Eu deveria ter imaginado que a primeira coisa que esses caras fariam quando eu chegasse era me interrogar sobre minha vida amorosa. E, claro, eu não podia esperar que Luan ficasse quieto depois de saber do áudio da Bruna.
Sentei na cadeira, batucando os dedos na perna, enquanto os três me olhavam com expectativa.
- Certo, então deixa eu ver se entendi. -Ryan começou.- Bruna te mandou um áudio dizendo que te ama.
Assenti.
- E você respondeu chamando ela de “baby”.
- Sim.
- E agora ela tá fingindo que não existe.
- Basicamente.
- Mas você acha que ela quis dizer de verdade? Ou foi coisa de gente bêbada?
Mordi o lábio. Eu já tinha me perguntado isso um milhão de vezes.
-;Sei lá, cara. Ela tava bêbada, então pode ter sido um erro. Mas ao mesmo tempo… ninguém diz “eu te amo” assim, do nada, sem ter um mínimo de sentimento envolvido.
Ryan e Anthony trocaram olhares.
- Mas ela namora. -Luan falou, se jogando na cama.- Como você acha que isso vai terminar?
Eu soltei uma risada baixa.
- Provavelmente em desastre.
Eles riram, mas sabiam que eu não tava brincando.
Anthony cruzou os braços e me encarou.
- E você? Tá apaixonado por ela?
Minha boca se abriu pra responder, mas eu fechei de novo. Que pergunta, hein?
Luan riu.
- Olha a cara dele!
- Vocês são ridículos. -resmunguei, jogando um travesseiro nele.
Mas, no fundo, essa pergunta não saía da minha cabeça.
O nome dela ficava repetindo na minha mente desde aquele áudio. O jeito que a voz dela soava…
E o pior? Eu tava feliz com a mensagem.
Só que tinha um problema.
- Cara, você tá muito quieto. -Ryan falou.- O que mais aconteceu nessas férias?
Minha respiração prendeu por um segundo.
Droga.
Olhei pro lado e tentei pensar numa desculpa, mas eu não era bom em esconder as coisas.
Anthony percebeu na hora.
- Não brinca… -ele arregalou os olhos.- Você ficou com alguém!
Luan se levantou rápido, curioso.
- QUEM?!
Ryan apontou pra mim, chocado.
- Cacete, você pegou a Caitlin, não pegou?
Soltei um longo suspiro e passei a mão no rosto.
- Foi só um remember, tá legal?
- Ahhhh, eu sabia! -Ryan deu um tapa no meu braço.- Como foi?
- Foi… -hesitei, escolhendo as palavras.- Foi bom. Mas a gente não tá namorando nem nada, foi só… sei lá. A gente tava em Toronto, relembrando os velhos tempos.
- Relembrando bem, pelo visto. -Luan riu.
Rolei os olhos.
- Isso não significa nada.
Ryan cruzou os braços.
- Ah, não? Então por que você não contou antes?
- Porque… -hesitei. Eu sabia exatamente por quê.- Porque tem a Bruna.
Eles ficaram em silêncio por um segundo.
- Caralho. -Anthony riu.- Você tá ferrado.
- Eu sei.
Ryan balançou a cabeça, ainda rindo.
- Então vamos recapitular: você teve um remember com sua ex namorada, sua ex ficante mandou um "eu te amo" bêbada, e agora você vai ter que lidar com tudo isso na segunda-feira.
- Isso mesmo.
- Boa sorte, mano. -Luan riu.- Tu vai precisar.
Suspirei e encostei a cabeça na cadeira.
Isso ia ser um caos.
Eu não ia ficar esperando até segunda-feira pra resolver essa merda.
Me levantei da cadeira, decidido, pegando meu celular e a chave do dormitório.
- Onde você vai? -Anthony perguntou, já rindo.
- Resolver isso agora.
Luan arregalou os olhos.
- Agora?!
- Agora.
- Justin, tu acabou de chegar de viagem, pelo amor de Deus. -Ryan resmungou.- Pega leve.
- Eu vou lá falar com ela.
- Isso parece uma péssima ideia. -Luan cruzou os braços.- Mas eu quero muito ver no que vai dar.
Rolei os olhos e saí do quarto sem esperar mais comentários. Eu tinha que falar com a Bruna antes que essa confusão ficasse pior.
Atravessei o campus, respirando fundo. Eu tava cansado da viagem, meio nervoso e ainda tentando entender o que eu queria com essa história. Mas eu sabia de uma coisa: eu precisava olhar nos olhos dela e entender o que tava acontecendo.
Cheguei na porta do dormitório feminino e toquei a campainha.
Nada.
Toquei de novo.
Dessa vez, ouvi passos do outro lado.
A porta se abriu lentamente, e Bruna apareceu na minha frente, com uma expressão de puro pânico.
- Justin?!
- Oi, Bruna. -dei um meio sorriso.- Podemos conversar?
Ela piscou algumas vezes, como se estivesse tentando entender se aquilo era real.
- Agora?
- Agora.
Ela engoliu seco e olhou pra trás, provavelmente checando se as colegas de quarto estavam por perto.
- Eu… -ela hesitou, cruzando os braços.- Tá bom.
Ela deu espaço para que eu entrasse e fechou a porta atrás de si, respirando fundo.
- Olha, eu sei que você quer falar sobre aquilo…
- É claro que eu quero. -a interrompi.- Você mandou um áudio dizendo que me ama, Bruna. Isso não é pouca coisa.
Ela fechou os olhos por um segundo, parecendo implorar pro chão engolir ela.
- Eu tava bêbada, Justin. Foi um erro.
- Foi um erro mesmo?
Ela abriu os olhos e me encarou.
- O que você quer dizer com isso?
- Quero dizer que… -passei a mão pelo cabelo, tentando organizar meus pensamentos.- Mesmo bêbada, você escolheu mandar isso pra mim, e não pro seu namorado.
O rosto dela ficou vermelho na hora.
- Justin…
- Eu não tô dizendo que você mentiu ou que fez isso de propósito. Mas tem algo aqui. Eu senti isso na sua voz.
Ela desviou o olhar.
- Eu não sei o que você quer que eu diga.
- Quero que seja sincera comigo.
Bruna mordeu o lábio e ficou em silêncio por alguns segundos.
- Eu não posso.
- Por que não?
- Porque eu tenho namorado.
A resposta dela saiu rápida, como um reflexo, e por algum motivo isso me incomodou.
- E você tá feliz com ele? -perguntei direto.
Ela piscou, surpresa com a pergunta.
- De novo essa pergunta?
- Você tá feliz com o Harry, Bruna? De verdade?
- Claro que eu tô!
Mas a maneira como ela falou… Não foi tão convincente assim.
Cruzei os braços e dei um passo pra trás, analisando ela.
- Então me diz isso olhando nos meus olhos.
Bruna respirou fundo e levantou o olhar pra mim.
Por alguns segundos, nós ficamos ali, apenas nos encarando.
O silêncio entre nós ficou pesado. Eu sabia que tinha alguma coisa ali, e ela sabia também.
Foi por isso que, sem pensar muito, eu fiz o que queria fazer desde que ouvi aquele maldito áudio.
Puxei Bruna pela cintura e colei minha boca na dela.
Ela soltou um som surpreso e tentou se afastar, colocando as mãos no meu peito.
- Justin! -ela murmurou contra os meus lábios, se debatendo um pouco.
Mas eu não soltei.
Segurei firme, mantendo nossos corpos colados. O coração dela batia acelerado contra o meu, e a respiração estava irregular.
E então, ela cedeu.
As mãos que antes tentavam me afastar deslizaram para os meus ombros, os dedos se apertando no meu moletom. Ela suspirou contra minha boca antes de finalmente me beijar de volta.
Foi devagar no começo, hesitante. Mas, quando ela se entregou de vez, o beijo pegou fogo.
Minha mão subiu pelas costas dela, apertando sua cintura, e ela se encostou mais em mim, como se quisesse esquecer de tudo que estava ao nosso redor.
Até que ouvimos um som alto.
- UOU!
Nos separamos no mesmo instante, ofegantes.
Viramos a cabeça e, no começo da escada, estavam Olívia, Virgínia e Marina, paradas, olhando pra gente com expressões completamente chocadas.
Bruna arregalou os olhos, a boca entreaberta em puro horror.
Eu passei a língua pelos lábios, recuperando o fôlego, e sorri de canto.
- Bom… -Olívia quebrou o silêncio.- Isso foi inesperado.
Virgínia cruzou os braços, olhando de Bruna para mim.
- Quer dizer que as férias foram bem movimentadas, hein?
Marina não disse nada, apenas levantou uma sobrancelha, como se estivesse calculando o que tudo aquilo significava.
Bruna ainda estava congelada no lugar, os lábios vermelhos do beijo e o olhar perdido.
E eu só conseguia pensar que aquilo tinha sido muito melhor do que eu esperava.
Bruna deu um passo para trás, como se tivesse sido pega cometendo um crime. O rosto dela estava vermelho, e ela abriu a boca algumas vezes, tentando encontrar palavras.
- Eu… eu… -ela balbuciou, olhando para as amigas.
Marina cruzou os braços e inclinou a cabeça.
- Você…?
Bruna fechou os olhos com força e soltou um suspiro longo.
- Eu posso explicar.
Virgínia ergueu as mãos, enquanto as três terminavam de descer as escadas.
- Ah, por favor, explica mesmo! Porque, até onde a gente sabia, você ainda tava namorando o Harry!
Bruna abriu a boca de novo, mas fechou em seguida, sem saber o que dizer.
Eu aproveitei o momento para me aproximar e colocar a mão na cintura dela de novo, puxando-a levemente para mim.
- Relaxa, Bruna, não precisa surtar.
Ela virou o rosto para mim, os olhos arregalados.
- Não precisa surtar?! Você tem noção do que acabou de acontecer?!
Eu dei um sorriso de canto e dei de ombros.
- A gente se beijou. E foi um beijo muito bom, aliás.
As três meninas soltaram um sonoro "oooohhh", e Bruna escondeu o rosto nas mãos.
- Meu Deus, eu vou morrer.
Olívia segurou uma risada.
- É isso que você quer, amiga? Um romance proibido de novela?
- Não tem romance nenhum! -Bruna rebateu rapidamente, afastando minha mão de sua cintura.
Eu revirei os olhos, me divertindo com o pânico dela.
- Relaxa, Bruna, não precisa agir como se tivesse cometido um crime.
Ela me lançou um olhar mortal.
- Eu tenho namorado, Justin! Você sabia disso e mesmo assim me beijou!
Dei um passo para trás, erguendo as mãos.
- Ok, ok, verdade. Mas, se não queria, por que retribuiu?
As meninas fizeram um som de surpresa, tipo aqueles "uuhhh" de quando alguém fala alguma verdade inconveniente.
Bruna me fuzilou com o olhar, claramente sem resposta.
- Eu… eu… foi um reflexo!
- Um reflexo de querer me beijar?
Ela bufou e me empurrou pelo ombro.
- Cala a boca, Justin!
As meninas começaram a rir, e Marina balançou a cabeça.
- Eu não acredito que perdi o começo da cena.
Virgínia riu.
- Eu acho que a gente já viu o suficiente.
Olívia estreitou os olhos para Bruna.
- Mas agora queremos respostas!
Bruna gemeu e passou as mãos pelo cabelo, claramente querendo desaparecer.
Eu apenas cruzei os braços e sorri, esperando para ver como ela ia sair dessa.
O ambiente ainda estava carregado com a tensão do beijo e das provocações, e Bruna continuava parada no mesmo lugar, visivelmente nervosa, tentando encontrar uma explicação para tudo. Marina, Virgínia e Olívia a observavam com expectativa, e eu, bem... eu só estava me divertindo com a reação dela.
Mas então, um som interrompeu tudo.
TOC, TOC, TOC.
Batidas na porta.
Marina virou o rosto para a entrada e franziu o cenho.
- Quem é? -ela perguntou, alto o suficiente para que a pessoa do outro lado escutasse.
O silêncio durou apenas um segundo antes de uma voz familiar responder:
- Sou eu, Harry.
O efeito do nome foi instantâneo.
Bruna congelou. Seu corpo inteiro enrijeceu, e o rosto dela ficou pálido em questão de segundos. Seus olhos se arregalaram, e ela prendeu a respiração como se tivesse sido pega em flagrante.
Olhei para ela e precisei morder o lábio para não rir.
- Você tá muito ferrada. -sussurrei, baixo o suficiente para só ela escutar.
Ela me lançou um olhar mortal antes de virar para as meninas.
- O que eu faço?! -murmurou desesperada, gesticulando com as mãos.
Virgínia arregalou os olhos.
- Abre a porta, ué!
- Não! Eu preciso… preciso pensar!
- Pensar no quê, Bruna?! Ele tá literalmente do outro lado da porta! -Marina sussurrou, gesticulando freneticamente.
Bruna levou as mãos à cabeça, andando em círculos.
- Eu tô ferrada. Eu tô muito ferrada!
Olívia cruzou os braços e olhou para ela com expectativa.
- Não era você que tava jurando que não tinha nada com o Justin?
- Não tem! -Bruna rebateu na mesma hora.
Olhei para ela, arqueando a sobrancelha.
- Jura?
Ela me fuzilou com o olhar.
TOC, TOC, TOC.
As batidas na porta se repetiram, agora um pouco mais impacientes.
- Bruna? Você ta aí?
Bruna soltou um gemido de desespero, como se sua alma estivesse saindo do corpo.
- Tô, tô, pera aí! -ela gritou, tentando soar casual, mas sua voz saiu trêmula.
Eu cruzei os braços e sorri.
- Bom, essa eu quero ver.
Bruna virou o rosto para mim e apontou o dedo.
- Cala. A. Boca.
Marina segurou uma risada e olhou para as meninas.
- Isso vai ser bom.
Olívia e Virgínia apenas assentiram, esperando para ver o que ia acontecer.
Bruna respirou fundo, ajeitou os cabelos rapidamente e fechou os olhos por um segundo antes de finalmente ir até a porta.
Assim que a maçaneta girou e a porta começou a se abrir, eu vi seus ombros ficarem tensos.
Eu me encostei na parede, pronto para assistir o caos que estava prestes a se desenrolar.
Harry sorriu, os olhos brilhando ao vê-la, e inclinou levemente a cabeça, estudando seu rosto.
- Oi, amor.
O silêncio dela foi quase doloroso de assistir.
- O que você tá fazendo aqui? -Bruna perguntou, cruzando os braços, visivelmente nervosa.
Harry riu baixinho, como se achasse fofa a reação dela.
- Como assim o que eu tô fazendo aqui? Passamos semanas sem nos ver. Eu tava com saudades.
Ele deu um passo à frente e segurou delicadamente o rosto dela com as duas mãos. Eu vi o corpo de Bruna enrijecer completamente.
Ela parecia um bloco de gelo.
Harry se inclinou, claramente querendo beijá-la, mas Bruna continuava dura, como se tivesse esquecido como se movia. Quando seus lábios estavam prestes a se tocar, ela desviou minimamente o rosto, e o beijo dele acabou pegando só um pedaço da bochecha dela.
A cena foi desconfortável. Muito desconfortável.
O sorriso de Harry vacilou por um segundo, e ele franziu levemente o cenho antes de desviar o olhar para dentro do quarto. Seu olhar encontrou primeiro Marina, depois Virgínia, depois Olívia… e então parou em mim.
Ele estreitou os olhos, claramente confuso.
-;O que o Justin tá fazendo aqui?
O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor.
Meus olhos foram para Bruna, mas ela parecia uma estátua, sem reação. Marina, Olívia e Virgínia se entreolharam rapidamente, como se tentassem pensar em algo para dizer.
Foi Marina quem reagiu primeiro.
Antes que alguém pudesse responder, ela se aproximou e, para minha surpresa, me abraçou de lado, puxando meu braço com naturalidade.
- Ele veio me ver, né? -disse ela, sorrindo levemente.- Passamos as férias longe, e o Justin tava com saudades de sua irmãzinha favorita.
Senti meu coração pular uma batida.
Mas logo recuperei a compostura e sorri falsamente, passando um braço ao redor dela e apertando seu ombro em um gesto afetuoso.
- Pois é. -concordei, encenando perfeitamente.- Não podia voltar sem ver minha irmã primeiro.
Para deixar a atuação ainda mais convincente, virei o rosto e deixei um beijo na bochecha dela.
Olívia arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.
- Não são os irmãos mais fofos do mundo? -disse ela, ironicamente.
Por dentro, eu queria rir.
Por fora, mantive minha expressão mais natural possível.
Harry pareceu aceitar a explicação, mesmo que ainda estivesse um pouco desconfiado.
Mas Bruna…
Bruna não disse nada.
E eu sabia que, no fundo, aquilo tudo estava pesando na cabeça dela.