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Capítulo 67

Luan Narrando

23 de dezembro de 2025

As semanas passaram voando e, finalmente, consegui tirar uns dias pra vir pro Brasil passar o fim de ano com a minha família. Estava na nossa fazenda em Campo Grande, rodeado de gente que eu amo, aquele calor de dezembro, churrasco correndo solto, moda de viola animando a tarde e a caipirinha começando a subir pra cabeça.

Toquei uma moda junto com meu tio Leonidas, enquanto o tio Max cantava e meu pai ajudava a virar a carne na churrasqueira. Era aquele tipo de dia que a gente grava no coração, sabe?

Até que um carro de aplicativo apareceu bem em frente à porteira. Todo mundo parou o que tava fazendo e virou pra olhar. A poeira ainda nem tinha abaixado direito quando a porta do carro abriu... e de dentro saiu a Bruna.

- Olha quem chegou! -disse minha mãe, Marta, abrindo um sorrisão e indo em direção à filha.- Minha menina!

Bruna desceu do carro com um sorriso tímido no rosto, e logo atrás dela apareceu... Justin.

Meu peito apertou na hora.

Os dois vieram caminhando até a varanda. Justin carregava duas malas, e eu vi que ele tava sempre olhando pra Bruna, meio que atento, preocupado.

Meus pais e meus avós foram abraçar a Bruna primeiro, todos cheios de saudade. Minha avó Cristina encheu ela de beijo, e meu avô Emanuel apertou a mão de Justin com um sorriso cordial, mesmo sem entender nada do que ele falava. Minha avó Manuela e meu avô José também foram abraçá-la, emocionados com a surpresa da visita. Justin ficou ali, respeitoso, meio perdido no meio daquela confusão em português.

Eu me aproximei e estendi a mão pro Justin, que aceitou com firmeza.

- Quanto tempo, hein? -falei, dando um sorriso breve.- Vocês voltaram?

Ele balançou a cabeça, sem graça.

- Não... É uma longa história.

Assenti, sem insistir. Pela cara dos dois, dava pra ver que algo estava no ar.

Depois que todos cumprimentaram os dois e eu virei meio que o tradutor do Justin ali no meio do fuzuê familiar — traduzindo os "eja bem-vindo" e "que bom te ver por aqui" —, minha avó Manuela se ofereceu pra guardar as malas de Bruna e a mochila do Justin no quarto de hóspedes.

Bruna se sentou na roda com a gente, ao redor da mesa comprida onde rolava a conversa e a comida. Peguei um copo de caipirinha e ofereci pra ela, como sempre fazia.

- Quer um pouquinho? Limão. Do jeito que você gosta.

Ela balançou a cabeça rapidamente.

- Não, obrigada.

Achei estranho. Limão era o ponto fraco dela.

Ofereci pro Justin.

- Quer experimentar? É bom. Estilo brasileiro.

- Já experimentei isso quando vim com Bruna após a ilha. -ele respondeu, pegando o copo e dando um gole.- Argh, esse tá forte.

Todo mundo riu da careta dele, e eu ainda tava tentando entender por que a Bruna tinha negado a bebida. Foi aí que ela respirou fundo, ajeitou o cabelo atrás da orelha e olhou em volta, como quem precisava reunir coragem.

- Eu não vou enrolar. Quero falar logo... antes que alguém pergunte. -disse ela, e todos silenciaram, esperando.- Eu e o Justin não voltamos, tá? A gente... a gente continua separado. Mas ele veio comigo porque... quis me apoiar no que eu precisava dizer pra vocês.

Ela fez uma pausa, e traduziu em voz baixa pro Justin o que tinha acabado de falar, olhando nos olhos dele. Justin apenas assentiu, encorajando ela com um olhar carinhoso.

Bruna então respirou fundo mais uma vez, voltou os olhos pra gente e falou:

- Eu tô grávida. Do Justin.

O silêncio que se formou ali pareceu engolir todos os sons da tarde. A viola parou, até o barulho da churrasqueira pareceu cessar. Meu coração congelou. Eu olhei pra Bruna, que mantinha a postura firme, mas os olhos marejados.

- Quê...? -sussurrou minha mãe, se levantando devagar.

Meu pai olhou de Justin pra Bruna, claramente tentando absorver a notícia.

Eu fiquei ali, parado, tentando processar também. Bruna... grávida? Daquele amor universitário, que ninguém mais sabia definir se era passado ou presente?

E de repente tudo pareceu ainda mais real.

O silêncio durou poucos segundos, mas pareceu uma eternidade. Até que, como era de se esperar, a bomba explodiu.

- Grávida?! -exclamou minha tia Amélia, arregalando os olhos.

- Meu Deus, Bruna... -murmurou minha mãe, sentando novamente, como se as pernas não fossem segurar.

- Mas como assim? Vocês nem tão juntos! -meu primo Matheus soltou, direto demais pro meu gosto.

- Isso agora importa? -rebateu minha avó Cristina, já indo até Bruna e segurando suas mãos com delicadeza.- O que importa é que ela tá aqui... e que precisa da gente.

Eu observava tudo acontecer, como se estivesse fora do meu corpo. Justin ao meu lado parecia confuso, completamente perdido no tiroteio verbal que rolava em português. Ele olhava de um pra outro, tentando ler expressões, entender os tons. Me cutucou de leve no braço.

- O que eles tão dizendo?

Suspirei e respondi baixinho:

- Alguns tão chocados... outros tão só tentando entender. Minha mãe tá tentando segurar a barra. A notícia do bebê foi tipo uma bomba, cara.

- Imaginei. -ele murmurou, desviando o olhar para Bruna com preocupação.

- Por que não contou antes, Bruna? — perguntou meu pai, sério, com a voz mais firme do que o normal.- Você tá há quanto tempo grávida?

- Oito semanas... -ela respondeu baixinho, encarando o chão.

Minha avó Manuela levou a mão à boca, emocionada.

- Minha netinha vai ser mãe... Ai, meu Deus do céu.

Meu avô José coçou a cabeça, visivelmente surpreso, mas foi até Justin, apertou o ombro dele com firmeza e disse:

- Se veio até aqui com ela, já é alguma coisa.

Justin fez que sim com a cabeça, sem entender uma palavra, mas reconhecendo o gesto.

- É muita coisa acontecendo de uma vez? -comentou minha prima Jéssica, enquanto Camila cochichava algo no ouvido dela.

Bruna tentou falar algo, mas as vozes se sobrepunham. Ela olhou pra mim, desesperada.

- Luan... eu não tô conseguindo traduzir tudo pra ele... Tem como você...?

Assenti, mesmo sem saber direito por onde começar.

- Eles tão só processando tudo, tá? -falei com Justin.- A maioria só ficou surpresa, mas... ninguém vai te atacar nem nada. Relaxa.

- Ela tá bem?

- Não muito... mas ela é corajosa. Isso ajuda.

Bruna respirou fundo, se levantou da cadeira e encarou todo mundo de novo.

- Eu não vim aqui ouvir sermão. Vim porque... essa é minha família. E porque, independente de tudo, esse bebê também é parte dela. Eu preciso de apoio. Não de julgamento.

Minha mãe se levantou na mesma hora, com lágrimas nos olhos, e foi até a Bruna.

- Você vai ter, meu amor. Eu só fiquei assustada. Mas você vai ter todo o apoio, tá? -disse, abraçando Bruna com força.

Ver aquilo me desmontou por dentro. Ainda era difícil acreditar, mas ali, naquelas terras que sempre foram refúgio nosso, minha irmã precisava de paz. E se dependesse de mim, ela teria.

Fui até o Justin e dei um tapinha no ombro dele.

- Vamos passar por isso. Juntos.

Ele assentiu, sério, mas grato.

A tarde, que começou com moda de viola e caipirinha, agora tinha outro ritmo. O de uma nova vida se anunciando — no ventre da minha irmã.

[...]

O sol já tava mais baixo no céu, tingindo tudo com aquele tom dourado bonito que só o entardecer no Mato Grosso do Sul consegue ter. Depois da tensão inicial, as coisas estavam começando a se acalmar. Bruna estava na varanda com nossa mãe e minha avó, recebendo conselhos e carinho. Justin, por outro lado, parecia meio deslocado. Ele tava sentado numa muretinha perto do curral, olhando pro nada, tomando uma água e chutando a terra com a ponta do tênis.

Peguei uma garrafinha de cerveja no isopor e fui até ele. Me aproximei devagar, sem falar nada. Sentei ao lado e ofereci a garrafa.

- Não é caipirinha, mas é gelada.

Ele sorriu de leve e aceitou.

- Valeu.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, ouvindo o som dos passarinhos, o barulho do pessoal conversando ao fundo, as risadas das crianças correndo no terreiro.

- É bonito aqui. -ele comentou.

- Sempre é nessa época. Família reunida, comida boa, o céu limpo... Só não imaginei que esse dezembro fosse ser assim tão diferente. -falei, sem rodeios.

Ele deu uma risada fraca e abaixou a cabeça, meio sem saber como responder.

- Eu também não. Nem um pouco.

Respirei fundo e olhei pra ele.

- Você sabe que eu fiquei puto, né?

Justin olhou pra mim, parecendo nervoso, mas não respondeu.

- Não só porque vocês não tavam mais juntos e... bom, agora tão lidando com uma gravidez. Mas porque Bruna é minha irmã, cara. E a gente como irmão nunca espera que sua irmã seja mãe solteira.

- Eu sei... -ele finalmente falou.- Eu falhei com ela. De muitas formas. Mas quando ela me contou... eu juro, Luan, eu só pensei em estar com ela. Não pra consertar nada, porque tem coisa que não tem conserto. Mas pra não deixá-la passar por isso sozinha.

Assenti. Olhei pro céu por um segundo antes de responder.

- Isso é o que importa. Você não precisa ser perfeito, Justin. Mas se vai estar do lado dela... esteja de verdade. Porque agora não é mais só sobre você e ela. Tem um bebê aí no meio. Uma vida. E esse bebê é sangue do meu sangue também.

Ele assentiu, com os olhos marejados.

- Eu tô com medo. Muito medo, na real. De não dar conta... de errar. De machucar ela mais uma vez.

- Isso você vai, com certeza. -falei, rindo de leve.- Vai errar. Vai tropeçar. Mas se você continuar tentando, estando presente, aprendendo... a Bruna vai ver isso. E a criança também.

Ficamos em silêncio mais um pouco. Então, ele estendeu a mão pra mim, firme.

- Obrigado, Luan. Por... não me expulsar daqui. Por ouvir.

Apertei a mão dele.

- Só não me dá motivo pra me arrepender disso, beleza?

- Fechado.

O céu estava ficando alaranjado, quando ele tirou do bolso um maço amassado de cigarros. Me olhou de canto, como se pedisse permissão.

- Se incomoda?

- Vai nessa. -respondi, dando de ombros.

Ele acendeu com o isqueiro prateado, tragou com calma e ficou olhando pro horizonte. Eu fiquei encarando a fumaça que se desfazia no ar e, sem conseguir segurar, perguntei:

- E a Marina?

Ele soltou a fumaça pelo canto da boca e virou o rosto pra mim, surpreso com a pergunta.

- Marina?

Assenti.

- É. Ela tá bem? Tá com o Victor?

Justin soltou uma risadinha curta.

- Não. Eles são só amigos. Uma amizade meio forçada pelo filme, pra ser sincero. Caso você não saiba, já tão gravando o segundo.

- Sério? Nem vi isso em lugar nenhum.

- Pois é. O primeiro vai lançar em abril. O segundo já tá em produção. E bom... palavras dela é que o Victor é bonito, mas que não rola nada, nem beijo fora de cena. Ela o vê mais como um parceiro de trabalho. Disse que eles tão errando e aprendendo juntos nesse meio.

Eu franzi o cenho, curioso.

- Mas e as fotos que ela postou com ele semanas atrás? Tavam bem íntimos, tipo casal mesmo...

- Aquilo foi do filme. -ele respondeu, sorrindo de canto.- Marketing pro filme. Não era a Marina e o Victor. Era os personagens deles. Se é que você me entende.

E eu entendi.

Assenti devagar, soltando uma risada sincera.

- Cara, é muito a cara da Marina dizer isso. Tipo... "eu não suporto beija-lo nem nas cenas, quem dirá na vida real" -falei imitando o jeitinho dramático dela.

Justin riu junto, balançando a cabeça.

- Foi mais ou menos isso mesmo. Ela disse essas coisas pra mim quando tava chapada.

Na hora, minha testa se franziu automaticamente.

- Chapada? A Marina?

- Pois é. -ele disse, tragando de novo.- Foi um susto pra mim também a primeira vez. Mas virou meio que nosso ritual quando tô em Los Angeles. Um momento só nosso, de irmãos, fumando maconha e botando a conversa em dia.

Eu caí na gargalhada.

- Cara... eu juro que se alguém me falasse isso, eu chamava de mentiroso. A Marina? A mesma Marina que era capaz de fazer discurso contra drogas e usar camiseta escrito "seja consciente"? 

Justin tava rindo também.

- A mesma. Mas acho que com tudo que ela tem vivido, ela descobriu umas formas diferentes de aliviar a pressão. E é sempre ali, no hotel, comigo, num ambiente seguro.

Fiquei imaginando a cena dos dois rindo, jogados num sofá de L.A., falando da vida, dos medos e dos amores. Era bizarro e fofo ao mesmo tempo.

- E ela já sabe? -perguntei mais baixo, voltando ao assunto que pairava no ar.

- Ainda não. -ele respondeu, olhando pra frente de novo.- Não consegui contar. Mas vou ter que fazer isso logo...

Assenti, respirando fundo.

- Ela vai ficar doida. Mas também... acho que ela vai entender. Vai apoiar.

Justin deu um sorriso triste.

- Espero que sim. Ela sempre foi melhor do que a gente na parte racional das coisas.

- E a mais brava também. -completei, fazendo ele rir.

Ficamos ali, quietos por um instante, vendo o dia se despedir e a noite chegando devagarinho. A fazenda começava a acender as luzes da varanda, o cheiro do café da tarde se misturava com o de lenha e carne no ar. Tudo seguia seu ritmo.

Mas dentro da gente, parecia que tudo estava prestes a mudar.

No outro dia...

O cheiro de peru, farofa, leitão assado, rabanada e tudo quanto é prato típico já tomava conta da casa. Minha mãe e minhas tias estavam a mil na cozinha, a árvore de Natal tava montada na sala, cheia de luzinhas piscando, e a gente já tava desde o meio da tarde bebendo cerveja, caipirinha e ouvindo modão. A mesa tava quase pronta, e meu avô Emanuel já tava bobeando com o chapéu de Papai Noel na cabeça.

Eu tava encostado no batente da varanda com o copo de caipirinha na mão, observando tudo. Justin, sentado na rede, olhava pra todo mundo com uma cara engraçada. Tipo... perdido. E eu entendi o porquê.

- Tá achando estranho, né? -perguntei, chegando perto.

- Cara... vocês já estão bebendo desde cedo. Lá nos Estados Unidos a gente ceia, veste aquelas roupas feias de Natal, sabe? Aqueles suéteres com renas, boneco de neve...

- Aham. -ri.- Aquelas lãs bregas.

- Isso! A gente ceia, troca presente só no dia 25 de manhã. Aqui é... é uma bagunça organizada. -ele falou e depois riu.- Mas é divertido.

- Vai se acostumar, é onde seu filho vai crescer. -dei um tapinha no ombro dele.- Aqui o Natal é barulhento mesmo. E se prepara que daqui a pouco começa karaokê, bingo, dança da cadeira...

Bruna apareceu no quintal com um vestido branco soltinho, o barriguinha tava começando a dar sinais de aparecer. Ela tava linda. Meu tio Max, o mais palhaço da família, olhou pra ela com um sorriso sacana e falou alto, só pra causar:

- Ô Bruna, tá esperando gêmeos, é? Porque você é gêmea, né? Vai repetir a dose?

Bruna riu, sem graça, ajeitando o cabelo atrás da orelha.

- Deus me livre, tio.

A família caiu na risada, e Justin ficou olhando, sem entender. Me cutucou:

- Ele falou o quê?

- Que a Bruna tá esperando gêmeos.

- Gêmeos? -ele arregalou os olhos.

- Não, calma. Foi piada. Porque ela é gêmea, aí ele disse que ela vai ter gêmeos também.

Justin soltou uma risada alta e falou:

- Ah tá... nossa, quase tive um ataque do coração aqui.

- Relaxa. -falei, rindo junto.- Isso aqui é só o começo. Espera passar da meia-noite que vai ter tio cantando "Evidências" chorando e minha vó tentando subir na mesa.

Justin olhou tudo em volta, as luzes, os sorrisos, o som da família conversando alto, as crianças correndo, e comentou:

- É tudo muito... caloroso. Intenso. Mas é bonito. Vocês são muito unidos.

- Somos mesmo. Com briga, com tudo... mas no fundo, tamo sempre junto.

Ele assentiu, olhando de novo pra Bruna, que agora conversava com nossa avó Manuela, rindo e recebendo carinho.

- Ela vai ficar bem, né?

- Vai. A gente vai garantir isso.

Mais tarde...

A festa já tinha ultrapassado todos os limites do bom senso. Meus tios tavam dançando na varanda como se fosse uma rave sertaneja, minha avó tava roncando no sofá com o gorro de Papai Noel torto na cabeça, e meu avô José tava jogando dominó com meu pai e perdendo feio.

Eu? Eu já tava pra lá de Bagdá. Sentado na cadeira de palha com o violão no colo e a mente viajando, rodeado de primas, sobrinhos e um Justin rindo descontrolado do meu lado. A caipirinha já tinha dado lugar ao whisky, e eu já nem sabia mais o que tava tocando.

Mas comecei a dedilhar uma melodia ali... meio no improviso... meio no sentimento. Justin sacou o celular e apontou pra mim.

- Vai, canta aí, superstar. -ele disse rindo, meio enrolado.

Eu, doido de bêbado, comecei a cantar meio brincando, mas com aquele tom de quem tá sentindo de verdade.

- Batom extra na bolsa
Um par de rasteirinha
Chiclete na boca e RG na capinha
Ela vai pedir um Uber
Pra casa da sua amiga
De lá, vão pro bar mais lotado da avenida
Provavelmente nem vai pegar fila de tão gata
Vai pedir pra sentar na mesa mais centralizada
Pra não passar batido, seu perfume doce, sua roupa colada

Justin deu uma gargalhada e murmurou:

- Mano, não to entendendo nada, mas isso tá bom demais.

Eu continuei, os olhos meio fechando, a voz rouca da bebida, mas o coração... o coração tava inteiro ali. Só que eu nem sabia que tava compondo de verdade. No meu estado, achava que tava só inventando qualquer coisa.

- Decidida a me esquecer, vai facilitar o contato
Contato de vista, contato de pele, contato de lábio
Decidida a me esquecer, vai passar batom dobrado
Retocando a boca ou escrevendo o número no guardanapo

Justin filmava tudo, segurando o celular com dificuldade de tanto rir e gritar:

- Vai, Luan! Isso é hit!

Depois de terminar, larguei o violão no chão e me deitei na grama do quintal, rindo sem parar. Justin deitou do meu lado, ainda gravando.

- Cara, você é um gênio bêbado. -ele comentou.

- Isso vai virar música, você vai ver. -falei, apontando o dedo pra cima como se tivesse descoberto o segredo do universo.

Mas naquela madrugada... era só dois amigos bêbados, rindo à toa sob o céu estrelado de Campo Grande, cantando as dores e amores da vida sem nem saber.

No outro dia...

A casa tava bem mais silenciosa agora. Depois do almoço, a maior parte da família se espalhou pela fazenda — uns dormindo, outros caminhando pela estrada de terra, alguns ajudando a guardar a bagunça da ceia e do churrasco. Justin já tinha ido embora, pegou o voo de volta porque tinha agenda cheia nos próximos dias.

A despedida dele foi rápida, mas não fria. A gente se entendeu bem, e apesar da situação toda, parecia que ele tava se esforçando de verdade pra estar presente, mesmo com o turbilhão que devia estar vivendo.

Chamei a Bruna pra dar uma volta ali pelos fundos, onde tinha aquele banco de madeira que dava vista pro pasto. Era nosso lugar de conversar desde adolescentes.

- E aí... já pensou nos seus próximos passos? -perguntei, enquanto ela ajeitava o cabelo preso num coque bagunçado e se sentava ao meu lado.

- Já, um pouco. Conversei bastante com o Justin. A gente decidiu que eu vou continuar estudando. Vou seguir com a faculdade normalmente. -ela respondeu, firme.

Assenti, orgulhoso.

- Que bom. Mas… e onde você vai ficar? 

Ela suspirou, olhando pro horizonte.

- Vou ter que sair do dormitório, né? Não permitem grávidas lá. Eu até cogitei voltar pro Brasil, ficar um tempo com a mamãe, mas... não quero deixar tudo pra trás. Eu lutei tanto pra conseguir essa bolsa, pra entrar em Columbia. Eu quero me formar, Luan.

Fiquei um tempo em silêncio, só ouvindo o som dos pássaros e sentindo a brisa quente da tarde bater no rosto.

- Então fica no meu apartamento. -falei, do nada, sem rodeios.

Bruna virou o rosto pra mim, surpresa.

- No seu apartamento? Aquele em Nova York?

- É. Aquele mesmo. -dei de ombros.- Era pra ser um refúgio meu e da Marina, né... um lugar nosso. Mas agora não serve pra nada. Tá lá, jogado. Não tenho usado, vivo viajando. Você pode transformar ele num lar. Seu lar. Do seu bebê também.

Ela ficou me olhando, meio emocionada, meio indecisa.

- Luan... é muito, não sei se devo aceitar.

- Ei. -falei, pegando na mão dela.- Você é minha irmã. E tá grávida, sozinha num país diferente. Eu tenho condições de te ajudar. É só um teto, Bruna. Você não vai estar me devendo nada. Quero que você fique bem. E o bebê também.

Ela abaixou os olhos e sorriu de leve.

- Obrigada, de verdade. Eu... eu vou pensar com carinho.

- Pensa sim. E só pra deixar claro: aquele apê já foi meu sonho com a Marina, mas agora... acho que é o lugar certo pra um recomeço. Pra você e essa pessoinha aí que tá chegando. -falei, apontando pro barriguinha ainda discreta dela.

Bruna riu baixinho, com os olhos marejados.

- Obrigada, irmão.

Eu passei o braço pelos ombros dela e ficamos ali, abraçados, em silêncio. Pela primeira vez em dias, eu senti uma pontinha de paz.

Algumas semanas depois...

Era começo de janeiro quando voltei com a Bruna pra Nova York. Os dias no Brasil tinham sido intensos, mas também muito importantes. Agora era hora de encarar a realidade de volta na cidade, com frio, neve e decisões.

Levei a Bruna direto pro dormitório dela na Columbia, pra ajudar a organizar as coisas. Já estava tudo acertado: ela deixaria o quarto, e se mudaria pro meu apartamento. A direção da universidade já sabia da gravidez e ela tinha sido liberada dos dormitórios por conta das regras.

Enquanto ela empacotava as coisas, eu sentava na cama com uma caixa no colo, separando os livros que ela queria levar. O quarto tinha cheiro de creme de cabelo e perfume floral. Era bem a cara da Bruna.

- Isso aqui você vai levar? -perguntei, mostrando um porta-retrato com uma foto dela e da Marina.

- Vou sim! Essa foto é antiga, mas tem valor sentimental. -ela respondeu, sorrindo.

Não demorou muito pra porta do dormitório abrir de uma vez, e Virgínia aparecer bufando de frio com um copo de café quente na mão.

- Oi, gente, quanto tempo... o que tá acontecendo aqui? -ela perguntou, encarando as malas e caixas.

- Meu Deus, Bruna, você tá indo embora? -Olívia chegou logo atrás, arregalando os olhos.

- Gente... calma! -Bruna riu nervosa, parando de dobrar uma blusa.- Eu ia falar com vocês direitinho, mas é que tudo aconteceu muito rápido.

- Falar o quê? -Virgínia largou o café numa mesinha e se aproximou.- Voltou pro Brasil e decidiu trancar?

- Não, nada disso... -Bruna respirou fundo, olhou pra mim pedindo apoio com os olhos. Eu só assenti. Era a hora dela contar.- Eu... tô grávida.

As duas ficaram em silêncio por dois segundos, se entreolharam, e de repente foi como se uma bomba tivesse explodido ali.

- VOCÊ TÁ O QUÊÊÊ??? -gritou Virgínia.

- MENTIRA! -berrou Olívia, com as duas mãos na boca.

- É sério... eu tô grávida. Do Justin. -Bruna disse, com um meio sorriso tímido no rosto.

Virgínia gritou de novo e correu pra abraçar Bruna, quase derrubando uma pilha de livros. Olívia foi atrás, rindo e chorando ao mesmo tempo.

- MEU DEUS! MEU DEUS! EU VOU SER TIA! -gritava Olívia, pulando.

- EU TÔ MUITO FELIZ! MEU DEUS, BRUNA! -Virgínia chorava com a mão no peito.- Ai, já tô pensando em look de chá de bebê!

- Calma, gente! -Bruna ria, se sentando na cama.- Vocês tão pior que minha família.

- Pior? Isso aqui é o mínimo! A gente PRECISA comemorar. A gente PRECISA organizar tudo! -disse Olívia, já com o celular na mão abrindo o Pinterest.

Aquela gritaria chamou a atenção, e minutos depois Melanie apareceu na porta, com cara de quem tinha acabado de acordar.

- Que bagunça é essa? Parece que anunciaram o fim do mundo! -ela perguntou, bocejando.

- A Bruna tá grávida! -Olívia respondeu num grito.

Melanie parou, piscou devagar e depois sorriu de canto.

- Grávida? Do Justin? -Bruna assentiu.- Que loucura... mas que bom. Um sobrinho chegando. -ela caminhou até a Bruna e a abraçou.- Justin nem falou nada. Típico dele. Vai deixar tudo pra gente descobrir na marra.

- Ele preferiu esperar as coisas se acalmarem, acho. -disse Bruna.

Ficamos ali mais um tempo, com elas perguntando de tudo: de quanto tempo, se ela já tinha sentido enjoo, se ia fazer chá revelação. Bruna ria, respondia o que sabia e se deixava ser paparicada pelas amigas.

No fim da tarde, ajudei Bruna a levar tudo pro meu apartamento.

Assim que abri a porta do apê, bateu um soco no peito. O cheiro da Marina ainda parecia pairar no ar. As coisas estavam meio empoeiradas, mas intactas. Tinha um porta-retrato nosso na estante, umas canecas de café com frases românticas, e uma jaqueta dela pendurada atrás da porta do quarto. Não tive coragem de tirar nada. Só fiquei ali parado por uns segundos, sentindo tudo de novo.

Bruna reparou e ficou quieta também, respeitando meu momento.

- Se for difícil pra você... eu posso dar um jeito de procurar outro lugar. -ela disse, gentil.

- Não. Não é isso. -respirei fundo.- Esse lugar era um plano que não deu certo. Agora pode ser um recomeço. Seu recomeço.

Ela sorriu e começou a desfazer algumas caixas.

- Obrigada, Luan. Você tá sendo incrível comigo.

- Sempre vou ser, Bru. Sempre.

A vida seguia. De um jeito totalmente inesperado, mas ainda assim... seguindo.

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