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Capítulo 123

Justin Narrando

Assim que o avião pousou em Orlando, eu já sabia o que me esperava: o caos completo.

Chloe, a primeira a acordar, começou a cantar “Mickey, Mickey” no meu ouvido ainda antes de sairmos do avião. Jack, que dormia tranquilo no colo da Bruna, acordou meio mal-humorado, mas bastou ver a irmã animada pra começar a rir também. Serena, surpreendente, estava mais calma.

O aeroporto parecia um campo de batalha: mala, carrinho, brinquedo que a Chloe insistiu em trazer, fralda, mamadeira… tudo ao mesmo tempo. Eu e Luan puxando as malas, enquanto Bruna e Marina tentavam manter as crianças no mesmo raio de dois metros. Era missão impossível.

- Eu juro que da próxima vez venho sozinho. -falei, mas com aquele sorriso que denunciava que eu estava mentindo.

Bruna me deu um tapa leve no braço:

- Cala a boca, você ama essa bagunça.

E era verdade.

Depois de longos minutos, conseguimos pegar o carro alugado: um SUV de sete lugares, espaçoso o suficiente pra caber a gente, três crianças, malas e mais a tralha que parecia multiplicar a cada segundo.

Chloe já escolheu o lugar dela: janela. Jack, no meio, brigando com a irmã pelo tablet que eu tinha levado justamente pra esse tipo de emergência. Serena mamando a mamadeira que Marina havia preparado com uma mão enquanto ajeitava o cinto de segurança com a outra.

- Parece até excursão escolar. -Luan comentou, rindo.

Eu dei partida no carro e respondi:

- Excursão pro paraíso das crianças.

O trajeto até a casa alugada foi barulhento, com perguntas infinitas da Chloe 

- Já tá chegando?
- O Mickey vai estar lá?
- O castelo é rosa mesmo?

E as risadinhas do Jack tentando acompanhar tudo e as duas mães, que no fundo se divertiam com a energia deles.

Quando chegamos e vi a fachada da casa, um alívio me bateu. Era ampla, com piscina, espaço de sobra pra criançada correr, e ficava perto dos parques. A gente ficaria ali por cinco dias, depois voltaríamos pra Nova York porque… bom, tinha mais coisa vindo por aí.

Enquanto descarregava as malas, não consegui evitar de pensar alto:

- Mal sabem vocês que o próximo evento vai ser épico.

- Que evento? -Luan perguntou, carregando a Serena no colo.

Eu sorri de canto, disfarçando.

- Ah, nada… só a sua despedida de solteiro.

Ele me encarou, rindo mas com um quê de desconfiança.

- Justin, não apronta.

Bruna, que tinha acabado de aparecer com Chloe pela mão, me lançou aquele olhar que só esposa sabe dar.

- Por tanto que vocês não roubem outro macaco e sejam presos de novo.

Olhei pro Luan e arrematei:

- Então já sabe, mano… aproveita esses dias de paz em Orlando, porque depois, meu amigo, a noite vai ser lendária.

Mal tivemos tempo de desfazer as malas ou respirar direito. As crianças estavam elétricas, parecia que tinham tomado cinco cafés cada uma. Serena agora corria de um lado pro outro com aqueles passinhos desajeitados, Jack pedia “Mickey, Mickey” sem parar, e Chloe não largava a mochila da Minnie que a gente tinha comprado dias antes.

Marina e Bruna assumiram o comando na cozinha, improvisando algo rápido pra todo mundo comer. Nada chique, só pra matar a fome mesmo: macarrão simples, salada, franguinho. Aquele tipo de comida que abraça, sabe? E funcionou. Criança alimentada é criança pronta pra gastar energia — e os nossos estavam prontos pra explodir.

- Se a gente não for hoje, eles vão acabar escalando as paredes. -Luan falou, rindo, enquanto me ajudava a ajeitar a mochila com água, fralda, lanchinho e tudo mais que parecia indispensável.

- Concordo. -respondi, jogando mais uma muda de roupa do Jack na bolsa.- Melhor já encarar essa maratona.

Pouco tempo depois, estávamos todos no carro de novo, a animação das crianças já ecoando. No caminho, Chloe colava o rosto no vidro, tentando ver alguma coisa do parque, e Jack acompanhava, batendo palminha e soltando gritinhos. Serena, no colo da Marina, parecia mais curiosa do que nunca, com os olhinhos brilhando pro movimento lá fora.

Quando finalmente chegamos e avistamos o Magic Kingdom, foi como se o coração de todo mundo ali tivesse pulado junto.

- Olha lá, Bru! O castelo! -falei, apontando, e Bruna abriu um sorriso enorme, como se tivesse dez anos de novo.

Chloe gritou:

- É rosa! Eu falei que era rosa!

Jack só repetia “Mickey, Mickey!”, quase pulando do colo da Bruna.

Marina, segurando firme a Serena, virou pra mim com os olhos marejados.

- É surreal, né?

E era mesmo. Não era só o parque, não era só o castelo. Era ver aqueles três pequenos realizando um sonho que parecia tão simples, mas que, no fundo, era gigantesco.

Logo de cara, a música ambiente dava aquela sensação de filme da Disney ganhando vida. A rua principal estava lotada, cheia de lojas com vitrines coloridas, balões de personagens flutuando, gente com orelhinha do Mickey pra todo lado. O cheiro de pipoca amanteigada e algodão-doce invadia o ar, misturado com aquele aroma de waffle fresco.

- Aí, Jack… -falei, descendo com ele no chão pra andar um pouco.- Esse aqui é o castelo do Mickey.

Ele arregalou os olhos como se fosse a coisa mais impressionante do mundo.

- Miii-ckeyyy!

Bruna riu e ajeitou os óculos escuros.

- Justin, ele vai pirar quando encontrar o Mickey de verdade.

Chloe, claro, não quis esperar. Puxou a mão da Bruna e falou:

- Titia Bru, quero ir no castelo!

Antes de irmos direto, resolvemos parar pra pegar o mapa e planejar as atrações. Luan, com Serena no colo, já ria:

- Cara, isso aqui é uma maratona. Precisamos de estratégia.

Marina completou, se abanando com o mapa que parecia mais um jornal aberto:

- Estratégia e muita paciência.

Primeira parada: Fantasyland. Era a parte mais indicada pras crianças pequenas.

O Prince Charming Regal Carrousel foi o primeiro. Jack e Chloe ficaram hipnotizados pelos cavalinhos brancos com detalhes dourados. Eu subi no cavalo com Jack, Bruna foi no lado com Chloe e atrás foi Luan com a Serena, enquanto Marina filmava tudo. A música clássica tocava, os cavalos subiam e desciam, e as crianças riam tão alto que atraíam olhares de quem passava.

- Isso, filho! Segura firme! -eu dizia, rindo junto.

Quando o carrossel parou, Jack bateu palminha e gritou:

- Mais!

Chloe também:

- Mais uma vez!

A gente já viu que convencer eles a mudar de atração seria uma missão.

Seguimos para o Town Square Theater, onde dava pra encontrar o Mickey e a Minnie. A fila foi longa, mas nada comparado à reação deles quando finalmente entramos. O Mickey abriu os braços e Jack praticamente pulou. Chloe foi correndo pra Minnie, abraçou e não queria soltar.

Serena, tímida, olhou curiosa, e quando a Minnie se abaixou pra dar um beijo de leve nela, Serena soltou um “hihi” que derreteu todo mundo com a fofura.

As fotos foram tiradas, e já dava pra ver que o celular da Bruna ia explodir de tanta coisa registrada.

Depois, fomos na atração clássica do Peter Pan. A fila era cheia de cenários iluminados, com Londres em miniatura, e quando entramos nos barquinhos suspensos, parecia mesmo que estávamos voando. Jack e Chloe apontavam pro Big Ben, pras estrelinhas brilhando no teto.

- Eu tô voando, papai! -Chloe gritou, e Bruna ria emocionada.

No meio do dia, paramos no restaurante inspirado no castelo da Fera. A decoração era surreal: lustres enormes, vitrais, e até a sala da Rosa Encantada. Bruna ficou maravilhada.

- Parece que entrei no filme. -disse, tirando foto de tudo.

As crianças ganharam pratos infantis com nuggets em formato de Mickey, batatinhas e suco. Marina comentou:

- É oficial, Serena comeu mais do que eu.

Luan gargalhou.

- Essa é minha filha.

À tarde, fomos assistir ao desfile. As músicas explodiram pelos alto-falantes, e logo surgiram carros alegóricos com os personagens. O dragão da Malévola soltava fogo de verdade, a Bela dançava com a Fera, e até a Elsa apareceu cantando “Let It Go”.

Chloe ficou vidrada, cantando junto. Jack acenava freneticamente pro Buzz Lightyear. Serena batia as mãozinhas, toda empolgada.

- Cara, isso aqui é mágico até pra adulto. -falei, abraçando Bruna de lado.

Ela sorriu e respondeu baixinho:

- Tô vivendo o dia mais feliz da minha vida com você.

Quando o sol caiu, o castelo foi iluminado em tons de azul, rosa e dourado. O show de fogos começou, acompanhado de projeções dos filmes. Chloe e Jack ficaram de boca aberta, os olhinhos refletindo as cores no céu.

Segurei a mão de Bruna e senti aquela pontada de gratidão. Olhei pra ela, que sorria emocionada, e sussurrei:

- Nunca vou esquecer esse dia.

Ela apoiou a cabeça no meu ombro, e juntos assistimos os fogos iluminarem o céu da Disney, como se fosse só pra gente.

Mal tínhamos voltado pra casa depois de um dia inteiro de parque. A missão agora era banho e cama, e apesar do caos que parecia inevitável, tudo correu até que bem. Jack apagou em questão de minutos, esgotado da correria. Luan e Marina já tinham colocado a Serena no berço, e eu e Bruna ficamos com a última — e mais resistente — Chloe.

Ela estava com os cabelos loiros ainda úmidos do banho, cheirando a sabonete infantil, deitada na sua caminha, mas não parava de se mexer. Os olhos pesados denunciavam o sono, mas a vontade de continuar acordada falava mais alto.

- Chloe, princesa, fecha os olhinhos, vai… -pedi, passando a mão devagar nos cabelos dela.

Ela me olhou com aquele sorrisinho maroto, que eu já conhecia bem.

- Não quero. -respondeu baixinho, escondendo o rosto no travesseiro, como se assim pudesse enganar o próprio cansaço.

Bruna sorriu, paciente, e deitou de lado, acariciando a barriguinha da pequena.

- Mas amanhã tem mais diversão. Se você não dormir agora, não vai ter energia pra brincar de novo. -disse ela, naquela voz doce que só usava com a Chloe e o Jack.

Aos poucos, o corpo da Chloe começou a relaxar. Ela foi fechando os olhos devagar, mas antes de se render completamente ao sono, murmurou quase num sussurro, com a voz arrastada:

- Boa noite papai. Boa noite, mamãe…

O tempo pareceu parar. Eu virei na mesma hora, olhando pra Bruna. Ela arregalou os olhos, surpresa, e levou a mão à boca, completamente emocionada.

- O quê, amor? -ela perguntou baixinho, com a voz embargada.

Chloe, já quase dormindo, repetiu mais uma vez, ainda mais suave:

- Boa noite, mamãe… te amo.

E então apagou de vez, respirando fundo, entregue ao sono.

Bruna não conseguiu segurar. As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela, enquanto ela acariciava delicadamente a bochechinha da Chloe, que dormia tranquila.

- Justin… -ela sussurrou, chorando baixinho.- Ela me chamou de mamãe…

Eu senti o coração apertar de tanto orgulho e amor por aquela cena. Envolvi Bruna num abraço por trás, beijando sua têmpora molhada pelas lágrimas.

- Você já é a mãe dela, Bru. Talvez não de sangue, mas de amor. E isso é o que mais importa. -falei, apertando-a contra mim.

Ela virou o rosto e me beijou com carinho, ainda emocionada. Depois, ficamos alguns minutos em silêncio, observando a nossa pequena dormindo. Foi um daqueles momentos que a gente sabe que vai guardar pra sempre, gravado no coração.

Bruna e eu caminhamos devagar até a sala, ainda meio anestesiados pelo que tinha acabado de acontecer. Chloe dormia profundamente no quarto, e a emoção ainda estava viva no olhar da Bruna, que enxugava discretamente as lágrimas enquanto apertava minha mão.

Ao chegarmos, encontramos Marina e Luan sentados no sofá, taças de vinho na mão, rindo de alguma lembrança que estavam compartilhando. A mesinha de centro tinha uma garrafa já pela metade e alguns petiscos esquecidos.

- Olha quem apareceu… -Luan falou, erguendo a taça em nossa direção.- Achei que tinham apagado junto com as crianças.

- Quase isso. -respondi, puxando uma cadeira e me jogando nela. Bruna se acomodou ao meu lado, ainda meio quieta, o olhar distante.

Marina percebeu na hora. Ela conhecia a Bruna como ninguém.

- O que foi, Bru? Tá com cara de quem acabou de chorar.

Bruna respirou fundo, apoiando os cotovelos nos joelhos antes de soltar um sorriso emocionado.

- É que… a Chloe me chamou de mamãe pela primeira vez. -disse, a voz embargando outra vez.

Marina levou a mão à boca, surpresa, e em seguida se levantou, indo abraçar Bruna com força.

- Meu Deus, Bru! Isso é tão lindo! -ela disse, emocionada também.- Você merece demais isso.

Luan sorriu, balançando a cabeça, e brindou no ar.

- Então temos duas conquistas no dia: Chloe reconhecendo você como mãe, e nós sobrevivendo a um dia inteiro na Disney com três crianças. -ele brincou, arrancando risadas de todos nós.

Bruna ainda estava mexida, então eu entrelacei meus dedos aos dela, dando apoio.

- Eu ainda tô processando, sabe? -ela disse, olhando pra mim e depois pros dois.- Sempre tive medo de não ser suficiente pra ela, de que ela nunca fosse me ver assim… mas hoje… nossa, hoje eu senti que tudo valeu a pena.

- Porque vale mesmo. -Marina respondeu, com aquele tom firme, mas carinhoso.- Você já é mãe dela faz tempo, Bru. Só faltava a Chloe perceber isso.

Bruna assentiu, enxugando mais uma lágrima, e eu aproveitei pra quebrar um pouco o clima.

- Tá vendo, amor? Agora você tem título oficial. “Mamãe de dois”. -falei, e ela deu uma risadinha tímida, ainda apertando minha mão.

Ficamos ali mais um tempo, conversando baixinho, relembrando as peripécias das crianças no parque. O riso do Jack tentando imitar o Mickey, o jeito da Chloe correndo atrás de tudo, e a carinha encantada da Serena no colo da Marina. Era como se cada detalhe já fosse uma memória preciosa que a gente não queria deixar escapar.

Quando a garrafa de vinho terminou, eu puxei a garrafa vazia e balancei.

- Bom, acho que a gente precisa abrir outra se quiser continuar esse papo. -falei, já me levantando.

- Apoiado. -Luan disse, rindo.

Peguei mais uma garrafa na cozinha e voltei, servindo nossas taças. Até que Marina olhou pro Luan, mordeu o lábio inferior e respirou fundo. Aquilo me chamou atenção.

- Tem uma coisa que a gente ainda não contou pra vocês. -ela começou, entrelaçando os dedos aos dele.

Bruna e eu trocamos um olhar curioso.

- Grávida não está, pois tá bebendo. -brinquei, mas já sentindo a tensão no ar.- Manda logo.

Luan ajeitou-se no sofá, olhando pra nós dois.

- A gente decidiu… que vai embora de Nova York.

Fiquei em silêncio por uns segundos, processando. Bruna arregalou os olhos.

- Como assim, embora? -ela perguntou, surpresa.- Pra onde?

- Pro Brasil. -Marina respondeu, com um sorriso meio nervoso.- A gente comprou uma casa lá, por isso perdemos o nascimento do Jordan. Ela está em reforma, lá por final do ano a gente se muda de vez.

Eu pisquei algumas vezes, tentando absorver aquilo.

- Vocês tão falando sério? -perguntei, incrédulo.

- Muito sério. -Luan confirmou.- Nova York foi incrível, marcou nossa vida, mas… não é o lugar que a gente quer criar a Serena.

Bruna levou a mão à boca, chocada.

- Nossa… eu não esperava por essa. -ela admitiu.

Marina me olhou com ternura, como se estivesse pedindo compreensão.

- Eu sei que é de repente, mas também recebi uma oportunidade incrível pra trabalhar lá. E eu amo o Brasil, não é atoa que me aprofundei em aprender português. E também faz um tempo que sinto que aqui não é nosso lugar, mas também não era Los Angeles... Mas quando pisamos em São Paulo, meu coração se sentiu em casa.

Respirei fundo, coçando a nuca.

- Caramba, isso muda muita coisa… -murmurei, tentando esconder a pontada estranha no peito. Eu não queria admitir, mas a ideia de não ter eles por perto em Nova York me atingiu mais do que eu imaginava.

Luan se inclinou pra frente, firme.

- Mas não vamos sumir, né? Vocês com certeza irão pra lá pra visitar a gente, minha família e da Bruna toda mora lá. Aqui tem vocês, a família da Marina, também iremos vir. Só… não vai ser mais a mesma rotina de todo mundo junto no mesmo lugar.

Bruna segurou a mão de Marina, emocionada.

- Eu entendo. De verdade. Só vai ser estranho me acostumar sem você por perto.

Marina sorriu, apertando de volta.

- Eu também vou sentir falta. Mas a gente vai dar um jeito de estar presente. Sempre.

Eu ergui a taça, tentando aliviar o clima.

- Então vamos brindar a essa nova fase. Mesmo que doa um pouco, eu só desejo felicidade pra vocês.

Todos ergueram as taças, e brindamos em silêncio por alguns segundos. Mas por dentro, eu sabia que nada seria igual.

Depois que o papo se alongou e as taças ficaram vazias de novo, Marina e Luan subiram para checar a Serena. Eu e Bruna ficamos sozinhos na sala, o silêncio pairando pesado. A notícia ainda martelava na minha cabeça.

- Você tá quieto. -Bruna disse, se acomodando ao meu lado, apoiando a cabeça no meu ombro.

Soltei um suspiro demorado.

- É que… sei lá. Eu não esperava isso. -confessei.- A Marina sempre falou que gostava do Brasil, mas eu não achei que ela fosse realmente se mudar pra lá um dia.

Bruna mexeu devagar nos meus dedos, como se estivesse escolhendo as palavras.

- Eles têm os motivos deles, Ju. 

- Eu sei. -murmurei.- Mas ela é minha irmã, Bruna. Desde o início da nossa adolescência estamos juntos, depois na faculdade, até quando ela morava em Los Angeles, a gente vivia junto… de repente, é como se tudo fosse mudar.

Ela levantou a cabeça, me olhando com doçura.

- Eu entendo. -disse, com a voz suave.- Eu jamais imaginei que o Luan fosse voltar pro Brasil sem mim, ou vice e versa. Mas não é o fim, sabe? Só um capítulo novo.

Passei a mão pelo rosto, tentando organizar o turbilhão de emoções.

- É que eu me acostumei a ter ela perto. Eu olho pra Serena e penso no Jack e na Chloe crescendo junto dela, sabe? Nossos filhos praticamente como irmãos. A gente sonhou com isso.

Bruna sorriu de leve, apertando minha mão.

- Isso ainda pode acontecer. O Brasil não tá do outro lado do mundo. A gente vai visitar, eles vão vir… E você conhece sua irmã, né? A Marina não vai aguentar muito tempo sem aparecer em Nova York também.

Acabei rindo baixo, porque era verdade.

- É… ela não para quieta mesmo.

Bruna se aconchegou outra vez no meu ombro, suspirando.

- Eu também vou sentir falta. Ela virou minha irmã de coração, e ter ela por perto em tudo… vai fazer falta. Mas ao mesmo tempo, eu fico feliz. Eles merecem ter o que sonham, do jeitinho deles.

Olhei para o teto, deixando o silêncio se instalar por alguns segundos.

- É, você tem razão. -admiti.- Eu preciso parar de pensar no que eu vou perder e começar a pensar no que eles vão ganhar.

Ela sorriu satisfeita, me dando um beijo leve.

- Isso. E amanhã vai ser um dia lindo. O aniversário do Jack. Vamos focar nisso agora.

Abracei minha esposa com força, sentindo o coração finalmente desacelerar.

Mas lá no fundo, eu sabia que aquela notícia ainda ia me acompanhar por um bom tempo.


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