Bruna Narrando
Terça-feira, 30 de Junho de 2026
O dia inteiro eu pensei em mandar uma mensagem pra Marina.
Pegava o celular, digitava um “Feliz aniversário”, mas apagava em seguida. Não parecia certo. Não depois de tudo que aconteceu entre a gente. Eu estava grávida, emocionalmente à flor da pele, e a última coisa que queria era me desgastar ainda mais fingindo que estava tudo bem quando não estava.
Suspirei, tentando me concentrar nas roupinhas do Jack. Separei mais um macacãozinho azul por tamanho, dobrando com cuidado, quando ouvi a voz do Luan vindo da sala. Parecia animado, rindo de alguma coisa.
Curiosa — e desconfiada —, deixei o quarto devagar, indo em direção ao som.
Luan estava deitado no sofá, o celular apoiado numa almofada e o rosto iluminado pela tela. Me aproximei sem ele perceber e, quando cheguei perto o suficiente, vi Marina em chamada de vídeo.
Ele desligou sorrindo, jogando o celular de lado no sofá.
Cruzei os braços e me encostei no batente da porta, sentindo um azedo subir pela garganta.
- Desde quando você e a Marina estão tão próximos de novo? -perguntei, não conseguindo esconder o tom meio arrogante da pergunta.
Luan me olhou rapidamente, como se tivesse sido pego no flagra. Depois deu de ombros, tentando parecer despreocupado.
- Liguei pra dar feliz aniversário pra ela. Só isso. -disse, como se fosse algo óbvio.
Franzi a testa, não convencida. Ele e a Marina mal se falavam nos últimos meses. E agora, videochamada carinhosa no meio da noite?
Cruzei os braços mais forte.
- Sei. Só isso.
Ele me encarou, meio impaciente, mas não respondeu. Só virou o rosto, voltando a olhar pro teto, perdido nos próprios pensamentos.
E foi aí que a ideia me atravessou como um raio. Um pensamento feio, mesquinho, que eu tentei afastar, mas que cresceu dentro de mim.
Se Marina tinha sido tão rápida pra se afastar de mim... talvez ela não tivesse sido tão inocente assim com o Luan.
Talvez aquela proximidade toda escondesse algo que eu nem queria imaginar.
E naquele momento, com as mãos sobre a barriga, eu soube que faria qualquer coisa pra proteger o que era meu. Mesmo que isso significasse abrir os olhos do meu irmão.
Mesmo que custasse mais do que eu pudesse imaginar.
Respirei fundo.
- Vocês... -comecei, tentando soar casual.- Vocês tão falando muito ultimamente?
Ele deu de ombros, como quem tenta se fazer de indiferente, mas eu conhecia meu irmão. Conhecia cada microexpressão dele.
- De vez em quando... -respondeu.- A gente se reaproximou um pouco, né...
- Um pouco quanto? -insisti, tentando não soar acusativa.
Luan passou a mão pelo cabelo, meio nervoso.
- No show de Caruaru, ela foi. A gente se viu... acabou que... depois do show... -ele parou, hesitando, e eu levantei as sobrancelhas, encorajando.- A gente foi pro hotel. Conversou bastante. Colocou algumas coisas pra fora... e... -ele baixou o olhar.- E rolou. A gente transou.
Eu fechei os olhos por um segundo, sentindo a raiva e a tristeza se misturarem no meu peito.
Era agora.
- Luan... -falei baixo, mas firme.- Eu preciso te contar uma coisa. E você precisa me prometer que vai ouvir até o final, tá?
Ele me olhou confuso, mas assentiu.
- Tá bom... fala.
Mordi o lábio, reunindo coragem.
- A Marina... -respirei fundo.- Ela não foi sincera com você. Nem um pouco. Você acha que ela tava ali, livre, esperando uma chance pra reatar... mas não é isso, Lu.
Ele franziu a testa.
- Como assim?
- Ela tava dormindo com o Victor, Luan. -falei direto, doeu em mim dizer, mas doeu ainda mais saber que ele tava sendo enganado.- E não era uma vez ou outra, não. Era frequente. Virgínia, Olívia e eu ouvimos uma ligação dos dois, e não tinha nada de "amizade" ali. Era coisa de quem tem... intimidade. De quem tá ficando.
Ele piscou várias vezes, como se não estivesse processando direito.
- O Victor? -repetiu, incrédulo.
- Sim. O motivo de vocês dois terem terminado, lembra? -falei, a voz embargando.- E pior: enquanto ela tava se encontrando com ele desse jeito, ela continuava te mandando mensagem, sendo carinhosa, dizendo que sentia saudade... fazendo você acreditar que ela ainda te amava de verdade. Na época do lançamento do filme.
Eu vi o rosto do Luan ficar pálido. Ele levantou do sofá, andou de um lado pro outro da sala.
- Não, não... a Marina não faria isso. -ele murmurou, como se quisesse se convencer.- Ela... ela nunca faria isso comigo.
Engoli em seco.
- Eu vi ela admitir, Luan. Eu tava lá. Ela tentou minimizar, disse que era só físico, que era "confuso", mas... eu não sei se os dois começaram com isso enquanto ela ainda estava com você, mas ela sabe o quanto você ficou destruído com aquilo tudo. Ela sabia. E mesmo assim... mesmo assim se envolveu com o cara que era o maior ponto de insegurança entre vocês.
Ele passou as mãos no rosto, visivelmente abalado.
- E ela... e ela nem teve a coragem de me contar. -disse baixo.
- Não. -confirmei, me aproximando devagar.- E mesmo depois ela tendo me dito que não estava mais com ele, sei que não é verdade. Não é só "colega de elenco", como ela quer fazer parecer.
Luan sentou de novo, as mãos tremendo. Ficou em silêncio por vários segundos.
- Eu sou um idiota. -ele disse finalmente, com a voz rouca.
Me abaixei na frente dele e segurei suas mãos.
- Você não é um idiota, Luan. Você é só alguém que ama muito. Que sempre acreditou no melhor dela. Mas... ela não foi justa com você. Não foi.
Ele fechou os olhos, lutando contra as lágrimas.
- Eu achei que... achei que a gente podia recomeçar, sabe? Esquecer tudo de ruim... -a voz dele quebrou.- Eu ainda amo ela, Bru.
Meu peito apertou. Meu irmão tava destruído de novo, e eu odiava ver ele assim.
- Eu sei, Lu. Eu sei. -sussurrei, apertando suas mãos.- Mas às vezes... amar não é suficiente.
Ele soltou um riso sem humor, enxugando uma lágrima teimosa que escorreu.
- Não é, né? Nunca é.
Ficamos ali, em silêncio, por um tempo.
O peso da verdade pairando entre nós dois.
E, no fundo, eu sabia: a gente ainda ia ter que juntar muito caco antes de seguir em frente.
Hoje, segunda-feira, 27 de Julho de 2026
Amanhã eu entraria oficialmente nas trinta e nove semanas de gestação, e pra ser bem sincera, eu já estava ficando impaciente.
Apesar da barriga enorme e pesada — que me fazia andar meio rebolando como um pinguim —, o Jack não dava o menor sinal de que queria sair do meu forninho. Nada de contrações de treinamento fortes, nada de tampão saindo, absolutamente nada.
Parecia que ele tava bem confortável ali dentro, o que era fofo... mas também frustrante.
E foi pensando nisso que o Justin decidiu me arrastar pra uma feira de rua perto de casa.
Quer dizer, não exatamente me arrastar, né. Eu topei, meio na esperança de que caminhar um pouco pudesse dar uma incentivada natural no processo.
E também porque eu precisava comprar frutas pra comer durante o resguardo, né? Já queria deixar tudo organizado pra depois.
- Vamos, grandona. -Justin brincou, segurando minha mão pra me ajudar a descer o último degrau da calçada.
Revirei os olhos, mas não consegui evitar o sorriso.
- Para de me chamar assim. Eu tô grávida, não uma bolha ambulante.
Ele riu, passando o braço pelas minhas costas com uma delicadeza que eu adorava, mas que às vezes me confundia também.
Porque, no final das contas, ele era o pai do Jack. Estava sendo presente. Atencioso. Carinhoso.
Mas nós dois sabíamos que não éramos um casal. Não do jeito que eu sonhava.
A feira estava cheia, mas o clima era gostoso. Pessoas caminhando de barraca em barraca, o cheiro de frutas frescas misturado com fritura no ar, crianças correndo pra lá e pra cá.
- Primeiro: frutas pra incentivar o parto. -ele disse, todo focado, olhando a lista que ele mesmo tinha feito no celular.- E segundo: frutas pra você comer no pós-parto.
- Você realmente levou a sério essa história, né? -comentei, ajeitando a barriga com as duas mãos.
Justin sorriu de lado, aquele sorriso torto que era a marca registrada dele.
- Claro. Se caminhar e comer frutas ajudarem o Jack a querer nascer... -ele deu de ombros.- Melhor do que ficar só vendo Netflix jogada no sofá.
Franzi a testa.
- Ei! Eu mereço maratonar série! Eu tô gerando um ser humano aqui!
Ele riu, erguendo as mãos em rendição.
- Verdade. Mas também precisa ajudar o processo, princesa.
O jeito como ele me chamou fez meu coração apertar um pouquinho.
Era tão fácil esquecer, às vezes, que as coisas entre a gente eram... complicadas.
Seguimos andando pela feira, parando em uma barraca de mangas. Eu peguei uma delas, gordinha e madura, e Justin cheirou outra, franzindo o nariz.
- Essa tá boa? -perguntei.
- Mangas maduras são ótimas. -ele respondeu.- Além de ajudarem na digestão, tem gente que diz que ajudam no trabalho de parto.
- Eu como três agora se for verdade. -brinquei.
Ele riu, e fomos colocando algumas mangas na sacolinha.
Depois, fomos pras bananas — outra fruta que eu sabia que era boa tanto antes quanto depois do parto —, e depois pro abacaxi.
- Abacaxi é bom porque é anti-inflamatório. -Justin explicou, como se tivesse feito uma pesquisa de mestrado.- E tem bromelina, que dizem que pode ajudar a amolecer o colo do útero.
Eu arqueei uma sobrancelha pra ele.
- Desde quando você virou especialista em frutas?
Ele deu uma risadinha, passando a mão pelo cabelo.
- Desde que comecei a pesquisar tudo que pudesse ajudar você e o Jack.
Não pude deixar de sorrir com sua fala.
Fomos comprando de tudo um pouco: mangas, bananas, abacaxis, ameixas, maçãs... e enquanto andávamos, Justin mantinha a mão firme nas minhas costas, atento a cada passo que eu dava.
- Tá cansada? -ele perguntou, depois de uns vinte minutos caminhando.
Assenti, fazendo careta.
- Um pouco. Essa barriga pesa mais a cada minuto.
Ele parou e tirou de dentro da mochila uma garrafinha de água, me oferecendo.
- Toma. Vamos sentar ali um pouquinho.
Seguimos até um banco de praça, um cantinho mais tranquilo da feira. Me sentei devagar, soltando um suspiro de alívio.
- Tá tudo bem, Bru? -ele perguntou, ajoelhando na minha frente pra ficar na minha altura.
Olhei pra ele e sorri de leve.
- Tá. Só ansiosa... cansada... emocionalmente esgotada... e morrendo de amor por esse bebezinho aqui dentro. -disse, passando a mão carinhosa pela barriga.
Ele olhou pra minha barriga também, com uma expressão tão cheia de carinho que quase me fez chorar.
- Nosso Jack. -ele murmurou, apoiando a mão sobre a minha, com delicadeza.
Ficamos assim por alguns segundos.
Só nós três.
O mundo inteiro parecia sumir.
Até que ele se levantou, dando um sorriso calmo.
- Vamos terminar de comprar as frutas e voltar. Hoje é dia de caminhada, mas também de descanso, viu, mocinha?
Ri, aceitando a mão dele pra levantar.
- Sim, senhor.
Saímos de novo entre as barracas, e enquanto o Jack dava umas mexidinhas suaves dentro de mim, eu tentava acreditar que, mesmo que as coisas não fossem perfeitas, a gente ia dar um jeito.
Por ele.
Pelo nosso filho.
Estávamos escolhendo umas maçãs vermelhas bem bonitas quando o Justin quebrou o silêncio, me olhando de lado.
- Seus pais vão vir pra cá quando o Jack nascer? -ele perguntou, pegando uma maçã e cheirando, como se realmente entendesse do assunto agora.
Passei o braço debaixo da barriga pra dar aquela sustentação básica e respondi:
- Minha mãe embarca amanhã. -falei, ajeitando o cabelo que o vento bagunçava.- Ela tirou um mês de férias pra me ajudar no resguardo.
Vi o sorriso que apareceu nos lábios dele, meio tranquilo, meio orgulhoso.
- Que bom. Vai ser bom ter ela aqui com você e com o Jack.
Assenti, sentindo uma onda de alívio ao pensar nisso. Minha mãe era tudo pra mim. Saber que ela estaria ali, comigo e com meu bebê, me deixava menos assustada com tudo que vinha pela frente.
- Meu pai, não sei ainda. -continuei, pegando umas peras e colocando na sacola.- Ele tá enrolado com o trabalho.
Justin assentiu, jogando a maçã na sacolinha que carregava.
- Minha mãe deve vir assim que o Jack nascer. -ele disse, casual.- Como ela mora perto, fica mais fácil.
- Nunca vou deixar de agradecer ela ter me ajudado a lavar e passar as roupinhas do Jack.
- Nem precisa agradecer. Minha mãe ama o Jack e ama você também. Com certeza ela vai estar vindo pra Nova York com bastante frequência quando Jack nascer.
Fiquei mexendo nas frutas, ouvindo, quando ele acrescentou, meio rindo, com aquele jeito despreocupado:
- Ah, e a Marina já chegou em Nova York hoje de manhã.
Meu corpo congelou um pouco.
Virei o rosto pra ele, franzindo a testa.
- A Marina tá aqui?
- Tá. -ele confirmou, rindo baixinho, como se fosse óbvio.- Ela veio porque o Jack tá pra nascer. Disse que não aguentava de ansiedade pra conhecer o sobrinho.
Senti um peso estranho no peito. Dei um sorriso pequeno, forçado, e voltei a fingir que olhava as frutas, mesmo sem enxergar direito.
Um silêncio estranho se instalou entre a gente.
Eu mastiguei o lado de dentro da bochecha, focando em escolher uma pêra que eu nem sabia se tava boa.
- Vocês... vocês não tão mais se falando, né? -ele perguntou de repente, com aquela voz meio cuidadosa, como quem pisa em ovos.
Pisquei algumas vezes antes de responder, ainda evitando o olhar dele.
- Ah... -dei de ombros, tentando soar casual.- A vida ficou corrida, sabe? Eu com a faculdade, gravidez, e ela com a gravação do filme e mais a distância... acabou atrapalhando.
Menti.
Na cara dura.
Não queria abrir aquela ferida ali, no meio da feira, com tanta coisa ainda presa na garganta.
Justin pareceu aceitar a resposta sem insistir. Apenas assentiu, olhando pra sacola já cheia de frutas.
- Bom... quem sabe agora vocês se veem, né? E colocam o assunto em dia. -ele falou, tentando soar otimista.
Dei um sorriso sem graça e murmurei um "é", mas por dentro eu sabia que ver a Marina de novo não seria nem um pouco simples.
Não depois de tudo.
Continuamos andando entre as barracas, ele falando sobre as últimas coisas que ainda tínhamos que comprar, e eu fingindo que estava totalmente focada nisso.
Mas meu coração...
Meu coração tava lá atrás, ainda processando essa bomba que o Justin tinha soltado como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Chegar em casa depois da caminhada na feira foi como um alívio no corpo inteiro. Minhas costas estavam cansadas, os pés meio inchados, e o Jack parecia estar sambando dentro da minha barriga.
Desabei no sofá com um suspiro profundo, esticando as pernas e fechando os olhos por uns segundos.
- Quer um suco? -Justin perguntou da cozinha, enquanto começava a guardar as frutas.
- Se tiver laranja, eu aceito.
- Tem. A gente comprou um monte, lembra? -ele respondeu rindo, já começando a picar.
Ouvi o barulho das sacolas sendo mexidas, a porta da geladeira abrindo e fechando, e um cheiro gostoso de fruta fresca começou a se espalhar. O apartamento estava silencioso, só com a nossa conversa baixa preenchendo o espaço.
Por um momento, tudo parecia em paz.
- Acho que caminhar me ajudou, viu? -falei, acariciando a barriga.- O Jack mexeu tanto que achei que fosse sair ali mesmo, no meio da feira.
Justin apareceu na sala com o copo na mão e me entregou, sorrindo.
- Ainda bem que não saiu, né? Ia ser um caos.
- Ia virar manchete: “Irmã do Luan Santana e ex namorada e mãe do filho de Justin Bieber dá a luz no meio das bananas”. -brinquei, e ele riu alto, se jogando na poltrona do lado.
Ficamos ali por alguns segundos apenas rindo, até que…
A porta do apartamento se escancarou de repente com força, batendo na parede.
Eu e Justin viramos o rosto ao mesmo tempo, assustados.
Era o Luan.
E ele parecia uma tempestade ambulante.
Entrou rápido, os passos pesados, o maxilar travado e o olhar perdido, como se estivesse tentando controlar a própria raiva.
- Luan?! O que aconteceu? - perguntei, alarmada.
Ele nem respondeu. Passou direto pela sala, indo até o corredor. Mas antes que desaparecesse, Justin se levantou.
- Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
Luan parou, mas não virou pra gente. Ficou alguns segundos em silêncio, os ombros tensos, respirando fundo, como se estivesse lutando contra alguma coisa dentro dele.
- Nada. Só… não quero falar agora. - disse finalmente, com a voz grossa e seca.
Ele seguiu em direção ao quarto de hóspedes, fechando a porta atrás dele com força.
O silêncio que ficou foi tão pesado que dava pra ouvir minha respiração alterada.
Eu e Justin nos olhamos.
Eu sabia.
Eu sabia.
Luan tinha ido ver a Marina.
E pelo jeito que ele entrou, o reencontro não foi nem um pouco amigável.
Meu coração acelerou, e uma ansiedade estranha começou a crescer no meu peito.
Fechei os olhos e encostei a cabeça no encosto do sofá.
O que será que tinha acontecido?
Será que ele descobriu alguma coisa nova?
Ou finalmente entendeu o que eu tinha tentado contar?
Eu respirei fundo, tentando entender se deveria ir atrás do Luan ou dar um tempo pra ele respirar. Mas meu coração estava inquieto. Conheço meu irmão, e ele só fica daquele jeito quando está profundamente ferido ou decepcionado. E se o que eu contei realmente tivesse se confirmado?
Apoiei as mãos no braço do sofá e comecei a me levantar com certa dificuldade — minha barriga parecia uma melancia gigante pendurada à minha frente. Justin veio até mim, provavelmente achando que eu ia pedir ajuda.
- Vai falar com ele? -ele perguntou, olhando preocupado pra porta do quarto do Luan.
- Vou... preciso saber o que aconteceu. -respondi, ajeitando a blusa e colocando uma mão nas costas.
Mas antes que eu pudesse dar mais um passo…
Um som abafado e molhado, e uma sensação morna nos meus pés.
Olhei pra baixo e vi a poça de água se formando. Meus olhos arregalaram e o ar pareceu sumir por um segundo.
- Ai. Meu. Deus. -falei, encarando o chão com a boca aberta.
Justin, que estava a dois passos de mim, arregalou os olhos como se tivesse levado um choque.
- Bruna?! Isso é... é isso o que eu tô pensando?
- A bolsa... -minha voz saiu trêmula.- Justin, minha bolsa estourou!
Ele congelou por dois segundos, como se o cérebro estivesse tentando acompanhar o que acabava de acontecer.
- Ai caramba! Ok, calma. Tá tudo bem. A bolsa estourou. A bolsa estourou! -ele começou a andar de um lado pro outro, já sacando o celular do bolso.- Eu vou chamar o carro. Quer dizer, a médica! A mala tá pronta? Tá sim, você já tinha deixado tudo no jeito... Meu Deus, o Jack tá vindo!
Eu respirei fundo, sentindo uma mistura de adrenalina, medo, dor nas costas e uma pontada de felicidade.
- Justin… ele tá chegando. -falei, colocando a mão sobre a barriga que parecia ainda mais pesada agora.
Ele me olhou e, apesar do pânico nos olhos, sorriu meio bobo, meio emocionado.
- O Jack vai nascer…
E a ficha começou a cair de verdade.
Amanhã eu completaria 39 semanas. Mas o Jack parecia estar pronto hoje.
Eu ia parir.
Meu filho tava chegando.
E, naquele momento, eu não tinha certeza de nada, exceto de que minha vida nunca mais seria a mesma.
Justin estava andando em círculos feito um furacão e eu... sem sentir absolutamente nenhuma contração ainda. Mas só de pensar que o Jack estava vindo, meu coração disparava.
- Respira, Bruna, respira… -falei mais pra mim mesma do que pra alguém. Olhei pro Justin, que ainda parecia em transe, tentando abrir vários aplicativos ao mesmo tempo no celular.- Ei! Justin!
Ele me encarou com olhos arregalados.
- Já liguei! Quer dizer, tô tentando ligar! Qual é mesmo o número da sua médica?
- Tá salvo no seu celular, eu mandei semana passada, lembra? Na conversa que a gente teve sobre o plano de parto.
- Isso, isso! Tá, tô achando. -ele balbuciou, enquanto mexia no celular com mãos trêmulas.
Nesse momento, a porta do quarto do Luan se abriu com tudo. Ele apareceu ainda com a expressão fechada, mas ao ver a cena — eu parada no meio da sala, de pé, com a roupa molhada e Justin em modo pânico — ele congelou.
- O que aconteceu? -ele perguntou, vindo na minha direção.
- A bolsa estourou. -falei com a voz mais calma do que eu mesma esperava.- O Jack tá vindo.
Os olhos do Luan suavizaram na hora. Ele veio até mim com um cuidado enorme, me olhando dos pés à cabeça.
- Tá com dor?
- Ainda não. Nenhuma contração. Mas é melhor não arriscar ficar em casa esperando.
Justin levantou o dedo no ar.
- Liguei! Falei com a médica! Ela tá indo pro hospital agora! -ele anunciou, com a voz trêmula e acelerada.- A gente precisa sair. Precisamos da mala, da caderneta de pré-natal, da…
- Já tá tudo pronto, Justin. -falei, tentando manter ele no mundo real.- Tá tudo ali no quarto, na mala azul.
- Eu vou levar vocês. -Luan disse de repente.- Meu carro tá lá embaixo.
- Tem certeza? -perguntei, mesmo sabendo que ele não diria isso se não estivesse.
- Absoluta. Vai ser mais rápido.
Enquanto Luan pegava as chaves e a mala, Justin veio ao meu lado, ainda nervoso.
- Você tá bem mesmo? A bolsa estourou, mas… não tá doendo?
- Ainda não. Mas isso pode mudar a qualquer momento.
Luan apareceu com a mala e colocou o casaco sobre meus ombros.
- Vambora, Bruna. Tá na hora de conhecer o Jack.
Sorri de leve, tentando disfarçar o nervosismo. Eu ainda não sentia dor, mas sentia o mundo girar ao meu redor. Estava tudo diferente agora.
- Vamos nessa, então. Jack tá chegando.