Entrei no carro, tentando manter a mente focada, mas meu peito ainda estava um caos. Marina. Grávida. Eu não conseguia engolir aquilo. Mas agora não era hora de pensar nisso. Jack tava vindo. O meu sobrinho.
Bruna se acomodou no banco de trás e Justin foi na frente, ao meu lado. Eu sentia a tensão no ar, como se o próprio carro respirasse junto com a gente. Bruna já começava a fazer careta, apertando a barriga com uma das mãos.
- Tá começando? -perguntei, tentando manter a voz firme.
- Uma dorzinha… tipo cólica. -ela respondeu, tensa, mas tentando parecer forte.
Assenti e liguei o carro. Precisava chegar naquele hospital sem nenhum imprevisto. Dirigi com atenção, mas sem perder tempo. No silêncio entre a gente, só dava pra ouvir a respiração pesada da Bruna e os dedos de Justin tamborilando no celular.
De repente ele apertou a tela e levou o telefone ao ouvido.
- Tá ligando pra quem? -Bruna perguntou, mesmo já meio desconfortável com as dores que cresciam.
- Pra Marina. -ele disse sem pensar, mas eu vi seus olhos me espiando de canto, como se esperasse alguma reação minha.
Meus dedos apertaram o volante com mais força. Bruna também percebeu. Pelo retrovisor, vi os olhos dela encontrarem os meus. Foi um segundo só, mas intenso.
Desviei os olhos do retrovisor, concentrando na pista. Eu precisava segurar tudo aquilo dentro de mim.
Bruna soltou um gemido mais alto e Justin imediatamente desligou o celular, voltando-se todo pra ela.
- Respira, Bru… Vai dar tudo certo. Eu tô aqui, tá? -ele disse, pegando na mão dela.
- Eu sei… Bruna respondeu, mas a voz dela tremia.- Luan, tá longe ainda?
- Dez minutos. Aguenta firme, tá?
Acelerando um pouco mais, me mantive calado. O som da voz da Marina, da risada dela… da forma como os olhos dela fechavam quando ria… tudo martelando na minha mente. Eu queria que ela estivesse ali? Queria. Mas não sabia mais nem o que sentir.
Bruna olhou pra mim de novo. Dessa vez, seu olhar dizia algo a mais. Algo que eu não sabia se era compaixão ou cobrança.
E talvez… um pouco dos dois.
Estacionei o carro com um movimento rápido e preciso. Assim que desliguei o motor, saltei do banco e fui abrir a porta de trás. Justin já estava saindo apressado, pegando as malas com agilidade, mas Bruna não conseguia se mover com a mesma velocidade.
- Calma, Bruna. Tô com você. -disse, estendendo a mão pra ajudar.
Ela segurou firme. A testa franzida, os olhos levemente marejados. Agora dava pra ver que as contrações estavam pegando. Justin correu pro balcão da recepção assim que entramos no hospital, enquanto eu conduzia Bruna devagar.
- Nome da paciente? -a atendente perguntou.
- Bruna Domingos Santana. 38 semanas e 6 dias, bolsa rompida, contrações espaçadas, primeiro filho. -Justin respondeu tudo de uma vez, acelerado como um raio. Parecia ter decorado o prontuário dela.
A moça acenou, já chamando uma enfermeira. Bruna me olhou mais uma vez antes de sumir por aquela porta dupla com Justin ao lado. Vi quando ela apertou a mão dele com força, e ele a beijou na testa. Meu coração apertou também.
Fiquei ali, sozinho naquele saguão branco, sentindo a ausência deles preencher tudo.
Me afastei um pouco, encostando na parede. Respirei fundo, tentando absorver tudo. Jack. Meu sobrinho. Ele tava vindo mesmo. Era real. Quase surreal.
Minutos depois, ouvi passos apressados e vozes abafadas ecoando pelo corredor. E então, como se tivesse sido puxada de dentro de mim, ela apareceu.
Marina.
Ela entrou com a respiração ofegante, os olhos varrendo o ambiente até me encontrar. Estava com o cabelo preso num coque desfeito, uma blusa larga, sem maquiagem. Linda, mesmo no caos.
- Cadê eles? -ela perguntou, vindo direto até mim.
- Lá dentro. Levaram a Bruna pra sala de triagem. Justin foi junto.
Ela assentiu, mas os olhos me fitaram por mais tempo do que ela precisava. Eu queria dizer tanta coisa, mas tudo que saiu da minha boca foi:
- Você tá bem?
- Você deveria me perguntar isso?
Não era uma provocação. Era uma pergunta sincera. Marina sempre teve esse jeito direto, quase cruel — mas sempre real.
- Não… -respondi, abaixando os olhos.- Mas perguntei mesmo assim.
Ela respirou fundo. Olhou em direção às portas por onde Bruna tinha desaparecido e depois voltou pra mim. Eu não consegui segurar.
- Marina… sobre o que você me disse… eu ainda tô tentando entender tudo. É muita coisa, mas…
- Mas não é o momento, né? -ela completou por mim, com um pequeno sorriso sem graça.- Eu vim pelo Jack. A gente conversa depois.
Fiquei em silêncio, ela me olhou por mais um segundo, e não falou mais nada.
Ficamos ali, lado a lado, no corredor do hospital. Em silêncio. À espera de uma nova vida… e talvez, de um novo começo também.
[...]
As horas se arrastavam como se o tempo estivesse de luto, cada minuto mais pesado que o anterior. Eu e Marina continuávamos sentados na sala de espera, lado a lado, mas sem dizer uma palavra há pelo menos uma hora. Era como se o silêncio falasse mais alto do que qualquer coisa que pudéssemos dizer.
De vez em quando, ela entrelaçava os dedos nervosamente, olhava para o relógio e mordia o lábio inferior. Eu só observava. Tentava manter a cabeça no lugar, mas por dentro tudo estava girando. Minha irmã estava em trabalho de parto… meu sobrinho estava chegando. E eu não podia fazer nada além de esperar.
Duas horas depois, o som dos saltos apressados no chão encerrou o silêncio.
Uma mulher surgiu apressada pelo corredor e veio direto até Marina. Era morena, baixa, com os olhos azuis arregalados de preocupação. Ela nem precisou dizer nada. Só de ver o jeito como Marina a abraçou, eu entendi. Era Pattie. A mãe do Justin.
- Que bom que veio, Pattie. -Marina falou, tentando manter a voz firme.- Eles já entraram faz tempo e desde então estamos sem notícias.
- Eu vim o mais rápido que pude. -Pattie disse, ofegante.- Ele tava tão nervoso ao telefone… minha nossa… meu bebê vai ser pai…
Ela cobriu a boca com a mão, e Marina a abraçou de novo, sussurrando que ia dar tudo certo. Era estranho ver Marina nesse papel — tão calma, tão cuidadosa —, mas ao mesmo tempo… fazia sentido. Ela tava sendo a rocha da família enquanto tudo desabava ao redor.
Olhei o celular. Mais cinco mensagens da minha mãe.
"Vocês têm notícia? Como ela tá?
Luan, responde!
Não consegui voo antes, vou embarcar amanhã cedo e chegar só amanhã à tarde! Tô desesperada!!!"
Respondi o que eu podia, dizendo que ainda não tínhamos notícias, que Bruna estava sendo bem assistida, e que eu avisaria assim que soubesse de algo. Mesmo assim, vi os três pontinhos de digitação surgirem de novo no canto da tela. Ela não ia parar tão cedo.
O tempo passou mais um pouco. O céu, lá fora, já começava a ganhar tons dourados e alaranjados. A tarde ia embora. O mundo seguia, mesmo com a gente ali, preso numa bolha de espera.
Então, a porta da recepção se abriu de novo.
Era William, Ashley e Melanie.
Me levantei.
- William. -estendi a mão.
- Luan, meu rapaz! -ele me puxou pra um meio-abraço.- Já tem novidades?
- Ainda não.
Ashley cumprimentou Marina com um beijo no rosto. Depois veio até mim.
- Oi, Luan! Quanto tempo. Espero que esteja aguentando firme.
- Tentando. -respondi com um sorriso fraco.
Melanie, que parecia querer estar em qualquer outro lugar, ficou ao lado da Marina e segurou sua mão. A irmã mais nova, pela primeira vez, sem sarcasmo ou implicância. Marina retribuiu o gesto com um olhar acolhedor.
E ali estávamos. Todos reunidos, mergulhados naquele silêncio incômodo que só existe quando o coração tá mais agitado do que as palavras conseguem acompanhar. Marina segurava a mão da Melanie, Pattie caminhava de um lado pro outro e Ashley as vezes puxava uma conversa com William. Eu me mantinha sentado, encarando o chão, até ouvir o barulho da porta se abrindo novamente.
Levantei os olhos. Era o Justin.
Ele estava com o cabelo bagunçado, os olhos cansados. Caminhou até o bebedouro sem dizer nada. Pegou um copo de água e bebeu de uma vez só.
Todos os olhares se voltaram pra ele.
Marina foi a primeira a perguntar, com a voz suave:
- E aí? Alguma novidade?
Justin respirou fundo, se apoiou no balcão com as duas mãos e soltou:
- Ela ainda não dilatou tudo. Tá com sete pra oito. A médica disse que tá perto, mas ainda não é o suficiente pra ir pra sala de parto.
Pattie suspirou alto, e Melanie mordeu a unha, nervosa.
- Ela tá bem? -perguntei, me levantando.
- Tá… quer dizer, tão bem quanto alguém pode estar nesse momento. -ele tentou esboçar um sorriso, mas a expressão ainda era tensa.- Ela tá fazendo exercício com a bola, aquela de pilates, sabe? Pra ajudar a acelerar o processo. Eu tô lá o tempo todo com ela. Mas saí um minutinho porque ela pediu um suco de laranja… e eu precisava respirar.
Marina se levantou e foi até ele, colocando a mão no ombro do irmão.
- Você tá sendo incrível, Justin.
Ele assentiu, apertando os olhos por um segundo, como se segurasse o cansaço — ou as lágrimas.
- Falta pouco. A gente tá quase lá.
Olhei pra ele e assenti também.
- Quando Jack nascer, ele vai saber que teve um pai firme do lado da mãe o tempo todo.
Justin sorriu de verdade, pela primeira vez.
- Valeu, cara.
Ele olhou pra todos ali, como se buscasse forças nos nossos rostos, e voltou pro corredor com a garrafinha de suco que Ashley tinha comprado na máquina enquanto ele falava.
E a gente ficou ali, de novo em silêncio.
Mas dessa vez… era um silêncio com um pouco mais de esperança.
[...]
A madrugada chegou de mansinho, como se tivesse medo de interromper a tensão que pairava naquela sala de espera. O relógio da parede marcava quase três da manhã.
Ashley dormia encostada no ombro do William, os dois juntos num canto das cadeiras. Pattie andava de um lado pro outro, equilibrando o que parecia ser seu vigésimo copo de café. O cheiro amargo pairava no ar junto com a ansiedade. Melanie havia adormecido no ombro da Marina, e Marina… Marina tentava manter os olhos abertos.
Ela piscava devagar, os olhos vermelhos de cansaço, uma das mãos acariciando o cabelo da irmã, como se isso a mantivesse conectada com a realidade. O corpo dela tremia levemente — de frio ou de fome, talvez os dois.
Olhei pra ela mais uma vez e percebi: ninguém ali parecia saber da gravidez dela. Nem William, nem Pattie, nem Melanie. Ela estava guardando isso sozinha… carregando esse peso no silêncio. E eu sabia como isso podia ser cruel.
Levantei sem dizer nada e fui até a lanchonete do hospital. Por sorte, ela ainda estava aberta.
Comprei dois salgados — um de queijo e outro de frango — e um suco de laranja natural. Era o mínimo. Independente de o filho ser meu ou não, eu jamais deixaria a Marina passar mal. Isso nunca esteve em questão.
Voltei com a bandeja e caminhei até ela devagar. Quando me aproximei, ela me olhou como se não esperasse nada — o olhar de quem aprendeu a não esperar mesmo. Coloquei a bandeja ao lado dela, tentando não acordar a Melanie.
- Você tá o dia inteiro sem comer. -falei baixinho.
Ela franziu o cenho, surpresa. Olhou os salgados, depois pra mim.
- Luan…
- Shhh. Não precisa dizer nada. Só come, por favor.
Ela pegou o suco primeiro e bebeu aos poucos. Depois mordeu o salgado de queijo. Mastigava devagar, mas com fome.
Sentei ao lado dela, sem dizer mais nada. O silêncio entre nós dois era mais confortável que qualquer conversa.
A sala estava quieta demais, exceto pelos leves respiros de quem estava tentando manter os olhos abertos. Marina finalmente adormeceu. Ela se encostou na Melanie, ainda com a mão na barriga, os dedos puxando levemente a blusa, e parecia tão vulnerável ali, tão tranquila.
Eu não podia me deixar levar por isso. Mesmo com ela ali, tão próxima, dormindo… Eu não conseguia esquecer o que ela me fez. A raiva que ainda estava aqui, engasgada, me sufocava toda vez que ela me olhava. Ela me enganou, mentiu, e me fez acreditar em algo que, no fundo, eu sabia que não fazia sentido.
Não sou burro. Sabia que a história dela não fechava. Não podia ser meu filho. Não podia.
Quando vi que ela estava profundamente adormecida, aproveitei a brecha e, silenciosamente, fui até onde Marina tinha deixado a bolsa. Peguei o celular dela, sem que ninguém visse, e saí pela porta. Ninguém parecia perceber minha saída. Lá fora, a brisa gelada da madrugada me atingiu, e eu tomei um instante para respirar fundo.
A senha do celular de Marina ainda era a mesma de quando a gente namorava. Não sei por que, mas em um momento de fraqueza e raiva, o desejo de saber a verdade me levou a abrir o celular. Os dedos digitavam as teclas com raiva, mas também com uma necessidade imensa de respostas.
Abri os contatos e procurei pelo número do Victor. Quando encontrei, respirei fundo e liguei. Não me importei com a hora. Que fosse a madrugada, que fosse o que fosse. Eu precisava saber. Eu precisava que alguém me dissesse a verdade.
Quando o telefone atendeu, a voz sonolenta de Victor me fez sentir raiva.
- Sardenta? Tudo bem? Porque está ligando a essa hora? -ele falou, com a voz meio rouca, ainda desconcertado pelo sono.
Eu não me importei com a surpresa dele. Quase ri de nervoso.
- Não é sua sardenta, sou eu. -falei de forma seca, deixando o sarcasmo no ar. Victor pareceu se recompor, e a voz dele ficou mais séria.
- O que aconteceu com a Marina? -ele perguntou, curioso, provavelmente preocupado.
Eu não queria mais enrolar. Respirei fundo e joguei a bomba:
- Você sabe que a Marina tá grávida de você, Victor?
Ele ficou em silêncio por um momento, e eu podia ouvir a respiração dele do outro lado da linha.
- O quê? -a incredulidade na voz dele fez meu estômago revirar.
Eu ri, debochado, quase sem controlar a raiva. "Eu sabia que ele não sabia," pensei. "Ela me enganou com tudo."
Antes que eu dissesse mais alguma coisa, Victor falou, a voz mais firme agora:
- Luan, se toca. Eu e a Marina paramos de transar logo depois do lançamento do filme. Lá por final de abril. E se ela estivesse realmente grávida de mim, ela teria interrompido a gravidez. Já fez isso outra vez, não ia pensar duas vezes.
Eu fiquei parado, engolindo as palavras dele. O impacto de ouvir isso, de perceber que ele estava certo, me deu um choque.
Victor continuou, mas dessa vez, sua voz era mais tranquila, como se ele soubesse o que estava acontecendo:
- Mas se tem uma coisa que eu sei, Luan, é que ela teria um filho com você. Não duvido disso.
Eu estava imóvel, o celular pesado na minha mão. Ele tinha razão, e eu sabia disso. Tudo que eu pensava ter certeza estava começando a desmoronar, e no fundo, eu só queria que fosse diferente. Só queria que ela tivesse sido honesta comigo.
Fiquei em silêncio por um tempo. Não sabia se a raiva ainda estava ali, ou se agora era só a confusão tomando conta. Não sabia mais de nada. O que diabos eu estava fazendo, ligando pra Victor a essa hora? Eu estava apenas tentando entender, encontrar algum sentido. E talvez, no fundo, eu quisesse que a Marina me dissesse a verdade.
Quando a ligação acabou, eu fiquei ali por mais alguns minutos, olhando o telefone na minha mão, tentando juntar as peças do que estava acontecendo.
A tela iluminava meu rosto no meio da escuridão da madrugada. Era errado, eu sabia. Mas a essa altura, certo ou errado já não importava. Eu precisava entender. Precisava ver com meus próprios olhos.
Marina nunca foi do tipo que apagava mensagens. Ela sempre dizia que gostava de guardar tudo, até as dores. Talvez por isso, o celular dela era um campo minado de lembranças — e de respostas.
Enquanto eu fuçava, percebi que o meu contato estava bloqueado no WhatsApp dela. Dei uma risada seca. Claro que tava. Eu fui um babaca com ela. Quando vi que a Bruna também estava bloqueada, meu instinto gritou. Cliquei na conversa. A última troca de mensagens era de maio. Aquilo acendeu meu alerta. O que as duas estavam escondendo?
Comecei a ler.
Bruna:
A gente precisa resolver isso. De verdade. E não tô mandando essa mensagem pra relembrar a briga, nem pra discutir de novo. Só acho que se você ainda sente alguma coisa pelo Luan, deveria ser honesta com ele. Contar sobre o Victor.
Marina:
Não tô mais tendo nada com o Victor, então não tem nada pra contar.
Bruna:
Você acha mesmo que ele vai engolir essa? Que todo mundo vendo vocês dois grudados, e ele ouvindo os boatos por aí, vai acreditar que vocês estão só como colegas de elenco?
Marina:
E você acha que tem moral pra cobrar alguma coisa? Eu conto sobre o Victor se você contar pro Justin que transou com o cara que foi o motivo do término de vocês. E pior: grávida do filho dele.
Bruna:
Você não tem ideia do que tá falando.
Marina:
Sei sim. Tô falando com alguém que me chamou de cruel por algo que nem foi traição, mas esconde do próprio namorado que teve um remember com o cara que destruiu o relacionamento deles. E ainda grávida. Isso sim é crueldade, Bruna.
Bruna:
Eu tô tentando resolver. Você só quer jogar na cara.
Marina:
Você quis fazer isso comigo primeiro. Eu só tô devolvendo na mesma moeda.
Bruna:
Então pronto, Marina. Talvez a gente seja melhores afastadas mesmo. Porque sinceramente, eu não reconheço mais você.
Marina:
Fica tranquila. A distância me fez bem. Boa noite, Bruna.
Fechei o celular devagar. Minhas mãos estavam tremendo. Cada palavra daquelas mensagens queimava minha garganta.
E então, a voz dela veio como uma facada no meio do silêncio:
- Achou o que você queria?
Me virei de imediato. Marina estava ali, parada a poucos metros de mim. Os braços cruzados, os olhos cansados, mas firmes. Ela sabia. Sabia que eu estava mexendo no celular dela.
- Você tava me espionando? +perguntei, tentando não perder o controle, mas o tom saiu ríspido demais.
- Eu quem deveria dizer isso, quem tá com meu celular é você. -ela respondeu, seca.
- Por que você não me contou? Por que mentiu sobre o Victor? -perguntei, a voz falhando.
Ela respirou fundo, desviando o olhar por um segundo.
- Porque não era da sua conta. A gente terminou, Luan. Você deixou claro que não queria mais saber de mim.
- Você tá grávida, Marina. Grávida! E se o filho for meu? -minha voz subiu, o desespero escapando por entre os dentes.
Ela me olhou nos olhos, e pela primeira vez, não vi raiva neles. Vi tristeza.
- Esquece o que eu disse. Sobre o filho ser seu… eu me enganei, tá bom?
Fiquei paralisado. Aquilo me acertou como um soco.
- Como assim… se enganou?
- Isso mesmo que você ouviu. Eu me confundi. Me deixei levar pela emoção, pela vontade de que fosse você. Mas não é. Não precisa se preocupar. Você não tem obrigação nenhuma comigo ou com essa gravidez.
Ela tomou seu celular das minhas mãos, e virou de costas pra ir embora, mas eu dei dois passos à frente.
- Então você mentiu?
Ela virou o rosto, sem encarar diretamente.
- Menti.
E então, sem me dar mais tempo pra reagir, ela voltou pra dentro, deixando o ar frio e o silêncio me envolverem. A mentira dela tinha virado a minha tortura.
E agora, mesmo com a verdade ali na minha frente, tudo que eu queria era que fosse mentira.