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Capítulo 81

Marina Narrando

Uma semana se passou desde o nascimento do Jack. Eu o vi algumas vezes — poucas, na verdade. Justin descia com ele bem cedo pra tomar sol no parque e, nesses momentos, eu aproveitava pra me aproximar um pouco. Só que nunca ia até o apartamento da Bruna. Nunca perguntei por ela. A decepção ainda pesava demais pra isso.

Não vi mais o Luan também. Ele continuava bloqueado em tudo. E sinceramente? Melhor assim.

Voltar pra Los Angeles me deu um tipo estranho de alívio. A cidade era barulhenta, caótica, viva… exatamente o que eu precisava pra abafar o silêncio dentro de mim.

Estava sozinha no meu apartamento, cozinhando algo que lembrava uma massa ao molho branco. Tinha me esforçado, jurado que ia manter uma rotina saudável, mas meu corpo não colaborava. Quando comecei a mexer a panela, o enjoo bateu forte. Respirei fundo, fechei os olhos, mas não adiantou. Corri pro banheiro.

Vomitei tudo.

De novo.

Era quase automático já. Escovei os dentes com pressa, o cheiro de alho ainda me incomodando, e prendi o cabelo num coque desleixado. Quando voltei pra cozinha, determinada a terminar meu almoço miserável, a campainha tocou.

Franzi a testa.

Ninguém me avisou que viria. Não esperava visita.

Caminhei até a porta, enxugando as mãos na calça de moletom, e quando abri… ali estava ele. Victor.

- Victor? -minha voz saiu mais surpresa do que eu gostaria.

Ele me encarava sério, com as mãos nos bolsos da jaqueta jeans. Parecia tenso. Nada daquele sorrisinho sarcástico ou da leveza habitual.

- A gente precisa conversar. -ele disse direto.

Abri um pouco mais a porta e dei passagem, ainda tentando entender o que ele fazia ali do nada. Ele entrou e esperou que eu fechasse antes de continuar.

- Eu soube da sua gravidez… por outro alguém.

Engoli seco.

- Luan.

Ele assentiu.

- Ele me ligou de madrugada. Achei que fosse brincadeira, mas ele tava sério. Muito.

Cruzei os braços, encostando-me na parede da cozinha. Me sentia frágil demais pra aquele papo, mas ao mesmo tempo… parte de mim sabia que ele viria atrás em algum momento.

- Eu ia te contar. -falei.- Só… não achei que fosse urgente. Achei que já tinha ficado claro que não era seu.

- Eu sei que não é meu. -ele respondeu rápido.- E não tô aqui pra cobrar nada, Marina. A gente tá limpo um com o outro faz tempo. Só vim porque… eu te conheço.

Pisquei, confusa.

- O que isso quer dizer?

- Quer dizer que eu sei quando você tá se enfiando numa bagunça emocional e fingindo que tá tudo sob controle. E essa história com o Luan ainda não acabou pra você.

Me senti invadida. Irritada. E vulnerável. Tudo ao mesmo tempo.

- Não quero ouvir sermão, Victor. Tô bem, sério. A gravidez tá sob controle, o filme tá quase pronto, e eu tô tentando manter minha sanidade mental.

Ele me observou por alguns segundos.

- Você ainda ama ele?

O silêncio foi imediato. E pesado.

Respirei fundo.

- Eu não vou falar sobre isso agora. -balancei a cabeça.- Hoje não. Eu só… tô cansada. Vomitei o almoço inteiro e tô lidando com isso sozinha desde o começo.

Victor assentiu devagar, mas sem forçar nada. Ele sempre soube quando recuar.

- Ok. Só precisava te olhar nos olhos e ter certeza de que você tá realmente bem. -ele deu um meio sorriso.- Mesmo que seja uma mentira, você finge bem. Como sempre.

Soltei um suspiro cansado e olhei pro teto.

- Obrigada por se importar. De verdade. Mas eu preciso terminar de cozinhar antes que meu estômago resolva me trair de novo.

- Tudo bem. Só… se cuida, sardenta. E se precisar de alguma coisa… qualquer coisa, me chama.

Assenti, e ele se despediu, saindo pela mesma porta que entrou.

Fiquei ali por alguns segundos depois disso, em silêncio, sentindo o cheiro do molho quase queimando.

Respirei fundo. Enxuguei os olhos.

E voltei a mexer a panela.

Dois dias depois...

Dois dias depois da visita inesperada do Victor, peguei um voo pra Filadélfia. Precisava de um tempo fora de mim, do meu apartamento, da minha rotina, das lembranças.

Ainda era minha folga no set, e eu sabia que minha mãe também estaria em casa naquele dia. Josh estava de plantão no hospital — como sempre. Ele é do tipo que ama tanto o que faz que até esquece que a vida também acontece fora do centro cirúrgico. 

Melanie também estava lá. Curtindo os últimos dias das férias antes de voltar pra Columbia. Ela tava largada no sofá, com um pote de cereal na mão e a TV ligada em algum reality show idiota. Quando entrei, ela só levantou os olhos.

- Ih… deu ruim? -perguntou de boca cheia.

Revirei os olhos, mas sorri de leve.

- Oi pra você também, Mel.

Deixei minha bolsa no canto e fui direto pra cozinha. Minha mãe estava sentada na bancada, lendo um artigo médico no tablet e tomando chá de hortelã. A cena mais típica dela.

Ela ergueu os olhos ao me ver.

- Filha! Que surpresa boa. Achei que você tava em gravação hoje.

- Tô de folga. -dei um beijo em sua bochecha e me sentei ao lado.- Quis vir te ver. Faz tempo.

Ela analisou meu rosto com aquele olhar clínico de quem vê além do que os outros mostram.

- Tá tudo bem, Marina?

Hesitei.

Talvez fosse o momento. Talvez não. Mas se havia alguém no mundo com quem eu podia ser crua e real, era ela.

- Mãe… eu preciso te contar uma coisa.

Ela largou o tablet. Totalmente.

- Fala, meu amor.

- Eu tô grávida.

O silêncio que veio depois foi quase palpável.

Ela piscou devagar. O olhar não vacilou, nem por um segundo. E então respirou fundo.

- Ok… -ela disse.- Isso é… uma notícia grande.

Assenti, sem saber o que fazer com minhas mãos. Eu as enlaçava, depois soltava, depois enlaçava de novo.

- Eu vou ter esse bebê, mãe. Já decidi. E… vai ser só eu e ele. Ou ela.

Ela franziu um pouco a testa, mas não de julgamento. Parecia mais uma tentativa de digerir tudo.

- O pai sabe?

- Sabe. Mas… ele não vai fazer parte. E eu também não quero que faça. Não desse jeito.

Ela assentiu lentamente. Depois se aproximou, pegou minhas mãos e apertou de leve.

- Marina, ser mãe solo não é fácil. Você sabe. Mas… você é minha filha. E eu conheço sua força.

Meus olhos se encheram d’água. Só ali, naquela frase, naquela confirmação de que ela ainda me via, ainda me apoiava, foi como se eu respirasse pela primeira vez em dias.

- Eu tô assustada. -confessei baixinho.

Ela sorriu.

- E vai continuar assustada. Pelo menos pelos próximos… cinquenta anos. Mas você nunca vai estar sozinha, tá? Nem por um segundo.

Eu me joguei nos braços dela, sentindo finalmente uma ponta de paz. Não resolvia tudo, mas aliviava. E muito.

- Obrigada, mãe.

Ela passou a mão no meu cabelo, como fazia quando eu era criança.

- O Josh vai ficar feliz por você. E a Melanie… bom, ela provavelmente vai pirar com a ideia de ser tia de novo.

Do outro cômodo, ouvimos:

- Tia de novo?! -Melanie apareceu na porta da cozinha com os olhos arregalados.- COMO ASSIM VOCÊ TÁ GRÁVIDA?

Suspirei, limpando uma lágrima.

- Longa história.

- Eu exijo detalhes! -ela veio correndo, já pegando meu braço.- Vai ser menino ou menina? Vai chamar como? Posso escolher o nome?

Minha mãe riu e balançou a cabeça, como se dissesse “prepare-se”.

[...]

O sol já estava se pondo na Filadélfia, e eu me deitei na rede que minha mãe colocou na varanda dos fundos, onde dava pra ouvir os passarinhos e o barulho suave das folhas das árvores dançando com o vento. Era um daqueles momentos raros em que tudo parecia... calmo.

Peguei o celular e abri a galeria, olhando de novo as poucas fotos que tinha tirado do Jack naquela semana. A carinha dele, tão pequena, os olhinhos fechados, os dedinhos perfeitos... Era quase surreal pensar que ele existia. E que era meu sobrinho.

Suspirei e, sem pensar muito, abri o whatsapp e toquei no nome do Justin, discando em vídeo chamada. Depois de alguns toques, ele atendeu — com a câmera virada pra baixo, e tudo que eu vi primeiro foi o rostinho do Jack no carrinho, com um chapeuzinho minúsculo.

- Oi.  -falei, sorrindo.- É por isso que você demora pra atender? Tá ocupado sendo pai babão?

A câmera subiu, e o rosto do Justin apareceu, com olheiras e cabelo bagunçado. Ele sorriu de leve.

- Você sumiu.'-ele disse, sem rodeios.- Achei que já tinha voltado pra Los Angeles.

- Eu voltei... mas tô na Filadélfia agora. Vim ver minha mãe. -olhei pra ele, analisando sua expressão.- Precisava contar uma coisa pra ela.

Ele arqueou uma sobrancelha, claramente curioso.

- Que coisa?

Hesitei.

Droga. Eu não queria contar assim. Não por vídeo. Não sem olhar nos olhos dele. Mas ele era meu irmão. E era o Justin. E agora não dava mais pra adiar.

Respirei fundo.

- Eu tô grávida.

A imagem tremeu. Ele quase deixou o celular cair.

- O quê?!

- Shhh! -sussurrei.- O Jack tá dormindo, Justin.

Ele me encarou com os olhos arregalados, abaixando o tom da voz, mas o pânico era evidente.

- Você tá... como assim? Desde quando?! De quem?!

- Não quero falar disso agora. -disse, me ajeitando na rede, tentando manter a calma.- Só queria que você soubesse. Queria te contar primeiro. Não pela imprensa, nem por ninguém no set, nem... por outra pessoa.

Ele passou a mão no rosto, claramente tentando processar.

- Você falou com a Bruna?

- Não. Nem pretendo tão cedo.

- Você... vai ter mesmo esse bebê?

Assenti.

- Vou. Sozinha, mas vou.

O silêncio pairou por alguns segundos. Jack se mexeu no carrinho e Justin automaticamente balançou levemente a alça, instintivamente, como se fizesse aquilo há décadas.

- Você é louca. -ele murmurou, mas não com raiva. Mais como quem não sabe se chora, ri ou entra em colapso.

- E você é pai agora, e continua lidando com isso. Eu também vou dar conta.

Ele me olhou com um misto de medo, orgulho e preocupação. E aí, do nada, sorriu — pequeno, cansado, mas genuíno.

- Se for menina, promete que o nome não vai ser nada tipo Moonlight ou Rainbow?

Eu gargalhei pela primeira vez naquele dia.

- Prometo. Mas se for menino… tô pensando em Justin Júnior. Em sua homenagem.

- Nem ouse. -ele disse, rindo também, balançando a cabeça.

Por um instante, tudo ficou leve.

Mesmo com o mundo virado de cabeça pra baixo… a gente ainda era irmãos. Ainda éramos nós.

Justin ficou alguns segundos em silêncio, apenas observando o rostinho do Jack, que agora se remexia, prestes a acordar. Dava pra ver o turbilhão de pensamentos passando pelos olhos dele.

- Você devia voltar pra Nova York. -ele disse de repente.- Eu queria muito conversar com você. De verdade. Tá tudo uma bagunça aqui, Marina. Eu tô confuso, perdido… e agora você me solta essa bomba.

Inclinei a cabeça, sorrindo de canto.

- Você acha que eu também não tô perdida?

- Mas você sempre parece que sabe o que tá fazendo.

- Aparentemente, não dessa vez.

Ele bufou, riu sem humor, depois me encarou com uma expressão séria.

- É do Victor?

Eu simplesmente caí na gargalhada.

- Deus me livre! -falei, tentando recuperar o fôlego.- O Victor já rodou faz tempo, Justin. A gente é só amigo. Além disso, ele tá com outra, tá feliz. E eu também tô. Quer dizer… tentando, né?

Justin riu também, aliviado.

- Se fosse dele, eu ia ficar ainda mais maluco.

- Ah, porque agora você tem alguma autoridade sobre minha vida amorosa?

- Não. Mas sou seu irmão. E irmão tem permissão pra surtar sem motivo válido.

- Tá, então aproveita e surta de novo, porque eu vou sim pra Nova York. Só não sei quando.

- Faz isso. Por favor. -ele disse com um olhar sincero.- Eu quero muito te ver. Falar com você direito. A gente tem que se resolver, Marina. E… eu quero que o Jack conheça a tia dele de verdade.

Meu coração apertou.

- Eu também quero.

Assim que escutei a voz da Bruna ao fundo, baixa, suave, como se falasse com o Jack, meu estômago revirou. Não era enjoo dessa vez. Era outra coisa. Um aperto que subiu do peito até a garganta. Eu não estava pronta. Ainda não.

- Vou desligar, tá? A gente se fala amanhã. -falei rápido.

- Marina… -Justin tentou dizer algo, mas finalizei a chamada antes que ele insistisse. Era melhor assim.

Fechei o celular e respirei fundo. O céu na Filadélfia estava escuro, e a rede balançava suavemente. Me forcei a sair dali. Voltei pra dentro da casa.

O cheiro do jantar me envolveu assim que entrei na cozinha. Minha mãe estava finalizando algo no forno, e a Melanie picava tomate, provavelmente pra salada. As duas conversavam baixinho, em uma harmonia que sempre me acalmava.

- Mãe. -chamei, me encostando no batente da porta.- Você me empresta o carro amanhã? Eu queria ir até Nova York.

Minha mãe se virou pra mim, limpando as mãos num pano de prato. Seu olhar foi direto ao ponto.

- Vai ver o Justin?

Assenti. Melanie levantou a cabeça na hora.

- Eu vou com você. -disse animada.- Quero ver o Jack de novo. E... bom, tô sem nada pra fazer mesmo.

Sorri de canto, um pouco mais aliviada. Era bom não precisar ir sozinha.

- E tem outra coisa. -falei, com a voz um pouco mais baixa.- Eu preciso contar pro meu pai… sobre a gravidez.

Minha mãe fez uma careta imediata, como se aquilo tivesse doído nela também.

- Ele vai ficar maluco.

- Eu sei. -suspirei.- Mas ele tem o direito de saber, né? Mesmo que surte no início.

- Vai surtar. -ela reforçou.- Mas depois passa. Você conhece o William, ele é intenso. Mas ama vocês mais do que tudo.

- Mel, você conta pra ele por mim? -brinquei, jogando um pano de prato nela.

Ela riu.

- Nem morta. Quero estar presente só pra ver a reação.

Pegamos a estrada logo depois do café da manhã. Melanie estava animada, colocando playlist atrás de playlist, tagarelando sobre tudo: faculdade, moda, uma série nova que eu precisava assistir, e até uma teoria maluca de que o professor de biologia da Columbia era um vampiro aposentado.

Eu, sinceramente, não consegui prestar muita atenção em metade do que ela disse. Meu estômago já estava embrulhado antes mesmo de pegar o carro, e não era só pelo enjoo habitual. Era o nervosismo.

Quando finalmente entramos em Nova York, Melanie arregalou os olhos, já ansiosa pra ver o Jack de novo.

- Me deixa no prédio da Bruna? -pediu.- Quero babar o Jack antes de todo mundo.

Assenti. Era até melhor assim. Não queria ela presenciando o possível surto do nosso pai.

- Me manda mensagem quando quiser que eu vá te buscar. -falei, enquanto ela descia animada do carro e sumia porta adentro do prédio.

Segui direto pro Upper East Side, até a cobertura onde meu pai morava com a Ashley. O coração batia rápido no peito enquanto eu estacionava. Subi pelo elevador privativo e toquei a campainha, sem saber o que esperar.

Ashley abriu a porta. Linda, elegante como sempre, com aquele sorriso ensaiado que ela usava toda vez que não sabia como agir comigo.

- Marina! Que surpresa!

- Oi, Ashley. -forcei um sorriso.- Meu pai tá?

- Claro, ele tá no escritório. Pode entrar.

Ela me deu espaço e eu entrei, sentindo o ar-condicionado bater direto na minha nuca, o cheiro de lavanda preenchendo o hall. Tudo ali era organizado, moderno, como sempre. Como o William gostava.

Ashley me guiou até o corredor, mas eu já sabia o caminho. A porta do escritório estava entreaberta, e meu pai estava lá dentro, de costas, digitando algo no notebook.

Respirei fundo e bati levemente na porta.

- Pai?

Ele se virou imediatamente, e quando me viu, seus olhos se arregalaram.

- Marina? O que aconteceu? Tá tudo bem?

Eu respirei fundo outra vez. Era agora.

- A gente precisa conversar. -disse, com a voz firme, mas o coração batendo acelerado.- Tem uma coisa que você precisa saber.

E então, fechei a porta atrás de mim.

Meu pai me olhava como se tentasse decifrar o que viria. Ele se levantou da cadeira, fechando o notebook, e veio até mim.

- Você tá bem, Marina? Tá com esse olhar estranho... -ele disse, preocupado.

- Tô... mais ou menos. -confessei, mordendo o lábio.- É que... bom, eu tô grávida.

William congelou. Literalmente. Nenhuma expressão no rosto, nenhum som. Só piscou algumas vezes, como se tivesse certeza de que havia entendido errado.

- O quê? -ele perguntou, baixo, quase num sussurro.- Você tá... grávida?

Assenti, tentando não desviar o olhar.

- Sim. Tô entrando no terceiro mês.

Ele passou a mão pelos cabelos, caminhou de um lado pro outro do escritório como se a informação tivesse quebrado todas as regras da física.

- Você tá brincando comigo? Isso é algum tipo de piada?

- Não é uma piada, pai. -respondi, firme.- Eu sei que você vai surtar, e que isso não era o que você esperava pra mim agora, mas é real.

Ele parou e me olhou fixamente.

- Quem é o pai?

- Não importa. Ele não vai participar. Eu vou criar esse bebê sozinha.

- Como assim “não importa”? Marina, você tem noção do que está dizendo? Isso muda toda a sua vida! Muda a sua carreira, muda tudo!

- Eu sei! -exclamei, sentindo os olhos arderem.- Acha que eu não pensei nisso mil vezes? Eu tô apavorada, mas isso não vai me impedir. Esse bebê vai ser amado, e eu vou dar conta.

Meu pai suspirou alto, caminhou até a janela, ficou olhando a cidade lá embaixo por um tempo. Quando voltou a me encarar, parecia um pouco menos rígido, mas ainda carregado de emoções.

- Você me pegou totalmente de surpresa. Eu nunca imaginei isso. Achei que… você tava focada, centrada.

- Eu ainda estou. -respondi, respirando fundo.- Eu continuo sendo a Marina que você criou. Só que agora… também vou ser mãe.

Ele balançou a cabeça devagar, e depois se aproximou, passando a mão pelo meu cabelo como fazia quando eu era criança.

- Você é teimosa igual à sua mãe. -disse, num tom mais leve, quase com um meio sorriso.- Mas eu te amo. E se você diz que vai conseguir... então eu vou estar aqui pra te apoiar. Mesmo com o coração apertado.

Engoli em seco e deixei que ele me abraçasse. E ali, nos braços do meu pai, por um segundo, me permiti não ser forte.

Mais tarde naquela noite, fui até o hotel do meu pai, onde o Justin ocupava a suíte presidencial. Ele estava sentado na poltrona, de moletom cinza e os cabelos bagunçados. Fazia dias que não dormia direito, e nos últimos tempos, dormia num colchão no quarto da Bruna só pra cuidar do Jack.

- Você não tá cansado de salvar o mundo, não? -provoquei, tentando aliviar o clima.

Ele riu fraco, apontando pro sofá em frente.

- Vem. A gente precisa conversar.

Sentei ali, passando a mão pelos braços. O ar-condicionado estava forte demais ou eu estava nervosa.

- O que aconteceu entre você e a Bruna? Eu não entendi nada. Vocês eram grudadas. Agora você mal olha na cara dela. -ele perguntou direto, como sempre foi comigo.

Suspirei fundo.

- Não é fácil explicar, Jus. Mas… você merece saber. Então eu vou te contar tudo. Desde o começo. -suspirei.- No dia que você me contou que ia ser pai… Eu voltei pra casa. Na época eu ainda tava morando no hotel por conta do filme. E... eu acabei esbarrando no Victor no elevador. E... rolou. Um remember. -falei com vergonha, olhando pra ele.

Ele arqueou uma sobrancelha.

- Sério?

- Sério. A gente começou a ficar de novo. Só que... era amizade colorida, nada demais. Eu nunca contei pra ninguém. Nem pra Bruna.

- Tá, e daí?

- Em abril teve o lançamento do meu primeiro filme, lembra? A gente assistiu no apartamento da Bruna. Eu, ela, a Virgínia e a Olívia. E o Victor me ligou depois da sessão. Eu atendi. Só que elas escutaram a conversa.

Justin já começou a se mexer, impaciente.

- A Bruna surtou. -continuei.- Ela disse que eu tinha traído o Luan. Que o Victor tinha sido o motivo do meu término com ele, que o Luan tinha razão de ter ciúmes. Me chamou de cruel.

- Mas vocês não estavam mais juntos. -Justin argumentou, já entendendo.

- Exato. E aí que vem a parte mais insana. Nessa discussão, eu joguei na cara dela uma coisa. Uma coisa que ela nunca me contou, mas que eu descobri.

- O quê? -Justin franziu o cenho, e eu respirei fundo.

- Ela dormiu com o Zach, Justin. Já grávida do Jack.

A expressão dele mudou na hora. Os olhos dele se arregalaram e ele ficou completamente imóvel. Como se tivesse levado um soco.

- O quê?! -ele se levantou de repente, quase derrubando a mesinha do lado.- Você tá me dizendo que a Bruna… com o Zach?!

- Sim. E eu sei que vocês terminaram por causa daquele beijo que ele forçou. Mas mesmo depois disso, ela…

- MEU DEUS. -ele bufou, deu dois passos pra frente e chutou a parede.- Como ela pode ter feito isso? Logo com o Zach? COM MEU FILHO NA BARRIGA?!

- Calma, Justin, por favor… -levantei, me aproximando.- Eu só tô te contando porque você precisava saber. Porque eu sei o quanto isso vai mexer com você. Mas calma.

Ele passou as mãos no rosto, completamente abalado.

- Isso muda tudo… tudo, Marina. E ela te julga? Ela te chama de cruel? Sendo que fez a mesma coisa... ou pior?!

- Pois é. -suspirei.- E foi por isso que eu cortei. Uns dias depois, eu e o Victor conversamos e decidimos parar com tudo. Seguir só como amigos e colegas de trabalho. E aí, Bruna me mandou mensagem dizendo que eu devia contar pro Luan sobre o Victor.

- E você respondeu?

- Respondi que ela deveria contar pra você sobre o Zach. Aí a gente discutiu de novo. E decidimos manter distância.

Justin se sentou de novo, dessa vez com os cotovelos nos joelhos e a cabeça entre as mãos.

Eu continuei, mesmo com o coração pesado.

- Em junho, eu fui pro Brasil. Teve um show no São João de Caruaru. E… o Luan tava lá. A gente se viu, conversou, dançou. Foi uma noite… incrível. A gente ficou. Foi aí que eu engravidei.

- E ele sabe disso?

- Sim. A gente continuava conversando, com frequência até. Ele me ligou no meu aniversário, foi fofo. Mas dias depois, ele começou a se afastar. Então… um dia antes do Jack nascer, eu vim pra Nova York, só pra contar pra ele pessoalmente. E a reação dele… foi horrível.

- Horrível como?

- Ele me acusou. Disse que a noite no Brasil não tinha significado nada pra mim. Que eu só queria “curtir”. Que ele não acreditava em mim e o filho podia não ser dele. Que ele achava que era do Victor. E aí... eu menti. Disse que não era dele.

Justin me olhou, chocado.

- Você mentiu?

- Sim. Na madrugada que o Jack nasceu, eu peguei ele no flagra fuçando meu celular, fiquei com raiva e acabei dizendo pra ele dizendo que o filho não era dele. Mas era mentira, Ju. Não existe nenhuma chance de não ser do Luan. 

Ele respirou fundo e me encarou.

- Esse mundo tá muito de cabeça pra baixo. -ele murmurou, se recostando, ainda com raiva.- A Bruna te acusou de coisas que ela mesma fez. E o Luan… fez um julgamento tão idiota que agora vai perder o começo da vida do próprio filho.

Ficamos em silêncio por um tempo. Até que ele disse:

- Mas eu tô com você. Eu tô do seu lado. Sempre estive. E esse bebê vai ter um tio que vai cuidar dele como se fosse meu também.

Sorri, emocionada.

- Obrigada, Justin.

Ele me puxou pra um abraço apertado. Naquele instante, tudo parecia um pouco menos pesado.

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