Bruna Narrando
Eu estava de pé ao lado do Justin, com minha cabeça apoiada em seu ombro, observando meu irmão e minha cunhada no centro da pista de dança. A luz os envolvia, e o mundo parecia ter desaparecido para eles. Luan olhava para a Marina como se ela fosse a única estrela no céu, e ela, por sua vez, sorria para ele com uma entrega, uma confiança que aquecia meu coração.
Ver os dois ali, flutuando ao som de "Flightless Bird, American Mouth", me transportou instantaneamente. A imagem deles se dissolveu por um segundo, e em seu lugar, vi a mim mesma, três meses atrás.
A lembrança veio com uma clareza avassaladora. O nosso dia. O terraço com a mesma vista deslumbrante, Justin segurando minha mão com a mesma firmeza que Luan segurava a da Marina. E a música...
Um sorriso involuntário se formou nos meus lábios. Eu me lembrava do choque, da incredulidade quando as luzes diminuíram e, sentada em um piano de cauda branco, estava Lady Gaga. E ao lado dela, Bruno Mars. Ver os dois, ali, ao vivo, cantando "Die With A Smile" só para nós, foi um delírio, um sonho que Justin tornou real. Lembro de ter dançado com ele sentindo que meus pés não tocavam o chão, chorando e rindo ao mesmo tempo, em um momento de pura e inesquecível magia.
- Lembrando de alguma coisa? -a voz do Justin, baixa perto do meu ouvido, me trouxe de volta ao presente.
Eu me virei um pouco para olhá-lo, o sorriso ainda no meu rosto.
- Do nosso dia. -sussurrei.- De como eu me senti exatamente como a Marina está se sentindo agora. -olhei de volta para o casal dançando.- Ainda não acredito que você conseguiu trazer a Lady Gaga e o Bruno Mars.
Ele sorriu, apertando minha mão.
- Por você? -ele disse, com aquele jeito convencido que eu amava.- Eu traria o Michael de volta do túmulo.
A música de Luan e Marina terminou, e eles se beijaram sob os aplausos de todos. Olhei para o meu irmão, para a minha cunhada, e senti uma onda de felicidade tão grande por eles, que se misturava com a minha própria. Era uma noite perfeita. Para eles, e na minha memória, para nós também.
Luan e Marina foram engolidos por uma multidão de amigos e familiares querendo parabenizá-los. Aproveitando a confusão, vi os dois trocarem um olhar cúmplice e escapulirem por uma porta lateral, provavelmente para respirar por um minuto antes da festa começar de verdade.
Eu sorri, me virando de volta para o nosso grupo.
- Eles não são o casal mais lindo do mundo? -comentei com a Virgínia e a Olívia, que concordaram efusivamente.
Continuei a conversa que tínhamos começado antes, rindo de alguma piada da Olívia, sentindo o champanhe borbulhar levemente. Deixei meu olhar passear pelo salão, feliz, observando os convidados, vi meus filhos com meus pais e sorri. E foi quando o vi. Encostado perto do bar, um pouco afastado dos outros, estava um homem de terno escuro. Ele não conversava, não sorria. Apenas observava a festa, de pé, com um copo de whisky na mão. Victor.
Meu estômago gelou. O que ele estava fazendo aqui?
Virei para o Justin na mesma hora, o sorriso sumindo do meu rosto. Coloquei minhas mãos em seu peito para ter certeza de que tinha toda a sua atenção.
- Justin. -falei, a voz baixa e urgente.- Você sabia que o Victor estava aqui?
A expressão dele não foi de surpresa. Foi de um cansaço sombrio, uma confirmação silenciosa que me deixou ainda mais apreensiva. Ele abriu a boca para responder, mas antes que pudesse, um movimento do outro lado do salão chamou nossa atenção.
Era a Melanie. Ela se aproximava do Victor a passos rápidos, a expressão em seu rosto era de puro desespero. Ela o alcançou, disse algo que o fez olhar para ela com raiva, e então o agarrou pelo braço, puxando-o com força em direção a uma porta que dava para a área externa.
Eu assisti à cena, chocada, e então me virei de volta para o Justin. Nossos olhares se encontraram. O meu estava cheio de perguntas e confusão. O dele estava sombrio, pesado, e dizia claramente: "Eu sei. A gente precisa conversar. A coisa é feia." E naquele instante, eu soube que tinha perdido uma parte muito importante e muito feia da história daquele dia.
Aquele olhar com o Justin durou apenas alguns segundos, mas foi o suficiente. A música alta e as risadas ao nosso redor pareceram distantes.
- Justin, o que está acontecendo? -perguntei, a voz baixa e firme, sem desviar os olhos dos dele.- Me fala agora.
Ele assentiu, a mandíbula tensa.
- Vem comigo.
Ele segurou minha mão e me guiou para longe do nosso grupo de amigos, que continuavam a conversar, alheios à bomba que estava prestes a explodir. Atravessamos o salão e entramos no mesmo salãozinho reservado onde Luan e Marina tinham se preparado para a dança. A quietude do lugar era um contraste gritante com a tensão que eu sentia.
Assim que a porta se fechou, ele soltou o ar.
- O Victor apareceu antes da cerimônia. -ele começou, indo direto ao ponto.- A Marina entrou em pânico. Ela jurou que não o convidou. Eu fui falar com ele, e o desgraçado me mostrou um convite oficial.
Eu o encarei, chocada, processando a informação.
- Como...?
- Foi a Melanie. -ele disse, a voz dura como pedra.- Tem que ter sido ela. Ela queria causar problema, Bru. Queria estragar o dia da Marina. A Marina ficou arrasada, chorou, borrou a maquiagem toda. Nosso pai e a Ashley tiveram que acalmá-la minutos antes dela entrar.
Meu coração se apertou com tanta força que doeu. A minha melhor amiga passando por aquilo tudo enquanto eu estava aqui embaixo, feliz e sem saber de nada. A imagem dela, tão radiante no altar, ganhou um novo significado. Era a imagem de uma mulher incrivelmente forte. A raiva que senti pela Melanie foi instantânea e avassaladora.
- Eu vou matar ela. -falei, a voz tremendo de fúria, já me virando para a porta.
Justin segurou meu braço, me impedindo de sair.
- Não. -ele disse, sério.- A gente não vai dar a eles o show que eles querem. Não na festa da Marina e do Luan. Causar uma cena é exatamente o que o Victor, e talvez até a Mel, estão esperando.
- Então o que a gente faz? -perguntei, frustrada.- Deixa os dois conversando lá fora? A Melanie parecia desesperada, Justin. E se ela fizer alguma besteira?
Ele passou a mão pelo cabelo, pensando rápido.- Ok, vamos fazer o seguinte. Eu vou lá fora ver o que está acontecendo. Vou tentar separar os dois sem chamar atenção. -ele me olhou, e seu olhar era de total confiança.- E você... você volta pra festa, encontra a Marina e o Luan, e não deixa eles saírem de perto de você. Mantenha eles ocupados, dançando, conversando. Eles não podem saber disso agora. A gente não vai deixar essa merda estragar a noite deles. Combinado?
Assenti, respirando fundo para controlar a raiva. Ele estava certo. A nossa missão, agora, era proteger a felicidade dos noivos a qualquer custo.
- Combinado. -respondi.
Saímos do salãozinho, cada um com uma missão. Ele foi em direção à porta que dava para a área externa. Eu me virei e mergulhei de volta na festa, forçando um sorriso no rosto, procurando pelo meu irmão e pela minha cunhada no meio da multidão.
Cada segundo que passava com o Justin lá fora, lidando com o Victor e a Melanie, parecia uma eternidade. Eu precisava encontrar a Marina e o Luan, precisava criar uma barreira de normalidade ao redor deles.
Meus olhos varriam o salão, passando por amigos e familiares que dançavam e conversavam, completamente alheios ao drama. Onde eles tinham se metido?
De repente, a música ambiente que tocava foi cortada. As luzes do salão diminuíram por um instante e a voz do DJ explodiu nos alto-falantes:
- E agora, para a festa começar de verdade, com vocês, mais uma vez, os recém-casados.
A batida inconfundível e contagiante de "Gasolina" começou a tremer o chão. As portas duplas do salão se abriram com um estrondo, e o queixo de todo mundo caiu.
Lá estavam eles. Luan, pilotando lentamente uma motinha elétrica branca, decorada com fitas. E na garupa, com os braços erguidos pra cima, estava a Marina. Ambos usavam óculos de sol escuros, rindo como se tivessem acabado de cometer o crime perfeito.
O salão inteiro foi à loucura. Gritos, assobios, celulares erguidos no ar para capturar o momento. Eles deram uma volta triunfal ao redor da pista de dança, completamente despreocupados, acenando para os convidados como duas estrelas de cinema. A energia na festa, que já era alta, explodiu.
Ver a minha eles ali, tão felizes, tão entregues àquele momento de pura alegria, foi um alívio avassalador. A força da Marina era inacreditável; ela tinha trancado a preocupação com o Victor em algum lugar fundo e decidido viver a sua noite. E a minha missão, mais do que nunca, era garantir que nada estragasse aquilo.
Enquanto eles "estacionavam" a motinha perto do bar e eram imediatamente cercados por amigos que os puxavam para a pista de dança, meu olhar desviou por um segundo para a porta que dava para a área externa. Nenhuma notícia do Justin. Nenhuma notícia da Melanie. A festa tinha começado de verdade, e eu só conseguia rezar para que o caos ficasse do lado de fora.
A entrada triunfal deles deu o tom. A pista de dança encheu em segundos. O bar foi oficialmente liberado e a balada começou com força total. Minha missão de manter a Marina e o Luan ocupados e felizes era, felizmente, fácil. Eles estavam radiantes, puxando todo mundo para dançar, rindo alto. Marina, com a energia de quem tinha acabado de se casar, descia até o chão ao som de um reggaeton qualquer, e eu, tentando ficar perto e agir como se nada estivesse errado, fiz a mesma coisa, sentindo meus joelhos estalarem em protesto.
Estávamos no meio de um círculo de amigos, rindo, quando senti Luan parar de dançar ao meu lado. Sua energia feliz se evaporou de repente.
- Que porra tá acontecendo ali? -ele disse, a voz baixa e tensa, quase um rosnado.
Eu parei, procurando o que ele estava olhando. Marina também parou, seguindo o olhar do Luan. E então eu vi. Através da enorme parede de vidro que dava para o terraço, a cena se desenrolava como um filme mudo e terrível. Justin estava de frente para a Melanie, gesticulando, o rosto vermelho de fúria. E ao lado dela, de braços cruzados e com uma expressão indignada, como se ele fosse a vítima da situação, estava o Victor.
- Que merda. -Luan murmurou.
A bolha de felicidade tinha estourado. O noivo despreocupado desapareceu, e em seu lugar surgiu o meu irmão, protetor e furioso. Antes que eu ou a Marina pudéssemos dizer qualquer coisa, ele começou a caminhar em passos firmes e rápidos, atravessando a pista de dança em direção à porta de vidro.
- Luan, espera! -Marina chamou, mas ele não parou.
Trocamos um olhar de pânico. Não tínhamos escolha. Fomos atrás dele, seguindo seu rastro de fúria pela festa que, por um instante, pareceu congelar ao nosso redor. A música alta agora soava como um alarme de incêndio nos meus ouvidos. A noite estava prestes a dar muito, muito errado.
A porta de vidro se fechou atrás de nós, abafando a música da festa e nos mergulhando em um silêncio tenso, quebrado apenas pelo choro contido da Melanie. A cena à nossa frente estava congelada: Justin, vermelho de uma raiva que eu raramente via, encarava a irmã, que soluçava. Victor estava ao lado, com a postura dura de quem foi pego, mas se recusa a recuar.
Luan não deu tempo para ninguém falar.
- Que porra tá acontecendo aqui? -ele perguntou, a voz grave e cheia de autoridade, o corpo postado na frente da Marina, como um escudo.
Foi quando os olhos do Victor encontraram os da Marina. A expressão de indignação dele se desfez, substituída por algo que eu não conseguia decifrar.
Ignorando completamente o Luan e o Justin, ele deu um passo em nossa direção, parando a uma distância respeitosa.
- Marina... -ele começou, a voz surpreendentemente calma. Justin e Luan se enrijeceram, prontos para intervir.- Eu juro, eu não vim pra atrapalhar o seu casamento.
Ele olhou de relance para a Melanie, que chorava ainda mais.
- Eu vim porque eu achei que o convite veio de você. Fiquei surpreso, mas achei que talvez você quisesse... sei lá, manter a paz. Eu tô sabendo agora que quem enviou foi a Melanie. -ele disse, com um tom de desprezo.- Se eu soubesse que não era bem-vindo, eu nem teria aparecido. Me desculpa pelo transtorno.
A explicação dele caiu no ar como uma pedra. Marina o encarava, atônita, claramente não esperando por um pedido de desculpas. A raiva no rosto do Luan diminuiu um pouco, dando lugar à confusão. Justin, no entanto, continuava cético, o maxilar travado.
- Além de ex-namorados e ex-colegas de filme, a gente também é amigo, ou pelo menos, eu achava que éramos. -ele disse, com uma sinceridade que era difícil de ignorar.- Eu vim como um amigo, Marina, não como um fantasma do seu passado. Eu sei que errei quando falei aquelas coisas pra você antes de você se mudar de Los Angeles, mas eu jamais atrapalharia o seu casamento. Foi uma escolha que você fez, e a escolha não era eu. E eu respeito isso.
As palavras dele pareceram desarmar a última bomba que faltava. Marina, que ainda estava tensa, relaxou os ombros. A maturidade dele, a aceitação, pareceu libertá-la.
- Tudo bem, Victor. -ela disse, a voz clara, surpreendendo a todos nós.- Está tudo bem. Você pode ficar, sem problemas.
O assunto com ele estava encerrado. E no momento em que ela o perdoou, toda a sua atenção, agora livre, se voltou como um laser para a sua verdadeira fonte de dor. Eu vi a expressão no rosto da minha melhor amiga mudar. A aceitação e a calma desapareceram, substituídas por uma fúria fria, uma mágoa tão profunda que escureceu seus olhos de um jeito que eu nunca tinha visto antes.
Ela deu um passo, se afastando do Luan, e caminhou lentamente até a Melanie, que ainda chorava encolhida perto do Justin. Nós todos prendemos a respiração. A festa, a música, o mundo parecia ter parado, esperando por aquele momento.
Marina parou a centímetros da irmã. Sua voz não era um grito. Era pior. Era um sussurro cortante, carregado de uma dor imensa.
- Por quê? -ela perguntou, o corpo inteiro tremendo de uma raiva contida.- Por que você fez isso, Melanie?
A pergunta da Marina ficou suspensa no ar frio da noite. Melanie levantou o rosto, os olhos inchados e vermelhos, o rímel borrado escorrendo pelas bochechas.
- Eu... eu me arrependo. -ela soluçou, a voz quebrada.- Me arrependo de ter convidado o Victor, ok? Mas já era tarde demais.
Ela balançou a cabeça, e então uma amargura crua tomou conta de sua voz, as palavras jorrando como veneno e dor.
- Mas pra ser sincera... eu não queria que você casasse. -ela disse, olhando para a Marina.- Eu vejo o jeito como você trata a Serena, tão bem... e eu queria que ela fosse minha filha.
Fiquei paralisada, sem entender aonde ela queria chegar.
- Desde que eu conheci o Luan... -ela continuou, agora olhando para o meu irmão, que ficou tenso ao lado da Marina.- Foi quando você nem namorava com ele ainda, Marina. Você estava com o Victor. Eu gosto dele desde aquela época. E ele nunca me olhou.
A revelação foi um choque. Olhei para o Luan, que estava pálido, completamente atônito.
- Assim como todos os outros caras nunca olharam pra mim! -a voz da Melanie subiu, cheia de uma dor de anos.- Sempre foi a Marina! Tudo sempre foi sobre a Marina! Até o nosso irmão... -ela olhou para o Justin, com acusação nos olhos.- ...até ele prefere ela do que eu. Todo mundo prefere a Marina!
Ela deu um passo para trás, abraçando o próprio corpo, as lágrimas agora caindo sem controle.
- E eu estou cansada. -ela sussurrou, a voz finalmente quebrando por completo.- Estou cansada de viver na sua sombra, Marina.
Um silêncio pesado e devastador caiu sobre nós. A confissão dela era muito maior do que um convite mal-intencionado. Era um grito de dor, de anos de ciúme e solidão acumulados.
Olhei para cada rosto ao meu redor. Justin estava com uma expressão de pura dor, como se as palavras dela o tivessem apunhalado. Luan estava chocado, segurando a Marina com força, como se para protegê-la daquela dor crua. E a Marina... a raiva em seu rosto tinha desaparecido completamente, substituída por um choque atônito, uma tristeza profunda por uma ferida que ela, talvez, nunca soube que era tão grande.
O silêncio que se seguiu à confissão da Melanie foi pesado, denso, e durou apenas um instante. A tristeza no rosto da Marina se transformou. O choque deu lugar a uma fúria que eu nunca, em todos os meus anos de amizade com ela, imaginei que ela possuísse.
Num gesto de pura raiva, ela voou no pescoço da Melanie.
Foi tão rápido que mal tivemos tempo de reagir.
- Você vai aprender a não invejar a própria irmã, sua ridícula! -Marina gritou, a voz rouca de dor e ódio, enquanto tentava agarrar a Melanie, que gritou de susto.- Eu te amava mais que tudo! Eu te coloquei como minha madrinha de casamento, e você foi falsa! Traidora!
O caos explodiu. Justin, que estava mais perto, grudou na Melanie, puxando-a para trás para protegê-la. Luan agarrou a Marina pela cintura, usando toda a sua força para afastá-la.
- Marina, para! Amor, para com isso! -ele dizia, enquanto ela se debatia em seus braços.
Eu me intrometi, entrando na frente da minha melhor amiga, tentando fazer com que ela me olhasse.
- Marina, se acalma! Por favor, olha pra mim! Hoje é pra ser um dia feliz, não é hora de briga!
Mas ela não estava me ouvindo. Seus olhos estavam fixos na Melanie, e a mágoa de uma vida inteira começou a jorrar dela, cada palavra mais cortante que a anterior.
- Olhe para a sua própria vida, Melanie! -Marina cuspiu as palavras, ainda se debatendo nos braços do Luan.- Você tem um namorado que gosta de você, o Luke é super gente fina, e você o trata que nem um cachorro! Você está indo pro penúltimo ano da faculdade, sem gastar um único centavo na mensalidade e sem bolsa de estudos, tudo pago pelo nosso pai! Depois de amanhã você completa 21 anos e não tem nem um pássaro pra dar água! A única preocupação da sua vida é qual festa da universidade ir e que roupa vestir, e ainda assim, você consegue sentir inveja da minha vida?
Cada palavra era um soco. Eu via a Melanie se encolher, o choro dela se tornando soluços desesperados.
- Você não viu tudo o que eu passei pra estar onde eu estou agora! -Marina continuou, a voz tremendo de fúria.- A família que eu construí! A carreira! Se fosse você no meu lugar, teria desistido na primeira dificuldade, porque você é uma mimada, invejosa e traidora!
Com a última palavra, a raiva da Marina explodiu novamente e ela tentou avançar nela de novo, um grito de frustração saindo de sua garganta. Mas Luan a segurou firme, envolvendo-a em um abraço de urso que a continha, enquanto ela finalmente desabava, chorando de raiva e exaustão nos braços do marido. A cena era devastadora. A família deles, ali, completamente estilhaçada.
Passaram alguns minutos. Minutos longos e pesados, preenchidos apenas pelos soluços de Marina, que iam diminuindo aos poucos nos braços firmes de Luan. Melanie não disse uma única palavra. Ficou ali, encolhida, o rosto manchado de lágrimas, completamente destruída. Justin a soltou e veio para o meu lado, colocando as mãos nas minhas costas num gesto de apoio silencioso. Nós apenas observávamos, impotentes.
Finalmente, Marina se afastou de Luan. Ela ergueu a cabeça, o queixo tremendo, mas o olhar determinado. Com as costas das mãos, ela enxugou as lágrimas de forma agressiva.
- Eu vou voltar pra festa. -ela disse, a voz rouca, mas firme. - Eu vou curtir, porque hoje é o meu dia.
Luan, acreditando nela, a soltou. Parecia que a crise tinha, de fato, passado. Marina ajeitou o vestido, respirou fundo e começou a caminhar em direção à porta de vidro que levava de volta à música e às luzes.
Mas ela não foi para a porta.
Em um movimento que pareceu um descuido, um desvio de percurso impensado, ela mudou de direção. Em dois passos rápidos, ela estava na frente da Melanie.
E lhe deu um tapa.
O som estalado ecoou no silêncio do terraço, agudo e feio. A cabeça da Melanie virou com o impacto, e uma marca vermelha começou a se formar instantaneamente em sua bochecha.
Nós todos congelamos.
Um grito de surpresa ficou preso na minha garganta. Aquele tapa não foi um ato de raiva explosiva. Foi frio, deliberado e final. Tinha sido o ponto final que a Marina precisava dar naquela história, da maneira mais dolorosa possível.
No silêncio que se seguiu ao tapa, a única coisa que se movia era a mão da Melanie, que subiu lentamente para tocar a bochecha vermelha e latejante. Marina olhou para a irmã, não com raiva, mas com uma frieza assustadora, como se estivesse olhando para uma estranha.
- Some da minha frente. -ela disse, cada palavra cortante.- E nunca mais chegue perto de mim, do Luan e, principalmente, da Serena. Você me entendeu? Você é louca!
Sem esperar por uma resposta, Marina deu as costas para a irmã, enxugando o rosto com as mãos, apagando os últimos vestígios daquela briga. Ela caminhou com passos firmes até a porta.
Victor, que tinha assistido a tudo em um silêncio chocado, deu um passo à frente.
- Marina... -ele chamou, a voz hesitante.- Eu ainda posso ficar?
Ela parou, mas não se virou. Sem olhá-lo, sua voz soou por cima do ombro, fria e indiferente.
- Tanto faz.
E então, ela abriu a porta e entrou de volta na festa, sendo engolida pela música e pelas luzes. Luan a olhou por um segundo, depois olhou para nós, e foi atrás dela, o protetor silencioso. Victor hesitou, e então, como um fantasma, entrou logo depois.
A porta se fechou, abafando a festa e nos deixando para trás. Ficamos só nós três no jardim: eu, Justin e Melanie.
Ela continuava parada no mesmo lugar, a mão no rosto, o corpo tremendo com soluços silenciosos. A dor do tapa que Marina havia lhe dado era visível, mas eu sabia que a dor das palavras, do rompimento, era infinitamente pior. Olhei para o meu marido. A raiva tinha abandonado o rosto do Justin, deixando para trás apenas uma tristeza profunda e exausta. Ele olhava para a irmã mais nova, quebrada e sozinha, e eu vi o peso daquele drama familiar cair sobre seus ombros. A festa continuava lá dentro, mas ali fora, a noite tinha acabado de uma forma trágica.
Justin suspirou, um som pesado, cheio de uma tristeza de irmão mais velho. Ele olhou para a Melanie, que ainda chorava, e sua voz saiu sem raiva, apenas com uma resignação cansada.
- Esse é o preço a se pagar pelos seus atos, Mel. -ele disse.- Se você deixasse de lado essa inimizade com a Marina, a inveja, e fosse próxima dela de verdade, você veria o ser humano extraordinário que ela é. Mas, infelizmente, você quis seguir para outro lado.
Melanie levantou o rosto manchado de lágrimas e vermelho pelo tapa, a expressão se contorcendo em amargura.
- Você não vê! -ela acusou, a voz embargada.- Você não vê o monstro que ela é.
Aquilo foi a gota d'água para mim. Revirei os olhos, a paciência esgotada.
- Ah, Melanie, para de se vitimizar agora. -falei, a voz cortante.- Hoje não é sobre você. Nunca foi. É melhor você ir pra casa, acalmar os nervos e deixar a Marina e o Luan em paz. Pelo menos hoje.
Sem esperar resposta, peguei na mão do Justin e o puxei para dentro.
- Chega de drama. Hoje é dia de comemorar.
Deixamos a Melanie para trás no terraço e mergulhamos de volta na festa. Fomos direto para o bar, precisávamos de uma bebida. E foi lá que a encontramos. Marina estava encostada no balcão, e na sua frente, uma fileira de uns dez copinhos de shot. Pelo menos cinco já estavam vazios, e o sexto ela tinha acabado de virar, batendo o copo no balcão com um baque surdo. Luan estava ao lado dela, bebendo uma cerveja, a expressão preocupada.
- Amor, vai com calma... -ele pedia.
Eu e Justin nos aproximamos, observando a cena, intrigados. Ela estava se medicando da única maneira que sabia naquele momento.
Justin se encostou no bar, ao lado da irmã. Ele não a repreendeu. Apenas esperou ela pegar o sétimo copo e, antes que ela bebesse, ele disse, a voz cheia de uma lealdade inabalável:
- Eu tô com você, Ma. Sempre. Independente de eu estar casado ou de você estar casada, independente de você estar em outro país... sempre que você precisar, pode contar comigo.
Eu sorri com a fala dele. Era a mais pura verdade.
Marina olhou para ele, os olhos brilhando – se de álcool ou de lágrimas, eu não saberia dizer. Ela virou o sétimo, o oitavo, o nono e o décimo shot, um atrás do outro. Quando terminou, ela respirou fundo, olhou para nós três e disse:
- Obrigada. Pelo apoio de vocês. -ela fez uma pausa, o olhar endurecendo.- Mas, agora, eu quero que o assunto Melanie morra. Aqui. Esta noite.
Um silêncio se fez entre nós, uma concordância mútua. Eu peguei um dos copos vazios dela e o levantei, como se fosse um brinde.
- Quem é Melanie? -perguntei.
Marina soltou uma gargalhada alta, genuína, a primeira desde a briga. Ela levantou a mão no ar, e nós fizemos um high-five estalado.
- Esse é o espírito! -ela disse, finalmente sorrindo. A rainha da festa estava de volta.
O DJ começou a tocar os primeiros acordes de uma música animada do Coldplay e a energia da pista de dança pareceu nos puxar.
- Chega de bar, noiva! -gritei para a Marina por cima da música.- Vamos dançar!
Puxei-a pela mão e nos enfiamos no meio da multidão que pulava. Virgínia e Olívia nos viram e vieram na nossa direção, e logo nós quatro formamos um círculo, dançando, rindo e cantando a plenos pulmões. Aquele era o momento pelo qual tínhamos esperado. A alegria pura, sem dramas, sem interrupções.
No meio da música, senti um toque no meu ombro. Era o Luke, com um drink na mão e uma expressão preocupada no rosto.
- Bru, desculpa atrapalhar. Você viu a Mel? Ela não atende o celular e já a procurei em todo lugar.
Olhei por cima do ombro dele e vi a Marina me encarar. Ela me deu um olhar que dizia tudo: "Resolve isso pra mim". Então, ela se virou de costas para ele, puxou a Olívia pela mão e se afastou, dançando para outro canto da pista.
- Ah, Luke... -falei, tentando parecer casual.- Ela não estava se sentindo muito bem, acho que bebeu demais. Foi pra casa descansar.
Ele pareceu genuinamente preocupado.
- Sério? Eu deveria ir atrás dela?
Coloquei a mão em seu braço.
- Não. De verdade, acho melhor não. -aconselhei.- Ela disse que tava com dor de cabeça, ia tomar remédio e dormir. Fica aqui, curte a festa. A gente vê ela amanhã.
Ele pareceu aliviado, como se eu tivesse lhe dado a permissão que ele precisava.
- Sinceramente? Eu não queria ir embora agora mesmo. -ele disse, dando um gole grande da sua bebida. De repente, um sorriso brotou em seu rosto, e ele saiu pulando e dançando desajeitadamente para o meio da pista. Eu ri, balançando a cabeça.
Procurei a Marina com os olhos, e a encontrei perto do palco. Vi o Anthony se aproximar dela e cochichar algo em seu ouvido. A reação dela foi imediata e explosiva: ela o abraçou com força, com um pulo de alegria, os olhos brilhando de uma felicidade contagiante. Fiquei instantaneamente curiosa. O que ele tinha falado para deixá-la tão radiante?
Katherine se aproximou da Marina, provavelmente para chamá-la para jogar o buquê. Marina subiu no palco, a música foi interrompida, e ela pegou o microfone.
- Minhas solteiras maravilhosas, se preparem! Hora do buquê? -ela gritou, e uma multidão de mulheres se reuniu na frente do palco.
Observei as meninas, todas desesperadas, se empurrando de brincadeira, e ri, agradecendo a Deus por ser casada e não precisar mais passar por aquela humilhação divertida.
Marina pegou o buquê, virou de costas para a multidão e começou a contagem.
- Três... dois...
No "um", ao invés de jogar, ela se virou, desceu do palco e caminhou pelo meio das meninas confusas. Ela foi direto até a Virgínia, que estava ali no meio, e entregou o buquê em suas mãos.
Antes que a Virgínia pudesse processar o que estava acontecendo, Anthony apareceu logo atrás da Marina. Ele caminhou até a sua namorada, que o olhava, atônita, segurando o buquê da noiva, e se ajoelhou.
Um silêncio chocado caiu sobre a festa.
- Virginia Weston Yeardley, você aceita se casar comigo?
Eu levei a mão à boca, o coração disparado, os olhos arregalados de surpresa. Aquele era o segredo. Aquele era o motivo do brilho nos olhos da Marina.
Virgínia, com o rosto banhado em lágrimas e um sorriso que parecia grande demais para o seu rosto, finalmente conseguiu falar, a voz saindo num grito de pura alegria:
- SIM! SIM, UM MILHÃO DE VEZES SIM!
O salão explodiu em aplausos e assobios. Anthony, com as mãos trêmulas de alívio e felicidade, colocou o anel no dedo dela. Ele se levantou e eles se beijaram, um beijo apaixonado no meio da pista de dança, completamente alheios à multidão que os celebrava.
Assim que se separaram, a primeira a chegar neles foi a Marina, a cúmplice daquele crime romântico. Ela os abraçou com força, pulando de alegria. Logo em seguida, Olívia e Ryan se juntaram ao abraço, gritando e rindo.
Saindo do meu choque, eu corri até eles também, me enfiando no meio daquele abraço coletivo.
- Eu não acredito que vocês vão se casar! -eu gritava, rindo e chorando ao mesmo tempo.
Luan e Justin vieram logo depois, completando o nosso círculo. Estávamos ali, um amontoado de amigos, todos abraçados no meio da festa de casamento, celebrando mais um passo em nossas vidas.
Foi a Olívia quem gritou primeiro, a plenos pulmões:
- VITHONY!
Nós todos pegamos o grito na mesma hora, que nome ridículo que ela tinha inventado agora para o shipper deles. Começamos a pular e a rodar, ainda abraçados, uma bagunça de terno e vestidos, gritando "VITHONY! VITHONY! VITHONY!" como se fôssemos torcedores de um time que acabara de ganhar o campeonato.
A noite, que começou com um drama familiar sombrio e quase terminou em desastre, tinha se transformado. Ali, pulando e gritando com as pessoas que eu mais amava no mundo, eu soube que não importava o caos. Juntos, a gente sempre daria um jeito de transformar tudo em festa.