não desmoronar, fiz a única coisa que podia: me juntei a eles. Sentei no chão, forçando um sorriso, e o cheiro doce e infantil deles me acalmou por um instante. Chloe, como sempre fazia, veio imediatamente para trás de mim com sua escovinha de boneca e começou a pentear meu cabelo com uma concentração séria.

- Vou deixar você bem bonita, mamãe. -ela disse, com sua vozinha.

- Obrigada, meu amor. -respondi, tentando manter a voz firme.

Jack empurrava um carrinho, fazendo barulho de motor, completamente alheio à nuvem de tensão que pairava na sala. Olhei para o lado e vi o Justin. Ele estava nervoso, andando de um lado para o outro enquanto conversava com a Elizabeth e a Georgia em um tom baixo e urgente, explicando a situação, garantindo que elas também estivessem seguras. A intenção era clara: não assustar as crianças.
O Jack não entenderia, ele ainda era um bebê. Mas a Chloe... a Chloe era esperta demais. Senti quando ela parou de pentear meu cabelo por um segundo.

- Mamãe, por que o papai tá bravo? -ela sussurrou perto do meu ouvido.

Gelei. Forcei uma risada suave.

- O papai não está bravo, meu bem. Ele só está resolvendo umas coisas de trabalho de adulto. Coisas chatas. -menti, rezando para que ela acreditasse.

Ela pareceu aceitar a resposta e voltou a pentear meu cabelo, mas eu sabia que ela continuava atenta. Crianças sentem o medo. E a nossa casa, naquele momento, estava cheia dele.

Vi o Justin terminar a conversa com as babás. Elizabeth e Georgia, embora visivelmente abaladas, assentiram com uma determinação profissional e levaram as crianças para a sala de brinquedos, uma desculpa de que iriam montar uma "fortaleza de almofadas". Um refúgio. Para eles, e para nós.

Assim que ficamos sozinhos na sala, Justin veio até mim. Ele se ajoelhou na minha frente, no tapete, e pegou minhas mãos. As mãos dele estavam frias.

- Não entendo como pode ter algo relacionado ao Scooter. -falei, com a voz baixa.

- O Kenny descobriu que o celular é pré-pago, descartável. Impossível de rastrear. Mas... ele foi ativado hoje de manhã, no Queens. Perto de um prédio que pertence à Ithaca Ventures.

Ithaca Ventures. A antiga empresa do Scooter.

Senti um calafrio percorrer minha espinha. Um fantasma que eu achava que estava enterrado.

- Mas... o Scooter não está morto? -sussurrei, a pergunta soando estúpida no momento em que a fiz.

- Ele está. -Justin confirmou, o maxilar travado.- Mas o ninho de cobras que ele deixou para trás, não. Pode ser qualquer um. Alguém que trabalhava pra ele, alguém que acha que eu devo alguma coisa, alguém querendo vingança...

A lista de possibilidades era aterrorizante. Aquilo não era um fã maluco. Era algo direcionado. Pessoal.

Ele apertou minhas mãos com força.

- Mas agora a gente sabe por onde começar a procurar. Não estamos mais no escuro.

Naquele momento, a porta da sala de brinquedos se abriu e Jack veio correndo na nossa direção, com um pequeno dinossauro de plástico na mão.

- Mamãe, papá! Rawrr!

Ele estendeu o brinquedo para o Justin. Eu vi o esforço que meu marido fez para relaxar o rosto, para forçar um sorriso. Ele pegou o dinossauro.

- Rawrr pra você também, campeão. -ele disse, a voz tentando soar divertida.

Mas enquanto ele fazia o dinossauro "lutar" com sua mão, seus olhos encontraram os meus por cima da cabeça do nosso filho. E neles, eu vi a mesma determinação assustada que sentia no meu próprio peito. Estávamos ali, no chão da nossa casa, brincando de dinossauro. E, ao mesmo tempo, nos preparando para lutar contra um monstro de verdade.

A Elizabeth, a quem chamávamos de Beth, apareceu na porta da sala, com um sorriso sem graça.

- Desculpem por isso. Ele é rápido. -ela disse, estendendo a mão para o Jack.- Vem Jack, vamos terminar nossa fortaleza.

Jack correu para ela, e logo estávamos sozinhos novamente, o silêncio pesado voltando a nos engolir. A menção ao Scooter tinha aberto uma porta escura na minha memória, e a sensação de perigo que sentíamos agora se conectou a uma outra, mais antiga.

Lembrei do Nathan. O nome dele ainda deixava um gosto amargo na minha boca.
Aquele idiota que eu conheci e "namorei" quando o Jack tinha apenas meses de vida, numa época em que eu estava vulnerável. O "advogado" charmoso que, na verdade, era um jornalista de entretenimento, um abutre. Lembrei da humilhação, da dor, quando a notícia da briga que eu tive com a Marina vazou na mídia, com detalhes íntimos. Foi ele. Ele vendeu nossa dor por uma matéria de capa.

E junto com a memória dele, veio a do seu advogado, Austin Blackwell. Um homem liso, com um sorriso que não alcançava os olhos.

Mas a parte mais arrepiante, a peça que nunca se encaixou, veio depois. Dez meses após o acidente, quando o Justin finalmente teve forças para ir até o escritório do Scooter para começar a resolver a bagunça de sua carreira, ele voltou pra casa estranho, a noite saiu mais estranho e quando voltou, ele voltou para casa pálido, Scooter havia morrido e então ele me contou tudo, inclusive de ter visto os dois no escritório do Scooter.

Scooter os conhecia. O jornalista que se infiltrou na minha vida e o advogado dele tinham alguma ligação com o maior inimigo do meu marido. Até hoje, a gente não sabe o que eles faziam lá.

Uma nova onda de medo, mais específica e mais pessoal, me atingiu. Olhei para o Justin, que também estava com o olhar perdido, claramente percorrendo o mesmo labirinto de memórias que eu.

- Justin... -sussurrei, a voz trêmula.- O Nathan... e o Austin. Você acha que... que eles teriam coragem de...?

Não precisei terminar a frase. A pergunta ficou pairando entre nós. O inimigo que estávamos procurando talvez não fosse um fantasma anônimo do passado do Justin. Talvez fosse um fantasma do meu.

A pergunta ficou suspensa no ar, carregada de um pavor que eu não sentia há muito tempo. Justin me encarou, os olhos escuros e sérios, e assentiu lentamente. O medo no meu estômago se solidificou, virando uma pedra de gelo. Então, não era só uma paranoia minha.

- Eu pensei neles também. -ele confirmou, a voz baixa e controlada. Ele se levantou do chão e começou a andar pela sala, as mãos na nuca, pensando alto.- Faz sentido, de um jeito doentio. O Nathan é jornalista, um paparazzi com diploma. Tirar fotos escondido, de longe, é exatamente o tipo de coisa que ele sabe fazer.

Ele parou, virando-se para mim.

- Mas... eles não têm culhão pra fazer isso sozinhos. -ele disse, a convicção em sua voz era inabalável.- Vazar uma fofoca sobre nós é uma coisa. Fazer uma ameaça direta contra os meus filhos? Contra a minha família? Isso é outro nível de perigo, outro nível de risco.

Ele se aproximou de mim de novo, os olhos focados, a mente estratégica já trabalhando.

- Se eles estiverem envolvidos, pode ter certeza que tem alguém maior por trás. Alguém com poder de verdade, com dinheiro. Não é qualquer pessoa.

As peças do quebra-cabeça começaram a se encaixar de uma forma terrível. A imagem deles na sala do Scooter. A ameaça vinda de um celular ativado perto de um prédio da empresa dele.

- O Scooter... -sussurrei, a ficha caindo.- Ithaca Ventures. O Nathan e o Austin estavam lá. Tem que ser alguém de lá. Alguém que assumiu os negócios sujos dele depois que ele morreu.

Justin pegou o celular de novo, o rosto uma máscara de determinação fria.

- É exatamente o que eu vou falar pro Kenny investigar.

O inimigo não era mais um fantasma sem rosto. Tinha um nome. E, aparentemente, tinha um chefe. A situação tinha acabado de ficar infinitamente mais perigosa.

Justin pegou o celular, o polegar já pairando sobre o contato do Kennh. Ele me olhou, e eu assenti, um acordo silencioso de que estávamos juntos nisso, não importava o quão feio ficasse.

Ele ligou. A conversa foi curta, direta e gelada. Eu fiquei sentada no sofá, ouvindo apenas o lado dele, e foi o suficiente para entender que o Justin pai e marido assustado tinha dado lugar ao Justin Bieber que tinha uma grande carreira e querendo ou não, também tinha poder.

- Kenny eu tenho nomes para você. -ele disse, a voz sem emoção.- Nathan Miller e Austin Blackwell. O Miller é jornalista, Blackwell é o advogado dele. Ambos tinham ligações com o Scooter.

Ele fez uma pausa, ouvindo.

- Exato. Eu quero tudo sobre eles. Contas bancárias, registros telefônicos, com quem eles têm se encontrado nas últimas semanas. Quero saber até a cor da cueca que eles estão usando. E quero vigilância neles, 24 horas por dia. Se um deles espirrar, eu quero saber. O objetivo é descobrir para quem eles estão trabalhando. Tem alguém por trás disso, alguém com dinheiro e poder.

Outra pausa.

- Mantenha-me informado. A cada hora.

Ele desligou. O silêncio que se instalou na sala era diferente agora. Não era o silêncio do medo, mas o silêncio de uma sala de guerra depois que as ordens foram dadas.

Ele se virou para mim, a expressão ainda dura.

- E a gente? O que a gente faz agora? -perguntei, a realidade da nossa situação começando a pesar.- As crianças... a minha faculdade...

- Por enquanto, ninguém sai desta casa. -ele decretou, a voz inquestionável.- Ninguém. O Kenny vai organizar tudo que a gente precisar, supermercado, qualquer coisa que seja. As crianças não vão para o parquinho. E você... -ele hesitou, sabendo que essa seria a parte mais difícil para mim.- Você não vai para a universidade até a gente resolver isso.

Senti meu estômago afundar. Meu último ano. Minha formatura. Mas olhei através da porta para a sala de brinquedos, de onde vinha o som abafado da risada da Chloe. A escolha não era uma escolha.

- Tudo bem. -concordei, a voz baixa.

Ele veio e sentou ao meu lado, pegando minha mão de novo. A força tinha saído de sua postura, e agora ele era apenas o meu marido de novo.

- Vai ser só por alguns dias, eu prometo. -ele disse, mais para se convencer do que para me convencer.

O celular de Justin tocou, provavelmente era Kenny de novo, eu aproveitei que ele foi atrnder e subi para o nosso quarto. Precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa, para sentir um pingo de controle sobre a minha vida, que de repente parecia estar desmoronando.

Peguei meu notebook, sentei na beira da cama e digitei um e-mail formal, com as mãos firmes, para todos os meus professores da Columbia. Expliquei que, por motivos pessoais urgentes, eu me ausentaria das aulas presenciais pelo próximo mês. Pedi, educadamente, se eles poderiam me enviar o material de aula e os trabalhos por e-mail, para que eu não perdesse nada. Foi assim que eu fiz nos primeiros meses depois que o Jack nasceu, e os professores foram super compreensivos. Sei que não seria um problema.

Enviei o e-mail. Aquele pequeno ato de normalidade, de planejar um futuro acadêmico, pareceu um absurdo. Fechei o notebook e o guardei. Peguei meu celular, que estava na mesinha de cabeceira. Meu dedo, quase por vontade própria, abri a conversa com o Justin e reli a última mensagem que ele tinha me mandado.

"Preciso que você venha pra casa. Agora. Não se preocupe, as crianças estão bem e a caminho daqui, mas aconteceu uma coisa. Venha pra casa, por favor. Eu te amo."

Ler aquelas palavras de novo, agora que eu sabia o motivo, fez o terror inicial voltar com tudo. A adrenalina que me manteve de pé tinha ido embora, e o que sobrou foi um medo cru e paralisante. Eu chorei. Um choro silencioso, de pura angústia. Eu odiava aquela sensação. Odiada ficar sem saber o que fazer, com medo, de ficar assim, "no escuro", à mercê de uma ameaça invisível.

Senti a cama afundar ao meu lado e, em seguida, os braços do Justin me envolveram, me puxando para o seu peito. Fiquei ali, soluçando, enquanto ele me abraçava, tentando me passar a segurança que nem ele mesmo sentia.

- A gente vai passar por isso. -ele sussurrou no meu cabelo.

Afastei meu rosto do peito dele, olhando para ele com os olhos molhados. Uma ideia, uma solução tão óbvia, me ocorreu.

- Justin... por que você não fala com o Charlie? -perguntei.- Ele é o seu padrasto. Ele é o chefe da polícia de Nova Jersey, que não é tão longe daqui. Ele poderia resolver isso.

Justin suspirou, um suspiro cansado.

- Porque contar pro Charlie é a mesma coisa que contar pra minha mãe. -ele disse, com uma lógica triste e irrefutável.- E você sabe como ela é. Ela entraria em pânico, ligaria a cada cinco minutos, não conseguiria dormir. Seria mais uma frente de batalha pra gente administrar.

Ele enxugou uma lágrima do meu rosto.

- Por enquanto, é melhor ninguém da família saber disso. Vamos tentar resolver do nosso jeito primeiro. Mais silencioso. Mais rápido.

Eu assenti, entendendo o raciocínio dele. Estávamos sozinhos nisso, tentando proteger não só nossos filhos, mas todos que amávamos, do medo que agora era nosso companheiro constante.

Eu me aninhei em seu abraço, absorvendo a força silenciosa que ele me passava. Assentir com a cabeça foi aceitar a nossa nova e terrível realidade: estávamos por nossa conta.

Depois de um longo momento, eu me afastei, enxugando o rosto com as costas das mãos. O choro tinha limpado um pouco da minha angústia, e no lugar dela, uma determinação fria começou a se instalar. Eu não podia desmoronar. Meus filhos precisavam de mim.

- Ok. -falei, a voz mais firme agora.- Ok, você tem razão. Sem pânico. Então... o que a gente faz agora? Qual é o plano pra hoje? Para o resto do dia?

Justin pareceu aliviado ao ver a mudança em mim.

- O plano é normalidade. -ele disse, com convicção.- Pelo menos, para eles.

- E as crianças? -perguntei, o coração se apertando de novo.- A gente não pode deixar eles sentirem que tem alguma coisa errada.

- E não vamos. -ele me garantiu.- Vamos fazer uma noite de cinema. Com tudo que eles têm direito. Pipoca, um forte de cobertores e almofadas aqui na sala, pijama o dia todo. Vamos fazer hoje ser o dia mais legal do mundo para eles.

A ideia era tão doce, tão paternal, que fez meus olhos marejarem de novo, mas dessa vez, de amor.

- E a Beth e a Georgia?

- Já falei com elas. Ofereci um carro com segurança para levá-las para casa, se quisessem. Elas insistiram em ficar. Disseram que as crianças precisam da rotina delas. -ele sorriu de leve.- Elas são da família.

A lealdade delas era um bálsamo.

- Ok. Noite do pijama. -concordei, me levantando.- Eu vou pegar os cobertores. E o jantar?

- O Kenny já está cuidando disso. A pizza preferida deles vai chegar, mas um dos nossos homens vai buscar. Ninguém de fora entra aqui hoje.

Desci pro andar debaixo, fui até a sala de brinquedos, forçando o sorriso mais convincente que eu tinha.

- Ei, meus amores! Quem quer fazer uma festa do pijama gigante na sala com a mamãe e o papai?

Os olhinhos deles brilharam, e a resposta foi um grito animado.

Horas mais tarde, estávamos todos ali, espremidos debaixo de um forte improvisado com lençóis e cadeiras. A sala estava escura, iluminada apenas pela luz da televisão que passava Moana pela centésima vez. O cheiro de pipoca estava no ar. Jack já tinha adormecido no meu colo, e Chloe estava quase lá, a cabeça apoiada no peito do Justin.

No meio da escuridão, olhei para o meu marido por cima das crianças. Ele me olhou de volta. Trocamos um sorriso cansado, cheio de um significado que só nós entendíamos. Enquanto o mundo lá fora parecia perigoso e incerto, ali dentro, debaixo de um teto de lençóis, protegendo o sono dos nossos filhos, nós éramos invencíveis.

[...]

A noite foi longa. Rolei no colchão, presa em um ciclo de pesadelos indistintos, acordando a cada hora com o coração disparado. Quando o sol finalmente nasceu, me levantei em silêncio para não acordar o Justin e as crianças. O cansaço pesava em meu corpo, mas a necessidade de criar uma rotina, uma ilusão de normalidade, era mais forte.

Fui para a cozinha e comecei a fazer o café da manhã. Panquecas. Panquecas tradicionais, com mirtilos, para mim e para o Justin, e panquecas em formato de Mickey para as crianças. Enquanto a massa sibilava na frigideira, minha mente trabalhava. Teríamos que criar uma lista de atividades para essas crianças. Eles estavam acostumados a sair, a correr no parque, a ver outros amigos. Agora, ficariam presos em casa. O desafio de preencher os dias deles sem que percebessem o medo que nos cercava parecia monumental.

Enquanto eu passava o café, o cheiro enchendo a cozinha, ouvi batidas suaves na porta da frente. Meu corpo retesou por um instante, um reflexo do medo constante, mas relaxei ao lembrar da equipe lá fora.

Abri a porta e dei de cara com o Kenny, ele tinha um sorriso pequeno e tranquilizador no rosto.

- Bom dia, Sra. Bieber. Pensei que as crianças poderiam gostar disso. -ele disse, me estendendo uma sacola de supermercado.

Peguei a sacola e olhei dentro: estava cheia de frutas frescas, iogurtes e alguns dos doces favoritos da Chloe e do Jack. Um gesto tão atencioso.
- Kenny, muito obrigada. De verdade. -agradeci, com sinceridade.- Mas pode me chamar só de Bruna, sem essa de senhora Bieber. Você e seus homens querem um café? Eu acabei de passar.

Ele balançou a cabeça, educadamente.

- Obrigado, mas não precisa se preocupar com a nossa alimentação. Estamos bem. O importante é que vocês fiquem seguros e tranquilos.

- Obrigada. -repeti, e dessa vez, era por tudo. Pela segurança, pela gentileza.- Por tudo o que você está fazendo.

- Se precisar, estamos as ordens. -ele finalizou e saiu.

Fechei a porta e me encostei nela por um segundo. Éramos prisioneiros em nossa própria casa, dependendo de homens armados para nos trazer frutas. Voltei para a cozinha, indo guardar as coisas, no exato momento em que ouvi os passinhos apressados das crianças vindo pra cozinha. Respirei fundo e coloquei o sorriso mais convincente que consegui no rosto. O show tinha que continuar.

- Bom dia, meus amores! -falei, com a voz mais animada que consegui, me virando para eles no momento em que invadiram a cozinha.- Quem quer panquecas do Mickey?

- EU! -Chloe gritou, correndo para a sua cadeirinha. Jack, logo atrás, apenas bateu palmas, animado.

Coloquei os pratos na frente deles, e a alegria pura em seus rostos ao verem as panquecas com o formato do personagem foi um bálsamo para o meu coração ansioso. Comecei a servi-los, colocando frutas e um pingo de mel, quando senti os braços do Justin me envolverem por trás, a cabeça dele descansando no meu ombro por um instante.

- Bom dia. -ele sussurrou perto do meu ouvido.

- Bom dia. -respondi, no mesmo tom.

Trocamos um olhar rápido por cima da cabeça das crianças. Um olhar que dizia "eu também não dormi nada", "estou apavorado", e "nós vamos conseguir" tudo ao mesmo tempo, sem precisar de uma única palavra.

Ele se sentou com as crianças, e o café da manhã começou. A conversa era leve, focada inteiramente neles. "Chloe, come devagar, meu amor", "Jack, não, a gente não joga a uva no chão". Nós estávamos atuando, representando o papel de pais normais em uma manhã de quinta normal. Mas, por baixo de cada sorriso, de cada garfada na minha panqueca, a tensão era palpável. Cada risada da Chloe era um lembrete do que estávamos protegendo.

Foi ela, claro, quem fez a primeira pergunta perigosa.

- Papai, por que o tio Kenny trouxe comida pra gente? -ela perguntou, com a boca cheia de panqueca.- Eu acordei e ouvi ele.

Vi o Justin engolir o café antes de responder, o sorriso nunca vacilando.

- O papai está super, super ocupado com um trabalho novo e secreto, princesa. -ele disse, piscando para ela.- Então, o Kenny é o nosso ajudante especial por alguns dias, pra mamãe e eu podermos ficar mais tempo em casa brincando com vocês. Legal, né?

- Um ajudante especial! -Chloe repetiu, os olhos brilhando, a ideia parecendo a maior aventura do mundo.

Ela tinha comprado a história. Por enquanto. Terminei meu café, o estômago ainda revirado. O primeiro desafio do dia tinha sido superado. Mas eu me perguntava quantos mais viriam, e por quanto tempo nossa atuação conseguiria proteger a inocência deles.

Após o café, as crianças correram para a sala de brinquedos com as babás que haviam chegado, e o som da brincadeira deles se tornou um ruído de fundo distante. Eu fiquei na cozinha, juntando os pratos sujos, e o Justin começou a me ajudar, lavando a louça em silêncio. Era uma rotina doméstica familiar, mas hoje, cada gesto era pesado, cada segundo de silêncio era preenchido por pensamentos sombrios.

Enquanto eu limpava o melado grudento da mesa, uma pergunta incômoda, que estava no fundo da minha mente desde que vi a foto, veio à tona com força total. Parei o que estava fazendo e me virei para o Justin, que enxaguava um prato.

- Justin... -comecei, a voz baixa. Ele me olhou, percebendo a seriedade no meu tom.- Eu estou pensando numa coisa. Como eles sabiam?

- Sabiam o quê? -ele perguntou, secando as mãos.

- Como sabiam quem eram a Chloe e o Jack? -as palavras saíram, carregadas de uma nova camada de medo.- Todas as vezes que a gente posta uma foto deles, a gente tampa o rosto com um emoji. A gente nunca deixa os paparazzi chegarem perto o suficiente pra ter uma foto nítida. Como a pessoa que nos ameaçou sabia exatamente quais crianças procurar no meio daquele parquinho?

Vi o entendimento, e em seguida o horror, se espalhar pelo rosto do Justin. A implicação da minha pergunta pairou no ar entre nós, gélida e aterrorizante. Ele se encostou na pia, a expressão endurecendo.

- Merda. -ele sussurrou, passando a mão pelo rosto.- Você tem razão. Eu não tinha pensado nisso.

Ele me encarou, e eu vi o mesmo medo que sentia refletido em seus olhos.

- Isso significa... que é alguém que já viu nossos filhos. Alguém que conhece a nossa rotina. Alguém que já esteve perto o suficiente para saber exatamente como eles são.

A revelação de que o inimigo era alguém que conhecia nossos filhos de perto pairou no ar, mais assustadora do que qualquer ameaça anônima. Minha mente, em um turbilhão de pânico, voltou imediatamente para o nome que tínhamos conjurado. Nathan.

Mas... não fazia sentido completo.

- O Nathan... -falei, mais para mim mesma do que para o Justin, tentando organizar os pensamentos.- Eu não sei se ele poderia reconhecer o Jack. Quando ele... quando ele estava por perto, o Jack era um bebê. Tinha meses de vida. Agora ele tem dois anos, está completamente diferente. Nem a Chloe ele seria capaz de reconhecer, eles não se conheceram e a Caitlin não postava ela nas redes.

Justin franziu a testa, considerando o que eu disse.

- É um bom ponto. -ele concordou.- Um bebê de menos de 5 meses e um menino de dois anos são praticamente duas pessoas diferentes.

Ele parou, o olhar se perdendo por um momento enquanto a engrenagem em sua mente girava. E então, ele olhou para mim, uma nova e terrível possibilidade surgindo em seus olhos.

- A não ser que... -ele disse, a voz baixa e carregada.- A não ser que ele não tenha parado de observar.

Gelei. A ideia era tão horrível que meu corpo reagiu antes que minha mente pudesse processá-la por completo. A possibilidade de que não fosse um fantasma do passado que voltou, mas um que nunca foi embora. Alguém que esteve nas sombras por todo esse tempo, nos observando, vendo nossos filhos crescerem de longe.

Todas as nossas idas ao parque, os passeios, os aniversários. Cada momento que nos sentimos seguros, em família. Será que estivemos sendo vigiados o tempo todo? A sensação de segurança da nossa casa, da nossa fortaleza, se desfez. 

O perigo não estava apenas batendo à nossa porta. Ele já conhecia o caminho para dentro.

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