Bruna Narrando
Passei o dia inteiro na biblioteca, completamente imersa nos meus croquis. Estava inspirada, cheia de ideias, e a última coisa que eu queria era perder o foco com as conversas barulhentas de Virgínia e Olívia no quarto.
Quando comecei a notar o céu escurecendo do lado de fora da janela, decidi que já era hora de voltar.
Ao chegar no dormitório, encontrei Virgínia e Olívia jogadas no sofá, assistindo Grey’s Anatomy.
- E aí, Bru, senta aí. Assiste com a gente. -Virgínia disse, me dando espaço.
Sorri e me sentei ao lado delas. Era bom dar uma pausa e relaxar um pouco. A série sempre me distraía, mesmo quando me fazia chorar.
Porém, não tive muito tempo de descanso.
Uma batida na porta chamou minha atenção. Me levantei e fui atender.
Quando abri a porta, dei de cara com Luan.
Ele estava sério. Sério demais.
- Aconteceu alguma coisa? -perguntei, sentindo um nó se formar no estômago.
- Preciso falar com você. -ele respondeu, direto.
O tom dele me fez gelar. Sem questionar, apenas assenti e subi com ele até o meu quarto.
Assim que fechei a porta, ele respirou fundo e passou as mãos pelos cabelos, como se estivesse tentando encontrar as palavras certas.
- O que foi, Luan? Você tá me assustando.
Ele me olhou nos olhos e finalmente disse:
- É sobre o Victor.
Meu coração bateu mais forte.
- O que tem ele?
- Ele é traficante, Bruna. E quem traz as drogas pra ele vender aqui no campus é o Harry.
Minha respiração travou.
- O quê? -soltei, num fio de voz.
- Justin ficou sabendo e me contou. Harry tá envolvido nisso. Ele que traz as drogas pra cá, e o Victor vende.
Minha mente parou.
Harry? O meu Harry?
Meu peito apertou, uma sensação horrível tomou conta de mim.
Eu tinha acreditado nele. Eu tinha confiado nele.
- Não… não pode ser.
- Bruna, eu sei que é difícil de engolir, mas é verdade. Eu não podia deixar você sem saber disso.
A verdade bateu em mim como um soco.
Me senti… enganada. Humilhada. Uma idiota completa.
Abaixei a cabeça, e sem conseguir segurar, comecei a chorar.
As lágrimas escorriam quentes pelo meu rosto, o peito doía como se estivesse sendo esmagado.
Luan se aproximou e me puxou para um abraço.
- Eu tô aqui, Bru… -ele disse, passando a mão pelos meus cabelos.
Eu soluçava contra o ombro dele.
- Eu sou muito burra, Luan. Como eu não vi isso? Como eu me deixei levar?
- Você não tem culpa. Ele te enganou.
Eu fechei os olhos com força, tentando sufocar a dor.
Ficamos ali por um tempo. Luan não soltou o abraço, me deixou chorar tudo que eu precisava.
Até que ele suspirou e falou:
- Você precisa abrir os olhos da Marina. Ela ainda não sabe.
Me afastei um pouco e enxuguei as lágrimas com as costas das mãos.
- Ela ia sair com ele hoje. É aniversário dele.
Luan me olhou sério.
- Então não tem tempo a perder. Você precisa contar pra ela.
Assenti, determinada.
Abri a porta do quarto e fui direto até o de Marina. Bati duas vezes e, quando não obtive resposta, girei a maçaneta e entrei.
O quarto estava vazio.
Só havia o perfume dela no ar.
Ela já tinha saído com o Victor.
Suspirei frustrada.
Assim que Luan foi embora, peguei o celular e liguei para Marina.
Uma vez.
Duas vezes.
Três vezes.
Quatro. Cinco. Várias vezes.
Nenhuma resposta.
Tentei mandar mensagens também, mas tudo ficava só no “enviado” sem retorno.
Soltei um suspiro frustrado. Teria que esperar.
Me tranquei no quarto, e a raiva que eu sentia começou a se misturar com tristeza.
Eu confiava no Harry. De verdade. Nunca passou pela minha cabeça que ele pudesse estar envolvido com algo tão sujo.
Me joguei na cama e abracei um travesseiro, tentando segurar as lágrimas. Mas era inútil.
O choro veio forte, carregado de decepção.
Meu peito doía.
No meio do turbilhão de emoções, o celular vibrou na mesinha de cabeceira. Peguei para olhar.
"Vamos jantar juntos no refeitório?"
Era Harry.
Fiquei olhando para a tela por um tempo.
Não respondi.
A simples ideia de encará-lo agora me fazia sentir ainda mais raiva.
Eu não quis jantar.
Passei as horas seguintes só esperando Marina. Tentando imaginar como contar para ela.
Depois do encontro dela com Victor, como eu poderia fazer isso sem destruí-la?
Suspirei fundo e fiquei encarando o teto.
Até que uma notificação me chamou atenção.
"Tô no táxi voltando pro dormitório. Me espera."
Meu estômago revirou. Era agora.
Fiquei repetindo na minha cabeça o que eu diria, como eu começaria, tentando prever a reação dela.
E então, ouvi barulho no quarto dela.
Não hesitei. Me levantei na mesma hora e fui até lá.
Abri a porta e, ao ver Marina, já soube que ela sentia a mesma dor que eu.
Contei tudo, sem rodeios.
E vi, diante dos meus olhos, a raiva dela crescer.
Quando saí do quarto, fechei a porta e encostei as costas nela, respirando fundo.
Meus olhos estavam cheios de lágrimas.
E então, um som alto me fez estremecer.
Vidro se quebrando.
Arregalei os olhos.
Nunca tinha visto Marina assim.
As portas dos quartos das meninas se abriram, e logo Olívia e Virgínia apareceram, alarmadas.
- O que foi isso? -Virgínia perguntou, preocupada.
- Foi do quarto da Marina. -respondi, engolindo em seco.
Elas se entreolharam e depois olharam para mim.
- O que tá acontecendo?
Passei a mão pelo rosto, sentindo o cansaço me dominar.
- Ela… ela descobriu a verdade sobre o Victor.
- Que verdade? -Olivia e Virgínia perguntaram juntas.
- O Victor vende drogas no campus. E quem trás essas drogas pra vender é o Harry.
O silêncio tomou conta por um instante.
Até que um novo barulho veio do quarto dela.
- A gente precisa entrar lá. -Olívia disse, já indo em direção à porta.
Eu só queria que essa noite acabasse logo.
Olívia girou a maçaneta sem hesitar, e a porta se abriu facilmente.
O quarto de Marina estava um caos.
O espelho estava quebrado, com cacos espalhados pelo chão. O vestido azul que ela usou no jantar estava em pedaços sobre a cama, como se tivesse sido cortado com uma tesoura. E no chão, ao lado do mural de fotos, os pedaços rasgados de uma foto dela e Victor.
Mas o que mais me chocou foi a expressão de Marina.
Ela estava ofegante, os olhos vermelhos de tanto chorar, segurando a tesoura com força nas mãos.
- Marina… -chamei com cuidado, dando um passo à frente.
Ela olhou para mim, e por um momento, vi algo que nunca tinha visto nos olhos dela: desespero misturado com raiva.
- Eu fui uma idiota, Bruna. -a voz dela saiu embargada, e um soluço escapou.- Eu… eu fiz tudo por ele! Eu acreditei em cada palavra daquele desgraçado!
Ela jogou a tesoura no chão e passou as mãos pelo rosto, tentando conter o choro, mas era impossível.
- Ele mentiu pra mim, o tempo todo! -ela gritou, a voz carregada de dor.
Olívia e Virgínia observavam tudo em silêncio, parecendo tão chocadas quanto eu.
- Marina, senta um pouco… você tá tremendo. -Virgínia sugeriu, se aproximando.
Marina balançou a cabeça negativamente, andando de um lado para o outro, sem conseguir parar.
- Eu odeio ele! Eu odeio ele! -ela repetia, como se tentasse convencer a si mesma.
Eu me aproximei com cuidado e segurei suas mãos, que estavam geladas.
- Eu sei que dói, mas você precisa respirar… precisa se acalmar.
- Eu não consigo, Bruna! -ela me olhou com os olhos cheios de lágrimas.- Ele é um mentiroso! Falso! Eu não acredito que acreditei e confiei nele.
Meu coração apertou por ela.
- Você não tem culpa. -falei, apertando suas mãos.- A culpa é dele.
A noite foi bem longa.
Mesmo depois de ajudar Marina a limpar o quarto e garantir que ela estava mais calma, minha mente não parava. Deitei na cama, mas fiquei rolando de um lado para o outro, encarando o teto, os pensamentos fervilhando.
O que fazia Harry se envolver com aquilo?
Eu me recusei a acreditar que ele era igual ao Victor. Ele não podia ser.
O pensamento me deixava ainda mais decepcionada. Eu realmente tinha me iludido com aquele rosto bonito.
Quando finalmente consegui pegar no sono, parecia que tinham passado apenas alguns minutos antes do despertador tocar. Levantei cansada, me arrumei para a aula e saí do quarto, prendendo o cabelo em um coque rápido.
Foi quando percebi que a porta do quarto de Marina estava aberta.
Parei no corredor e olhei para dentro.
Ela estava sentada à mesa, se maquiando no que restava do espelho quebrado. Mas o que me chamou atenção não foi isso.
Foi a expressão dela.
Marina parecia completamente diferente da garota que, na noite anterior, chorava em desespero e destruía tudo ao seu redor.
Ela sorriu ao me ver.
- Bom dia, Bruna! -disse animada, como se nada tivesse acontecido.
Eu franzi a testa, confusa.
- Bom dia… -entrei no quarto e me encostei no batente da porta, cruzando os braços.- Você está bem?
Ela piscou, continuando a passar batom nos lábios.
- Melhor impossível.
Havia algo no tom de voz dela. Algo que me deixou desconfiada.
- E o Victor? -perguntei com cautela.
Foi então que ela olhou para mim pelo reflexo do espelho quebrado e sorriu.
Mas não era um sorriso qualquer.
Era um sorriso de quem tinha um plano.
- O Victor vai conhecer quem é Marina Bieber.
A forma como ela disse aquilo me deu um leve arrepio.
Eu nunca vi Marina tão focada.
Enquanto caminhávamos para o refeitório, ela me deu um verdadeiro sermão sobre postura.
- Você não vai chorar. Você não vai abaixar a cabeça. Vai erguer o queixo e mostrar que é muito superior ao Harry. -seu tom era sério, determinado.- Se ele vier te cumprimentar, você vira o rosto. Hoje você vai aprender como tratar homem.
Assenti, sentindo meu coração bater mais rápido. Não estava acostumada com esse tipo de coisa, mas sabia que precisava ser forte.
Assim que entramos no refeitório, nossos olhos varreram o salão em busca deles.
E lá estavam.
Victor, Harry e Gabriel sentados na mesma mesa de sempre.
Marina começou a caminhar direto até eles, e eu fui ao seu lado, tentando parecer mais confiante do que realmente estava.
Antes de chegarmos, Marina falou baixo:
- Se o Harry tentar te beijar, vira a cara.
Engoli seco e assenti.
Assim que paramos diante da mesa, Harry abriu um sorriso e se inclinou para me dar um beijo.
Mas, antes que ele encostasse em mim, virei o rosto.
Seu sorriso murchou.
- Bruna?
- Oi. -respondi curta, sem emoção.
Ele franziu a testa, claramente desconcertado.
Victor, por outro lado, sorriu animado para Marina.
- Bom dia, minha gata.
Marina sorriu de volta, mas não do jeito que ele esperava. Ela se debruçou na mesa, se aproximando dele, e falou baixo, mas o suficiente para todos ouvirem:
- Me vende dez gramas?
O sorriso de Victor vacilou.
Eu segurei o ar, sentindo a tensão aumentar.
Harry e Gabriel trocaram olhares nervosos.
Victor disfarçou, coçando a nuca.
- O quê?
Marina fingiu impaciência, cruzando os braços.
- Dez gramas. Você não é traficante? Então vende pra mim.
A mesa inteira ficou em silêncio.
Victor se remexeu na cadeira, claramente desconfortável.
- Marina, para com isso.
Mas ela não parou.
Virou-se para Harry, que desviou o olhar.
- E espero que os produtos que você compra sejam da boa qualidade. Eu não gosto de porcaria.
Ele ficou pálido.
Gabriel tossiu baixinho, tentando disfarçar o desconforto.
Victor ficou sério.
- Quem te contou isso?
Marina sorriu, inclinando a cabeça para o lado.
- Que diferença faz?
Ele estreitou os olhos, e eu vi sua mandíbula travar.
- Você não entende a situação.
- Ah, não entendo? -Marina riu, sarcástica.- Então me explica, amor. Como funciona? Você lucra quanto em cima dos otários que compram de você?
Victor se inclinou para a frente, baixando a voz.
- Para com isso. Você tá querendo chamar atenção?
Marina piscou lentamente.
- Não. Eu só estou me despedindo.
- O quê?
Ela sorriu de novo.
- Achei que você fosse inteligente. Mas vamos lá, eu desenho pra você: acabou, Victor.
Victor a encarou, confuso.
- Como assim, acabou?
- Eu e você. Não existe mais.
Harry me olhava de canto de olho, esperando minha reação.
Mas, diferente da Bruna de antes, eu continuei de queixo erguido, exatamente como Marina pediu.
Victor riu, debochado.
- Ah, Marina… Você acha que pode terminar comigo desse jeito?
Marina se afastou, pegou minha mão e deu um passo para trás.
- Eu já terminei.
Eu inspirei fundo, sentindo a adrenalina correr pelo meu corpo. Se Marina tinha feito sua parte, eu também faria a minha.
Soltei a mão dela e me virei para Harry, que ainda me olhava confuso, tentando entender o que estava acontecendo.
- E você. -minha voz saiu firme, e Harry ergueu as sobrancelhas.- Achou mesmo que eu ia continuar com um cara que faz papel de cachorrinho pra traficante?
A expressão dele endureceu.
- Bruna, do que você tá falando?
- Não se faça de idiota. -cruzei os braços, sentindo a raiva me consumir.- Eu tô falando de você ser capacho do Victor, de você ajudar ele a vender porcaria. E o pior? Nem pra ser um traficante de respeito você serve, só é um mensageiro.
Gabriel arregalou os olhos e tossiu, segurando o riso. Harry ficou vermelho de raiva.
- Você não sabe do que tá falando.
- Sei, sim. Sei que você é um idiota que me enganou esse tempo todo. Mas a culpa é minha também, né? -dei um sorriso cínico.- Eu me iludi legal naquele seu rostinho bonito. Mas agora enxergo quem você é de verdade.
Harry abriu a boca para responder, mas eu ergui a mão, cortando-o.
- Não precisa falar nada. Tá encerrado. Não quero mais papo com você. Aliás… -dei um passo à frente e olhei bem nos olhos dele.- Espero que sua próxima namorada goste de traficantezinho de merda.
Ele me encarou, furioso, mas não conseguiu dizer nada.
Marina riu e pegou minha mão de novo.
- Agora sim, Bru. Tô orgulhosa.
E, sem olhar para trás, nos viramos e saímos dali, deixando Victor e Harry com seus egos feridos e Gabriel tentando segurar o riso.
Foi libertador.
Enquanto caminhávamos para fora do refeitório, senti os olhares curiosos sobre nós. O burburinho era inevitável, afinal, tínhamos acabado de expor Victor e Harry na frente de todo mundo.
Marina andava ao meu lado com a postura impecável, queixo erguido, como se não tivesse acabado de jogar um balde de água fria no ex-namorado. Eu sentia meu coração acelerado, ainda tomada pela adrenalina da situação.
Foi quando escutamos a voz de Victor soar alta e carregada de frustração:
- MARINA!
Parávamos no mesmo instante, mas sem nos virar completamente. Apenas olhamos por cima do ombro, e lá estava ele, de pé ao lado da mesa, os punhos cerrados, o rosto vermelho. Seu olhar tinha uma mistura de raiva e desespero.
- Eu te amo! -ele gritou, a voz embargada.- Você é uma filha da puta por fazer isso comigo!
O refeitório inteiro ficou em silêncio. Todos estavam atentos ao desfecho daquela cena digna de filme.
Marina, no entanto, nem hesitou.
Com um sorriso debochado, ergueu a mão e mostrou o dedo do meio para ele, sem dizer uma única palavra. A provocação silenciosa doeu mais do que qualquer resposta.
Victor ficou parado, olhando para ela como se não acreditasse no que tinha acabado de acontecer.
Sem perder tempo, viramos para frente e seguimos nosso caminho, saindo do refeitório como se nada tivesse acontecido. Assim que cruzamos a porta, Marina soltou uma risada baixa.
- Filho da puta é ele de achar que eu ia cair nessa.
Não pude evitar um sorriso. Ela estava machucada, eu sabia disso, mas também sabia que, naquele momento, estava sendo mais forte do que nunca.
Assim que cruzamos a porta do refeitório e pisamos no pátio, senti meu corpo relaxar pela primeira vez desde que havíamos entrado lá. Soltei o ar dos pulmões, que nem sabia que estava segurando, e passei a mão pelos cabelos, tentando aliviar a tensão.
- Caralho, Marina… preciso aprender muito com você. -falei, ainda processando tudo que havia acontecido.
Marina sorriu de lado, ajeitando a alça da mochila no ombro.
- Você arrasou com o Harry, Bruna. Eu tô orgulhosa. -ela disse com um brilho satisfeito no olhar.- Mas agora, a gente precisa colocar uma coisa na nossa cabeça.
Olhei para ela, esperando que continuasse.
- Vamos focar no que viemos fazer aqui, certo? Nada de correr pros braços de outro cara agora, nem Justin, nem Luan… deixa os homens pra lá. -ri do jeito direto dela, mas Marina não parecia brincando.- Estamos aqui pra estudar, beber e fazer sexo sem compromisso. -ela completou, dando de ombros como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Minha risada escapou de vez.
- Você fala desse jeito e parece até fácil.
- Porque é, amiga. -ela piscou para mim.- Só não se apegar, e tá tudo certo.
Eu ainda estava um pouco abalada, mas era impossível não me contagiar com a confiança dela. Se alguém me dissesse que essa seria minha manhã, eu jamais acreditaria, mas aqui estávamos nós, saindo de um término duplo e seguindo em frente como se nada pudesse nos derrubar.
Marina passou o braço pelo meu pescoço e me puxou para um abraço de lado, seu perfume ainda era o mesmo de sempre, mas agora parecia carregar uma nova energia, como se ela tivesse se transformado de uma noite para outra.
- Vem, Bruna. Eu vou te pagar um café na lanchonete. -ela disse, me apertando um pouco antes de me soltar.
Sorri, balançando a cabeça.
- Depois de tudo que aconteceu, acho que a gente merece.
- Merecemos muito. -Marina concordou, mexendo no próprio cabelo.- E aproveita, porque não vou fazer isso sempre, tá?
- Nossa, que generosidade, Marina. -brinquei, revirando os olhos enquanto começávamos a caminhar.
Ela riu, me empurrando de leve com o ombro.
- Mas falando sério, depois do café, vamos planejar o que vem a seguir. Agora que chutamos aqueles dois inúteis pra longe, precisamos de novos planos.
- Tipo? -perguntei, arqueando uma sobrancelha.
- Tipo dar um up nas nossas vidas. Nada de ficar remoendo o passado. Vamos nos divertir, trabalhar nos nossos sonhos e, se der tempo… talvez quebrar uns corações por aí.
Ri do jeito convencido dela, mas no fundo, eu sabia que Marina tinha razão. O que passou, passou. E agora, o que importava era o que viria pela frente.
Assim que entramos na lanchonete, o cheiro de café fresco e pão na chapa tomou conta do ambiente. O lugar estava movimentado, mas conseguimos um espaço confortável perto da janela, onde a luz do fim da manhã iluminava as mesas.
- Um café e um misto quente, por favor. -falei para a atendente.
- O mesmo pra mim. -Marina completou, apoiando os braços no balcão enquanto esperávamos.
Pegamos nossos pedidos e seguimos para a mesa ao lado da janela. Marina colocou a mochila no banco ao lado e cruzou as pernas, pegando o copo de café e assoprando antes de tomar o primeiro gole.
Enquanto eu mordia meu misto quente, minha mente viajou para algo que poderia ser arriscado, mas seria uma ótima ideia para duas recém solteiras.
Olhei para Marina, que agora brincava com o guardanapo na mesa. Um sorriso surgiu no meu rosto com a ideia que me veio à mente.
- Ei, Marina, você já ouviu falar no Carnaval do Brasil?
Ela levantou os olhos para mim e arqueou uma sobrancelha.
- Claro que sim! Aqueles desfiles gigantescos, fantasias brilhantes, festa dia e noite… Acho lindo.
Me animei ainda mais com a resposta dela e fui direto ao ponto:
- Então, que tal a gente matar aula, ir pro Rio de Janeiro e ver tudo isso de perto?
Marina arregalou os olhos e abriu um sorriso enorme.
- Você tá falando sério?
- Sim! Vai ser incrível. Praia, festas, música… E claro, eu te levo pra conhecer as melhores comidas brasileiras.
- Meu Deus, Bruna, isso vai ser um sonho! -Marina bateu palmas baixinho, empolgada.- Já quero providenciar tudo!
- Eu também. -sorri, pegando meu café.- E ó, nada de se apaixonar por brasileiro, hein?
- Ah, Bruna… -ela riu, me lançando um olhar travesso.- Não posso prometer nada. -Marina tomou um gole do café, pousando o copo na mesa com um sorriso travesso nos lábios.- Até porque eu já me apaixonei por um brasileiro… -ela disse casualmente, me olhando de canto.
Franzi a testa por um segundo, até que a ficha caiu.
- Ah, não… -suspirei, revirando os olhos.- Você tá falando do Luan, né?
Ela riu e deu de ombros.
- Talvez…
- Marina, pelo amor de Deus! -coloquei a mão na testa, fingindo exasperação.- Não me lembra dessa história, por favor.
- Mas foi real, Bruna! -ela riu, pegando um pedaço do misto quente.- Eu realmente gostei do seu irmão.
- E como isso terminou mesmo? -cruzei os braços, arqueando uma sobrancelha.
- Com ele sendo um idiota e eu superando rapidinho. -ela respondeu sem hesitar, dando de ombros.- Mas isso não muda o fato de que eu me apaixonei por um brasileiro uma vez.
Soltei um riso nasalado e balancei a cabeça.
- Então, se a gente for pro Rio, eu preciso te vigiar pra você não se encantar por mais um.
- Ou talvez você que se encante, Bruna. -Marina piscou pra mim.
Eu gargalhei.
- Duvido muito. Eu prefiro canadenses. -pisquei pra ela.
Marina revirou os olhos, mas não deixou de rir, ela pegou o celular, já começando a pesquisar coisas sobre o Carnaval no Rio. Eu podia ver no brilho dos olhos dela que ela estava realmente empolgada, e isso só me fez ter mais certeza de que essa viagem seria uma das melhores experiências da nossa vida.