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Capítulo 126

Luan Narrando

A imagem da Marina correndo na minha direção e daquele beijo no meio da roda ainda estava fresca na minha cabeça, misturada com uns seis ou sete shots de tequila. O som da multidão se dissipou, a batalha de rima acabou, e tudo que restou foi o eco da voz do Justin gritando "EU TE AMO, BRUNA" para a porta onde elas tinham desaparecido.

- Cara... o que acabou de acontecer? -Ryan perguntou, rindo tanto que precisou se apoiar no ombro do Anthony.

Justin, com o microfone ainda na mão como se fosse um troféu, tinha um sorriso bobo no rosto.

- A gente encontrou nossas mulheres, é isso que aconteceu. Elas não resistem ao nosso charme de rapper.

- Charme de rapper? -Anthony gargalhou.- Justin, você rimou "esposa" com "mariposa". A Bruna não fugiu, ela executou uma retirada estratégica pra não morrer de vergonha.

Luke, que tinha ficado mais quieto, balançou a cabeça, parecendo genuinamente preocupado.

- A Melanie vai me mandar uma mensagem cobrando explicações não vai demorar muito...

Eu passei a mão pelo cabelo, ajeitando a gravata que ainda estava amarrada na minha testa. Vê Marina ali, com as meninas, linda e caindo de bêbada, foi o ponto alto da minha noite. Ela estava com um brilho nos olhos que eu não via há tempos, um brilho de pura e irresponsável felicidade. E eu amava aquilo.

- Ok, a gente assustou elas. -admiti, rindo.- Qual o próximo plano, Bieber? Antes que elas voltem com reforços.

Justin jogou o microfone de volta para o cara que organizava a rima e passou o braço pelos meus ombros.

- Próximo plano? Meu amigo, a gente está em Vegas! É a sua despedida de solteiro! A noite é uma criança feia e que bebe demais! -ele gritou a última parte.- Eu ouvi falar de um lugar... um oásis no deserto... um lugar chamado Spearmint Rhino. Dizem que as dançarinas de lá fazem mágica de verdade, não essas rimas baratas que eu tava fazendo.

Anthony assobiou.

- Opa, agora a conversa ficou interessante!

- Sei não, cara... -Luke hesitou, já olhando para o celular.- A Mel me mata se souber que eu fui num lugar desses.

- O que acontece em Vegas, fica em Vegas! É a regra de ouro, meu caro Luke! -Justin decretou, como se fosse um mandamento.- É pela ciência! Pela arte! Pelo Luan! Vamos, noivo, é a sua última noite de liberdade.

Eu ri. Liberdade. Eu nunca me senti tão livre quanto no dia em que a Marina disse sim. Mas ali, com meus melhores amigos, no meio da cidade mais caótica do mundo, a ideia pareceu certa. Era um rito de passagem.

- Tudo bem. -falei, erguendo as mãos em rendição.- Vamos conhecer essa tal de mágica. Mas se a Marina descobrir, a culpa é sua, Justin.

- A culpa é sempre minha. -ele disse, sorrindo.- E eu não me importo. Vamos, cavalheiros! O rinoceronte nos espera!

A caminhada até o tal rinoceronte foi um borrão de luzes de neon e cantoria desafinada. Justin ia na frente, agindo como um general comandando suas tropas bêbadas pela Strip. A cada letreiro luminoso, ele parava e anunciava: "Esse lugar não é digno de nós!", antes de seguir em frente, tropeçando nos próprios pés.

A entrada do Spearmint Rhino era exatamente o que se esperava: imponente, um pouco cafona e com um segurança do tamanho de um armário que nos olhou com a paciência de quem já viu de tudo. Não precisamos de esforço para entrar, afinal, era Justin Bieber e Luan Santana ali, então foi fácil. A porta se abriu e fomos engolidos pela escuridão, pela música eletrônica que batia no peito e por um cheiro adocicado de perfume e Red Bull.

- Bem-vindo ao paraíso, meu nobre amigo! -Justin berrou no meu ouvido para ser ouvido acima da música.

Ele parecia estar em seu habitat natural. Em menos de cinco minutos, já tinha nos conseguido uma mesa perto do palco e trocado uma quantia absurda de dinheiro por uma pilha de notas de um dólar, que ele distribuiu entre nós como se fossem cartas de baralho.

Anthony e Ryan entraram no clima na mesma hora, já analisando o "cardápio" de bebidas. Luke, por outro lado, parecia um peixe fora d'água. Ele sentou na ponta do sofá de couro, tenso, e eu podia jurar que vi ele abrir a conversa com a Melanie no celular umas três vezes antes de desistir.

Uma garçonete vestindo quase nada se aproximou.

- O que os bonitões vão beber?

- Traga a sua bandeja de shots mais colorida, cara e perigosa. -Justin ordenou, jogando uma nota de vinte na bandeja dela.- É a despedida de solteiro do meu melhor amigo!

Ele se virou para mim, os olhos brilhando com a luz estroboscópica.

- Olha só, Luan! Aproveita! É a sua última noite oficialmente olhando para outras mulheres... porque, depois que você casar com a minha irmã, você não vai ter olhos pra mais ninguém!

Eu ri. Era a coisa mais estúpida e, ao mesmo tempo, mais verdadeira que ele poderia dizer. Meu coração era da Marina, e nada naquele lugar barulhento e chamativo poderia mudar isso. Isso tudo era só... teatro. Uma tradição boba.

Uma dançarina se aproximou da nossa mesa, os olhos fixos em mim. Senti minhas bochechas esquentarem. Tentei sorrir de um jeito educado, o que provavelmente me fez parecer um completo idiota.

Foi quando o celular do Luke vibrou na mesa, iluminando seu rosto em pânico.

- É a Mel. -ele sussurrou, apavorado.- Ela tá perguntando onde a gente tá, disse que ouviu a voz do Justin gritando na rua.

Justin se inclinou sobre a mesa, sério como um estrategista de guerra.

- Calma. Responda com tranquilidade. Diga que a gente está num lugar cultural. Um museu.

- Museu? -Ryan repetiu, incrédulo.- Que museu abre a essa hora em Vegas, Justin?

- O museu de cera! -Justin estalou os dedos.- Diz que a gente tá no Madame Tussauds! E que eu gritei porque a estátua da Beyoncé parecia muito real! É infalível!

Luke, desesperado, começou a digitar a desculpa esfarrapada. Eu só conseguia balançar a cabeça, rindo da cena. Meus amigos eram uns imbecis. Meus melhores amigos.

A garçonete voltou com uma bandeja cheia de copinhos coloridos. Peguei um, ergui no ar.

- Um brinde! -falei, mais alto que a música.- Aos museus de cera, às mulheres que a gente ama, e às péssimas decisões que tomamos em Las Vegas!

Eles brindaram comigo, e no meio daquela confusão de luz, som e testosterona. Os shots desceram rasgando, uma mistura radioativa de álcool e açúcar que serviu apenas para jogar mais gasolina na fogueira que era o Justin. Ele pegou a pilha de notas de um dólar, levantou-se na cadeira como um pregador maluco e gritou:

- QUE CHOVA DINHEIRO PARA O NOIVO!

Ele arremessou as notas para o alto, e por um glorioso e patético segundo, uma chuva de George Washingtons caiu sobre a nossa mesa, para a alegria das dançarinas mais próximas e para o horror do Luke, que tentou se esconder atrás do cardápio.

- Você é um imbecil! -gritei, rindo tanto que o shot quase voltou.- Um imbecil que eu tenho como cunhado.

Enquanto Anthony e Ryan tentavam, sem sucesso, imitar a “chuva de dinheiro” do Justin com as poucas notas que tinham, eu me recostei no sofá. O som era ensurdecedor, as luzes piscavam num ritmo frenético e havia corpos seminus por toda parte. Era o ápice do clichê de uma despedida de solteiro. 

Fui tirado dos meus pensamentos por um feixe de luz ofuscante no meu rosto. Um cantor no palco principal, com uma voz de locutor de rodeio, estava falando no microfone.

- Senhoras e senhores, parece que temos um homem prestes a cometer o erro mais feliz da sua vida! Recebi a informação de que temos um noivo na casa essa noite!

Gelei. Olhei para Justin, que apontava para mim com os dois polegares, um sorriso diabólico no rosto. Ele não tinha feito isso. Ah, ele tinha.

- Luan, o sortudo! -o cantor berrou.- Suba aqui no palco, meu amigo! Temos um presente especial de casamento para você!

Meus amigos foram à loucura. Ryan me empurrava pelas costas, Anthony já estava com o celular em punho, filmando, e Justin me olhava com o orgulho de um pai que vê o filho prestes a passar no trote da faculdade. Não havia como escapar.

Subi os degraus do palco sentindo minhas pernas virarem gelatina. As luzes eram ainda mais fortes ali, e eu mal conseguia ver a plateia. Duas dançarinas vieram na minha direção, me sentaram numa cadeira dourada que parecia um trono e... bom, o resto é um borrão de plumas, glitter e a música "Pour Some Sugar on Me" tocando no volume máximo.

Fechei os olhos. Em vez de entrar em pânico, fiz a única coisa que podia: pensei na Marina. Pensei nela rindo daquela cena, me zoando pelo resto da vida. Pensei no rosto dela em todas as manhãs, no jeito como ela segurava a Serena, no seu sorriso quando eu digo que a amo. E, de repente, a situação inteira ficou menos assustadora e mais uma anedota absurda para contar no futuro.

Quando finalmente me liberaram, desci do palco sob os aplausos e assobios dos meus amigos. Justin me abraçou, quase me derrubando.

- ESSE É O MEU CUNHADO! -ele gritava.- VOCÊ FOI UM GUERREIRO!

Eles me entregaram outro shot. Eu virei de uma vez, sentindo o álcool queimar. A adrenalina de ter sido o centro das atenções no palco começou a baixar, sendo substituída por uma tontura alcoólica e a sensação pegajosa de glitter no meu pescoço. Justin ainda estava comemorando minha "bravura", mas Anthony, que até então estava na pilha, de repente ficou sério.

Ele olhou em volta, para as luzes, para as dançarinas, para a nossa mesa cheia de copos vazios, e balançou a cabeça como se estivesse acordando de um transe.

- Gente, sério... -ele começou, falando mais alto para competir com a música.- Qual é a nossa? Todos nós aqui somos comprometidos, cara. Ficar aqui com um monte de mulheres praticamente peladas não é legal. As nossas garotas são mil vezes mais incríveis.

Um silêncio momentâneo caiu sobre a nossa mesa. Era a primeira gota de bom senso na nossa noite de estupidez.

Ryan foi o primeiro a concordar, levantando as mãos.

- Ele tem razão. Foi divertido, Luan foi humilhado com sucesso, a missão está cumprida. Bora vazar daqui. -ele sugeriu, já se levantando.- Vamos pra uma balada, então! Dançar, beber mais, sem a parte do constrangimento profissional.

A palavra "balada" soou como um alarme na minha cabeça. As memórias, turvas pela tequila, começaram a voltar.

- Gente... -comecei, esfregando o rosto, sentindo o cansaço bater.- Com todo respeito à empolgação, mas será que a gente pode repensar essa ideia de "balada"? -eles me olharam, confusos.- Só pra lembrar a todos os presentes: -continuei, apontando para o Luke, que me fuzilou com o olhar.- Da última vez que esse grupo foi para uma "balada" para comemorar alguma coisa, o Luke apareceu com um macaco roubado, o que foi motivo da nossa prisão.

Luke se engasgou com a própria saliva.

- Ei! A gente combinou de nunca mais tocar nesse assunto! -ele protestou, o rosto vermelho.- E o nome dele era Tobias, e ele veio comigo por livre e espontânea vontade!

Justin soltou uma gargalhada que fez a mesa inteira tremer.

- Exatamente! -ele gritou, batendo nas minhas costas.- Foi uma noite lendária! A gente precisa de outra história assim! Tobias, o macaco! Que saudade! Bora pra balada!

E ali estava. A voz da razão, Anthony, sendo completamente engolida pela voz do caos, Justin. Eu suspirei, já prevendo o desastre. A noite em Las Vegas estava longe de acabar.

Saímos do Spearmint Rhino cambaleando, como uma tropa derrotada mas ainda barulhenta. Glitter grudado no meu pescoço, notas amassadas de um dólar nos bolsos e uma sensação meio surreal de que eu tinha acabado de sobreviver a um trote de fraternidade.

Justin liderava a caminhada como um guia turístico possuído.

- A noite é nossa, soldados! -ele gritava.- E o próximo destino… é a boate mais insana dessa cidade!

- Cara. -Ryan gemeu, tentando manter o equilíbrio.- Eu só quero uma água e uma cama.

- Água? -Justin olhou pra ele como se fosse uma ofensa pessoal.- Em Vegas, a única água que existe vem misturada na vodka!

Anthony bufou, mas ainda assim ria. Luke… bom, Luke estava grudado no celular, andando no automático.

Depois de alguns quarteirões de neons piscando, trombamos na fachada gigantesca de uma balada que parecia mais um parque de diversões adulto. Fileira de seguranças, fila de turistas animados, e uma batida eletrônica tão forte que dava pra sentir no estômago mesmo do lado de fora.

- É aqui. -Justin decretou.- O templo da perdição.

Graças a quem nós éramos, entrar foi ridiculamente fácil. Em minutos, estávamos lá dentro: um oceano de luzes estroboscópicas, fumaça de gelo seco e centenas de pessoas pulando como se o chão fosse de trampolim.

- Eu vou morrer aqui dentro. -Luke murmurou, mas mesmo assim aceitou o copo que Justin enfiou na mão dele.

Justin estava no auge da energia. Já subiu num sofá, gritando que era “o rei da balada”, e jogou mais dinheiro pro alto, como se fosse Carnaval. Anthony tentou segurar, mas desistiu e caiu na risada. Ryan? Já tinha desaparecido na pista, provavelmente perdido no meio de uma roda de gringos.

Eu tentei respirar fundo, focar, mas a música e a tequila não ajudavam. Só conseguia pensar: a Marina vai me matar se souber…

E foi nesse estado alterado que alguém da produção da balada reconheceu o Justin. De repente, estávamos no camarote VIP, com garrafas de champanhe explodindo e uma multidão olhando pra gente como se fôssemos atração principal.

Justin pegou o microfone do DJ – ninguém sabe como – e começou a gritar:

- LAS VEGAS, FAÇAM BARULHO PRO MEU CUNHADO, O NOIVO MAIS SEXY DO PLANETA!

Um foco de luz veio direto em mim.

- Ah, não… -eu sussurrei.

Mas era tarde demais. A galera gritou, o DJ soltou uma batida ainda mais pesada e, de repente, tinha um grupo de pessoas desconhecidas me levantando nos ombros, como se eu fosse campeão da Copa.

Anthony só balançava a cabeça, rindo, mas eu vi no olhar dele que a ressaca moral seria gigantesca. Luke parecia rezar em silêncio. E Justin? Ele dançava em cima da mesa, camiseta girando no ar, completamente entregue ao caos.

O mundo virou um borrão de luzes piscando, champanhe voando e gritos ensurdecedores. Eu, em cima dos ombros de três caras que nem sabia o nome, sendo erguido como se fosse o campeão de um campeonato de sumô.

- SOLTA O LUAN! -Anthony berrava, tentando negociar com os caras.- ELE NÃO É UM TROFÉU!

- ELE É UM TROFÉU, SIM! -Justin rebateu, gargalhando.- É o troféu da Marina!

Eu tentei protestar, mas alguém já tinha me enfiado um copo de tequila na boca. Resultado: tossi, quase engasguei, mas a galera vibrou como se fosse parte da performance.

Foi aí que vi Ryan de volta, mas agora ele não estava sozinho. Estava de mãos dadas com duas turistas alemãs que gritavam “LUAN SANTANA!” como se fosse show no Brasil.

- Eu só fui buscar gelo. -ele explicou, completamente perdido.- E voltei com elas.

- Você foi buscar gelo no meio da pista? -Anthony questionou.

- O gelo que me encontrou, cara. -Ryan respondeu sério, como se fosse filosofia.

Enquanto isso, Justin já tinha convencido o DJ a tocar “Baby”. Eu juro. No meio daquela balada eletrônica, o refrão começou a ecoar e todo 

Luke estava num estado deplorável. Sentado num canto do sofá, olhando fixamente pro celular. De repente, levantou a cabeça e gritou:

- A MEL ME MANDOU UM ÁUDIO!

O camarote inteiro silenciou por um segundo, até Justin arrancar o celular da mão dele.

- Relaxa, Luke. Eu resolvo. -e sem pensar duas vezes, ele gravou uma resposta de áudio:- Oi, Mel! Aqui é o seu querido irmão Justin! O Luke tá ocupado… estudando a geografia de Vegas. Beijo!

O desespero no rosto do Luke foi indescritível.

Antes que ele pudesse recuperar o celular, duas seguranças enormes apareceram. O DJ, animado demais, tinha anunciado ao microfone que “Justin Bieber e Luan Santana estavam no camarote”, e agora uma multidão inteira tentava invadir o espaço. Era selfie, era pedido de música, era gente tentando subir no sofá pra chegar mais perto.

- Plano de fuga! -Anthony decretou.- Antes que vamos parar nos stories do TMZ!

Justin, claro, achou que era parte da aventura.

- Isso é perfeito! Mais caos! -ele gritou, e saiu correndo pro meio da multidão, puxando Ryan atrás.

E lá fomos nós, um bando de bêbados correndo por um labirinto de corredores da balada, perseguidos por fãs, seguranças e, em algum momento, um cara vestido de Elvis que apareceu sabe-se lá de onde.

No final, conseguimos sair por uma porta lateral, rindo e ofegantes, como se tivéssemos acabado de escapar de um assalto.

- Eu tô suando glitter. -Anthony murmurou, olhando a própria camisa.

- Eu… -falei, parando no meio da calçada. O mundo girava como se eu tivesse entrado num carrossel desgovernado.- Eu não tô legal.

Justin, que ria de alguma coisa, me olhou e arregalou os olhos.

- Opa, soldado ferido! Alguém segura o noivo!

Anthony me segurou pelo braço, mas eu já estava curvando o corpo, sentindo o estômago se rebelar. O gosto de tequila, energético e glitter misturado subiu pela garganta.

- Ai, não… -Ryan recuou, rápido.- Ele vai vomitar!

E não teve conversa: vomitei ali mesmo, no meio da Strip, bem na frente de um cara fantasiado de Homem-Aranha que dava autógrafo por 20 dólares. O “Homem-Aranha” só cruzou os braços e resmungou:

- Típico Vegas.

Justin, claro, achou um espetáculo.

- ISSO, LUAN! BOTA PRA FORA O MAL! PURIFICA A ALMA ANTES DO CASAMENTO! -ele gritava, como se fosse um exorcismo.

Anthony, mais sensato, tirou a gravata amarrada na minha testa e tentou limpar meu rosto com aquilo.

- Isso aqui já era, cara. -ele murmurou.

- Eu tô morrendo… -gemi, encostando na parede fria de um cassino qualquer.- Não deixa a Serena esquecer de mim e diz pra Marina que eu a amo… 

Luke, desesperado, começou a bater no celular.

- Eu vou ligar pra Marina! Ela precisa vir buscar ele!

- NEM PENSAR! -Justin arrancou o celular da mão dele.- Você quer que ela me mate também? A gente dá um jeito!

O problema é que “dar um jeito” no dicionário do Justin significava tudo, menos algo sensato. Ele ergueu a mão e gritou para um grupo de desconhecidos que passava:

- HEY! ESSE AQUI É O LUAN SANTANA! ELE TÁ PASSANDO MAL! A GENTE PRECISA DE UMA LIMO!

E, como era Vegas, funcionou. Em menos de dez minutos, estávamos dentro de uma limousine branca com luzes de LED no teto, enquanto eu me agarrava a um balde de gelo que servia como meu salva-vidas.

Ryan abriu uma garrafa de champanhe como se fosse a coisa mais lógica a fazer.

- Pra hidratar o noivo! -ele disse, oferecendo o copo.

- Você é idiota? -Anthony tomou o copo da mão dele.- O cara tá quase desmaiando, e você quer dar MAIS ÁLCOOL?

Justin, sentado de pernas cruzadas no chão da limo, olhava pra mim com um sorriso bobo.

- Relaxa, Luan. Isso tudo vai virar história. Um dia, você vai contar pros seus filhos que sobreviveu a Vegas… 

Eu fechei os olhos, tentando não desmaiar ali mesmo. O barulho, o balanço da limousine e a mistura de álcool e calor me deixaram no limite.

- Eu só quero… minha cama… e a Marina. -murmurei, antes de apoiar a cabeça no ombro do Anthony.

E foi assim que, cercado por neon, garrafas e um Justin rindo sozinho, eu desmaiei dentro da limousine mais cafona de Vegas.

[...]

Acordei com uma martelada dentro da minha cabeça. Não era dor de cabeça… era como se uma escola de samba tivesse ensaiado dentro do meu cérebro a noite inteira. Abri os olhos e a luz do quarto do hotel me cegou.

- Ai… meu Deus… -gemi, puxando o travesseiro pra cima do rosto.

Só então percebi duas coisas: primeiro, eu estava deitado de terno e com glitter grudado no pescoço. Segundo, havia um balde de gelo vazio no chão, do meu lado, com uma nota de 20 dólares molhada grudada na borda.

- Ah, não… -sussurrei, já sentindo a vergonha me consumir.

Do outro lado do quarto, Justin estava largado de barriga pra cima na cama, roncando alto, só de cueca e com um tênis ainda no pé direito. Em cima dele, uma faixa vermelha escrita “GROOM’S CREW” (equipe do noivo).

Anthony dormia encolhido numa poltrona, abraçado ao abajur como se fosse um travesseiro. Ryan estava estendido no carpete, com metade do corpo dentro do banheiro. Luke… bom, Luke não estava no quarto.

- Alguém… me mata. -falei sozinho, tentando sentar, mas o mundo girou e tive que deitar de novo.

A porta do quarto se abriu com um estrondo. Era Luke. Entrou com óculos escuros enormes, um copo de café na mão e a cara mais carrancuda do universo.

- Vocês são doentes. -ele disse, a voz rouca.- Sabe onde eu acabei dormindo? No saguão do hotel. Porque esqueci que andar a gente tava.

Justin se mexeu, ainda meio dormindo.

- Essa foi… uma noite lendária. -murmurou, com um sorriso bêbado.- O Tobias teria orgulho.

- Cala a boca, Justin. -Luke jogou o copo de café na mesa.- A Mel me mandou vinte mensagens. Se ela descobre onde a gente esteve, eu tô morto.

Eu suspirei, passando as mãos pelo rosto. O gosto horrível de álcool ainda estava na minha boca.

- O que aconteceu… depois que... que eu apaguei? -perguntei, temendo a resposta.

A pergunta ficou pairando no ar, pesada como a minha cabeça. Luke tirou os óculos escuros, me encarou com olhos vermelhos e cansados, e deu um gole amargo no café.

- O que aconteceu? -ele repetiu, com um riso sem humor.- O que aconteceu foi o apocalipse, Luan. O apocalipse com trilha sonora eletrônica e cheiro de champanhe barato.

Ele se jogou na outra poltrona, e Anthony começou a se mexer na sua, acordando com um gemido.

- A gente te trouxe da limousine pra cá. -Luke começou a contar, como se estivesse listando os crimes de um réu.- O Justin, no auge da sua sabedoria, disse que o "noivo ferido" merecia a melhor suíte do hotel. Então, cá estamos. A gente te jogou nessa cama e achou que a noite tinha acabado.

Ryan, do chão do banheiro, levantou a cabeça.

- Mas eu achei um desperdício! Uma suíte desse tamanho, em Vegas... a noite não podia acabar! -ele disse, com um orgulho doentio na voz.- Então eu tive uma ideia genial.

- Genial. -Luke bufou, sarcástico.- O gênio aqui foi pra varanda e começou a gritar pra rua: "FESTA NA SUÍTE 2401! O LUAN SANTANA VAI CASAR E A BEBIDA É DE GRAÇA!".

Eu fechei os olhos. A dor na minha cabeça pareceu piorar.

- Você não fez isso...

- Ah, ele fez. -Anthony gemeu, sentando-se e segurando a cabeça com as duas mãos.- Em dez minutos, esse quarto parecia a estação Times Square - 42nd Street em horário de pico. Tinha gente de todo tipo. Um cara vestido de gladiador, umas três dançarinas que a gente tinha visto no clube, um mágico que tentava fazer truque com as garrafas...

- E aí apareceu o baseado. -Luke continuou, o olhar perdido.- Não era um baseado normal, Luan. Era do tamanho do meu antebraço. Uns trinta centímetros. Um cara com um chapéu de cowboy bolou aquilo nessa mesinha de centro e começou a passar de mão em mão.

Uma imagem turva, como um flash, explodiu na minha mente. A fumaça, a sensação de algo sendo colocado na minha boca...

- Eu... eu acordei? -perguntei, a voz fraca.
- Acordou! -Ryan confirmou, animado.- Você sentou na cama, com os olhos virados, deu um trago que quase engoliu o negócio inteiro e...

- E vomitei de novo. -completei a frase, a memória nojenta voltando com tudo. 

- Sim, e em cima do gladiador. -Anthony respondeu, sério.- E foi aí que a briga começou.

- Espera, a briga não foi por causa disso. -Luke corrigiu.- A briga começou porque um cara de camisa florida falou bem do atual governo.

Olhei para o Anthony, que tinha o nó dos dedos da mão direita ralado.

- Você saiu no braço com um cara por causa de política? Anthony, você nem entende de política!

- Eu sei! -ele se defendeu, indignado.- Eu nem sei quem é o presidente atual dos Estados Unidos! Mas o cara era chato, a camisa era feia, e eu senti que era meu dever cívico defender... a democracia... ou sei lá o quê!

Eu estava em choque.

- E onde vocês estavam enquanto tudo isso acontecia? -perguntei, olhando do Luke para o Ryan.

- Eu fui atrás do Justin pra pedir ajuda. -Luke disse.- Ele tava com essa faixa de "GROOM'S CREW", pulando em cima da galera como se estivesse num show de rock. Quando eu disse que você tinha vomitado de novo, ele gritou "OPERAÇÃO LIMPEZA!" e te arrastou pro chuveiro.

Outro flash. Água fria. Eu de terno. A voz do Justin cantando "Singing in the Rain".

- Ele me enfiou no chuveiro de roupa e tudo?

- Sim! -Anthony confirmou.- Enquanto isso, o Luke tentava expulsar cinquenta pessoas estranhas do quarto, e eu fui atrás de uma roupa seca pra você, porque a sua... bem, era perda total.

- E você voltou com... um terno? -perguntei, olhando para a roupa amassada que eu vestia.

- Achei que um terno passava uma imagem de classe, pra contrastar com o vômito. -ele explicou, com uma lógica impecável de bêbado.

- E você? -perguntei ao Luke.- Por que dormiu no saguão?

- Porque depois de expulsar todo mundo, eu desci pra tomar um ar, o segurança não me deixou subir de novo porque eu não lembrava o número do quarto, e eu apaguei num sofá perto dos elevadores. -ele respondeu, tomando o resto do café de uma vez.

Um silêncio pesado caiu sobre o quarto. A história era ainda pior do que eu imaginava. Olhei para o Justin, que se virou na cama e abraçou o travesseiro.

- O Tobias... -ele murmurou, sonhando.- Ele teria amado essa festa...

Eu deixei minha cabeça cair de volta no travesseiro, derrotado.

- Maconha? -repeti, a palavra saindo com um gosto amargo da minha boca.- Eu fumei maconha? Eu nunca curti isso, o cheiro me dá dor de cabeça.

- Pois é, parece que ontem você era um fã ardoroso. -Luke disse, sem um pingo de simpatia, enquanto bebia mais um gole de café.- Mas quer saber? Esquece o baseado. A noite foi muito pior do que só isso.

Ele pegou o celular, como se estivesse abrindo um arquivo de provas de um crime.

- Lembra quando a Mel me mandou o áudio na balada? E o Justin, o gênio da comunicação, respondeu aquela idiotice?

Assenti com a cabeça, o que foi um erro grave. A martelada no meu cérebro voltou com força total.

- Lembro... vagamente.

- Então. -Luke continuou, a voz carregada de ressentimento.- O áudio dela não era pra me cobrar nada. Era pra contar, toda eufórica, que ela tinha contratado um gogoboy pra despedida da Marina. Disse que era só zoeira, que tava muito engraçado e que a Marina tava morrendo de rir.

- Ah... -foi tudo que consegui dizer.

- Pois é. Só que aí, o seu cunhado ali -ele apontou com o queixo para o Justin, que roncava na cama- achou que seria uma ótima ideia mandar aquele áudio estúpido sobre eu estar "estudando a geografia de Vegas". A Mel, obviamente, ficou puta. Achou que a gente tava escondendo o jogo. Então, pra se vingar, ela mandou isso.

Luke virou o celular na minha direção. A tela mostrava uma foto. 


- Depois da foto -Luke continuou, guardando o celular-, vieram vários áudios dela xingando o Justin de todos os nomes possíveis por ser um idiota, e me xingando por ser cúmplice do idiota.

A minha cabeça, no meio daquela confusão de ressaca, maconha e glitter, travou em um único ponto. A briga, os xingamentos, o áudio do Justin... nada disso importava.

- Espera aí. -interrompi o Luke, tentando me sentar na cama. O mundo girou, mas eu forcei.- Para tudo.

Eles me olharam, confusos.

- O quê? -Anthony perguntou.

Eu olhei para o celular do Luke, depois para o nada. A imagem da foto estava gravada na minha retina.

- Um gogoboy?

Luke piscou, sem entender meu foco.

- Sim, Luan, um gogoboy. Você não ouviu a parte em que a Melanie quer arrancar nossas cabeças?

Ignorei a pergunta dele. A informação processava lentamente no meu cérebro danificado pelo álcool.

- Um dançarino... sem camisa... pra Marina?

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Marina Narrando Já era segunda-feira e minha cabeça estava a mil. Eu caminhava pelos corredores do estúdio com uma mão apoiada na barriga já bem arredondada e um café descafeinado na outra, tentando organizar todos os pensamentos que martelavam desde o fim de semana. Eu ter voltado com o Luan… ainda parecia surreal. Quando deitamos no sofá ontem à noite e ele me puxou pra perto, me chamando de “minha namorada” com aquele sorriso bobo, eu senti um alívio no peito que não sabia que precisava. Mas também… tinha o outro lado. O post sobre a Bruna e nossa amizade, explodindo nas redes sociais. Eu vi cada comentário de ódio direcionado a ela e era revoltante. Pior ainda porque, embora os fatos estivessem todos distorcidos, eles não eram totalmente mentira.  Quando cheguei à sala de reunião no set, já estavam todos lá. O elenco completo, produtores, roteiristas, técnicos. Era aquele burburinho animado de sempre, todo mundo empolgado porque a divulgação do segundo filme já ia começar, com ...

Capítulo 91

Luan Narrando  Eu senti meu peito subir e descer rápido, ainda sem conseguir me afastar dela. Marina tava ali, entre os meus braços, a respiração dela quente contra a minha pele, e tudo em mim gritava pra não soltar. Aquela boca… aquele gosto dela… eu não lembrava quanto era viciante até provar de novo. Me sentei melhor no sofá, trazendo-a junto, acomodando-a no meu colo com cuidado por causa da barriga. Ela deixou escapar um riso nervoso quando ajeitei as mãos na cintura dela, quase como se pedisse permissão outra vez. - Você fica linda assim… -murmurei perto do pescoço dela, sentindo o cheiro do cabelo, descendo uma mão até descansar na curva do quadril.- …tão linda que eu fico até meio burro. Ela soltou uma risadinha, mas arfou quando minha mão subiu devagar pelas costas dela, desenhando a curva da coluna por baixo da blusa. Eu sentia a pele dela arrepiar debaixo dos meus dedos. - Luan… -ela murmurou, meio que em protesto, mas sem força nenhuma pra realmente me parar. - Shhh… -p...