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Capítulo 70

Bruna Narrando

Estava começando mais um dia comum... ou quase. Acordei cedo, como de costume, e me arrumei para a faculdade. Peguei emprestado o carro do Luan, ele havia deixado comigo pra ir na faculdade. Coloquei um moletom largo, calça legging preta e um tênis confortável. Meu cabelo estava preso num coque alto e levei comigo uma garrafinha de água e algumas barrinhas na bolsa.

O campus estava movimentado como sempre. Caminhei pelos corredores, com meus fones no ouvido, até ouvir uma voz conhecida me chamar.

- Bru! -era a Virgínia, acenando, com Olivia do lado.

- E aí, sumidas! -falei, sorrindo.

- A gente que sumiu ou você que tá virando mamãe e se escondendo da galera? -Olivia provocou, rindo.

- Ai, gente... eu só tô levando uma vida um pouco mais pacata. E cansada. -comentei, segurando as costas, de leve.

Elas riram e me acompanharam até a sala. Às vezes, a Melanie também cruzava comigo pelo campus. Às vezes era simpática, às vezes só dava um “oi” forçado, mas eu nem me estressava com isso. 

Estudava, fazia anotações, prestava atenção nas aulas, as vezes lembrava da visita da Marina. Aquele dia com ela foi como um abraço no coração. As conversas, os presentes, o carinho... mesmo com a vida dela tão corrida, ela sempre dava um jeito de estar por perto. E eu precisava da minha amiga agora mais do que nunca.

Na maioria das tardes, eu voltava direto pro apartamento. Mas outras vezes, aproveitava pra ficar na biblioteca do campus finalizando algum trabalho, lendo artigos, me distraindo com qualquer coisa que não fosse enjoo ou dor nas costas. E, claro, lidando com os olhares e cochichos.

As pessoas cochichavam, sim. Eu sentia. Dava pra ver nos olhares enviesados, nos grupos de meninas murmurando enquanto eu passava, ou nos caras que achavam que podiam comentar "tão novinha e já grávida". Mas eu ignorava. Porque apesar de tudo, eu estava feliz. Eu estava gerando uma vida, e não havia vergonha nenhuma nisso. E saber que tinha o Justin do meu lado, e o apoio de tanta gente que me amava, fazia toda a diferença.

Naquela sexta-feira, achei que ia ser mais um dia comum. Mas não foi.

Quando cheguei no apartamento, depois de passar a tarde estudando na biblioteca, a porta estava entreaberta. Estranhei, mas entrei devagar.

- Surpresa!!!

Quase caí de susto.

Virgínia, Olivia, Ryan e Anthony estavam na sala, rindo, cercados por balões coloridos e uma cesta enorme no meio do sofá.

- O que é isso? -perguntei, emocionada, colocando a mão na boca.

- Um presentinho pra você e pro bebê. -Ryan disse, com um sorriso doce.

A cesta tinha de tudo: pomadas antiassaduras, fraldas recém-nascido, um pacote de lenço umedecido com cheirinho suave, shampoo e condicionador de bebê, uma naninha em forma de ursinho e até um body minúsculo com a frase “Futuro astro do pop”.

- Gente... -falei, sentando e pegando as coisas com cuidado.- Eu tô chocada! Vocês são incríveis! Obrigada, de verdade...

- Você tá enfrentando tudo isso com tanta força... e a gente só queria te lembrar que você não tá sozinha. -Olivia disse, me abraçando.

Meus olhos encheram de lágrimas.

- Tá proibida de chorar agora. -Virgínia avisou, rindo.- Porque a gente ainda tem uma proposta pra te fazer.

- Tô até com medo. -brinquei, limpando os olhos.

- A gente vai numa festa hoje. Só um pouco de música, gente legal... e a gente quer que você vá com a gente.

- Eu grávida numa festa?

- Ué, você ainda é a Bruna Santana. A rainha do batidão, a que não perde uma pista de dança. -Ryan falou, me fazendo rir.

- Olha, você não vai beber, nem vai dançar até cair, mas dá pra se divertir. -Anthony completou.- E a gente vai estar com você o tempo todo.

Pensei por um instante.

Eu sentia falta de sair, de me divertir, de me sentir... normal. E talvez, só talvez, aquela noite fosse tudo que eu precisava.

- Tá bom. Eu vou. 

Todo mundo vibrou e me puxou pra um abraço coletivo.

Depois do abraço coletivo e da empolgação geral, fui pro meu quarto com um sorriso no rosto. Ainda não acreditava que eles tinham preparado tudo aquilo pra mim. Era difícil explicar como fazia bem me sentir acolhida.

Tomei um banho rápido e abri o armário pensando no que usar. Ainda estava frio, e embora eu já sentisse meu corpo mudar, minha barriga ainda não aparecia tanto, só um leve inchaço, que eu disfarçava com roupas mais folgadas. Nada muito marcante ainda.

Mas hoje ia ser diferente, peguei um vestido preto de camurça, de manga cumprida, coloquei uma meia calça e por cima, joguei um sobretudo caramelo e finalizei com botas de salto médio, que davam um charme sem exigir demais do meu equilíbrio de grávida.

Soltei o cabelo, passei um delineado suave e um gloss cor de boca. Nada exagerado — só o suficiente pra me sentir bonita.

Quando saí do quarto, Olivia arregalou os olhos.

- Puta que pariu, grávida ou não, você é um acontecimento, Bruna!

- Obrigada, meu amor. -falei, rindo.

Fomos com o carro até a festa, que era num dos alojamentos maiores da faculdade. O som já ecoava do lado de fora e, mesmo que eu estivesse um pouco apreensiva, confesso que o clima de liberdade me animava. 

A casa estava cheia, mas não lotada demais. Um DJ tocava um mix de pop com reggaeton, e o clima era leve, com muita conversa, risadas e música boa.

Ficamos num canto perto da janela, onde a temperatura era mais agradável. Peguei uma bebida sem álcool — um mocktail de morango com hortelã que Olivia pediu pra mim — e dei o primeiro gole, sentindo um alívio percorrer meu corpo.

- Tá gostando? -Virgínia perguntou, dançando devagar ao meu lado.

- Eu tava precisando disso. Sério. -falei, olhando em volta.

Trocamos risadas, tiramos algumas fotos bobas e até postamos nos stories. As pessoas olhavam, algumas vinham me cumprimentar, outras só cochichavam... mas eu não me importei.

Entre um som e outro, reconheci uma música antiga que me fez rir alto.

- Esse DJ fez a playlist só pra mim, certeza! -gritei, dançando no meu canto com Ryan e Anthony.

Tive um momento de clareza. Eu não precisava abrir mão de mim mesma pra ser mãe. Eu ainda podia dançar, sorrir, sair com os amigos — do meu jeito, no meu tempo. E essa noite foi o primeiro passo.

A música já estava mais agitada e as luzes coloridas rodopiavam pela sala quando notei uma figura conhecida se aproximando com um copo na mão e um sorriso torto nos lábios. Zachary.

Meu coração deu uma leve acelerada, não por nervosismo, mas pela lembrança involuntária do beijo inesperado que ele tinha me dado meses atrás. Eu raramente o via.

- E aí, Santana. -ele disse, parando ao meu lado, com aquele jeito meio debochado, meio charmoso que só ele sabia fazer.

- Zach. -respondi com um sorrisinho.- Resolveu dar as caras?

- Resolvi. Vi que a festa tava boa… e que você estaria aqui. -ele deu um gole na bebida.- Aliás, sobre a última vez…

- Relaxa. -interrompi, antes mesmo dele completar.- Já passou. Você se empolgou, eu me surpreendi… vida que segue.

Zach franziu o cenho, meio aliviado, meio curioso.

- Então você não ficou brava?

- Não fiquei. Só fiquei sem saber como reagir. -dei de ombros.- Mas olha… se você ainda quiser me beijar, agora você tem permissão.

Ele me encarou por alguns segundos, como se estivesse processando aquilo. E então, aquele sorrisinho sacana apareceu de novo no canto da boca.

- É mesmo?

- Uhum. -confirmei, com um tom provocador.

- Mesmo grávida?

- Mesmo grávida. -repeti, com firmeza.- Eu tô solteira, Zach. E ainda sou eu, tá? Posso curtir um pouco, não posso?

- Pode tudo, Bruna. -ele disse baixo, se inclinando.

E então me beijou.

Diferente da primeira vez, agora eu não recuei. Deixei que os lábios dele encontrassem os meus, no tempo certo. Um beijo quente, firme, cheio de vontade contida. Ele colocou uma das mãos na minha cintura, respeitando meu corpo, mas ao mesmo tempo fazendo meu estômago revirar com a intensidade.

Nos afastamos devagar, e ele me olhou com aquele brilho travesso nos olhos.

- Melhor com permissão.

- Bem melhor. -respondi, com um sorriso vitorioso.

A música mudou pra algo com uma batida envolvente, com vocais abafados e luzes mais baixas no ambiente. Zach estendeu a mão pra mim, inclinando a cabeça como se estivesse me desafiando.

- Vem dançar comigo, futura mamãe mais gata desse campus?

- Só se prometer não pisar no meu pé. -brinquei, aceitando a mão dele.

Caímos na dança como se já estivéssemos sincronizados há tempos. Zach me guiava com segurança, me puxando pra perto, os corpos quase colados, os olhos dele fixos nos meus o tempo todo. Tinha um jogo de provocações ali, algo entre divertido e tentador. As mãos dele respeitavam meus limites, mas sabiam exatamente onde parar para fazer meu corpo reagir.

- Você dança bem. -ele sussurrou perto do meu ouvido.

- Você também não é de se jogar fora. -sorri, mordendo o lábio inferior.

A dança foi ficando mais lenta, mais quente. As mãos dele deslizaram pela minha cintura, e quando a música acabou, ele não me soltou. Só me olhou como se dissesse "vamos?", e eu só assenti.

Saímos juntos da festa, o frio da noite batendo no rosto, mas o calor entre a gente segurava firme.

Chegamos ao dormitório dele quase em silêncio, só trocando olhares cúmplices e sorrisos contidos. Assim que a porta do quarto dele se fechou, nos deixamos levar. Beijos, mãos, suspiros. Nada precisava ser dito. Não era amor, mas era desejo. Era vontade. Era liberdade.

Foi intenso. Foi gostoso. 

Depois, já vestida novamente, ajeitando meu casaco e prendendo o cabelo, peguei minha bolsa enquanto Zach me observava deitado, com os braços cruzados atrás da cabeça, aquele sorriso satisfeito no rosto.

- Quer que eu te leve pra casa? -ele perguntou, a voz rouca.

- Não precisa. -respondi, olhando pra ele com carinho.- Mas… a noite foi ótima.

- Foi mesmo. -ele concordou, sentando na cama.- Você é foda, Bruna.

Sorri de lado, abrindo a porta.

- Eu sei.

E saí, desci as escadas e finalmente sai do dormitório, sentindo o vento frio da madrugada no rosto, mas com o corpo ainda aquecido. Não havia culpa. Só um momento bem vivido. E eu precisava disso.

No outro dia...

A campainha do interfone me despertou. Eu mal abri os olhos, ainda enrolada no edredom, e levantei me arrastando até o aparelho.

- Oi?

- Oi, senhorita Bruna? O… Bieber… pode subir?

Franzi a testa. 

- Qual Bieber?

- Justin Bieber, senhorita.

Ah, claro. Suspirei.

- Pode sim.

Destranquei a porta e fui direto pro banheiro. Eu podia estar de edredom, com o cabelo bagunçado e a cara amassada, mas pelo menos bafuda eu não ia ficar.

Me encarei no espelho. 

- Credo -murmurei. 

Passei a escova com pasta na boca, mas no segundo movimento mais intenso, senti a ânsia bater. Segurei firme na pia, respirando fundo. Desde que engravidei, escovar os dentes era quase uma batalha.

Mas me recuperei. Enxaguei, cuspi, me encarando de novo. 

- Você tá ótima… dentro do possível. -falei pra mim mesma, irônica. 

Catei meu edredom do sofá de volta e me enrolei nele de novo, como se fosse minha armadura.

Ouvi a batida na porta e fui atender.

Era o Justin.

Ele sorriu de leve, os cabelos um pouco bagunçados, usando uma jaqueta jeans e calça preta. Carregava pelo menos quatro sacolas de mercado.

- Oi.

- Oi.

Entrou sem cerimônia e depositou as sacolas na mesa com cuidado.

- Trouxe umas coisas pra você. Principalmente comida. -ele disse, abrindo as sacolas e começando a mostrar.

Eu me aproximei, puxando o edredom mais pro alto.

- Nossa, quanta coisa. -comentei, vendo ele tirar cenoura, abobrinha, alface, espinafre, maçã, banana, brócolis...

- Você precisa se alimentar bem, Bruna. Tá esperando um mini ser humano aí dentro. -ele disse, com um sorrisinho no canto da boca, enquanto organizava tudo.

- Tá, doutor Bieber. -brinquei, revirando os olhos, mas no fundo, meio derretida pelo gesto.

- Eu sei que você gosta de besteira, mas tenta pegar mais leve com açúcar e fritura. Já trouxe coisa o suficiente pra umas boas refeições. Ah, e leite, iogurte… tem proteína também.

- Você tá me dando um sermão?

- Não. Tô sendo pai.

Meus olhos foram direto pros dele. Aquilo mexeu comigo, porque, mesmo depois de tudo, ver ele ali, preocupado, agindo como se ainda fosse meu parceiro… mexia mesmo.

- Obrigada. -falei baixinho, pegando uma maçã da sacola.- Você não precisava.

- Eu queria.

Nos encaramos por alguns segundos. O silêncio que veio depois era familiar, quase confortável. Mas havia uma barreira invisível ali agora. Um “antes” e um “depois”.

- Como você tá? -ele perguntou, finalmente, desviando o olhar para a sacola de legumes.

- Bem. Tive umas ânsias hoje escovando os dentes. -sorri de canto.- Coisa nova.

- Normal. Pelo menos ainda não tá com desejos malucos tipo pepino com chocolate.

- Que horror! -ri.- Não, por enquanto só morro de fome. Mas tô me cuidando.

- Eu sei. E vai continuar cuidando, tá?

- Tá.

Sentei no sofá, ainda enrolada no edredom, Justin pegou uma garrafinha de água da sacola e girou a tampa distraidamente, se sentando também.O silêncio entre nós parecia confortável por alguns segundos, até ele romper, com aquele jeitinho casual que eu já conhecia bem.

- Eu vi os stories das meninas ontem… -ele começou, sem me encarar de imediato.- Vi que você foi numa festa.

Na hora, a memória me bateu como um raio. As luzes, a música, o cheiro do perfume do Zach, o toque da mão dele na minha cintura enquanto dançávamos… e o beijo. E a noite. Eu respirei fundo, engolindo a lembrança.

- Fui. -respondi, tentando manter o tom leve.- Ryan e Anthony estavam lá também, eles ficaram de olho em mim a noite toda, bem protetores.

Justin assentiu, agora me olhando de novo.

- E você se divertiu?

- Sim. -sorri, verdadeira, mas sem entregar demais.- Dancei, ri… me senti eu de novo, sabe? Por um momento, esqueci que tem um mundo inteiro julgando uma menina de dezenove anos por estar grávida.

Ele mordeu o canto do lábio, como se quisesse dizer algo, mas se conteve.

- Fico feliz que tenha se divertido. Você merece isso.

- Ah, e antes da festa, eles fizeram uma surpresa. Me deram uma cesta cheia de coisas de bebê. Pomadas, lenços, fraldinhas, shampoo, condicionador, umas roupinhas também. Foi tão fofo.

Seus olhos se iluminaram um pouco.

- Sério?

- Aham. Eu quase chorei. Tô sensível, né? -ri, levando a mão à barriga ainda quase invisível.- Mas foi um gesto tão cheio de carinho. Me senti… abraçada, sabe?

Justin sorriu também, mais suave agora.

- Eles são incríveis. Fico feliz por você ter essas pessoas ao seu redor. E o bebê também.

Me peguei encarando ele por alguns segundos. Justin estava tão calmo, tão presente… Eu queria contar tudo que estava sentindo, tudo que estava passando. Mas não tudo. Não sobre Zach.

- Você vai ser um bom pai, Justin. -falei, de repente, quase num sussurro.

Ele me olhou com uma mistura de surpresa e emoção.

- Obrigado… eu vou tentar. Sério. Tô aqui pra isso.

Ficamos em silêncio de novo, dessa vez com um peso diferente. Eu me sentia estranhamente grata por tê-lo ali. Mesmo que não como antes.

Mas ainda era o Justin. Ainda era o pai do meu bebê. Ainda era alguém que um dia foi tudo pra mim.

E talvez, de algum jeito, ainda fosse um pouco.

- Já pensou em fazer aquele exame de sangue pra descobrir o sexo? -ele perguntou, olhando pra mim com curiosidade.

Assenti levemente.

- Pensei sim, é a sexagem fetal, né? Dá pra fazer agora já, com onze semanas. Eu só tô vendo o melhor lugar. Mas quero fazer logo, tô ansiosa.

- Eu também. -ele deu um sorriso sincero e tomou um gole d’água.- Você pensa em fazer chá revelação?

- Penso. Mas queria fazer algo diferente, divertido. Não aquelas bexigas ou bolos... Tava vendo uns vídeos que o casal fica vendado e vai se pintando com tinta rosa ou azul até se verem. Já viu?

Os olhos dele se acenderam.

- Já! Nossa, esse é muito legal. Ia ser divertido, nossa cara. A gente ia se sujar todo, mas seria épico.

- Eu achei fofo. E combina com a gente, né? Meio caótico, mas divertido.

- Total.

Soltei um risinho e me ajeitei melhor no edredom, cobrindo os pés. Justin se levantou e começou a tirar algumas coisas das sacolas, entre elas um pacotinho de chá de camomila e uma caixinha de bolachas de água e sal.

- Comprei isso pra quando você estiver com azia ou enjoo. -disse, colocando na mesa.- Minha mãe disse que jurava por esse chá quando tava grávida de mim.

- Ahh, obrigada. -sorri, surpresa com o cuidado.- Muito fofo da sua parte.

- Tô tentando, né?

Sentou-se agora no tapete, de frente pra mim, com as pernas cruzadas, ainda com a garrafa na mão.

- Você já pensou em nomes? -perguntou, curioso.

- Já. Pra menina... gosto de Liz. E Olívia. Acho tão delicados. E você?

- Olívia é lindo. -ele concordou, pensativo.- Eu curto também Emma… e talvez Bella. É meio comum, mas ainda acho bonito.

- Emma é fofo. 

- E pra menino?

- Jack ainda tá no topo da minha lista. -respondi, com um sorrisinho.- Foi o primeiro nome que pensei.

- Jack é forte, gosto muito. Eu gosto também de Henry. E talvez Leo.

- Leo?

- Uhum. Leo Bieber, já imaginou? -ele riu baixinho.

- Só se for leonino. -brinquei.- Aí combina.

- Misericórdia. -ele fingiu um arrepio.- Imagina uma mini versão sua leonina?

- Ele ou ela já vai nascer com a personalidade aflorada, com esses pais aqui. Não tem como fugir disso.

Rimos juntos, e por um instante, tudo parecia leve. Éramos só dois jovens fazendo planos pra alguém que ainda nem conhecíamos, mas que já amávamos tanto.

- E o quarto? Já pensou como vai querer?

Suspirei, olhando pro teto, já visualizando.

- Se for menina, queria algo em tons de lavanda e branco. Bem calminho. Um cantinho com prateleiras pra livros, luzinha amarela, berço de madeira clara… Se for menino, pensei em verde-menta com bege. Meio boho, sabe? Aquele estilo aconchegante. Nada muito clichê.

Justin assentiu, sorrindo.

- Você tem bom gosto. Eu confio totalmente em você com isso. Mas quero ajudar. A gente pode montar juntos. Pintar, comprar as coisas...

- Pode deixar que vou botar você pra carregar móveis.

- Tudo bem. -ele riu.- Contanto que você me traga bolacha de água e sal depois.

- Fechado.

A gente se olhou por um momento, e meu coração apertou. Apesar de tudo, de todos os nossos desencontros, ele estava aqui. Comigo. Com o nosso bebê.

E isso, no fundo, me dizia muita coisa.

- Vai dar tudo certo, né? -perguntei baixinho.

- Vai sim, Bru. A gente vai dar um jeito. Juntos.

2 semanas depois...

Duas semanas haviam passado desde a visita de Justin. Eu fiz o exame de sexagem fetal na companhia da Virgínia e da Olívia, já que ele não pôde ir. Mas mesmo de longe, Justin estava envolvido em tudo. Ele pediu para a fotógrafa dele — uma conhecida dele de outras sessões — buscar o resultado, comprar a tinta e organizar um ensaio com revelação.

E hoje era o dia. Um sábado ensolarado, mas ainda com aquele ventinho gelado que pedia casaco.

Vesti uma camisa branca de botão, calça jeans clara e tênis confortável. Por cima, meu moletom bege claro que me acompanhava fielmente nos últimos dias. Peguei minha mochila com uma troca de roupa — vai que a tinta fizesse um estrago — e esperei. Às 9h em ponto, ele buzinou na frente do prédio.

Abri a porta e lá estava ele: camiseta branca básica, jeans azul médio, tênis branco. Ele sorriu assim que me viu.

- Bom dia, futura mãe do meu bebê. -ele brincou.

- Bom dia, pai ansioso. -respondi, entrando no carro.

Durante o trajeto, a ansiedade era mútua. A gente tentava disfarçar com piadinhas e assuntos aleatórios, mas a tensão pairava no ar. Ainda que não estivéssemos mais juntos como casal, aquele momento unia a gente de uma forma nova.

Chegamos ao local escolhido pela fotógrafa: um espaço aberto num campo bonito, com árvores ao fundo e um gramado amplo. Ela já estava lá, super animada, com o tripé montado, as tintas escondidas num balde e as vendas em mãos.

- Preparados? -ela perguntou com um sorriso.

Nos entreolhamos, cúmplices.

- Acho que sim. -dissemos juntos.

Ela nos entregou as vendas e ajudou a amarrá-las. Tudo escureceu, e por um instante, senti um frio na barriga. Não apenas pelo resultado, mas por estar ali, de olhos vendados, ao lado do meu ex, prestes a descobrir uma das maiores novidades da minha vida.

- Podem começar a se pintar! -a fotógrafa disse, animada.

Tateei o balde com tinta que ela me entregou. Era geladinha e escorregadia. Ouvi Justin rindo baixo ao meu lado, também começando a passar a tinta na minha roupa. Eu fiz o mesmo. Nossas mãos se encontravam sem querer, escorregando uma na outra, sujas, bobas.

- Isso é surreal. -eu ri.

- E tá me dando mais nervoso ainda. -ele respondeu.

Pintei seu rosto de leve, ele passou tinta nos meus ombros, e de repente, a fotógrafa disse:

- Prontos? Três, dois, um… podem tirar a venda!

Arranquei a venda do rosto com o coração disparado. E no instante em que abri os olhos, o mundo parou. Tudo ao meu redor ficou borrado por alguns segundos, menos uma coisa: o azul.

Meus olhos encontraram a camiseta manchada de Justin. Azul. Olhei para meus braços, respingados da mesma cor.

Azul.

Um sorriso involuntário escapou de mim antes mesmo da ficha cair completamente. Justin estava rindo, os olhos marejados, enquanto olhava pra mim com um brilho que eu não via há tempos.

- É um menino. -ele murmurou, como se ainda precisasse ouvir em voz alta pra acreditar.

Senti meus olhos arderem e toquei minha barriga 

- Um menino. -repeti, num sussurro.

Ele se aproximou e, sem pensar, me envolveu num abraço. Fiquei ali, imóvel por um segundo, antes de retribuir. Era estranho, mas natural. Familiar, mas novo.

- Vai ser um meninão igual ao pai. -ele disse, a voz embargada de emoção.

- E cabeça dura igual à mãe. -completei, e nós dois rimos.

Ainda que o nosso relacionamento tivesse acabado, havia algo inegável entre nós: um laço que nunca mais seria desfeito. O laço azul que agora coloria nossas roupas… e nossas vidas.

Depois do ensaio, a fotógrafa tirou mais algumas fotos nossas sorrindo, com as roupas completamente manchadas de azul. A tinta grudava na pele, nas unhas, até no cabelo. Eu me sentia uma verdadeira tela viva.

Ela nos agradeceu, nós pegamos nossas mochilas e fomos pros banheiros, tomar banho e tirar a sujeira da tinta.

Tomei um banho rápido, com água fria, me arrepiando toda, mas era necessário. A tinta escorria pelo ralo junto com a ansiedade, deixando só um resquício de tranquilidade no lugar. Coloquei uma calça preta confortável, camiseta lilás e o moletom.

Quando saí, Justin já me esperava, limpo, cheiroso e de roupa trocada. Ele sorriu de novo — um daqueles sorrisos pequenos, contidos, mas sinceros.

- Pronta pra encarar o mundo agora que você é oficialmente mãe de um garotão? -ele perguntou, destravando o carro.

- Pronta. -respondi, sentando ao lado dele e soltando um suspiro.

O silêncio preencheu os primeiros minutos da estrada, mas não era desconfortável. Era um silêncio de quem ainda estava processando. E então ele quebrou:

- Então… Jack, Henry ou Leo? Ou algum outro? -ele perguntou, pegando a garrafinha de água que sempre deixava no console e dando um gole.

Sem pensar, eu disse:

- Jack.

Ele me olhou de canto, surpreso e curioso.

- Assim, tão direto?

Assenti, com um leve sorriso no canto dos lábios.

- Uhum. Jack Santana Bieber. Eu gosto do som… E combina com ele.

Justin ficou em silêncio por alguns segundos. Depois soltou uma risadinha.

- Tá decidido então? Vai ser Jack?

- Vai. -respondi com firmeza, olhando pela janela, o coração quentinho.

- Jack Santana Bieber… -ele repetiu em voz baixa, como se saboreasse as palavras.- Caramba, é real.

- Totalmente real.

Ele olhou pra frente e continuou dirigindo, mas não sem antes soltar um comentário que me pegou de surpresa.

- Vai ser o moleque mais amado desse planeta, você sabe disso, né?

Meu peito se apertou e eu apenas assenti. Eu sabia.

Mesmo com a bagunça, os erros, o término e as reviravoltas, uma coisa era certa: Jack já era muito amado.

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