Bruna Narrando
A primeira semana com o Jack foi um turbilhão de emoções.
Apesar do cansaço, eu nunca me senti tão completa na vida. Ver aquele rostinho tão pequeno, sentir a respiração dele no meu colo… é um amor que eu não sabia que existia. Às vezes, eu simplesmente ficava observando ele dormir por horas. E mesmo sem dormir direito, com o corpo doendo, eu sorria. Porque ele era meu. Nosso. Meu e do Justin.
Felizmente, eu tive ajuda. Muita ajuda.
Minha mãe veio direto do Brasil assim que soube que eu estava em trabalho de parto. Chegou exausta, mas incansável. Fez comida, lavou roupa, embalou o Jack no colo quando eu desmoronei de sono no sofá. Era como se ela tivesse renascido como avó.
A Pattie, mãe do Justin, também foi um anjo. Mesmo dividida entre compromissos e morando longe, ela fazia questão de passar em casa todos os dias. Às vezes com frutas frescas, às vezes com palavras doces. Às vezes, só com um olhar que me dizia que eu não estava sozinha. Entre elas duas e o Justin, eu me sentia cercada por amor.
E, claro, o Justin… ele estava sendo incrível. Um pai presente, carinhoso, protetor. Nos primeiros dias, ele dormiu no sofá da sala com o Jack no berço portátil, só pra eu conseguir descansar um pouco mais. Era ele quem cantava baixinho quando o Jack chorava de madrugada. E quando eu tive uma pequena crise de choro, no terceiro dia em casa, ele só me abraçou forte e deixou eu desabar. Depois, trouxe chá com biscoito e ficou ali, só olhando pra mim, com um carinho que me desmontava.
Mas... por mais que tudo estivesse indo bem com o Jack, o que me cercava por dentro era um incômodo constante.
Ontem à noite, após eu tomar um banho, retornei para a sala e escutei a voz do Justin. Ele estava em chamada de vídeo. Pensei em entrar pra falar algo, mas ouvi uma voz familiar do outro lado da tela. Era a Marina.
Na mesma hora, meu peito apertou, me aproximei do carrinho e vi Jack ali dormindo.
- Oi meu amor, a mamãe voltou. -falei meio baixo, olhando pra ele com um sorriso bobo.
Mas eu vi… e ouvi.
A voz da Marina mudou de repente.
E logo ela se apressou pra encerrar a ligação.
Silêncio total.
Fingi que não notei.
Justin saiu do quarto um tempo depois. Estava com o semblante um pouco diferente, meio distante, pensativo. Olhou pra mim, sorriu de leve, e se aproximou do Jack, que dormia tranquilo nos meus braços.
- Ela tá bem? -arrisquei, sem citar nomes.
Ele hesitou.
- Tá tentando ficar.-respondeu apenas. E não disse mais nada.
No dia seguinte, estávamos todos na sala quando a campainha tocou. Fui eu quem abriu a porta.
- Melanie? -falei, surpresa.
Ela sorriu, ofegante, com uma mochila no ombro e a cara de quem não dormia há dias.
- Oi, Bruna. Como está? Eu precisava ver o Jack!
- Claro! Entra! -falei, abrindo espaço.
Ela entrou com toda a energia de sempre, foi direto pra onde minha mãe e a Pattie estavam sentadas com o Jack no colo. Começou a fazer perguntas, elogiar o bebê, rir, tirar selfies, até que soltou:
- Quem te trouxe? -Justin perguntou.
- A Marina. -respondeu, sem tirar a atenção do Jack.- Você sabia que a Marina tá grávida?
A sala congelou.
Minha mãe arregalou os olhos. Pattie ficou com a boca entreaberta. Eu... eu senti meu coração bater tão forte que por um segundo achei que ia desmaiar.
- Como assim, grávida? -minha voz saiu trêmula, mas disfarcei com um pigarro.
- É, fiquei sabendo ontem. Ela tá de poucas semanas ainda, acho que nem três meses. Não contou pra quase ninguém. Ela foi ontem na casa da minha mãe pra contar.
As palavras ecoaram como se tivessem sido jogadas dentro de um poço fundo.
Eu não consegui falar nada. Só sentei. De repente, tudo girava.
A Marina… grávida?
Será que o pai é o Victor? Ou…
Engoli seco.
Ou será que é o Luan?
Olhei discretamente pro Justin. Ele estava com os braços cruzados, sem expressão.
Melanie não parecia perceber o impacto da bomba que tinha soltado.
- Mas enfim, né? O Jack tá lindo! Que bom que deu tudo certo no parto!
Eu tentei sorrir, mas minha cabeça já estava longe.
Longe demais.
O clima ficou estranho depois que a Melanie soltou aquela bomba. Ninguém quis comentar nada, mas o silêncio foi quase tão ensurdecedor quanto o choque que senti por dentro.
Enquanto minha mãe, a Pattie e Melanie brincavam com o Jack na sala, vi Justin se levantando e indo até a cozinha.
Peguei o celular só pra disfarçar e fui atrás.
Ele estava encostado no balcão, abrindo a garrafa de água, alheio ao terremoto que ele mesmo estava vivendo. Ou talvez só fingindo estar.
- Você já sabia, né? -perguntei, parando perto da pia.
Ele me olhou por um segundo, sem pressa, como se estivesse calculando as palavras.
- Ela me contou ontem, na ligação.
Assenti, respirando fundo, tentando manter a calma.
- E por que você não me contou?
A pergunta saiu baixa, mas carregada. Eu realmente queria entender.
Justin arqueou uma sobrancelha, apoiando os braços no balcão.
- Como assim por que? Eu achei que você já soubesse. Você e a Marina são irmãs de almas, não são?
A ironia no tom dele foi como um tapa seco no rosto.
Eu engoli em seco, tentando disfarçar o incômodo que aquilo me causou.
- Ela... deve ter pensado em esperar passar esse momento do Jack, né? Com tanta coisa acontecendo...
Justin soltou um riso curto, sem humor, e tomou um gole de água.
- Claro. Deve ser...
Ele não me olhou quando disse isso, mas eu senti a flecha direto no meu peito.
Fiquei sem resposta. O peso da culpa, da distância entre mim e a Marina, da tensão entre mim e ele... tudo estava ali, pairando entre as paredes da cozinha como uma nuvem carregada.
Quis dizer algo, mas não consegui. Apenas me virei de volta pra sala, com um nó na garganta e a sensação de que, pela primeira vez em muito tempo, eu não conhecia mais as pessoas que mais amava.
O Justin saiu logo depois da nossa conversa na cozinha. Disse apenas que ia dar uma volta. Nem olhou pra trás.
Foram duas horas inteiras sem notícia. E a cada minuto que passava, minha cabeça inventava um novo motivo praquela saída repentina.
Quando ele passou pela porta de volta, não era o mesmo Justin de antes. O jeito como ele entrou, sem sorrir, sem procurar o Jack com os olhos como fazia toda vez… era como se tivesse deixado alguma parte dele lá fora.
Ele não falou comigo. Nem perguntou como Jack estava. Só encarou a Melanie, que estava empoleirada no tapete com um dos brinquedinhos do bebê nas mãos.
- A Marina tá lá embaixo, te esperando no carro.
Melanie fez uma careta animada, como se aquilo fosse uma aventura qualquer.
- Ah, sério? Vou pegar minha bolsa!
Ela levantou, pegando sua bolsa no sofá. Se despediu de mim com um beijo rápido na bochecha, sem nem perceber a atmosfera pesada. Quando a porta bateu atrás dela, o silêncio voltou a reinar na sala.
Olhei de canto pra Justin. Ele ainda estava ali, parado perto da porta, mãos nos bolsos, cabeça baixa. Mal me olhava. Mas eu não precisava de palavras. Eu o conhecia o suficiente pra saber: ele sabia.
A Marina contou. Contou tudo.
Sobre nossa briga.
Sobre o Zack.
Senti o chão afundar. Minha mãe estava na cozinha preparando o jantar e nem imaginava que do lado de cá do apartamento o mundo tava desabando de forma silenciosa.
- Você... -comecei, tentando puxar o ar.- você foi ver ela?
Justin não respondeu de imediato. Foi até o sofá, sentou, cruzou os braços. Os olhos fixos em algum ponto qualquer da parede.
- Fui. -respondeu, seco.- Ela me contou tudo.
Aquilo doeu. Doeu porque eu sabia exatamente o que ele queria dizer com "tudo".
Fiquei ali em pé, sem saber se me explicava, se me defendia, ou se só pedia desculpa.
Ele não me deu tempo.
- Você me acusou de não confiar em você... mas olha o que você fez, Bruna. -a voz dele estava baixa, controlada, mas carregada de mágoa. - Você dormiu com o cara. Com o Zach. Grávida do meu filho.
- Justin...
- Você disse que ele te beijou à força, me fez me sentir o pior cara do mundo por ter desconfiado de você. E ainda assim, você foi lá... -ele balançou a cabeça, respirando fundo, os olhos marejando.- E grávida.
Me aproximei, com o coração disparado.
- Eu não... não foi assim. Eu tava confusa, emocionalmente destruída. Eu... eu errei, tá? Eu sei. Mas não usa isso pra apagar tudo que vivemos.
Justin se levantou do sofá, agora encarando meus olhos.
- Você destruiu a confiança que sobrou, Bruna. A gente tem um filho. Eu tava tentando superar tudo por ele... e você foi e...
Ele não terminou. Apenas passou por mim, pegou Jack e foi em direção ao quarto dele. A porta fechou suavemente, mas o som ecoou dentro de mim como se tivesse sido batida com força.
Minha mãe me chamou da cozinha. Disse que o jantar estava pronto, mas pela primeira vez em muito tempo, eu não sentia fome. Respirei fundo, tentando disfarçar o peso no peito e fui até lá.
- O Jack tá dormindo? -ela perguntou, mexendo o arroz com o garfo.
Assenti.
- Justin tá com ele.
A mãe do Justin já tinha ido embora pouco antes da Melanie sair. Só estávamos nós duas e o silêncio meio estranho no ar. Minha mãe, claro, notou.
- Vocês discutiram?
- Não... -respondi baixinho.- Não exatamente.
Sentamos à mesa. Eu botei um pouco de arroz e frango no prato só pra fingir normalidade. Comemos em silêncio por alguns minutos, até que Justin apareceu no corredor. Trazia o Jack nos braços, enrolado na manta de bichinhos azuis, dormindo profundamente.
Ele encostou no batente da porta e olhou pra minha mãe.
- Ele mamou e já dormiu de novo. Vou colocar no bercinho.
Minha mãe se levantou imediatamente, sorrindo com aquela doçura de avó recém-promovida.
- Deixa que eu coloco.
Ela pegou Jack devagar e desapareceu no corredor. Ficamos sozinhos na cozinha.
Justin se apoiou na bancada, braços cruzados, cabeça abaixada. Eu levantei da cadeira, sem saber direito o que fazer com as mãos.
- Você quer conversar?
Ele deu uma risada sem humor.
- Você quer mesmo conversar agora, Bruna?
Engoli seco.
- A gente precisa.
Ele olhou nos meus olhos então. Aquele olhar. Que conhecia todos os meus jeitos, todas as minhas fases. Mas dessa vez... não era afeto. Era mágoa.
- Você fez intriga entre a Marina e o Luan. -ele começou, direto.- Por quê?
- Eu não fiz intriga, eu... eu só contei pro Luan que ela tava vendo o Victor de novo. Eu achei que ele precisava saber.
- Mentira. -ele rebateu de imediato.- Você fez parecer que ela traía ele. Jogou o cara contra ela. Você foi cruel.
- Ela também foi! Justin, ela...
- Ela o quê? -ele se aproximou, o tom subindo, mas ainda contido.- Ela ficou com o ex dela quando tava solteira. Você grávida, dormiu com o Zack. O cara que você disse que te beijou à força! Como você teve coragem, Bruna?
As lágrimas arderam nos meus olhos. Mas ele não parou.
- Você me deixou com culpa por ter desconfiado de você. Me fez sentir um idiota! E aí eu descubro hoje que você fez com a Marina exatamente o que me acusou de fazer com você: julgou, distorceu, se meteu onde não devia.
- Ela desligou na sua cara quando me ouviu com Jack! Ela não quer nem ouvir minha voz!
- E você esperava o quê? Depois de ferrar com o relacionamento dela com o pai do filho que ela tá esperando?
Aquilo doeu mais do que tudo.
- Ela tá grávida dele? -perguntei num sussurro.
- Tá. Só que ele não acredita que é dele. E ela não sabe se pode contar com a melhor amiga porque a melhor amiga virou uma cobra quando ela mais precisava. -ele deu um passo pra trás, esfregando o rosto.- Bruna... a gente tinha uma chance. A gente podia se entender, ser pais pro Jack juntos. Mas você...
- Você ainda me ama? -perguntei, a voz quebrada.
Ele demorou um segundo pra responder.
- Eu te amo como mãe do meu filho. E isso é tudo que posso oferecer agora.
Meu mundo desabou ali. Sem gritos, sem escândalo. Só um silêncio esmagador, um “não” nas entrelinhas.
Ele voltou pro quarto do Jack. E eu fiquei ali na cozinha, sozinha. Fui pro meu quarto com as pernas pesadas, como se cada passo carregasse o peso de tudo o que desmoronou nas últimas horas.
A porta estava entreaberta. Luz fraca, silêncio acolhedor.
Minha mãe estava sentada na poltrona de amamentação, aquela que Justin e eu escolhemos juntos quando ainda sonhávamos com o quartinho perfeito. Ela balançava devagar, com Jack nos braços, cantarolando uma música de ninar antiga que eu mesma já tinha escutado dela quando era pequena.
Meu coração doeu. De um jeito que eu não sabia explicar.
- Ele tá tão calminho... -ela sussurrou ao me ver.- Acho que gosta da minha voz desafinada.
Tentei sorrir, mas não consegui. Fui até a cama e deitei de lado, virando o rosto pro travesseiro. As lágrimas vieram antes que eu pudesse impedir.
No começo, tentei disfarçar. Respirar fundo, conter. Mas logo o choro escapou, abafado no tecido. Um soluço seguido do outro. E tudo que eu estava segurando desde a conversa com o Justin desabou ali, no escuro, ao som da minha mãe cantarolando.
Ela se levantou com cuidado, ainda com Jack no colo, e sentou na beirada da cama.
- Filha... o que aconteceu? -perguntou baixinho.
Balancei a cabeça, sem forças pra explicar.
- Foi o Justin? -insistiu, com aquele tom calmo que só mãe sabe ter.- Ou a Marina?
Me encolhi ainda mais, a voz engasgada.
- Os dois... -consegui dizer.- Eles tão certos. E eu...
Ela colocou a mão livre no meu ombro, me fazendo carinho.
- Você acabou de ter um bebê, Bruna. Tá sensível, cansada, confusa. Não é hora de se cobrar tanto...
- Mas eu estraguei tudo, mãe... -virei o rosto pra encará-la.- Com o Justin, com a Marina... com o Luan... E agora ela tá grávida, e eu nem sei como consertar isso...
Jack se remexeu no colo dela, soltando um sonzinho fofo. A visão dele, tão pequeno e inocente, me fez chorar mais ainda.
- Olha pra ele, filha. -ela sussurrou.- Esse menininho vai te ensinar o que realmente importa. Você vai errar. Vai se arrepender. Mas também vai ter a chance de se redimir, de perdoar e ser perdoada.
Fechei os olhos, sentindo a mão dela ainda no meu ombro.
- O importante é que você entenda o que precisa mudar. O resto, o tempo ajuda a ajeitar.
Me virei devagar, sentindo o peso das palavras dela. E quando encarei Jack, tão sereno nos braços da minha mãe, soube que por ele, eu teria que começar a ser alguém melhor.
Nem que isso custasse meu orgulho.
Eu respirei fundo, tentando engolir o choro, mas ele ainda vinha aos poucos, como se meu corpo se recusasse a me dar paz. Minha mãe seguia me olhando com carinho, Jack dormia tranquilo no colo dela, e eu sabia que precisava contar. Ela merecia saber. Era sobre o filho dela também. Sobre o neto que ela nem sabia que estava por vir.
- Mãe... -chamei baixinho, sentando na cama e enxugando o rosto com a manga da blusa.- A Marina... ela tá grávida.
- Eu sei filha, eu estava aqui quando a Melanie contou... Que surpresa né? Quem será que é o pai?
Fechei os olhos por um segundo. Eu podia sentir que aquilo doía em mim mais do que eu queria admitir. Mas doía porque... talvez, no fundo, eu soubesse que a culpa não era só da Marina. Que eu tinha mexido nas peças erradas desse tabuleiro.
- É o Luan. -disse num fio de voz.
Minha mãe congelou. Seus olhos se arregalaram e ela apertou Jack contra o peito, como se o impacto daquela informação tivesse atravessado o coração dela.
- O Luan? -repetiu, quase em choque.- Você tem certeza?
- Foi o que o Justin me contou... Mas o Luan não acredita que o filho é dele.
Ela levou uma das mãos à testa, claramente tentando processar.
- Mas por que ele não acredita? O Luan sempre amou a Marina... recentemente ele me contou que eles se reencontraram, que ele tava na expectativa de voltarem.
Baixei os olhos. A culpa queimava em mim.
- Porque... eu meio que... estraguei isso. -confessei, sentindo a garganta fechar de novo.
Minha mãe virou o rosto lentamente, os olhos fixos nos meus, esperando que eu continuasse.
- Eles tinham se reaproximado. Mas... um dia, antes disso, eu e Marina brigamos feio. Eu descobri que ela tava se encontrando com o Victor... e na raiva, eu disse umas coisas pra ela. Falei que ela tinha traído o Luan, que ele tinha razão em desconfiar. E...
- Você contou isso pro Luan? -ela interrompeu, a voz firme, magoada.
Assenti, envergonhada.
- Contei. Mas só a minha versão. E acho que... ele não quis mais ouvir a dela.
O silêncio que veio depois foi o mais pesado de todos. Minha mãe olhou pra Jack, acariciando os cabelinhos ralos dele com delicadeza, e então suspirou fundo.
- Bruna... você sabe que eu te amo. Que vou estar sempre aqui. Mas o que você fez... foi grave. gsua voz ainda era doce, mas havia tristeza ali.- Você não só magoou a Marina, como também machucou o seu irmão. E agora, tem um bebê vindo... que também é meu neto.
Engoli seco.
- Eu sei. Eu me sinto péssima. Eu... eu só tava magoada, com medo. Sabe, tanta coisa aconteceu e eu tava me sentindo tão sozinha, tão perdida... que me agarrei à raiva. E ela me fez fazer besteira.
Ela se levantou devagar, colocou Jack no berço com cuidado e voltou pra perto de mim, sentando ao meu lado.
- A raiva cega, filha. E quando a gente deixa ela tomar conta, acaba espalhando dor pra todo mundo em volta. -passou a mão no meu cabelo, com ternura.- Mas ainda dá tempo de consertar. De tentar se redimir. Com o Luan. Com a Marina. Com o Justin.
- Será? -perguntei, com um fio de esperança.
- Você só vai saber se tentar. Mas primeiro, precisa ser sincera. Com eles e com você mesma.
Assenti devagar, olhando pro bercinho onde Jack dormia, pacífico.
Acordei com a cabeça pesada, o rosto inchado e os olhos ardendo. Chorar até dormir nunca foi um bom remédio — só um alívio momentâneo que cobra o preço no dia seguinte.
Durante a madrugada, Jack acordou algumas vezes, e mesmo com o clima tenso entre mim e o Justin, ele me ajudou. Trocou fraldas, ninou Jack até ele pegar no sono outra vez... Mas mal me olhava. Cada silêncio entre a gente parecia gritar. Como se as palavras entaladas entre nós estivessem sufocando tudo o que ainda restava.
Peguei meu celular no criado— na mesinha de cabeceira. Já passava das nove. Jack não estava no bercinho. Sorri fraco — certeza que minha mãe tinha levado ele pra que eu pudesse dormir um pouco mais. Um gesto simples, mas que dizia tanto. Ela sempre foi meu porto seguro.
Desbloqueei o celular e fui direto pro Instagram. Rolava sem nem prestar atenção direito, só pra distrair minha mente... até que apareceu a nova foto que Virginia havia postado.
virginiaweston_ Girls Just Want To Have Fun 🤪🩷 @marinabieber @olivia_mitch
Engoli seco.
Aquilo me atingiu como um soco no estômago. O vestido colado ao corpo deixava evidente algo que, até então, parecia distante: a barriga dela estava começando a aparecer. Era real. Marina estava mesmo grávida. E enquanto eu estava aqui, presa no meio do caos que eu mesma criei, ela... estava tentando viver.
Tentei ampliar a imagem... mas minha mão tremia. A lembrança do que fiz voltou como um eco ensurdecedor. Ela estava ali, com as nossas amigas, com o bebê crescendo dentro dela. E o Luan nem ao menos sabia se acreditava. Tudo por minha causa.
Me encolhi na cama, puxando o lençol até o peito.
Uma parte de mim queria correr atrás dela agora. Pedir perdão, ajoelhar se fosse preciso. Mas outra parte... ainda não sabia se eu seria perdoada.
Só que ver aquela barriga começando a aparecer... me fez entender. Que a gente não tem todo o tempo do mundo. Às vezes, a chance de consertar as coisas passa tão rápido quanto um story de 15 segundos.
E eu já tinha perdido tempo demais.