Bruna Narrando
A aula estava tranquila. Finalmente.
Meu caderno já tinha algumas páginas preenchidas, e eu rabiscava umas palavras que o professor tinha deixado no quadro enquanto ele dizia que ia buscar o carregador do notebook pra passar os slides. Eu aproveitei aquele momentinho de sossego pra respirar fundo.
Mas o silêncio não durou muito.
Um burburinho começou lá no fundo da sala. Primeiro baixinho, tipo cochicho, risadinhas abafadas. Mas logo se espalhou como fogo em palha seca.
Fiquei apreensiva na hora. Um arrepio subiu pela minha espinha, como se meu corpo já soubesse que alguma coisa estava errada.
- Caralho, você viu que o Luan e a Marina terminaram? -ouvi alguém dizer, alto o suficiente pra metade da sala ouvir.
Minha mão congelou em cima da caneta.
- Eu acompanho o Victor, eles tão gravando um filme juntos e tão bem próximos, viu... -disse outra voz, com aquele tom venenoso de quem adora uma fofoca.
- Luan deve ter levado chifre. -alguém comentou, com uma risadinha debochada.
- Aquela ruivinha é muito safada. -um outro completou.- Pena que não aproveitei quando ela ainda estudava aqui.
Senti meu estômago revirar. Apertei o caderno com força e tentei ignorar, mas uma bolinha de papel bateu no meu ombro.
- Ei, Santana! -uma voz masculina me chamou.
Levantei o rosto devagar, e vi um cara do fundão me olhando com um sorriso idiota nos lábios.
- É verdade essa parada aí? Teu irmão e a Marina terminaram? Que rolê foi esse?
Fechei o caderno com um estalo, juntei minhas coisas com pressa e me levantei.
- Isso não é da conta de ninguém. -respondi seca, com os olhos ardendo.
Saí da sala antes que mais alguém resolvesse me fazer perguntas. Eu não sabia de nada. Eu não tinha visto nada. E pior: eu sentia que era verdade.
No corredor, o ar parecia mais pesado, os olhares mais intensos. Apressei o passo até dobrar o corredor principal e, como se o universo tivesse planejado, dei de cara com Virgínia e Olívia.
Elas estavam encostadas na parede, uma do lado da outra, olhando pra tela do celular como se tivessem acabado de ver um acidente.
- É verdade? -perguntei, com a voz fraca, o coração acelerado.
Virgínia me olhou, hesitante. Depois virou o celular na minha direção.
E lá estava.
A publicação do Luan.
Uma foto em preto e branco dele com a Marina, e a legenda que cortou meu peito como uma faca.
Minhas mãos começaram a suar.
- Ela não falou nada pra mim... -sussurrei, quase sem voz.
Peguei o celular com as mãos ainda tremendo e procurei o nome da Marina. Meu coração batia forte no peito, como se estivesse tentando me preparar pro pior. Apertei em "ligar" e levei o aparelho até o ouvido, andando de um lado pro outro no corredor. A cada toque, a angústia aumentava.
Chamou uma vez. Duas. Três.
E nada.
Ela não atendeu.
- Droga... -murmurei, baixando o celular e olhando pra tela como se isso fosse fazer ela me ligar de volta.- Ela não atende...
- Bru, calma. -Olívia falou, se aproximando de mim com aquele tom calmo de sempre.- A Marina é a pessoa mais forte de nós quatro. Você sabe disso. Nenhum término vai abalar ela desse jeito.
- Ela pode estar só... sei lá, precisando de um tempo. -acrescentou Virgínia, tentando parecer racional.
- Forte? -olhei pra elas, sentindo um nó na garganta.- Vocês não lembram como ela ficou quando terminou com o Victor? Ela quebrou um espelho, rasgou aquele vestido azul lindo… chorou até a maquiagem desmanchar inteira.
- E no dia seguinte ela apareceu plena, maquiada e com o cabelo pranchado, como se nada tivesse acontecido. -rebateu Olívia.- Ela é assim, Bru. Sempre foi.
- Mas isso aqui é diferente. -eu disse, segurando firme o celular.- Era o Luan. Eles se amavam. Não era só mais um namorado, era o Luan.
Virgínia bufou, cruzando os braços.
- Justamente. Ela tava esquecendo quem era. A Marina vivia em função dele. Tudo era Luan, Luan, Luan. Até o feed dela parecia um fã clube. Talvez esse término seja o que ela precisa pra se reencontrar.
- Você tá falando como se ela tivesse virado uma qualquer. -falei mais alto do que pretendia, com os olhos ardendo.- Como se amar alguém fosse motivo pra perder a essência. Ela só... se entregou.
- Eu só tô dizendo que talvez agora ela volte a ser a Marina que a gente conhecia antes. -respondeu Virgínia, dando de ombros.
Sacudi a cabeça, inconformada.
- Eu não acredito que você tá falando isso dela. Sério. Justo agora.
Me afastei um pouco das duas, encostando na parede gelada do corredor, sentindo aquele aperto no peito. A verdade era que eu tava preocupada. Muito. Marina era forte sim, mas também era intensa. Quando ela ama, ama com tudo. E se jogou de corpo e alma nesse namoro.
E agora… ela tava sozinha, do outro lado do país.
E não atendia o telefone.
[...]
As semanas foram passando, e Marina continuava cada vez mais distante. Respondia as mensagens no automático, sem emoção nenhuma, como se estivesse com a cabeça em outro mundo. Quando perguntei sobre o término, ela só disse que foi por conta da distância, que tinha sido inevitável. Que o primeiro filme tinha terminado, mas o diretor tinha decidido emendar logo o segundo, e ela mal conseguia respirar, quanto mais responder alguém.
A verdade é que eu sentia que ela tava fugindo. Fugindo de mim. Do Luan. De tudo.
Já era dezembro. O frio começava a apertar em Nova York, e naquela manhã, eu acordei estranha. Meio enjoada, sem forças. Preferi não ir pra aula, coisa rara pra mim. Só fiquei deitada na minha cama, enrolada no cobertor, com a luz apagada e o celular na mão.
Deslizei o dedo sem vontade pelo Instagram, passando por fotos aleatórias de amigos, marcas de roupa, receitas de Natal... até que algo me parou.
Era uma publicação da Marina.
Uma sequência de fotos.
marinabieber Em breve vocês vão conhecer a história de Nick e Noah. ‘Minha Culpa’, filme original da Prime Video. Mal podemos esperar pra dividir essa história com vocês. @victoreverleigh_
Nas fotos, eles estavam lindos. Os dois. Marina com aquele cabelo ruivo que deixava o rosto dela ainda mais marcante, e Victor com aquele sorriso torto que parecia ensaiado, mas era natural.
Mas as duas últimas fotos me fez paralisar.
Eles estavam tão colados que suas línguas se tocavam numa provocação ensaiada, mas ainda assim… íntima. E a última, Victor estava com as mãos espalmadas... nos seios dela. Mesmo por cima da blusa.
Paralisada, fiquei olhando aquilo por uns segundos, tentando entender se era só encenação. Uma foto promocional. Algum tipo de cena do filme? Ou… eles estavam juntos?
Será que Marina tinha traído o Luan? Ou será que… aquilo tinha começado depois?
Meu coração começou a bater mais rápido. A cabeça girou.
O enjoo voltou com tudo e eu nem tive tempo de pensar. Larguei o celular em cima da cama, me enrolei no cobertor com pressa e corri pro banheiro.
Me ajoelhei na frente do vaso e vomitei tudo o que não tinha comido. A náusea vinha de dentro, como se não fosse só física, mas emocional também. Meu peito doía. A cabeça doía.
Por sorte, não tinha ninguém no dormitório naquela hora. Só eu, meu enjoo, e uma porrada de sentimentos que eu não sabia nomear.
Tentei respirar fundo, controlar o turbilhão de emoções. Mas não consegui tirar da cabeça a imagem das mãos dele sobre ela. E pior… a expressão dela. Aquela Marina entregue, que eu conhecia tão bem.
Meu coração doía pelo meu irmão. E por mim também. Porque, pela primeira vez, eu não sabia o que pensar da minha melhor amiga
Eu ainda estava no banheiro, apoiada na pia, tentando respirar. A imagem das fotos grudada nos meus olhos como se alguém tivesse desenhado na minha retina. Peguei o celular com as mãos trêmulas e rolei até o nome do Luan. Não pensei duas vezes — liguei.
Chamou, chamou... até cair na caixa postal. Liguei de novo. De novo. Na terceira tentativa, ele atendeu, e o som da voz dele do outro lado quase me desmontou:
- Fala, Bru...
- Luan... -minha voz saiu fraca.- Você viu?
- Já sei do que você tá falando.
Houve um silêncio doído entre nós. Eu respirei fundo, sentindo as lágrimas arderem nos olhos.
- Cê tá bem? -perguntei, baixinho.
Ele riu. Um riso sem humor, seco, pesado.
- Tô ótimo. A mulher que eu amava foi embora pra outra cidade, terminamos porque ela teve uma noite de bebedeira que eu nem sei o que aconteceu e agora tá postando foto com outro cara pegando nos peitos dela. Tô voando, Bruna.
- Lu... -minha voz falhou.
- Eu só não esperava isso dela, sabe? -ele continuou, agora com a voz falhando um pouco.- Ela dizia que nunca ia me trair, que me amava, que eu era o cara certo, mas eu não sei mais.
- Você acha que ela te traiu?
- Não sei mais o que pensar. -ele respondeu, com raiva e dor misturados.- Se não traiu de corpo, traiu de intenção. Ou de sentimento. Ou sei lá. E pra ser sincero, Bruna, pior que ver essas fotos… é saber que ela não teve nem coragem de me ligar. De explicar. Só… postou. Como se eu fosse qualquer um.
- Eu juro que também tô tentando entender. Ela não me fala nada. Só responde por obrigação, dizendo que tá sem tempo.
- Tempo ela teve pra fazer ensaio sensual com o colega de elenco. -ele cuspiu, ácido.
Meu coração apertou por ele. Porque eu conhecia o Luan. Eu sabia o quanto ele amava a Marina. O quanto ele apostou tudo nesse relacionamento.
- Eu tô do teu lado, tá? -falei com firmeza.- Eu sei que a gente é gêmeo e tudo mais, mas além disso... eu sou tua amiga. E se ela errou contigo, eu não vou passar pano.
- Valeu, Bru... -ele disse, com a voz abafada, como se estivesse engolindo o choro.
- E eu vou dar um jeito de falar com ela. Isso não vai ficar assim. Nem que eu tenha que ir até Los Angeles.
- Deixa ela lá com o Victor. Eu não quero mais saber. Se merecem.
A ligação caiu logo depois, e eu fiquei ali, encarando a tela do celular, com o coração partido em mil pedaços.
O vento gelado de dezembro cortava minha pele enquanto eu caminhava até a farmácia mais próxima. O casaco não parecia suficiente para aquecer nem metade da confusão que eu sentia por dentro. A cabeça doía, o estômago revirava e meu peito... meu peito parecia prestes a explodir.
Assim que entrei na farmácia, a melodia suave de uma música familiar começou a tocar. Era a voz do Justin. Meu coração deu um solavanco, e por um momento me vi ali, parada entre as prateleiras de remédios, com os olhos marejando. "Nothing Like Us". Justo essa. A música que ele cantou pra mim no palco. A música que tocava na minha cabeça naquela madrugada de 11 pra 12 de novembro, enquanto eu me perdia nos braços dele.
Sorri sem perceber, sentindo o calor daquela lembrança me invadir. Aquela noite no hotel ainda era tão vívida na minha mente… o jeito como ele me olhava, como me beijava, como me tocava como se eu fosse feita de cristal e fogo ao mesmo tempo. Eu realmente achei que aquela noite mudaria tudo.
E mudou.
Mas meu sorriso se desfez de uma hora pra outra. Como uma bolha estourando. A lembrança do que a gente não fez me atravessou como uma lâmina: a gente não se preveniu.
Meu corpo inteiro ficou tenso. Eu tomava anticoncepcional, claro... mas depois do término, depois de tanto choro, noites sem dormir... eu simplesmente... esqueci. Esqueci de tomar por dias. E não tomei nem a pílula do dia seguinte. Me senti idiota. Imprudente. Inconsequente.
Engoli em seco e me aproximei do balcão, tentando manter a postura, mas minha respiração estava acelerada.
- Boa dia, moça. Posso ajudar em alguma coisa? -o farmacêutico sorriu, simpático.
- T-teste de gravidez. -falei num sussurro, tão baixo que eu mal me ouvi.
- Desculpa, o quê?
Fechei os olhos e respirei fundo.
- Um teste de gravidez, por favor. -repeti, mais firme dessa vez, mas ainda sentindo minha alma murchar.
Ele assentiu e foi até a prateleira. Pegou um dos digitais, daqueles que mostram até o tempo de gestação.
- Esse aqui é bem preciso. Mostra até de quantas semanas você tá, se for o caso.
Assenti com a cabeça, sem conseguir falar. Peguei o cartão, paguei e saí de lá em silêncio, abraçando o pacote como se fosse uma bomba.
No caminho de volta, uma vontade absurda de chorar tomou conta de mim. Mas eu me segurei. Ainda não era hora. Ainda precisava ter certeza.
O dormitório estava vazio, como eu esperava. Fui direto pro banheiro com o teste nas mãos. Me tranquei, sentei na tampa fechada do vaso e abri a embalagem com dedos trêmulos. O manual parecia uma tese de doutorado. Li tudo, três vezes, só pra ter certeza.
Fiz o que tinha que fazer. O xixi. E depois... a espera.
Deixei o teste na pia e andei de um lado pro outro, roendo as unhas, o coração martelando no peito. Os minutos pareciam horas. Até que... apareceu.
"Grávida
3+"
Minhas pernas fraquejaram. Me apoiei na pia com uma das mãos, sentindo tudo girar ao meu redor. Minha visão escureceu por um segundo. Eu estava pálida, gelada. O som do mundo pareceu se calar.
Só aquele resultado.
Aquela palavra.
"Grávida"
Minhas mãos tremiam tanto que quase deixei o teste cair quando o peguei de volta. Olhei pra ele como se fosse mentira. Como se pudesse apagar, desaparecer. Mas não apagava.
Era real.
Era verdade.
Eu estava grávida.
E o pai... era Justin.
Eu estava em surto.
Literalmente.
Sentada na beira da cama do dormitório, ainda com o teste digital nas mãos, a palavra “Grávida” brilhando em letras pequenas e cruéis na tela, eu sentia que o chão estava prestes a abrir sob meus pés. Eu não conseguia respirar direito. O peito doía, os pensamentos vinham todos ao mesmo tempo, embaralhados, sem dar espaço pra um pingo de calma.
Segundo ano de faculdade.
Grávida.
Sozinha.
Justin e eu… não estávamos mais juntos. Não nos falávamos desde a manhã seguinte em que transamos pela última vez. E agora, aquilo tinha deixado uma marca permanente. Algo que mudaria minha vida para sempre.
Eu não tinha coragem de interromper. Não era uma opção. Mas o medo... o medo me dominava.
Eu não estava no Brasil. Não tinha minha mãe, meu pai, nem ninguém da minha família por perto. Luan viajava demais. E Marina… bom, talvez ela nem fosse mais minha melhor amiga. Mal me respondia, e quando respondia, era fria, distante. Era como se ela já tivesse me deixado pra trás. Tudo era um caos.
Fechei os olhos, respirei fundo e me obriguei a focar. Peguei o celular com as mãos ainda trêmulas e pesquisei: “teste de gravidez clearblue confiável?” — a resposta veio rápida, fria e objetiva.
Confiabilidade: 99,9%.
Quase cuspi o ar pela boca. Aquilo era real. Inquestionável.
Tentei não entrar em pânico. Abri outro aba, digitei: “ginecologista obstetra Manhattan” e fui filtrando até encontrar uma clínica com boas avaliações. Liguei e, por milagre, a recepcionista me disse que a Dra. Elizabeth Rayner poderia me atender em uma hora e meia, pois uma paciente havia desmarcado. Anotei o endereço, agradeci com a voz embargada, desliguei e corri pro banheiro.
Tomei um banho rápido, tentando me concentrar, mas as lágrimas se misturavam com a água quente do chuveiro. Me troquei, amarrei o cabelo, peguei o casaco e saí do dormitório em direção ao consultório.
O caminho até lá foi um borrão.
Quando cheguei, fui chamada quase que imediatamente. A sala da Dra. Rayner era minimalista, aconchegante. Ela era uma mulher na faixa dos 40 e poucos anos, com cabelo preso em um coque baixo e olhos azuis bem expressivos. Me recebeu com um sorriso gentil.
- Então, Bruna... pode me contar o que está acontecendo?
Sentei-me na cadeira, encolhida, e contei tudo. Da noite com Justin, do esquecimento do anticoncepcional, do teste de farmácia.
Ela me ouviu com atenção, sem julgar. Depois, sorriu de maneira acolhedora.
- Bom, vamos fazer uma ultrassonografia transvaginal pra termos certeza, tá bem?
Assenti com a cabeça.
- Pode ir até aquele banheiro ali, vestir essa camisola e tirar toda a parte de baixo, inclusive a calcinha. Deite na maca quando estiver pronta. -disse ela, me entregando a roupa.
No banheiro, troquei de roupa em silêncio. Me olhei no espelho antes de sair. Minhas bochechas estavam coradas pelo frio, os olhos um pouco inchados. Mas eu estava ali. De alguma forma, firme.
Voltei pra sala e me deitei na maca. A Dra. Rayner ajeitou o equipamento ao meu lado, colocou luvas e preparou o transdutor.
-Pode ser um pouco desconfortável, tá bom? Mas eu vou ser o mais cuidadosa possível. -disse, gentilmente.
Assenti, e ela introduziu o aparelho. Arfei levemente, era incômodo, mas suportável. O silêncio preencheu a sala enquanto ela movimentava o transdutor, os olhos atentos na tela.
- Aí está... -murmurou ela depois de alguns segundos. Me olhou.- Bruna, você realmente está grávida. E pelo tamanho do saco gestacional e do embrião, você já está com aproximadamente seis semanas.
Eu prendi a respiração. O número ecoou na minha mente. Seis semanas.
- Você gostaria de ouvir os batimentos?
Demorei um segundo pra responder, mas finalmente balancei a cabeça afirmando, engolindo o choro.
- Posso filmar?
- Claro, pode sim.
Com mãos trêmulas, alcancei o celular do meu lado. Abri a câmera, respirei fundo e apontei pra tela.
- Esse pontinho aqui dentro do saco gestacional -a médica apontou- é o embrião. Agora... vamos ouvir os batimentos.
Ela apertou um botão e, de repente, a sala foi preenchida com um som forte e rápido. Bum-bum. Bum-bum. Bum-bum.
O som mais poderoso que já ouvi na vida.
Meu queixo tremeu. As lágrimas simplesmente escorreram sem que eu pudesse impedir. O mundo ficou em silêncio de novo, mas dessa vez... era só eu e aquele coraçãozinho. A prova de que uma nova vida estava crescendo dentro de mim.
Eu estava grávida. E agora... não era mais só sobre mim.
Era sobre nós.
Guardei o vídeo no celular com cuidado. Me levantei, me troquei, a doutora me deu um envelope com os exames e uma pequena pasta com as primeiras informações do pré-natal. Agradeci e saí da clínica com a cabeça girando. O frio de dezembro cortava minha pele, mas eu mal sentia. Eu não conseguia pensar em mais nada.
Eu precisava falar com ele. Com o Justin.
Peguei o celular nas mãos, hesitei por alguns segundos olhando a foto dele ainda fixada no topo das minhas conversas. Coração batendo rápido. Respirei fundo, cliquei na conversa e digitei:
"Oi, Justin... você pode falar?"
Esperei. Os três pontinhos surgiram na tela, indicando que ele estava digitando. Meu coração deu um pulo no peito, como se esperasse que ele fosse simplesmente... sumir de novo. Mas a resposta veio:
"Oi... posso sim. Tá tudo bem?"
De repente, todas as palavras que eu tinha ensaiado sumiram. Ele parecia preocupado. E eu... não sabia como começar. Mordi o lábio, respirei fundo de novo e escrevi:
"Na verdade... não muito. Eu precisava conversar com você pessoalmente. É importante."
Dessa vez, ele demorou mais a responder. E eu quase desisti.
"Bruna... a gente se separou. Acho que não é uma boa ideia se encontrar. Vai ser mais difícil pra nós dois."
Meus olhos se encheram de lágrimas de novo. Eu queria gritar que não era sobre isso. Que não se tratava de "nós dois", e sim de algo muito maior.
Mas eu não podia falar por mensagem.
"Eu juro que não quero te machucar, nem te fazer sentir culpado. Só preciso te ver, nem que seja por 10 minutos. Por favor."
A mensagem ficou marcada como visualizada. E ele ficou off-line.
Engoli em seco. Senti o rosto esquentar, a frustração crescendo no peito. Me sentei num banco de praça ali perto, puxando o casaco ao redor de mim. Me perguntando como ele reagiria, se aparecesse. Ou se simplesmente não viesse.
O celular vibrou.
"Ok. Por sorte, estou em Nova York. Venha no hotel do meu pai, estou na presidencial."
Eu nem acreditei.
Mas como contar pra ele que, em meio ao fim de nós dois, a gente acabou criando uma nova vida?
Chamei um carro por aplicativo.
Durante o trajeto, fui segurando firme o envelope com o exame e o celular com o vídeo gravado mais cedo. Tinha o pressentimento de que nada do que eu dissesse teria a força do som daquele coração batendo dentro de mim.
O carro me deixou em frente ao hotel. Entrei devagar, tentando não parecer nervosa. Rebecca estava lá e me olhou, mas não disse nada. Fui direto no elevador. Quando cheguei no último andar, parei em frente à porta dele e respirei fundo antes de bater.
Dois toques. A maçaneta girou em seguida.
Justin apareceu. Cabelo bagunçado, moletom escuro, o olhar tenso. Ele deu um leve passo pro lado, abrindo espaço.
- Entra.
Passei por ele e entrei. O quarto era silencioso, aconchegante, exatamente como eu lembrava. Sentei na beirada da poltrona, segurando o envelope nas mãos, sem saber por onde começar.
Justin se encostou na mesa de canto, os braços cruzados, olhando pra mim.
- Você tá bem? -ele perguntou, quebrando o silêncio.
Levantei o olhar e assenti, mas minhas mãos tremiam.
- Justin... -minha voz saiu baixa.- Antes de qualquer coisa... eu preciso que você saiba que eu não planejei isso. Juro. Eu nem consegui acreditar quando vi.
- Bruna, do que você tá falando?
Abri o envelope e mostrei o exame. Ele se aproximou devagar, pegando o papel das minhas mãos. Leu, depois me encarou, completamente em choque.
- Isso é... um exame de gravidez?
Assenti com a cabeça. A garganta estava seca.
- Eu fiz hoje. Depois que lembrei... daquela noite. A última. Eu tava tomando o anticoncepcional, mas... eu fiquei tão mal com tudo que parei de tomar direito. E eu nem percebi. Não tomei pílula do dia seguinte... E quando percebi... já era tarde.
Justin ficou em silêncio. A expressão dele passou por uma sequência de emoções — confusão, medo, surpresa. Ele se sentou devagar na beira da cama, sem tirar os olhos de mim.
- Você... tem certeza?
Peguei o celular e abri o vídeo da ultrassom. Entreguei pra ele. O som dos batimentos preencheu o quarto e, por um segundo, o tempo parou.
Os olhos dele se encheram de água.
- Isso é... -ele engoliu em seco.- Isso é nosso?
- Sim. Tem seis semanas. Bate certinho com... aquela noite.
Justin passou as mãos no rosto, parecendo sem chão. Ele olhou pra mim com os olhos marejados, ainda processando tudo.
- Bruna... eu... -ele começou, mas não soube como continuar.
Eu senti meu coração apertar de novo.
- Eu não espero nada de você agora, Justin. Eu só... achei que você precisava saber.
Ele balançou a cabeça, devagar.
- Eu precisava mesmo. E você foi corajosa pra vir aqui e me contar.
Nos encaramos por alguns segundos. Pela primeira vez em semanas, havia verdade entre nós. E também um novo peso. Mas também… uma nova vida.
- A gente precisa conversar muito, Bruna. -ele disse, com a voz embargada.- Sobre tudo. Sobre como vai ser daqui pra frente.
Assenti, tentando manter a calma, mesmo com meu coração martelando dentro do peito.
Justin se levantou da cama e se aproximou da poltrona onde eu estava. Se ajoelhou na minha frente, apoiando os braços nos meus joelhos, os olhos fixos nos meus.
- Eu fiquei sem chão quando você se foi, Bruna. Mas agora, com isso… -ele apontou pro celular, ainda com a ultrassom pausada- isso muda tudo.
- Eu também não soube lidar, Justin. Você não tem ideia do que foram esses últimos dias pra mim. Eu me senti sozinha, perdida… E ainda tô. -minha voz falhou.- Eu tô no segundo ano da faculdade, em outro país, sem meus pais, sem você… e grávida.
Ele abaixou a cabeça por um segundo, respirou fundo e depois voltou a me encarar.
- Você não vai passar por isso sozinha. Eu prometo.
Engoli em seco. Era tudo que eu precisava ouvir, mas uma parte de mim ainda estava assustada demais pra acreditar de verdade.
- E se a gente não conseguir dar conta? E se tudo desmoronar ainda mais? Eu tenho medo, Justin.
- Eu também tenho. Mas… -ele se levantou e sentou ao meu lado, tomando minha mão com cuidado- …isso aqui tá acontecendo. E eu quero estar do seu lado. Quero fazer parte disso. De verdade.
Senti as lágrimas escorrerem de novo. Dessa vez, não era só desespero. Era um alívio confuso, uma esperança tímida.
- Eu ainda nem sei o que vou fazer… não contei pra ninguém ainda. Nem pra Bruna, nem pro Luan, nem pra Marina. Você é a primeira pessoa que sabe.
- A gente vai contar juntos, no tempo certo, tá? E vamos marcar uma consulta pra eu ir com você na próxima. Eu quero estar presente. Mesmo que a gente ainda tenha que resolver muita coisa entre nós, Bruna, eu tô aqui.
Fiquei em silêncio por um instante. O peso do mundo ainda tava ali, mas agora tinha uma mão apertando a minha. Uma presença. Uma promessa.
- A gente vai dar um jeito… -eu disse, quase num sussurro.- Pelo nosso bebê.
Justin sorriu, com os olhos ainda marejados. E, pela primeira vez, ele colocou a mão devagar sobre minha barriga — ainda nem aparecia, mas já era real pra nós dois.