Justin Narrando
A festa estava em pleno andamento, mas eu não conseguia relaxar. Do meu posto perto da porta da frente, eu era o anfitrião sorridente, mas por dentro, eu era um general vigiando suas fronteiras. Cada carro que chegava, cada rosto novo, era analisado primeiro por mim, depois pela minha equipe. A fantasia de caubói, com o colete de vaquinha, o lenço vermelho no pescoço e a estrela de xerife no peito, parecia uma piada. Eu não era um xerife de mentira; eu estava, de fato, protegendo a minha cidade.
Bruna estava ao meu lado, deslumbrante em sua fantasia de enfermeira. Mas não era uma enfermeira comum. O vestido era em um tom turquesa brilhante, estilizado e com uma saia curta, acompanhado de um chapéu combinando. Ela era a cura para qualquer mal, e a visão dela, rindo com os convidados, era o único calmante que funcionava para os meus nervos.
Nossos filhos corriam pela sala. Jack, em uma pequena roupa de médico, com um estetoscópio de brinquedo pendurado no pescoço, e Chloe, a coisa mais linda que já vi, com um vestido de fada, asas brilhantes e uma varinha que soltava bolhas de sabão. Beth e Georgia, as babás, os vigiavam de perto. Elas entraram no clima de forma discreta, usando orelhas de gato e um pouco de maquiagem no nariz, nada chamativo.
Os convidados foram chegando em ondas. Minha mãe, Pattie, e meu padrasto, Charlie, chegaram como um casal dos anos 20, ela com um vestido de melindrosa cheio de franjas e ele com um terno risca de giz. Logo depois, meu pai e minha madrasta, Ashley, com o pequeno Jordan, de quatro meses, no carrinho. Eles vieram como Os Incríveis; meu pai de Sr. Incrível, Ashley como a Mulher-Elástica, e Jordan, dormindo pacificamente, com um macacãozinho do Zezé.
A mãe da Marina, Liana, e o marido, Josh, chegaram logo em seguida, estavam perfeitos como Morticia e Gomez Addams. E Melanie veio com Luke, os dois vestidos como Barbie e Ken saídos da caixa. Meus sogros, Marta e Antônio, que vieram do Brasil para a festa, estavam clássicos e elegantes como um casal de vampiros da realeza. Nossos amigos também marcaram presença: Virgínia e Anthony como Olivia Newton-John e John Travolta em Grease, e Ryan e Olívia como Fred e Daphne de Scooby-Doo.
A casa estava cheia de risadas e música, uma ilha de normalidade que custava uma fortuna em segurança para ser mantida. E então, o último carro passou pelo portão.
Quando Luan e Marina entraram, eu parei. O queixo da Bruna caiu ao meu lado. Eles pararam no hall de entrada, e um silêncio se espalhou pelas pessoas mais próximas, seguido por risadinhas. Ele, com o uniforme do Elite Way School, a gravata frouxa, o cabelo bagunçado. Ela, com a saia jeans, as botas, e uma peruca vermelha inconfundível.
Diego e Roberta.
Uma gargalhada genuína, a primeira da noite, escapou de mim. Por um momento, esqueci os seguranças, a ameaça, o medo. Eles caminharam até nós, e eu abracei minha irmã e meu cunhado, o alívio de tê-los ali, seguros e sorrindo, superando todo o resto. Pelo menos por enquanto.
Bruna correu para abraçá-los, dando um abraço apertado em cada um.
- Eu não acredito nisso. -falei, balançando a cabeça e olhando para as fantasias deles.- Fantasias combinando? Que clichê! -debochei.
- A gente jura que não combinou. -Marina justificou.
- Como vocês fizeram isso sem combinar?
Luan deu de ombros, um sorriso divertido no rosto.
- Grande mente rebelde pensa igual, eu acho.
Mas seu sorriso vacilou um pouco quando ele olhou ao redor, além de nós, para a quantidade visível de homens de terno espalhados pela entrada e pelo jardim.
- Falando sério, cara. -ele disse, a voz baixando um pouco.- Pra que tanta segurança? Convidou a Beyoncé e o Jay-Z pra vir?
- É, Ju. -Marina emendou.- O presidente vai vir pra festa e ninguém me avisou?
Eu forcei uma risada, tentando parecer casual.
- Você sabe como eu sou, um pouco exagerado. E com tanta gente, tantas crianças, eu só queria ter certeza de que tudo estaria tranquilo. -menti, odiando o gosto das palavras na minha boca.
Antes que eles pudessem pressionar mais, Gemma se aproximou com Serena nos braços.
E então eu a vi. Vestida de Florzinha.
Qualquer tensão, qualquer mentira, qualquer medo que eu sentia se dissolveu naquele instante.
- Ah, meu Deus. -sussurrei.
Ela era a coisinha mais absurdamente fofa que eu já tinha visto. O vestidinho rosa, o laço vermelho gigante, o rostinho sonolento... meu coração derreteu. Bruna, ao meu lado, soltou um gritinho abafado de pura adoração.
-Não. Eu não aguento isso! -ela disse, já se aproximando.- Vem cá com a tia Bru, minha super-heroína!
Bruna pegou Serena no colo, apertando-a em um abraço e enchendo seu rostinho de beijos, fazendo a pequena rir.
Enquanto a Bruna paparicava a Serena, eu me inclinei para a Marina, que ainda olhava para a filha com um sorriso bobo no rosto. Eu precisava avisá-la. Era melhor que ouvisse de mim do que ser pega de surpresa.
- Ei. -falei, em um tom baixo que só ela pudesse ouvir.- Só para você saber... a Melanie está aí.
Vi a mudança sutil em sua expressão. O sorriso não desapareceu completamente, mas perdeu um pouco do brilho. Ela se virou para mim, os olhos procurando os meus.
-Ah. -foi tudo o que ela disse a princípio. Ela olhou por cima do meu ombro, para dentro da casa cheia.- Claro que ela viria. Ela veio com o Luke?
- Sim. Eles estão vestidos de Barbie e Ken.
Uma pequena risada, sem humor, escapou dos lábios dela.
- Barbie. Claro que sim. -ela murmurou, mais para si mesma do que para mim. Ela respirou fundo.- Tudo bem. Obrigada por avisar. É bom saber.
Ela ajeitou a peruca vermelha na cabeça, o gesto trazendo a atitude da Roberta de volta.
- Bom, vamos entrar então? -ela disse, o queixo erguido.- Não quero que o meu bonequinho de plástico fique com frio aqui fora.
Eu sorri, admirando a resiliência dela. Ela pegou o braço do Luan, e juntos, o casal rebelde mais improvável da noite, eles entraram na festa, prontos para encarar a música, os amigos e, aparentemente, os fantasmas do passado recente. Eu os segui, um passo atrás, voltando para o meu posto de xerife, com os olhos um pouco mais atentos do que antes.
A festa estava boa. De verdade. Lá embaixo, o som de A-ha ecoava pela sala, e eu podia ver meu padrasto e minha mãe dançando, junto com Marta e Antônio. O pessoal todo estava se divertindo, bebendo, as crianças correndo com suas fantasias, em um caos feliz e açucarado. Eu tinha feito meu papel, circulado, conversado, sorrido. Mas a máscara de fingir que tudo está bem, às vezes, cansa.
Com a desculpa de pegar uma cerveja, fui até a cozinha, peguei uma garrafa gelada e, em vez de voltar para a sala, subi as escadas. Eu só precisava de cinco minutos. Cinco minutos sem estar alerta, sem escanear a multidão, sem sorrir.
Entrei no nosso quarto, fechando a porta suavemente atrás de mim. E a encontrei ali.
Bruna estava sentada na beirada da nossa cama, os saltos turquesa jogados de lado no tapete. Ela estava de costas para mim, olhando para os próprios pés descalços, a postura dela era a imagem pura da exaustão.
Não fiz barulho ao me aproximar, sentando ao seu lado. Ela não se assustou; acho que sentiu minha presença. Fiquei ali, em silêncio, apenas bebendo um gole da minha cerveja.
- Cansada? -perguntei, a voz baixa.
Ela soltou um suspiro, que pareceu carregar o peso do mundo.
- Dos saltos. -ela respondeu, sem erguer o olhar.- E de sorrir.
Eu assenti, mesmo que ela não pudesse ver. Eu a entendia perfeitamente. Peguei a mão dela, entrelaçando nossos dedos. Ficamos ali, sentados em silêncio por um longo momento, o som abafado da festa subindo pelo chão. Não precisávamos de mais nada. Éramos o refúgio um do outro, o único lugar onde a máscara podia, finalmente, cair.
Acariciei as costas da mão dela com o polegar, sentindo os ossinhos delicados.
- Você está muito gata com essa fantasia. -falei, e era a verdade. Mesmo com a exaustão em seus olhos, ela era a mulher mais linda que eu já tinha visto.
Ela me olhou, um pequeno sorriso triste surgindo em seus lábios.
- A gente nem tirou uma foto juntos. -ela disse, a voz baixa.
- Então vamos tirar agora. -sugeri, me levantando.
A ideia pareceu animá-la. Ela se levantou, pegou o celular e nos posicionamos na frente do espelho de corpo inteiro. O contraste era ridículo e perfeito. O xerife e sua enfermeira particular.
A foto ficou linda. Bruna olhou para a imagem na tela, uma expressão de dúvida no rosto.
- Não sei se deveria postar...
- Claro que deveria. -falei, com convicção.- Você está incrível. O mundo precisa ver isso.
Ela sorriu, um sorriso genuíno dessa vez. Seus dedos digitaram algo rapidamente, e então ela me mostrou o post. Era a nossa foto, com a legenda:
brusantanareal Cuidando do meu caubói. 🎃💉🤠
Eu sorri e a beijei, um beijo suave e demorado. O gosto de cerveja e do batom dela se misturaram. Naquele momento, com o som abafado da festa lá embaixo e o calor do corpo dela contra o meu, o caos das nossas vidas pareceu se acalmar. Às vezes, tudo o que eu precisava era dela.
Quando nos separamos, o sorriso dela havia desaparecido, substituído por uma seriedade que me deixou em alerta. Ela se sentou na cama de novo, e eu me sentei ao lado dela.
- Justin... -ela começou, a voz baixa e hesitante.- Eu pedi para o Kenny providenciar os documentos para que você e a Chloe possam residir no Brasil.
A frase me atingiu como um soco no estômago. Eu a encarei, chocado.
- O quê?
- Não agora. -ela se apressou em dizer, vendo o pânico nos meus olhos.- Depois que eu me formar. Mas... eu estou com medo, Justin.
As palavras saíram, uma torrente de ansiedade que ela vinha guardando.
- Nós quase fomos assassinados há dois meses atrás.-ela sussurrou, e a lembrança da janela rachada, do meu corpo sobre o dela, voltou com força total.- E ninguém nem sonha com isso. Nossas vidas estão correndo risco, todos os dias, e estamos aqui, dando uma festa, fingindo que está tudo bem.
Ela olhou para as próprias mãos, que tremiam.
- Eu só não vou embora agora porque sei que a documentação vai demorar, principalmente a da Chloe, por eu não ser a mãe biológica dela. E também... é o meu último ano na faculdade. Eu não posso jogar tudo fora.
Ela respirou fundo, e eu vi o quanto aquilo estava custando a ela.
- Eu só voltei para o campus, depois de um mês afastada, porque os professores se negaram a continuar mandando o material de estudo sem um motivo aparente. E eu sinto medo, Justin. Eu sinto medo de andar por lá, de sentar na sala de aula. Fico olhando por cima do ombro o tempo todo.
Ela finalmente ergueu o olhar para mim, e seus olhos estavam cheios de lágrimas.
- Eu sei que o Jack, por ser meu filho, já é brasileiro. Mas eu preciso garantir que a Chloe possa ir conosco, sem problemas. Eu preciso ter um plano de fuga. Uma saída de emergência, caso... caso o pior aconteça.
Eu a puxei para um abraço apertado, o coração doendo com a profundidade do medo dela. Ela não estava apenas assustada. Estava sendo prática. Estava pensando como uma mãe, protegendo seus filhotes. E o fato de que ela se sentia na necessidade de planejar uma fuga da nossa própria vida era a prova mais clara de que estávamos vivendo em um pesadelo.
Eu a segurei com força, deixando-a chorar, sentindo os tremores do seu corpo contra o meu. Cada soluço dela era uma facada no meu peito, um lembrete da minha falha em mantê-la segura. O medo dela era palpável, e era válido. Era o mesmo medo que me mantinha acordado à noite, o mesmo medo que me fazia verificar as câmeras de segurança de hora em hora.
Afastei-a um pouco, apenas o suficiente para poder olhar em seus olhos. Segurei seu rosto.
- Me desculpa. -falei, a voz rouca.- Me desculpa por você estar passando por isso. Por ter que sentir medo na sua própria faculdade, na sua própria vida.
Ela apenas assentiu, as lágrimas ainda escorrendo.
- O plano do Brasil... -continuei, escolhendo as palavras com cuidado.- Ok. A gente vai ter esse plano. Vai ser o nosso plano de emergência, nossa rota de fuga. Mas vai ser o nosso plano Z, ouviu bem? O último recurso absoluto. Porque a gente não vai precisar dele.
Ela me olhou, a confusão por trás da tristeza.
- A gente não vai precisar dele. -repeti, a voz ganhando uma força que vinha de um lugar profundo de raiva e determinação.- Porque eu vou acabar com isso. Chega de esperar eles cometerem um erro. Chega de viver na defensiva, trancados em casa, esperando o próximo ataque. A gente vai forçar a mão deles. A gente vai virar o jogo.
Eu não sabia exatamente como ainda, mas a promessa que eu estava fazendo para ela, eu estava fazendo para mim mesmo.
- Eu vou acabar com isso, Bruna. Eu te prometo. Você não vai mais precisar ter medo.
Naquele momento, a porta do nosso quarto se abriu um pouco. Era a Beth, e ela parecia visivelmente desconfortável.
- Justin, Bruna? Desculpa incomodar, mas... -ela hesitou, claramente sem querer nos interromper.- A sua irmã está causando um pouco de confusão na festa.
Franzi a testa.
- Qual delas? -perguntei, genuinamente confuso, mas já imaginando quem se tratava.
- A Melanie. -ela respondeu, em voz baixa.
Bruna e eu trocamos um olhar. Um olhar que dizia "só o que faltava". O peso da nossa conversa, a intimidade do nosso medo compartilhado, se dissipou, substituído pela exaustão de ter que lidar com um novo drama. Saímos de uma crise existencial direto para uma confusão familiar.
Respirei fundo, a promessa que eu fiz ainda ecoando em minha mente. Uma batalha de cada vez.
- Ok. -falei, me levantando e estendendo a mão para a Bruna.- Vamos ver o que a Barbie aprontou.
Descemos as escadas e entramos direto no epicentro da confusão. A música dos anos 80 havia parado. As conversas e risadas tinham sido substituídas por um silêncio tenso e desconfortável. No centro da sala de estar, um círculo de convidados se formou ao redor de Melanie, que gesticulava, o rosto vermelho de raiva. Luke tentava acalmá-la, a mão em seu braço, parecendo completamente impotente. Todos pareciam chocados.
Assim que Melanie nos viu no final da escada, ela se virou, os olhos faiscando em nossa direção. A atenção de todos na sala nos seguiu. O show tinha começado.
- Ah, finalmente! Os donos do castelo! -ela disse, a voz alta e carregada de sarcasmo.- Eu já tinha achado estranho o tanto de segurança lá fora, mas até entendi. Você é um cantor mundialmente famoso, seu próprio empresário já tentou te matar... Mas ele morreu, Justin! Morreu! Não tem por que todo esse pânico!
Eu continuei descendo os degraus, a calma exterior escondendo a fúria que subia dentro de mim. Bruna estava tensa ao meu lado.
- O que aconteceu, Melanie? -perguntei, a voz controlada.
- O que aconteceu? -ela riu, uma risada sem humor.- O que aconteceu foi que eu, a tia legal, tentei levar meus sobrinhos, Jack e Chloe, para pedir doces na vizinhança! Uma tradição de Halloween! E eu fui BARRADA na porta da sua casa! Seus seguranças só faltaram me agredir para que eu voltasse para dentro! Isso é um absurdo!
Meu sangue gelou. A ideia dela tentando sair da casa, levando meus filhos com ela... A imprudência, a ignorância do perigo em que ela os colocaria, me deixou sem ar.
- Então eu pergunto. -ela disse, cruzando os braços, o queixo erguido.- O que. Está. Acontecendo?
A pergunta de Melanie pairou no ar, um desafio direto na frente de toda a nossa família. Eu abri a boca para dar uma resposta calculada, para tentar desviar e acalmar a situação sem entregar nada. Mas eu não precisei.
Bruna deu um passo à frente, saindo de trás de mim. A fantasia de enfermeira turquesa ainda estava nela, mas a mulher que falava agora não estava para brincadeiras. A energia dela mudou. A anfitriã doce e cansada desapareceu, dando lugar a uma mãe leoa protegendo suas crias.
Ela cruzou os braços, o olhar frio e afiado fixo em Melanie.
- O que está acontecendo? -Bruna repetiu a pergunta, a voz baixa e perigosamente calma.- O que está acontecendo é você tentando levar duas crianças que não são suas para a rua, no escuro, sem a permissão dos pais. É isso que está acontecendo.
Melanie recuou um passo, pega de surpresa pela ferocidade da Bruna.
- Eles são meus sobrinhos! -ela retrucou, a voz um pouco menos confiante.
Bruna deu um passo em sua direção, e eu vi a própria Melanie, sempre tão dona de si, se encolher sutilmente.
- Você poderia ser a fada madrinha, o Papa, quem fosse. --Bruna disse, cada palavra uma pedra afiada.- Você não tem o direito de levar o Jack e a Chloe para lugar nenhum sem antes perguntar para mim ou para o pai deles. Fui clara?
O silêncio na sala era absoluto. Ninguém ousava respirar. Melanie, pela primeira vez na noite, ficou completamente sem palavras, a boca se abrindo e fechando sem que nenhum som saísse.
Eu fiquei ali, observando minha esposa. A enfermeira de mentira tinha acabado de fazer uma cirurgia de precisão, removendo toda a arrogância de Melanie e colocando-a em seu devido lugar, tudo isso sem levantar a voz. E eu nunca a tinha amado tanto. A máscara não tinha caído; ela a tinha arrancado e mostrado a força de aço que havia por baixo. Minha esposa era um furacão. E, naquele momento, ela estava lutando a nossa guerra por nós dois.
O silêncio que se seguiu à fala da Bruna era tão denso que podia ser cortado com uma faca. Melanie ficou ali, paralisada, o rosto passando de raiva para choque e, finalmente, para uma humilhação profunda. Pela primeira vez, ela não tinha uma resposta.
Foi Luke quem quebrou o feitiço. Ele se aproximou dela com cuidado, como se se aproximasse de um animal ferido.
- Mel, vem. Vamos tomar um ar. -ele disse, a voz baixa e apaziguadora, e gentilmente a guiou para a porta dos fundos que dava para o jardim.
Enquanto eles saíam, Liana, a mãe de Marina e Melanie, se aproximou de nós, o rosto uma máscara de mortificação.
- Me desculpem. -ela sussurrou.- Eu não sei o que tem dado nela. Me desculpem.
- Está tudo bem, Liana. -Bruna respondeu, a ferocidade já dando lugar a uma calma cansada.
Com a fonte da tensão fora da sala, eu sabia que precisava retomar o controle. Passei o braço pela cintura da Bruna, um gesto de apoio e de orgulho imenso.
- Ok, pessoal, o show acabou! -falei, forçando um tom leve e divertido.- Onde estávamos? Ah, sim! Anos 80! DJ! -gritei para o canto da sala onde um dos meus assistentes controlava o som.- Solta um Michael Jackson aí pra gente!
A batida familiar de "Billie Jean" começou a tocar, e, aos poucos, as conversas paralelas foram retomando, as pessoas se afastando em seus pequenos grupos, tentando fingir que nada tinha acontecido. Inclinei-me e sussurrei no ouvido da Bruna.
- Você é incrível.
Ela me deu um pequeno sorriso, mas eu vi a exaustão em seus olhos. A explosão de adrenalina tinha passado, deixando o cansaço para trás.
Foi quando Luan e Marina se aproximaram, os rostos cheios de preocupação. As fantasias de rebeldes agora pareciam irônicas diante da rebeldia real que acabamos de presenciar.
- Bru... Justin... -Luan começou, a voz baixa.- O que foi isso, de verdade? Não foi só sobre levar as crianças pra passear, foi?
Olhei para o meu cunhado e para a minha irmã. Eles nos olhavam com uma preocupação genuína, sabendo, em seus corações, que havia algo muito mais profundo acontecendo. O instinto deles estava certo. Mas eu não podia contar. Não ali. Não agora.
- Depois. -falei, colocando uma mão no ombro de Luan.- A gente conversa com vocês depois. Agora, vamos tentar curtir a festa que a sua esposa e a minha trabalharam tanto para organizar.
Eles não pareceram convencidos, mas assentiram, compreendendo que aquele não era o momento. A música tocava, as pessoas dançavam, mas a rachadura na nossa fachada de normalidade era agora grande demais para ser ignorada. E eu sabia que, muito em breve, eu teria que contar a eles toda a verdade.
A promessa do "depois" pairou entre nós quatro pelo resto da noite. A música voltou, as pessoas voltaram a dançar, mas algo havia se quebrado. Para os convidados mais distantes, foi apenas um momento estranho de drama familiar. Para nós, foi um alerta.
Bruna e eu tentamos nos misturar, nos separar, agir como anfitriões normais, mas nossos olhos sempre se encontravam do outro lado da sala, uma checagem silenciosa. "Você está bem?". "Estou aguentando". Luan e Marina também não se afastaram muito um do outro, observando tudo, a diversão em seus rostos substituída por uma preocupação quieta. Eles sabiam que a explosão da Melanie não foi a causa, mas o sintoma de um problema muito maior.
Vi Melanie e Luke saírem discretamente pela porta da frente cerca de uma hora depois, sem se despedir. Um problema a menos para a noite.
A festa começou a esvaziar por volta das dez. Virgínia, Olívia, Ryan e Anthony foram os primeiros a ir, seguidos pela mãe da Marina, Josh, meu pai, Ashley e Jordan. Minha mãe e Charlie e os pais da Bruna foram os últimos a se despedir, nos dando abraços longos e olhares que diziam que sabiam que algo estava errado, mas que não iriam pressionar.
Finalmente, a última porta se fechou. As babás já tinham levado as crianças, exaustas de açúcar e brincadeiras, para a cama, Serena também, ela passaria a noite aqui. A música estava desligada. O silêncio desceu sobre a casa, que agora estava cheia de balões murchos, serpentinas e os fantasmas de uma festa que pareceu durar uma eternidade.
Restamos nós quatro.
Estávamos na sala de estar, sentados nos sofás, em meio à bagunça da festa. Ninguém falou por um longo momento. A exaustão era um cobertor pesado sobre todos nós.
Foi Luan quem quebrou o silêncio. Ele se inclinou para frente, os cotovelos nos joelhos, e nos olhou, primeiro para mim, depois para a Bruna. Seu rosto não tinha mais a leveza da fantasia de Diego. Era o rosto do meu melhor amigo, do irmão preocupado da minha esposa.
- Ok. -ele disse, a voz calma, mas sem deixar espaço para fugas.- A festa acabou. Os convidados foram embora. Agora vocês vão contar pra gente o que está acontecendo de verdade.
Marina, ao lado dele, nos encarava com a mesma intensidade silenciosa. A hora de desviar tinha acabado. A hora da verdade havia chegado.