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Capítulo 77

Marina Narrando

Terça-feira, 30 de Junho de 2026

- Parabéns pra você, nessa data querida…

Aquela cantoria animada ecoava pelo meu novo apartamento em Los Angeles, e meu coração se enchia de um calor gostoso. Finalmente! Eu tinha meu próprio cantinho. Depois de tantos meses morando em hotel… agora era tudo meu. Um sonho realizado. E o melhor jeito de comemorar? Cercada por pessoas que fazem parte da minha história.

Sorri enquanto apagava as velinhas do bolo, cercada por rostos conhecidos: minha mãe, meu padrasto Josh — sempre com aquele sorrisinho de “orgulho de pai postiço” —, Melanie com um copo de refrigerante na mão e um vestido colorido chamativo demais pro meu gosto (claro que ela ia exagerar), Justin com um boné enfiado na cabeça e o olhar de sempre, meio doce, meio distante. Ryan e Anthony conversavam num canto com Olívia e Virgínia, que estavam maravilhosas como sempre, e meu pai, surpreendentemente, veio com a Ashley.

Victor tava perto da janela, observando a vista da cidade, com aquela calma que ele sempre carrega, e eu sabia que por mais que muita gente esperasse outra coisa de nós dois, a gente tinha decidido manter só a amizade. Nada de pressão, nada de expectativas. E tava tudo bem assim.

De repente, Melanie — claro que tinha que ser ela — gritou no meio da sala:

- Com quem será, com quem será, com quem será que a Marina vai casar? -e apontou direto pro Victor, rindo como se estivesse na escola.

- Melanie! -reclamei, sem conseguir segurar o riso.- Cresce, garota.

Ela deu de ombros. 

- Ah, qual é! Só tô entrando no clima da festinha!

Victor levantou as mãos, como quem diz “tô fora dessa”, e riu também. Ele já tava acostumado com o jeito sem noção da minha irmã. Todos estavam. É, Melanie era… bem, Melanie.

Mas mesmo com toda aquela alegria, com toda a energia boa da noite, tinha um pedacinho meu que não estava inteiro. Um pedacinho que doía. Bruna.

Três meses sem se falar. Três meses sem uma mensagem, sem uma ligação. Três meses desde aquela briga idiota que a gente nunca resolveu. E a cada dia que passava, eu sentia mais a falta dela. Ela era minha melhor amiga. Minha confidente. Minha irmã escolhida. E agora… silêncio. Ainda mais agora, que ela tava com sete meses de gestação. O Jack tava quase chegando, e eu não fazia parte disso.

E pra piorar a nostalgia, Luan não tava ali. Eu tentei não pensar nele o tempo todo, mas não dava. Ainda mais depois daquele remember que a gente teve dias atrás. Foi rápido, intenso… e confuso. Como tudo entre a gente. Mas ele tava em Nova York, com a Bruna, cuidando dela nessa fase delicada. Eu entendia. E mesmo assim, não conseguia evitar a pontinha de saudade no peito.

Mais cedo, quando o relógio bateu meia-noite, meu celular vibrou. Era uma mensagem do Luan.

"Feliz aniversário, Mari. Queria muito estar aí hoje, mas tô pensando em você o tempo todo. Você merece tudo de mais lindo. Não esquece o quanto eu te admiro… e o quanto ainda te amo."

Li aquilo umas mil vezes. E agora, com a festa rolando, todo mundo se divertindo, eu ainda sentia aquela presença ausente dele pairando no ar.

Depois do parabéns e das piadinhas da Melanie, a galera começou a se soltar de verdade. A música já tava rolando na caixa de som — uma playlist animada que eu mesma montei — e os copos começaram a se encher. Alguns com vinho, outros com cerveja, outros com refrigerante, e a Melanie, claro, apareceu do nada com umas batidinhas que o Ryan tinha improvisado na cozinha.

- Isso aqui tá uma delícia. -ela disse, dançando no meio da sala com um copo na mão.- Se eu sumir, já sabem que tô desmaiada no meu quarto.

- Seu quarto? -Olívia riu.- Melanie, você nem mora aqui!

- Detalhes, Olívia. -ela respondeu, dando um giro e quase derrubando o Victor, que tentava passar com um prato de petiscos.

As luzes estavam mais baixas agora, e as risadas tomavam conta do ambiente. A vista da sacada de Los Angeles era linda à noite, e as pessoas iam se revezando lá fora pra tirar foto e postar. Eu escutava fragmentos de conversas vindo de todos os lados. Anthony contava uma história engraçada do set, Virgínia tava ensinando Olívia a fazer um passinho de TikTok, e minha mãe e o Josh estavam abraçados no sofá, só observando tudo com um sorrisinho bobo de “minha filha cresceu”.

Foi aí que Justin pegou o microfone do karaokê que eu tinha alugado só pra zoar e gritou:

- Hora do show, meu povo!

Todo mundo virou na direção dele.

- Você vai cantar, Justin? -perguntei, cruzando os braços, desafiadora.

- Eu só canto se você cantar comigo -ele rebateu, me olhando com aquela carinha de “não tem como dizer não”.

- Ai, meu Deus… -resmunguei, mas fui.

Subi no pequeno palco improvisado perto da TV e escolhemos “Shallow” — bem clichê mesmo, mas combinava. No refrão, todo mundo já tava cantando junto, e Ryan filmava tudo gritando “a nova dupla do pop!” enquanto Melanie chorava de rir encostada na parede.

Depois foi a vez da Virgínia cantar Beyoncé — e arrasar, claro —, enquanto Ryan e Anthony cantaram “I Want It That Way” dos Backstreet Boys como se tivessem nascido nos anos 90.

Num momento mais calmo, fui até a cozinha buscar mais gelo e encontrei Olívia ali, sozinha, pegando água.

- Feliz aniversário de novo, Mari. -ela disse, me dando um abraço apertado.- Tô muito feliz por você.

- Obrigada, Liv. Tô feliz de ter você aqui.

Ela me olhou com carinho. 

- Vai me chamar de sentimental, mas… você merece tudo isso, sabe? Essa casa, esse momento. E eu sei que a Bruna também sabe.

Respirei fundo. Aquilo me pegou.

- É… só queria que ela estivesse aqui.

Ela assentiu e não insistiu. Só ficou ali comigo por uns segundos, em silêncio, como quem entendia.

De volta pra sala, Justin e Ryan estavam competindo pra ver quem conseguia cantar “Bohemian Rhapsody” com mais energia, enquanto Melanie — já bem mais animada — filmava tudo.

Era tudo tão leve. Tão bom. Tão o que eu precisava.

Mas mesmo com toda essa felicidade, não dava pra ignorar o vaziozinho ali dentro. A Bruna. O Luan. As ausências gritavam entre as presenças. Mas, por enquanto… eu queria só curtir. Porque aquele era meu dia. Meu momento. Meu novo começo.

[...]

Com o copo de martini na mão que o Ryan havia preparado, me afastei um pouco da bagunça e fui até a sacada. O ar noturno de Los Angeles bateu no meu rosto e deu aquela leve refrescada. Eu ri sozinha, lembrando do Anthony dançando “Single Ladies” minutos antes. A vista da cidade iluminada parecia ainda mais bonita agora.

O celular vibrou no meu bolso. Quando vi o nome Luan piscando na tela, meu coração deu aquele saltinho bobo que eu tentei ignorar. Respirei fundo, ajeitei o cabelo de qualquer jeito, e atendi a videochamada.

- Feliz aniversário, Marina!

Ele apareceu sorrindo do outro lado da tela, deitado no sofá do apartamento que antes era nosso. O cabelo meio bagunçado, aquela expressão de quem tentou parecer casual, mas se arrumou só pra me ligar.

- Luan! -sorri, sentindo minha voz arrastada, mas firme.- Até que enfim, achei que ia só me mandar mensagem mesmo.

- Eu ia, mas… não consegui. Tive que ver você, nem que fosse pela tela.

Sentei no braço do sofá da varanda, cruzando as pernas com cuidado pra não derrubar meu drink.

- Tô um pouco… leve. -confessei, levantando o copo.- Mas nada demais, juro. Só feliz.

- Você tá linda. -ele disse, com aquele jeito sincero que sempre me desarma.

Fiquei em silêncio por um segundo, observando ele na tela. Ele também me olhava, como se quisesse decorar cada detalhe. Parecia um pouco cansado, mas o olhar… aquele olhar era o mesmo. E ele me conhecia bem o suficiente pra saber que eu tava sentindo falta dele.

- A festa tá incrível. -falei, tentando soar animada.- Melanie já fez vergonha no karaokê, Justin também. Tô quase jogando meu sofá pela janela se mais alguém cantar Adele desafinado.

Ele riu.

- Queria estar aí. Mesmo.

- Eu sei. -murmurei, bebendo mais um gole do martini.- Eu também queria.

O silêncio que veio depois não foi desconfortável. Foi só… cheio. Tinha história ali, tinha saudade, tinha coisa não dita. Ele passou a mão no cabelo, meio nervoso.

- Mari… eu sei que a gente tá tentando seguir, cada um do seu jeito. Mas tem coisa que não muda, né?

Engoli em seco, sentindo o coração acelerar.

- Tipo o quê?

- Tipo o que eu sinto por você.

Olhei pra ele, sem saber o que dizer. O barulho da festa ainda vinha ao fundo, abafado, como se estivesse a quilômetros dali. Era só eu e ele naquele momento, como se o mundo tivesse pausado.

- Eu senti tanto a sua falta esses dias. -sussurrei, por fim.

Ele assentiu, os olhos brilhando.

- E eu tô aqui. Mesmo longe, ainda tô aqui. Feliz aniversário, Marina.

Sorri, com os olhos marejando.

- Obrigada, Luan. Por ligar. Por lembrar. Por… ainda ser você.

- Sempre vou ser. Boa noite, minha aniversariante.

- Boa noite, meu cantor preferido.

Ele sorriu mais uma vez, e a chamada terminou. Fiquei ali, olhando a tela apagada do celular por alguns segundos antes de guardar no bolso. 

O martini quase no fim e o coração um pouco mais cheio depois da ligação com o Luan, escutei a porta de correr se abriu devagar atrás de mim.

Virei e vi o Victor. Ele tinha aquele sorriso calmo de sempre, mas o olhar estava diferente. Mais suave, talvez. Assenti e ele se aproximou, parando ao meu lado, encostado no parapeito.

- Tava te procurando. Preciso ir. -ele disse, me olhando com um pouco de hesitação.- Mas… queria falar contigo antes.

- Claro. -respondi, endireitando a postura.- Tá tudo bem?

Ele riu baixo, olhando pra cidade.

- Tá. É só que… eu tô conhecendo alguém.

Demorei um segundo pra processar. Ele continuou:

- Não queria que você soubesse por outra pessoa, ou no set, ou pior, por alguma fofoca idiota. A gente viveu umas coisas intensas, mesmo com tudo que aconteceu. Achei justo vir aqui e te contar.

Fiquei em silêncio por um momento, só observando a sinceridade no rosto dele.

- Obrigada por me dizer, de verdade.

Ele assentiu e deu um meio sorriso.

- Ela é bem legal, vai adorar conhece-la. Ela tem um sotaque francês que eu não entendo metade das palavras, mas... ela me escuta. Me faz rir. É diferente.

- Isso é bom. -sorri, sincera.- Fico feliz por você, de verdade, Victor.

- Mesmo?

- Mesmo. A gente já teve o que tinha que ter, né? E foi bonito. Intenso. Mas ficou no passado.

Ele me encarou por uns segundos, como se estivesse buscando alguma mentira no que eu dizia. Mas não tinha. Eu sabia disso.

- Você tá diferente, sardenta. -ele comentou, de repente, com aquele apelido que ele insistia em manter mesmo depois de tudo.- Tá mais leve. Até com esse olhar meio sonhador aí, que nem tenta disfarçar.

- Ah, para. -ri, meio sem graça.- É meu aniversário, eu tenho direito de estar sensível.

- Não, não é isso. É que... tem alguém aí ainda mexendo com você. E eu aposto que sei quem é.

Não respondi. Só olhei pro céu, tentando segurar o sorriso idiota que teimava em aparecer quando eu pensava no Luan.

Victor se aproximou, me deu um beijo na bochecha e me abraçou de leve.

- Seja feliz, sardenta. Você merece.

- Você também, Vic. Vai com cuidado.

Ele sorriu e acenou antes de voltar pra dentro. Fiquei ali, com a bochecha ainda quente do beijo de despedida, e o coração em paz.

Era isso. O que tinha que ser lembrança, finalmente estava no lugar certo.

3 semanas depois...
Domingo, 19 de Julho de 2026

As semanas passaram num piscar de olhos. Eu mal via a luz do sol — e não era exagero. As gravações do filme estavam a mil por hora, cenas intensas, externas longas, trocas de figurino, ensaios, regravações… Eu estava vivendo pra esse projeto, e só. Não tinha tempo pra mais nada. Nem pra mim.

Comecei a pular refeições sem nem perceber. Às vezes só tomava um café no set e comia qualquer barrinha de cereal antes de ir dormir. Meu corpo já vinha dando sinais: tontura aqui, uma dorzinha de cabeça ali, o estômago embrulhado nos intervalos. Eu ignorava tudo. Colocava a culpa no ritmo puxado, no estresse, e seguia. Como sempre.

Hoje, finalmente, eu tinha folga.

Acordei quase meio-dia, com a luz da sala atravessando as janelas enormes do meu apartamento. Estava um silêncio gostoso, e pela primeira vez em semanas, eu não tinha despertador, diretor chamando ou maquiagem às seis da manhã.

Vesti uma regata velha, prendi o cabelo num coque bagunçado e fui até a cozinha. Fiz um misto quente com queijo derretido e pão bem crocante. Me sentei no sofá, pronta pra aproveitar aquele pequeno prazer da vida com calma. Dei a primeira mordida — estava perfeito. Quente, salgado, com gosto de casa.

Mas então, do nada, uma náusea forte subiu pela minha garganta. Larguei o sanduíche no prato e corri pro banheiro, sentindo o estômago revirar. Me ajoelhei diante da privada e vomitei tudo, sem nem tempo de entender o que estava acontecendo.

Fiquei ali por alguns segundos, ofegante, com a testa encostada na tampa gelada. Minhas mãos tremiam. Senti um arrepio na espinha.

Não era só cansaço.

Respirei fundo, tentando processar. Tinha algo diferente ali. Algo que meu corpo estava tentando me dizer.

E, pela primeira vez em muito tempo, uma palavra sussurrou lá no fundo da minha mente, como um segredo que eu não queria escutar:

Grávida?

Me sentei no chão frio do banheiro, sentindo o coração acelerar. Minha mente começou a correr — datas, lembranças, possibilidades…

Depois de me recompor no chão do banheiro, ainda com o gosto ruim na boca e o coração batendo rápido, fiquei encarando o vazio por alguns minutos. Grávida? Era quase ridículo. Eu uso DIU há mais de um ano. Tinha feito os exames de rotina recentemente, estava tudo certo, tudo no lugar. As chances eram mínimas. Mínimas.

Mas... não impossíveis.

Me levantei devagar, lavei o rosto com água fria e fui direto pro quarto, ainda meio zonza. Peguei minha carteira e joguei um moletom por cima da regata. Desci as escadas do prédio sem nem lembrar se tinha penteado o cabelo ou escovado os dentes.

A farmácia mais próxima era a duas quadras. O caminho pareceu eterno. A cada passo, eu revivia os últimos dias, as últimas semanas. Os enjoos. O cansaço absurdo. A falta de apetite. Eu não queria criar paranoia, mas meu corpo estava claramente tentando me avisar de algo.

Na farmácia, pedi o teste com a voz mais neutra que consegui.

- Um teste de gravidez, por favor. O mais confiável.

A atendente me olhou rápido, assentiu e entregou sem perguntas. Paguei e voltei pra casa num silêncio cortante, ignorando qualquer pensamento que quisesse surgir. Meu foco era só um: descobrir.

Assim que cheguei, fui direto pro banheiro com a embalagem ainda nas mãos. Li as instruções com atenção, mesmo já sabendo.

E então… fiz.

O teste ficou no balcão, virado pra baixo, enquanto eu me sentava na beirada da banheira com as mãos suadas. Dois minutos. Parecia uma eternidade. Minha cabeça girava com todas as possibilidades. É impossível. Eu tenho DIU. Mas... e se?

O cronômetro do celular apitou.

Levantei devagar, sentindo as pernas moles, e virei o teste.

Dois risquinhos bem nítidos. Sem sombra de dúvida.

Positivo.

Meus lábios se entreabriram, mas nenhum som saiu. O mundo pareceu parar por um segundo.

- Não… -murmurei pra mim mesma, encostando o teste na pia, como se aquilo fosse mudar o resultado.- Não é possível...

Mas ali estava. Dois riscos.

E eu sozinha no banheiro do meu apartamento, com vinte anos recém-completados, encarando a realidade de algo que eu nunca imaginei viver agora.

Eu estava grávida do Luan.

2 dias depois...

Ainda meio anestesiada pela descoberta, lá estava eu, sentada sozinha na sala de espera da clínica, segurando firme a alça da bolsa. O teste de farmácia dizia tudo, mas eu precisava ver. Precisava ter certeza.

Quando chamaram meu nome, meu coração disparou. A médica, Dra. Rachel, era jovem e muito gentil, o que de alguma forma me acalmou um pouco.

Depois de algumas perguntas básicas, ela me orientou:

- No primeiro trimestre, Marina, a gente faz o ultrassom transvaginal. É mais preciso para confirmar a gestação e ver se está tudo bem, ok?

Assenti, com um nó na garganta, e segui as instruções. Deitei na maca, respirei fundo, e deixei que ela começasse.

A tela acendeu e, em poucos minutos, ali estava: um pequeno pontinho piscando.

O coraçãozinho.

Meus olhos se encheram de lágrimas na mesma hora.

- Você está com aproximadamente seis semanas e três dias. -disse a médica, sorrindo gentilmente.- A data provável do parto é 14 de março.

Meus olhos arregalaram. 14 de março. Um dia depois do aniversário do Luan e da Bruna. Como se o universo estivesse zombando de mim.

A Dra. Rachel continuou analisando a tela, até franzir levemente a testa.

- Marina, você usa algum método contraceptivo?

- Sim... eu tenho DIU. -respondi rápido, o peito apertando.

Ela movimentou o aparelho com cuidado e, depois de um instante, assentiu.

- Ele está aqui ainda, no lugar. Bem posicionado, inclusive.

- Mas... como? -perguntei, com a voz fraca.

- Em casos muito raros, o DIU pode falhar, mesmo estando no lugar certo. A taxa de falha é baixíssima, mas não é zero. Você é uma exceção, infelizmente. -ela pausou, com delicadeza na voz.- Agora que confirmamos a gestação, será necessário retirar o DIU o quanto antes para evitar riscos para o bebê.

Senti o ar sumir dos meus pulmões. Riscos? Meu instinto de proteção já despertava, mesmo sem eu entender direito.

- E... como é feita a retirada? É perigoso?

- Nós fazemos com muito cuidado. Pode ser que, ao puxarmos o fio, o DIU saia sem problemas e a gravidez continue saudável. Mas existe um pequeno risco de sangramento ou até mesmo de aborto espontâneo. Vamos fazer o procedimento com toda cautela possível.

Eu fechei os olhos por um segundo. Tudo parecia tão frágil.

Então, ela me encarou com uma expressão suave, mas séria:

- Marina, sei que é muita informação. Antes de seguirmos, preciso perguntar: você deseja continuar com a gestação?

O coração quase parou no peito.

As lembranças vieram fortes e dolorosas. Eu já sabia como era interromper uma gravidez. Quando engravidei do Victor, eu tinha optado por não seguir. Naquela época, parecia a escolha certa. Eu não me sentia pronta. Não tinha maturidade. Não tinha estrutura emocional.

Mas agora... era diferente.

Eu não planejei. Não fazia parte dos meus sonhos para agora. Mas o que crescia dentro de mim era fruto de uma noite cheia de amor, saudade e sentimento verdadeiro. Era uma parte minha. E uma parte do Luan.

Respirei fundo, sentindo as lágrimas ameaçarem cair de novo.

- Eu quero continuar. -disse com a voz embargada, mas firme.

A Dra. Rachel sorriu, compreensiva.

- Tudo bem. Vamos fazer o possível para garantir que tudo corra bem. Vou agendar a retirada do DIU o mais rápido possível, ok?

Assenti de novo, engolindo o choro. Minha cabeça já fervilhava. Eu precisava ser forte. Pensar em cada passo. Cuidar de mim e do bebê. E, em breve, contar ao Luan.

Porque agora, não era mais só sobre mim.

Era sobre nós dois.

[...]

Os dias passaram, arrastados e silenciosos. O final de julho chegou, e finalmente o diretor decidiu dar uma pausa nas gravações — ele mesmo percebeu que estava exigindo demais de todos. Era um alívio. Meu corpo já não aguentava mais tanto esforço, ainda mais agora.

Mas mesmo com a folga, meu coração pesava. Luan estava estranho comigo nas últimas semanas. Respostas curtas, mensagens espaçadas, uma frieza que eu não reconhecia nele. Eu tentava entender o que havia acontecido, mas a resposta parecia cada vez mais distante.

E eu ainda não tinha conseguido contar sobre o bebê.

Ninguém sabia. Nem minha mãe, nem Justin, nem Melanie... Ninguém. Era como se o segredo pesasse toneladas em cima de mim. Só eu e aquela pequena vida, dividindo o mesmo silêncio.

Agora, Bruna estava prestes a ganhar o Jack. E Luan com certeza estaria por perto. Eu sabia que essa viagem para Nova York era minha chance.

Assim que o avião pousou e eu cheguei ao hotel do meu pai, mandei uma mensagem para o Luan. Passei a localização, o número do quarto e fui direta:

"Preciso muito falar com você. É importante. Me encontra, por favor."

O tempo parecia se arrastar enquanto eu esperava. Cada segundo parecia um golpe no peito.

Finalmente, alguém bateu na porta.

Meu coração disparou.

Abri e dei de cara com ele. Luan. Em carne e osso.

Mas não era o Luan que eu conhecia.

Seus olhos estavam opacos, sua expressão fechada. Ele parecia... distante. Frio.

Ignorei o aperto no peito e fui até ele, tentando quebrar aquela muralha invisível entre nós. Me aproximei e o abracei.

Mas ele não retribuiu.

Ficou ali, rígido, como se o meu toque não tivesse mais efeito algum nele.

Senti meu estômago embrulhar — e dessa vez, não era por causa da gravidez.

Afastei um pouco o rosto para encará-lo, tentando encontrar algum resquício do Luan que eu amava. Mas só encontrei distância.

Engoli em seco. Eu sabia que precisava ser forte. Precisava falar.

Puxei o Luan pra dentro do quarto antes que alguém visse a gente ali na porta. Meu coração martelava no peito, nervoso, inquieto.

- Quer uma água? -perguntei, tentando soar natural, apesar da tensão no ar.

Ele balançou a cabeça, seco.

- Só fala logo o que você quer.

O jeito como ele disse aquilo me atingiu como uma facada. Travei a garganta por um segundo, sentindo um gosto amargo subir. Respirei fundo, tentando manter o controle.

- Antes de qualquer coisa... eu preciso saber. -minha voz saiu mais baixa do que eu queria.- Por que você tá assim comigo? Por que tanto desprezo?

Luan soltou uma risada sem humor, debochada. Um som que doeu ouvir, porque não parecia em nada com ele.

- Porque eu já sei, Marina. -ele disse, cruzando os braços, encarando-me com frieza.- Eu sei que você me enganou. Aquela noite... -ele balançou a cabeça, rindo amargamente.- Aquela noite que a gente passou junto não significou porra nenhuma pra você. Você tava transando com o Victor ao mesmo tempo. De novo né?

Demorou uns segundos pra eu processar o que ele tinha acabado de jogar na minha cara.

- O quê? -soltei, sentindo meu peito arder.- Isso não é verdade, Luan! Eu e o Victor... a gente não tinha mais nada! Desde abril, maio, sei lá... Quando eu fui pro teu show, quando a gente se reencontrou... não existia mais Victor na minha vida! -falei, sentindo a indignação crescer dentro de mim.

Ele soltou outra risada amarga, olhando pra mim como se eu fosse uma piada.

- Bruna me contou tudo já. -disse, como se a palavra dela fosse sentença.- Que enquanto nós dois trocavamos mensagens, você dizendo que sentia minha falta, você estava transando com ele.

E foi nesse momento que algo dentro de mim quebrou. Meu semblante, que até então era de frustração, mudou. O que restou foi apenas decepção.

Decepção porque ele acreditava em tudo, menos em mim. Decepção porque, no fundo, eu sabia que a gente nunca mais seria o mesmo depois disso.

Eu engoli seco, tentando segurar as lágrimas que já ameaçavam descer.

Ele realmente achava que eu tinha mentido pra ele.

E o pior de tudo... ele achava que a nossa noite tinha sido insignificante pra mim.

Mal sabia ele que aquela noite tinha mudado tudo.

Literalmente.

Inclusive a minha vida.

Inclusive a vida dele.

A decepção não era só com o Luan.

Era com a Bruna também.

Como ela pode falar pro Luan isso? Sendo que eu havia lhe dito por mensagem que nem estava mais com Victor, quando ela me pediu pra contar pro Luan.

Fechei os olhos por um instante, sentindo o peso daquela traição me esmagar. Abri-os de novo e encarei Luan com toda a coragem que ainda restava em mim.

- Eu não ia te chamar aqui pra discutir isso. -falei, tentando manter minha voz firme.- Eu precisava te ver porque... eu tenho algo muito sério pra te contar.

Ele arqueou uma sobrancelha, cético, como se já estivesse esperando mais uma "mentira".

Puxei o ar com força e soltei de uma vez:

- Eu tô grávida, Luan.

O silêncio que se instalou foi quase ensurdecedor. Eu conseguia ouvir meu próprio coração batendo, rápido e descompassado.

Ele me olhou como se eu tivesse acabado de falar a coisa mais absurda do mundo. Deu dois passos pra trás, como se precisasse de distância pra processar.

- Grávida? -repetiu, com um tom de ironia amarga.- E tá me contando isso porque acha que é meu?

Aquilo... aquilo partiu o pouco do meu coração que ainda não tinha sido estilhaçado.

- É seu. -respondi firme, olhando direto nos olhos dele.- Eu uso DIU, Luan. Eu nunca achei que fosse acontecer... mas aconteceu. Eu só estive com você, naquela noite em Caruaru. Depois daquilo... depois daquilo não teve mais ninguém. E nem antes.

Ele soltou uma risada descrente, passando a mão pelos cabelos em nervosismo.

- Ah, claro. E o Victor? E todos esses meses aí que você tava "sozinha"? -ele fez aspas no ar com os dedos, me olhando com desconfiança.- Você quer mesmo que eu acredite nisso?

Senti os olhos queimarem, mas não deixei as lágrimas caírem. Não na frente dele.

- Acreditar ou não é escolha sua. -falei, fria agora. A dor era tanta que já tinha virado gelo.- Eu só achei que você tinha o direito de saber.

Ele me olhou por longos segundos, o maxilar travado, como se lutasse contra a raiva, a dúvida, a mágoa.

Eu dei um passo pra trás, sentindo que aquela conversa tinha chegado num ponto sem volta.

- Você pode fazer o que quiser, Luan. Ignorar. Fingir que não ouviu. Sumir. -minha voz falhou um pouco, mas eu continuei.- Mas eu vou ter esse bebê. Com ou sem você.

O silêncio voltou, pesado. Ele não disse mais nada.

E no fundo... eu já sabia.

Eu já sabia que aquela noite, que pra mim tinha sido tudo... pra ele tinha virado apenas uma traição vinda de alguém que eu amava como uma irmã.

Talvez a maior traição da minha vida.

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