Luan Narrando
O jato particular tocou o solo de Los Angeles com uma suavidade que negava a tensão palpável na cabine. Olhei pela janela. O sol da Califórnia brilhava, mas para mim, a cidade parecia ter um filtro cinza. Não estávamos aqui para a fama; estávamos aqui para o confronto final.
Fizemos questão de não voar em um voo comercial. O anonimato era nosso escudo. Pousamos discretamente, sem alarde. A única coisa que me acalmava era saber que a Serena estava segura, longe de tudo. Ela havia ficado em Nova York com a Gemma. Aquela era a única separação que eu podia suportar.
Eu me sentia como se estivesse voltando para uma jaula que havia escapado há anos. A adrenalina corria fria nas minhas veias.
- Vamos lá. -disse Marina, a voz firme, mesmo que eu soubesse que ela estava tão tensa quanto eu.
Descemos do jatinho e fomos direto para os carros. Os dois seguranças de Kenny nos esperavam.
Fiz questão de ficar colado na Marina. Meu objetivo era simples: garantir que nada acontecesse com ela. Se o Victor fizesse um movimento, eu estaria lá para detê-lo, antes que a chantagem do Kenny pudesse entrar em ação.
Chegamos ao hotel. O lobby era um burburinho de gente da indústria, a bolha de Hollywood que Marina tentava desesperadamente deixar para trás. Mal havíamos entrado, fomos abordados.
- Marina! Meu Deus, você chegou! -uma das atrizes do filme veio em nossa direção, os braços abertos.
Marina, com sua máscara de estrela, sorriu animadamente e cumprimentou a colega. Ela parecia a diva de sempre, e eu a admirei pela atuação impecável. Encontramos mais alguns rostos conhecidos, todos tagarelando sobre a noite de estreia.
Enquanto Marina sorria e acenava, eu vasculhava o hall. Procurei o rosto que eu esperava.
- Ele não está aqui. -sussurrei para Marina.
Ela seguiu meu olhar e balançou a cabeça.
- Ele mora em Los Angeles, Luan. Ele não precisa de hotel. O encontro será só na festa, mais tarde.
A espera seria um inferno.
- Ótimo. -murmurei, apertando sua mão.- Quanto mais tempo demorar, mais tempo temos para afinar a nossa estratégia de chantagem.
Eu a puxei para o elevador, ansioso para nos trancarmos no quarto e repassar o plano de Kenny mais uma vez.
O elevador subiu até a suíte, e a porta se fechou atrás de nós, isolando o barulho do lobby. A segurança era a primeira coisa. Revistei o quarto rapidamente, um hábito que eu não conseguia mais abandonar. Tudo limpo.
- Ótimo. Você tem duas horas antes que tenhamos que sair. -disse, jogando a pasta que continha o material de Kenny sobre a mesa.
Marina nem sequer respondeu. Ela já havia aberto sua mala e caminhava até o banheiro, com sua maleta de maquiagem. A festa era no final da tarde, e ela precisava se transformar na estrela de cinema que era.
Eu peguei a pasta e fui até a bancada do banheiro, onde ela estava começando a aplicar a base. O espelho iluminado do camarim refletia a beleza dela, mas também a tensão nos seus ombros.
- Concentra, vida. Isso pode custar nossas vidas, não é só a Bruna que corre o risco de ser presa, mas todos nós. -comecei, abrindo a pasta.- O Justin e o Kenny não querem sangue. Eles querem silêncio permanente.
Marina ergueu o queixo, aplicando algo nos olhos.
- Entendi. Sem coronhadas, sem tiro. Só chantagem.
- Exatamente. O Victor não é um assassino, ele é um canalha oportunista. Ele entrou no plano da Chloe por dois motivos: dinheiro e obsessão por você.
Eu tirei uma foto da pasta e coloquei-a ao lado da paleta de sombras dela. Era uma foto granulada de Victor em um beco escuro com duas pessoas de aspecto sombrio, e a qualidade era o suficiente para ser condenatória.
- O Kenny descobriu que o Victor tem um envolvimento muito sério com tráfico de influências e lavagem de dinheiro em Las Vegas. Isso é um crime federal. O Kenny usou uma das contas laranjas da Chloe que ele rastreou para plantar uma trilha digital, ligando o Victor diretamente a uma investigação.
Marina parou de esfumar a sombra. Seus olhos verdes me fitaram no espelho.
- Ele não sabe disso, certo?
- Não. Ele pensa que é esperto. Ele pensa que pode nos expor e sair limpo. O plano é simples: quando você o encontrar na festa, você vai sorrir, o cumprimentar e o levar para um canto discreto. Eu estarei a um metro de distância.
Tirei outro papel da pasta. Não era uma foto, mas um pedaço de papel timbrado com um número de telefone e um endereço de e-mail.
- Você entrega a ele este cartão. Ele contém o contato do advogado de Kenny. Você diz a ele que, se ele abrir a boca sobre a Chloe ou sobre qualquer um de nós, o Kenny soltará este material na Fox News em doze horas, e enviará todos os documentos para a promotoria de Vegas.
- A vida dele acaba. -completou Marina, voltando a aplicar a maquiagem, mas agora com um foco gélido.
- A vida dele acaba. Ele perde o filme, perde o dinheiro, perde a liberdade. A ameaça não é mais a nossa família; a ameaça é a prisão. O medo dele é maior do que a obsessão.
Ela me encarou no espelho, a maquiagem agora impecável, o olhar de estrela substituído pelo olhar de predadora.
- Entendido. O Victor vai sair daquela festa mudo.
Marina se virou para mim, a maquiagem impecável, mas o olhar ainda carregado de estratégia.
- Anda, Luan. Vai se trocar. E não esquece que o dress code é branco. -ela ordenou, já saindo do banheiro, tirando a roupa do vôo.
Eu a segui, vendo-a apenas de lingerie no meio da suíte. O contraste da renda delicada com a determinação no seu rosto era desarmante. O vestido que ela usaria estava pendurado no cabide, um tecido branco e fluido.
- Quem trouxe o vestido? -perguntei, confuso.
- Certeza que foi um dos seguranças do Kenny. Ninguém tem permissão para entrar aqui. Eles pensam em tudo.
Enquanto ela desembrulhava o vestido, meus olhos pararam nela. Como aquela mulher era tão incrivelmente gostosa e, mais importante, tão minha.
Marina percebeu que eu a encarava.
- Ei. Foco. A pressa é grande. Anda logo e se troca.
Eu saí do transe, balançando a cabeça, e fui até a minha mala para pegar minha roupa, um terno branco que parecia estranhamente formal para uma briga. Marina entrou no banheiro para se vestir e arrumar o cabelo.
Eu me arrumei em dez minutos, vestindo a armadura branca. Logo em seguida, Marina saiu do banheiro.
Uau.
O branco do tecido contrastava com o tom da pele dela, parecendo iluminar-a por dentro. Cada movimento fazia o vestido deslizar como água. O ombro descoberto, o detalhe prateado que capturava a luz, o nó elegante na cintura… nada gritava "olhem para mim", mas tudo nela chamava. Ela era uma obra de arte em movimento.
Peguei-me sorrindo sem perceber, com aquele orgulho mudo de quem sabe que teve sorte. Não por estar ao lado da mulher mais bonita da festa — o que era um fato indiscutível — mas por ser o único homem naquele planeta que podia chamá-la de "minha". O único que sabia o quão vulnerável e, ao mesmo tempo, quão letal ela era.
Eu me aproximei dela e estendi a mão, segurando o pequeno cartão de Kenny.
- Pronta para calar o Victor?
- Mais que pronta.
Os seguranças nos conduziram até o local da festa de encerramento. Mesmo sendo uma pré-estreia para streaming, a entrada estava repleta de paparazzi e jornalistas. Minha esposa era uma estrela de cinema, e essa era a noite dela.
Marina se transformou no segundo em que saiu do carro. Ela sorriu para as câmeras, acenou, e a multidão foi à loucura. Posamos para as fotos juntos, eu com o meu sorriso protetor, ela com o seu sorriso de milhões. Depois, ela posou sozinha, é claro. Eu sabia que a noite, em termos de carreira, era totalmente dela.
Logo, entramos no salão. Era um pequeno hall luxuoso que dava acesso à área externa, onde a festa estava montada. O espaço estava aquecido e coberto, o que aliviava o frio de Los Angeles à noite.
Marina, como a anfitriã não oficial do evento, cumprimentava animadamente todos que vinham falar com ela: produtores, diretores, investidores. Eu a segui, mantendo-me simpático e educado. Eu sabia que a minha função era ser o marido de apoio, mas meus olhos vasculhavam a multidão.
E então, eu o vi.
Ele estava de pé, na beira da área de bar, conversando com alguns atores e bebendo whisky. Victor.
Ele estava exatamente como nos cartazes: alto, charmoso, com a arrogância levemente disfarçada. Nossos olhares se encontraram por cima da cabeça de uma atriz. A conversa em que ele estava se desenrolando parou.
O sorriso confiante de Victor se desfez. Seu semblante mudou para um choque frio, uma espécie de susto. Eu imaginei que ele esperava ver Marina sozinha, vulnerável, talvez ainda com a ideia de que poderia se desculpar ou se reaproximar.
Ele certamente não esperava me ver ali.
O choque no rosto de Victor era evidente, e meu instinto era ir até lá e calá-lo. Mas o hall estava cheio de fotógrafos e jornalistas de jornais famosos. Um confronto físico ou verbal aqui seria um desastre viral. Kenny não conseguiria limpar essa bagunça.
Como se tivessem sido chamados pelo meu receio, um grupo de repórteres se aproximou. A jornalista à frente, com um microfone na mão e um sorriso profissional, foi direta:
- Marina, Luan, vocês poderiam nos conceder uma entrevista rápida?
Olhei para Marina. Ela me deu um sorriso forçado, mas decidido, que dizia "vamos jogar o jogo deles".
- Claro que sim. -ela respondeu com sua voz doce e charmosa.
O cameraman se posicionou. A jornalista deu o sinal e começou com as perguntas, primeiro sobre o filme.
- Marina, como está o coração se despedindo da Noah? O que o público pode esperar?
Marina respondeu com paixão sobre o projeto, sobre a profundidade da personagem, sobre a emoção do público poder finalmente assistir na Prime Video amanhã.
- E projetos futuros? Algum outro filme de suspense ou drama engatilhado?
Aí veio o nosso primeiro movimento, a cortina de fumaça.
- Na verdade, sim! -Marina exclamou, com um brilho nos olhos que parecia genuíno.- No próximo mês, estarei saindo do país! Vou embora para o Brasil.
A jornalista pareceu surpresa.
- O Brasil? Uau!
- Exatamente! Surgiu uma oportunidade incrível de uma minissérie lá. Não posso dar muitos detalhes, mas em breve soltarei spoilers nas minhas redes. Estou muito ansiosa!
- E você atuará em português?
- Esse projeto em especial eu ainda atuarei na minha língua nativa. Mas a história se passa no Rio, São Paulo, mas também em cidades dos Estados Unidos, Roma... estou muito animada para começar as gravações.
A cortina de fumaça estava armada. Estávamos indo embora, e por um ótimo motivo de carreira. A fuga parecia um avanço.
A jornalista então mudou para a área pessoal, e o Victor ainda nos observava de longe, o copo de uísque parado no meio do caminho até a boca. Era a nossa vez de sermos o casal feliz.
- Bom, agora para os assuntos que os fãs realmente querem saber! Vocês são um dos casais mais shippados de Hollywood. Depois de casados e com a adorável Serena, vocês têm planos de dar um irmãozinho a ela em breve?
Marina riu, uma risada leve.
- O tempo de Deus é perfeito. Por enquanto, estamos focados em dar toda a atenção para a Serena. E com esse projeto no Brasil fica inviável uma gravidez agora, Luan também tem seus projetos. Mas é claro que temos esse desejo! Quem sabe daqui um ano e meio ou dois?
- E ciúmes? Vocês dois são pessoas lindas, cercadas de gente linda no trabalho. Como vocês lidam com ciúmes? Marina tendo que contracenar romanticamente, e Luan tendo suas fãs enlouquecidas em seus shows.
Olhei para Marina e sorri, apertando sua mão.
- Não há tempo para isso. -respondi com sinceridade.- Quando se tem uma família, a confiança é o que sustenta tudo.
- É verdade. -Marina concordou, me encarando com uma intensidade que era totalmente real.- Nós dois somos muito ocupados, e o tempo que temos é tão precioso que não o gastamos com insegurança. Nós nos protegemos, e a nossa base é inabalável.
A última frase era um recado claro, não para a jornalista, mas para o Victor do outro lado do salão.
A entrevista estava no final, a jornalista agradeceu e o cameraman desligou a câmera. Victor havia bebido o copo de uma vez. Agora era a hora.
O olhar de Victor estava fixo em Marina. Ele se moveu rapidamente pela multidão, mantendo a pose de estrela que precisava para o público e a imprensa.
Ele parou na nossa frente, a expressão dele era séria, mas contida, perfeitamente calibrada para a multidão que observava.
- Marina. -ele fez uma pausa dramática.- Será que poderíamos conversar a sós por um instante?
Marina e eu trocamos um olhar rápido. O meu dizia "não confie"; o dela dizia "eu domino isso". Ela me deu um aceno quase imperceptível. Eu tinha que confiar nela.
Ao passar por ela, deixei discretamente o cartão de Kenny na palma da mão dela, o papel timbrado com o contato do advogado. Eu me afastei um pouco, mas me posicionei a uma distância que me permitia observar e ouvir, caso a voz dele se alterasse.
Marina se inclinou, e Victor começou a falar. E o que saiu da boca dele nos pegou completamente de surpresa.
- Eu admito que errei, Marina. Fui burro. Fui idiota. -ele começou, a voz baixa, mas intensa.- Eu juro, eu não vou fazer mal nenhum a você ou à sua família. Não vou falar nada, nem para os jornalistas, nem para ninguém.
Ele olhou ao redor, nervoso.
- Sinceramente, eu não sei de nada e nem quero saber. Só quero ficar na boa e aproveitar que os filmes acabaram para seguir em frente com a minha carreira, fazer outros papéis. Agora que você vai embora para o Brasil... não precisa se preocupar comigo. Eu não vou ser um empecilho na vida de vocês.
Ele estava se rendendo.
As palavras dele me surpreenderam profundamente, e vi a testa de Marina franzir levemente. Ele não estava fazendo ameaças veladas. Ele estava implorando por paz. O confronto de chantagem nem seria necessário.
O Victor estava quebrado. A pressão da nossa família, a morte de Chloe e Harry, e o medo de estar envolvido em algo maior o haviam silenciado por conta própria. Ele não era um criminoso de verdade; era um covarde.
Marina apenas o encarou por um momento. Ela manteve o sorriso, perfeitamente alinhado com a fachada de conversa amigável que todos os curiosos esperavam. Ela se inclinou ligeiramente e, com um movimento rápido e imperceptível, entregou o cartão de Kenny na mão de Victor.
- Fico feliz em ouvir isso, Victor. -ela disse, a voz ainda doce, mas os olhos frios.- Mas para garantir, quero que você guarde isso. É o número do meu advogado.
Victor olhou para o cartão em sua mão, confuso.
- Advogado? Para quê, Marina? Eu acabei de dizer que...
Marina o interrompeu, sorrindo ainda mais largamente.
- Exatamente, você não vai fazer nada. E esse cartão garante que você nunca mais cogite fazer. Se por acaso você sentir a tentação de falar sobre mim, sobre o Luan, sobre o Justin e Bruna, ou sobre qualquer coisa que você viu ou ouviu, você liga para esse número e pergunta por Kenny.
A menção do nome de Kenny, que ele sabia ser o chefe de segurança de Justin e o homem que desenterra segredos, fez Victor engolir em seco.
- Em menos de doze horas... -Marina continuou, sua voz se tornando um sussurro letal, sem perder o sorriso.- Tudo o que o Kenny tem sobre o seu envolvimento com coisas ilegais será entregue à promotoria. Sua carreira, sua vida, sua liberdade. Tudo acaba.
O sorriso dele sumiu. Ele olhou para o cartão como se fosse uma bomba. A chantagem estava completa. O medo da prisão superou sua obsessão. Ele estava silenciado.
Nesse momento crucial, a voz do produtor ecoou pelo salão:
- Elenco, bora para a foto de grupo!
A chamada foi o nosso alívio.
Marina se afastou primeiro, deixando Victor paralisado com o cartão na mão. Ela caminhou em direção ao grupo com seu charme de estrela intacto e se posicionou ao lado do diretor.
Victor a seguiu segundos depois, recompôs sua postura, e forçou um sorriso para os paparazzi. Mas ele se posicionou longe dela. O casal principal do filme estava separado na vida real, e para sempre.
Eu finalmente consegui relaxar. Victor estava silenciado, a bomba dele desativada. Aceitei um whisky de um garçom que passava e observei Marina à distância. Ela estava conversando com o diretor, o alívio era visível na maneira como ela gesticulava, mas a pose profissional ainda estava impecável.
Logo, ela pegou uma margarita e veio até mim, atravessando a multidão.
- Problema resolvido. -ela disse, erguendo o copo em um brinde silencioso.- O medo da cadeia é um ótimo cala-boca.
Eu toquei meu copo no dela, bebendo um gole.
- Foi impecável. -não pude evitar de elogiar.- Aquela pose, o sorriso, e a facada final com o cartão. Achei até sexy.
Ela riu, encostando-se a mim. O calor dela era um lembrete do porquê estávamos ali.
- Agora, vamos relaxar e curtir.
Nesse momento, as luzes do salão diminuíram. A música parou, e a atenção de todos foi para a frente. Um telão enorme desceu no centro da área de festa.
- O que é isso? -perguntei a Marina.
- Ah, é o toque final. -ela explicou, tomando um gole da margarita.- Vão passar um pedaço do filme no telão. Uma cena de cinco minutos para dar um gostinho de quero mais. Já que o filme lança mesmo amanhã, eles querem garantir os streamings. É puro marketing.
Enquanto a tela se iluminava com o logo do filme, meu corpo voltou a tensionar levemente. Aquele projeto, que deveria ser a coroação de Marina, havia se tornado o centro de toda a nossa desgraça e o ponto de contato com Victor.
Olhei para o lado oposto do salão. Victor estava parado sozinho, assistindo à tela com uma expressão vazia. Ele era o protagonista da cena que estava prestes a passar, mas na vida real, era o nosso prisioneiro.
A amostra do filme terminou, e o telão subiu novamente. A música na festa mudou, entrando em uma batida mais forte, típica de balada. Eu estava terminando meu whisky quando os alto-falantes explodiram com a batida inconfundível: "Gasolina".
A música era icônica no universo do filme de Marina. Foi o sucesso do primeiro longa, a cena em que a personagem dela, Noah, fez e se tornou icônica.
O rosto de Marina se iluminou com uma eletricidade pura. Ela estava sendo chamada de volta ao seu elemento, ao centro do palco.
- Essa é a minha deixa. -ela disse, pousando o copo de margarita.
Eu a observei com fascínio. Em um instante, ela deixou de ser a estrategista fria que chantageou Victor e se transformou na atriz que celebrava o seu trabalho.
Ela foi direto para a pista de dança.
No meio da multidão de atores e produtores, Marina era a protagonista absoluta. Ela se soltou, dançando com uma energia contagiante que canalizava a essência da sua personagem. Era uma celebração, não apenas do filme, mas de tudo o que ela havia superado para estar ali.
Era um último ato de triunfo. Ela era o centro das atenções, a estrela que estava indo embora, mas que deixava sua marca. Eu a observei dançar, sentindo um orgulho imenso. Ela era a razão de toda a nossa luta, e ver a alegria dela, mesmo com o perigo iminente, era o meu presente.
Olhei para Victor. Ele estava encostado na parede, o cartão de chantagem provavelmente queimando no bolso. Ele a observava de longe, a expressão dele uma mistura de desejo e ódio impotente. Ele era um fantasma agora.
[...]
A festa terminou em um borrão. Saímos do salão, exaustos pela adrenalina e pela atuação, mas eufóricos pela vitória.
Os seguranças nos deixaram na porta da suíte do hotel. Já passava da meia-noite. Marina mal conseguia destrancar a porta, rindo enquanto tentava enfiar o cartão na fechadura. Tínhamos bebido demais. O álcool dançava na minha cabeça, uma mistura de whisky e margaritas, mas era o alívio que nos embriagava de verdade. Victor estava silenciado. Estávamos livres.
Entramos no quarto e a porta se fechou atrás de nós. O clima mudou instantaneamente. O cansaço deu lugar a um tesão inexplicável, uma urgência primária. O álcool, a tensão liberada e a proximidade da despedida iminente acenderam um fogo que não podíamos ignorar.
Marina se virou para mim, os olhos verdes cintilando no escuro. Seu sorriso bêbado era a coisa mais linda e perigosa que eu já tinha visto.
- Seu cretino. -ela sussurrou, a voz carregada de desejo.- Você fica lindo de branco.
Eu não respondi com palavras. A puxei para mim, o vestido de seda amassando-se contra o meu terno. O beijo era faminto, uma celebração desmedida do fato de estarmos vivos e juntos.
As roupas eram a nossa última barreira. O vestido branco de Marina e meu terno foram jogados pelo caminho. A última noite em Los Angeles, antes de voltarmos para a realidade e para a partida para o Brasil, seria um resgate do que era nosso.
Minhas mãos percorreram seu corpo com uma familiaridade que ainda carregava a centelha da descoberta. Tiramos o restante das peças que ainda usávamos e agora, estávamos oficialmente despidos. Cada curva, cada suspiro, era um território que eu reivindicava, que me pertencia por direito. O álcool turvava os sentidos, mas aguçava o instinto. Ela era minha mulher, meu prêmio, minha âncora no meio do caos que havíamos criado.
- Vira. -ordenei, meu sussurro rouco contra seu ouvido, minhas mãos firmes em seus quadris.
Marina me obedeceu com um ar de submissão que era pura teatralidade; eu conhecia o fogo que queimava por trás daquela docilidade. Ela se posicionou de quatro na cama larga, as costas arqueadas em uma curva perfeita que me fez prender a respiração. A luz fraca do luar que entrava pelas frestas das persianas pintava de prata a pele suave de suas costas, o contraste do seu cabelo escuro espalhado sobre os travesseiros.
Minha mão deslizou da sua cintura até a nuca, em uma carícia que era ao mesmo tempo posse e reverência. Eu a guiei para frente, suavemente, e ela enterrou o rosto no lençol, um gemido abafado escapando de seus lábios. Meus joelhos se firmaram entre as pernas dela, afastando-as ainda mais. A visão era de uma rendição tão completa que algo primal despertou dentro de mim.
- Você é minha. -falei, mais para mim mesmo do que para ela, antes de me enterrar nela de uma vez.
Ela gritou, um som abafado pelo tecido, seu corpo arqueando violentamente para trás contra o meu. Era úmido, quente, um abraço apertado que conhecia o formato do meu corpo tão bem quanto eu conhecia o dela. Comecei a me mover com um ritmo deliberado, não de pressa, mas de reconquista. Cada investida era uma afirmação. Estávamos vivos. Tínhamos vencido. Ela era minha.
Minhas mãos agarravam seus quadris, os dedos afundando na carne macia, marcando território. Inclinei-me sobre suas costas, meu suor misturando-se ao dela, minha boca encontrando a junção de seu pescoço e ombro. Beijei, mordisquei a pele salgada, e senti o tremor que percorreu todo o seu corpo.
- Luan... -ela gemeu, meu nome um mantra em seus lábios, um pedido e uma oração.
Eu aumentei o ritmo, a cama rangendo em uma cadência sincopada com nossos corpos. O mundo fora daquela suíte se dissolveu em um borrão sem importância. Só existia isso. O som úmido da nossa união, a respiração ofegante, o cheiro do nosso sexo e do perfume caro dela se misturando no ar condicionado.
Ela começou a se contorcer, seus gemidos se tornando mais agudos, mais urgentes. Eu sabia que ela estava perto. Uma de minhas mãos se enroscou em seu cabelo, puxando com força suficiente para arrancar um grito de prazer e dor.
Foi o gatilho. Seu corpo estremeceu violentamente, um longo, tenso arco de puro êxtase, e ela gritou sem se importar em abafar o som agora. O espasmo interno dela, contundente e ritmado, foi minha ruína. Enterrei meu rosto em suas costas, um rugido abafado escapando do meu peito enquanto a seguia por sobre o precipício, minha própria liberação uma onda cega e avassaladora que apagou tudo.
Por um longo momento, ficamos assim, colados, ofegantes, o suor escorrendo por nossas espinhas. O silêncio era pesado, quebrado apenas pela nossa respiração aos poucos se acalmando. Eu me desprendi dela e rolei para o lado, puxando-a comigo, de costas contra meu peito. Ela veio, mole e plácida, seu corpo se encaixando perfeitamente no meu como a peça final de um quebra-cabeça.
Não trocamos palavras. Não eram necessárias. Meu braço estava em volta dela, minha mão plana sobre seu estômago, sentindo a pulsação acelerada que aos poucos diminuía. O vestido branco e o terno, amassados no chão, eram os únicos trapos de evidência do nosso furacão. A realidade poderia esperar até o amanhecer. Naquele instante, na penumbra de um hotel, só existíamos nós. E era o bastante.