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Capítulo 85

Marina Narrando

Fiquei ali por tempo demais.
Tempo demais ouvindo pedidos de desculpas que pareciam vazios. Tempo demais revivendo dores que eu passei semanas tentando enterrar. Tempo demais me segurando pra não gritar.

Meus braços estavam cruzados, minhas pernas doíam por estar tanto tempo em pé, mas nada doía mais do que o peito. O olhar de Bruna, suplicando por perdão, me rasgava. E Luan... aquele silêncio dele, aquela decepção estampada no rosto, só me lembrava do quanto eu amei esse homem. E do quanto ele não confiou em mim.

Soltei o ar devagar.
Chega.

Sem dizer uma palavra, me movi. Abri a porta devagar, como quem não quer chamar atenção, mas todo mundo me olhou.
Passei por eles como se fossem estranhos.
Nem uma despedida. Nem um "tchau".

Fechei a porta atrás de mim, firme. Respirei fundo no corredor. Andei até o elevador com passos calmos, mesmo sentindo que estava desmoronando por dentro.

Apertei o botão. Luz acesa. Espera.

E ali, sozinha, sem olhares, sem cobrança, sem ter que ser forte pra ninguém... desabei.

As lágrimas começaram a cair, silenciosas, quentes, sem alívio.
Era dor. Decepção. Raiva. Saudade.

Saudade de mim.
De quem eu era antes de tudo isso.

Quando as portas do elevador se abriram, enxuguei rapidamente o rosto.
Respirei fundo.
E entrei.

Porque, mesmo quebrada, eu ainda era eu.
E agora... tinha um bebê pra cuidar.
Por mim.
Por ele.
E por mais ninguém.

1 semana depois...

Uma semana se passou desde aquela conversa tensa.
Eu precisava respirar. Pensar.
Me reconectar comigo mesma.

Passei os últimos dias na Filadélfia, com minha mãe. Dormi no meu antigo quarto, comi a comida dela, saímos pra caminhar no parque... por alguns momentos, parecia que o mundo tinha desacelerado. E eu precisava disso, principalmente agora que tinha outro coração batendo dentro de mim.

Hoje é sábado, 5 de setembro.
Peguei um trem de manhã e voltei pra Nova York. Não queria perder a festa da Virgínia no dormitório dela. Era a comemoração dos seus vinte anos — que ela completaria amanhã, mas decidiu comemorar hoje.

Eu, Virgínia e Olívia estávamos no shopping, tentando encontrar a roupa perfeita pra noite. Estávamos há mais de uma hora entrando e saindo de provadores, rindo de algumas peças ridículas e comentando de outras que eram "perfeitas, mas muito caras".

- Esse vestido vinho tá a sua cara, Marina! -disse Olívia, puxando um cabide.

- Eu gostei... -sorri de canto, mas levei a mão à barriga.- Só não sei se vou conseguir usar algo muito justo. Tô de doze semanas e hoje acordei enjoada.

- Você ainda vai vir mesmo se tiver passando mal? -Virgínia perguntou, rindo.

- Claro! -falei, tentando sorrir.- Amanhã já volto pra Los Angeles. Preciso passar esse tempo com vocês. De verdade.

Depois das compras, seguimos pra nossa cafeteria preferida na Quinta Avenida.
Escolhemos uma mesinha na calçada, nossa tradicional, perto da árvore com as luzinhas penduradas, e fizemos nossos pedidos. Eu peguei um croissant e um suco de abacaxi com hortelã. Nada de café — o cheiro me embrulhava o estômago ultimamente.

Enquanto esperávamos, o papo ficou mais sério.
Virgínia olhou pra mim com aquele olhar de quem mediu as palavras antes de soltar:

- Amiga... você tem certeza que vai manter essa gravidez? -ela não disse em tom de julgamento, mas de preocupação real.- Digo... você ainda tá no começo. Se decidisse por outro caminho, ainda dá pra fazer de forma tranquila.

Fiquei em silêncio por um instante.
Peguei o canudo, mexi o suco.

- Eu vou manter, sim. -respondi, olhando pra ela com calma.- Já pensei muito nisso, mais do que vocês imaginam. Não é só sobre mim. É sobre o bebê também.

Olívia assentiu com a cabeça.

- A gente vai te apoiar em tudo. Sempre. Mas... a gente precisa ser sincera. Não conseguimos ver muita diferença entre o Luan e o Victor.

Virei o rosto.
Aquilo me pegou desprevenida.

Virgínia se inclinou pra frente.

- O Victor sempre gostou de você. Ele nunca escondeu, nunca teve vergonha, te assumiu, te esperou. Ele sabia que você ainda amava o Luan, e mesmo assim ficou.

- E o Luan? -continuou Olívia.- O Luan sempre teve esse orgulho. Esse jeito de se afastar quando mais precisava se aproximar. 

Virgínia completou:

- Desde o começo ele nunca gostou de verdade. Sempre fugia de você, esperou te ver com outro pra daí tomar uma atitude.

Aquilo doeu.

Tentei respirar fundo, mas a garganta fechava.
A gravidez me deixava ainda mais sensível, mais vulnerável.

- E tem outra coisa. -disse Olívia, baixando a voz.- Quando vocês começaram a namorar... você mudou. Não no sentido ruim, mas... você sumiu. Se afastou. Parou de brilhar.

- Você perdeu sua identidade. -Virgínia disse, direto.- A Marina confiante, livre, que a gente conhecia... virou a "namorada do Luan Santana". E quando o relacionamento acabou, você ficou sem chão porque tinha colocado ele no centro da sua vida.

Fiquei em silêncio.
As palavras delas eram duras. Mas verdadeiras.
Eu precisava ouvir.
E doeu.

Abaixei o olhar e acariciei minha barriga por instinto.

- Eu só quero ser boa mãe. -sussurrei.- Não sei se vou ser boa em mais nada, mas... nisso eu quero acertar.

As duas me olharam com carinho.
Virgínia pegou minha mão por cima da mesa.

- E você vai ser.

- A melhor. -completou Olívia, sorrindo.- Mas nunca esqueça de ser boa pra você mesma primeiro.

Sorri, mesmo com os olhos cheios d’água.

Mais tarde...

O enjoo tinha passado, graças a Deus. Eu tinha me forçado a comer algo antes de sair e acho que isso ajudou. Estava me sentindo um pouco mais disposta — não 100%, mas o suficiente pra curtir um pouco a noite com minhas amigas.

O dormitório estava lotado. Gente por todos os lados, música alta, cheiro de álcool, perfume e pizza misturados no ar. Era aquele típico ambiente de festa universitária: copos vermelhos, playlists do Spotify, risadas altas, uma ou outra dança estranha no canto do cômodo.

Vi muitos rostos conhecidos, e alguns que eu não fazia ideia de quem eram. Mas, pra minha surpresa, minha irmã Melanie estava ali também.
Ela estava com duas amigas que eu não conhecia, encostadas perto da janela, rindo de algo no celular. Assim que me viu, ela levantou a sobrancelha e me lançou aquele olhar clássico de “você aqui?”. Respondi com um sorrisinho, e ela apenas desviou os olhos. Sutileza sempre foi o ponto forte da Melanie…

Meus olhos então encontraram o Harry, que pelo jeito tinha voltado com a Chloe. Ele me cumprimentou de longe com um aceno breve, mas amigável. Chloe, por outro lado, revirou os olhos como se minha simples presença fosse um incômodo astronômico.
Ok, nada fora do esperado.

Gabriel também estava por ali, recostado numa das estantes, com uma cerveja na mão. Me viu, sorriu com simpatia e acenou de leve. Respondi com um aceno igual.

Mais adiante, quase perto da cozinha do dormitório, estavam Lauren e Alicia.
Alicia sorriu ao me ver, com aquele brilho de sempre no olhar.
Lauren… deu um aceno sem graça, o tipo de cumprimento que a gente faz pra não parecer mal-educada, mas deixando claro que não pretende se aproximar.
Não que eu quisesse. Era só estranho ver tanta gente que fez parte da minha vida antes. 

Num canto do dormitório, vi uma roda se formando — e claro, lá estavam eles: Anthony, Virginia, Olívia e Ryan, fazendo um “ritual” que eles mesmos tinham inventado. Uma sequência meio ridícula e engraçada com shots de vodka, gritos coordenados e uma espécie de dancinha improvisada.
Eles me viram, e Virginia logo me chamou com um gesto exagerado. Sorri e acenei, sinalizando que já ia. Eu gostava daquele nosso grupinho.

Mas foi quando me virei para pegar uma água que os vi: Josh e Zack.

Os dois estavam encostados perto da porta da varanda, conversando com mais dois caras que eu não conhecia.
Zack foi o primeiro a me notar — ele me olhou e deu aquele sorriso simpático de sempre. O mesmo sorriso que já tinha enganado muita gente.

E então, Josh virou o rosto na minha direção.

Ele paralisou. Literalmente.
O copo que estava levando à boca ficou suspenso no ar.
Seus olhos travaram nos meus, e dava pra ver na cara dele o desconforto imediato.

Eu respirei fundo.
A cena da última vez em que nós tivemos contato veio como um flash: ele tentando me beijar à força, eu empurrando ele, gritando, e Luan aparecendo do nada e acertando um soco nele. Foi um caos.
Luan ficou furioso, eu também, Josh ficou com um corte no supercílio…
E depois disso, nunca mais nos falamos.

Mas… fazia tempo. E sinceramente?
Eu já tinha acumulado traumas demais pra carregar mais esse nas costas.

Então, dei um sorrisinho discreto.
Um daqueles sorrisos de “tá tudo bem, deixa pra lá”.
Josh pareceu surpreso. Sorriu de volta, com um alívio visível.
Desviou o olhar rapidamente, e eu fiz o mesmo.

Voltei meus passos em direção à roda da Virginia, onde e entregaram um shot de suco de cranberry (sem álcool) e um abraço coletivo.

- Eu tô tão feliz que você veio. -Virgínia disse, com os olhos brilhando de emoção bêbada.

- Eu precisava disso. -respondi.

A festa estava no auge. A música alta vibrava no chão, e as luzes coloridas refletiam nas garrafas da bancada da cozinha. Pessoas dançavam apertadas no meio da sala. Eu me encostei na parede, observando a cena com um sorriso nostálgico.

E então… eu senti.
Alguém me observando.

Virei devagar e lá estava ele.
Josh.

Parado a uns dois metros de mim, com o copo na mão, sem mais ninguém ao lado.
Seus olhos encontraram os meus de novo, e dessa vez ele não desviou.
Respirei fundo. Ele se aproximou.

- Marina... -ele começou, parando a um passo de distância.- Obrigado por ter sorrido pra mim mais cedo.

- Achei que merecia isso. -respondi.- Todo mundo merece um recomeço.

Ele sorriu, meio sem jeito, e coçou a nuca.

- Eu sei que fui um idiota. Naquele dia… eu extrapolei, passei dos limites. Eu só queria te pedir desculpas de novo. Por tudo.

Assenti, encarando ele com calma.

- Tá tudo certo, Josh. De verdade. Eu já carreguei culpa demais por coisas que nem eram minhas. Não quero mais isso pra mim.

- Você… tá linda. -ele soltou, num impulso.- Quer dizer, você sempre foi. Mas agora tem um brilho diferente.

- Deve ser a gravidez. -brinquei, rindo baixo.

Ele riu também. Um riso leve, genuíno.
Por um instante, ficamos em silêncio. A música tocando ao fundo era “Hold On, We’re Going Home” do Drake, meio abafada pelas conversas.

- Posso te perguntar uma coisa? -ele disse.

- Pode.

- Você tá bem… de verdade?

Demorei alguns segundos antes de responder.

- Ainda não. Mas tô tentando.

Ele assentiu devagar, me olhando com mais doçura do que eu esperava. E antes que eu pudesse desviar o olhar, ele deu um passo à frente.

- Eu não sou mais o mesmo idiota de antes. Só queria que você soubesse disso.

Fiquei parada, coração acelerado. A mente dividida. Mas naquele momento, com aquela música, aquela luz quente e todo mundo em volta vivendo como se não houvesse amanhã…

Eu o encarei nos olhos.
E soltei:

- Agora… você tem permissão pra me beijar.

Josh não precisou de mais nada.
Seus olhos brilharam com a minha fala. Ele se aproximou devagar, respeitoso, e me beijou.
Foi um beijo leve no início, quase como se ele estivesse esperando que eu mudasse de ideia.
Mas eu não mudei.

Fechei os olhos e deixei acontecer.
Era um beijo com gosto de liberdade. De recomeço. De “não sei no que isso vai dar, mas quero viver o agora”.

Quando nos afastamos, ele ainda segurava minha mão.
Sorri.
E ele também.

Ainda senti o gosto do beijo dele nos meus lábios quando a batida da música mudou. Uma das minhas favoritas — "Levitating", da Dua Lipa — começou a tocar, e automaticamente meus ombros começaram a se mexer no ritmo.

- Eu amo essa música! -gritei pra Virgínia, que já estava no meio da pista improvisada da sala, pulando como se o mundo fosse acabar.

Ela me fez sinal com as mãos, tipo “vem logo”, e eu só soltei a mão do Josh com um sorriso e falei: 

- Eu vou dançar.

Josh deu um sorriso compreensivo, assentindo com a cabeça, e voltou pra perto do pessoal dele. Respirei fundo, ajeitei minha blusa cropped e fui. Me juntei a Virgínia, Olívia e duas outras garotas que estavam rodando e dançando em volta da mesinha de centro da sala.

Meu corpo se movia sozinho. Era como se por alguns minutos eu tivesse esquecido tudo: os problemas com a Bruna, a mágoa com o Luan, as decepções, o enjoo constante da gravidez. Eu só queria me sentir viva de novo. E ali, com aquelas luzes coloridas, o som alto e minhas amigas rindo, eu me sentia.

Levantei os braços, joguei o cabelo pro lado, e deixei que a batida da música tomasse conta de mim.

- ISSO SIM É UMA FESTA! -gritou Olívia, me puxando pela mão e girando comigo no meio da sala.

- Tô viva, caralho! -falei, rindo alto, meio sem pensar, e senti algumas pessoas aplaudirem e rirem também.

Até Melanie apareceu na pista, filmando tudo pro Instagram com um “olha ela, gravidinha e dançando mais do que todo mundo!”. Eu fiz pose, mandei beijo pra câmera e voltei a dançar.

Chloe me olhava de longe, claro, com aquele olhar julgador padrão. Mas pela primeira vez, eu não ligava.

A vida era agora.

E eu tava pronta pra viver.

[...]

A festa já tinha passado daquele ponto onde todo mundo estava bêbado o suficiente pra esquecer de tudo no dia seguinte — e sinceramente? Ainda bem. Eu mesma… bom, não bebi nada alcoólico, claro, mas fiquei com dois caras diferentes naquela noite. E zero arrependimentos. Me sentia livre, bonita, poderosa. Coisa rara nos últimos tempos.

Agora, eu estava sentada em puffs com Olívia e Virgínia, meio jogadas ali. As três usando tiarinhas de coroa que ninguém sabe de onde a Virgínia tirou, mas ela distribuiu como se fosse a fada madrinha da realeza universitária.

Virgínia tava completamente bêbada, jogando o corpo pra frente e pra trás, cantando uma música aleatória.

Olívia segurava um shot de vodka na mão, girando o copinho entre os dedos e me olhando como quem diz “ainda bem que você é a grávida da vez”.

- Eu tô me sentindo a própria Beyoncé com essa tiara. -falei, dando uma ajeitada dramática no acessório de plástico.

- Você tá mais pra Beyoncé versão baby bump. -Olívia respondeu, rindo.

Foi então que Anthony apareceu, com aquele sorriso de quem tá aprontando. Ele segurava o celular e falou:

- Faz uma pose aí, majestades! Quero registrar esse momento histórico.

Nós três ajeitamos o cabelo e fizemos caras e bocas. Clique. Ele tirou a foto e começou a digitar algo no celular, mas em vez de mostrar o resultado, guardou o aparelho no bolso.

De repente, ele se ajoelhou ali mesmo, no meio da sala, entre garrafas vazias, sapatos perdidos e glitter no chão, e soltou:

- Virginia Weston Yeardley, quer namorar comigo?

Eu e Olívia trocamos um olhar instantâneo que dizia tudo:

WTF???

Foi tipo um surto coletivo silencioso.

- VOCÊ TÁ BRINCANDO? -gritou Virgínia, olhando pros lados, achando que era uma trollagem.

Mas Anthony só deu um sorriso bobo e balançou a cabeça.

- Tô falando sério.

Ela deu um berro de “SIMMMM!” que deve ter acordado a Columbia inteira.

Ela pulou nele com tanta força que os dois caíram no chão — uma cena meio Titanic versão universitária, meio desastre amoroso, e completamente hilária. Ficaram os dois ali, rindo e se abraçando no chão, com a coroa torta na cabeça da Virgínia.

Eu desabei na gargalhada.

Fazia tanto tempo que eu não ria assim, sem culpa, sem pensar em nada além da hora.

- Meu Deus, o que tá acontecendo? -perguntei rindo, com a mão na barriga, enquanto Olívia também se curvava de tanto rir.

A pista ainda vibrava com alguma música pop animada quando, no meio das luzes piscando, eu o vi.

Luan.

Ali.

Parado, com uma jaqueta preta e o maxilar travado, como se estivesse prestes a explodir. Os olhos dele varriam o ambiente como se estivesse à procura de algo. Ou alguém.

Quando nossos olhares se cruzaram, o coração disparou. Ele veio em minha direção com passos firmes e intensos, cortando as pessoas ao redor sem dizer uma palavra. Parou bem na minha frente, e nem esperou um oi.

- Vamos embora. Agora.

O clima ao meu redor congelou. Virgínia e Anthony, que ainda estavam no chão, pararam de rir na hora. Virgínia se levantou do chão, ainda com a tiara torta na cabeça.

- Que isso, Luan? Relaxa. Curte a festa.

Ele simplesmente ignorou.

- Eu tô falando com você, Marina. Vamos embora. -repetiu, encarando meus olhos como se tivesse todo o direito do mundo sobre mim.

- Você não é ninguém pra mandar em mim. -falei, firme, cruzando os braços, sentindo a respiração dele pesar.

Ele suspirou. Fechou os olhos por um segundo como se estivesse contando até dez pra não explodir ali.

- Você tá grávida. Você não pode estar aqui, nesse tipo de festa, fazendo esse tipo de... -ele parou, se contendo.

Anthony, que tava mais sóbrio do que eu esperava, se colocou entre nós.

- Luan, ela tá bem. Tá se divertindo. Tá com a gente. Tô cuidando dela.

Luan me encarou de novo.

- Se você não for por bem… vai por mal.

- Vai se foder, Luan. -falei, com ódio.

Foi a última coisa que consegui dizer antes de sentir o braço dele me puxando. Um segundo depois, ele me virou e me jogou sobre os ombros dele, como se eu fosse uma mochila qualquer.

- Luan, ME SOLTA, SEU FILHO DA PUTA! -comecei a gritar, me debatendo.

Minhas mãos socavam as costas dele com toda força que consegui, a tiara de coroa caindo da minha cabeça, as pessoas abrindo espaço, rindo, gravando. Eu ouvi vozes dizendo "Gente, que isso?!" e alguém até perguntou se era alguma pegadinha.

Mas pra mim?

Era humilhação.

Ele só foi me soltar quando chegamos na frente do carro dele, já fora do campus. Me colocou no chão com uma expressão de raiva contida.

E foi aí que a minha fúria explodiu de vez.

Bati com força no peito dele, com um soco que eu queria que doesse tanto quanto o que ele tava me fazendo sentir.

- SEU LIXO! SEU IDIOTA! QUE MERDA É ESSA QUE VOCÊ FEZ?!

Eu comecei a bater nele com as mãos, com tapas rápidos, descontrolados.

- VOCÊ ACHA QUE EU SOU O QUÊ, HEIN?! UMA POSSE SUA?! EU NÃO SOU NADA SUA, LUAN! NADA!

Ele segurou meus braços, mas sem agressividade. Estava respirando fundo, olhando pra mim com uma mistura de frustração, dor e desprezo.

- É. Mas você com certeza ia dar pra alguém hoje. Então respeita o nosso filho que tá na sua barriga!

Aquilo foi como um soco no estômago. Me fez congelar.

- Você é desprezível. -minha voz saiu mais baixa.- Eu te odeio. Eu fui burra. Louca por ter me apaixonado por você. Você me destruiu, Luan.

- Eu tô tentando impedir que você se destrua ainda mais. -ele respondeu, quase num sussurro. Mas pra mim? Era só cinismo.

- Você é um erro. Um erro que eu vou carregar pro resto da vida.

Virei de costas, completamente tremendo, as lágrimas escorrendo. Não de tristeza — de raiva

Eu andava rápido, limpando o rosto molhado com a manga da minha jaqueta. As luzes da rua me cegavam, e eu só queria achar um táxi, um buraco, qualquer coisa que me tirasse dali.

Mas eu ouvi os passos. Pesados, firmes.

Ele tava vindo atrás.

- Marina, volta aqui. -a voz dele soou mais baixa agora, ofegante.

- Me deixa em paz! -gritei, sem olhar pra trás, acelerando ainda mais o passo.

- Você tá grávida, caramba! Você não vai sair sozinha pela cidade nesse estado. Vai pra onde?! Hein?

- Qualquer lugar! Longe de você!

Ele correu até me alcançar e segurou meu braço. Eu tentei soltar, mas ele não largou.

- Me solta! -gritei, me debatendo.

- Eu não vou te deixar sozinha. Não vou mesmo. Você pode me odiar, me xingar, dizer que se arrepende de tudo, mas você tá esperando um filho meu, e eu não vou permitir que você ande pelas ruas assim, chorando, sem rumo!

- É ISSO QUE VOCÊ NÃO ENTENDE, LUAN! EU NÃO QUERO VOCÊ! EU NÃO QUERIA NEM TER TE CONHECIDO!

As palavras saíram num grito, num rompante de dor que eu já não conseguia mais segurar. Minhas pernas fraquejaram, e foi ali, naquela calçada, com o frio da noite encostando nos meus ossos, que eu desabei.

- Você destruiu tudo em mim. Você arrancou a Marina que eu era.

Ele ficou parado por um segundo. Eu podia ouvir a respiração dele, pesada, tentando se controlar.

E aí, ele me puxou devagar, com cuidado, até meu rosto encostar no peito dele.

Não resisti.

Eu chorei ali, com os punhos cerrados, batendo devagar contra o peito dele, como se isso fosse apagar alguma dor.

E então ele falou, a voz baixa, rouca, quebrada:

- Se eu sumisse... ou morresse... você ficaria feliz?

O mundo ficou em silêncio.

Eu não respondi.

Simplesmente não consegui.

Ele afastou o rosto, como se estivesse procurando nos meus olhos uma resposta que eu não queria dar.

- Só me responde isso, Marina. Você ficaria em paz se eu não existisse mais?

Fechei os olhos, deixando mais lágrimas caírem, sem conseguir dizer nada.

Ainda em silêncio, apenas sacudi a cabeça negativamente, devagar, sem forças pra responder com palavras.

- Eu não sei... -sussurrei enfim, com a voz falhando.- Eu não sei se eu ficaria feliz… mas talvez… talvez fosse mais fácil.

Luan fechou os olhos por um segundo. Engoliu seco. A testa franzida, o maxilar travado. Ele parecia machucado. Mas não disse nada de imediato.

Então, ele respirou fundo. Olhou pro céu por um instante e depois voltou a me encarar.

- Eu te amei tanto, Marina. Ainda amo. Mas parece que tudo que eu faço só te machuca. Só piora. -ele fez uma pausa, e completou, com a voz embargada:- E isso tá me matando por dentro.

- Então por que você duvidou de mim, Luan? -perguntei baixinho, encarando os olhos dele.- Por que você escolheu acreditar nos outros, e não em mim?

- Porque... -ele passou as mãos pelos cabelos, desesperado.- ...porque eu tenho medo. Medo de não ser suficiente. Medo de perder tudo. Medo de que você perceba que merece alguém melhor.

- Eu nunca te pedi perfeição. Eu só queria confiança.

Ele assentiu, como se soubesse disso, como se carregasse esse peso desde sempre.

- Quando você ficou com o Victor... mesmo depois do fim... eu ainda sonhava com a gente. E quando eu soube, quando ouvi da boca da Bruna, foi como se o chão tivesse sumido. Eu imaginei vocês dois juntos de novo e... a única coisa que pensei foi: “ela já me esqueceu”.

- Mas eu não tinha te esquecido. -soltei com raiva, limpando outra lágrima.- Eu me afastei porque achei que você não ia voltar. Que a gente tava mesmo acabado.

- E eu devia ter corrido atrás. Mas ao invés disso, eu fiquei puto. Fiquei ferido e... te deixei ir.

Silêncio.

O vento bateu mais forte, me arrepiando. Luan tirou a jaqueta preta dele e colocou sobre os meus ombros, como um reflexo. Não consegui recusar.

- Você quer me odiar, Marina, tudo bem. Você quer sumir, fugir, ficar com outros caras… eu entendo. Mas tem uma coisa que eu não vou fazer.

- O quê?

- Abandonar você. E nem nosso filho.

Ele se aproximou mais um passo.

- Eu vou estar aqui. Mesmo que seja do outro lado da rua. Mesmo que você não queira falar comigo. Eu vou te proteger. Porque esse bebê... é a melhor parte de nós dois. E ele merece tudo. Mesmo que a gente não fique junto.

Meu coração apertou.

- E se eu não quiser sua ajuda? Se eu disser que vou fazer tudo sozinha?

- Então eu vou ficar calado… mas eu vou continuar por perto. Nem que seja só pra te ver de longe e ter certeza de que você tá bem.

Meus olhos se encheram de novo.

- Por que você ainda me ama?

- Porque ninguém nunca me fez sentir o que você me faz. Nem mesmo quando me odeia.

As palavras dele ficaram suspensas no ar.

Eu não sabia o que responder.

Nem se queria responder.

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