Justin Narrando
O sono era um luxo que eu não podia me permitir. Eu estava cansado, puto, e a adrenalina da noite anterior ainda corria venenosa em minhas veias. Virei-me na cama, o corpo dolorido de tensão. Bruna relaxava do meu lado, dormindo tranquila finalmente, exausta de toda a emoção. Mas eu não. Cada vez que eu fechava os olhos, via o rosto da Chloe, da Melanie, a janela do carro se estilhaçando, o medo nos olhos da minha esposa.
Chega.
Com um cuidado infinito para não acordá-la, eu me levantei. Fui até o closet e me troquei no escuro, vestindo uma calça jeans preta, um moletom escuro e tênis. Eu ia caçar. A promessa que fiz para a Bruna não era apenas para acalmá-la. Era um juramento. E eu não aguentava mais essa situação de esperar, de ser a presa.
Desci para o andar de baixo. A casa era um breu, um silêncio absoluto que contrastava com a cacofonia da festa horas antes. Passei em silêncio pelos quartos das crianças, a respiração delas era o único som. Eles eram a minha missão.
Saí pela porta dos fundos que dava para o jardim. O ar frio de novembro me atingiu como um soco, limpando a névoa de raiva da minha cabeça. Estava frio. Coloquei a touca do moletom na cabeça e caminhei pela grama úmida, ignorando a equipe de segurança que, eu sabia, me observava de seus postos. Fui direto para o portão de entrada.
Kenny estava na pequena guarita, analisando monitores. Ele me viu me aproximando e saiu, a surpresa clara em seu rosto normalmente impassível.
- Justin? -ele disse, a voz baixa e urgente.- O que você está fazendo aqui fora? Volte para dentro, não é seguro.
Parei na frente dele, o vapor da minha respiração se formando no ar frio.
- Chega de ficar seguro, Kenny. -falei, a voz dura, sem espaço para discussão.- Acabou a espera. Eu vou caçar.
Ele me encarou, os olhos se estreitando, processando minhas palavras.
- Pega as chaves do carro. Um dos SUVs discretos. -ordenei.- A gente vai fazer uma visita ao Sr. Preston.
Kenny balançou a cabeça, a expressão se tornando ainda mais séria.
- Justin, isso é uma péssima ideia. Ir atrás do marido dela no meio da noite? A gente não sabe do que eles são capazes. Ele pode estar envolvido até o pescoço.
- Exatamente. -retruquei, a raiva subindo à minha garganta.- Ele tem um passado sujo, ele não é um santo. Ele é o elo fraco. Ele vai quebrar. Ele vai entregar a Chloe. Agora pega a chave. Isso não foi um pedido.
Kenny me encarou por um longo segundo, a desaprovação clara em seu rosto. Eu não desviei o olhar. Ele era meu chefe de segurança, mas eu era seu chefe. Ele sabia de quem era a ordem final. Com um suspiro de frustração que ele mal conseguiu disfarçar, ele se virou, falou algo no rádio em seu pulso e foi em direção à garagem.
Eu esperei, o ar frio queimando meus pulmões, a raiva me mantendo aquecido. Minutos depois, um dos SUVs pretos e discretos parou silenciosamente ao meu lado, o motor quase inaudível. Kenny estava ao volante. Eu já ia abrir a porta do passageiro quando a porta de trás do carro se abriu.
Uma figura saiu da escuridão do jardim. Luan.
Ele também usava um moletom escuro com capuz, o rosto sombrio e determinado.
- Luan? -falei, chocado.- O que você tá fazendo aqui? Volta pra dentro, cara. A Serena...
- A Bruna está com ela. -ele me cortou, a voz baixa e firme.- Eu ouvi a movimentação pela janela do quarto. E eu não vou ficar em casa esperando enquanto você vai atrás do cara que está aterrorizando a minha família também.
Ele deu um passo à frente, e a luz fraca do painel do carro iluminou a fúria em seus olhos.
- A minha filha está doente por causa desses desgraçados. A minha esposa vai ter o coração partido pela própria irmã. Isso é pessoal pra mim também, Justin. Eu vou junto.
Eu o encarei. A parte racional de mim queria gritar para ele voltar para dentro, para ficar seguro com a família. Mas a parte de mim que estava cega de raiva, a parte que estava indo para aquela caçada, reconheceu o mesmo fogo nos olhos dele. Ele não era mais o convidado que eu precisava proteger. Ele era meu irmão de guerra.
Dei um aceno de cabeça curto e resignado. Ele não disse mais nada, apenas entrou e se sentou no banco de trás, fechando a porta com um clique suave.
Entrei no banco do passageiro. Kenny nos olhou pelo retrovisor, a expressão de quem estava prestes a dirigir dois loucos para o meio do perigo.
- Para o endereço da Chloe. -falei.
Ele não respondeu. Apenas engatou a marcha, e o portão se abriu à nossa frente. Saímos para as ruas escuras e vazias de Nova York. A caçada havia começado. E agora, éramos três.
O SUV deslizou pelas ruas silenciosas de um bairro nobre do Brooklyn. As casas aqui eram diferentes da nossa fortaleza em Manhattan. Eram casas de rua, elegantes e modernas, com gramados bem cuidados e sem os muros altos ou as guaritas de segurança que definiam o nosso mundo. Era o tipo de lugar onde as pessoas se sentem seguras. Uma ilusão.
Kenny parou o carro a uma esquina de distância da casa de Harry e Chloe. Era exatamente como eu imaginava: uma casa moderna, com grandes janelas de vidro e uma arquitetura limpa. Normal. Perigosamente normal. Não havia um único segurança à vista.
- Eles se sentem intocáveis. -Luan sussurrou do banco de trás, a voz cheia de desprezo.
- É assim que as cobras gostam de viver. -respondi, meus olhos fixos na casa.
Estávamos prestes a descer do carro. Eu já tinha minha mão na maçaneta, a adrenalina começando a cantar em minhas veias, quando Kenny se virou no banco, bloqueando minha saída.
- Esperem.
Ele se inclinou para baixo e abriu um compartimento escondido sob o porta-luvas. O que ele tirou de lá fez o ar frio da noite parecer ainda mais gelado. Duas pistolas. Pretas, pesadas, letais.
Ele não disse nada. Apenas estendeu uma para mim.
Eu a encarei por um segundo. A arma na mão dele parecia um portal para um mundo do qual eu nunca mais poderia voltar. Eu era um cantor, um pai. Não um mafioso. Mas eles tinham atirado no carro onde estava minha esposa. Eles tinham ameaçado meus filhos.
Peguei a arma. O peso do metal frio na minha mão era chocante, real. Kenny então se virou e estendeu a outra para o Luan, no banco de trás.
Luan não hesitou nem por um segundo. Ele a pegou, o movimento firme e decidido.
- Vocês sabem como usar isso? -Kenny perguntou, a voz baixa e séria.
- Tive aulas. Há alguns anos. -respondi, a voz rouca.
- Eu também. -Luan disse do banco de trás.
Kenny assentiu, o olhar dele era duro como granito.
- Ótimo. Porque vocês não vão usar. Isso é só para o caso de as coisas saírem muito do controle. É o último recurso. Eu entro primeiro. Vocês ficam atrás de mim. Sem heróis. Entendido?
Nós dois assentimos em silêncio.
Coloquei a arma na parte de trás da minha calça, o metal gelado contra a minha pele. Naquele momento, a realidade me atingiu em cheio. Não estávamos mais apenas reagindo. Estávamos invadindo. Estávamos levando a guerra até a porta deles. E não havia mais volta.
Nós três saímos do carro, as portas se fechando com um clique abafado que soou como um trovão na rua silenciosa. O ar frio da madrugada parecia se prender em meus pulmões. Cada passo na calçada parecia ecoar, anunciando nossa presença.
Kenny liderava, movendo-se com uma fluidez silenciosa que era ao mesmo tempo impressionante e aterrorizante. Eu e Luan o seguíamos, dois passos atrás, sombras relutantes em sua esteira. A cada passo, eu sentia o peso frio da arma contra as minhas costas, um lembrete constante da linha que estávamos prestes a cruzar.
Contornamos a casa, mantendo-nos na escuridão do jardim do vizinho. Kenny parou perto de uma porta de vidro deslizante que dava para o quintal dos fundos. Ele tirou um pequeno aparelho do bolso e o passou pela moldura da porta, procurando por sensores. Nada. Ele sorriu, um sorriso frio e sem humor. Amadores.
Ele então tirou um pequeno kit de ferramentas. Em menos de dez segundos, com um clique quase inaudível, a fechadura cedeu. Ele abriu a porta apenas o suficiente para passarmos, e nós entramos na casa.
O interior era escuro e silencioso. Uma cozinha moderna e minimalista, onde a luz da lua refletia nas superfícies de aço inoxidável. Estávamos dentro. Invasores. Criminosos. E a única coisa que me impedia de me virar e correr era a imagem do rosto assustado da Bruna, dos meus filhos dormindo em suas camas. Por eles, eu me tornaria o que fosse preciso.
Kenny tirou sua arma, segurando-a com uma familiaridade mortal. Eu e Luan, hesitantes, fizemos o mesmo. O peso da pistola em minha mão era estranho, errado, mas necessário.
Seguimos Kenny pela casa escura. Sala de estar, sala de jantar, um escritório. Tudo impecavelmente arrumado, frio, sem vida. Subimos as escadas, cada degrau rangendo sob nosso peso, o som explodindo no silêncio.
Chegamos a um corredor no andar de cima. Havia três portas. Kenny apontou para a do final. O quarto principal. Ele se aproximou, encostando o ouvido na madeira. Ficou ali por um longo momento, imóvel.
Então, ele se virou para nós. Ele não disse uma palavra. Apenas ergueu três dedos, e começou a baixá-los, um de cada vez.
Três...
Dois...
Um.
No "um", Kenny não girou a maçaneta. Ele arrombou a porta.
O som da madeira se partindo explodiu no silêncio da casa. Nós entramos em um movimento rápido e ensaiado, três sombras invadindo o santuário deles. As luzes das lanternas táticas que Kenny nos deu cortaram a escuridão, varrendo o quarto e caindo sobre a cama.
Eles estavam ali. Chloe e Harry.
O grito de Chloe foi agudo, um som de puro terror. Harry, reagindo por instinto, pulou da cama, tentando se colocar entre nós e ela, o corpo nu e desprotegido.
- Não se mexam! -a voz de Kenny foi um trovão, fria e letal. Sua arma estava firmemente apontada para o peito de Harry, que congelou no lugar, as mãos erguidas.
Luan, ao meu lado, estava com a arma apontada para Chloe, que se encolhia na cama, o lençol puxado até o queixo, os olhos arregalados de pânico. A fúria no rosto do Luan era assustadora.
Eu avancei e acendi a luz do quarto. A iluminação forte e repentina fez todos piscarem, revelando a cena em sua totalidade bizarra: nós três, armados, no meio da noite, e o casal perfeito, nus e aterrorizados em seu quarto luxuoso.
A adrenalina cantava em minhas veias, afiada como vidro. O medo tinha desaparecido, substituído por uma clareza gelada. Eu era o caçador agora. E a minha presa estava encurralada.
Caminhei lentamente até o pé da cama, a minha arma apontada para o chão, mas a mensagem era clara. Meus olhos se fixaram em Chloe, ignorando completamente o marido dela. O pânico nos olhos dela começou a dar lugar a algo mais.
Reconhecimento. E, por baixo de tudo, um brilho de ódio desafiador.
- Acabou o jogo, Chloe. -falei, a voz saindo baixa, calma e cheia de uma ameaça que eu nunca soube que possuía.
Minhas palavras pairaram no ar, frias e pesadas. Harry, ainda parado entre a cama e nós, olhava de mim para o Luan, a confusão em seu rosto rapidamente se transformando em fúria.
- Que porra é essa?! -ele rosnou, a voz cheia de uma incredulidade ultrajada.- Justin? Luan? O que caralhos vocês estão fazendo aqui no meu quarto com armas?! Vocês enlouqueceram?!
A confusão dele era genuína. A raiva era a de um homem comum cuja casa foi invadida, não a de um criminoso pego em flagrante. Pelo visto, Harry não sabia de nada. Ele era apenas mais uma peça no tabuleiro doentio da sua esposa.
Meus olhos voltaram para ela. Chloe ainda se encolhia na cama, o medo claro em seu olhar. Mas por baixo do medo, havia outra coisa. Uma dureza. Uma centelha de desafio. Ela não baixou a guarda. Ela sabia exatamente porque estávamos ali.
Ignorei o marido dela completamente.
- Cala a boca, Harry. -falei, a voz baixa, sem desviar o olhar de Chloe.- Isso não é sobre você.
Dei um passo em direção à cama. Luan espelhou meu movimento do outro lado. Estávamos flanqueando-a.
- Vamos começar de novo. -disse, focando toda a minha atenção nela.- O jogo acabou. E você vai nos contar por quê. Por que as fotos? Por que as ameaças? Por que o dinheiro para a Melanie? E quem eram os homens que atiraram no meu carro? Você vai nos contar tudo. Agora.
Minhas perguntas pairaram no ar, e o medo nos olhos de Chloe foi substituído por algo muito mais feio: diversão. Ela soltou uma risada, um som baixo e desdenhoso que fez o sangue ferver nas minhas veias.
- Certeza que você quer começar a fazer exigências, Justin? -ela disse, a voz cheia de um veneno doce.- Você tem certeza que todos os seus... bens preciosos... estão protegidos agora?
Meu coração gelou. Olhei instintivamente para o Kenny, um pânico silencioso me atravessando. Ele só assentiu com a cabeça, um movimento sutil, mas que me tranquilizou. A minha casa, com a Bruna e as crianças, estava segura.
Chloe viu minha troca de olhares e seu sorriso se alargou.
- Ah, sim. A sua pequena fortaleza. Eu sei. Mas... não tem ninguém fora do cativeiro? -ela disse, saboreando a palavra "cativeiro".- Alguém... do outro lado do país, talvez? Alguém que esteja... desprotegida?
Puta merda. A Marina.
A imagem dela, sozinha em um quarto de hotel em Los Angeles, me atingiu com a força de um soco. Mas então a lógica entrou em ação. Ela tinha seguranças. Dois dos melhores homens do Kenny estavam com ela. Ela estava segura.
- Não se preocupe com a Marina. -falei, a voz mais firme do que eu me sentia.
Foi quando Harry, que até então parecia um animal assustado, se moveu. Ele olhou para a Chloe com um pânico que era diferente do medo. Era o pânico de um cúmplice vendo o plano desmoronar.
- Chloe, cala a boca. -ele sibilou.- Não entrega o jogo assim.
O jogo. A palavra confirmou tudo. Ele não era cego. Estava envolvido até o pescoço.
Chloe apenas deu de ombros, um gesto de arrogância pura.
- Relaxa, amor. O "V" vai ligar quando conseguir. É só questão de tempo.
"V".
A letra. A inicial. E de repente, tudo se encaixou em uma imagem horrível e clara.
O casamento. Harry e Chloe. Victor como padrinho. As perguntas estranhas sobre nós. O "V". O ex-namorado. O colega de elenco. O homem que estava com a Marina há poucas horas, no meio de uma coletiva de imprensa.
Eles não estavam apenas nos ameaçando. Eles tinham um plano em ação. Naquele exato momento. Do outro lado do país.
Olhei para o Luan. E vi no rosto dele o mesmo terror, a mesma epifania doentia. Ele entendeu.
Victor.
Por um segundo, o tempo parou. Vi o sangue sumir do rosto de Luan. O terror em seus olhos era um espelho do meu. A nossa caçada impulsiva tinha nos levado a uma armadilha, uma distração, enquanto o verdadeiro ataque acontecia do outro lado do país.
O pânico, frio e avassalador, tomou conta de mim.
- Kenny! -gritei, a voz rasgando o silêncio tenso.- Liga para os homens que estão com a Marina! AGORA! Código vermelho! É o Victor! Ele está com ela!
Enquanto Kenny já falava urgentemente em seu comunicador de pulso, eu e Luan arrancamos nossos próprios celulares dos bolsos. Meus dedos tremiam tanto que eu mal consegui discar o número da Marina. Chamou. Uma vez. Duas. Três. Caixa postal.
- Merda! -rosnei, tentando de novo. Ao meu lado, Luan fazia o mesmo, o rosto uma máscara de desespero.
- Tarde demais, meninos. -a voz de Chloe soou, doce e vitoriosa. Ela estava sentada na cama, o sorriso de um gato que encurralou o canário.
Ignorei-a. Todo o meu universo estava focado no som do telefone chamando, e na falta de resposta do outro lado. O som do coração de Luan batendo descontroladamente parecia preencher o quarto.
- Kenny! -virei-me para ele, a súplica clara na minha voz.
Kenny abaixou a mão, o rosto impassível, mas os olhos... os olhos dele eram a confirmação do nosso pior medo.
- Sem resposta. -ele disse, a voz dura.- Nem a Marina, nem os seguranças. Os celulares deles estão indo direto para a caixa postal. Desligados ou destruídos.
O chão se abriu sob os meus pés. Tarde demais. Eles a pegaram.
Luan soltou um som gutural, um soluço de pura agonia, e se apoiou na parede, o celular caindo de sua mão.
A minha dor, no entanto, se transformou em gelo. O pânico deu lugar a uma fúria tão absoluta, tão pura, que todo o meu corpo ficou frio. Lentamente, me virei de volta para a cama. Levantei a arma, não mais apontada para o chão, mas diretamente para o rosto sorridente de Chloe.
- Onde. Ela. Está? -falei, a voz um sussurro mortal, cada palavra separada, precisa.- O que ele fez com ela, Chloe?
A minha ameaça pairou no ar, e ela sustentou o meu olhar. O sorriso de escárnio dela vacilou, mas não sumiu. Ela estava a um gatilho de distância da morte, e ainda assim, parecia ter a certeza de que venceria.
Ao meu lado, o Luan se moveu. Não foi um movimento impetuoso; foi lento, metódico, a quietude antes de uma erupção. Ele havia acabado de perder o chão. O silêncio dele era mais aterrorizante do que o meu grito. A Serena era o mundo dele, mas a Marina… ela era o ar que ele respirava. A dor do desespero se transformou em algo vulcânico.
Luan levantou a arma, e com dois passos rápidos e silenciosos, estava ao lado da cama. Ele não apontou para a cabeça dela, mas para o peito de Harry.
- Sai da frente, seu inútil! -ele rosnou, empurrando Harry com o cano da arma.
Harry cambaleou, o terror agora direcionado a Luan. O Luan parecia um fantasma. Ele se virou para Chloe. Ele não gritou. Sua voz saiu baixa e carregada de uma promessa de violência que me fez tremer.
- Você vai me dizer agora. Onde está a minha esposa.
Antes que Chloe pudesse dizer qualquer coisa, o som agudo do telefone dela rasgou a tensão. O aparelho, que estava na mesinha de cabeceira, vibrava. Na tela acesa, a luz brilhava sobre a identificação de chamada.
VICTOR.
O nome nos atingiu como uma bala.
Luan se moveu primeiro. Ele olhou para a tela, e em um piscar de olhos, o cano da sua arma estava encostado na têmpora de Chloe. O metal frio fez o lençol tremer.
- Atende. Agora. -a voz dele estava além da calma. Era a voz de um homem que havia perdido a última gota de humanidade.- Viva-voz. E se você tentar qualquer gracinha, se gaguejar, ou se ele desligar… eu juro por tudo que é sagrado que eu puxo esse gatilho e a gente pergunta pro seu marido.
Harry soltou um som de agonia, uma súplica abafada.
Chloe, pela primeira vez, estava genuinamente aterrorizada. Ela viu a insanidade pura nos olhos do meu cunhado. Ela estava diante de um Luan que eu nunca soubera que existia, um Luan que havia trocado o violão por uma arma. O terror fez seus dedos tremerem enquanto ela pegava o celular.
Ela respirou fundo, os olhos fixos na arma em sua cabeça. Com um clique, ela atendeu e colocou no viva-voz.
- Victor? -a voz dela era surpreendentemente controlada.
A voz de Victor, vinda do viva-voz, era cheia de uma frustração mal disfarçada.
- Chloe, que porra está acontecendo? Que demora pra atender!
- Vai se ferrar, Victor! Aqui são mais de três da manhã! -ela disse, tentando manter o tom de quem é que manda. Luan pressionou ainda mais a arma contra a sua cabeça.- Você fez o combinado?
O silêncio do outro lado da linha foi um abismo.
- Não deu tempo. Eu cheguei no hotel que ela estava hospedada, esperei a hora perfeita, mas ela me enganou, porra! -o tom dele subiu, raivoso.- Eu sabia que ela ia voltar para Nova York, que não iria participar daquela porcaria de brunch amanhã. Eu ia agir agora à noite.
O Luan apertou os lábios, a fúria em seus olhos quase palpável.
- Mas ela já foi! -Victor gritou no telefone.- O quarto estava vazio. Ela fez o check-out. Não tem sinal dela, Chloe. Ela com certeza foi mais esperta que eu e sacou tudo!
O meu corpo inteiro relaxou, uma onda de alívio tão poderosa que quase me fez cair de joelhos. Ela estava a salvo. A Marina estava um passo à frente.
Mas o Luan não viu alívio. Ele só viu o risco. O fato de Victor ter chegado tão perto. Ele explodiu.
- SUA VAGABUNDA! -Luan berrou, e a força do seu grito fez Chloe chorar. Ele tirou a arma da cabeça dela e, com a coronha, atingiu-a na lateral da cabeça. O som foi seco e brutal.
Chloe soltou um grito de dor, e seu celular escorregou da mão, caindo na cama.
- O que foi isso?! Chloe?! -a voz de Victor ecoava, alarmada.
- Cala a boca, Victor! -eu gritei no viva-voz.- O jogo acabou. Aqui é o Justin e o Luan também está aqui.
O silêncio do outro lado foi instantâneo, total. Podia-se ouvir a respiração acelerada de Victor.
Eu olhei para Chloe. O sangue escorria da sua têmpora, mas o ódio nos seus olhos era infinitamente pior. Olhei para Harry, que estava congelado. Olhei para o Luan, que estava respirando pesadamente, a arma pingando fúria.
- Victor? Escuta aqui. -falei, minha voz dura como aço.- A sua amiga Chloe e o seu melhor amigo Harry, vão nos contar todo esse plano idiota e qual é o próximo passo de vocês.
Eu não estava mais caçando. Eu estava interrogando. E agora que a Marina estava segura, eu podia me concentrar na vingança. O Luan olhou para mim, os olhos cheios de concordância.
A caçada tinha acabado. A guerra estava apenas começando.