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Capítulo 127

Justin Narrando

A primeira coisa que senti foi uma britadeira trabalhando na minha têmpora direita. A segunda foi o gosto de carpete velho na minha boca. Abri um olho, depois o outro. A luz do sol que entrava pela fresta da cortina era uma agressão pessoal, um ataque direto à minha alma frágil e alcoólica.

Memórias da noite anterior voltavam em flashes caóticos: eu rimando sobre mariposas, Luan sendo erguido como um troféu, o gosto de um shot azul, o rosto desesperado do Luke... 

Forcei meu corpo a registrar o presente. Eu estava só de cueca. Com um tênis no pé. Em cima da cama, uma faixa de "GROOM'S CREW" estava jogada sobre a minha barriga como uma mortalha. O quarto parecia que tinha sido o palco de uma batalha campal entre uma banda de rock e um zoológico. E, no meio do campo de batalha, as vozes dos meus amigos soavam distantes, como um rádio mal sintonizado.

- ...a Melanie quer arrancar nossas cabeças! -era a voz do Luke, cheia de pânico.

- Um dançarino... sem camisa... pra Marina? -e essa era a voz do Luan.

Foquei nele. Luan estava sentado na cama, pálido, com um terno amassado que eu vagamente lembrava de ter "conseguido" pra ele. Ele não parecia só de ressaca. Havia algo mais ali. Seus olhos estavam vidrados, e ele repetia a pergunta como um disco arranhado, ignorando completamente o pânico do Luke. Ele estava com ciúmes. Um ciúme puro, denso e delicioso de se observar.

Eu não aguentei. O instinto falou mais alto.
Sentei na cama num pulo, o que fez o mundo girar violentamente, mas ignorei.

- Gogoboy?! -gritei, a voz saindo rouca e bem mais alta do que eu pretendia.

Os três se viraram para mim, assustados. Luan me olhou com uma cara de enterro.

- A Marina?! A minha irmãzinha?! -continuei, com uma falsa expressão de horror. Então, não consegui segurar. Um sorriso enorme rasgou meu rosto.- QUE ORGULHO! ESSA É A MINHA GAROTA! Sabia que ela tinha o meu sangue correndo nas veias!

Estendi a mão para um high-five, mas Luan apenas me encarou, sem reação.

- Não tem graça, Justin. -ele murmurou.

- Ah, qual é! Tem toda a graça! -falei, tentando me levantar.- Foi a Bruna, não foi? Certeza que foi ideia da minha esposa. Aquela ali tem a mente de um gênio do mal. 

Eu ri, tentando aliviar o clima, mas Luan continuava sério, perdido nos próprios pensamentos. Ele estava remoendo a imagem de um cara sem camisa dançando para a sua noiva. E eu sabia que, mesmo no meio da pior ressaca da história da humanidade, meu trabalho como cunhado, padrinho e melhor amigo estava apenas começando: eu precisava usar essa informação para infernizá-lo pelo resto da vida.

Foi quando o Luke, com a expressão séria de quem entrega um relatório, me corrigiu.

- Não, cara. Não foi a Bruna. -ele disse, ajeitando os óculos escuros no rosto, mesmo dentro do quarto.- Nos áudios, a Mel deixou bem claro. Foi só ela. Ideia dela, ela que contratou. Ela disse que "a noiva merecia uma surpresa inesquecível".

Ouvir aquilo fez meu sorriso desaparecer na mesma hora. A piada morreu. A névoa da ressaca pareceu se dissipar por um instante, substituída por uma clareza fria e desagradável.

Se fosse a Bruna, a Olívia ou Virgínia, seria só uma zoeira de despedida. Uma brincadeira de mau gosto, talvez, mas ainda assim, uma brincadeira. Mas vindo da Melanie... vindo dela sozinha... a história era outra.

A Melanie não teria feito isso por ser apenas divertido e legal. Conheço a minha irmã. Por trás daquele sorriso doce, sempre existiu uma pontinha de inveja da Marina, uma competição que só ela parecia enxergar. E essa "brincadeira" não foi uma brincadeira. Foi um recado. Foi um jeito de cutucar, de provocar, de talvez plantar uma semente de desconfiança na cabeça do Luan bem na véspera do casamento. Mesmo ela também sendo minha irmã, eu não defendia suas atitudes. Aquilo não foi uma zoeira de amigas. Ela foi má intencionada.

Passei a mão pelo cabelo, o humor completamente evaporado. A situação toda, que um minuto atrás era uma anedota hilária sobre a ressaca em Vegas, de repente ganhou um peso feio de drama familiar.

- Merda. -murmurei, mais para mim mesmo do que para os outros.

Luan, que estava de cabeça baixa, levantou o olhar para mim, percebendo a mudança no meu tom. O ciúme bobo dele agora parecia encontrar um chão mais sólido, e a diversão da noite anterior azedou de vez.

A quietude que se instalou no quarto era pior do que a gritaria da balada. Era uma quietude pesada, cheia da ressaca, da vergonha e, agora, de um drama familiar feio que eu não pedi. Luan continuava me encarando, a mágoa e o ciúme visíveis em seus olhos, agora validados pela minha própria reação.

Respirei fundo, ignorando a pontada na minha cabeça. A festa tinha acabado. Era hora de limpar a bagunça. E não só a do quarto.

- Luan, olha pra mim. -falei, a voz mais séria do que eu mesmo esperava. Ele não desviou o olhar.- Esquece o gogoboy. Esquece a foto. Você conhece a Marina, certo? Você confia nela, não confia?

Ele demorou um segundo para responder, os lábios apertados.

- Sim, claro que confio. -disse, a voz baixa.- Mas...

- Não tem "mas". -cortei, firme.- É isso que importa. A Marina estava na despedida de solteira dela, com as amigas, tirando onda. Ela não fez nada de errado. O que a Melanie fez... isso é outra história. É um problema meu, que eu vou resolver com ela. Não é um problema seu e da Marina. Não deixa essa merda que a minha irmã fez estragar as coisas entre você e a Mari. Entendeu?

Ele assentiu devagar, parecendo absorver minhas palavras. Eu via a luta em seu rosto, a batalha entre o ciúme instintivo e a confiança que ele tinha na minha irmã.

- Ok. -murmurei, sentindo que a crise imediata tinha sido contida.- Agora, chega de remoer. A gente precisa de um plano de ação pra sobreviver a esse desastre.

Levantei da cama, o corpo todo protestando.

- Primeiro: água. Muita água. E comida gordurosa. Ryan. -olhei para a figura estirada no chão.- Você está em condições de usar o telefone e pedir o maior e mais gorduroso café da manhã que esse hotel tem pra oferecer? Use meu cartão.

Ryan gemeu um "sim" patético.

- Ótimo. Luke, Anthony, me ajudem a pelo menos juntar o lixo maior do chão antes que a camareira tenha um infarto e chame a SWAT.

Eles se moveram como zumbis, começando a catar garrafas vazias e copos de plástico.

- E o mais importante. -parei, olhando para cada um deles.- Ninguém, absolutamente ninguém, vai responder mais nenhuma mensagem ou atender nenhuma ligação. Especialmente da Melanie. A gente entra em modo de silêncio total até estarmos sóbrios o suficiente para formar frases coerentes. Entendido?

Todos concordaram com a cabeça.
Enquanto eu começava a juntar as roupas espalhadas pelo chão, a raiva pela atitude da Melanie borbulhava sob a minha ressaca. Eu teria uma conversa muito séria com ela quando voltássemos para Nova York. Mas, por agora, minha prioridade era cuidar dos meus amigos e garantir que o noivo chegasse ao altar inteiro, fisicamente e emocionalmente. A lendária noite em Vegas tinha acabado, e tudo o que restou foi a dura e dolorosa realidade da manhã seguinte.

Eu vesti uma calça de moletom qualquer e uma camiseta amarrotada que achei no chão. Tirei a maldita faixa de "GROOM'S CREW" que estava colada no meu corpo como se fosse parte da minha pele e respirei fundo. Hora de agir como o adulto responsável do grupo — ou pelo menos tentar fingir.

Anthony e Luke estavam catando copos plásticos e guardanapos sujos quando eu fui ajudar. Ryan, depois de terminar o pedido de café da manhã mais gorduroso do hotel, também se juntou à faxina improvisada. Até o Luan, que mal se aguentava de pé, resolveu levantar pra ajudar.

E foi aí que ele soltou:

- Alguém fez tatuagem dessa vez? -perguntou, com a cara mais séria do mundo.

Eu gargalhei alto, não só pela pergunta, mas pela cara que o Anthony fez na mesma hora. Ele congelou no meio do movimento de pegar uma garrafa, encarando Luan com tédio.

- Mano... -eu disse, quase caindo de tanto rir.- Você não pode jogar essa pergunta assim, na lata, depois da nossa última vez em Vegas!

Só de lembrar, comecei a rir ainda mais. Três meses atrás, na minha despedida, o Anthony tinha aparecido com o ombro fresquinho de tatuagem: "Virginia 💘", com direito a uma flechinha atravessando o coração. Um clássico instantâneo do arrependimento.

- Cala a boca, Bieber. -ele resmungou, vermelho.- Eu já ouvi o suficiente da Virgínia por um ano inteiro por causa dessa merda.

- Não, mas fala sério. -Luke entrou na onda, rindo.- Se alguém fez tatuagem dessa vez, a gente precisa saber agora. Melhor descobrir hoje do que daqui uns dias no banho.

Ryan levantou as mãos como se jurasse inocência.

- Eu tô limpo. Só glitter na barba e uma mancha de batom que eu não sei de onde veio.

- Eu também não fiz nada. -disse Luke, mas ninguém parecia acreditar muito nele.

Já o Luan... ele não riu. Continuava sério, com a cara amassada e ainda remoendo o assunto da Marina, eu sabia.

Eu coloquei a mão no ombro dele e brinquei, tentando aliviar.

- Relaxa, cara. A única tatuagem que você precisa é a aliança no dedo. O resto a gente resolve depois.

Anthony resmungou um "filho da mãe" baixinho e eu voltei a rir. O clima ficou mais leve, pelo menos por alguns minutos, enquanto a gente fazia aquela faxina meia-boca de ressaca, tentando fingir que éramos adultos responsáveis.

Uma batida na porta fez todo mundo gelar. A essa altura, qualquer som era agressivo demais pro nosso estado. Eu fui o “sortudo” escolhido pra atender. Arrastei os pés até a porta e abri, dando de cara com dois funcionários do hotel empurrando um carrinho abarrotado. O cheiro de bacon, ovos mexidos e panquecas bateu no meu nariz como uma epifania divina.

- Café da manhã do quarto 2401. -disse o cara, tentando não rir da minha cara de zumbi.

- Vocês são anjos enviados pelo próprio Deus. -murmurei, assinando a conta sem nem olhar o valor. Dane-se, era a minha alma que estava em jogo ali.

Assim que o carrinho entrou, virou praticamente uma cena de documentário animal: cinco homens ressacados atacando comida como se não comessem há dias. Luke foi direto no bacon, Ryan pegou três panquecas de uma vez, e Anthony encheu o prato de ovos e batata frita. Luan, pálido, se agarrou a uma caneca de café como se fosse a única coisa que poderia mantê-lo de pé.

- Cara... -Ryan falou com a boca cheia.- Isso é melhor que sexo.

- Não exagera. -Anthony respondeu, mas enfiou mais um garfo de ovos na boca.

Eu me servi de um prato de tudo um pouco e me joguei na cadeira, mastigando devagar, como se cada mordida fosse um remédio milagroso contra a ressaca.

- Eu ainda tô esperando alguém mostrar uma tatuagem surpresa. -provoquei, olhando pro Anthony.

- Justin, eu juro... -ele apontou o garfo pra mim.- Se você tocar nesse assunto de novo, eu tatuo “Bieber” na minha testa só pra acabar com isso.

Luke caiu na gargalhada, quase cuspindo o suco de laranja.

- Eu pago pra ver isso acontecer!

Luan, que até então estava calado, soltou um comentário baixo:

- Eu só queria sobreviver até o casamento sem mais surpresas.

O silêncio durou meio segundo antes de Ryan, completamente sério, completar:

- Amém, irmão.

Rimos, mas havia um fundo de verdade ali. Todo mundo estava cansado, quebrado, e mesmo assim, sabíamos que tínhamos que voltar inteiros pra Nova York — ou pelo menos inteiros o bastante pra ninguém desconfiar da bagunça que foi a noite anterior.

[...]

Chegamos em Nova York como sobreviventes de guerra. Anthony e Ryan se despediram no metrô. Eu, Luke e Luan seguimos direto pra minha casa. Eu tinha pedido pra Bruna levar a Marina e a Melanie também, porque sabia que não dava mais pra empurrar essa situação com a barriga.

As crianças estavam seguras em Nova Jersey com a minha mãe, e isso me deu a tranquilidade que eu precisava: nada de pequenas testemunhas para o caos que ia rolar.

Assim que entramos, Bruna veio até mim com aquele jeito que sempre me desmontava. Óculos de sol enormes, mesmo dentro de casa, e uma cara de ressaca que só confirmava a noite em Vegas. Ela me abraçou, beijou meu rosto e sorriu cansada:

- Até que enfim. -murmurou, afundando o rosto no meu peito por um segundo.

Olhei por cima dela e vi a cena se desenhar:
Melanie foi direto até o Luke, atravessando a sala com expressão de quem vinha armada até os dentes. Ele levantou as mãos no ar, defensivo.

- Eu não fiz nada, Mel. -ele disse, mas a cara dela já mostrava que havia algum acerto de contas paralelo rolando.

Marina, por outro lado, estava hesitante. Ela se aproximou devagar de Luan, quase como se esperasse rejeição. Mas ele, mesmo ainda com a sombra da ressaca, abriu os braços e a puxou pra perto. Aquele beijo deles não foi só um cumprimento — foi uma reconciliação silenciosa.

Bruna se afastou de mim, tirou os óculos e piscou devagar, como se o peso da curiosidade fosse mais forte que a dor de cabeça.

- Tá... e agora você vai me dizer o motivo de ter reunido todo mundo aqui? -ela perguntou, direto ao ponto.

Respirei fundo. Eu já tinha ensaiado aquele momento no avião.

- Quero falar sobre o que aconteceu na despedida da Marina. -disse, olhando diretamente pra Melanie.- Quero entender quais eram as suas intenções quando decidiu contratar um gogoboy.

A sala congelou. Marina arregalou os olhos, Bruna levou a mão à boca, e Luan ficou rígido, os braços ainda em volta da noiva. Luke desviou o olhar, claramente desconfortável por já saber de tudo.

Melanie me encarou de volta, sem pestanejar.

- Minhas intenções? -ela arqueou a sobrancelha, cruzando os braços.- Justin, era uma despedida de solteira. O que você esperava? Chá com biscoito?

- Não foi isso que eu perguntei. -falei, firme.- Por que contratou gogoboy?

Ela bufou, jogando o cabelo pro lado, como fazia sempre que se sentia encurralada.

- Por quê? Porque é óbvio. Eu duvido que não teve mulher pelada na despedida do Luan. -ela apontou pra ele, que ficou sem reação.- Então não entendo porque todo mundo tá me crucificando como se eu tivesse feito algo imperdoável.

- Melanie, vamos ser diretos. -falei, encarando ela firme.- Você sempre teve inveja da Marina, e não vem me dizer que não. Isso de contratar um gogoboy não foi por diversão inocente. Suas intenções não foram as melhores, nunca são quando o assunto é ela.

Ela revirou os olhos e soltou uma risadinha debochada.

- Ah, lá vem você defender a irmãzinha preferida. Como sempre, né?

Meu sangue ferveu.

- Não é questão de defender, é questão de enxergar o óbvio. Você sempre invejou a Marina, sempre tentou arrumar um jeito de cutucar, de causar.

Melanie cruzou os braços, me olhando com aquela cara de tédio que eu conheço desde criança.

- Ai, Justin, você exagera. Foi uma festa! Qual é o problema? O Luan sobreviveu, a Marina também. Todo mundo se divertiu, menos você, que parece querer controlar até como a gente respira.

Eu respirei fundo, tentando não estourar de vez.

- Não se trata de controlar, Melanie. Se trata de respeito.

Luke olhou de lado, desconfortável, e Luan passou a mão no rosto, ainda abatido da ressaca. Mas eu mantive meus olhos nela.

- E você sabe -continuei- que se fosse o contrário, se a Marina tivesse contratado alguém desse jeito, você seria a primeira a apontar o dedo e falar mal.

O sorriso dela diminuiu um pouco, mas ela não respondeu de imediato.

A sala ficou carregada, o ar pesado com anos de uma rivalidade que só as duas entendiam. Melanie abriu a boca para responder, a ironia já brilhando em seus olhos, e eu me preparei para o próximo round. Mas não foi a voz dela que soou.

- Chega.

A voz da Marina foi baixa, mas cortou a tensão como uma faca. Ela se desvencilhou suavemente dos braços do Luan e deu um passo à frente, se colocando entre mim e a Melanie.

- Parem com isso. Os dois. -ela disse, olhando de mim para ela.- O que aconteceu em Vegas, fica em Vegas. Amanhã eu vou me casar e a última coisa de que eu preciso é mais estresse. -ela respirou fundo, e então olhou para o Luan, a expressão suavizando.- Eu fiquei surpresa com o gogoboy. Mas quer saber? Eu me diverti. E eu mantive total respeito pelo Luan. Não encostei nem uma ponta da unha naquele cara.

Luan, que estava rígido ao lado dela, relaxou visivelmente, o alívio lavando seu rosto. Ele puxou Marina pela cintura, dando um beijo em sua têmpora, num gesto que dizia "eu sei, eu confio em você".

O clima ainda era um pouco estranho. Melanie continuava de braços cruzados, emburrada, e eu ainda sentia a raiva borbulhando. Foi quando a Bruna, que até então só observava, resolveu intervir com a informação final.

- E quando ela diz que manteve o respeito... -Bruna começou, com a voz perigosamente neutra.- Ela quer dizer que o respeito foi tanto que, depois de uns dois ou três shots de tequila, ela vomitou no sapato dele.

Um silêncio chocado dominou a sala por um segundo.

- O cara ficou puto da vida. -Bruna continuou, como se estivesse lendo uma lista de compras.- Juntou as notinhas de um dólar dele do chão, xingou a gente em três línguas diferentes e foi embora. O "trabalho" dele não durou mais de quinze minutos.

A imagem era tão patética, tão anticlimática, que Luan soltou uma gargalhada alta e genuína. Luke, aliviado, riu junto. Melanie bufou, irritada por seu plano "malicioso" ter terminado de forma tão ridícula.

No meio daquele som de risadas, eu olhei para a Marina. Ela me olhou de volta, e naquele instante, vi a mesma cara que ela fazia quando a gente tinha dez anos e quebrava um vaso da nossa mãe, ou quando a gente roubava biscoitos da despensa e era pego com a boca cheia. Era um olhar de "a gente aprontou, fomos pegos, e agora é engraçado".

Eu não consegui segurar. Uma risada escapou, primeiro baixa, depois explodindo, liberando toda a raiva e o estresse do fim de semana. E ela fez o mesmo, rindo junto comigo, uma risada cúmplice de irmãos que já passaram por coisas bem piores. A tensão na sala se desfez completamente, substituída pela história absurda da noiva que exorcizou um gogoboy com tequila. O clima estava finalmente leve de novo.

A onda de riso foi diminuindo, se transformando em sorrisos cansados. Luan, com o braço ainda em volta da Marina, balançou a cabeça, com uma expressão que era uma mistura de vergonha e diversão.

- Ok, ok, eu admito. -ele falou, olhando para Marina.- Fiquei com um pingo de ciúmes, sim. O cara era sarado, tinha tanquinho.

Marina deu uma risadinha e passou a mão pela barriga dele.

- E que tanquinho, né, amor? Mas pode ficar tranquilo, que o seu é o meu preferido. -ela disse, dando um beijo nele que selou o fim daquele assunto.

O alívio na sala era palpável. A crise tinha passado. Mas enquanto todos relaxavam, meu olhar encontrou a figura que tinha iniciado tudo. Melanie. Ela estava encostada perto da janela, de braços cruzados, olhando para o chão. Ela não me olhava, mas eu continuei encarando, até que, inevitavelmente, nossos olhares se encontraram. A defensiva ainda estava lá, mas misturada com uma ponta de mágoa.

Respirei fundo, o tom de brincadeira sumindo da minha voz.

- Mel... olha pra mim.

Ela sustentou o olhar, teimosa.

- Eu não tenho uma irmã preferida. -falei, a voz calma e séria.- Eu já te falei isso antes, e vou repetir agora. A Marina e eu temos quatro meses de diferença de idade. Quatro meses. A gente cresceu junto, como se fôssemos gêmeos. Por mais que você só tenha um ano a menos que a gente, essa diferença na infância é um abismo.

Ela continuou em silêncio, apenas ouvindo.

- Enquanto você ainda estava aprendendo a andar, a Marina e eu já estávamos deixando nossa avó de cabelos em pé por estarmos tentando subir naquele pé de amora-do-canadá que tinha no quintal dela. A gente caía junto, se ralava junto, e apanhava junto. Não é uma questão de preferência, Mel. É uma questão de história. De quem estava do meu lado no parquinho, na primeira briga na escola. Foi ela. Não porque eu a escolhi, mas porque a gente nasceu praticamente na mesma hora.

O silêncio que se seguiu não foi tenso. Foi um silêncio de compreensão. O olhar dela suavizou, a postura defensiva relaxou um pouco. Ela não disse nada, apenas desviou o olhar de volta para a janela, mas eu sabia que, pela primeira vez, ela talvez tivesse entendido. A nossa dinâmica não era uma escolha contra ela, era apenas... o que sempre foi.

Aquele momento de silêncio sincero entre mim e a Melanie foi o que a sala precisava. A raiva tinha se dissipado, dando lugar a uma compreensão frágil. Mas antes que o peso daquela conversa se instalasse de vez, Marina, a mestre em quebrar climas, deu um passo à frente, batendo uma palma suave.

- Ei, chega desse clima. -ela disse, a voz gentil, mas firme, olhando de mim para a Melanie e de volta.- Eu não quero ver meus irmãos brigando. Não hoje.

Ela abriu um sorriso, o cansaço da ressaca sumindo por um instante, substituído por uma energia contagiante.

- Hoje é dia de se curar dessa ressaca medonha, porque amanhã tem mais álcool pra beber no meu casamento!

E para selar o decreto, ela fez uma dancinha. Não foi nada elaborado. Foi uma reboladinha desajeitada, com os braços balançando no ar e um movimento de ombros que era tão ridículo e tão puramente ela, que foi impossível não reagir.

Luan foi o primeiro a soltar uma gargalhada, puxando a Marina para um abraço. Bruna riu, balançando a cabeça como quem diz "não tem jeito". E o som da risada deles foi contagiante.

Eu olhei para Marina, no meio da sua dancinha vitoriosa, e não pude deixar de rir também. A tensão, a raiva, o drama... tudo pareceu estúpido diante daquela alegria simples. Meu olhar cruzou com o da Melanie, e para minha surpresa, vi ela lutando contra um sorriso. Ela tentou se manter séria, de braços cruzados, mas não conseguiu. Um riso baixo e relutante escapou.

E ali, no meio da sala, a guerra acabou. Rindo da dança ridícula da minha irmã, eu soube que tudo ficaria bem. Pelo menos era o que eu esperava.

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