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Capítulo 136

Marina Narrando 

Me afastei da janela como se tivesse levado um choque, tropeçando para trás e caindo sentada na cama. A imagem estava gravada a fogo nas minhas pálpebras: o rio de destroços, a violência da água, o mundo que eu conhecia sendo desfeito em pedaços.
 
- Luan... -a palavra saiu da minha boca como um sopro, sem som.

Ele já estava ao meu lado, me puxando para longe do vidro que tremia violentamente na moldura.

- Fica longe da janela! -ele gritou por cima do rugido do vento.

O chão sob nossos pés vibrava. Não era um tremor, era uma vibração constante e profunda, como se estivéssemos no convés de um navio sendo partido ao meio. Cada estrondo de um objeto atingindo a parede externa da casa era um soco no meu peito, roubando meu fôlego.

Minha mente se recusava a aceitar. Horas atrás. Ontem eu estava rindo, cantando "Sálvame" em um sussurro envergonhado, confessando minha paixão adolescente pelo Diego. Estávamos correndo na chuva, nos beijando no chuveiro. Estávamos em nossa lua de mel. Como? Como o paraíso se transformou neste inferno com tanta rapidez?

Pensei na minha filha. Serena. O rostinho dela sorrindo na tela do celular, o pijama da Barbie, o "Mama!" feliz. A imagem me atingiu com a força de um furacão interior. A possibilidade de nunca mais vê-la, de nunca mais sentir o cheiro dela, de ela crescer sem mim... a dor era tão física, tão insuportável, que me curvei, ofegante.

- Luan, a Serena... -comecei a dizer, a voz se quebrando em um soluço.

Ele me abraçou com força, o rosto enterrado no meu cabelo.

- Não pensa nisso agora, amor. Por favor. A gente precisa focar em ficar seguro. Um minuto de cada vez.

Mas como eu poderia não pensar nisso? Ela era tudo. Ela era o nosso "depois". E pela primeira vez na minha vida, o "depois" parecia uma incerteza aterrorizante.

Foi quando um som diferente cortou o barulho constante. Um silvo agudo, crescente, que parecia vir de dentro do próprio quarto. Instintivamente, nós dois olhamos para a janela. Vimos uma rachadura se formar no vidro, uma teia de aranha se espalhando a partir do centro em uma fração de segundo.

E então, o mundo explodiu.

A janela não quebrou. Ela se desintegrou. Uma implosão violenta de vidro, vento e chuva invadiu o quarto. Fomos jogados para o lado pela força da rajada, cacos de vidro voando como facas na escuridão. Gritei, cobrindo a cabeça com os braços. A chuva horizontal nos açoitava, gelada e brutal. As cortinas foram arrancadas da parede e voaram pelo quarto como fantasmas.

- Para o banheiro! Agora! -Luan gritou no meu ouvido, me levantando do chão.

Ele me arrastou pelos escombros, o vento uivando dentro do nosso quarto, tentando nos derrubar. Chegamos à porta do banheiro e nos jogamos para dentro. Luan usou todo o seu peso para fechar a porta contra a pressão do vento. Ele a trancou e se escorou nela, ofegante.

Estávamos em um cubículo de escuridão total. O som aqui dentro era abafado, mas de alguma forma mais assustador. Podíamos ouvir a destruição acontecendo do outro lado da porta, o som de objetos sendo revirados, do vento rasgando nosso quarto. E por baixo de tudo, vindo do andar de baixo, o som inconfundível da água. Subindo.

Nosso santuário tinha encolhido. Do paraíso em Tulum, para um Airbnb, para o segundo andar, para um quarto, e agora... para um banheiro escuro e úmido. As paredes estavam se fechando ao nosso redor. E o monstro estava do lado de fora da porta.

Encolhida na escuridão do banheiro, o som da minha própria respiração ofegante se misturava ao rugido do mundo se desfazendo do outro lado da porta. O medo era uma coisa física, um animal gelado que se aninhava no meu estômago. Eu podia sentir o corpo do Luan tenso ao meu lado, sua respiração tão irregular quanto a minha. Estávamos encurralados. Vítimas. Esperando.

Esperando o quê? A casa desabar? A água subir e nos afogar?

E então, no meio do pânico, a imagem da Serena invadiu minha mente com a força de um relâmpago. Seu sorriso. Seus bracinhos se esticando para mim. A promessa silenciosa que eu fiz no dia em que ela nasceu, de que eu a protegeria, de que eu sempre voltaria para ela.

E uma nova emoção, feroz e ardente, surgiu e devorou o medo. Raiva.

Eu não ia morrer aqui.

Eu não fui criada para ser frágil, para me encolher em um canto e esperar o fim. Eu não era uma donzela em perigo. Eu era a porra da mãe da Serena. E eu ia voltar para a minha filha.

- Chega. -falei, a voz saindo baixa e dura, cortando o som do caos.

Senti Luan se virar para mim na escuridão.

- O quê?
 
- Chega de se esconder. -levantei-me, o corpo movido por essa nova onda de adrenalina.- Luan, essa casa não vai aguentar. A gente consegue ouvir as paredes estalando. A água está subindo. Ficar aqui não é segurança, é uma sentença de morte.

- Marina, lá fora é o apocalipse! É mais seguro aqui! -ele argumentou, a voz cheia da mesma lógica que nos prendeu aqui.

- Seguro? -questionei, a voz subindo.- Ficar aqui é esperar a casa cair em cima da gente ou a água subir até o teto. Não vou morrer afogada num banheiro em Tulum. Eu me recuso.

Minha mente começou a trabalhar, a formular um plano, por mais insano que fosse. 

- A gente precisa dar um jeito de subir. Ir mais alto. O telhado. Se a gente conseguir chegar ao telhado, a gente sai da beira do mar, a gente fica acima da água.

- O telhado? Marina, você enlouqueceu? Como a gente vai chegar no telhado no meio de um furacão?

- Eu não sei ainda! -admiti, a frustração afiando minha voz.- Mas é melhor do que não fazer nada! Um passo de cada vez. Primeiro: suprimentos. A gente precisa de uma mochila.

Abri a porta do banheiro. O quarto era uma visão do inferno. O vento e a chuva entravam pela janela estilhaçada, um vórtice de destruição.

- Fica perto de mim! -gritei para o Luan por cima do barulho.

Entramos no quarto caótico. Móveis estavam virados. Pedaços de gesso caíam do teto. Com o facho de luz do celular do Luan, encontrei minha mochila, jogada num canto.
 
- Aqui! -apontei.- Pega os celulares, o carregador portátil, nossos passaportes na gaveta. Rápido!

Enquanto ele pegava as coisas, meu olhar correu pelo quarto, avaliando. A próxima etapa era a mais perigosa.

- Agora a gente precisa descer. -falei.

- Descer? Pra água? -o rosto dele era uma máscara de incredulidade.

- A comida e as garrafas de água que a gente juntou estão na bancada da cozinha. A água não deve ter chegado lá ainda. A gente não sobrevive sem água potável. Vamos.

Eu não esperei por uma resposta. Fui em direção à porta do quarto, e desci as escadas com cuidado. O choque da água gelada e suja, agora batendo na altura dos meus joelhos, me fez engolir em seco. Era nojento. Havia coisas flutuando. Mas continuei, um passo de cada vez, Luan logo atrás de mim.

Na cozinha, a cena era surreal. A água se movia lentamente, criando ondas dentro da casa. Mas, como eu previ, a bancada ainda estava seca. Subimos nela e rapidamente enchemos a mochila com todas as garrafas de água e pacotes de salgadinhos e barras de proteína que encontramos.

- Ok, vamos voltar. - falei, a mochila agora pesada nas minhas costas.

Subimos as escadas de volta, o peso extra nos desequilibrando na água. Chegamos ao corredor encharcado do segundo andar, ofegantes, pingando, mas vivos. E agora, preparados.

Fechei a porta do quarto atrás de nós, nos isolando do pior do vento por um momento. Eu não estava mais com medo. Estava focada. Olhei para o Luan, que me encarava com uma mistura de choque e admiração.

- Agora... -falei, erguendo a cabeça e apontando a lanterna do celular para o teto do corredor.- A gente descobre como chegar lá em cima.

O facho de luz do celular dançava pelo teto do corredor, procurando por qualquer sinal de uma entrada para o sótão, uma fraqueza na estrutura, qualquer coisa que pudéssemos usar. Atrás de mim, ouvi Luan soltar um suspiro pesado, um som de derrota que entrou em conflito direto com a minha nova determinação.

- Marina, não. -ele disse, a voz baixa e grave.- Eu sou pesado. Se eu subir aí, com a casa já desse jeito... eu posso agilizar o processo dela desabar.

Virei-me para encará-lo. Ele não olhava para mim, mas para os próprios pés.

- Você tem que ir. -ele continuou, a voz quase um sussurro.- Pela Serena. Se um de nós tem uma chance, tem que ser você. Vá.

As palavras dele me atingiram, não como uma sugestão prática, mas como a manifestação do seu medo mais profundo. Ele não estava sendo lógico. Estava tentando se sacrificar. E aquilo, eu não podia permitir.

Dei os dois passos que nos separavam, a água se agitando ao meu redor. Ignorei a mochila pesada em minhas costas, a tempestade rugindo lá fora, a casa gemendo ao nosso redor. Naquele momento, só existia ele.

Segurei seu rosto entre minhas mãos, forçando-o a erguer o olhar e encontrar o meu. Seus olhos estavam cheios de um desespero que partiu meu coração, mas que também alimentou minha fúria contra a situação que nos encurralou.
 
- Escuta bem o que eu vou te dizer. -falei, a voz firme, sem espaço para discussão.- Eu jamais deixaria você pra trás. Ouviu bem? Jamais.

Apertei seu rosto com um pouco mais de força, querendo que ele sentisse a verdade em cada uma das minhas palavras.

- A gente vai junto. Você é meu marido, Luan. Meu parceiro. Onde eu for, você vai junto. E nós vamos sair daqui e vamos voltar para a Serena. Juntos. Não existe outro plano. Não existe outra opção. Nós. Juntos.

Fiquei ali, segurando seu rosto, meus olhos fixos nos dele, até que eu vi a sombra da derrota recuar e ser substituída por uma centelha da minha própria determinação. Ele engoliu em seco e, lentamente, assentiu. Eu tinha chegado até ele. A discussão estava encerrada. Não éramos mais duas pessoas assustadas. Éramos uma equipe. E nós iríamos lutar. Juntos.

Com nosso pacto selado no ar pesado do corredor, minha mente entrou em modo de combate. Apontei o facho de luz para cima novamente, varrendo o teto. E ali, quase invisível sob a pintura, estava o que eu procurava: um contorno quadrado. A porta do sótão.

- Ali. -apontei.- É a nossa saída.

Sem esperar, tirei a mochila pesada das costas e a coloquei sobre o corrimão da escada para mantê-la fora da água.

- Luan, preciso de altura.

Ele entendeu na hora. Agachou-se um pouco, as costas firmes.

- Sobe. Eu te aguento.

Subi em suas costas, meus tênis encharcados escorregando em seus ombros. Ele me segurou pelas pernas, firmando meu corpo enquanto eu me erguia, o teto agora ao alcance das minhas mãos. A porta era de madeira simples, sem maçaneta, apenas encaixada. Empurrei, mas não cedeu, emperrada pela umidade.

- Não abre! -gritei por cima do barulho.

- Com mais força!

Cerrei o punho e soquei a madeira. Dor. Usei o cotovelo, colocando todo o meu peso e minha raiva no golpe. Uma, duas, três cotoveladas. Na quarta, ouvi um estalo. Na quinta, a porta cedeu, abrindo para uma escuridão ainda mais profunda. O ar que saiu de lá era quente e abafado, com cheiro de poeira e madeira velha.

- Consegui!

Com esforço, me coloquei de pé sobre os ombros firmes do Luan. Ele gemeu com o meu peso, mas não vacilou. Passei a cabeça e os ombros pela abertura e me impulsionei para dentro do sótão, caindo sobre as vigas de madeira. O som do furacão aqui em cima era ensurdecedor, o vento e a chuva açoitavam o telhado a centímetros da minha cabeça, como se o céu estivesse tentando entrar.

Virei-me e olhei para baixo. O rosto do Luan, iluminado pela luz que vinha do meu celular, era uma mistura de alívio e uma resolução sombria que eu odiei. Ele estendeu os braços e me entregou a mochila pesada.

- Agora vai, Marina. -ele disse, a voz abafada.- Segue pela viga principal até o outro lado, procura uma saída. Vai, por favor. Pela Serena.

A mesma conversa de novo. A mesma tentativa idiota e nobre de me salvar sozinha. A raiva voltou, quente e protetora.

- Não. -falei, a voz cortante.- Para de fazer isso comigo, Luan. Você não entende? Se você ficar aí, eu vou ficar aqui. Eu vou sentar e esperar com você. É isso que você quer? Morrer junto comigo soterrados em Tulum?

Estendi minha mão para ele, um comando silencioso na escuridão.

- Sobe. Agora.

Ele olhou para a minha mão, depois para a distância até o buraco. A hesitação em seu rosto era torturante. Por um segundo, achei que ele fosse recusar.

- Vou buscar algo pra me apoiar. -ele disse, finalmente.

Ouvi o som dele se movendo pela água lá embaixo. Os segundos que ele ficou fora de vista foram uma agonia. E então ele voltou, arrastando um pequeno pufe de vime que ficava no canto do corredor. Ele o posicionou embaixo da abertura, a água suja girando ao redor da base.

Ele subiu no pufe, que balançou perigosamente. Esticou o braço, e seus dedos encontraram os meus. Segurei sua mão com toda a força que eu tinha.

Ele usou toda a sua força para se impulsionar para cima, e eu usei a minha para puxá-lo. Seus músculos se contraíram, ele lutou contra o próprio peso. Por um instante, achei que não conseguiríamos. Mas então, com um último esforço gutural, ele conseguiu passar a cabeça e os ombros pela abertura. Ajudei-o a puxar o resto do corpo, e ele caiu no chão de madeira ao meu lado, ofegante, o corpo pesado contra o meu.

Estávamos juntos. Estávamos seguros. Pelo menos por enquanto.

A adrenalina que me manteve de pé cedeu, dando lugar a uma onda avassaladora de emoção. Joguei meus braços ao redor do seu pescoço e o abracei com uma força desesperada. As lágrimas que eu segurei por tanto tempo finalmente vieram, um choro convulso e de alívio que sacudiu meu corpo inteiro.

- Para... -sussurrei, a voz quebrada contra o seu ombro molhado.- Para de tentar ficar pra trás. Nunca mais faz isso comigo, tá me ouvindo? Eu não quero viver uma vida sem você. Eu não consigo.

Ele me apertou de volta, o corpo dele tremendo junto com o meu.

- Desculpa. -ele murmurou, a voz rouca.- Desculpa. Eu não vou mais. Vamos fazer isso juntos.

Ficamos ali, abraçados na escuridão do sótão, enquanto o mundo acabava lá fora. Éramos apenas duas pessoas, assustadas e exaustas, mas éramos uma equipe. E estávamos prontos para o que viesse a seguir. Juntos.

O abraço durou apenas um momento, um refúgio necessário no olho do nosso furacão particular. Quando nos afastamos, algo no Luan havia mudado. A hesitação, o medo que o fazia querer se sacrificar, tinha desaparecido. Em seu lugar, havia uma calma focada, uma determinação que espelhava a minha. Ele tinha aceitado a nossa realidade, e agora estava pronto para lutar.

Ele pegou o celular da minha mão, o facho de luz agora firme e sem tremores. O desespero tinha dado lugar ao propósito. Luan tomou as rédeas.

- Ok. -ele disse, a voz soando clara e autoritária por cima do rugido do vento.- A gente precisa se mover com cuidado. Pisa só nas vigas de madeira. Se pisar no gesso, a gente atravessa o teto e volta pro andar de baixo.

Ele passou a alça da mochila pelos ombros, ajeitando o peso.

- Deixa que eu levo isso. Você precisa das mãos livres. Fica atrás de mim.

Assenti sem hesitar. Eu tinha sido a faísca que iniciou o incêndio da nossa reação, mas agora, ele era o fogo que nos guiaria. Eu o segui, colocando meus pés exatamente onde ele colocava os dele. O sótão era um labirinto de vigas de madeira escura, teias de aranha e o cheiro de chuva e poeira. O calor era sufocante. Acima de nós, o telhado gemia e estalava sob o ataque implacável da tempestade. O som de detritos sendo arrastados sobre as telhas era como unhas gigantes arranhando nosso caixão.

Luan movia-se com uma agilidade surpreendente, o corpo curvado para não bater a cabeça, o feixe de luz varrendo o ambiente metodicamente. Ele era a personificação da concentração.

- A gente precisa achar o ponto mais fraco. -ele falou, mais para si mesmo do que para mim.- Uma saída de ar, uma claraboia, qualquer coisa que não seja telha maciça...

Ele parou de repente, focando a luz em um canto.

- Ali.

Segui o facho de luz. Havia uma pequena janela de ventilação, uma grade de metal quadrada, provavelmente para a exaustão do ar quente. Algumas das ripas de metal já estavam tortas, arrancadas pelo vento. Era a nossa melhor chance.

Chegamos até ela, nos equilibrando nas vigas. Luan testou a grade com a mão.

- Está solta. Acho que consigo arrancar.

Ele se posicionou, encontrando o melhor apoio que podia. Ele olhou para mim, os olhos sérios e focados na luz do celular.

- Escuta. O vento lá fora vai ser inacreditavelmente forte. Assim que eu abrir isso, não vai ter como voltar atrás. Eu vou primeiro para testar a força. Depois, você sobe. E quando estiver lá fora, você não vai ficar de pé, entendeu? A gente vai rastejar. O mais baixo possível, até a parte central do telhado, longe das beiradas. Entendeu, Marina?

A maneira como ele falou meu nome era um comando, um pedido, uma promessa. Ele não estava me tratando como frágil. Estava me tratando como sua parceira.

- Entendi. -respondi, a voz firme.

Vi o homem com quem eu casei, o pai da minha filha, o meu parceiro de vida. O medo ainda estava em seus olhos, eu podia ver. Mas agora, ele o usava como combustível. Ele não estava mais fugindo. Estava correndo de encontro ao perigo, por nós.

- Ok. -ele respirou fundo, agarrando a grade de metal com as duas mãos.- Se segura. Lá vamos nós.

Com um grunhido de esforço, Luan arrancou a grade de metal. O som do metal se contorcendo foi engolido por um rugido imediato, quando o furacão invadiu nosso pequeno refúgio. O vento era uma parede sólida que nos empurrou para trás, e a chuva entrou como uma metralhadora.

Luan não hesitou. Ele se virou, colocou as mãos na abertura e, com uma força que eu não sabia que ele possuía, se impulsionou para fora, para o meio da escuridão uivante. Por um segundo aterrorizante, ele desapareceu. Então, sua mão apareceu de volta na abertura, agarrando a borda, os nós dos dedos brancos.

- AGORA! -ele gritou, a voz quase inaudível contra a tempestade.

Agarrei sua mão e me arrastei para fora. O choque foi total. O vento me roubou o ar dos pulmões e tentou me arrancar do telhado. Se não fosse pela mão de Luan me segurando com uma força de ferro, eu teria voado.

- RASTEJA! -ele berrou no meu ouvido.

Obedeci, o corpo colado às telhas molhadas e escorregadias. Cada centímetro era uma batalha. A chuva era como agulhas de gelo em minha pele. O mundo era um borrão de escuridão, água e o som da fúria de Deus.

Um relâmpago clareou o céu, e por uma fração de segundo, eu vi. Vi o mar onde deveria haver terra. Vi casas desmoronando. Vi um caos de água e destroços. E vi nosso objetivo. Ao lado do nosso complexo de Airbnb, havia um hotel. Uma construção de concreto, mais alta, que parecia, contra todas as probabilidades, intacta. As janelas estavam estouradas, mas a estrutura se mantinha firme.

Luan também viu. Ele apontou, o rosto uma máscara de determinação sob a chuva.

- LÁ! A GENTE PRECISA CHEGAR LÁ!

O telhado do hotel estava a menos de dois metros do nosso, um abismo de água furiosa entre eles. Parecia um quilômetro. Rastejamos até a beirada, o vento tentando nos jogar no vazio.

- EU VOU PRIMEIRO! -Luan gritou.- QUANDO EU CHEGAR, EU TE AJUDO!

Ele se preparou, o corpo tenso como uma mola. E então ele pulou. Foi o segundo mais longo da minha vida. Ele pareceu pairar sobre o abismo escuro antes de aterrissar com um baque surdo no telhado de concreto do outro lado, derrapando, mas conseguindo se segurar.

Ele se virou para mim, o peito arfando.

- VEM, MARINA! AGORA! VOCÊ CONSEGUE!

Era a minha vez. Olhei para o espaço vazio. Pensei na Serena. E pulei.

Por um instante, eu estava voando. E então, minhas mãos e joelhos atingiram o concreto com força, a dor aguda e bem-vinda. Eu tinha conseguido. Luan me agarrou, me puxando para longe da beirada.

Estávamos no telhado mais seguro, mas ainda estávamos na tempestade. Ele nos guiou, rastejando, até encontrar o que procurava: uma porta de acesso de metal, provavelmente para manutenção. Estava trancada, mas a força do vento tinha entortado a moldura. Juntos, usamos toda a nossa força, enfiando os dedos na fresta e puxando. Com um rangido metálico de protesto, a porta cedeu.

Caímos para dentro, rolando por um pequeno lance de escadas de metal e aterrissando em um corredor escuro e silencioso. Luan chutou a porta, fechando-a.

E de repente, o rugido cessou.

O som do furacão foi reduzido a um uivo abafado e distante. O vento não nos açoitava mais. A chuva não nos cegava. Estávamos dentro. Estávamos fora da tempestade.

A exaustão me atingiu como uma onda física, e minhas pernas cederam. Desabei no chão de concreto, o corpo inteiro tremendo incontrolavelmente, uma mistura de frio, choque e alívio avassalador. Luan caiu ao meu lado, me envolvendo em seus braços.
Estávamos encharcados, machucados, cobertos de arranhões e hematomas. Mas estávamos vivos. Olhei para o rosto dele, mal visível na penumbra. Ele olhou de volta para mim. Não precisávamos de palavras.

Nós tínhamos conseguido. Encolhidos no corredor de serviço de um hotel abandonado no meio do fim do mundo, nós havíamos encontrado um lugar seguro.


O chão de concreto sob minhas costas nunca pareceu tão sólido, tão seguro. Cada respiração era um luxo, um ato consciente de que eu ainda estava aqui, que ainda podia sentir o ar encher meus pulmões. O rugido do furacão era agora um monstro distante, trancado do lado de fora. Luan estava ao meu lado, seu corpo uma presença quente e real na escuridão. Nós tínhamos sobrevivido.

A palavra ecoou na minha mente. Sobrevivido.

Um alívio profundo e avassalador me inundou, tão forte que era quase doloroso. Conseguimos. Agora, era só esperar. Esperar o sol nascer, esperar o vento parar, esperar a ajuda chegar. Esperar para podermos finalmente voltar para casa, para a nossa filha.

E ali, no chão frio de um hotel abandonado, eu fiz uma promessa silenciosa a mim mesma, a Deus, ao universo. Eu nunca mais voltaria ao México. Nunca. Esse paraíso tinha se revelado um inferno, e a memória dessa noite ficaria gravada em mim para sempre.
Nós ficamos ali, não sei por quanto tempo. O tempo tinha perdido o sentido. Podem ter sido minutos ou horas. Não dissemos nada. Não havia nada a ser dito que o nosso toque já não estivesse comunicando. Apenas nos segurávamos, sentindo os tremores um do outro diminuírem, a respiração se acalmar.

A adrenalina que nos manteve de pé, que nos fez lutar e pular entre telhados, se dissipou, deixando para trás uma exaustão tão profunda que parecia pesar em meus ossos. Meu corpo doía em lugares que eu nem sabia que existiam. O frio das nossas roupas molhadas começou a se infiltrar, e nos abraçamos com mais força, uma tentativa inútil de gerar calor. A exaustão tomou conta e, em algum momento, eu cochilei, caindo em um estado de dormência, um sono leve e sem sonhos, meu corpo simplesmente se desligando.

Fui despertada pela ausência. A ausência do som.

O rugido constante, a pressão nos meus ouvidos, o uivo que tinha sido a trilha sonora da nossa morte iminente por horas... tinha sumido. O silêncio era tão absoluto que pareceu um grito. Abri os olhos para a mesma escuridão, mas era uma escuridão calma agora. Pacífica.

Com o corpo todo dolorido, me levantei e caminhei devagar até a porta de metal por onde entramos. Havia uma pequena fresta perto do chão onde a porta estava torta. E por essa fresta, entrava uma linha fina de luz dourada.

O sol. O sol estava raiando. Tinha passado.
Virei-me para o Luan. Ele ainda dormia, encolhido no chão, o rosto relaxado pela exaustão, parecendo tão vulnerável. Uma onda de amor e alívio me atingiu com tanta força que minhas pernas fraquejaram. Nós estávamos vivos.

Ajoelhei-me ao lado dele e o cutuquei suavemente no ombro.

- Luan...

Ele acordou em um instante, um movimento brusco e violento. Seus olhos se abriram, selvagens de pânico, o corpo inteiro tenso, pronto para lutar ou fugir, ainda preso no pesadelo da noite anterior.

- Ei, ei, calma! -falei, a voz suave.

Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, joguei meus braços ao redor dele, abraçando-o com toda a força que me restava, enterrando meu rosto em seu pescoço.

- Acabou. -sussurrei, as lágrimas de alívio finalmente escorrendo pelo meu rosto.- Acabou, meu amor. A gente sobreviveu.

O abraço nos deu a força que precisávamos. Luan se levantou primeiro, o corpo se movendo com uma rigidez dolorida. Ele me estendeu a mão e me puxou para cima. Cada músculo do meu corpo protestou. Estávamos cobertos de lama, arranhões e uma camada de sujeira que eu nem conseguia identificar.

Pegamos a mochila. Antes de sairmos do corredor escuro, abrimos uma das garrafas de água e bebemos longos goles. A água nunca pareceu tão boa. Comemos uma barra de proteína cada um, em silêncio, a comida com gosto de cinzas, mas sabíamos que precisávamos de energia. Tentei ligar meu celular. Nada. O do Luan também estava morto. Sem energia, nossos carregadores eram inúteis e na correria, esqueci de pegar o carregador portátil. Estávamos completamente sozinhos e incomunicáveis.


Saímos do hotel e o mundo que nos recebeu era irreconhecível. O sol da manhã brilhava em um céu estranhamente limpo, mas a luz não trazia alegria. Apenas iluminava a devastação total.

A paisagem era um pesadelo. Prédios que eram hotéis charmosos e restaurantes boêmios agora eram esqueletos de concreto e madeira. Carros estavam virados, alguns dentro de piscinas, outros empilhados uns sobre os outros. Coqueiros, antes tão majestosos, agora eram apenas troncos partidos e sem folhas. Tudo, absolutamente tudo, estava coberto por uma camada espessa de areia e lama marrom. O cheiro de sal e destruição era pesado no ar.

Caminhamos em um silêncio chocado, de mãos dadas, desviando de destroços e poças de água parada. Éramos fantasmas em uma cidade fantasma.

Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, vimos luzes piscando ao longe. Um sinal de vida. Apressamos o passo, a esperança nos impulsionando. Chegamos a uma área que parecia ter sido a praça principal e encontramos uma cena de caos organizado. Havia viaturas da polícia, uma ambulância, e uma barraca improvisada onde médicos e enfermeiros cuidavam de dezenas de pessoas feridas, algumas em macas, outras sentadas no chão, com olhares vazios.

Nós éramos apenas mais dois sobreviventes, sujos e machucados.

Aproximei-me de um policial que coordenava a movimentação, a expressão exausta em seu rosto.

- Perdón, oficial. -comecei, em espanhol.- Necesitamos ayuda. Estamos atrapados aquí. (Com licença, policial. Precisamos de ajuda. Estamos presos aqui.)

O policial mal olhou para mim, o olhar passando por nós como se fôssemos invisíveis antes de anotar algo em sua prancheta.
- Nombres? (Nomes?) -ele perguntou, a voz cansada e automática.

- Marina Santana, o Marina Bieber, da igual. Y mi esposo, Luan Santana. (Marina Santana, ou Marina Bieber, tanto faz. E meu marido, Luan Santana) -respondi, a voz clara.

Naquele momento, ele parou. Sua caneta congelou sobre o papel. Ele levantou a cabeça lentamente e nos olhou de verdade pela primeira vez. Seus olhos se arregalaram em reconhecimento, passando do meu rosto para o do Luan e de volta. A máscara de exaustão profissional rachou, dando lugar ao choque.

- Esperen aquí. (Esperem aqui) - ele disse, a voz agora completamente diferente, e se afastou, falando apressadamente em seu rádio.

Ele voltou segundos depois, o olhar agora cheio de uma urgência focada em nós.

- La señora y el señor Santana, hay un helicóptero esperándolos. (Senhora e senhor Santana, há um helicóptero esperando por vocês) -ele disse, e as palavras pareceram vir de um universo paralelo.- Su familia los ha estado buscando. Pero sería mejor si pasaran por una evaluación médica primero. Tienen muchos moretones y sangre. (Sua família tem procurado por vocês. Mas seria melhor se passassem por uma avaliação médica primeiro. Vocês têm muitos hematomas e sangue.)

Helicóptero. Família. Esperando.

As palavras giraram na minha cabeça. Olhei para os meus próprios braços e vi, pela primeira vez à luz do dia, os arranhões profundos e as manchas escuras de sangue seco que eu nem tinha percebido que estavam ali.

Mas nada disso importava. A única coisa que importava era aquela frase. "Um helicóptero esperando por vocês". A promessa de uma saída.

Eu nem acreditei que sairia daquele inferno. O chão pareceu um pouco mais firme sob os meus pés. O pesadelo estava, finalmente, chegando ao fim.

Luan se virou para mim, os olhos cheios de uma confusão esperançosa enquanto o policial se afastava.
 
- O que ele disse? Eu não entendi nada.

Eu me virei para ele, e um sorriso, o primeiro sorriso genuíno em mais de doze horas, brotou em meu rosto.

- Ele disse que tem um helicóptero esperando pela gente. -falei, e vi o alívio inundar seu rosto, lavando a exaustão e o medo.- Nossa família estava nos procurando. A gente vai pra casa, meu amor.

Ele me abraçou ali mesmo, no meio daquele caos, um abraço apertado e trêmulo. O policial nos gesticulou para a barraca médica, e nós fomos, ainda de mãos dadas, como se tivéssemos medo de nos perdermos um do outro.

Um médico de meia-idade, com olheiras profundas, mas um olhar gentil, se aproximou de nós.

- Hola. ¿Se encuentran bien? (Olá. Vocês estão bem?) -ele perguntou, nos guiando para duas cadeiras dobráveis.

- Sí, gracias. Solo muy cansados. Fue una noche difícil. (Sim, obrigada. Só muito cansados. Foi uma noite difícil.) - respondi, sentindo o alívio de finalmente poder sentar.

O médico começou uma avaliação rápida e profissional. Ele checou nossos olhos com uma pequena lanterna, a luz intensa me fazendo piscar. Pediu para que ficássemos sentados enquanto aferia nossa pressão e temperatura. Enquanto isso, uma enfermeira jovem e eficiente começou a limpar nossos ferimentos com uma calma que eu achei milagrosa. A ardência do antisséptico nos arranhões era uma dor real, presente, que me lembrava que eu ainda estava aqui, que eu podia sentir.

- Voy a hacerles algunas preguntas. (Vou fazer algumas perguntas a vocês.) -o médico disse, e eu assenti, sabendo que meu próximo papel seria o de tradutora.

Ele começou com as perguntas básicas: sentíamos tontura, náuseas, dor de cabeça? Tínhamos perdido a consciência em algum momento? Para cada pergunta em espanhol, eu me virava para o Luan.

- Ele quer saber se você desmaiou em algum momento.

- Não, nunca. -Luan respondia, e eu traduzia de volta para o médico.

A rotina era quase cômica, se não fosse tão trágica. O médico então se virou para mim, o olhar um pouco mais sério.

- Señora, perdone la pregunta, pero es importante. ¿Hay alguna posibilidad de que esté embarazada? (Senhora, perdoe a pergunta, mas é importante. Há alguma possibilidade de que esteja grávida?)

A pergunta me pegou de surpresa. Gravidez. Uma palavra que pertencia a um mundo de planos, de futuro, de vida normal. Um mundo que parecia a milhões de quilômetros de distância. A ideia era tão absurda no meio daquela devastação que eu quase ri. Pensei em Serena, na maternidade, na vida que quase nos foi tirada.

- No. No, estoy segura. (Não. Não, tenho certeza) -respondi, balançando a cabeça.

A enfermeira terminou o último curativo no braço do Luan. O médico nos olhou, satisfeito.

- Bueno, parecen estar bien. Solo agotados y con heridas superficiales. (Bom, parecem estar bem. Apenas esgotados e com ferimentos superficiais) -ele concluiu, nos dando um pequeno sorriso cansado.- Tienen suerte. (Vocês têm sorte)

Sorte. Sim. Acho que essa era a palavra. Nós sobrevivemos. E agora, nada mais nos segurava aqui.

Assim que o médico nos liberou, o mesmo policial se aproximou, o rosto agora expressando uma simpatia cansada.

- ¿Listos? Puedo llevarlos al helicóptero ahora. (Prontos? Posso levá-los ao helicóptero agora.) -ele disse.

A enfermeira colava o último pedaço de esparadrapo no meu braço.

- Gracias por todo. (Obrigada por tudo) -agradeci a ela e ao médico, um gesto de normalidade que pareceu estranho e necessário.

Levantamos, os corpos protestando, e seguimos o policial. Ele nos levou até uma viatura, abrindo a porta de trás para nós. Entrar no carro e fechar a porta foi como selar um túmulo. O som do mundo exterior, o choro distante, os gritos de ordens, tudo foi abafado. Ficamos apenas nós dois e o policial, em um silêncio pesado.

Ele começou a dirigir, e a viagem foi um tour surreal pelo que restou de Tulum. O carro se movia lentamente, desviando de destroços que bloqueavam a estrada, passando por cenas de destruição que meu cérebro se recusava a processar completamente. Era como assistir a um filme de desastre, mas o cheiro de maresia e devastação que entrava pelas frestas da janela era real demais.

O policial quebrou o silêncio, talvez para preencher o vazio pesado ou por pura curiosidade.

- Perdonen la pregunta, pero... ¿qué hacían tan lejos de casa? (Perdoem a pergunta, mas... o que faziam tão longe de casa?) -ele perguntou, os olhos encontrando os meus pelo retrovisor.

Engoli em seco. A resposta era tão absurda, tão dolorosamente irônica, que por um segundo hesitei em dizê-la.

- Estábamos de luna de miel. (Estávamos em lua de mel)

A frase ficou suspensa no ar. Vi os olhos do policial se arregalarem por um instante no retrovisor, e então ele fez uma careta, um misto de pena e compaixão. Ele não precisava dizer nada. A careta dizia tudo: "Que merda de lua de mel".

Ele pigarreou, tentando quebrar o clima desconfortável que sua própria pergunta havia criado.

- Bueno... pueden volver en una mejor época. (Bom... vocês podem voltar em uma época melhor.) -ele disse, com uma gentileza forçada.- Entre diciembre y junio es la mejor temporada. No hay riesgo de huracanes. (Entre dezembro e junho é a melhor temporada. Não há risco de furacões.)

Eu apenas assenti, olhando para a paisagem destruída lá fora. Voltar. Ele achava que a gente poderia voltar. A ideia era tão impossível, tão ofensiva para a memória aterrorizante daquela noite, que senti um calafrio.

Nunca mais, prometi a mim mesma, pela segunda vez. Nunca mais.

Eu ainda estava perdida no meu voto silencioso de nunca mais voltar, quando o carro virou em uma rua que era vagamente familiar. As placas de identificação haviam sumido, mas a disposição das ruínas me deu um calafrio. Era a nossa rua.

O policial diminuiu a velocidade, talvez percebendo o nosso reconhecimento silencioso. E então, eu vi. Ou melhor, vi o que sobrou.

A nossa pequena e charmosa casa de Airbnb, que deveria ser o nosso ninho de amor, não existia mais. A estrutura parecia ter se dobrado sobre si mesma. O andar de cima, o nosso quarto, o sótão que nos serviu de último refúgio... tudo tinha desabado. O telhado havia caído, esmagando o lugar onde, horas antes, estávamos escondidos, rezando para sobreviver. A casa era uma pilha de destroços e concreto quebrado, com a água da inundação ainda empoçada ao redor, como um fosso.

O ar saiu dos meus pulmões em um silvo. Virei a cabeça lentamente e encontrei os olhos do Luan. O rosto dele estava pálido como cera, os olhos arregalados, fixos na mesma visão horrível. Aquele olhar dizia tudo. O "e se". E se eu não tivesse insistido? E se tivéssemos obedecido ao medo e ficado ali, encolhidos, esperando?

- A gente... -a voz dele saiu rouca, um sussurro de puro choque.- A gente tava ali.

- Se a gente tivesse ficado... -completei, a frase morrendo na minha garganta.

Não precisava terminar. A imagem à nossa frente gritava o final da frase por nós. Estaríamos mortos. Soterrados.

O policial pareceu entender e acelerou, nos afastando da visão fantasmagórica da nossa própria morte. Desviei o olhar da janela e foquei nas minhas mãos, que tremiam em meu colo. Não era sorte que nos tinha salvado. Foi uma decisão. Uma briga contra o medo. E a prova de que estávamos certos em lutar estava bem ali, naquela pilha de ruínas que deveria ter sido nosso túmulo.

O carro parou em uma área aberta, um campo de futebol que a tempestade havia transformado em um lamaçal, mas que agora servia como um heliporto improvisado. O som ensurdecedor das hélices de um helicóptero cortava o ar, um barulho poderoso e cheio de promessas. Era o som da nossa salvação.

Agradecemos ao policial com toda a sinceridade que conseguimos reunir. Ele apenas assentiu, o rosto ainda marcado pela exaustão de quem veria muito mais daquele inferno antes que o dia terminasse.

Descemos do carro e o vento deslocado pelas hélices quase nos derrubou. E então, parado ao lado da aeronave preta, com os braços cruzados e uma calma que não pertencia àquele cenário de caos, eu o vi. Kenny. O chefe de segurança do Justin. Ver seu rosto familiar, uma figura do nosso mundo normal, aqui, no meio da devastação, fez tudo parecer real e surreal ao mesmo tempo.

Mal nos aproximamos dele, mancando sobre o terreno irregular, e ele já estava vindo em nossa direção, o rosto sério, mas com um alívio visível em seus olhos. Ele não disse "olá" ou "vocês estão bem?". Ele sabia que não precisava. Sua ação foi imediata, focada. Ele estava com o próprio celular em mãos e o estendeu para mim.

- O Justin quer falar com você. -ele disse, a voz firme para ser ouvida por cima do barulho do helicóptero.

Peguei o telefone, os dedos tremendo um pouco ao tocar a tela fria. O nome do meu irmão brilhava ali. Respirei fundo, o coração martelando contra as minhas costelas, e levei o aparelho ao ouvido.

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