Justin Narrando
Dezembro tinha chegado. Dez meses desde o meu acidente — que, pra ser sincero, eu duvidava muito que tivesse sido só um “acidente”. Meu médico tinha me liberado pra voltar a cantar, mas com cautela. Só que havia um problema maior: Scooter tinha simplesmente sumido.
Bruna, minha mãe, todo mundo que ficou comigo confirmou que ele não apareceu nem um único dia no hospital. Não mandou mensagem, não procurou notícias, nada. Era como se tivesse evaporado. Isso, pra mim, já dizia muito. Eu sabia que tinha caroço nesse angu.
E agora eu estava ali, parado em frente ao escritório dele. Respirei fundo antes de empurrar a porta. A recepcionista, que me conhecia, arregalou os olhos quando me viu. Ela parecia… em pânico.
- O senhor Braun não está, Justin. -a voz dela quase falhou.
Eu apenas soltei um:
- Foda-se.
E fui direto pro elevador.
Quando a porta se abriu no andar do escritório dele, eu dei alguns passos e já avistei pela parede de vidro da sala de reunião: Scooter estava lá sim.
E não estava sozinho.
Ele conversava com Nathan — sim, o ex da Bruna, aquele que mentiu ser advogado, mas na real era jornalista de entretenimento. Só de ver aquele cara já me subiu um ódio. E então, mudando um pouco o ângulo, meu estômago revirou: Austin Blackwell também estava ali.
Um frio subiu pela minha espinha. Aquilo não era bom. Não tinha como ser.
Peguei o celular rápido e tirei uma foto dos três reunidos. Scooter ainda não tinha me visto. Por instinto, achei melhor ir embora. Não sabia o que estava rolando, e talvez fosse até perigoso eu querer descobrir.
Virei as costas, pronto pra chamar o elevador de volta…
Mas antes que eu pudesse dar dois passos, a porta da sala de reunião abriu.
- Justin? -ouvi a voz do Scooter me chamar e eu me virei.
Seu rosto estava pálido. Ele congelou por alguns segundos, com a mão ainda na maçaneta. Era como se tivesse visto um fantasma.
Meu coração disparou, e tudo dentro de mim gritava que aquele encontro não ia terminar bem.
Ele ficou parado me encarando, ainda com a porta aberta atrás dele. Eu podia ver o Nathan e o Austin lá dentro, tentando fingir que não estavam olhando.
- Justin… -Scooter forçou um sorriso nervoso, a voz trêmula.- Eu… não sabia que você viria.
Cruzei os braços, tentando controlar a raiva.
- Não sabia? Faz dez meses que eu quase morri, Scooter. Dez meses. E você não apareceu nem um único dia no hospital, ou mandou uma mensagem pra saber como estou. Agora eu chego aqui e você tá de reuniãozinha com o Nathan e o Austin? -cuspi as palavras, a cada segundo minha voz subindo.- Que porra tá acontecendo?
Ele olhou pros lados, como se buscasse uma saída.
- Não é o que você pensa…
- Então me explica. -dei um passo em direção a ele.- Porque do meu ponto de vista, o meu “empresário” desapareceu do mapa e agora eu te encontro tramando alguma coisa com dois caras que só me trouxeram problema.
Scooter levantou as mãos, tentando me acalmar.
- Justin, eu posso explicar, mas não aqui, não agora…
Soltei uma risada seca.
- Claro. Sempre “não agora”, sempre “não é o que parece”. Você me deve a verdade. Eu acordei daquele hospital cheio de dúvidas e a única certeza que eu tenho é que você não deu a mínima. Então fala logo.
Ele respirou fundo, parecia suar frio.
- Você não entende… existem coisas maiores acontecendo, e eu só estava tentando… proteger você.
- Proteger? -minha voz ecoou pelo corredor.- Se proteger, você quis dizer me deixar sozinho, sem resposta, sem saber quem queria me ferrar?
O silêncio que veio depois foi ensurdecedor. Nathan e Austin estavam na porta da sala, agora claramente prestando atenção.
Scooter engoliu seco e falou, quase sussurrando:
- Se você soubesse de tudo… você correria risco de vida.
Meu estômago revirou. Eu dei mais um passo, encarando ele nos olhos.
- Então me diz, Scooter. Quem tá por trás disso? Quem queria me ver morto?
Ele hesitou. Olhou rapidamente pra dentro da sala, onde Nathan e Austin desviaram o olhar, e depois voltou pra mim.
- Não posso falar aqui. -disse firme.- Se você quiser respostas, me encontra hoje à noite. Sozinho.
Arqueei a sobrancelha, incrédulo.
- Você acha mesmo que eu vou cair nessa?
- Se quiser a verdade, é a única chance. -ele sussurrou, antes de recuar de volta pra sala e fechar a porta na minha cara.
Meu sangue ferveu. Fiquei parado, com o punho fechado, tremendo de raiva e de medo ao mesmo tempo.
Eu sabia que a merda era bem maior do que parecia.
Saí dali com a respiração pesada, sentindo meu coração bater tão rápido que parecia que ia sair pela boca. O elevador demorou uma eternidade pra chegar, e enquanto eu descia, minha cabeça só rodava.
Scooter, Nathan, Austin… todos juntos numa sala. Se aquilo não cheirava a armação, eu não sabia mais o que era.
Quando cheguei no estacionamento, entrei no carro e fiquei alguns minutos parado, só encarando o volante. Minhas mãos tremiam. Dez meses sem resposta, sem apoio, sem nada… e agora ele aparece com esse papo de que “não pode falar” e “perigo de vida”?
Peguei o celular e abri a galeria, olhando de novo a foto que tinha tirado dos três juntos. Era prova suficiente de que alguma coisa estranha estava rolando. A primeira coisa que pensei foi mandar pra Bruna. Mas não… se eu envolvesse ela nisso, colocaria em risco também.
Bati a cabeça no encosto, fechando os olhos.
- Droga… -murmurei pra mim mesmo.
De repente, uma notificação: mensagem de número desconhecido.
“Não confie nele. Ele está te usando. Hoje à noite, cuidado.”
Meu sangue gelou. Olhei em volta, pelo vidro do carro, como se alguém pudesse estar me observando. Quem diabos tinha mandado aquilo? Era coincidência ou realmente alguém sabia que eu tinha acabado de confrontar Scooter?
Meu instinto gritava que eu não podia ignorar. Eu precisava de respostas, mas também precisava pensar em como não me meter numa armadilha.
Peguei o celular e mandei mensagem pro Kenny, meu segurança de confiança.
“Preciso de você hoje à noite. Não pergunta nada, só fica pronto. Te mando a localização.”
Enquanto ele respondia um simples “tô dentro”, minha mente já armava o cenário. Se Scooter queria me encontrar sozinho, eu iria. Mas não seria idiota de ir despreparado.
No fundo, eu sabia: depois daquela noite, nada mais seria igual.
Cheguei em casa ainda com aquele peso no peito. Assim que abri a porta, ouvi as risadinhas de Chloe correndo pela sala e Jack tentando acompanhar, tropeçando nas próprias pernas. Elizabeth estava atrás deles, rindo, enquanto Georgia recolhia os brinquedos espalhados pelo chão.
- Papa! -Chloe gritou, vindo correndo e pulando em mim.
Abracei ela forte, fechando os olhos por um segundo. O cheirinho do shampoo infantil dela, o jeito que Jack veio logo atrás, puxando minha calça pedindo colo… cara, aquilo era minha vida. Mais do que qualquer palco, mais do que qualquer contrato.
- Meus amores… -murmurei, levantando Jack com um braço e segurando Chloe com o outro.- Vocês não têm ideia do quanto eu amo vocês.
Elizabeth e Georgia se entreolharam, provavelmente achando graça do meu tom repentino de emoção. Eu forcei um sorriso pra disfarçar.
Foi então que Bruna apareceu pelo corredor. Cabelo preso num coque desarrumado, ainda com a roupa da academia, a pele brilhando de suor. Ela parou na porta, com a garrafinha d’água na mão, e sorriu ao me ver carregando os dois.
- Olha só… papai coruja já voltou. -disse, apoiando-se na parede.
Devolvi as crianças pro chão, e elas saíram correndo de novo atrás das babás. Caminhei até Bruna, encostando a mão no rosto dela.
- Você tá linda até suada, sabia? -falei, tentando manter a voz leve, mas saía mais carregada do que eu queria.
Ela franziu o cenho.
- Tá tudo bem, amor?
Respirei fundo. Aquele podia ser o último momento em que eu a via daquela forma: calma, em casa, sem saber da tempestade que rondava por trás.
Abracei-a com força, enterrando o rosto no pescoço dela.
- Só… me promete uma coisa?
- O quê? -perguntou, um pouco confusa.
Apertei ainda mais.
- Que você nunca vai esquecer o quanto eu te amo.
Ela se afastou só o suficiente pra me encarar, com uma mistura de riso nervoso e preocupação.
- Que papo é esse, Justin? Tá me assustando…
- Nada, nada… -tentei rir, beijando a testa dela.- Só precisava te dizer isso. Caso… sei lá, caso eu não possa mais falar depois.
Bruna me empurrou de leve no peito, rindo sem graça.
- Para de drama. Você tá estranho.
- Estranho de amor. -inventei na hora, tentando disfarçar.
Ela revirou os olhos, mas sorriu, acreditando — ou preferindo acreditar — na minha desculpa.
E naquele momento, enquanto ela se afastava pra pegar uma toalha, eu pensei: se essa for mesmo a última vez que eu te ver assim, pelo menos te disse o que importava.
[...]
A noite chegou rápido demais. A casa estava silenciosa quando fui pra sala. Bruna já tinha colocado Chloe e Jack pra dormir; só ouvi o chiado da babá eletrônica ligado. A luz baixa deixava o ambiente com aquele ar calmo, mas dentro de mim nada estava calmo.
Peguei a jaqueta pendurada na cadeira, enfiei a mão no bolso e senti o metal frio das chaves. Respirei fundo. Olhei de relance para o corredor dos quartos, onde minha família dormia sem imaginar nada.
- Justin? -ouvi a voz suave da Bruna atrás de mim.
Me virei. Ela vinha pelo corredor, com aquela camiseta larga que sempre usava pra dormir. Estava linda, natural, como só ela conseguia ser.
- Vai sair a essa hora? -perguntou, franzindo a testa.
Engoli em seco. Queria inventar uma desculpa qualquer, mas não consegui. Caminhei até ela e segurei seu rosto com as duas mãos.
- Preciso resolver uma coisa rápida. Não demoro.
Ela estreitou os olhos, desconfiada.
- E não pode ser amanhã?
- Não. -respondi firme demais, sem querer.- Mas eu prometo… volto pra você. Sempre volto.
Antes que ela pudesse perguntar mais, beijei seus lábios devagar, como se quisesse memorizar aquele gosto. Aquele beijo tinha peso de despedida, mesmo que ela não percebesse.
- Te amo, Bruninha. -sussurrei contra a boca dela.
Ela sorriu de leve, tentando quebrar a tensão.
- Também te amo, mas você tá me deixando assustada.
Me afastei, evitando olhar muito pra trás. Saí, sentindo o frio da noite bater no rosto. Entrei no carro e dirigi pelas ruas quase desertas, cada quilômetro me aproximando do Scooter.
O lugar marcado era discreto, uma rua pouco iluminada nos arredores da cidade. O carro dele já estava lá, estacionado. Encostei o meu próximo, desliguei o motor e fiquei um segundo em silêncio, encarando meu próprio reflexo no retrovisor. Mandei minha localização pro Kenny e guardei o celular no bolso.
É agora.
Saí, fechei a porta e caminhei até ele. Scooter estava encostado no carro, as mãos no bolso, o olhar sério.
- Você demorou. -disse seco.
- Tive que me despedir da minha família. -respondi no mesmo tom.- E quero que entenda: se alguma coisa acontecer com eles por sua causa…
- Relaxa, Justin. -interrompeu.- Não tô aqui pra mexer com sua mulher, nem com seus filhos. É só entre eu e você.
Cerrei os punhos, sentindo o peso da noite. O silêncio daquela rua parecia carregar todos os fantasmas que eu vinha evitando.
Scooter acendeu um cigarro como se fosse um detalhe qualquer, mas eu sabia que ele só fazia aquilo quando queria me provocar. O brilho vermelho da brasa iluminava o rosto dele por segundos.
- Então, vamos cortar a enrolação. -ele disse, soltando a fumaça devagar.- Sabe aquele “acidente” que quase acabou com você? Pois é… não foi acidente.
Meu estômago gelou. Eu já suspeitava, mas ouvir da boca dele me deu um soco invisível no peito.
- Foi você?
Ele sorriu torto, como se eu tivesse feito a pergunta mais óbvia do mundo.
- Claro. Você começou a ficar mole, Justin. Família, filhinha perdida aparecendo, planos de ser o “bom moço”… isso não vende. Você é uma máquina de dinheiro, não um pai de família.
Cerrei os dentes, tentando não voar nele naquele instante.
- Você tentou me matar.
- Não diretamente. -ele rebateu, como se fosse um detalhe pequeno.- Eu só movi as peças. Mas… você é duro de derrubar. -meu sangue ferveu, mas ele continuou, implacável:- E não parei por aí. Nathan… lembra dele?
Revirei os olhos. Claro que lembrava. O idiota que de repente tinha surgido na vida da Bruna.
- Eu mandei ele. -Scooter confessou com prazer.- Só pra ver se sua namoradinha tão carente de macho, se abrindo pro primeiro cara diferente que apareceu na vida dela. Um elogio ali, outro lá, e já tinha caído no papinho. Pena que não durou muito, ela é loira, mas até que é espertinha.
- Cala a boca. -rosnei, mas ele nem se mexeu.
- E não pense que sua irmãzinha Marina ficou de fora. Austin foi colocado no caminho dela por mim. -ele continuou, cruel.- Jovem, bonito, cheio de papo… o tipo que faz uma garota questionar se vale a pena estar com um astro cercado de problemas como o Luan. Mas infelizmente ela é uma Bieber, e também é sura de derrubar, nem mesmo tentando usar a fragilidade de uma grávida, ela sequer deu uma chance pro Austin.
Meu coração batia descompassado.
- Você manipulou tudo.
Scooter deu de ombros.
- É o meu trabalho. Aliás, falando em Luan… sabe aquele empresário dele, o Daniel? Fui eu que banquei o cara. -ele riu baixo.- Ele nem queria fechar contrato com ele, mas ofereci um bom dinheiro, precisava de você confiando em mim, mas quando vi que vocês estavam começando a se aproximar demais, muito de família, tratei de cortar o fio. Fiz o Daniel abandonar o barco e deixei o Luan perdido, pensando mal de você. Minha intenção era simples: colocar vocês dois um contra o outro. Mas ele é um frouxo, que ao invés de te colocar contra parede, ficou calado, era pra vocês terem discutido e a primeira pessoa quem você e a polícia suspeitasse do acidente, seria ele.
Senti a raiva subir como fogo.
- Você tentou destruir carreiras, tentou destruir famílias, só porque eu escolhi ser feliz?
Scooter jogou a bituca no chão e a esmagou com o sapato. O olhar dele era frio, quase vazio.
- Felicidade não paga contas, Justin. Você devia agradecer por ainda estar respirando.
Fechei os punhos até sentir as unhas rasgarem a palma da minha mão. O ar parecia pesado, difícil de respirar. Ele não parava de falar, cada palavra dele cavava mais fundo.
- A única coisa que me irrita... -Scooter disse, se aproximando.- é que, mesmo depois de tudo, você continua de pé. Família, fãs, amigos… sempre tem alguém pra te segurar. Mas e se, de repente, não tiver?
A ameaça ficou suspensa no ar. Eu sabia que ele estava deixando claro: Bruna, meus filhos, todos estavam no alvo se eu não reagisse.
- Se você encostar um dedo neles… -minha voz saiu baixa, mas firme.- Eu juro que não me importa mais nada, Scooter. Eu acabo com você.
Ele riu, cínico, como se minhas palavras fossem divertidas.
- Aí Bieber, já disse que eles não me interessa. O negócio é você.
O coração parecia querer sair do meu peito. Scooter estava ali, com aquela expressão de louco, e de repente… ele sacou uma arma. Um frio gélido subiu pela minha espinha.
- Isso é por você ter jogado fora o Justin Bieber que construi e moldei! E agora, irei mata-lo. -ele gritou, apontando direto pra mim.
Eu não pensei duas vezes. Corri em direção ao meu carro, sem nem olhar pra trás. Mas antes que chegasse perto, uma explosão sacudiu a rua. Meu carro explodiu em chamas. O impacto me lançou no chão, mas eu mal pude sentir a dor. Mal me levantei e já estava correndo, desviando das balas disparadas por Scooter. Cada tiro raspava próximo de mim, e minha única prece era para Deus me salvar daquela insanidade.
Corri sem rumo, só tentando ganhar distância, mas então o som de um carro derrapando me chamou atenção. Meus instintos gritaram alerta: podia ser algum cúmplice do Scooter. Parei por um instante, o peito queimando, tentando identificar o veículo.
A janela do banco do motorista se abriu e, para meu alívio absoluto, era Kenny. Sem hesitar, ele estendeu a arma para fora e disparou uma vez. Scooter cambaleou, atingido. Eu mal tive tempo de processar, mas senti um peso enorme no ar, a adrenalina ainda queimando minhas veias.
Eu pulei para o banco do passageiro, tremendo, o coração acelerado, os olhos cheios de lágrimas. Não sabia se Scooter tinha morrido ou não, só sabia que precisava sair dali imediatamente.
- Kenny… me leva pra delegacia! -eu disse, a voz tremendo, quase sem fôlego.
Enquanto ele acelerava, percebi o tamanho do que acabara de acontecer. O meu sonho de ser cantor… parecia que tinha me custado a vida. Cada passo, cada música, cada vitória… agora tudo parecia tão frágil, tão perigoso. E eu só conseguia pensar em uma coisa: sobreviver.
A adrenalina ainda corria nas minhas veias, mas uma sensação de perda e medo profundo me dominava. Eu estava vivo, mas a realidade cruel era que nada jamais seria igual depois daquela noite.
O carro derrapou nas ruas de Nova York, Kenny acelerando como se a vida dele dependesse disso — e, na verdade, dependia. Eu me segurava firme no banco do passageiro, as mãos tremendo, respiração ofegante, o coração ainda batendo como se fosse explodir.
- Fica tranquilo, mano, eu levo você pra delegacia, mas você precisa me contar tudo. -disse Kenny, firme, sem olhar pra trás.
Tentei organizar meus pensamentos. “Tudo” significava contar sobre Scooter, Nathan, Austin… sobre a ameaça real que pairava sobre minha vida, sobre minha família, sobre Bruna, Chloe e Jack. Eu engoli em seco, as lágrimas ainda escorrendo.
- Scooter… ele tentou me matar, Kenny… ele queria acabar comigo! -falei, a voz falhando.- E… e tinha Nathan e aquele outro cara, Austin, perto dele. Não sei o que planejaram, mas não era nada bom.
Kenny olhou pelo retrovisor, sério.
- Fica calmo, Justin. Você tá vivo, e é isso que importa agora. A polícia vai cuidar de tudo e de quem mais estiver envolvido. Mas você precisa me prometer que não vai se expor até estarmos seguros.
Assenti, ainda sem conseguir acreditar no que tinha acontecido. Meu corpo inteiro ainda tremia.
Chegamos à delegacia e Kenny já começou a falar com os oficiais, enquanto eu ainda tremia, tentando organizar minha respiração.
O capitão da polícia, um homem sério, de fala firme e olhar calculista, se aproximou e pediu para verificar se havia viaturas próximas de onde estávamos, para confirmar a posição exata de onde Scooter estava. Queria mapear tudo, cada detalhe, cada possibilidade de fuga ou de risco.
Cinco minutos depois, a confirmação veio: Scooter estava caído, com uma bala no peito e sem batimentos.
Senti meu estômago revirar, um misto de alívio e choque. Era impossível não pensar no quão perto tinha chegado da morte. Respirei fundo, segurando as mãos trêmulas, e Kenny colocou uma mão firme no meu ombro:
- Tá tudo sob controle agora, Justin. Ele não vai mais ameaçar ninguém.
Eu não conseguia falar nada. A cabeça ainda girava, lembrando do carro explodindo, das balas, do medo absoluto de perder tudo. Me sentei na cadeira da delegacia, os olhos ainda fixos na porta, imaginando que a qualquer instante algo podia dar errado novamente.
O capitão anotava tudo, pedindo detalhes sobre a arma, a sequência dos acontecimentos, quem mais estava envolvido. Perguntou sobre Nathan e Austin, e expliquei tudo que vi, tudo que aconteceu antes e depois do ataque. Cada palavra saía trêmula, mas eu precisava ser preciso.
Kenny permaneceu ao meu lado, vigilante. Eu podia sentir que ele não apenas me protegia naquele instante, mas estava avaliando cada passo seguinte, cada risco que ainda poderíamos enfrentar.
Fiquei mais de uma hora prestando depoimento, depois me informaram que iriam interrogar Austin e Nathan, e então me liberaram.
Entrei no apartamento com o coração ainda acelerado, o suor grudado na pele, e a roupa suja. O silêncio me recebeu, mas logo percebi o brilho azul da tela do tablet refletindo no rosto da Bruna. Ela estava concentrada, com certeza pesquisando mais ideias malucas pra decoração do casamento, mas assim que me viu, o olhar mudou.
Deixou o tablet de lado e veio até mim, preocupada. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, as lágrimas começaram a escorrer. Eu chorei como nunca tinha chorado antes, como se todo o medo, toda a tensão, todo o horror das últimas horas tivesse se acumulado e estourado naquele abraço. Soluçava, e Bruna não disse nada, só me envolveu com os braços, me segurando firme, tentando transmitir segurança mesmo sem entender completamente o que havia acontecido.
- Justin… o que foi? -ela perguntou, a voz calma, tentando me alcançar naquele turbilhão de emoções.
Não consegui falar. Apenas apertei ela mais forte, sentindo que ali, naquele abraço, havia um pouco de paz. Era como se, por alguns segundos, o mundo lá fora — Scooter, Nathan, Austin, explosões, tiros — tivesse sumido, e tudo que restasse fosse nós dois, respirando juntos.
Ela acariciou minhas costas, e eu me permiti soluçar, derramando o medo e a adrenalina, enquanto ela me sustentava. Eu sabia que minha família estava segura agora, que Kenny estava lá fora garantindo que ninguém se aproximasse, mas naquele instante, nada disso importava. Só importava estar em casa, nos braços de Bruna, sendo cuidado como eu nunca tinha sido.
- Você tá bem agora… tá em casa. -ela sussurrou.
E, mesmo entre lágrimas, consegui esboçar um fraco sorriso.
Bruna me guiou devagar pelo apartamento, ainda me segurando firme pelos braços, me arrastando quase como se fosse me salvar de mim mesmo. Chegamos ao sofá, e ela me fez sentar. Eu ainda tremia, soluçando baixinho, o peito apertado, a adrenalina correndo como se não fosse me deixar respirar direito.
- Justin… olha pra mim. -ela disse, segurando meu rosto com as mãos, forçando meus olhos a encontrarem os dela.- Tá tudo bem, você tá em casa. Eu tô aqui. Só me conta o que aconteceu, devagar, eu vou te escutar.
Eu respirei fundo, sentindo o cheiro do shampoo que ela tinha usado, a segurança daquele abraço, e tentei organizar as palavras. A primeira frase que saiu foi quase um sussurro:
- Foi… Scooter. Ele… ele tentou… me matar.
Bruna arregalou os olhos, mas permaneceu calma, me encorajando com um leve aceno. Eu continuei, soluçando entre as palavras:
- Ele tinha uma arma… e eu corri pro meu carro… mas… meu carro… explodiu, Bruna! Eu mal consegui cair no chão… e ele começou a atirar. Eu só… só pedi a Deus pra me salvar.
Ela apertou minhas mãos, me olhando com intensidade, sem deixar que eu parasse de falar.
- E então… Kenny… apareceu. E ele… atirou no Scooter. A polícia disse que... ele morreu. Eu… pensei que ia morrer, Bruna… pensei que ia… -minha voz falhou, e eu solucei, enterrando o rosto no ombro dela.
Ela me envolveu ainda mais, acariciando meus cabelos:
- Tá tudo bem… você tá seguro agora. Eu tô com você. Só respira… respira comigo.
Eu respirei fundo, tentando sentir minha respiração voltar ao normal. Então comecei a contar sobre Nathan e Austin, o plano de Scooter, tudo o que ele havia feito nos bastidores pra tentar destruir minha vida, minha família e a carreira do Luan. Bruna ouvia atentamente, segurando minhas mãos e me acalmando a cada detalhe.
- Eu… eu pensei que ia perder tudo, Bruna… meu sonho, minha família… -disse, com lágrimas escorrendo.
- Mas você não perdeu, amor. -ela respondeu, enxugando meu rosto com o dorso da mão.- Você tá vivo, tá aqui comigo, com o Jack, com a Chloe… e vamos passar por tudo isso juntos.
E naquele momento, sentado no sofá, nos braços dela, senti que finalmente podia começar a deixar o medo ir embora. Bruna estava ali, firme, minha âncora, e eu sabia que enquanto estivesse com ela, conseguiria enfrentar qualquer coisa.