Pular para o conteúdo principal

Capítulo 124

Marina Narrando

A sede me acordou no meio da madrugada. A casa estava mergulhada num silêncio profundo, quebrado apenas pelo zumbido suave do ar-condicionado. Tateei o chão com os pés até encontrar meus chinelos e saí do quarto na ponta dos pés, tomando cuidado para não acordar Luan nem a Serena, que dormia pesado no berço ao lado da nossa cama.

A luz da lua entrava fraca pelas janelas da sala, desenhando sombras no chão. Quando cheguei na cozinha, a luz da geladeira aberta revelou uma silhueta familiar. Justin estava ali, cotovelos apoiados no balcão, um copo de água na mão, o olhar perdido no escuro lá fora.

- Sem sono? -perguntei baixo, pegando um copo no armário.

Ele se virou, um meio sorriso cansado no rosto.

- A cabeça não desliga. -respondeu, a voz rouca.- Fico pensando em mil coisas.

Enchi meu copo com a água gelada e me encostei no balcão ao lado dele. O silêncio voltou a reinar por um instante, mas era um silêncio confortável, de quem se conhece a vida inteira.

- Você ficou chateado com a notícia, não foi? -perguntei, indo direto ao ponto.

Justin suspirou, girando o copo entre os dedos.

- Chateado não é a palavra. -ele disse, me olhando.- Surpreso, talvez. Egoísta, com certeza. A gente se acostuma a ter as pessoas que ama por perto, esquece que elas têm os próprios sonhos pra seguir.

- Não vamos sumir, Ju. É só uma mudança de endereço.

Ele riu baixo, um riso sem humor.

- Eu sei. Mas vai ser estranho. -ele fez uma pausa, e um sorriso malicioso surgiu no canto da sua boca.- Mas olha pelo lado bom, pelo menos você vai ter que largar os velhos hábitos.

Franzi a testa, sem entender.

- Que velhos hábitos?

- Ah, qual é, Marina. Lá no Brasil não vai dar pra você fumar um igual fumava quando morava em Los Angeles. Não é legalizado igual aqui nos Estados Unidos.

Eu levei o copo à boca no exato momento em que ele começou a frase. A água desceu arranhando, e eu quase cuspi tudo de volta, engasgando com uma crise de riso.

- Cala a boca, Justin! -falei, batendo de leve no braço dele, rindo tanto que precisei me apoiar no balcão pra não cair.- Idiota.

Ele riu junto, balançando a cabeça.

- Qual foi? A gente nunca mais fumou junto, desde aquela vez em Los Angeles. -Justin disse, num tom nostálgico.

Recuperei o fôlego, limpando uma lágrima de riso no canto do olho.

- Justin, nós somos pais agora. Você tem dois filhos e eu tenho uma. A gente tem que ter responsabilidade. -falei, tentando parecer séria, mas o sorriso ainda brincava nos meus lábios.

Ele ergueu as mãos em sinal de rendição, mas o olhar dele era pura travessura.

- Você tem toda razão. Responsabilidade em primeiro lugar. -ele disse, com uma falsa seriedade, enquanto enfiava a mão no bolso do short.- Acho que vou jogar fora, então, isso que tá aqui no meu bolso.

Meu olhar seguiu o movimento dele na mesma hora. Ele puxou a mão devagar, mantendo-a fechada.

- Você tem maconha aí no bolso? -perguntei, a voz saindo mais baixa e curiosa do que eu pretendia.

Justin me encarou por um segundo e depois soltou uma gargalhada, abrindo a mão para revelar que não havia nada.

- Não! Ficou maluca? -ele disse, rindo da minha cara.- Mas sua expressão interessada te entregou completamente, dona Responsabilidade.

Revirei os olhos, dando um empurrãozinho de leve no ombro dele.

- Eu não fiz cara de interessada. Só fiquei surpresa com a sua audácia. -menti, tentando disfarçar o calor que subiu pelo meu rosto.

Ele sorriu, mas dessa vez o sorriso não alcançou seus olhos. O clima de brincadeira se dissipou, dando lugar à conversa que havíamos deixado para trás.

- É... eu sei. -ele disse, a voz baixando um pouco.- Eu só tava brincando. Vou sentir falta disso.

Parei com o copo a meio caminho da boca.

- Disso o quê? De me irritar no meio da madrugada? -tentei brincar, mas meu coração já sabia a resposta.

- Disso. -ele gesticulou entre nós dois.- De saber que você tá a alguns quarteirões de distância se eu precisar. De ver a Serena crescendo com o Jack e a Chloe todo santo dia... -ele suspirou, o olhar novamente perdido na escuridão lá fora.- Vai ser diferente pra caramba, Marina.

Aquele aperto no peito, que eu tinha sentido mais cedo na sala, voltou com força. Deixei meu copo na pia e o abracei de lado, apoiando a cabeça em seu ombro. Ele era meu irmão mais velho, meu porto seguro, e a ideia de quebrar nossa rotina doía em mim também.

- Vai ser diferente, mas não vai ser o fim. A gente sempre dá um jeito, não é? Desde que éramos pirralhos. E eu prometo que a Serena vai crescer sabendo que os primos dela são os melhores amigos que ela poderia ter, mesmo com um oceano no meio.

Justin me abraçou de volta, apertado, e apoiou a cabeça na minha. Ficamos ali, em silêncio, por um longo momento. Era um abraço que dizia tudo o que as palavras não conseguiam.

- Eu sei. -ele finalmente sussurrou.- É só o baque inicial. Eu tô feliz por você, de verdade. Você e o Luan merecem construir a vida de vocês onde se sentirem em casa.

Nos afastamos devagar. O peso entre nós parecia mais leve.

- Agora é melhor a gente ir dormir de verdade. -falei, bocejando.- Daqui a umas... -olhei para o relógio digital do micro-ondas.-...quatro ou cinco horas, a tropa acorda e o caos do aniversário do Jack começa.

Ele assentiu, passando a mão pelo rosto, cansado.

- Boa noite, Ma.

- Boa noite, Ju. -respondi, sorrindo.

Cada um seguiu para o seu quarto, e enquanto eu me deitava de volta na cama, ao lado de Luan, senti uma certeza aquecer meu coração. A mudança seria grande, a saudade seria imensa, mas o laço que nos unia era forte demais para qualquer distância quebrar.

O sol mal tinha despontado e a casa já estava em um estado de conspiração festiva e silenciosa. A missão era clara: preparar uma pequena surpresa para o Jack antes que o aniversariante acordasse.

Bruna, a rainha da organização, já tinha assado um bolo de chocolate fofinho, cujo cheiro delicioso impregnava a cozinha. O plano original era que ela cuidasse de tudo, mas foi só colocar a cabeça na sala para ver o desastre em andamento. Justin e Luan, encarregados de pendurar alguns balões e uma faixa de "Happy Birthday", estavam fazendo tudo errado.

- Não, a fita adesiva é pra prender o balão na parede, não a sua mão na cortina, Luan! -ouvi a voz exasperada da Bruna, seguida de uma risada abafada do Justin.

Com um suspiro que era uma mistura de derrota e carinho, ela largou o pano de prato e foi socorrer os dois. E assim, a tarefa mais delicada da manhã caiu no meu colo: a decoração do bolo.

Com o pote de chantilly e vários saquinhos de confeitos coloridos ao meu lado, eu me debrucei sobre a bancada. Respirei fundo e comecei, concentrada. Eu estava entregando tudo de mim para esse bolo sair bonito. Cada roseta de creme que eu desenhava na borda era feita com uma precisão quase cirúrgica. Com a espátula, espalhei uma camada branca e lisa na superfície, transformando o bolo escuro numa tela em branco. Por fim, abri os pacotinhos de confeitos e deixei uma chuva de estrelas, bolinhas e granulados coloridos cair sobre a minha pequena obra de arte.

Era só um bolo caseiro para uma criança de dois anos, que provavelmente se importaria mais em enfiar as mãos nele do que em admirar a decoração, mas para mim, era mais. Era um gesto de amor. 

- Uau.

A voz da Bruna, suave e impressionada, me tirou da minha concentração. Ela estava parada na porta da cozinha, os braços cruzados e um sorriso genuíno no rosto. 
Aparentemente, a missão "arrumar a bagunça dos hom ns" tinha sido um sucesso.

- Ficou lindo, Ma. De verdade. Você leva jeito pra isso.

- Obrigada. -respondi, sentindo o rosto corar um pouco.- Fiz o meu melhor pelo nosso garoto.

Nesse exato momento, como se tivesse sido combinado, a figura do aniversariante apareceu no batente da porta, nos braços de um Justin sorridente. Jack ainda estava com o rostinho amassado de sono e os cabelos loiros todos bagunçados, agarrado ao seu dinossauro de pelúcia.

- Olha só quem acordou com o cheiro do bolo... -Justin sussurrou.

Bruna colocou o dedo nos lábios, pedindo silêncio, e Luan apareceu logo atrás deles. Trocamos um olhar cúmplice.

- Um, dois, três e... -Bruna contou baixo.

- SURPRESA! -gritamos todos juntos, mas em um volume controlado para não assustá-lo.

Os olhinhos azuis do Jack se arregalaram. Ele olhou para a sala, para os balões coloridos que agora —corretamente— enfeitavam o teto, e depois para a cozinha, onde seu olhar travou no bolo brilhante sobre o balcão. Um sorriso enorme, de orelha a orelha, brotou em seu rosto.

- Bolo! -ele gritou, a voz sonolenta de repente cheia de animação, se remexendo no colo do Justin para descer.

Começamos a cantar "Happy Birthday to you" em um coro desafinado e animado. Chloe e Serena acordaram com a movimentação e logo se juntaram à festa, Chloe cantando a plenos pulmões e Serena batendo palminhas desajeitadas no colo do Luan.

Colocamos o bolo na mesa e acendemos uma velinha com o número dois. Jack, com a ajuda de Bruna, soprou a vela com um bafinho forte que fez fumaça para todo lado e arrancou risadas de todos nós. O primeiro pedaço, claro, foi para ele. E a reação foi a esperada: mãos, boca e bochechas imediatamente cobertas de chantilly e chocolate.

Depois do parabéns e de uma batalha campal contra o chantilly que Jack fez questão de espalhar por todos os cantos possíveis, entramos na segunda maratona do dia: nos ajeitar para o parque. Hoje, o destino era a Universal Studios.

A troca de roupa, o reforço no protetor solar e a montagem da mochila de suprimentos já eram um ritual quase automático. Em meio ao nosso caos habitual, porém, havia um ponto de pura e contagiante animação: Luan. Se Justin e Bruna eram os maiores fãs da Disney, Luan era, sem dúvida, o maior fã de Harry Potter que eu conhecia. Ele estava ansioso.

Enquanto eu terminava de ajeitar a bolsa da Serena, o encontrei na sala, já pronto, conferindo o mapa do parque no celular pela décima vez. Seus olhos brilhavam de um jeito que eu normalmente só via nas crianças.

- Amor, a gente tem que ir direto pro Beco Diagonal primeiro, ok? E depois pegar o Expresso de Hogwarts pra Hogsmeade. Dizem que a cerveja amanteigada de lá é surreal. -ele falou, me mostrando a tela do celular como se fosse um mapa do tesouro, a empolgação clara em sua voz.

Eu sorri, achando adorável. Amava ver esse lado dele, o lado que se permitia mergulhar na magia sem filtro, como uma criança.
Justin passou por ele, ajeitando a mochila nas costas e rindo.

- Calma, Weasley. Deixa a gente pelo menos passar pela catraca primeiro.

Luan apenas revirou os olhos, mas continuava sorrindo. Finalmente, com todos devidamente prontos e organizados, nos esprememos de volta no carro.

- Próxima parada: Hogwarts! -Luan anunciou do banco do carona.

Chloe e Jack, mesmo sem entenderem direito o que era Hogwarts, sentiram a energia e gritaram em comemoração junto com ele. O dia do aniversário de Jack prometia uma magia diferente.

A energia na Universal era instantaneamente diferente da Disney. Menos conto de fadas, mais adrenalina de cinema. O famoso globo giratório na entrada já anunciava o clima: ali, a gente entrava direto nos filmes. E Luan, definitivamente, tinha um filme em mente.

Mal passamos pelas catracas e ele assumiu a liderança, mapa em mãos, com a seriedade de quem executa um plano.

- É por aqui, gente, eu vi no mapa! -ele dizia, nos guiando com pressa pelas ruas que replicavam Hollywood e Nova York, ignorando as outras atrações. A missão era uma só.

Chegamos em frente a uma discreta parede de tijolos ao lado de uma réplica da estação de King's Cross. Para um desavisado, não pareceria nada demais.

- É aqui. -Luan anunciou, com a respiração um pouco ofegante.

E quando atravessamos a passagem, foi como se tivéssemos sido transportados para outro mundo.

O Beco Diagonal se abriu diante de nós, e foi de tirar o fôlego. Era caótico, barulhento e absolutamente mágico. Os prédios eram tortos e cheios de detalhes impossíveis, as vitrines exibiam de caldeirões a vassouras, e a multidão se acotovelava, muitos trajando capas de Hogwarts e empunhando varinhas.

- Papai, um dragão! -Chloe gritou no colo de Justin, apontando para o alto.

No topo do imponente banco Gringotes, no final da rua, um dragão branco gigantesco estava empoleirado. E como se tivesse ouvido o chamado, a criatura soltou um rugido baixo e gutural, seguido por uma bola de fogo real, que aqueceu nossos rostos mesmo à distância. Jack arregalou os olhos, boquiaberto, e até Serena, no meu colo, soltou um gritinho de surpresa.

Olhei para Luan. Ele tinha o sorriso mais bobo e genuíno que eu já tinha visto, absorvendo cada detalhe como se quisesse guardar tudo na memória para sempre.

- Isso é... incrível. -ele sussurrou para mim, sem desviar os olhos do cenário.
Justin assobiou ao nosso lado.

- Ok, tenho que admitir. Isso aqui é impressionante.

Luan pegou minha mão, me puxando para o meio da multidão com a empolgação de uma criança.

- Vem, a primeira coisa que temos que fazer é provar a cerveja amanteigada.

Ele nos guiou pela multidão até uma barraca rústica de madeira com um barril enorme, de onde um líquido cremoso era servido em canecas. A fila era considerável.

- Ah, qual é? Tem fila até pro refrigerante de bruxo? -Justin resmungou, ajeitando Chloe em seu quadril.

- Não é refrigerante, é cerveja amanteigada. E é um clássico! -Luan corrigiu, ofendido, como se Justin tivesse insultado sua própria mãe.

Bruna, sempre prática, já estava de olho nos arredores.

- Ok, enquanto os rapazes pegam as bebidas, eu e a Marina levamos as crianças pra ver aquela loja colorida ali. Assim a gente não perde tempo. -ela apontou para a fachada laranja e roxa da Gemialidades Weasley.

- Boa ideia. -concordei.

A loja era um assalto aos sentidos. Barulhenta, cheia de coisas que se moviam sozinhas e com um cheiro adocicado de travessuras. Chloe ficou hipnotizada por uma gaiola cheia de criaturinhas rosas e felpudas que emitiam gritinhos finos.

- Mamãe, o que é isso? -ela perguntou a Bruna, o rosto colado no vidro. Bruna sorriu com Chloe a chamando de "mamãe", antes de responder.

- São Mini Pufes, meu amor. -Bruna leu a plaquinha.

- Eu quero um! Eu quero o rosa! -Chloe declarou, com a convicção de uma rainha.

- Ah, não, princesa. Ele faz muito barulho. Vamos ver outra coisa? -Bruna tentou desviar, já prevendo o drama.

Enquanto isso, Justin e Luan voltaram, equilibrando quatro canecas cheias de um líquido dourado com uma espuma densa por cima.

- Missão cumprida! -Luan anunciou, orgulhoso.

- Dez dólares por um copo de diabetes com espuma. -Justin comentou, olhando para a bebida com desconfiança antes de dar um gole.- Ok, até que é bom.

Luan revirou os olhos e me entregou a minha. Dei um gole. Era incrivelmente doce, com gosto de caramelo e um toque cremoso da espuma.

- Nossa, é muito bom! -admiti.

Ele sorriu, satisfeito, e se abaixou para oferecer um gole a Serena, que fez uma careta e virou o rosto. Jack, por outro lado, agarrou o copo do Justin com as duas mãos, conseguindo tomar um gole generoso e babar metade no peito.

- Gotoso! -ele disse, com a boca toda lambuzada.

Chloe, momentaneamente distraída da sua paixão pelo Mini Pufe, exigiu provar também. Ela tomou um gole da caneca da Bruna, seus olhinhos se arregalaram.

- Tem gosto de nuvem de açúcar! -ela concluiu, com toda a sabedoria dos seus quase três anos.

- Tá vendo? Até ela entende a magia. -Luan disse para Justin, que apenas deu de ombros, já terminando seu copo.

- Magia ou não, por esse preço, é melhor a gente ir numa atração logo, antes que eu declare falência. -Justin brincou, limpando o rosto de Jack com um lenço.- Pra onde agora, Potter? Vamos comprar uma varinha pra Serena? O que poderia dar errado?

- Não me dá ideia! -Luan respondeu, rindo, já olhando em volta, planejando nosso próximo passo naquele universo maluco e maravilhoso.

Os olhos de Luan escanearam a multidão até travarem em um ponto específico. Ele ergueu o braço, apontando com o fervor de um explorador que avista terra firme.

- Ali! O Chapéu Seletor! -ele anunciou, a voz cheia de uma urgência dramática.- Eu preciso ir lá.

Justin semicerrou os olhos na direção apontada.

- Pra que você quer ir num chapéu velho falante?

- Não é um "chapéu velho falante"! -Luan retrucou, virando-se para ele com uma expressão mortalmente séria.- É o Chapéu Seletor. Eu preciso confirmar se eu sou mesmo da Grifinória, como sempre suspeitei.

Bruna suspirou, um sorriso divertido no rosto.

- Luan, já te vi fazer o teste no Pottermore umas quinze vezes. Todas deram Grifinória. Acho que podemos confiar.

- Mas não é a mesma coisa! -ele insistiu, já começando a nos empurrar naquela direção.- Preciso da confirmação oficial. E se eu for da Sonserina e não souber? Minha vida inteira pode ser uma mentira!

- Se você for da Sonserina, eu exijo o divórcio antes mesmo do casamento. -brinquei, entrando na onda.

- Exatamente! Estão vendo a gravidade da situação? -Luan disse, me usando como exemplo.

Revirando os olhos, mas rindo, nós o seguimos até uma pequena área onde uma réplica do chapéu estava em um banquinho, e um funcionário do parque orquestrava a pequena cerimônia.

- Vai lá, leão corajoso. -Justin zombou, dando um tapinha nas costas dele.- Mostra pra todo mundo do que você é feito.

Luan marchou até lá com a determinação de quem vai para uma batalha. Sentou-se no banquinho, e o funcionário colocou o chapéu grande e remendado em sua cabeça. Uma voz grave e amplificada ecoou pelo pequeno teatro.

O chapéu ponderou por alguns segundos dramáticos.

- Coragem... um coração leal... e uma certa tendência a arrastar a família inteira para suas obsessões... só pode ser... GRIFINÓRIA!

Luan abriu um sorriso triunfante, como se tivesse acabado de ganhar na loteria. Ele se levantou, fez uma reverência exagerada para os nossos aplausos e risadas, e voltou para o nosso grupo com o peito estufado.

- Viram? Eu sempre soube. -ele disse, com a expressão mais presunçosa que conseguiu fazer.

- Ufa, nosso noivado está a salvo. -falei, dando um beijo em sua bochecha.- Agora que sua identidade foi confirmada, podemos, por favor, ir em um brinquedo de verdade?  

- Não, não. Agora é a vez de vocês. -ele declarou, com a autoridade recém-adquirida de um Grifinório confirmado.- Eu preciso saber com quem eu estou lidando. Todos nós vamos sentar nessa cadeira.

- Ah, não, Luan. De jeito nenhum. -Justin protestou, dando um passo para trás.- Eu não vou colocar esse chapéu suado na minha cabeça.

- Você está com medo, Justin? Medo de descobrir que na verdade você é um Sonserino? -Luan provocou, sabendo exatamente qual botão apertar.

A competitividade entre cunhados falou mais alto. Justin bufou.

- Medo? Eu não tenho medo de nada. Me dá esse chapéu.

Ele marchou até a cadeira, sentou-se com a postura de um rei e olhou desafiadoramente para o chapéu enquanto o funcionário o colocava em sua cabeça.

- Hmm, ousadia, de fato... um talento para o caos... e uma lealdade feroz aos seus... sim, muito claro... GRIFINÓRIA!

Justin sorriu, aliviado e um pouco convencido. Ele olhou para Luan com um ar de "óbvio".

-  Dois a zero para os leões. Sua vez, Bru.

Bruna, que estava mais tranquila de todos nós, sentou-se calmamente. O chapéu mal tocou sua cabeça antes de gritar:

- LUFA-LUFA!

Ela sorriu, satisfeita.

- Viu? Paciente, leal e justa. Faz todo o sentido.

- E agora, a futura senhora Weasley. -Luan anunciou, me empurrando gentilmente para a cadeira.

Sentei-me, rindo. A voz do chapéu ponderou por um momento.

- Uma mente afiada... criativa... e uma sagacidade que poderia rivalizar com a de um corvo... CORVINAL!

- Perfeito! Uma de cada casa! -Bruna comemorou.

- Ok, resolvido. -Justin disse, enxugando uma lágrima de riso.- Temos dois Grifinórios, uma Lufa-Lufa e uma Corvinal. Agora podemos ir num brinquedo que se mexe?

- Sim, por favor! -Bruna concordou com o marido, rindo. 

Luan, agora satisfeito com o mapeamento astrológico de Hogwarts da nossa família, apontou para o topo da rua, onde o dragão ainda montava guarda.

- Então está decidido. A Fuga de Gringotes. É a principal atração daqui.

- Finalmente uma montanha-russa! -Justin comemorou, erguendo Jack no ar, que gritou animado.

A fila, para nossa surpresa, era quase uma atração por si só. Entramos no lobby opulento do banco, e as crianças ficaram em silêncio, impressionadas. Goblins animatrônicos, incrivelmente realistas, trabalhavam em suas mesas altas, nos encarando por cima de seus óculos, resmungando e contando moedas.

- Que bizarro... -Justin murmurou, olhando para um goblin que parecia encará-lo de volta.- Acho que ele não gostou da minha camisa.

Chegamos perto da entrada do brinquedo, onde a placa de altura confirmou nossas suspeitas.

- Ótimo. O que a gente faz com os nossos três "hobbits" aqui? -Justin perguntou, apontando para Chloe, Jack e Serena, que mal chegavam na primeira marca da régua.

- Calma, deve ter aquele esquema de troca de pais. -Bruna disse, já se informando com um funcionário.- Isso! Um grupo vai e o outro fica com as crianças, depois troca sem pegar a fila de novo.

- Perfeito! -Luan declarou.- Grifinórios primeiro, para desbravar o caminho! Eu e o Justin vamos.

- Típico. Se jogando na frente do perigo. -brinquei.

- É o nosso dever. -Luan disse, com uma falsa solenidade.

Eles nos entregaram a mochila de suprimentos e desapareceram na escuridão do cofre. Bruna e eu nos entreolhamos. Estávamos sozinhas com a tropa.

- E agora? -perguntei.

- Agora a gente sobrevive. -ela respondeu, rindo.

Os dez minutos seguintes foram uma maratona. Jack decidiu que queria descer e correr, Chloe começou a perguntar a cada cinco segundos "Cadê o papai?", e Serena, sentindo a agitação, começou a ficar resmungona. Bruna, com a maestria de mãe de dois, tirou um pacote de biscoitos da bolsa, resolvendo 90% dos problemas instantaneamente.

Logo, Luan e Justin voltaram, com os cabelos bagunçados e os olhos arregalados, cheios de adrenalina.

- Isso foi a coisa mais incrível que eu já fiz! -Luan disse, ofegante.- Os efeitos, o 3D, a gente quase bateu no Voldemort!

- Tenho que admitir, foi irado. -Justin concordou.- Quase morri, mas foi irado.

- Nossa vez! -Bruna disse, entregando a bolsa de biscoitos para Justin como se estivesse passando um bastão numa corrida de revezamento.

- Se comportem. E, Justin e Luan, não deixa a Chloe convencer vocês a comprar aquele bicho rosa felpudo. -ela instruiu.

Enquanto caminhávamos para a entrada do brinquedo, olhei para trás e vi os dois, cada um com uma criança no colo e Chloe de mãos dadas com Justin, nos olhando com uma expressão que era uma mistura de amor e pânico. A aventura estava apenas começando.

Postagens mais visitadas deste blog

Personagens

Marina Rhode Bieber Tem 18 anos, é natural de Los Angeles, é meia-irmã de Justin, irmã de Melanie e mora em Nova York, caloura da Columbia. Justin Drew Bieber Tem 18 anos, é natural de London (Canadá), é meio-irmão de Marina e Melanie, mora em Nova York, calouro da Columbia. Luan Rafael Domingos Santana Tem 18 anos, natural de Campo Grande, recém chegado em Nova York, é irmão gêmeo de Bruna, calouro da Columbia. Bruna Domingos Santana Tem 18 anos, natural de Campo Grande, recém chegada em Nova York, é irmã gêmea de Luan, caloura da Columbia. Melanie Marie Bieber Tem 17 anos, natural de Los Angeles, irmã mais nova de Marina e meia-irmã de Justin, estudante do último ano do Ensino Médio. Olivia Sidney Mitchell Tem 18 anos, natural de Londres, mora em Nova York, caloura da Columbia. Virginia Weston Yeardley 18 anos, natural de Washington, mora em Nova York,  caloura da Columbia. Chloe Araya Collins 19 ...

Capítulo 93

Marina Narrando Já era segunda-feira e minha cabeça estava a mil. Eu caminhava pelos corredores do estúdio com uma mão apoiada na barriga já bem arredondada e um café descafeinado na outra, tentando organizar todos os pensamentos que martelavam desde o fim de semana. Eu ter voltado com o Luan… ainda parecia surreal. Quando deitamos no sofá ontem à noite e ele me puxou pra perto, me chamando de “minha namorada” com aquele sorriso bobo, eu senti um alívio no peito que não sabia que precisava. Mas também… tinha o outro lado. O post sobre a Bruna e nossa amizade, explodindo nas redes sociais. Eu vi cada comentário de ódio direcionado a ela e era revoltante. Pior ainda porque, embora os fatos estivessem todos distorcidos, eles não eram totalmente mentira.  Quando cheguei à sala de reunião no set, já estavam todos lá. O elenco completo, produtores, roteiristas, técnicos. Era aquele burburinho animado de sempre, todo mundo empolgado porque a divulgação do segundo filme já ia começar, com ...

Capítulo 91

Luan Narrando  Eu senti meu peito subir e descer rápido, ainda sem conseguir me afastar dela. Marina tava ali, entre os meus braços, a respiração dela quente contra a minha pele, e tudo em mim gritava pra não soltar. Aquela boca… aquele gosto dela… eu não lembrava quanto era viciante até provar de novo. Me sentei melhor no sofá, trazendo-a junto, acomodando-a no meu colo com cuidado por causa da barriga. Ela deixou escapar um riso nervoso quando ajeitei as mãos na cintura dela, quase como se pedisse permissão outra vez. - Você fica linda assim… -murmurei perto do pescoço dela, sentindo o cheiro do cabelo, descendo uma mão até descansar na curva do quadril.- …tão linda que eu fico até meio burro. Ela soltou uma risadinha, mas arfou quando minha mão subiu devagar pelas costas dela, desenhando a curva da coluna por baixo da blusa. Eu sentia a pele dela arrepiar debaixo dos meus dedos. - Luan… -ela murmurou, meio que em protesto, mas sem força nenhuma pra realmente me parar. - Shhh… -p...