Justin Narrando
Estávamos em Los Angeles por causa de uma reunião com um diretor de clipe e um ensaio fotográfico pra uma revista. Era um dia cheio, e tudo o que eu mais queria era que acabasse logo. O fuso de Nova York ainda pesava no corpo, e o que mais pesava era a conversa que eu precisava ter com o Scooter.
Esperei até o fim da reunião. Ele ainda falava com um produtor ao telefone, andando de um lado pro outro com a caneta entre os dedos, como sempre fazia quando estava concentrado.
- Ei, quando tiver um tempo... preciso te falar uma coisa. -falei baixo, tentando parecer casual.
Ele apenas assentiu e terminou a ligação.
- Fala aí, garoto. -ele se jogou no sofá de couro do escritório e me ofereceu uma garrafinha d’água. Eu neguei com a mão.
- É sério. Uma coisa grande.
- Alguma merda com a imprensa? Vazaram alguma foto?
- Não. Não é com a imprensa. Ainda -falei, olhando pra baixo e esfregando as mãos.
- Ainda? -ele ergueu uma sobrancelha.- Vai, fala logo. Não tenho o dia todo.
Suspirei fundo. Pensei na Bruna. Pensei no dia que descobri. No teste de farmácia. Na barriga dela crescendo. No Natal no Brasil.
- Eu vou ser pai.
O silêncio que se seguiu foi o mais pesado que já ouvi na vida. Scooter travou. Me encarou como se tivesse escutado errado. Piscou devagar. E só depois de alguns segundos, finalmente reagiu.
- VOCÊ VAI SER O QUÊ???
Me afundei no sofá e fiquei encarando o chão. Ele levantou, andou até a parede, depois voltou e apontou pra mim.
- Eu sabia que aquela maldita noite em Nova York foi um erro! Eu sabia! Nunca deveria ter deixado aquela menina entrar no camarim! Nunca!
- Não fala assim da Bruna. -rebati, me erguendo um pouco.
- Justin, você tem NOÇÃO do que isso significa? Você não tem nem UM ANO de carreira consolidada! A gente ainda tá começando a construir sua imagem, seu nome... e agora você vem com essa? Você é uma estrela, garoto! As pessoas param pra ouvir você. E agora... isso vai ser um escândalo!
- Não vai ser escândalo nenhum. Não precisa ser. -falei, firme.
- Ah não? Você acha que dá pra esconder isso de quem? Da imprensa? Dos fãs? Dos seus patrocinadores? Porra, Justin!
- Eu não tô pedindo sua aprovação. Só tô te avisando.
Ele passou a mão pelo rosto, bufando. Caminhou até a janela com vista pra cidade e ficou de costas pra mim.
- E vocês voltaram? -perguntou, virando só um pouco o rosto.
- Não. A gente não tá junto.
- Meu Deus... -ele murmurou.- É pior ainda!
- Olha... eu sei que não é o ideal. Eu sei que você queria outro tipo de trajetória pra mim. Mas isso aconteceu. Eu vou ser pai. E eu não vou sumir. Não vou fingir que não é comigo.
- E o que ela quer? Vai querer pensão? Um acordo?
- Ela quer continuar a faculdade. Só isso. Eu tô ajudando com o que precisa. A Bruna não quer escândalo, nem dinheiro. Ela quer ser mãe e seguir em paz. E eu vou apoiar.
Scooter ficou em silêncio de novo. Estava claramente tentando processar. Eu sabia que ele se importava comigo — às vezes até como um pai —, e que o surto dele vinha mais de preocupação do que raiva. Mas mesmo assim... doía ouvir tudo aquilo.
- Olha -comecei, levantando-, se você quiser gritar mais, tudo bem. Mas nada vai mudar. E eu não vou deixar ninguém falar da Bruna como se ela fosse culpada por alguma coisa. Porque a culpa não é dela. É nossa.
Ele suspirou alto.
- Tá. Ok. Respira. Vamos lidar com isso. Mas, pelo amor de Deus, nada de entrevistas, nada de post no Instagram, nada de sair com ela em público por enquanto. Entendeu?
Assenti devagar. Parte de mim queria contar pro mundo. Mas outra parte sabia que era cedo demais.
- E você vai contar pros patrocinadores?
- Não. Ainda não. Vamos pensar numa estratégia primeiro. Uma coisa de cada vez.
Eu saí do escritório sentindo o peso do mundo nas costas. Mas também com um certo alívio. O segredo já não era mais só meu. E não importava o escândalo que viesse... eu tava decidido: seria o melhor pai possível pro meu bebê.
Eu precisava conversar com a Marina. Ela era a única pessoa que conseguia me fazer raciocinar direito quando o mundo parecia desabar.
Mandei uma mensagem curta:
"Preciso falar com você. Sério. Pode me encontrar no hotel?"
A resposta veio segundos depois.
"Já tô indo."
Peguei um uber e fui até o hotel, nós mos encontramos na portaria, e tinha algumas fãs ali reunidas que eu nem sei como descobriam onde eu ficava. Duas delas nos viu e gritou:
- JUSTIN! AAAAAH!
- MARINA? É A MARINA!
O segurança abriu espaço e veio direto até nós, impedindo qualquer aproximação. Fiz um gesto com a mão, tentando acalmar a situação, mas seguimos rapidamente até o elevador. Marina me acompanhava em silêncio, de boné, óculos escuros e moletom.
Assim que entramos no quarto, ela tirou os óculos e se jogou no sofá com um suspiro pesado.
- Juro por Deus, fumar de vez em quando com você já não tá sendo o suficiente com o estresse que eu tô vivendo ultimamente. Eu tô à beira de um colapso.
Ela falou sem filtro, como sempre fazia. Mas dessa vez, não sorri.
- Marina… eu preciso conversar.
Ela me olhou de canto, depois se ajeitou no sofá. Seu olhar mudou completamente. Sério. Atento.
- Tá. Tô ouvindo.
Sentei na beira da poltrona, as mãos entrelaçadas. Respirei fundo, tentando encontrar as palavras. Mas nenhuma forma ensaiada parecia funcionar, então fui direto:
- Eu vou ser pai.
Marina se endireitou de uma vez.
- O quê?
- Isso mesmo. -repeti, firme.- Eu vou ser pai.
Ela me encarou por longos segundos, como se procurasse alguma pista de piada, alguma expressão que desmentisse tudo aquilo. Mas quando viu que eu tava sério, muito sério, o rosto dela mudou.
- Justin... -ela sussurrou, sentando-se direito, mais contida.- A Bruna vai ficar muito mal com essa notícia.
- Por quê? -perguntei, confuso.- Por que ela ficaria mal?
- Porque ela te ama, Justin. Sempre amou. E foi difícil pra ela superar o fim. Ela passou semanas fingindo que tava tudo bem, mas eu sei que ela tava quebrada. E agora... com você dizendo que vai ser pai... é tipo esfregar isso na cara dela.
Eu soltei uma risada, sem acreditar.
- Marina… a Bruna tá grávida. É dela que eu tô falando. O bebê é meu. Com a Bruna.
Marina congelou.
Os olhos dela se arregalaram, a boca abriu levemente.
- O quê?
- É isso mesmo. -confirmei, com um meio sorriso.
Ela piscou algumas vezes, tentando processar. E então, num impulso, se levantou e pulou nos meus braços.
- AAAAH, JUSTIN! VOCÊ TÁ BRINCANDO COMIGO! MEU DEUS, VOCÊ VAI SER PAI! E É DA BRUNA! AAAAAAAAH!
Ela riu, me apertando forte. Eu ri junto, meio aliviado, meio nervoso com a reação dela.
- Mas... -Marina se afastou, cruzando os braços e me encarando.- por que ela não me contou?
- Não foi fácil pra ela contar nem pra mim. Ela tá com medo. Tá perdida. E agora vai morar no apartamento do Luan em Nova York.
- Eu não acredito que a Bruna não me contou isso. -ela bufou, mas depois sorriu de novo.- Cara… você vai ser pai. E a Bruna vai ser mãe. Isso é tão louco. É tipo... sei lá... surreal.
- É. Eu sei. É exatamente assim que eu tô me sentindo.
Ela caminhou até a varanda do quarto, abriu a porta de vidro e olhou pra vista de Los Angeles.
- Agora tudo muda, né?
- Tudo. -respondi, indo até ela.- Mas eu quero fazer dar certo. Mesmo a gente não estando junto… eu quero estar presente.
Marina me olhou com os olhos cheios de emoção.
- Você vai ser um bom pai, Justin. De verdade.
Sorri, mas meu coração ainda tava acelerado. A ficha ainda não tinha caído completamente.
Mas naquele momento, com Marina ali, comemorando comigo… parecia que eu não tava tão sozinho.
[...]
A luz da cidade invadia o quarto do hotel pelas frestas da cortina. O ar condicionado zumbia baixinho e o silêncio era confortável. Marina e eu estávamos jogados no sofá, cada um com um baseado aceso entre os dedos.
Ela puxou a fumaça com calma, recostando a cabeça no encosto.
- Isso aqui ajuda a respirar. -ela murmurou, soltando a fumaça lentamente.- Mas só um pouquinho.
Eu ri baixo, sem tirar os olhos do teto.
- Você precisava mesmo saber da gravidez pela minha boca, viu?
Ela me olhou de lado, arqueando uma sobrancelha.
- Acha que eu não percebi o leve tom de crítica aí?
- É que... -eu dei uma tragada, em silêncio por alguns segundos antes de continuar.- A Bruna não te contou porque você tá distante dela.
Marina não respondeu de imediato. Ela puxou mais uma vez, soltou o ar lentamente, depois apoiou o cotovelo no braço do sofá e me encarou, com expressão cansada.
- É, talvez eu esteja mesmo. Mas não porque eu quis. -ela fez uma pausa, olhando pro teto agora.- Quando tudo desmoronou pra Bruna por causa daquele beijo do Zach… eu fiquei do lado dela. Mesmo com gente duvidando, com Luan surtando. Em nenhum momento eu desconfiei dela. Nunca. -ela virou o rosto na minha direção.- Mas quando a história se inverteu… quando foi o Luan quem desconfiou de mim e do Victor… a Bruna meio que… ficou do lado dele. Sem perceber, talvez. Mas ficou.
O quarto ficou em silêncio por alguns segundos.
- E isso doeu. -ela admitiu, com os olhos um pouco marejados, mesmo que tentasse disfarçar.- Eu me senti sozinha, sabe? Como se o que eu fiz por ela tivesse sido esquecido. Tipo… a dor dela era prioridade. A minha, não.
Eu me mexi no sofá, deixando o baseado apagar no cinzeiro. Me aproximei um pouco dela.
- Ela não percebeu isso, Marina. A Bruna não é de maldade. Ela tava tentando entender o que tava acontecendo com o irmão dela e com você. Ela ficou perdida.
- Eu sei. -Marina fechou os olhos, respirando fundo.- Mas, mesmo assim… doeu.
Ficamos ali em silêncio por mais um tempo. Ela encostou a cabeça no meu ombro e suspirou.
- Agora tudo tá mudando, né?
- Tá. -respondi baixinho.- Mas ainda dá tempo de consertar as coisas.
- Acha mesmo?
- A Bruna vai ser mãe do meu filho. Você é minha irmã. Se a gente não tiver unido agora… quando é que vai ser?
Marina assentiu lentamente, ainda encostada em mim. Ficamos ali, os dois quietos, com o cheiro da erva ainda pairando no ar e a cidade se movimentando do lado de fora. Pela primeira vez em dias, meu coração parecia um pouco mais calmo.
- E o Luan? -soltei, de repente, encarando ela de canto.
- E a sua mãe? -disse, como quem muda de estação no rádio.- Qual foi a reação dela quando soube que ia ser avó?
Eu ri, sem acreditar.
- Sério que você fez isso? Desviou assim mesmo?
Ela finalmente me olhou, os olhos levemente vermelhos e um sorriso debochado nos lábios.
- Fiz. Me deixa.
- Você é impossível, Marina.
Ela deu de ombros, e eu respirei fundo antes de contar.
- Fui ver minha mãe rapidinho na véspera de Ano Novo. Só tinha tipo um dia livre entre uma gravação e uma reunião com o Scooter. Fui até Nova Jersey de carro, sozinho, porque precisava falar com ela pessoalmente.
- Corajoso. -ela comentou.
- Eu fiquei nervoso pra caralho. -admiti, rindo.- Entrei na casa dela e ela já percebeu que tinha alguma coisa. Nem deu tempo de enrolar. Sentei no sofá, olhei bem pra ela e falei: "Mãe… você vai ser avó."
- E o que ela disse?
- Primeiro achou que eu tava brincando. Me olhou com aquela cara de "não me tira pra idiota". Aí ela percebeu que eu tava falando sério e ficou em choque por uns bons segundos. A boca dela até ficou meio aberta, sabe? Tipo quando ela viu a conta do cartão aquele mês que eu comprei três tênis iguais.
Marina riu alto, se afundando mais no sofá.
- E depois?
- Depois ela perguntou: "Foi com aquela menina brasileira, a Bruna?" Eu disse que sim. Ela ficou quieta, só encarando a parede. Aí levantou, me abraçou e disse: "Então você vai precisar crescer mais rápido do que eu esperava."
- A Pattie é braba mesmo. -Marina comentou, impressionada.
- É. Mas no fim, ela disse que ia me apoiar, que ia amar o bebê e que tudo bem não estar pronto. O importante é estar presente. E aí, antes que eu fosse embora, ainda me deu um sermão de leve sobre camisinha e responsabilidade emocional.
- Merecido. -Marina falou, me dando um tapinha na perna.
- Totalmente. Mas agora, você não vai escapar de novo. Tô esperando você me contar do Luan.
Marina revirou os olhos e jogou a cabeça pra trás no sofá, como quem não queria encarar. O silêncio dela dizia muita coisa.
- Marina…
Ela respirou fundo, e pela primeira vez em muito tempo, baixou a guarda.
- Eu tô muito magoada com o Luan. -disse baixo, sem me olhar.- Não o vi mais desde aquele dia... e nem pretendo ver, pra ser bem sincera.
Fiquei em silêncio por um segundo, tentando processar.
- Você sabe que isso é impossível, né? -falei, meio rindo.- Vocês dois vão ser tios do mesmo bebê. Não tem como evitar pra sempre.
Ela revirou os olhos, mas no fundo, eu vi um sorrisinho se formando nos cantos da boca.
- Só um bebê mesmo pra fazer eu rever o Luan. -ela suspirou, com o olhar distante. Ele quebrou uma parte de mim, sabe?
- Isso machuca. -falei, com a voz mais baixa.
- Muito.
Eu encarei ela, sem saber muito o que dizer. De certa forma, entendia. Quando a confiança se quebra, por mais que o sentimento ainda esteja ali, é difícil colar de volta.
Ela então virou o rosto pra mim e perguntou, como quem se lembra de algo de repente:
- E vocês? Você contou pro nosso pai?
Fiz uma careta leve e balancei a cabeça negativamente.
- Ainda não. Vou pra Nova York na próxima semana, quero ver como a Bruna tá se virando no apartamento, e aí conto.
- Awn, meu irmão vai ser papai mesmo. -ela fez uma voz fofa e engraçada, apertando os olhos e sorrindo.- Eu vou amanhã pra NY. Quero conversar com a Bruna... ver minha gravidinha linda!
Eu ri.
- Ela vai adorar te ver. Só não sei se vai te perdoar tão rápido.
- Eu mereço uma dura dela mesmo. -Marina admitiu.- Mas a gente é irmã de alma, a gente sempre se acerta.
Ela se recostou de novo, com o cabelo meio bagunçado e aquele ar meio vulnerável que ela deixava escapar só de vez em quando.
- E você e ela? -ela perguntou, depois de um gole de café.- Ainda tem sentimento?
Fiquei encarando o fundo da xícara, respirando fundo.
- Tem. Sempre vai ter. Mas é complicado, Marina… quando envolve confiança.
Ela assentiu devagar, olhando pra frente.
- Eu entendo. Mais do que você imagina.
A gente ficou em silêncio de novo. Dessa vez, um silêncio cheio de significados. Cheio de feridas abertas, mas também de uma esperança pequena de que, talvez, com o tempo… tudo se ajeite.
[...]
Depois que Marina foi embora, o quarto ficou em silêncio. Me joguei de volta no sofá, olhando pro teto por alguns minutos. Peguei o celular, abri a conversa com a Bruna e hesitei por alguns segundos antes de digitar.
"Oi… como você tá hoje?"
Demorou uns minutos, mas ela respondeu.
"Tô um pouco enjoada. Mas tô bem. E você?"
"Bem também. Fico pensando em você o tempo todo, sabia?"
Ela demorou mais pra responder dessa vez. Eu sabia que o nosso relacionamento agora era outro. Um terreno delicado, frágil, cheio de lembranças boas, mágoas e essa nova realidade: um bebê a caminho.
"Eu sei… eu também penso. Mas a gente sabe como as coisas são. Não é simples."
Suspirei, apoiando o celular no peito. Ela tinha razão. Nada era simples entre a gente. Mas ainda assim, a vontade de estar perto dela, de cuidar… estava cada vez mais forte.
Abri o navegador e digitei no Google:
“O que um bebê precisa nos primeiros meses de vida”
A lista que apareceu era enorme.
- Fralda… mamadeira… roupa de algodão… pomada… berço… Meu Deus. -murmurei sozinho, os olhos acompanhando a lista.
Fui descendo devagar, clicando em alguns links, abrindo novas abas. Uma parte de mim queria entender tudo, fazer certo, ser útil de alguma forma. Eu não sabia nem por onde começar, mas sentia que precisava tentar.
Me imaginei pegando aquele bebezinho no colo, com os olhos da Bruna e talvez meu nariz, e me deu um aperto no peito. Um medo real, um frio na barriga diferente de qualquer coisa que já senti em cima de um palco.
Entrei no whatsapp de novo e digitei.
"Se precisar de qualquer coisa… me chama, tá? Mesmo que seja no meio da madrugada. Darei um jeito pra ir até você"
Ela visualizou rápido, mas demorou pra responder.
"Obrigada. De verdade."
Sorri fraco e deixei o celular no peito outra vez, encarando o teto.
- É, meu pequeno… você já tá mudando tudo por aqui, e nem chegou ainda…