Saí do hotel do Justin com a cabeça girando. As coisas que ele me disse, o estado que Bruna devia estar… e esse bebê que, mesmo não sendo meu, parecia já estar mexendo com tudo ao meu redor. Coloquei meus óculos de sol — mesmo sendo noite — só pra disfarçar os olhos vermelhos. Não queria conversa no caminho.
Cheguei no meu hotel e fui entrando pelo saguão, torcendo pra ninguém vir puxar papo. Quando virei o corredor pro elevador, dei de cara com o Victor.
- Olha só quem resolveu aparecer. -ele disse, me olhando dos pés à cabeça.- Tá tentando esconder os olhos vermelhos ou a fama?
- Uma mistura dos dois. -respondi, tentando disfarçar o sorriso.- E você? Onde tava?
- Levei um bolo. -ele fez uma careta debochada.- A garota disse que "teve um imprevisto", mas provavelmente só lembrou que tinha dignidade.
Soltei uma gargalhada, mesmo sem querer.
- Nossa, Victor… que fase, hein?
- Não me julga. Pelo menos eu tento.
- Isso é o problema. -provoquei, dando um empurrãozinho de leve no braço dele.- Você tenta.
Ele riu, e o som da risada dele me deu uma sensação estranha. Aquele tipo de coisa que te puxa de volta pro passado.
- Tá ocupada? -ele perguntou.-;Ou quer rir mais da minha tragédia amorosa lá no meu quarto?
- Se tiver bebida, talvez eu vá. -respondi, dando de ombros.
- Cerveja gelada e minha autoestima destruída. Que combinação irresistível, hein?
Subimos juntos, trocando provocações idiotas no elevador. Quando entramos no quarto dele, joguei minha bolsa no sofá e fui direto abrir o frigobar.
- Tem só duas cervejas aqui, parabéns pela recepção. -falei.
- Eu ia beber sozinho, desculpa. Vou pedir mais. -ele já tava no telefone do quarto, pedindo mais cervejas e petiscos.
Enquanto esperávamos, ele pegou uma caixa de jogos de tabuleiro e jogou na cama.
- Se prepara pra perder. -ele disse, já montando as peças.
- Eu sou boa nisso. -rebati, sentando com as pernas cruzadas no tapete em frente à cama.
- Você é boa em me irritar, isso sim.
A cerveja chegou, e veio gelada, logo a gente tava ali, bebendo e jogando como se o mundo não estivesse pegando fogo lá fora. Ríamos alto, brigávamos por regras inventadas, empurrávamos um ao outro de leve, como duas crianças adultas demais pra fingir que não se conhecem tão bem.
Em um momento, ele tirou a minha peça do jogo e celebrou exageradamente, levantando os braços.
- Isso é trapaça, Victor! -acusei, rindo e tentando pegar a peça de volta.
- É estratégia! -ele respondeu, se inclinando mais pra perto.
A risada foi parando aos poucos. A cerveja já tinha subido um pouco, e nossos rostos estavam perto demais. Os olhos dele fixos nos meus. Eu sabia aquele olhar. Já conhecia bem demais.
- Faz quase um ano… -murmurei, sem saber por que falei.
- Eu sei. Mas essa é a primeira vez que é só… a gente.
A gente se olhou em silêncio por uns segundos. Nenhum de nós desviou. E então ele me beijou.
Um beijo lento, mas cheio de tensão, de saudade, de tudo o que ficou acumulado.
A mão dele foi pra minha cintura, e a minha subiu pra nuca dele. E antes que eu percebesse, ele me puxou com força, me pegando no colo. Instintivamente, enrosquei minhas pernas em volta da cintura dele, o beijo se intensificando. Ele me pressionou contra a parede, meu corpo encaixando no dele como se a gente nunca tivesse se afastado.
Eu gemi baixinho entre um beijo e outro, e ele parou por um segundo, encostando a testa na minha.
- Eu senti sua falta. -ele sussurrou, a voz rouca.
- Eu também senti a sua. -confessei.
Nos beijamos de novo, sem pressa, mas com uma urgência que crescia a cada toque, a cada olhar, como se aquele tempo separados só tivesse servido pra aumentar o desejo.
Victor me carregou da parede até a cama com facilidade, os olhos grudados nos meus, como se pedissem permissão, mesmo já sabendo a resposta. A forma como ele tocava meu corpo era familiar, mas ao mesmo tempo parecia nova — como se fosse a primeira vez de novo, só que com a bagagem de tudo que já vivemos.
As roupas foram caindo aos poucos, jogadas por qualquer canto, entre risos abafados, beijos demorados e aquele calor que não dava trégua. Não precisava de promessas, nem de conversas sobre amanhã. Aquilo era só sobre agora. Sobre a gente. E a saudade.
[...]
Estávamos deitados na cama dele, ainda ofegantes. O quarto em meia-luz, o lençol cobrindo só parcialmente nossos corpos. Eu tinha a cabeça apoiada no ombro dele, e o coração ainda acelerado, tentando se acalmar.
- Isso… foi uma péssima ideia. -murmurei com um meio sorriso nos lábios.
- Uma péssima ideia deliciosa. -ele respondeu, a mão fazendo carinho distraído no meu braço.
Ficamos em silêncio por um tempo. Um silêncio confortável, mas cheio de pensamentos não ditos.
- A gente não pode se enganar de novo. -eu disse, baixinho, olhando pro teto.
- Eu sei. -ele concordou, virando o rosto pra mim.- Mas também sei que eu teria me arrependido se não tivesse acontecido.
- Eu também. -admiti, encarando os olhos castanhos dele.
Decidi não prolongar mais aquilo, então me levantei da cama. Peguei minha calcinha e comecei a vestir, seguida da calça jeans.
- Você não muda nunca, né? -Victor falou com um sorrisinho malicioso.- Sempre a primeira a levantar e sair correndo depois do sexo.
Revirei os olhos, abotoando o sutiã e puxando a blusa que encontrei amassada perto da porta.
- Não tô correndo. -respondi, pegando meu celular no criado-mudo.- Só estou colocando as coisas no lugar.
- No lugar? -ele se ajeitou na cama, apoiando-se nos cotovelos. O lençol desceu um pouco, revelando parte do peito dele.- Marina… isso aqui não precisa ser um problema.
Suspirei, pegando minha bolsa no canto do quarto.
- E é exatamente por isso que não vai se repetir. -falei, encarando ele com firmeza, mas com um toque de carinho na voz.-;O que aconteceu foi bom, foi gostoso, foi intenso. Mas pode atrapalhar a gente, Victor.
- Atrapalhar?
- Sim. -continuei, voltando pra perto da cama, parando na beirada.- Nossa química… ela tem que estar em cena, como Nick e Noah. Não aqui. Não fora do set. Isso aqui bagunça tudo. Eu não tô pronta pra isso.
Ele me olhou por alguns segundos, depois assentiu devagar, parecendo aceitar, mesmo que contrariado.
- Tá bom, diretora. -disse, num tom brincalhão, mas eu percebi a pontinha de frustração escondida.
- É sério, Vick. -falei mais suave, tocando de leve no ombro dele.- Foi só essa noite. E foi especial. Mas… é isso.
- Beleza. -ele respondeu.- Só essa noite.
Dei um sorriso fraco e virei pra ir embora. Antes de abrir a porta, ouvi ele murmurar:
- Mas se um dia quiser repetir… cê sabe onde me achar.
Soltei uma risadinha e fechei a porta atrás de mim.
No outro dia...
O voo não foi longo, mas foi o suficiente pra eu pensar em mil coisas. Sobre Bruna. Sobre Victor. Sobre mim mesma. Sobre a noite passada. Eu sabia que tinha que manter a cabeça no lugar, e parte disso começava hoje — indo ver minha melhor amiga.
Peguei um táxi no aeroporto e fui direto pro antigo apartamento que antes era meu refúgio com o Luan. Só de olhar o prédio meu coração apertou um pouco. Era esquisito estar ali sem ele. Mas hoje, aquele lugar tinha outro significado.
O porteiro me reconheceu e sorriu pra mim, dizendo que era bom me ver novamente e que iria interfonar pra ver se tinha alguém em casa. Assenti e esperei, ele terminou de interfonar e me mandou subir, agradeci.
Fui até o elevador com a mala pequena puxando atrás de mim. Quando cheguei no andar, caminhei até a porta e antes que eu batesse, Bruna abriu a porta com um sorrisinho doce no rosto, vestindo um moletom largo e com uma caneca de chá quente nas mãos. Ela estava diferente… mais delicada, mais… mãe.
- Gravidinha linda. -falei fazendo aquela voz fofa que só a gente entendia, largando minha mala no canto e indo abraçá-la.
Ela riu, mas seus olhos se encheram de lágrimas e ela me apertou forte.
- Achei que você ia demorar mais pra vir.
- E perder o privilégio de ver sua barriga crescendo ao vivo? Jamais.
Entramos, e o apartamento já tinha outro clima. Ainda era o mesmo espaço onde eu e Luan dividimos sonhos, mas agora tinha almofadas novas, fotos na geladeira e uma energia completamente diferente. Mais calma. Mais… maternal.
- Tá se sentindo bem? -perguntei, sentando no sofá.
- Tô… mais ou menos. Os enjôos começaram, às vezes me sinto cansada demais, mas tô tentando manter a rotina. -ela disse, se sentando ao meu lado.- E você? Como tá?
Suspirei.
- Confusa. E cansada. Mas tô aqui. Vim porque você é importante pra mim. E, sinceramente? Fiquei meio chateada de saber da gravidez por outra pessoa. Mesmo essa pessoa sendo meu irmão e o pai do bebê.
Ela baixou o olhar, constrangida.
- Eu sei. E me desculpa. Eu só… a gente tava tão distante, e eu não sabia como você ia reagir.
- Bruna. -peguei a mão dela.- Mesmo quando a gente tá longe, você é a minha melhor amiga. Eu posso ficar magoada, mas vou sempre estar aqui. Ainda mais agora, que você tá criando uma vidinha aí dentro.
Ela sorriu emocionada e encostou a cabeça no meu ombro.
- Prometo que agora vou contar tudo. Até quantas vezes eu vomitar por dia.
- Eba. -falei rindo.- Mal posso esperar por esses detalhes maravilhosos.
Ficamos ali, em silêncio por alguns instantes, só curtindo o momento.
Depois de alguns minutos jogadas no sofá, me levantei e fui até minha mala.
- Trouxe umas coisinhas. -falei, puxando a alça e arrastando até perto do tapete.
Bruna me olhou curiosa, com as mãos no colo e um sorrisinho bobo no rosto.
- Não precisava, Marina…
- Ai, cala a boca. Claro que precisava! -abri o zíper da mala com toda a pompa que eu tinha direito.- Primeiro, pro baby.
Peguei um macacãozinho branco de algodão com estampa de estrelinhas azuis e amarelas e mostrei pra ela.
- Ai… -Bruna levou a mão à boca.- Que coisa mais fofa!
- Não terminei -falei, puxando da mala também um par minúsculo de sapatinhos de tricô cinza.
- Eu vou morrer. -ela disse, apertando a roupinha com os sapatinhos.
- E ainda nem chegou a sua parte. -pisquei, voltando à mala.
Tirei uma caixinha pequena com alguns cremes hidratantes, óleos corporais, e um vestido longo, lindo, com tecido soltinho e confortável — ideal pra barriguinha que logo logo ia começar a crescer de verdade.
- Isso tudo é pra você. Os óleos e os cremes são pra você se cuidar mais ainda, a atendente da loja disse que é ótimo pra estrias. E o vestido é de uma loja de maternidade que descobri por acaso, achei a sua cara. Ah, e aqui -puxei um pacotinho com alguns bombons e balas que ela amava-, seus doces favoritos, porque eu sou uma amiga maravilhosa.
Ela já estava com os olhos cheios de lágrimas de novo, mas eu não deixei durar muito.
- Mas ó -apontei pra ela- não abusa nos doces, tá? Nada de querer meter o pé no chocolate às três da manhã. Diabetes gestacional é real, dona Bruna!
- Ai, Marina. -ela riu entre as lágrimas.- Você é impossível.
- Eu sou perfeita. -respondi, com aquele meu jeito exagerado.
Ela se levantou, veio até mim e me abraçou forte, com o rosto encostado no meu ombro.
- Obrigada por vir.
- Eu sempre venho. Ainda mais agora. Você tá criando o meu sobrinho. Ou sobrinha.
- Já pensou se for menina? Vai ser igual você.
- Deus me livre. -gargalhei.- Ninguém merece outra Marina nesse mundo. A Melanie veio parecida e é insuportável.
Nos sentamos de novo, rindo como duas adolescentes, e por um instante tudo pareceu voltar a ser como era antes. Mesmo com tantas mudanças, a gente ainda era… a gente.
- E aí, Mari... como estão as gravações? Como está sendo sua carreira de atriz? -ela perguntou, com um olhar interessado, como se eu fosse uma estrela de cinema que ela tanto admirava.
Eu sorri, sentindo uma pontinha de orgulho por ter chegado até ali. Eu amava o que fazia, mas também tinha que admitir que a vida de atriz não era fácil.
- Ah, tá indo bem. -falei, me ajeitando no sofá.- A gente está gravando o segundo filme, e tá sendo mais puxado do que o primeiro. O ritmo de gravação é bem intenso, já gravei até de madrugada algumas vezes, e o roteiro... a personagem é bem mais desafiadora. Mas eu gosto disso, sabe? Me faz sentir que estou evoluindo.
Ela me olhou com curiosidade, e eu percebi que ela estava prestando atenção em cada palavra.
- E... como você está com a parte pessoal? Já tem alguém, Mari? -Bruna perguntou, com um sorriso brincalhão, mas eu podia ver que, por trás da pergunta, havia um toque de preocupação e um pouco de curiosidade.
Eu dei uma risada nervosa. Bruna, como sempre, não sabia segurar o que pensava. E eu sabia que ela me conhecia o suficiente para saber que, se eu tivesse alguém, seria difícil de esconder. Mas também sabia que ela me via com esse olhar de quem sempre acreditou que eu tinha algum segredo, que havia alguém que eu não contava, nem que fosse só para sexo.
Eu me lembrei da noite passada com o Victor, da nossa risada, do clima que rolou... mas não queria trazer isso à tona. Era só uma recaída. Algo que aconteceu uma vez, e que, no fundo, eu sabia que não deveria se repetir. Eu não estava preparada para dividir isso com a Bruna.
- Não, Bruna, não tem ninguém. -falei, tentando parecer convincente, mas a verdade é que eu estava evitando olhar nos olhos dela. Eu sabia que ela poderia perceber alguma mentira no meu tom.- Eu tô tão focada nas gravações que nem tenho tempo pra isso, sabe? Gravo o dia inteiro, às vezes até de noite... e quando acaba, só quero dormir.
Ela levantou uma sobrancelha, olhando pra mim com aquele ar desconfiado, mas ao mesmo tempo como se fosse impossível acreditar que eu estivesse realmente sozinha.
- Sério, Mari? Porque eu te conheço, e eu sei que você sempre tem alguém, nem que seja só pra sexo. -ela falou com aquele tom divertido, tentando me provocar.
Eu ri nervosa, tentando disfarçar a verdade. Eu me sentia um pouco culpada por não ser completamente honesta com ela, mas não queria falar sobre o Victor. Não agora.
- Não, Bruna. Sério. Não tenho ninguém. -repeti, com mais firmeza.- A única coisa que tenho é meu trabalho agora. E sinceramente, por mais que eu me divirta com o que faço, o foco tem sido esse. Eu não tô nem aí pra namoro, ou qualquer coisa assim.
Bruna me analisou por um momento, como se estivesse tentando perceber se eu estava mentindo. Ela inclinou a cabeça pra o lado, e eu sabia que ela estava tentando ler cada expressão do meu rosto.
- Você é muito difícil de entender, sabia? -ela riu baixinho, voltando a se recostar no sofá, com a mão sobre a barriga, talvez já sentindo o peso da responsabilidade que agora estava sobre ela.- Mas tudo bem, vou acreditar.
Eu sorri, um pouco aliviada por ela não ter insistido mais. Não era fácil para mim mentir para a Bruna, mas ao mesmo tempo, sabia que tinha que manter algumas coisas em segredo. O mundo do trabalho, as gravadoras, o fato de estar longe da minha família e lidar com a solidão... tudo isso me impedia de viver um relacionamento real, ou até mesmo de ser sincera sobre o que aconteceu com o Victor.
- E você, como tá lidando com tudo isso? -perguntei, tentando desviar o foco de mim e trazer a conversa de volta pra ela.
Bruna deu um sorriso um pouco cansado, como se a pergunta a fizesse refletir. Eu percebi o quanto ela estava tentando se manter forte, mas que, no fundo, havia muitas dúvidas e inseguranças surgindo dentro dela. Ela olhou para a barriga e deu um suspiro profundo.
- Acho que tô indo bem... Mas é difícil, Mari, muito difícil...
O silêncio se estendeu, e eu sabia que, por mais que a Bruna tivesse força, ela também estava lidando com um turbilhão de sentimentos.
- Vai dar tudo certo. -falei, tocando a mão dela levemente.- Você não tá sozinha nisso, eu tô aqui pra você.
Ela sorriu, um sorriso um pouco triste, mas ainda assim grato.
- Eu sei, obrigada. -ela suspirou.- Mas sabe o que eu percebi? A gente é mais forte do que pensa. A gente caiu, quebrou a cara, teve que engolir um monte de coisa... Mas estamos aqui. Você em outra cidade, outra vida. Eu, esperando um filho. E a gente ainda se tem.
- Sempre. A gente sempre vai se ter.
Ela respirou fundo e sorriu de novo, olhando pra barriga.
- Esse bebê vai amar você, Mari. Vai ser a tia maluquinha preferida dele.
- Claro que vou. Já tô até treinando o jeito de mimar essa criança. -falei rindo.- Só você me prometa uma coisa: quando ele ou ela crescer, não me culpe por ser mimado, fechado?
Bruna gargalhou, encostando a cabeça no meu ombro.
- Fechado.
[...]
A despedida foi mais difícil do que eu esperava. Bruna ficou na porta do apartamento me abraçando como se não quisesse soltar. E no fundo, eu também não queria. Ver minha amiga entrando nessa nova fase da vida me fazia querer estar mais perto. Mas eu tinha uma carreira, prazos, responsabilidades. O mundo real me puxava de volta.
- Me promete que vai me manter informada de tudo? -perguntei, segurando as mãos dela com firmeza.- Cada consulta, cada desejo maluco de comida, qualquer coisa. Me avisa.
Bruna assentiu, emocionada.
- Eu prometo. E Mari... obrigada por tudo, de verdade.
- Eu tô aqui. Sempre. Qualquer coisa, me liga. Mesmo que seja só pra desabafar ou me xingar.
Ela riu, e me deu um último abraço apertado.
Peguei meu voo de volta pra Los Angeles no começo da tarde. O avião decolou e, pela janela, a cidade foi ficando pra trás. Suspirei fundo, tentando afastar a vontade de ficar mais. Mas meu trabalho me esperava.
Horas depois, já estava de volta ao ritmo frenético. Los Angeles era assim — não dava tempo de respirar. Peguei um café do Starbucks no caminho pro set, no celular, abri o X, distraída com as menções ao meu nome, uma nova tag dos fãs dos livros do fiome que começava a subir nos trending topics. Dei um gole no café, ainda morno, e sorri de canto.
- Boa tarde, sardenta.
A voz veio do meu lado, familiar. Levantei os olhos devagar. Victor estava ali, encostado na parede do corredor do estúdio, com uma expressão despreocupada e um leve sorriso nos lábios.
Revirei os olhos e respondi no automático:
- Você realmente não vai superar esse apelido, né?
- Nunca. É parte do meu charme agora.
Tentei sorrir e seguir andando, mas bastou o meu olhar cruzar com o dele por um segundo a mais, e as lembranças da noite que tivemos explodiram na minha mente como um raio. O calor dos toques, o gosto da cerveja na boca dele, a forma como ele sussurrava meu nome com a respiração acelerada...
Arrepios percorreram meu corpo, como se minha pele reconhecesse tudo antes de mim. Traguei em seco e desviei o olhar, tentando me recompor. Victor ainda me olhava, com aquele olhar atento que me conhecia mais do que eu gostaria de admitir.
- Pronta pra gravar hoje? -ele perguntou, fingindo que não notava o meu desconforto.
- Sempre. -respondi, tomando mais um gole do café, como se aquilo fosse me blindar.
Ele deu um passo ao lado, me acompanhando no corredor.
- Tem uma cena intensa entre Noah e Nick hoje... Vai ser divertido. -disse, com um sorriso sugestivo.
- A gente é profissional, Victor. -falei, sem nem olhar pra ele.
- Claro que somos.
Mas o jeito como ele disse aquilo... como se estivesse provocando de propósito... me tirou totalmente do eixo. A verdade era que não importava quantos dias passassem, ou quantas vezes eu dissesse que aquilo não se repetiria: meu corpo ainda lembrava. E Victor... ele sabia disso.
Suspirei fundo, empurrando a porta do set com o ombro.
Profissional, Marina. Foco. Cena. Texto. Lembre-se disso.
Mas no fundo, eu sabia que aquele dia estava só começando.
O estúdio havia recriado toda a ambientação pra fazer uma cena na praia: areia de verdade, um céu falso com iluminação controlada, e sons de ondas ao fundo. O diretor queria autenticidade, então lá estávamos eu e Victor, encarnando Noah e Nick, fazendo amor na areia sob as estrelas cenográficas. Apesar de ser tudo técnico e coreografado, não dava pra negar: tinha uma carga emocional forte ali. Talvez pelo passado. Talvez pela conexão inevitável.
Quando o “Corta!” ecoou pelo estúdio, respirei aliviada. Me levantei devagar, sacudindo a areia grudada na pele, e cobri o corpo com o roupão entregue pela assistente de figurino. A equipe começou a se movimentar ao redor, desmontando parte da cena e preparando o próximo take. Eu aproveitei a brecha e fui em direção ao meu camarim, pronta pra um banho urgente.
Mas no caminho, ouvi a voz familiar:
- Marina. Espera um pouco.
Era o Victor.
Parei. Respirei fundo antes de virar. Ele estava encostado na parede ao lado da porta do camarim dele, ainda com parte do figurino de Nick — a bermuda de linho claro e os pés descalços. Os olhos fixos em mim.
- Agora não, Victor. Tô indo pro banho. E acho que você devia fazer o mesmo. -falei, tentando manter o tom neutro.
- Não é sobre a cena, Marina. Só queria conversar... de verdade.
Hesitei. A expressão dele estava mais séria que o normal. Suspirei e dei dois passos até ficar mais próxima.
- Se for sobre o que rolou outro dia, já te disse... não vai se repetir. Eu... eu terminei com o Luan há pouco tempo. Ainda tô tentando entender as coisas aqui dentro. Não seria justo com ninguém.
Victor cruzou os braços, encostando a cabeça na parede por um momento, e depois me olhou de novo.
- E foi justo quando você começou com o Luan? Um mês depois de terminar comigo?
As palavras dele me acertaram em cheio. Abri a boca pra responder, mas nada saiu.
- Eu lembro, Marina. Eu ainda tava tentando respirar, entender o que tinha dado errado entre a gente, quando vi você com ele pelo campus. Rindo, parecendo leve... feliz. Eu não te culpei. Eu só... segui em frente também. Mas agora você vem dizer que não é justo?
O nó na minha garganta apertou. Eu não queria que essa conversa acontecesse. Não assim. Não naquele dia.
- Victor... eu não comecei com o Luan por vingança ou pra te esquecer. Foi natural. Eu... tava machucada também. E ele apareceu... e foi gentil comigo. A gente se conectou, foi acontecendo.
Ele deu um passo em minha direção, os olhos nos meus.
- Eu não te culpo. Mas não vem dizer que não pode acontecer nada entre nós agora por conta de "justiça", porque se a gente for falar de tempo, você e ele também começaram rápido demais. A diferença é que eu nunca te esqueci.
Minha respiração falhou. O peso das palavras dele ficou ali, entre a gente, como uma maré prestes a me arrastar de novo.
- Eu só preciso de um tempo. -sussurrei.- É só isso. Um tempo pra mim.
Victor assentiu devagar.
- Tudo bem. Mas saiba que eu ainda tô aqui. E que nem tudo precisa ser tão complicado, princesa.
Ele me chamou daquele jeito, do jeitinho que ele me chamava quando namorávamos. Me virei sem responder e entrei no meu camarim, com o coração pesado e os pensamentos embaralhados.
Victor estava certo sobre muitas coisas. Mas era difícil admitir isso pra mim mesma.
As gravações terminaram mais tarde do que o esperado. Eu já estava exausta, o corpo pedindo cama e o rosto meio colado de tanta maquiagem. Me despedi da equipe no estúdio e saí pela porta dos fundos, onde os carros de apoio costumavam ficar. O frio da noite em Los Angeles me arrepiou assim que o vento bateu. Enfiei as mãos no bolso do casaco, ajeitei a mochila nos ombros e comecei a caminhar até o hotel que ficava ali perto.
Ouvi passos ao meu lado e, sem precisar olhar, já sabia quem era.
- Avisa se eu estiver te seguindo demais. -Victor disse, com um meio sorriso nos lábios.
Revirei os olhos, mas não consegui segurar o riso.
- Te daria uma ordem de restrição, mas o estúdio provavelmente não ia curtir.
- O bom é que a gente tá indo pro mesmo lugar. Economia de Uber. -ele brincou.
Seguimos em silêncio por alguns metros. O som dos nossos passos na calçada molhada era quase o único som naquela rua tranquila. As luzes dos postes se acendiam devagar, uma a uma, enquanto o céu ficava azul escuro.
- A cena de hoje ficou boa, né? -Victor perguntou, finalmente.
- Uhum. Intensa. Mas boa. Você mandou bem. -respondi, sem olhar pra ele.
- Você também. Mas isso não é novidade. É meio irritante o quanto você continua sendo boa em tudo que faz. -ele comentou, com um tom leve, mas que me fez rir de verdade.
- Cuidado, Victor. Assim eu até começo a acreditar que você sente saudade de mim.
Ele deu uma risadinha curta e depois ficou em silêncio por alguns segundos.
- Eu sinto. Mas eu vou respeitar seu tempo. Só... queria te lembrar que conversar com alguém que te conhece bem pode ajudar. Mesmo que não role nada além disso.
Suspirei. As palavras dele ficaram ecoando por dentro. Era fácil com ele. Sempre foi. A química era inevitável, mas o que mais me pegava era o jeito que ele me enxergava, mesmo quando eu fingia estar inteira.
- Obrigada. -falei baixo, mas sincera.- Por respeitar. E por ainda querer estar por perto.
- Sempre, sardenta.
Eu ri, empurrando de leve o braço dele.
Chegamos na entrada do hotel. O saguão estava quase vazio, só o recepcionista olhando o celular atrás do balcão. Victor me acompanhou até o elevador e quando a porta abriu, ele entrou comigo.
No curto trajeto até o nosso andar, ficamos em silêncio. Mas um silêncio bom. Sem pressão. Sem cobranças. Só uma paz estranha e familiar.
Quando saímos, paramos no corredor. Eu já ia seguir pro meu quarto, mas ele falou:
- Marina?
Virei pra ele.
- O quê?
Ele sorriu de lado.
- Quer vir comer algo comigo? Nada demais. Pedir umas massas. Duas, na verdade. Já prevendo que você não ia jantar de novo.
Dei uma risadinha, meio surpresa.
- Você me conhece bem demais, Victor.
- Eu sei. E ainda assim, continuo te achando incrível.
Mordi o lábio, pensativa. Parte de mim queria ir pro quarto e cortar qualquer laço emocional ali. Mas outra parte — a que ainda gostava de sentir leveza depois de um dia pesado — decidiu aceitar.
- Tá. Mas só se tiver refrigerante. E chocolate.
- Já sabia. Claro que tem.
Ele sorriu como se já tivesse ganho o dia.
E eu... me permiti só viver aquele momento, sem prometer nada.
[...]
O quarto de Victor estava bem iluminado, com as luzes mais baixas acesas e uns puffs pelo chão, criando uma vibe meio despojada e confortável. A comida ainda não tinha chegado, então cada um se jogou num puff, de frente pro outro. Tirei o tênis, puxei as pernas pro peito e apoiei o queixo nos joelhos.
- Posso te perguntar uma coisa? -falei, observando os olhos escuros dele sob a luz quente.
- Já até fiquei com medo... -ele disse rindo.- Manda.
- Você ainda... cheira?
Ele riu, balançando a cabeça.
- Não, sardenta. Larguei essa fase. Graças a Deus. -fez uma pausa e completou com um sorriso provocador.- Por quê? Você trouxe um pouquinho?
Dei uma gargalhada e joguei uma almofada nele.
- Idiota!
Ele riu junto comigo, se ajeitando melhor no puff, esticando as pernas no tapete.
- Tô limpo desde que viemos pra Los Angeles. Me sinto bem. Foi difícil no começo, mas... tô feliz por ter parado. -me olhou com mais seriedade agora.- Obrigado por se importar.
- Sempre me importei, Victor.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Aquele tipo de silêncio carregado. E então ele arriscou:
- E você? Como tá com... o fim com o Luan?
Suspirei devagar. Sabia que essa pergunta viria.
- Já chorei tudo que tinha pra chorar. -falei, olhando pro chão, depois de volta pra ele.- Mas ainda sinto mágoa, sabe? A forma como tudo acabou... me bagunçou. Mas agora... agora quero descobrir como a gente vai lidar com isso.
- Como assim lidar? Tipo... vocês ainda vão se ver?
- Vamos ter que conviver. -respondi, me ajeitando.- Bruna tá grávida. E o pai é o Justin.
Victor arregalou os olhos e deu um assobio.
- Uau... essa eu não esperava. A Santana e o Bieber?
- Pois é.
- Cara... imagina a cara do Harry quando descobriu isso. Ele deve ter ficado em choque. -Victor falou, passando a mão pelos cabelos.
- Vocês ainda se falam?
Victor ficou pensativo por um instante.
- De vez em quando. Foi uma amizade muito forte por muito tempo. Mas sabe quando a vida segue em caminhos diferentes? Acho que foi isso. Sem brigas, sem tretas. Só... fomos ficando distantes.
Antes que eu pudesse responder, ouvimos alguém batendo na porta do quarto.
- Aleluia! A comida! -ele disse, levantando com pressa.
Victor pegou os pacotes na porta e colocou tudo em cima da mesinha de centro. Havia duas massas bem cheirosas, refrigerantes e, claro, uma caixa de trufas — meu pedido especial.
- Que delícia! -exclamei, já pegando meu prato.
- Eu cuido bem de você. Sempre cuidei. -ele disse com aquele sorrisinho de canto que me fazia querer socar e beijar ele ao mesmo tempo.
Comemos em silêncio por alguns minutos, aproveitando o momento de calmaria. Quando terminei, me recostei no puff, acariciando a barriga cheia.
- Me sinto em 2025 de novo. -comentei, rindo.
- Eu ia falar a mesma coisa. Inclusive... -ele me olhou, apoiando o braço no encosto do puff, com aquele brilho malandro no olhar.- Você lembra do meu último aniversário?
- Como não esquecer? -dei um sorriso de lado, com receio dele falar da gravidez e o aborto.
- Foi incrível. -ele sorriu com mais intensidade agora.- Você apareceu com um vestido azul, lembra? Foi a noite em que, com todo o respeito, eu fiz o melhor sexo da minha vida.
Ri alto e revirei os olhos.
- Nossa, Victor...
- E você deveria se sentir privilegiada por isso. -ele piscou.- Não foi com qualquer uma, foi contigo. Sério. Aquela noite foi insana.
Dei um empurrão leve nele com o pé.
- Você não tem vergonha de falar essas coisas?
- Nenhuma. A gente pode estar longe um do outro, ter seguido caminhos diferentes, mas negar a nossa química é burrice.
Suspirei, encostando a cabeça no puff, olhando pro teto.
- Eu sei. Mas ainda sim... a gente não pode confundir as coisas. Uma coisa é Nick e Noah. Outra é Marina e Victor.
Ele assentiu, respeitoso, mas não sem um olhar que me atravessava inteira.
- Só quero que saiba que... eu tô aqui, de verdade. Seja pra rir, dividir um macarrão, ou só ouvir você falar mal do Luan.
- Idiota... -murmurei com um sorriso.
E ali, no quarto com cheiro de molho e passado, eu percebi que algumas conexões não precisam ser explicadas. Elas só existem.