Marina Narrando
O avião pousou na Filadélfia no final da tarde. O frio era intenso, e eu me arrepiei assim que saí do aeroporto. Victor segurou minha mão, sorrindo.
- Nervosa?
- Nem um pouco. -menti. Ele riu.
- Sua mãe já me conhece por videochamada, sua irmã já me viu no jantar de Ação de Graças… Tá tudo certo.
- Espero que sim.
Pegamos um táxi até a casa da minha mãe. Assim que entramos, Melanie veio correndo me abraçar.
- Finalmente! Pensei que vocês nunca iam chegar!
- Também senti sua falta, Mel. -falei, rindo.
Ela sorriu para Victor.
- Oi de novo.
- Oi, cunhadinha.
Melanie fez uma careta.
- Nossa, já tá se achando parte da família?
Antes que Victor pudesse responder, minha mãe apareceu na sala.
- Então você conseguiu mesmo, Victor. -ela disse, cruzando os braços e analisando ele dos pés à cabeça.- Virou meu genro.
Victor sorriu, confiante.
- Eu disse que ia conseguir, senhora Clinton.
Minha mãe estendeu a mão pra ele e ele apertou, amigavelmente.
- Pode me chamar de Liana. E bom, vamos ver se merece esse título de genro.
Meu padrasto, Josh, apareceu logo depois, colocando uma mão no ombro de Liana.
- Não assuste o rapaz, amor.
- Ele aguenta. -minha mãe respondeu, me dando um abraço apertado.- Como você está, querida?
- Bem, mãe. Cansada da viagem, mas feliz de estar aqui.
Ela sorriu e olhou para Victor.
- Espero que você trate minha filha como ela merece.
Victor assentiu, sério.
- Sempre.
Minha mãe não disse nada, apenas deu um pequeno sorriso e foi ajudar Josh na cozinha.
Melanie se jogou no sofá e olhou para mim com um sorriso provocador.
- Boa sorte, Marina. Acho que ele passou no primeiro teste.
Revirei os olhos e puxei Victor pela mão.
- Vem, vou te mostrar meu quarto antes do jantar.
Subi as escadas puxando Victor pela mão, e ele me seguiu rindo.
- Sua mãe já me aprovou?
- Não se iluda. -respondi.- Mas ela não é tão assustadora quanto parece.
Abri a porta do meu quarto e entrei. Era exatamente como eu tinha deixado antes de ir para a faculdade. Havia fotos minhas, da Melanie e Justin na parede, um pôster de uma peça de teatro da Broadway e uma prateleira cheia de roteiros e livros sobre atuação.
Victor pegou um dos roteiros e sorriu.
- Você realmente nasceu pra isso, hein?
- Claro. E você também. -retruquei.
Ele me olhou com um sorriso convencido.
- Vamos conquistar Hollywood juntos.
- Com certeza.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Melanie entrou no quarto e se jogou na cama.
- Vocês já decidiram que filme vão estrelar juntos?
Revirei os olhos.
- Mel, para de ser intrometida.
Ela deu de ombros.
- Só tô curiosa.
Josh apareceu na porta do quarto, com um sorriso simpático.
- Marina, sua mãe mandou avisar que o jantar está quase pronto.
- Já estamos descendo.
Ele sorriu para Victor.
- E você, rapaz, quer uma cerveja?
Victor riu.
- Claro, senhor Clinton.
- Nada de "senhor". Me chama só de Josh. Aqui é todo mundo família.
Descemos e fomos para a sala de jantar. A mesa estava cheia de comida, e minha mãe já estava servindo vinho para os adultos.
- Espero que vocês estejam com fome. -ela disse, sorrindo.- Porque eu fiz questão de preparar tudo esse ano.
- Na verdade, eu ajudei. -Josh protestou.
- Ele ficou responsável por provar tudo. -minha mãe brincou.
Nós rimos, e me senti aquecida por estar em casa. Enquanto jantávamos, minha mãe olhou para Victor.
- E então, quais são seus planos para o futuro?
Victor limpou a boca com o guardanapo e sorriu.
- Quero ser ator, assim como a Marina.
Liana assentiu.
- Ótimo. Mas já sabe que não é um caminho fácil, certo?
- Sei sim, Liana. Mas estou disposto a enfrentar tudo.
Ela sorriu, satisfeita.
- Bom saber. Se for pra estar com minha filha, quero alguém que sonhe alto como ela.
Melanie cutucou meu braço.
- Parece que ele tá indo bem no teste.
Sorri, aliviada.
Após o jantar, fui ajudar na louça. Enquanto a água quente escorria sobre meus dedos, ensaboei um prato e suspirei. Minha mãe, ao meu lado, enxugava os pratos com paciência, enquanto Melanie limpava a mesa do jantar.
- Então... -minha mãe começou, com aquele tom de voz que indicava que ela queria puxar um assunto sério.- E aquele cantor que você mencionou alguns meses atrás?
Meu coração deu um leve salto, mas mantive a expressão neutra.
- O Luan?
- Sim. Você parecia bem envolvida quando falou dele.
Suspirei, entregando um prato para ela secar.
- É complicado, mãe. Estou com o Victor agora, e ele é ótimo. Mas, às vezes, ainda penso no Luan.
Liana me olhou com atenção, como se analisasse cada palavra.
- Eu imagino que seja difícil, Marina. O coração da gente não segue regras, e nem sempre é fácil deixar alguém para trás.
Assenti, esfregando uma panela com mais força do que o necessário.
- Eu só... Tento seguir em frente. Victor me faz bem, ele me entende, temos os mesmos sonhos. Mas o Luan... Ele sempre esteve ali, de um jeito ou de outro.
Minha mãe sorriu levemente e pousou a toalha sobre o ombro.
- Marina, quando eu conheci seu pai, era um amor assim. Alguém que parecia impossível de esquecer. Mas, com o tempo, percebi que o que realmente importa é quem faz meu presente melhor, quem me faz crescer e quem está disposto a estar comigo sem hesitação.
Olhei para ela, absorvendo cada palavra.
- E você acha que o Victor é essa pessoa pra mim?
Ela não respondeu de imediato, mas colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha com carinho.
- Só você pode responder essa pergunta. Mas seja honesta consigo mesma. Se o passado ainda pesa no seu coração, talvez seja porque algo ainda não foi resolvido.
Fiquei em silêncio, sentindo meu peito apertar. Minha mãe beijou minha testa com ternura.
- Apenas siga seu coração, filha. Mas certifique-se de que está sendo justa com quem está ao seu lado.
Melanie se aproximou, interrompendo o momento.
- Ai, meu Deus, essa conversa séria de vocês duas me dá arrepios.
Revirei os olhos, jogando um pouco de água nela, e minha mãe riu.
Depois de secar as mãos e vestir meu moletom, saí para a varanda, onde Josh e Victor estavam sentados em cadeiras de madeira, bebendo cerveja e conversando em um tom descontraído. O ar frio da noite de Natal me envolveu, mas logo me acostumei.
- Opa, temos companhia. -Josh disse, levantando sua garrafa de cerveja em um brinde simbólico ao me ver.
Sorri, me aproximando e pegando uma cerveja da caixa térmica ao lado deles.
- Não queria ficar de fora da conversa.
Victor sorriu para mim, mas percebi que sua postura estava um pouco mais tensa. Quando me sentei ao lado dele, Josh me olhou com um leve sorriso no rosto, mas seu tom era sério.
- Estava aqui dando alguns conselhos para o Victor. -ele comentou, tomando um gole da cerveja.- Nada demais, só aquela conversa típica de padrasto protetor.
Revirei os olhos, rindo.
- Ah, Josh… Você sempre fazendo esse papel.
Ele ergueu as mãos em um gesto inocente.
- Ei, eu conheci sua mãe quando você tinha quatro anos e sua irmã três. Desde então, vocês duas são minhas filhas, e eu levo isso a sério.
Victor sorriu, mas pigarreou antes de falar.
- Pode ficar tranquilo, Josh. Eu gosto muito da Marina e jamais faria algo para machucá-la.
Josh analisou Victor por um instante antes de assentir lentamente.
- Espero que esteja falando sério. Porque essa menina aqui -ele apontou para mim- tem um coração gigante. Se um dia você a magoar, eu serei o primeiro a fazer você se arrepender.
- Josh! -reclamei, embora não conseguisse segurar o riso.;Victor levantou as mãos, fingindo rendição.
-;Juro que não tenho essa intenção.
Josh sorriu e bateu no ombro de Victor de leve.
- Bom, garoto. Só precisava deixar isso claro.
Bebi um gole da minha cerveja, sentindo um calor confortável no peito. Josh sempre fora um padrasto incrível, e saber que ele se preocupava comigo dessa forma só fazia meu carinho por ele crescer ainda mais.
Josh mudou o tom da conversa para algo mais leve, contando uma história engraçada sobre um paciente teimoso que se recusava a seguir as recomendações médicas. Victor riu junto com ele, relaxando aos poucos. Eu me aconcheguei melhor na cadeira, aproveitando o momento.
- Ah, Josh, você sempre tem umas histórias absurdas do hospital. -comentei, bebendo mais um gole da minha cerveja.
- Mas é claro! Trabalhar na área médica é um reality show diário. -ele brincou.- E sua mãe sempre leva tudo a sério demais, né?
Victor riu, mas engoliu em seco quando viu minha mãe surgir na varanda com um olhar desconfiado.
- Do que vocês estão falando?
- De como você é muito séria no hospital, amor. -Josh disse com um sorriso travesso.
Liana revirou os olhos, mas havia um sorriso no canto de sua boca.
- Alguém tem que ser.
- Eu discordo. -respondi.- Acho que você consegue ser divertida quando quer.
- Exato! -Josh concordou, puxando-a para sentar-se no colo dele.- Eu casei com uma mulher incrível. Só que ela gosta de bancar a durona.
Minha mãe suspirou, mas depois riu e aceitou um gole da cerveja de Josh. Victor me olhou e sorriu. Era bom estar ali, em um ambiente leve, cercada de pessoas que eu amava.
Logo Melanie pareceu e se juntou a nós, e ficamos ali por mais algum tempo, conversando sobre coisas aleatórias, lembrando histórias da infância e rindo das bobagens que Josh dizia. O frio da noite não parecia tão intenso com aquele clima aconchegante ao meu redor.
Alguns dias depois...
30 de Dezembro de 2024
Nós havíamos combinado de passar o ano novo com os pais de Victor, então voltamos pra Nova York.
Victor estava visivelmente tenso. Enquanto estávamos dentro do Uber, ele estava em silêncio, olhando na janela, observando as ruas movimentadas da cidade. Eu não precisava perguntar para saber o motivo.
Quando cui pra sua casa, no dia de ações de graça, seus pais haviam viajado, então eu ainda não os conhecia.
Conhecer os pais dele era um grande passo, e pelo que ele já havia me contado, não seria uma experiência tão agradável.
- Relaxa, vai dar tudo certo. -tentei acalmá-lo, colocando minha mão sobre a dele.
Ele suspirou.
- Eu espero. Só... se meu pai for rude com você, não leve pro lado pessoal. Ele é assim com todo mundo.
Eu assenti, tentando me preparar mentalmente.
Quando chegamos à casa de Victor, um casarão enorme e imponente no Upper East Side, meu estômago revirou. Eu desci do carro e mal tive tempo de respirar antes de sermos recebidos por uma mulher elegante, de olhos gentis e sorriso caloroso.
- Meu Deus, vocês chegaram! -ela me envolveu em um abraço apertado antes que eu pudesse reagir.- Marina, querida, que bom te conhecer! Eu sou Evelyn, mãe de Victor.
- Oi, Evelyn! -sorri, surpresa com a recepção calorosa.
- Eu disse que minha mãe era um amor. -Victor murmurou no meu ouvido, e eu ri baixinho.
Logo depois, um garotinho de cabelos escuros e olhos brilhantes veio correndo e pulou nos braços de Victor.
- Você voltou! -Kaleb exclamou, animado.
- Voltei, maninho. -Victor bagunçou o cabelo dele.- Essa é a Marina.
Kaleb me olhou com curiosidade e abriu um sorriso tímido.
- Oi!
- Oi, Kaleb! -abaixei um pouco para ficar na altura dele.- Victor fala muito de você.
- Ele fala? -Kaleb arregalou os olhos, parecendo encantado.
- Claro que fala! -brinquei.
Antes que a conversa pudesse continuar, um homem apareceu na porta da casa. Ele usava um terno impecável, mesmo dentro de casa, e tinha uma expressão séria.
- Pai. -Victor ficou tenso ao vê-lo.- Essa é a Marina.
O olhar dele percorreu meu rosto rapidamente antes de ele soltar um seco:
- Prazer.
Foi a única coisa que disse antes de se virar e entrar na casa.
Eu respirei fundo, sentindo o peso da tensão no ar. Se aquele era apenas o começo, eu já sabia que essa visita não seria fácil.
O jantar estava tenso. A comida parecia ótima, Evelyn havia preparado um banquete impressionante, mas eu mal conseguia sentir o sabor. O olhar do pai de Victor, Richard, me perfurava do outro lado da mesa, e a cada vez que eu levantava os olhos, ele ainda estava me encarando. Isso me deixava desconfortável.
Victor também não parecia à vontade, especialmente porque o pai dele aproveitava qualquer brecha na conversa para alfinetá-lo.
- Então, Victor, já desistiu dessa ideia ridícula de ser ator? -Richard perguntou, cortando um pedaço da carne no prato como se fosse a coisa mais casual do mundo. Victor respirou fundo antes de responder.
- Não, pai. Já falamos sobre isso.
- Você está jogando sua vida fora. Deveria estar estudando Direito e se preparando para assumir os negócios da família.
- Eu não quero isso. -Victor respondeu firme.- Eu amo atuar. É isso que eu quero pra minha vida.
- Atuar? -Richard riu, debochado.- Isso não é uma profissão de verdade. É coisa de gente sem perspectiva.
A tensão na mesa aumentou. Evelyn abaixou a cabeça, como se já estivesse acostumada com esse tipo de conversa. Kaleb, inocente, apenas continuava comendo. Eu troquei um olhar preocupado com Victor, e ele apenas apertou os lábios, se segurando.
Senti meu peito apertar. Eu sabia o quanto Victor amava atuar, e ver o próprio pai menosprezando seu sonho daquele jeito me deixou com raiva.
Tentei focar no meu prato, mas o incômodo dentro de mim crescia cada vez mais. E o olhar do pai dele em cima de mim só piorava tudo.
Eu precisava de um tempo.
- Onde fica o banheiro? -perguntei, tentando parecer natural.
Victor me explicou rapidamente, e eu me levantei, caminhando pelo longo corredor até encontrar a porta.
Assim que entrei no banheiro, apoiei as mãos na pia e respirei fundo. Meu coração estava acelerado. Molhei o rosto com água fria, tentando me acalmar.
"Você está aqui por Victor", pensei. "É só um jantar. Você aguenta."
Após alguns segundos, enxuguei o rosto e saí do banheiro. Foi quando esbarrei em alguém.
- Oh, desculpe, eu… -minha voz sumiu ao perceber quem era.
Richard.
Ele me olhava de cima a baixo, e um arrepio ruim percorreu minha espinha.
- Tudo bem, querida. -ele disse, com um sorriso que me fez querer vomitar.
Tentei passar por ele, mas ele bloqueou minha passagem. Meu corpo ficou tenso.
- Você é uma garota muito bonita. -ele disse, e antes que eu pudesse reagir, senti sua mão deslizar para minha bunda.
Meu coração disparou.
Na mesma hora, o empurrei com força.
- Me solta! -minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
Richard apenas sorriu de lado, como se nada tivesse acontecido.
Eu sentia meu coração martelando no peito. O nojo, o ódio e o medo se misturavam dentro de mim. Sem pensar duas vezes, saí dali rapidamente, voltando para a sala de jantar.
Victor me olhou assim que apareci, percebendo minha expressão.
- Marina? Tá tudo bem? -ele perguntou.
Evelyn também me olhava com preocupação.
Eu não conseguia ficar ali mais nenhum segundo.
- Eu preciso ir pra casa do meu pai. Agora.
Victor franziu a testa.
-:Mas… o que houve?
- Depois eu te explico. -minha voz tremeu um pouco.
Eu só precisava sair dali.