Pular para o conteúdo principal

Capítulo 128

Marina Narrando 

Domingo, 13 de agosto de 2028

A primeira coisa que notei quando acordei foi o silêncio. Um silêncio raro e pesado que só acontece em Nova York antes da cidade despertar de verdade. Da janela da suíte do hotel, os arranha-céus pareciam adormecidos, e por um segundo, meu coração bateu calmo. Então, a ficha caiu. Olhei para o lado, para o vestido branco e etéreo pendurado na porta do armário, parecendo um fantasma de renda e tule. Hoje. Era hoje.

O silêncio, claro, não durou. A porta se abriu e o caos começou, um caos delicioso que encheu o quarto de vida. Minha mãe entrou primeiro, com uma bandeja de café e croissants, os olhos já marejados.

- Você dormiu bem, meu amor? -ela perguntou, a voz embargada, enquanto arrumava a bandeja na mesinha.

Logo atrás dela, minha sogra entrou com um sorriso que aqueceria o inverno mais rigoroso.

- Deixa a menina respirar, Liana. Ela precisa de calma hoje. -ela disse, me dando um abraço apertado e um beijo na testa.- Você está radiante, minha querida.

A paz das duas foi imediatamente quebrada por um furacão de perninhas e risadas. Chloe, com seus cabelos loiros presos numa tiara de flores, entrou correndo, já no seu vestido de daminha.

- Tia Mari! Tia Mari! Hoje tem bolo!

Jack veio logo atrás, tentando acompanhar a irmã, o terninho em miniatura já meio amassado.

- Bolo! -ele gritava, feliz.

Bruna, a santa padroeira do controle de danos, veio em seguida, rindo.

- Crianças, cuidado com o vestido da noiva! -ela avisou, mas seus olhos encontraram os meus, e neles eu vi toda a felicidade do mundo por mim.

Minha pequena Serena, com seus passinhos ainda desajeitados de um ano e cinco meses, veio se agarrar às minhas pernas, olhando com curiosidade para toda aquela movimentação. Eu a peguei no colo, beijando o topo da sua cabeça. O cheirinho dela era meu porto seguro.

O quarto logo se encheu. Virgínia e Olívia chegaram com uma garrafa de champanhe.

- Proibido ficar nervosa! -Virgínia anunciou, estourando a rolha.- Ordem da madrinha!

Melanie entrou mais quieta, mas com um sorriso sincero. Ela pegou a Serena do meu colo, distraindo-a com um brinquedo, e nossos olhares se cruzaram, mas não dissemos nada.

Enquanto a maquiadora e a cabeleireira começavam seu trabalho de mágica em mim, eu observava a cena ao redor. Minha mãe e minha sogra conversando e rindo juntas. Bruna ajeitando a gravata borboleta do Jack pela décima vez. Olívia e Virgínia fazendo poses para selfies com taças de champanhe. Era uma sinfonia perfeita de apoio, amor e bagunça feminina.

A porta se abriu mais uma vez. Era Ashley, com um pacotinho nos braços. Meu coração deu um pulo. Jordan, meu irmãozinho mais novo, com apenas dois meses, dormia sereno, alheio a tudo.

- Ele não podia perder o grande dia da irmã. -Ashley disse, a voz suave.

Ela o colocou nos meus braços com cuidado para não amassar meu robe de seda. Segurar aquele corpinho tão pequeno e frágil, no dia em que minha própria vida estava prestes a mudar para sempre, foi surreal. Senti as lágrimas que eu estava segurando o dia todo finalmente brotarem. Eram lágrimas de pura e avassaladora felicidade.

Depois do momento de ternura com o Jordan, devolvi ele pra Ash, que saiu para amamenta-lo, agora o quarto estava com uma mistura de laquê, perfume e champanhe no ar. Minha mãe contava histórias vergonhosas da minha infância, fazendo todo mundo rir, enquanto a Marta rebatia com anedotas igualmente embaraçosas sobre o Luan. Bruna, Virgínia e Olívia se revezavam para me distrair, relembrando momentos engraçados e garantindo que minha taça nunca ficasse vazia. A missão delas era clara: não me deixar ter um segundo sequer para pensar no nervosismo que tentava se instalar no meu estômago.

As horas voaram nesse clima. Logo, todas elas, exceto eu, estavam com maquiagens impecáveis e penteados deslumbrantes.

- Ok, meninas, hora da transformação! -Bruna anunciou, batendo palmas.- Voltamos logo, vestidas e prontas para chorar quando essa noiva aqui colocar o vestido.

Elas saíram em um bando animado, me deixando com um raro momento de silêncio. Fui até a janela enorme da suíte. Meu pai era dono daquele hotel, e eu havia reservado cada quarto para o meu casamento. A cerimônia aconteceria ali embaixo, na área externa, no jardim, e a festa seria no grande salão interno. Pela janela, eu conseguia ver toda a movimentação. Os arranjos de flores com toques de rosé, a mesma cor dos vestidos das madrinhas, estavam sendo finalizados. Vi Katherine, nossa cerimonialista, andando de um lado para o outro com um walkie-talkie na mão, garantindo que tudo saísse exatamente como sonhamos. Ver tudo aquilo, tão real e tão perto, fez a adrenalina disparar. Minhas mãos começaram a suar de ansiedade. Olhei no relógio: 13:00. O casamento seria às quatro da tarde.

Uma batida suave na porta me tirou do transe. Um funcionário do hotel entrou com um carrinho, trazendo o almoço. Minha mãe, carregando a Serena e Marta voltaram para o quarto, já sem os robes, prontas para me fazer companhia.

- Você precisa comer, querida. -Marta disse, com sua voz mansa, me servindo um pouco de salada e frango grelhado.

Eu nem sentia fome, o nó no meu estômago era muito apertado, mas obedeci. Comi, mecanicamente. A única coisa que tornou a refeição real foi a minha Serena, sentada no meu colo, abrindo a boquinha para receber pedacinhos do meu frango. O balbuciar feliz dela, alheia a toda a importância daquele dia, foi a âncora que me trouxe de volta à terra. Alimentar minha filha, ali, a poucas horas de me casar com o pai dela, foi o momento de calma de que eu mais precisava.

Após o almoço, minha mãe e Marta levaram Serena para prepará-la, e de repente, eu estava sozinha de novo. O silêncio voltou, mas dessa vez, era diferente. Era um silêncio carregado de expectativa. Faltava pouco, muito pouco.

Inquieta, fui novamente até a janela, atraída pela cena que se desenrolava lá embaixo. O sol da tarde de agosto deixava tudo com um brilho dourado. A equipe da Katherine se movia com uma eficiência silenciosa, ajeitando os últimos detalhes. E foi então que eu o vi.

Meu coração parou por um segundo e depois disparou. Luan. Meu futuro marido. Ele estava lá, parado perto do altar, já todo pronto. O terno preto, feito sob medida, caía perfeitamente em seu corpo, e o cabelo estava impecavelmente arrumado. Ele olhava a decoração sendo colocada no lugar, as mãos enfiadas nos bolsos da calça, e balançava o peso do corpo de um pé para o outro. Mesmo de longe, eu podia ver a tensão em seus ombros. Ele estava nervoso.

Uma onda de amor tão forte me atingiu que precisei apoiar a mão no vidro frio da janela. Vê-lo ali, ansioso por mim, acalmou meu próprio coração acelerado. Era como se o nervosismo dele me desse força. Ele não estava fugindo, não estava calmo demais. Ele estava sentindo exatamente o mesmo que eu.

E meu Deus, ele estava lindo. Lindo demais. Não era só o terno ou o cabelo. Era a imagem dele ali, no nosso lugar, esperando pelo momento que mudaria nossas vidas para sempre. Era o homem com quem eu construí uma família, o pai da minha filha, prestes a se tornar oficialmente meu marido. Naquele instante, ele era o homem mais bonito do mundo.

Fiquei ali, escondida na minha janela, apenas o observando, guardando aquela imagem secreta só para mim. Queria poder descer correndo, abraçá-lo e dizer que tudo ficaria perfeito. Mas eu me contentei em enviar todo o meu amor através do vidro, em um momento de conexão que só o meu coração podia sentir.

A porta da suíte se abriu suavemente, quebrando meu devaneio. Era minha mãe, voltando sozinha. Havia uma ternura em seu olhar, uma emoção contida que era só nossa. O barulho e a agitação tinham ficado para trás; agora, o quarto era um santuário, e o momento, sagrado.

- Pronta, meu amor? -ela perguntou, a voz baixa, quase um sussurro.- Quer colocar o vestido?

Respirei fundo, o ar parecendo denso de repente. E assenti.

- Sim, quero.

Meu cabelo e maquiagem já estavam finalizados. O penteado semi-preso, com pequenas flores brancas naturais entrelaçadas nos fios, era exatamente como eu tinha sonhado. Meu rosto parecia o meu, mas uma versão iluminada, realçada, pronta para o dia mais importante da minha vida. Só faltava o vestido. E o véu.

Minha mãe o tirou da capa protetora com um cuidado reverente. O vestido da Dolce & Gabbana era uma obra de arte. Juntas, nós o manuseamos. Eu entrei nele, e senti o tule macio e a estrutura firme do corpete me abraçarem. As barbatanas aparentes davam um toque moderno e ousado ao design clássico. Ela subiu o zíper com delicadeza e, um por um, abotoou os pequenos botões de cristal que subiam pelas minhas costas. O cinto, também de cristal, cintilou quando ela o ajustou na minha cintura, e a saia volumosa se armou ao meu redor como uma nuvem.

- Vire-se. -ela pediu, a voz embargada.

Eu me virei e encarei meu reflexo no espelho de corpo inteiro. E perdi o fôlego. Aquela não era eu. Era uma noiva. Era a versão de mim que existia nos meus sonhos desde menina, mas ainda mais real, mais feliz. As lágrimas voltaram a encher meus olhos, e dessa vez, não lutei contra elas.

Minha mãe veio por trás de mim, e vi seu reflexo ao lado do meu. Ela chorava em silêncio, as mãos cobrindo a boca.

- Minha menininha... -ela sussurrou, a voz quebrada pela emoção.- Você está a noiva mais linda que eu já vi em toda a minha vida.

Ela pegou a última peça. O véu amantilhado, com suas bordas de renda delicada, que tinha sido dela quando se casou com Josh. Com as mãos trêmulas, ela o prendeu com cuidado no meu cabelo, deixando que ele caísse em cascata pelas minhas costas, sobre a saia do vestido.

O look estava completo. Nós duas ficamos ali, paradas em frente ao espelho, mãe e filha, compartilhando um último momento antes de tudo mudar. Ela apertou meus ombros com carinho, e naquele toque, senti todo o amor, todo o apoio e toda a história que nos trouxeram até ali.

Minha mãe segurou meu rosto entre as mãos, os olhos dela brilhando através das lágrimas.

- Você está radiante, meu amor. -ela disse, a voz cheia de orgulho.- O Luan é um homem de muita sorte.

Eu não consegui responder, apenas a abracei com força, afundando meu rosto em seu ombro e sentindo o cheiro familiar de seu perfume. Era um abraço que dizia "obrigada por tudo", um abraço de despedida da minha vida de menina.

Foi quando escutamos duas batidas suaves na porta da suíte.

A porta se abriu devagar e a cabeça do meu pai apareceu na fresta, com as duas mãos cobrindo os olhos.

- Já posso olhar? -ele perguntou, a voz soando meio abafada e ansiosa.- A noiva está decente?

Eu desfiz o abraço da minha mãe, rindo em meio às lágrimas que ainda escorriam. Enxuguei o rosto rapidamente com as costas da mão, tentando me recompor.

- Pode, pai. -falei, a voz saindo um pouco trêmula.- Já pode olhar.

Foi quando ele me olhou.

Ele baixou as mãos lentamente. Seu sorriso brincalhão desapareceu, e sua boca se abriu um pouco, sem emitir som. Os olhos dele, os mesmos olhos que eu via no espelho todos os dias, se encheram de lágrimas instantaneamente. Ele ficou ali, parado no batente da porta, completamente sem palavras, apenas me olhando de cima a baixo, como se estivesse vendo pela primeira vez não a sua filha levada, mas a mulher que eu havia me tornado. E naquele olhar, eu vi toda a nossa história. Eu vi o pai que me ensinou a andar de bicicleta, que brigou comigo na adolescência, e que agora, estava prestes a me entregar ao homem da minha vida.

Sentindo a carga de emoção que preencheu o espaço entre mim e meu pai, minha mãe se aproximou, me deu um beijo suave e demorado na bochecha e, sem dizer uma única palavra, saiu do quarto. Ela estava me dando aquele momento. O nosso momento de pai e filha.

Meu pai finalmente pareceu recuperar a capacidade de se mover. Ele entrou no quarto, fechando a porta, e caminhou devagar na minha direção, os olhos ainda brilhando. Ele parou na minha frente, ergueu a mão como se fosse tocar no meu rosto, mas hesitou, com medo de estragar a maquiagem.

- Meu Deus, Marina... -ele sussurrou, a voz rouca.- Parece que foi ontem que eu te ensinava a amarrar os sapatos. E agora... olha pra você.

Ele pegou minhas mãos, segurando-as com firmeza.

- Você está... mais linda do que eu jamais imaginei. -ele deu um sorriso trêmulo, tentando conter as lágrimas.- Acho que o Luan vai ter um infarto quando te ver.

Eu ri, sentindo minhas próprias lágrimas ameaçarem voltar.

- Para, pai. Senão eu vou borrar tudo isso aqui.

- Tudo bem. -ele disse, respirando fundo, se recompondo.- Sem mais choro. Só orgulho. Estou tão orgulhoso da mulher que você se tornou, minha filha. -ele apertou minhas mãos.- Você está linda.

Olhei para o nosso reflexo no espelho, a imagem do meu pai, meu primeiro herói, ao meu lado.

- Obrigada, pai. -respondi, com a voz baixa.

Logo a porta se abriu novamente, era Ashley, deslumbrante em seu vestido de convidada, com o pequeno Jordan aninhado em seus braços, agora acordado e vestindo um terninho minúsculo que era a coisa mais adorável que eu já tinha visto.

- Uau! -Ashley exclamou, parando na porta, os olhos arregalados ao me ver.- Marina, você está absolutamente deslumbrante. De tirar o fôlego.

- Obrigada, Ash. -sorri, me sentindo flutuar com tantos elogios. 

Ela se virou para o meu pai.

- Querido, você pode me ajudar com uma coisa lá fora rapidinho? 

Meu pai beijou minha testa.

- Eu volto logo pra te buscar. Não fuja. -ele brincou, saindo do quarto com ela.

E de repente, eu estava sozinha de novo. O silêncio voltou, mas agora era preenchido por uma energia elétrica. Fui até o espelho de corpo inteiro mais uma vez, me admirando. Era eu, mas era uma versão de conto de fadas de mim mesma. Girei devagar, vendo a saia volumosa se mover comigo, o véu flutuando suavemente.

Fui até a penteadeira, onde a caixinha de veludo com minhas joias esperava. Sentei-me e, com as mãos um pouco trêmulas, peguei os brincos de diamante que Luan havia me dado de presente de casamento. Eram delicados e brilhavam a cada movimento.

Enquanto eu estava sentada, cuidadosamente colocando o segundo brinco, ouvi mais batidas na porta. Mais suaves dessa vez.

- Pode entrar. -falei, pensando que era meu pai voltando.

A porta se abriu e meu coração deu um salto. Não era meu pai. Era o Justin. Ele estava impecável em seu smoking de padrinho, mas a expressão em seu rosto era uma mistura de surpresa, orgulho e uma emoção crua que ele raramente demonstrava. Ele ficou ali, parado, me olhando, da mesma forma que meu pai tinha feito minutos antes.

Nós ficamos nos olhando por um longo segundo, um silêncio que só irmãos que cresceram juntos conseguem compartilhar. Naquele olhar, eu vi o menino com quem eu subia em árvores, o adolescente que me protegia nas festas, e o homem que, apesar de toda a sua marra, estava visivelmente emocionado.

Ele soltou o ar, como se estivesse segurando a respiração.

- Uau. -ele disse, a voz um pouco rouca.- Achei que o Luan era exagerado, mas acho que hoje ele desmaia mesmo.

Um sorriso aguado se formou no meu rosto.

- Você acha?

Justin entrou no quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. Ele se aproximou, parando ao meu lado, e olhou nosso reflexo no espelho da penteadeira.

- Eu tenho certeza. -ele disse, sério.- Você tá... surreal, Mari. De verdade. -ele passou a mão no meu ombro.- Lembra quando a gente brincava de casamento com os lençóis da vovó no quintal? Você amarrava umas flores na cabeça e me obrigava a ser o noivo.

Eu ri com a lembrança.

- E você sempre reclamava.

- É, eu reclamava. -ele sorriu, os olhos brilhando.- Mas, quer saber? Você nunca esteve tão bonita quanto agora.

As lágrimas que eu tinha acabado de secar ameaçaram voltar.

- Para, Ju, senão você vai me fazer chorar de novo.

- Tudo bem, tudo bem, sem choro. -ele disse, se recompondo. Ele enfiou a mão no bolso do smoking.- Só... seja feliz, tá? Você merece toda a felicidade do mundo. E se o Luan pisar na bola, saiba que eu ainda sei dar um bom soco.

Eu gargalhei, uma risada que misturava amor e alívio. Esse era o meu irmão.

- A Bruna me mandou te entregar isso. -ele disse, abrindo a mão. Havia um pequeno broche de prata com uma minúscula safira azul no centro.- O seu "algo novo e azul". Pra dar sorte.

Ele me ajudou a prender o broche discretamente na parte de dentro do meu vestido, perto do coração.

- Obrigada, Ju. -sussurrei, a voz embargada.- Por tudo.

Não precisei dizer mais nada. Ele me puxou para um abraço apertado e cuidadoso, e eu descansei a cabeça em seu ombro, sentindo a segurança que só ele sabia me passar.

Ele se afastou um pouco, ajeitando o smoking.

- Bom, eu preciso descer. A Katherine está tendo um surto, disse que os padrinhos não sabem como colocar a flor na lapela.

Eu ri, imaginando a cena do Anthony, Ryan e os outros tentando lidar com uma simples flor. A imagem aliviou o resto do meu nervosismo.

- Os convidados já estão chegando? -perguntei, a ansiedade voltando, mas agora de um jeito bom.

Justin já estava na porta. Ele se virou para mim, os olhos arregalados de um jeito cômico.

- Chegando? Mari, já tá dando super lotação lá embaixo. Parece um show. -ele fez uma pausa, me encarando como se eu fosse louca.- Pelo amor de Deus, quantas pessoas você convidou pra essa festa?

Eu ri da expressão de espanto do Justin.

- Digamos que não foram poucas pessoas. -respondi, ainda sorrindo
Ele riu junto, balançando a cabeça, mas de repente seu olhar mudou. A diversão sumiu, dando lugar a uma hesitação desconfortável. Ele olhou para a porta, depois de volta para mim.

- Olha, Mari, eu sei que não é da minha conta, mas... por que você convidou o Victor?

Meu sorriso se desfez na mesma hora. O ar pareceu ficar mais pesado no quarto, e um gelo se formou no meu estômago.

- O quê? -falei, a voz saindo fraca.- Eu não convidei o Victor.

Nós ficamos nos encarando por um segundo, o pânico crescendo dentro de mim. Meu coração, que antes batia de ansiedade feliz, agora acelerava de medo. Por que o Victor estava ali?

Justin viu o pânico nos meus olhos. Sua expressão se tornou dura, protetora.

- Ok. Fica tranquila. Eu vou verificar se ele veio de penetra e vou me certificar de que ele não dê um escândalo. -ele disse, a voz baixa e firme.

Eu apenas assenti com a cabeça, incapaz de formular uma palavra, enquanto ele saía do quarto, fechando a porta atrás de si.
Sozinha de novo, mas agora o silêncio era ameaçador. Me levantei e fui até a janela, as mãos trêmulas. Olhei para a multidão lá embaixo. Os convidados estavam todos em seus lugares, conversando entre si. Vi minha família, a família do Luan, colegas de trabalho dele, sua equipe, seu empresário. Vi alguns atores com quem trabalhei no filme que fiz. Eram todos rostos bem-vindos, rostos que eu queria ali. Mas o Victor não. Ter ele ali me dava um frio na espinha.

Procurei por ele com os olhos, o coração martelando contra minhas costelas. E então, eu o vi. Perto de uma das colunas de flores, um pouco afastado dos outros. Ele estava com uma roupa social, mas de um jeito desleixado, e levava um cantil de metal à boca, observando tudo ao redor com um olhar que eu conhecia bem demais.

No mesmo instante, vi Justin se aproximar dele. A conversa pareceu tensa desde o primeiro segundo, os dois parados frente a frente, a linguagem corporal rígida. Foi quando Victor, com um movimento lento e deliberado, enfiou a mão no bolso interno do paletó e tirou algo.

O convite. O meu convite de casamento.

Meu mundo parou. Como ele havia recebido aquilo? Eu não o convidei.

Meu cérebro tentava processar a imagem. O convite. Ali, na mão dele. Não era uma falsificação, eu podia ver o relevo dourado do nosso monograma brilhando sob o sol. Era real. O ar saiu dos meus pulmões, e eu me apoiei na parede, sentindo as pernas fraquejarem.

Quem? Quem faria uma coisa dessas? A lista de pessoas com acesso aos convites era tão pequena. Eu, Luan, Bruna, nossas mães... e Melanie. O nome dela piscou na minha mente como um alarme de incêndio. A briga. A inveja que o Justin mencionou. O gogoboy. Aquilo não tinha sido o fim. Aquilo tinha sido só o começo.

Lá embaixo, vi Justin pegar o convite da mão do Victor, analisando-o. Sua postura ficou ainda mais rígida. Ele disse algo, apontando para a saída. Victor apenas sorriu, um sorriso presunçoso, e balançou a cabeça, recusando-se a sair. Ele tinha um convite. Ele tinha o direito de estar ali. Vi Justin se afastar um passo, a raiva emanando dele, e pegar o celular.

No mesmo instante, meu próprio celular, esquecido na penteadeira, vibrou. Corri até ele, as mãos tremendo tanto que quase o derrubei. Uma mensagem do Justin.

"Ele não vai sair. O convite é legítimo. Alguém enviou pra ele. Preciso saber, Ma: quem mais tinha acesso aos convites extras?"

A pergunta era retórica. Ele já sabia a resposta, e eu também. Fechei os olhos, e a traição me atingiu com a força de um soco. Aquele não era um simples ato de maldade. Era uma sabotagem. Melanie não queria apenas me irritar; ela queria estragar o dia mais importante da minha vida.

As lágrimas que eu segurei o dia inteiro vieram com força, quentes e cheias de raiva e dor. Minha maquiagem, meu vestido, nada importava mais. Meu dia perfeito estava manchado antes mesmo de começar.

A porta do quarto se abriu.

Era meu pai, o rosto iluminado por um sorriso orgulhoso.

- Pronta, minha filha? A música já vai começar.

Eu me virei para ele, o rosto molhado, o coração em pedaços. Lá embaixo, o homem que eu amava me esperava. Mas no meio do caminho, havia um fantasma do meu passado, plantado ali pela minha própria irmã.

O sorriso do meu pai se desfez no instante em que ele viu as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Ele fechou a porta e correu até mim, segurando meus braços com delicadeza.

- Marina? O que aconteceu? Minha filha, por que você tá chorando?

A preocupação genuína em sua voz quebrou a última barreira de autocontrole que eu tinha. Em um sussurro apressado e embargado, eu contei tudo pra ele. Sobre o Victor, sobre o convite, sobre a minha certeza de que a Melanie estava por trás daquilo.

Mães dizem não ter filhos preferidos, mas pais têm, e eu sempre fui a princesinha do meu pai. Vi o rosto dele passar de preocupação para uma fúria contida que fez seus punhos se fecharem ao lado do corpo.

- Aquela... -ele começou, a voz grave de raiva, mas parou, respirando fundo. Ele olhou para o meu rosto manchado de maquiagem e visivelmente se forçou a se acalmar. Por mim. - Fica aqui. Eu vou buscar a Ashley. Ela sabe o que fazer.

Ele me deu um beijo na testa e saiu do quarto a passos largos, como um homem em uma missão. No exato momento em que a porta se fechou, eu escutei as primeiras notas da música de entrada do Luan flutuando pela janela. Meu estômago se revirou. Estava acontecendo.

Como se invocada pelo caos, a porta se abriu com um estrondo e Katherine, a cerimonialista, entrou com uma prancheta na mão e um sorriso profissional que congelou ao me ver.

- Marina! Pelo amor de Deus, o que houve? -ela se alarmou, olhando para o meu estado.- A música do Luan já começou, a gente vai atrasar! Você precisa descer!

- Eu sei, eu sei... -murmurei, tentando não surtar mais do que já estava.

Ashley apareceu às pressas logo atrás dela, com uma pequena maleta de maquiagem em mãos.

- Saiam, saiam! Deixem ela comigo! -ela disse, já me sentando na cadeira da penteadeira e começando a trabalhar com uma velocidade e precisão impressionantes.

- Assim que terminar, desçam! -Katherine ordenou, já se virando.

Ela saiu e desceu as escadas correndo. Ashley trabalhava em silêncio, retocando a base, o corretivo, o delineador. E então, eu ouvi. A música mudou. Era a canção que eu tinha escolhido para a entrada dos padrinhos e madrinhas. Bruna, Justin, minhas madrinhas e padrinhos... eles estavam entrando. Eu era a próxima. Meu coração não pulava de ansiedade, ele martelava em pânico contra as minhas costelas. 

Enquanto Ashley trabalhava com a esponjinha sob meus olhos, a imagem do Victor lá embaixo, com aquele sorriso presunçoso, não saía da minha cabeça. O pânico ainda estava ali, borbulhando sob a superfície.

- Ash... -comecei, a voz um pouco trêmula.- Você se lembra do Victor? 

Ashley não parou o que estava fazendo, mas seus olhos encontraram os meus no reflexo do espelho. Sua expressão era calma, mas firme.

- Lembro. -ela respondeu, a voz baixa.- E sim, eu o vi lá embaixo quando ele chegou.

Um arrepio percorreu minha espinha.

- Não fui eu quem o convidou. -falei, sentindo a necessidade de me justificar.- Eu não sei se ele veio mal-intencionado, não sei o que ele quer... mas... você poderia, por favor, ficar de olho nele durante a cerimônia?

Ashley parou por um segundo, colocou o pincel na mesa e segurou minha mão. O toque dela era firme e reconfortante.

- Marina, olhe para mim. -ela pediu, e eu me virei para encará-la.- Não se preocupe com ele. Seu pai e o Justin já estão de olho. Eu também vou ficar. Ninguém, absolutamente ninguém, vai estragar o seu dia. Você me ouviu? Hoje é sobre você e o Luan. E só.

Ela me deu um sorriso tranquilizador que, milagrosamente, conseguiu acalmar um pouco a tempestade dentro de mim. Assenti, respirando fundo.

- Agora, terminei. -ela disse, dando um último retoque no meu batom.- Você está perfeita. De novo.

E no exato momento em que ela disse isso, a melodia mudou mais uma vez. Era a minha música. Turning Page, em uma versão instrumental suave que eu escolhi especialmente pra data de hoje. Era a minha deixa.

A porta se abriu, e meu pai estava lá, com o braço estendido e um sorriso que tentava esconder toda a fúria que eu sabia que ele estava sentindo.

- Pronta, minha estrela?

Olhei para ele, para o caminho que me esperava. Lá embaixo, o amor da minha vida estava no altar. E nenhum fantasma do passado iria me impedir de chegar até ele.

- Mais do que pronta, pai. -respondi, segurando seu braço com firmeza.

Ashley me entregou o meu buquê, agradeci à ela, e junto do meu pai, demos o primeiro passo em direção ao resto da minha vida.

Postagens mais visitadas deste blog

Personagens

Marina Rhode Bieber Tem 18 anos, é natural de Los Angeles, é meia-irmã de Justin, irmã de Melanie e mora em Nova York, caloura da Columbia. Justin Drew Bieber Tem 18 anos, é natural de London (Canadá), é meio-irmão de Marina e Melanie, mora em Nova York, calouro da Columbia. Luan Rafael Domingos Santana Tem 18 anos, natural de Campo Grande, recém chegado em Nova York, é irmão gêmeo de Bruna, calouro da Columbia. Bruna Domingos Santana Tem 18 anos, natural de Campo Grande, recém chegada em Nova York, é irmã gêmea de Luan, caloura da Columbia. Melanie Marie Bieber Tem 17 anos, natural de Los Angeles, irmã mais nova de Marina e meia-irmã de Justin, estudante do último ano do Ensino Médio. Olivia Sidney Mitchell Tem 18 anos, natural de Londres, mora em Nova York, caloura da Columbia. Virginia Weston Yeardley 18 anos, natural de Washington, mora em Nova York,  caloura da Columbia. Chloe Araya Collins 19 ...

Capítulo 93

Marina Narrando Já era segunda-feira e minha cabeça estava a mil. Eu caminhava pelos corredores do estúdio com uma mão apoiada na barriga já bem arredondada e um café descafeinado na outra, tentando organizar todos os pensamentos que martelavam desde o fim de semana. Eu ter voltado com o Luan… ainda parecia surreal. Quando deitamos no sofá ontem à noite e ele me puxou pra perto, me chamando de “minha namorada” com aquele sorriso bobo, eu senti um alívio no peito que não sabia que precisava. Mas também… tinha o outro lado. O post sobre a Bruna e nossa amizade, explodindo nas redes sociais. Eu vi cada comentário de ódio direcionado a ela e era revoltante. Pior ainda porque, embora os fatos estivessem todos distorcidos, eles não eram totalmente mentira.  Quando cheguei à sala de reunião no set, já estavam todos lá. O elenco completo, produtores, roteiristas, técnicos. Era aquele burburinho animado de sempre, todo mundo empolgado porque a divulgação do segundo filme já ia começar, com ...

Capítulo 91

Luan Narrando  Eu senti meu peito subir e descer rápido, ainda sem conseguir me afastar dela. Marina tava ali, entre os meus braços, a respiração dela quente contra a minha pele, e tudo em mim gritava pra não soltar. Aquela boca… aquele gosto dela… eu não lembrava quanto era viciante até provar de novo. Me sentei melhor no sofá, trazendo-a junto, acomodando-a no meu colo com cuidado por causa da barriga. Ela deixou escapar um riso nervoso quando ajeitei as mãos na cintura dela, quase como se pedisse permissão outra vez. - Você fica linda assim… -murmurei perto do pescoço dela, sentindo o cheiro do cabelo, descendo uma mão até descansar na curva do quadril.- …tão linda que eu fico até meio burro. Ela soltou uma risadinha, mas arfou quando minha mão subiu devagar pelas costas dela, desenhando a curva da coluna por baixo da blusa. Eu sentia a pele dela arrepiar debaixo dos meus dedos. - Luan… -ela murmurou, meio que em protesto, mas sem força nenhuma pra realmente me parar. - Shhh… -p...