Luan Narrando
A transição de Paraty para Tulum foi como trocar um sonho por outro. Saímos do charme rústico e colonial do Brasil para a energia boêmia e chique da Riviera Maya. O verde denso da Mata Atlântica deu lugar ao azul-turquesa inacreditável do Caribe, e as ruas de pedra foram substituídas por areia branca e fina que parecia talco sob os nossos pés.
Já estávamos aqui há alguns dias, e o ritmo era outro. Menos aventura, mais contemplação. Os dias se resumiam a acordar tarde, tomar café da manhã com vista para o mar, ler em uma rede e decidir em qual tom de azul iríamos mergulhar.
Eu observava a Marina, deitada na espreguiçadeira ao meu lado em um clube de praia. Ela estava de olhos fechados, com um sorriso sereno no rosto, a pele bronzeada brilhando sob o sol mexicano. O drama do casamento, a confusão com a Melanie, a presença do Victor... tudo aquilo parecia uma vida distante, um filme ruim que tínhamos assistido e já esquecido. Vê-la assim, completamente em paz, era a única coisa que importava.
- Você tá feliz? -perguntei baixo, sem querer quebrar o encanto do momento.
Ela abriu os olhos lentamente, virando a cabeça na minha direção. O sorriso dela se alargou.
- Feliz é pouco. -ela respondeu, a voz preguiçosa.- Eu tô em paz. Aqui, com você... é tudo perfeito.
Peguei a mão dela, entrelaçando nossos dedos sobre o pequeno espaço que nos separava.
- Gosto de te ver assim.
- Eu também gosto de estar assim. -ela disse, apertando minha mão.- Mas já estou com uma saudade da nossa pequena.
Eu sorri.
- Eu também. Falando nisso, minha mãe mandou um vídeo dela hoje de manhã, toda lambuzada de mamão.
O rosto dela se iluminou.
- Me mostra!
Peguei meu celular e mostrei o vídeo. Ficamos ali, assistindo à nossa filha, agora, milhares de quilômetros de distância, rindo das caretas que ela fazia. Éramos um casal em lua de mel, mas já éramos, acima de tudo, pais.
- Eu te amo. -falei, bloqueando o celular e voltando a olhar para ela.
- Eu também te amo, meu marido. -ela respondeu, enfatizando a última palavra.
O sol estava quente, a bebida estava gelada, e a minha esposa estava ao meu lado. Não havia mais nada no mundo que eu pudesse querer.
O sol começou a baixar no horizonte, pintando o céu de cores quentes e deixando o ar mais ameno. A brisa do mar era preguiçosa e o som das ondas, hipnotizante. Estávamos nesse estado de torpor feliz quando um garçom se aproximou da nossa espreguiçadeira.
- Buenas tardes, ¿les gustaría algo más para tomar? (Boa tarde, você gostaria de algo mais para tomar?) -ele perguntou, com um sotaque local.
Antes que eu pudesse sequer processar a frase e tentar uma resposta no meu portunhol enferrujado, a Marina se ajeitou, tirando os óculos de sol.
- Sí, por favor. Dos margaritas de fresa, con sal en el borde. (Sim, por favor. Duas margaritas de fresa, com sal na borda.) -ela respondeu, com uma fluidez e um sotaque que me deixaram de queixo caído.- Gracias.
Pense numa surpresa que tive quando, no primeiro dia que chegamos, vi minha esposa falando uma outra língua sem ser inglês e português com a maior naturalidade do mundo. Eu tinha ficado tão chocado que até esqueci de perguntar onde e quando ela aprendeu.
Esperei o garçom anotar nossos pedidos e se afastar. Quando ficamos a sós novamente, eu me virei para ela, com um sorriso incrédulo no rosto.
- Ok. A gente precisa conversar sobre isso. -falei, rindo.- Quando exatamente você aprendeu a falar espanhol fluente e por que eu nunca soube disso?
Ela gargalhou, uma risada gostosa que me fez sorrir junto.
- Ah, isso... -ela disse, parecendo um pouco envergonhada.- Foi na minha adolescência. Eu tive uma fase de hiperfoco total em RBD.
- RBD? A banda? -perguntei, surpreso.
- A banda, a novela, tudo! -ela confirmou, os olhos brilhando com a lembrança.- Eu fiquei tão obcecada que decidi que precisava aprender a língua para cantar as músicas direito e entender tudo que eles falavam nas entrevistas.
Ela deu de ombros, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
- Eu assisti a novela Rebelde inteira, todos os 440 capítulos, no idioma original, só com legenda em espanhol, para aprender e exercitar o cérebro.
Eu a encarei por um segundo e depois comecei a rir. Uma risada alta, de pura admiração pela pessoa maluca e maravilhosa com quem eu tinha casado. Aprender uma língua inteira por causa de uma novela mexicana. Isso é muito Marina. E eu amava cada pedacinho disso.
Enquanto eu ria, meu cérebro começou a fazer umas contas rápidas. RBD... Rebelde... A risada foi diminuindo e se transformou num sorriso curioso.
- Espera aí, espera aí... -falei, levantando a mão como se precisasse pausar o mundo para entender uma coisa.- Deixa eu ver se eu entendi a linha do tempo direito.
Ela me olhou, parando de rir, curiosa com a minha seriedade repentina.
- A novela Rebelde acabou lá por 2004, né? E a banda, em 2008.
- É, por aí. -ela confirmou, dando de ombros.
Eu a encarei, um sorriso malicioso se formando no meu rosto.
- Meu amor, com todo o respeito... a novela acabou dois anos antes de você nascer. E quando a banda terminou, você tinha dois aninhos de idade.
A ficha pareceu cair para ela, que arregalou os olhos e depois começou a rir, um pouco sem graça.
- Então você não foi só uma fã obcecada. -continuei, rindo alto.- Você foi uma fã arqueóloga! Virou fã uns treze anos depois que a banda já tinha virado história!
Ela me deu um tapa de leve no braço, o rosto vermelho.
- A arte é atemporal, tá bom? E o amor não tem data de validade! -ela se defendeu, me fazendo rir ainda mais.
Naquele momento, o garçom chegou com as nossas margaritas. Peguei a minha, ainda rindo, e ergui para um brinde.
- Um brinde à minha esposa, fluente em espanhol por causa de uma banda que ela só foi descobrir uma década depois. Você é a melhor.
Ela revirou os olhos, mas brindou comigo, o sorriso mais lindo do mundo no rosto.
Demos um gole nas nossas margaritas, o gosto doce e cítrico perfeito para a noite quente que se iniciava em Tulum.
- Já que você é uma fã tão dedicada, uma verdadeira arqueóloga do pop latino... -comecei, ainda no clima de brincadeira.- ...então você tem que me dar uma prova. Canta uma pra mim.
Marina, que estava prestes a tomar outro gole, engasgou.
- O quê? Não! -ela disse, o rosto ficando vermelho na hora.- De jeito nenhum! Aqui? Tá maluco?
- Ah, vai, amor. -insisti, me inclinando para mais perto dela, com meu melhor sorriso pidão.- Só um pedacinho. Bem baixinho, só pra mim. Por favor. Pro seu marido, que te trouxe pra lua de mel dos seus sonhos.
Ela revirou os olhos, mas eu vi um sorrisinho se formar no canto da boca dela. Ela olhou para os lados, como se para se certificar de que ninguém estava prestando atenção em nós. Então, ela respirou fundo, e com a voz mais suave e tímida do mundo, começou a cantar, quase num sussurro.
- Sálvame del olvido, sálvame de la soledad...
Minha vontade de rir desapareceu no exato momento em que as palavras saíram da boca dela. A pronúncia era perfeita, a melodia era doce, e havia uma sinceridade na voz dela que vinha direto da sua alma de fã adolescente. Ali, sob a luz da lua, com o som das ondas do Caribe como única instrumentação, a voz dela em espanhol era a coisa mais linda e cativante que eu já tinha ouvido.
Ela cantou só mais um verso e parou, envergonhada, escondendo o rosto atrás do copo de margarita.
Eu fiquei em silêncio por um momento, apenas olhando para ela, completamente apaixonado. O sorriso no meu rosto não era mais de zoação, era de puro encanto.
Essa mulher me surpreende a cada dia. E eu tinha a sorte de poder passar o resto da minha vida descobrindo cada uma de suas surpresas.
Afastei o copo de margarita dela com o dedo, forçando-a a me olhar.
- Ei, isso foi incrível! -falei, a voz suave, segurando a mão dela sobre a mesa.- Isso foi... lindo, meu amor. De verdade. Sua voz é linda.
Ela ficou ainda mais tímida, as bochechas corando sob o brilho suave das tochas ao nosso redor. Ela balançou a cabeça, claramente sem graça com o elogio. Para disfarçar, ela deu um gole grande na sua bebida e mudou de assunto, mergulhando de volta no seu universo adolescente.
- Ah, para, é bobeira. -ela disse, apressada.- Mas já que estamos falando disso, eu preciso confessar... eu não era fã da Mia. Eu queria ser a Roberta.
Eu ri, surpreso.
- A Roberta? A rebelde de cabelo vermelho?
- Sim! -ela confirmou, os olhos se animando ao entrar no personagem.- Ela era tão forte, não levava desaforo pra casa, falava o que pensava. E, claro... -ela baixou o tom, como se contasse o maior segredo do mundo.- ...eu era completamente apaixonadinha no Diego. Achava o romance dos dois a coisa mais perfeita e trágica do mundo.
Eu a encarei, fingindo uma expressão séria e pensativa.
- Hmm. Interessante. Então quer dizer que eu preciso tomar cuidado? -provoquei, com um sorriso.- No fundo, a Sra. Santana tem uma queda pelos filhinhos de papai metido a rebelde?
Ela gargalhou, entrando na brincadeira e se inclinando sobre a mesa.
- Não. Eu descobri que tenho uma queda ainda maior por cantores românticos que realizam meus sonhos de fã e me levam para a Ilha Esme. -ela piscou.- Acho que fiz uma troca muito melhor.
É, eu também achava. E não havia nada no mundo que me fizesse mais feliz.
Ficamos ali, terminando nossos drinks em um silêncio confortável, enquanto o último traço de cor desaparecia do céu e a noite tomava conta de vez. O som das ondas e a música ambiente do bar criavam a trilha sonora perfeita.
- Vamos, meu amor? -falei, me espreguiçando na cadeira.- Antes que a gente crie raízes aqui.
Ela concordou, e fomos de mãos dadas até o pequeno caixa de madeira. Paguei o que consumimos, agradecendo ao garçom, e começamos a caminhar pela estradinha de areia que levava de volta ao nosso Airbnb. Não era longe, apenas algumas centenas de metros, passando por outras pequenas pousadas e restaurantes charmosos.
O ar estava quente e parado. Mas, de repente, uma ventania forte soprou do mar, balançando as folhas dos coqueiros com violência e levantando a areia fina do chão.
- Uou. -Marina disse, segurando o cabelo que voava em seu rosto.
E então, sentimos. Primeiro um pingo, isolado e grosso, na minha testa. Depois outro no braço da Marina. Em segundos, uma chuva tropical começou a cair, os pingos quentes e pesados.
Olhei para ela, que já começava a rir.
- Corre! -gritei, já a puxando pela mão.
Nossa caminhada romântica se transformou numa corrida desabalada e divertida pela noite de Tulum. Nós corríamos e ríamos, os pés descalços afundando na areia molhada, enquanto a chuva nos encharcava. Chegamos na porta do nosso Airbnb ofegantes, completamente molhados e gargalhando, como duas crianças que tinham acabado de aprontar a maior travessura de todas.
Nós entramos no Airbnb rindo e pingando, criando uma poça de água no piso de cimento queimado. A chuva lá fora engrossou, se transformando numa tempestade tropical com direito a trovões distantes.
- Acho que a gente definitivamente precisa de outro banho. -falei, puxando Marina pela cintura, o corpo dela molhado e frio colado ao meu.
- Acho que sim. -ela respondeu, ofegante, passando os braços pelo meu pescoço.
A energia da corrida na chuva nos seguiu para dentro. Não houve delicadeza dessa vez. Foi urgente, uma continuação da paixão que começou no barco e ferveu durante todos esses dias. Nós nos despimos ali mesmo, na entrada, as roupas molhadas sendo jogadas num canto, e fomos direto para o chuveiro.
O box de vidro logo ficou embaçado pelo vapor. A água quente caía sobre nós, misturando-se à água fria da chuva que ainda estava em nossa pele. Era uma bagunça de braços, pernas e beijos famintos. Não havia mais nada a ser dito. Nossos corpos conversavam, celebravam, se amavam ali, com o som da tempestade lá fora como nossa trilha sonora particular.
Algum tempo depois, estávamos sentados no sofá da sala, enrolados em roupões brancos e macios, com taças de vinho na mão. A chuva forte batia contra as janelas de vidro, mas aqui dentro, estávamos seguros e aquecidos. O único som era o da tempestade e o das nossas respirações calmas.
- Tô com uma saudade da nossa pituquinha. -Marina disse de repente, a voz baixa, enquanto olhava a chuva.
O mesmo sentimento apertou meu peito.
- Eu também. Muita. -concordei.- Quer ligar pra minha mãe? Ver se a gente consegue ver ela antes de dormir?
Os olhos dela brilharam.
- Sim!
Peguei meu celular e fiz a vídeo chamada. Minha mãe atendeu no segundo toque, o rosto sorridente preenchendo a tela.
- Oi, meus filhos! Pensei que não iam ligar hoje!
- Oi, mãe! Desculpa a hora, a gente se enrolou. -falei, rindo.- A gente queria dar um beijo na nossa princesa. Cadê ela?
Minha mãe virou a câmera. E lá estava ela. Serena, com seu pijama da Barbie, sentada no tapete da sala dos meus pais, empilhando blocos coloridos. Assim que nos viu na tela, ela abriu um sorriso banguela e soltou um gritinho feliz, batendo as mãozinhas.
- Mama! Dada!
O coração da gente derreteu.
- Oi, meu amor! -Marina disse, a voz embargada de saudade.- A mamãe te ama tanto! Você tá se comportando com a vovó e o vovô?
Serena apenas balbuciou algo incompreensível e apontou para a tela. Ficamos ali, conversando com um bebê através de uma tela, a milhares de quilômetros de distância. Era o auge da vida de pais modernos.
Foi quando ouvi a voz do meu pai no fundo.
- Marta! Fala pra eles tomarem cuidado aí!
Minha mãe riu.
- Seu pai tá aqui, com as preocupações de sempre. -ela disse, virando a câmera para que ele aparecesse.
- Cuidado, mesmo! -meu pai insistiu, se aproximando do celular.- Eu vi na previsão do tempo hoje de tarde! Tem previsão de furacão chegando aí na península de Yucatán essa semana!
A gente riu, achando que era um exagero de pai.
- Ah, pai, deve ser só essa chuva forte. -falei, tentando tranquilizá-lo.- A gente tá bem, não se preocupa.
- Não é brincadeira, Luan! Fiquem de olho! -ele disse, sério.
Nos despedimos da Serena e dos meus pais, e desligamos. O sorriso ainda estava no meu rosto, mas uma pequena semente de preocupação tinha sido plantada. Olhei para a chuva forte lá fora. O que antes era um cenário romântico, agora parecia um pouco mais... ameaçador.
- Furacão? -Marina repetiu, com uma risadinha nervosa, depois que a chamada terminou.- Seu pai adora um drama, né?
Eu forcei um sorriso, tentando afastar a imagem que as palavras dele criaram na minha mente.
- Você sabe como ele é. Se um mosquito picar a Serena, ele já acha que é dengue hemorrágica. -brinquei, puxando-a para mais perto no sofá.- É só uma tempestade de verão, amor. Amanhã o sol já tá de volta.
Ela se aninhou em mim, e eu senti seu corpo relaxar.
- Tomara. Não quero desperdiçar nem um segundo da nossa lua de mel com tempo feio.
- Não vamos. -garanti, beijando o topo da sua cabeça molhada.- Nada vai estragar isso aqui.
E por um tempo, eu acreditei nisso. Deixamos o assunto morrer, terminamos nosso vinho e fomos para a cama, adormecendo com o som ritmado e pesado da chuva. A preocupação do meu pai parecia um eco distante de um mundo que não era o nosso.
Acordei na manhã seguinte com um silêncio quase absoluto. A chuva tinha parado. Abri os olhos e vi frestas de uma luz pálida e leitosa entrando pela cortina. Marina ainda dormia profundamente, a respiração suave ao meu lado. Levantei com cuidado, fui até a janela e espiei.
O céu estava coberto por uma camada espessa e uniforme de nuvens cinzentas, mas não havia vento, nem chuva. O mar, ao longe, parecia estranhamente calmo, quase oleoso. Era um cenário de calmaria, mas uma calmaria esquisita, como se o mundo estivesse prendendo a respiração.
"Viu só? O pai exagerou", pensei comigo mesmo, aliviado.
Quando Marina acordou, o clima já era de normalidade.
- Bom dia, meu marido. -ela disse, com a voz rouca de sono, se espreguiçando.- Sobrevivemos à terrível tempestade do fim do mundo?
- Sobrevivemos. -respondi, rindo e a beijando.- E eu tô morrendo de fome. Que tal a gente achar aquele lugarzinho que indicaram pra gente, com os melhores chilaquiles de Tulum?
- Só se tiver café de verdade. Tô precisando.
Nós nos arrumamos sem pressa, a conversa leve e cheia de planos para o dia: talvez uma visita às ruínas, um mergulho em um cenote. Saímos do Airbnb e o ar estava pesado, úmido e quente. O chão de areia ainda estava encharcado, mas a atmosfera era tranquila.
Conforme andávamos pela rua principal, no entanto, comecei a notar coisas estranhas. A maioria das lojinhas e restaurantes que costumavam estar abertos a essa hora, com música e gente, estavam fechados. Alguns homens pregavam tábuas de madeira nas janelas de uma pousada.
- Ué, o pessoal tira folga no meio da semana aqui? -Marina perguntou, notando o mesmo que eu.
- Deve ser... sei lá, algum feriado local? -sugeri, sem muita convicção.
Encontramos um pequeno café aberto, um dos únicos. Entramos e o lugar estava mais cheio que o normal, e o clima era tenso. As pessoas conversavam baixo, olhando para seus celulares com expressões preocupadas. Uma TV no canto do balcão exibia um mapa meteorológico com uma espiral assustadora se movendo em direção à costa.
- ¿Qué está pasando? (O que está acontecendo?) - Marina perguntou ao garçom que veio anotar nosso pedido, sua fluidez no espanhol agora tingida de preocupação.
O homem, um senhor com o rosto vincado pelo sol, nos olhou com seriedade.
- El huracán. Dicen que cambió de ruta durante la noche. Viene directo para acá. Se espera que llegue a la costa esta noche. Tienen que buscar un refugio seguro, jóvenes. (O furacão. Dizem que mudou de rota durante a noite. Vem direto para cá. A previsão é que chegue na costa esta noite. Vocês precisam procurar um abrigo seguro, jovens.)
Senti um gelo percorrer minha espinha. Olhei para Marina. O sorriso tinha desaparecido do seu rosto, substituído por uma máscara de puro choque e medo. Meu pai não estava exagerando.
- Luan... -ela sussurrou, a mão dela encontrando a minha por baixo da mesa.
- Calma. -falei, tentando manter a voz firme, embora meu coração estivesse martelando no peito.- A gente vai dar um jeito.
Comemos rápido, a comida descendo como areia pela garganta. O pânico começou a se instalar. Estávamos numa cidade que não conhecíamos, num país que não era o nosso, prestes a sermos atingidos por um furacão. E nossa filha estava do outro lado do mundo.
Voltamos correndo para o Airbnb, a calmaria lá fora agora parecendo a coisa mais sinistra do mundo. Liguei para a recepção do complexo de pequenos aluguéis.
- Sim, senhor. -a voz do outro lado da linha disse, com uma calma ensaiada, em inglês.- Estamos cientes da situação. O complexo foi construído para suportar tempestades fortes. A recomendação das autoridades é que todos permaneçam abrigados onde estão. Não tentem sair da cidade, as estradas já estão congestionadas.
Desliguei o telefone e olhei para Marina, que andava de um lado para o outro na sala.
- E aí?
- Disseram pra gente ficar aqui. Que é seguro.
- Seguro? -ela repetiu, a voz subindo uma oitava.- Luan, a gente tá numa casinha a cinquenta metros da praia!
O medo dela alimentava o meu. Eu precisava ser forte por nós dois. Fui até ela e segurei seus ombros, forçando-a a olhar para mim.
- Ei, olha pra mim. A gente tá junto nisso. Eu não vou deixar nada acontecer com você, tá me ouvindo? A gente vai passar por isso.
Ela assentiu, os olhos cheios de lágrimas, e me abraçou com força. Fiquei ali, segurando-a, enquanto o vento começava a soprar lá fora, um assobio baixo que prometia violência.
Passamos o resto da tarde nos preparando para o desconhecido. Enchemos a banheira com água, como vimos em filmes. Juntamos as garrafas de água, as comidas não perecíveis que tínhamos, lanternas. A cada hora, o céu ficava mais escuro e o som do vento, mais alto. Os coqueiros se curvavam quase até o chão. O mar, que antes era uma pintura azul-turquesa, agora era uma massa cinzenta e furiosa, as ondas quebrando com uma força assustadora.
A luz piscou algumas vezes e finalmente se apagou, nos mergulhando numa penumbra. A única iluminação vinha da tela dos nossos celulares, que usávamos com moderação para economizar bateria.
Sentamos no sofá, abraçados sob um cobertor, ouvindo a fúria da natureza se desenrolar ao nosso redor. O vento uivava, um som fantasmagórico e constante. Objetos soltos batiam contra as paredes da casa. A chuva voltou, mas agora era horizontal, fustigando as janelas como se fossem pedras.
- Eu tô com medo. -Marina confessou, a voz abafada contra o meu peito.
- Eu sei. Eu também. -admiti, beijando seus cabelos.- Mas a única coisa que importa é que a gente tá aqui, um com o outro.
Ela se afastou um pouco para me olhar, os olhos grandes e assustados na luz fraca do celular.
- Eu só consigo pensar na Serena. -ela disse, a voz quebrando.- Ela tá bem, tá segura com os seus pais, e a gente... a gente tá aqui. E se...
- Shhh. Não fala isso. -interrompi, segurando seu rosto entre as mãos.- Não pensa nisso. A gente vai ficar bem. E logo, logo a gente vai estar com ela. Eu te prometo. Essa vai ser só mais uma história maluca pra gente contar pra ela quando ela crescer. A lua de mel que os pais dela sobreviveram a um furacão.
Ela tentou sorrir, mas foi um esforço fraco. De repente, um estrondo violento fez a casa inteira tremer. Parecia que algo pesado tinha atingido o telhado. Nós nos encolhemos, o grito de susto morrendo em nossas gargantas. O uivo do vento se transformou num rugido ensurdecedor, como um trem de carga passando por dentro da nossa sala.
Ali, no escuro, abraçado à minha esposa enquanto o mundo parecia se desfazer lá fora, eu entendi que a lua de mel tinha acabado. Agora, era uma questão de sobrevivência.
O rugido era uma força física, uma pressão que nos esmagava no sofá. Cada viga da casa parecia gemer sob a tensão. Eu me joguei sobre a Marina, tentando protegê-la com meu corpo de... bem, eu não sabia do quê. Do mundo inteiro, talvez. Ficamos ali, encolhidos no escuro, esperando que o teto desabasse sobre nós a qualquer segundo.
E então, no meio do caos ensurdecedor, uma melodia eletrônica e dissonante começou a tocar.
Meu celular.
O toque de chamada parecia a coisa mais absurda do universo naquele momento. Por um segundo, achei que estivesse alucinando. Minha mão tremia tanto que quase não consegui pescar o aparelho do bolso do roupão. A tela brilhava no escuro, iluminando o rosto pálido e assustado da Marina. Era uma vídeo chamada. Do Justin.
- Atende! -Marina gritou por cima do barulho.
Deslizei o dedo pela tela. A conexão era péssima. A imagem congelava e pixelava, o áudio era uma mistura de chiados e vozes distorcidas. Mas lá estavam eles, os rostos preocupados do meu cunhado e da minha irmã gêmea, espremidos na telinha.
- ...uan! Luan, cê tá me ouvindo? -a voz de Justin soava robótica e cheia de estática. Ao lado dele, Bruna tinha as mãos sobre a boca, os olhos arregalados.
- Justin! Tô ouvindo! A gente tá aqui! -gritei, tentando me fazer ser entendido por cima do rugido do vento. Virei a câmera para que eles pudessem ver a Marina também.
- Graças a Deus! -a voz de Bruna cortou o chiado, embargada.- A gente viu no noticiário! O furacão mudou pra categoria 4 e tá passando exatamente por aí! Vocês estão bem? Onde vocês estão?
- A gente tá no Airbnb! A gente tá bem! -menti. Ou talvez não fosse uma mentira completa. Estávamos vivos.- A casa tá aguentando. É só... é só muito barulho.
Naquele exato momento, um assobio agudo e fino começou, culminando no som inconfundível de vidro se estilhaçando em algum lugar nos fundos da casa. Marina gritou e se agarrou em mim com mais força.
- Que porra foi essa?! -Justin gritou do outro lado, a imagem congelando em seu rosto contorcido de pânico.- Luan, que barulho foi esse?!
- Não foi nada! Foi só... uma janela do banheiro, eu acho! A gente tá seguro aqui na sala! -minha tentativa de acalmá-los era patética e eu sabia disso.
- Seguro? -Bruna chorava abertamente agora.- Luan, pelo amor de Deus, vocês precisam sair daí! Não tem um abrigo, um porão, qualquer coisa?
- Não dá pra sair, Bru! É o olho do furacão! A gente tem que esperar passar! -expliquei, a frustração e o medo fazendo minha voz falhar.
- Marina, você tá bem? -Justin perguntou, o rosto dele era a pura imagem da impotência.
- Eu tô bem, Ju. -Marina respondeu, forçando uma firmeza que ela não sentia.- A gente tá junto. O Luan tá cuidando de mim. Não se preocupa.
- Como eu não vou me preocupar? - ele retrucou, a voz falhando. - Vocês estão no meio de um furacão!
De repente, a casa inteira deu uma sacudida violenta, acompanhada de um som de algo grande se arrastando no telhado. A luz do meu celular piscou sobre as paredes e eu pude ver rachaduras se formando no gesso acima de nós. O pânico, que eu tentava manter sob controle, transbordou.
- A gente precisa sair do sofá! -gritei para Marina, puxando-a para o chão.- Vamo pra debaixo da mesa! Agora!
Nos arrastamos para debaixo da mesa de centro de madeira maciça, um abrigo minúsculo e provavelmente inútil, mas era a única coisa que meu cérebro em pânico conseguiu pensar.
- Luan?! Marina?! O que tá acontecendo?! Falem com a gente! -a voz da Bruna era um grito distante e metalizado vindo do celular, que eu tinha largado no chão.
Peguei o aparelho, a mão ainda tremendo. A imagem deles tinha sumido, restando apenas um borrão de pixels coloridos.
- Bru! A gente tá aqui! A conexão tá horrível!
- ...saindo... perigoso... -a voz dela era apenas fragmentos.- ... amo vocês... cuidado...
E então, silêncio. A chamada caiu.
"Chamada finalizada".
Olhei para a tela preta e depois para Marina, encolhida ao meu lado sob a mesa. O último fio que nos conectava ao mundo seguro, à nossa família, tinha sido cortado. Agora, éramos só nós dois. Sozinhos no escuro, com o monstro rugindo do lado de fora, tentando derrubar a nossa porta.
Ela se agarrou à minha camisa, o corpo todo convulsionando em um choro silencioso e desesperado. Eu a segurei com toda a força que tinha, sentindo minhas próprias lágrimas quentes escorrerem pelo meu rosto, se misturando às dela no escuro. Ficamos ali, dois náufragos numa ilha de madeira, enquanto o oceano do céu tentava nos engolir.
O choro dela eventualmente se transformou em soluços exaustos, e os meus, em um nó apertado na garganta. Não havia mais energia para o pânico. O que restou foi uma exaustão pesada e um medo constante e profundo que se instalou em nossos ossos. O tempo perdeu o sentido. Cada minuto se arrastava como uma hora, marcado apenas por um novo som de destruição lá fora. O uivo do vento era a nossa constante, mas a ele se juntaram estalos agudos de madeira se partindo, o som metálico e arrastado de algo grande sendo arranhado contra a parede externa, e o baque surdo e pesado de cocos ou pedaços de telhado sendo arremessados contra a casa.
A estrutura do Airbnb gemia como um navio velho numa tempestade, e a cada rangido mais forte, nós nos encolhíamos, esperando o colapso.
No meio de uma rajada de vento particularmente violenta, que fez a mesa vibrar sobre nós, senti Marina se mexer.
- Luan. -ela sussurrou, a voz fraca.
-Tô aqui. -respondi, minha boca a centímetros do seu ouvido.
- Canta pra mim.
O pedido me pegou de surpresa.
- Cantar? Amor, eu...
- Por favor. -ela insistiu, a voz embargada.- Qualquer coisa. Eu só... eu preciso ouvir sua voz. Preciso de algo que não seja o som... disso.
Engoli em seco, o nó na minha garganta apertando. Minha mente ficou em branco. Que música se canta no meio de um furacão, quando você acha que pode morrer? E então, a única coisa que me veio à cabeça foi ela. Nossa filha.
Respirei fundo, a voz saindo trêmula e desafinada, um sussurro frágil contra a fúria do mundo.
- Brilha, brilha estrelinha... Lá no céu, pequenininha...Solitária, se conduz... Pelo céu com tua luz...
Era a canção de ninar que eu cantava para a Serena todas as noites. A melodia simples, a letra boba, pareciam sagradas naquele momento. Continuei a cantar, verso após verso, lembrando do cheirinho do cabelo dela, do peso do seu corpinho no meu colo, do seu sorriso com meia dúzia de dentes. Cantei para a Marina, mas também cantei para mim, e para a nossa filha a milhares de quilômetros de distância, como uma oração.
Quando terminei, um silêncio se instalou entre nós, preenchido apenas pelo caos exterior.
- Ela deve estar dormindo agora. -Marina disse, a voz um pouco mais calma.- Segura, no berço dela. Nem sabe de nada.
- Graças a Deus por isso. -sussurrei.
Ficamos em silêncio por mais um tempo, cada um perdido em pensamentos da nossa pequena. Foi quando senti algo estranho. Uma umidade fria nos meus joelhos, que estavam apoiados no chão.
- O que é isso? - falei, mais para mim mesmo do que para ela.
Tateei o chão de cimento queimado com a mão. Estava molhado. E não era só uma poça. Era uma lâmina fina de água que cobria tudo.
- Luan? -Marina percebeu a mudança no meu tom.
Liguei a lanterna do celular, economizando a bateria o máximo que podia. Apontei o facho de luz para a porta de entrada. Por baixo da fresta, um fluxo constante de água barrenta entrava, se espalhando pelo piso da sala. A água não vinha da chuva que batia nas paredes. Vinha de baixo. Do chão.
O mar.
A compreensão me atingiu como um soco no estômago. A maré de tempestade. O furacão estava empurrando o oceano para dentro da terra.
- Ah, meu Deus. -Marina ofegou, vendo a mesma coisa que eu.
Apontei a luz para o outro lado e o sentimento de pavor se intensificou. A água também entrava por baixo da grande janela de vidro que dava para o pátio dos fundos. Não estávamos mais seguros. O perigo não estava apenas lá fora. Ele estava entrando.
A água subia rápido. Em minutos, já cobria nossos tornozelos, gelada e suja, trazendo consigo folhas e pequenos detritos. Nosso abrigo debaixo da mesa não era mais um abrigo. Era uma armadilha.
- A gente tem que sair daqui de baixo. -falei, a urgência tomando o lugar do medo paralisante.- A gente tem que subir. Ir para o andar de cima.
Nos arrastamos para fora, a água gelada encharcando nossos roupões. Ficar de pé foi um choque.
Cada passo levantava um esguicho de água suja. A casa estava escura como breu, exceto pelo facho desesperado da lanterna do meu celular, que dançava sobre as paredes, revelando o avanço rápido da inundação.
Móveis que havíamos admirado dias antes agora eram obstáculos sinistros em nosso caminho. A escada de madeira que levava ao quarto era nossa única rota de fuga.
Subimos os degraus de dois em dois, o som de nossos pés encharcados ecoando no espaço fechado. Quando chegamos ao pequeno corredor do andar de cima, bati a porta do quarto atrás de nós, trancando-a, como se um simples pedaço de madeira pudesse impedir o oceano de nos alcançar. O barulho do vento e da chuva era ainda mais alto aqui em cima, mais próximo, e o telhado parecia prestes a ser arrancado a qualquer momento.
Ofegantes, nos encostamos na porta, a adrenalina pulsando em nossas veias.
- A gente precisa tirar essa roupa. -ofeguei, olhando para os nossos roupões brancos, agora pesados e encharcados.- Se a gente precisar correr... isso aqui só vai atrapalhar.
Marina assentiu, já se movendo pelo quarto escuro com uma urgência determinada. Abrimos as malas às cegas, as mãos trêmulas agarrando as primeiras peças de roupa que encontramos. Em segundos, trocamos os roupões inúteis por jeans, camisetas e tênis. Vestir roupas normais, secas, pareceu uma armadura frágil contra o caos, um pequeno ato de normalidade em meio à loucura.
Enquanto Marina amarrava o cabelo, meu instinto me levou até a janela do quarto. Era uma janela grande, de vidro, que dava para a mesma estradinha de areia pela qual havíamos corrido na chuva, rindo, na noite anterior. Aquela lembrança parecia pertencer a outra vida.
Afastei a cortina com cuidado, temendo o que poderia ver. A lanterna do celular iluminou o vidro, que tremia com a força do vento. E o que eu vi do lado de fora... paralisou meu coração.
Não era uma cena. Era o apocalipse.
A estradinha de areia não existia mais. Em seu lugar, havia um rio violento e furioso de água escura, que subia até a metade da altura das portas das outras pousadas. O vento açoitava a superfície da água, criando ondas que quebravam contra as paredes. Mas o pior não era a água. Era o que estava nela.
Móveis, pedaços de madeira, galhos de coqueiros do tamanho de carros e algo que parecia o telhado de um quiosque flutuavam e colidiam uns com os outros naquela correnteza caótica. Vi uma cadeira de praia, idêntica à que tínhamos usado, ser arremessada contra o muro de um vizinho e se despedaçar. Tudo era um borrão de movimento violento e destruição. O mundo como o conhecíamos estava sendo liquidificado diante dos meus olhos.
- Luan? O que foi? -Marina se aproximou, sentindo meu corpo enrijecer.
- Não olha. -falei, a voz saindo como um sussurro rouco.
Mas era tarde demais. Ela espiou por cima do meu ombro, e eu senti seu corpo inteiro estremecer, um soluço de horror escapando de seus lábios.
- Meu Deus...
Era uma cena digna de filme. O tipo de cena que você assiste comendo pipoca, com a segurança de que aquilo nunca vai acontecer com você. Mas estava acontecendo. E nós estávamos no meio dela. Não éramos mais espectadores. Éramos os protagonistas prestes a serem engolidos pelo cenário.