Marina Narrando
A reta final da gravação tava me sugando toda a energia, mas ao mesmo tempo, era o auge do meu sonho se realizando. Gravávamos quase todos os dias em Los Angeles, e as cenas estavam ficando incríveis. Meu personagem já era praticamente parte de mim, e Victor, bom… ele era uma surpresa diária.
A gente virou amigo de verdade. Do tipo que ri de qualquer bobagem e tem piada interna que ninguém mais entende. Ele tava sempre com o celular na mão, postando stories nossos nos bastidores — e eu ria, revirava os olhos, mas no fundo achava divertido.
A música do momento entre a gente era Dákiti, do Bad Bunny. A gente escutava no camarim, nos ensaios, no carro indo embora… e até quando tavam passando o texto da cena. Eu nem sei mais quantas vezes a gente dançou juntos, meio zoando, meio sério. Ele cantava a primeira parte, olhando direto pra mim:
- Baby, ya yo me enteré, se nota cuando me ve’…
E eu, inevitavelmente, ria e rebatia a segunda parte, jogando o cabelo e fazendo pose:
- Y de nosotros quién va a hablar?, si no nos dejamos ver…
A equipe já sabia: se essa música começasse a tocar, a gente parava tudo pra fazer nosso showzinho particular. E ele sempre filmava. Postava com legenda tipo “meu duo favorito” ou “ela não cansa de me acompanhar nas coreografias”, com um emoji debochado.
Eu fingia que odiava, mas tava gostando.
Por mais que fosse só amizade — e a gente deixava isso bem claro — eu não podia negar que Victor era charmoso, divertido, talentoso e tinha aquele olhar… que às vezes me fazia desviar o meu.
E mesmo com tudo isso acontecendo, mesmo com os stories e a energia leve dos bastidores, eu sentia falta do Luan. A gente se falava por mensagem, chamadas de vídeo rápidas, mas eu sentia falta de verdade. Do abraço dele. Do jeito que ele me olhava. De como ele ficava meio emburrado quando via algum story meu com o Victor.
Mas ele confiava em mim. E eu confiava nele. Pelo menos era o que eu repetia toda vez que ia dormir.
O set hoje tava diferente. A movimentação era intensa, nervosa. Luzes ajustadas, câmeras instaladas em gruas e drones sobrevoando a estrada deserta onde a gravação aconteceria. Era o grande momento da perseguição de carro — a cena mais tensa do filme.
Meu coração batia mais rápido. Eu já tinha feito cena de ação, mas nada tão coreografado, tão técnico… tão real. Eu mesma ia dirigir o carro de fuga. Nada de dublê dessa vez — o diretor queria emoção nos olhos da personagem, queria a adrenalina, o suor, a tensão. Tudo verdadeiro.
- Você tá pronta, Marina? -perguntou o coordenador de ação, ajustando o cinto de segurança sobre mim, dentro do carro velho e adaptado que eu ia dirigir.
Assenti, mesmo com as mãos um pouco trêmulas.
- Pronta.
Na cena, Noah havia sido sequestrada pelo próprio pai — um homem criminoso, desesperado. Ele a colocava no volante, apontando a arma. Eu tinha que chorar, dirigir com medo, mas determinada a encontrar uma saída.
Do outro lado, Victor, vinha em alta velocidade com uma policial ao lado, vindo de frente comigo. As cenas iam ser gravadas em partes, mas a parte final — o drift, os dois carros lado a lado, o tiro certeiro — seria feita de uma vez. E era hoje.
A claquete bateu.
"Cena 93, take 1. Ação!"
Eu bati o pé no acelerador com força. O carro arrancou pela estrada de terra, levantando poeira e adrenalina. Ao meu lado, o ator que fazia meu pai falava com a arma em punho, apontada na minha cabeça.
- O que você ta fazendo? Quer matar a gente?
- Que diferença faz? Já estamos mortos mesmo. -respondi.
Eu me encolhi. A tensão era real. Sentia o volante tremer nas mãos. Meus olhos estavam fixos no Victor, que vinha na mesma velocidade que eu.
A cena do drift era a próxima. O coordenador avisava pelo ponto no meu ouvido:
- Três, dois, um… AGORA!
Girei o volante com precisão, o carro deslizando de lado dramaticamente, e o carro do Victor emparelhou com o meu. Estávamos lado a lado.
Victor olhou pra mim pela janela do carro com um desespero real nos olhos. Era atuação, mas do tipo que fazia o ar faltar.
Eu assenti com a cabeça para Victor e nós dois nos abaixamos, e BANG — o som do tiro ecoou tão real que meu coração disparou, mesmo sabendo que era efeito prático.
O ator ao meu lado caiu pra frente, o corpo fingindo o impacto da bala. Silêncio. E eu ali, com as mãos trêmulas no volante, lágrimas escorrendo, encarando o vazio.
- CORTE! -gritou o diretor.
A equipe inteira aplaudiu. O diretor apareceu com um sorriso e os braços erguidos.
- Foi PERFEITO!
Victor saiu do carro dele e correu até mim. Abriu a porta, me ajudou a sair.
- Você mandou muito bem, garota.
Eu sorri, ainda ofegante.
- A gente arrasou.
A gente se olhou por uns segundos.
A cena final tava pronta. Mas alguma coisa em mim dizia que o que tava por vir… ia ser mais intenso ainda.
A cena tinha sido insana. Intensa. Cheia de adrenalina. Quando o diretor deu o último “Corte!” e avisou que a gravação daquele dia estava encerrada, a equipe inteira explodiu em aplausos. Aplaudiram a gente, o momento, a superação.
Todo mundo merecia comemorar, mas o cansaço era visível. A maioria já tava de olho no hotel, no banho e numa cama. Mas eu? Eu ainda sentia a adrenalina correndo nas veias, e Victor, do meu lado, parecia exatamente igual.
- Vamos comemorar? -ele perguntou, com aquele brilho no olhar que misturava alegria e um toque de loucura.
- Claro! Mas acho que vai ser só a gente dois, viu? O resto da galera tá com um pé na cama já.
- Melhor ainda. -ele piscou.
Acabamos indo a uma cervejaria ali perto, meio escondida, mas cheia de charme. Luz baixa, mesas de madeira, música ao fundo, e um cheiro bom de hambúrguer e batata frita no ar.
Sentamos num canto mais reservado e brindamos com as garrafas geladas.
- Ao filme que vai mudar nossas vidas. -Victor disse, levantando a cerveja.
- E a nossa parceria perfeita! -completei, brindando de volta.
Ficamos um bom tempo rindo, relembrando os erros de gravação, as caras e bocas que fazíamos nos bastidores, e até da vez que ele quase bateu o carro do figurino porque tava dançando "Dákiti" no banco do motorista.
- Essa música não sai da minha cabeça, juro. -ele riu, começando a cantar baixinho de novo.- Baby, ya yo me enteré…
- Se nota cuando me ve'. -eu continuei, rindo.
A gente cantava baixinho, meio desafinados, meio bêbados, mas felizes. Era aquele tipo de momento que parecia bobo, mas ficava guardado na memória com carinho.
De vez em quando, eu sentia o celular vibrar na bolsa. Não precisava nem olhar. Sabia que Luan tinha visto os stories que Victor estava postando. E talvez estivesse incomodado. Mas naquele momento… eu só queria viver aquilo. Respirar. Sorrir. Sentir que o trabalho tava dando certo.
Victor ergueu mais uma vez a garrafa.
- Marina Bieber, você é uma estrela. E eu vou ser o primeiro a te aplaudir quando esse filme for indicado ao Oscar. -revirei os olhos e ri.
- Você exagera demais…
- Não é exagero quando é verdade. -ele falou sério, por um segundo.
E eu sorri. Sincero. Porque mesmo longe de casa, mesmo com o coração bagunçado… era bom se sentir vista.
Voltamos pro hotel a pé. Talvez não fosse a melhor ideia, considerando o estado etílico em que nos encontrávamos, mas parecia certo. A noite tava fria, a rua silenciosa, e a cidade tinha aquele cheiro de asfalto e liberdade que só a madrugada traz.
Eu tirei os sapatos antes mesmo de atravessar a primeira esquina.
- Tá maluca? -Victor riu, me olhando como se eu tivesse perdido completamente o juízo.
- Sim, mas tô confortável. -respondi, subindo no meio-fio como se fosse uma corda bamba. Estiquei os braços pros lados, me equilibrando como uma ginasta — ou tentando.- Olha só, senhoras e senhores... a incrível Marina Bieber, diretamente do Cirque du Soleil!
- Você tá parecendo mais um pinguim bêbado tentando voar. -ele gargalhou, tropeçando ao meu lado.
- Você só tem inveja do meu talento. -rebati, girando no meu próprio eixo.- Diz aí, Nick aprovaria?
- Nick chamaria Noah de sardenta e diria pra descer daí antes que se quebrasse inteira.
- Sardenta? -franzi a testa, rindo.- Ai não, começou...
- É o seu novo apelido agora. -ele sorriu, empurrando de leve meu ombro.- Vai, desce daí, sardenta. Vai acabar tropeçando e ferrando a cena de amanhã.
Antes que eu pudesse responder, uma gota gelada caiu no meu nariz. Olhei pro céu, e a chuva veio de repente — grossa, rápida, molhando tudo em segundos.
- Ótimo! -gritei, rindo alto.- Era tudo que a gente precisava.
Victor gargalhou e começou a correr, pulando nas poças d’água como uma criança. E eu, sem pensar, fui atrás. Pisei com força na água, espirrando pra todo lado, e ele gritou fingindo se proteger.
- Tá achando que é ataque aquático, sardenta?
- Cala a boca, Victor!
Corríamos, pulávamos, dançávamos como se o mundo não existisse além daquele momento. Eu soluçava de tanto rir. Literalmente. Victor me olhou, os cabelos molhados colando na testa, e disse:
- Você parece uma criança embriagada.
- É porque eu sou mesmo.
Paramos por um segundo em frente a uma árvore, ainda rindo, ofegantes. Eu encostei na árvore, tentando recuperar o fôlego. Ele ficou me olhando. E por um instante, o tempo desacelerou.
A chuva ainda caía. A respiração dele era pesada, mas calma. O olhar fixo no meu. Ele deu um passo mais perto, e eu senti meu corpo congelar — não de frio, mas daquela tensão que arrepia. A distância entre nós era mínima agora. E ele não disse nada. Só ficou ali, perto.
- Se a gente fosse Noah e Nick... -ele começou, voz baixa.- esse seria o momento do beijo.
- Mas a gente não é. -respondi, também em voz baixa.
Ele assentiu, meio sério, meio sorrindo.
- É. A gente não é.
E voltou a andar. Eu o segui em silêncio, o som dos nossos passos misturado com o da chuva.
Não rolou beijo. Nem precisava. O que rolou foi mais intenso: um silêncio cheio de significado.
[...]
A cabeça latejava. A luz que entrava pelas frestas da cortina era uma facada nos meus olhos. Eu me enrolei no lençol como um casulo, murmurando pra mim mesma que nunca mais ia beber daquele jeito — mentira que eu sempre conto.
TOC TOC TOC TOC TOC TOC TOC
A batida na porta parecia um martelo na minha testa. Eu levantei devagar, cambaleando, tropeçando no edredom, os olhos semicerrados, a boca seca como o deserto.
- Já vai, caralho… -murmurei, com a voz rouca e arrastada.
Abri a porta.
E ali estava ele.
Luan.
Braços cruzados, a expressão dura, os olhos queimando. O maxilar travado, como se estivesse se segurando pra não explodir.
- Que bom que você resolveu abrir. -ele disse, num tom gelado.
Eu franzi o cenho, sem entender nada.
- Luan? O que foi?
Ele não respondeu. Só empurrou a porta e entrou como um furacão, os passos firmes, os olhos varrendo o quarto como se estivesse à procura de algo — ou alguém.
Eu continuei parada, coçando os olhos, tentando juntar as peças daquele quebra-cabeça.
- Você tá procurando alguma coisa? -perguntei, fechando a porta e arrastando os pés, segurando a cabeça com uma das mãos.
Ele se virou, com uma risada debochada.
- Eu vi os stories do seu amiguinho. -disse, com veneno na voz.- Vi que saíram pra beber. Sozinhos. Os dois. Felizinhos da vida.
Eu revirei os olhos.
- Victor?
- Ah, então você sabe de quem eu tô falando. -ele rebateu, dando mais uma olhada pelo quarto, como se o cara estivesse escondido atrás do frigobar.
- Luan... -falei firme, cruzando os braços e arqueando a sobrancelha.- Eu tô sozinha. Dormi sozinha. Entrei nesse quarto sozinha, bêbada, sim, mas com consciência. E quer saber? Mesmo bêbada, eu sei muito bem que eu tenho um namorado.
Luan me olhou, ainda com raiva, mas sem dizer nada.
- E se eu quisesse te trair. -continuei-, não precisava de álcool pra ter coragem de fazer isso. Eu simplesmente faria. Porque traição não é sobre estado, é sobre caráter. E o meu, você conhece.
O silêncio que se seguiu foi sufocante.
Luan me encarava. A respiração dele estava pesada, como se estivesse lutando internamente entre acreditar em mim ou continuar alimentando a raiva. Eu não abaixei o olhar. Aguentei firme.
- E aí? Vai dizer alguma coisa ou vai continuar me olhando como se eu fosse uma criminosa?
Ele suspirou fundo, passando a mão no rosto, como se estivesse tentando se acalmar.
- Eu... -ele começou, mas parou.- É que ver vocês dois... daquele jeito... bebendo juntos... me deu um nó.
- Eu sei. -respondi, mais calma agora.- Mas você me conhece, Luan. E se tiver alguma dúvida sobre mim, a gente precisa conversar de verdade. Não fazer escândalo do hotel que tô hospedada.
Ele assentiu, olhando pro chão por um instante.
- Desculpa. Eu... perdi a linha.
- Perdeu. -falei, sem suavizar.
Ele suspirou de novo.
- Mas é que te amo pra caralho, Marina. E só de pensar em te perder...
- Então confia em mim. Porque se não tiver confiança, não tem "nós".
A tensão ainda pairava, mas parecia que uma parte do peso tinha sido solta ali.
Luan ficou ali, parado no meio do quarto, como se estivesse tentando decidir entre me abraçar ou ir embora. A mão dele se fechava e abria num movimento inquieto. Eu ainda estava de braços cruzados, esperando... alguma coisa. Uma explicação. Um gesto. Qualquer coisa além daquele olhar que parecia misturar amor e desconfiança ao mesmo tempo.
- Eu tô tentando confiar, Marina. De verdade. -ele murmurou, olhando pra mim com os olhos ligeiramente vermelhos, como se não tivesse dormido nada.- Mas você não faz ideia do que foi ver aquele vídeo. Você rindo, cantando, dançando, bêbada, com aquele olhar...
- Aquele olhar o quê? -interrompi, irritada.- Fala. Vai. Termina.
- O olhar que você tinha no começo, quando olhava pra mim.
Aquela frase me acertou como um soco.
- Luan... -minha voz falhou.- Eu não vou pedir desculpa por estar feliz depois de uma cena foda, de um trabalho foda. Foi só comemoração. Foi só isso. Ele é meu colega, meu amigo. Não teve nada além disso, e você sabe.
- É que... -ele passou a mão no cabelo, bagunçando ainda mais os fios.- Eu não tava lá. E nesses momentos, quando você parece não precisar de mim, me sinto fora do seu mundo.
- E você acha que eu me sinto como, Luan? -minha voz se elevou um pouco.- Quando vejo você longe, mergulhado nos seus compromissos, rodeado de gente, sorrindo pra câmeras, e eu aqui, tentando me manter inteira?
Ele me encarou, quieto.
- Eu também sinto sua falta. Eu também fico insegura. A diferença é que eu não invado seu quarto e faço um showzinho quando vejo alguma coisa fora de contexto.
O silêncio caiu pesado de novo. O tipo de silêncio que sufoca, que diz tudo sem precisar de uma palavra.
Eu virei de costas, andando até a janela, abrindo um pouco pra deixar o ar entrar. Meu corpo ainda doía da ressaca, mas agora era o peito que pesava mais.
- A gente tá mesmo nessa fase? -perguntei, sem olhar pra ele.- De desconfiança, ciúme... suposições?
- Eu não sei. -ele respondeu.- Mas parece.
Eu fechei os olhos, sentindo uma vontade enorme de chorar, mas engoli.
Ele se aproximou devagar. Parou a uns dois passos de mim. Eu senti a respiração dele atrás de mim, hesitante, nervosa.
- Eu te amo. -ele disse.- E é por isso que tudo isso me desestabiliza tanto.
Virei de leve a cabeça, olhando pra ele por cima do ombro.
- Eu também te amo, Luan. Mas amor sozinho não sustenta um relacionamento. A gente precisa de respeito, de diálogo... e de confiança. Sem isso, não adianta nada.
Ele assentiu com a cabeça, em silêncio.
A tensão ainda estava ali, entre nós. Palpável. Incômoda.
Nenhum de nós teve coragem de dar o próximo passo. Não teve beijo. Nem abraço. Só o peso de tudo que não foi dito... e do que ainda precisava ser resolvido.
A batida na porta foi suave, mas insistente. Eu e Luan nos entreolhamos, como se o momento já estivesse frágil demais pra ser interrompido.
- Sardenta? -a voz de Victor ecoou do lado de fora, animada.- Bora tomar café? Tô morrendo de fome e o café desse hotel fecha em meia hora!
Meu corpo congelou por um segundo, e eu fechei os olhos, soltando um suspiro pesado. Luan me olhou com as sobrancelhas erguidas, uma expressão de puro deboche e indignação no rosto.
- Sardenta? -ele repetiu, num tom carregado de sarcasmo.- Agora vocês têm apelidinho?
- Ai, Luan... -resmunguei, exausta emocionalmente. Fui até a porta, abri só uma frestinha e respondi, tentando soar tranquila.- Victor, obrigada, mas hoje eu vou pular o café. Tô de ressaca, ainda quero deitar um pouco. Te vejo nas gravações mais tarde, tá?
- Tudo bem, sardenta. -ele riu do outro lado.- Se cuida, hein. Beba água com limão, ajuda.
Esperei ele se afastar no corredor antes de fechar a porta completamente.
Quando me virei, Luan estava me encarando como se tivesse levado uma facada no ego.
- Sardenta. -ele repetiu mais uma vez, cruzando os braços.- Que carinhoso. Bem íntimo.
- Pelo amor de Deus, Luan! -explodi, jogando as mãos pro alto.- É um apelido dos personagens, ok? O personagem dele chama a minha de sardenta o tempo todo, e... acabou pegando entre a gente nos bastidores. É só isso.
- Ah, claro. Só isso. Porque todo colega de trabalho chama a parceira de cena por um apelidinho fofo no meio do hotel, depois de uma noite em que ela some bêbada com ele.
- Você tá querendo insinuar o quê, Luan? -perguntei, o tom de voz aumentando.
- Que você parece não ter nenhum limite com ele, Marina!
- E você parece não confiar em mim nem um pouco!
- Como eu vou confiar vendo vocês dois rindo, bebendo, dançando, com esse clima entre vocês?
- Que clima, Luan? Você tá inventando coisa! Eu nunca dei espaço pra ele, nunca dei moral, nunca dei motivo pra você surtar assim. Eu tava trabalhando, comemorando uma cena difícil, me divertindo com um colega. Você acha que isso é traição?
- Eu acho que você tá se envolvendo mais do que percebe.
Aquela frase me desmontou por dentro. Fiquei encarando ele por alguns segundos, sem conseguir responder. Por fim, respirei fundo e fui até a cama, sentando devagar, sentindo o peso da cabeça latejando.
- Sabe, talvez a gente precise de um tempo. -falei, num tom mais baixo.- Porque se até depois de tudo que a gente passou, você ainda escolhe desconfiar... talvez a gente tenha chegado num ponto sem volta.
Luan ficou parado por um momento, mas logo respondeu, sem hesitar:
- Eu não acredito em "dar um tempo", Marina. Pra mim, ou a gente tá junto ou não tá. E, sinceramente, do jeito que tá… acho melhor terminar de vez.
Aquelas palavras cortaram o ar como uma lâmina. A expressão endurecida dele foi dando lugar a algo mais vulnerável, mas ele não disse mais nada. Só ficou olhando pra mim como se estivesse dividido entre o orgulho e o medo de me perder.
- Eu vou embora. -ele disse enfim, a voz seca.
- Faz o que quiser. -respondi, encarando o chão.
Ele caminhou até a porta, parou por um segundo como se quisesse voltar, mas não o fez. Saiu e bateu a porta atrás de si.
Eu fiquei ali. Sozinha. Com a cabeça doendo, o coração machucado e a sensação de que algo importante estava se despedaçando bem diante dos meus olhos.
O resto da manhã passou arrastado. Tomei um banho longo, daqueles que deixam a pele vermelha, tentando lavar não só a ressaca, mas a confusão dentro de mim. Vesti uma calça jeans rasgada, camiseta básica e jaqueta de couro — e fui direto pro set, com os óculos escuros escondendo meus olhos inchados.
Chegando lá, o clima era outro. A equipe estava animada, comentando sobre a cena intensa do dia anterior. Victor veio até mim com um sorriso enorme, os cabelos bagunçados como sempre e um copo de café na mão.
- Sardenta, você tá viva! -ele disse, teatral, oferecendo o café.- Trouxe reforço pra curar a alma.
- Obrigada. -sorri de leve, pegando o copo.- Mas hoje só água. Muita água.
- Ressaca brava?
Assenti, bebendo um gole e sentindo a garganta seca protestar.
- E cara feia também. -ele comentou, tentando parecer leve.- O que aconteceu?
- Nada demais. Só um término. -respondi, evitando olhar pra ele.
Ele me observou por alguns segundos, até abaixar um pouco o tom da voz.
- Foi por minha causa?
Levantei os olhos pra ele, surpresa pela pergunta direta.
- O quê?
- O término. Foi por minha causa? Por ontem à noite? -ele insistiu, mais sério, sem o tom leve de sempre.
- Não, Victor. -suspirei.- Não se coloca no meio disso. As coisas já estavam se complicando há um tempo… Ontem só... escancarou tudo.
Ele assentiu em silêncio, mas parecia ainda um pouco culpado. E então o diretor nos chamou pro set. Hoje era a cena final. A última do filme. Depois do sequestro, da fuga, das mortes, das confissões.
As câmeras começaram a girar, e o diretor gritou "ação".
Na cena, Nick sai escondido de seu quarto e vai para o quarto de Noah, onde eles se abraçam.
- Obrigada por vir, eu não quero ficar sozinha. -falei como Noah, com a voz chorosa e abraçando Victor.
- Ninguém mais vai te machucar. Nunca.
Então nós nos beijamos, quer dizer, Noah e Nick, e deitam na cama.
Pra cena seguinte, Victor ficou sem camisa e eu sem blusa, mas com um sutiã de silicone grudado no meus seios. Nos posicionamos na cama novamente, eu estava deitada do lado de Victor.
- Eu te amo. -Victor falou como Noah e eu me levantei com cuidado, me apoiando em cima do peito dele.
- O que disse?
- Eu te amo. -ele repetiu e eu ri.
- Não acredito. A Jenna que mandou você dizer 'eu te amo' agora?
- Não. -eu fiquei o encarando.- Tá, mas foi o Lion. Mas eu teria te dito mesmo assim.
- Eu duvido. -falei, jogando o cabelo pro lado.
- Pode acreditar. -eu me deitei com o rosto em seu peito.- Porque é verdade. Agora, quanto tempo temos pra ficar assim abraçados? -me levantei pra olha-lo de novo.
- Espero que muito. Porque é aqui que começa a nossa história.
- Corta! -gritou o diretor.- Perfeito! Foi lindo!
A equipe aplaudiu, e Victor virou pra mim com um sorriso.
- A gente arrasou, sardenta.
Sorri de volta, sentindo um nó se formar no estômago. Na ficção, tudo sempre parecia mais fácil.
- Arrasamos, Vic.
As gravações haviam oficialmente terminado.
A história estava completa. O filme estava finalizado. A equipe se abraçava, trocava contatos, alguns tiravam selfies, outros agradeciam pela parceria. Me levantei com Victor, vesti minha roupa novamente e ele fez o mesmo.
Victor me chamou com os olhos, mas eu apenas balancei a cabeça e saí do set sem dizer uma palavra.
O ar lá fora estava frio, e a cidade seguia no seu ritmo, alheia à minha bagunça interna. Caminhei alguns passos até virar a esquina do estúdio e me afastar o suficiente para que ninguém da produção me visse. Foi ali, ao lado de uma parede meio pichada, que eu parei.
As lágrimas começaram a cair sem permissão.
Primeiro aos poucos. Depois em torrente.
Agachei no chão, encostada na parede áspera, abracei meus joelhos e abaixei a cabeça. O choro saiu com força, como se estivesse preso nos meus pulmões há dias. Minhas costas tremiam. Meu peito ardia.
Tremendo, enfiei a mão no bolso da jaqueta e peguei o celular. Pensei em mandar uma mensagem pra ele. Qualquer coisa. Um "a gente precisa conversar", um "eu te amo", um "me desculpa por ontem".
Desbloqueei a tela com dificuldade, meus dedos úmidos escorregando.
Mas antes que eu pudesse abrir o WhatsApp, o Instagram já estava ali. Aberto.
E no topo do feed, a publicação dele.
Minha garganta secou.
Era uma foto em preto e branco nossa, tirada na sua turnê, dentro do camarim, eu estava sentada no colo dele, estávamos conversando e lembro que Sarah quem havia pedido pra registrar o momento. A legenda era simples, seca e formal, como se eu fosse apenas parte de um comunicado de imprensa:
luansantana Em respeito a todos os meus fãs e também aos fãs dela, venho anunciar que nosso relacionamento chegou ao fim. E antes que tenha especulações, Marina e eu sempre nos respeitamos muito, mas por conta de incompatibilidade de agenda, decidimos seguir caminhos separados. Agradecemos todo o carinho que tiveram com a gente e peço que respeitem nossa decisão. Vai ficar tudo bem.
Fechei os olhos, apertando o celular com força contra o peito, como se pudesse voltar no tempo. Mas era tarde demais.
Tudo tinha acabado.
E agora, ali sozinha, ajoelhada na calçada com o rosto coberto de lágrimas, eu finalmente senti o peso real do fim. Não de um filme. Mas de um amor.